quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Frase do dia

"Viver é como andar de bicicleta, é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio."

Albert Einstein

Silêncio: não há fé sem dúvida

                             Pe. MIGUEL ALMEIDA, sj    OBSERVADOR    19.01.17
A vida é complexa. Recusando uma visão exclusivamente triunfalista do martírio ou miserabilista da fé, Silêncio convida-nos a acolher a vida na sua complexidade, sem juízos superficiais ou simplistas.

No tão badalado Silêncio de Martin Scorsese, adaptação do livro de Shusako Endo com o mesmo título, há um percurso que, rapidamente se percebe muito mais longo, profundo e denso do que a distância que separa geograficamente Portugal do Japão. Mal podiam saber os padres Rodrigues e Garupe que, depois da longa travessia que os conduziu ao País do Sol Nascente, a grande distância ainda estivesse por percorrer. A viagem ainda estava no início. De facto, há um itinerário que é o mais difícil de percorrer: o itinerário interior de cada um.
Os dois jesuítas rumam ao Japão em busca do seu mestre, P. Ferreira que, dizia-se em Portugal, teria cometido o maior dos pecados: a apostasia. Não era possível. O padre Ferreira jamais poderia ter renegado a sua fé em público. A densidade do filme vai confirmá-los nessa triste notícia. Mas não sem batalhas interiores.
A apostasia é má. Por todos os motivos e mais algum. Antes de mais, é uma falta a um compromisso. Humanamente falando, é sempre reprovável que não honremos os nossos compromissos. É uma infidelidade. Depois, é uma cobardia. Diante do medo do sofrimento, renegamos aquilo em que acreditamos. E se “aquilo” em que acreditamos é um “Aquele” em quem cremos, então essa negação ganha os contornos da traição de Judas. O apóstata é um traidor. Mesmo um bom cristão pode, e deve, perdoar o pecado da apostasia. Mas nunca afirmar que a apostasia é um mal menor. Não por acaso, nos primeiros séculos da Igreja, este era um pecado considerado pelo menos ao nível do homicídio. Quando, ainda por cima, a apostasia é cometida por um padre com a missão de evangelizar, esse pecado é grave como poucos, devido ao efeito que produz na comunidade cristã a quem foi enviado. Descredibiliza não só o próprio, mas a mensagem mesma do Evangelho fica afinal reduzida a pó.
No extremo oposto está o mártir. O mártir é aquele que, diante de qualquer ameaça, dor, sofrimento, tortura ou morte, jamais renega a sua fé. O cristianismo tem uma história rica de martírios. Tertuliano (séc. II) afirma mesmo que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos. Chegar a ser mártir cristão é testemunhar a fé em Jesus Cristo numa fidelidade inabalável que nem a morte desvanece. Muitas são as histórias, mesmo aquelas às quais a tradição e a imaginação humana foram acrescentando feitos maravilhosos e atos heroicos de uma coragem hercúlea, de mártires que enfrentavam os seus algozes diante das atrocidades mais horrorosas.
Silêncio de Scorsese, tem o mérito de nos transportar por dentro ao lugar onde o martírio e a apostasia se cruzam e se abraçam. E desmonta a nossa imagem bonita do mártir e horrenda do apóstata, revelando como tal perspectiva é demasiado simplista.
Pedro, o chefe dos apóstolos e primeiro Papa da Igreja, deu a vida por Cristo. Mas também o negou. Os apóstolos, todos eles abandonaram o Mestre no momento crucial. É essencial que os evangelhos não tenham tentado esconder este aspeto. A Igreja é uma igreja de mártires e de pecadores. Scorsese desnuda esta tensão, desmontando uma visão triunfalista do cristianismo e fazendo-nos mergulhar na realidade dura e crua. O P. Rodrigues, personagem principal, sente-se perdido diante do silêncio de Deus.
Quem já fez os Exercícios Espirituais de Sto. Inácio de Loyola, sabe que o filme capta muito bem o modo de rezar e de se relacionar com Jesus Cristo que os Exercícios propõem. O diálogo interior, o uso da imaginação para contemplar e entrar nas cenas evangélicas, o refletir e questionar do texto, a luta espiritual, a busca da vontade de Deus, tudo é acenado neste filme.
Mas não se pense que a grande questão é simplesmente a de afirmar ou renegar a fé. Rodrigues, apesar do pavor de sofrer como todos nós, não questiona apostatar para se salvar. O panorama adensa-se com uma afirmação bem posta na boca do governador-inquisidor Inoue: “a tua glória é o sofrimento deles”. Este é o ponto crucial. A complexidade da vida, da fé, da honestidade e da integridade de um jesuíta que quer, acima de tudo, seguir Jesus Cristo vê-se armadilhada. Tenho o direito de recusar pisar o fumie com a imagem de Jesus, sabendo que a vida dos meus irmãos, que sofrem os tormentos da tortura, depende deste gesto? Mais, o que realmente me move? Não terá o inquisidor razão quando me acusa de, no fundo, eu não querer abdicar de uma glória própria? Não seria tentação maior a da presunção de me comparar com próprio Jesus?
Lutando com o silêncio de Deus diante deste dilema que o dilacera, parece finalmente sentir, em batalha de oração interior, que Jesus lhe diz: “pisa-me!”. Pisa-me nesta placa para não me pisares nos teus irmãos. É toda uma perspectiva de vida e de fé que acaba de ruir. Afinal quem és Tu, Senhor? Aquele que diz que “quem perseverar até ao fim será salvo” (Mt 14,23) ou O que diz: “o que fizeste a um dos meus irmãos a mim o fizeste” (Mt 25, 40)? Ao pisar o fumie, Rodrigues torna-se apóstata. Ao apostatar, renuncia também a ser mártir, reconhecido aquém e além mar como o herói que resistiu até ao último suplício. Mas nesse gesto, tão simples como dar um passo, e tão decisivo como a vida e a morte, salva os seus irmãos de serem cruelmente torturados até à morte.
E no entanto, quando o P. Sebastião Rodrigues pisa o fumie, o galo canta. Mas nunca saberemos se o galo ficaria calado se o jesuíta optasse por não mover o pé, provocando assim a tortura e a morte dos seus irmãos.
É verdade que espreita aqui subtilmente uma vitória da elite cultural do Japão de então, como das elites intelectuais pseudoneutras de hoje. Ao sublinhar a complexidade da situação e ao mostrar como, no funeral, feito com todas as honras budistas, Sebastião Rodrigues morre com um pequeno crucifixo escondido na mão (cena ausente no livro de Shusako Endo), o filme empurra a fé para o foro privado da vida. Afinal, aquele que apostatara, mantivera-se privada e interiormente cristão até ao fim.
De facto, para um certo mundo laico e laicizante, o lugar da fé é no íntimo de cada um. E não deve haver qualquer expressão visível de símbolos religiosos na sociedade em que vivemos. Ao longo do filme, muitas vezes se ouve das autoridades japonesas que pisar o fumie é apenas uma simples formalidade e que, ao fazê-lo, os cristãos salvarão as suas vidas. Mas, tanto os que eram forçados como os que forçavam a pisá-lo bem sabiam que não se tratava de uma mera formalidade. Ninguém mata ou dá a vida por uma formalidade.
Tudo seria mais fácil se fosse mais simples. Mas não é. A vida é complexa. Recusando uma visão exclusivamente triunfalista do martírio ou miserabilista da fé, o Silêncio convida-nos a acolher a vida na sua complexidade, sem juízos superficiais ou simplistas. Sabemos que “agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor; mas a maior de todas é o amor” (1Cor 13, 12-13).

Um órgão para a Igreja de S. Isidoro, Mafra

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Zineb, dois anos depois do Charlie Hebdo

CÉSAR AVÔ           OBSERVADOR        16.01.17
Escapou ao atentado contra o Charlie Hebdo e é das mulheres mais protegidas de França. Zineb El Rhazoui falou ao Observador da sua luta contra o que chama de "fascismo islâmico".
Para os crentes, foi graças a Deus que a jornalista franco-marroquina Zineb El Rhazoui se salvou da matança de uma dúzia de companheiros e polícias no dia 7 de Janeiro de 2015 nas instalações do semanário satírico Charlie Hebdo. Para Zineb, uma ateia, foi simplesmente pelo facto de estar em Marrocos, de férias. Militante dos direitos humanos, dos direitos da mulher e defensora da laicidade, esta jornalista de 35 anos saiu entretanto do semanário, e, com uma renovada força, escreveu o livro Détruire le Fascisme Islamique (Destruir o Fascismo Islâmico). Um texto tão curto (70 páginas de uma edição de bolso) quanto frontal, no qual desmonta os argumentos de quem, perante a mínima crítica em relação ao islão, grita ‘islamofobia’ ou ‘racismo’.
Zineb não consegue ser discreta. Desde jovem que corre riscos, seja a fazer oposição ao regime marroquino, seja na forma como se veste (renegando o véu, por exemplo). Até a comer uma sanduíche se revela de enorme coragem. No verão de 2009, o grupo Mouvement Alternatif pour les Libertés Individuelles, fundado por Zineb El Rhazoui e por uma amiga, agitou Marrocos. Marcaram um piquenique em pleno dia durante o Ramadão. O objetivo era protestar contra um artigo do código civil que proibia os marroquinos de quebrarem o jejum em público. O atrevimento não chegou ao fim, porque a polícia interveio, mas Zineb não se livrou de problemas com a justiça nem com os fundamentalistas: recebeu a primeira condenação, de muitas, sob a forma de uma fatwa.
Hoje, a viver em França, continua com a cabeça a prémio.
Foi ameaçada de morte. Continua a ser protegida pela polícia?Sim, dizem que sou a mulher com mais proteção em França. Tenho várias fatwas a condenarem-me à morte, é uma espécie de palavra-passe que permanece com a pessoa. E é a prova que estamos face ao fascismo, face a um totalitarismo. E nunca aceitarei ceder para respeitar qualquer coisa sagrada que é defendida por kalashnikovs. Diria que o nosso dever enquanto espíritos livres é bater-nos contra os ditadores.
“(Os islamistas) gritam em coro ‘isto não é o Islão’ de cada vez que há um atentado terrorista islâmico, mas ao mesmo tempo tentam impedir a sociedade de combater as manifestações da mesma ideologia criminosa que eles repudiaram hipocritamente (…) os terroristas não representam o Islão mas quem denuncia a sua ideologia é acusado de atingir a totalidade dos muçulmanos.”
pág. 15
Não deve ser fácil viver assim.Não é nada fácil. Quer dizer que vivo sempre a minha vida, pública ou privada, com outras pessoas, com agentes que me acompanham. Não me vou queixar da proteção que recebo. Considero que pertenço a um país que protege os seus cidadãos. Tenho o dever de continuar a falar porque penso em todos os jornalistas, escritores, intelectuais e cartoonistas que têm a mesma mensagem que eu, mas que vivem em países nos quais os Estados podem ser um pesadelo para eles. Ou penso em jornalistas que trabalham em ambientes muito complicados, como por exemplo no México, onde há uma elevada taxa de assassínios. Ninguém os protege, mas continuam a arriscar a vida enquanto cumprem o seu dever enquanto jornalistas. Por isso, tendo eu esta proteção do Estado, não tenho o direito de calar a minha boca. Tenho de continuar a falar e compreender que esta proteção não é para mim, mas para a minha liberdade de expressão e para as ideias pelas quais luto.
“Numa insuportável complacência, os media ocidentais defenderam o burkini como uma ‘liberdade’ e uma expressão cultural legítima de uma parte da humanidade. Saberão ao menos que nas praias dos países muçulmanos nunca houve burkini? (…) Quem fala do pesadelo que vive uma temerária que decida deambular nas ruas de Argel, Casablanca ou Cairo de saia?”
págs. 65-66
Há dois anos deu-se o massacre no Charlie Hebdo. Crê que os franceses, bem como os europeus, estão mais conscientes do perigo a que chama fascismo islâmico?Tenho a certeza de que o povo está mais consciente. As pessoas nas ruas, as pessoas com quem eu falo, sim, mas os políticos nem tanto. Parecem estar conscientes, ao repetirem que ‘agora estamos numa guerra contra o terrorismo’, etc. Mas não estão a tomar as medidas corretas. Certo, estamos numa situação em que é muito importante tomar medidas de segurança e de recolha de informações. Mas não chega. Não se luta contra o fascismo se não o encararmos como tal. Não se consegue eliminar o terrorismo com o código penal comum. No fim da Segunda Guerra, quando se quis erradicar o nazismo, não se quis apenas condenar os nazis que sujaram as mãos. O nazismo não foi tratado como um crime ordinário, mas como uma ideologia, e a Europa proibiu os nazis de darem preleções e também as manifestações pacíficas pela ideologia nazi. Para nos desembaraçarmos do fascismo temos de nomeá-lo e temos de combatê-lo ao nível ideológico e não tanto ao nível militar.
“Os crimes mais abjetos do Estado Islâmico não são mais do que um remake no século XXI do que fizeram os muçulmanos dos primeiros tempos, sob a direção do profeta.” 
pág. 24
Como é que se pode destruir o que apelida de fascismo islâmico?A primeira coisa, logo à partida, é chamar o fascismo pelo seu nome: defini-lo como um fascismo ideológico e não enquanto cultura, ou raça ou identidade étnica. É importante qualificar o fascismo islâmico como todos os outros fascismos que a Europa conheceu e de dizer que possui exatamente as mesmas características dos outros fascismos. Trata-se de um totalitarismo e, como tal, temos de nos libertar dele. Na Europa, há quem esconda os verdadeiros problemas. Começam a dizer, por exemplo, que o terrorismo é um problema social, causado pela pobreza, pelo colonialismo, por problemas psiquiátricos. Tudo isso é falso. A única maneira de fazer a desradicalização é libertar a crítica sobre o Islão. É dizer que não há motivo algum para excluir o Islão do universalismo republicano, do universalismo do pensamento. Voltaire, as Luzes, o cartesianismo, a lógica, a razão, não são exclusivos do Ocidente, são do planeta inteiro, são valores universais. Há que obrigar o Islão a respeitar as leis e os valores da razão, que são os valores da democracia ocidental.
“Negação do pluralismo social, sexismo repressivo contra as mulheres e os homossexuais, manutenção de milícias armadas, adoção de uma bandeira e de uma terminologia… o fascismo islâmico assemelha-se em tudo aos fascismos de extrema-direita tradicionais, mas vingou onde todos os outros falharam: alcançou uma respeitabilidade aos olhos dos inimigos, entre os quais a extrema-esquerda, os intelectuais, os anti-racistas, os políticos e até as feministas.”
pág. 46
Como é que as propostas do seu livro estão a ser recebidas em França?Tenho recebido enorme apoio da parte de leitores e de cidadãos que estão de acordo comigo. Evidentemente que há pessoas que não estão contentes sobre o que digo sobre o Islão. São os islamistas e as suas associações, bem como os pseudo-intelectuais, que são na realidade os pregadores do Islão, bem como os idiotas úteis da política, que preferem a demagogia e a hipocrisia intelectual para lisonjearem os islamistas e para poderem manter esta visão de uma sociedade comunitária para poderem ser eleitos pelos votantes islamistas.
“Uma parte da classe política, direita e esquerda por igual, prefere ver a sociedade em parcelas de mercado comunitárias, junto das quais será mais fácil concluir compromissos democráticos para depois comprar votos em segmentos inteiros. Quem melhor que o imã de uma mesquita para dar instruções de voto?”
pág. 47
Quando é que tomou consciência dos temas sobre os quais milita?Sou uma mulher marroquina, nasci e vivi num país que não respeita os direitos humanos nem os direitos da mulher, que está muito, muito longe de ser uma democracia, é uma ditadura. Há medo do ditador, há um medo religioso. Muito rapidamente compreendi a importância de me interessar por essas questões, que são sobre a nossa dignidade.
“O culto exacerbado da personalidade do profeta vai até à interdição de representá-lo, sob pena de morte. Aqueles que pensam que só um punhado de loucos é capaz de matar por um desenho de Maomé ignoram que, onde quer que o Islão reine como religião de Estado, a caricatura e o cartoon são reprimidos. O rei Hassan II (de Marrocos) (…) rapidamente interditou a caricatura (…) Justificou a decisão pelos mesmos argumentos de exegese que os assassinos de Charlie Hebdo: quem desenha desafia o poder criador de Alá. Hassan II morreu, mas continua a ser proibido fazer caricaturas de Mohamed VI, porque este será um descendente longínquo do profeta.”
págs. 43-44
Mas tinha que idade?Era adolescente. Mesmo antes, quando era criança, comecei a ter dúvidas sobre a existência de Deus. É uma caminhada que começa muito cedo e que é marcada por duvidar dos valores que nos transmitem. Porque é que as leis de Deus não são justas, porque é que as mulheres estão escondidas debaixo de um manto, prostradas, sem direitos, domésticas? Comecei a fazer as minhas leituras, as minhas pesquisas. E, como não posso livrar-me da ditadura de Deus, tentei livrar-me da ditadura dos ditadores, daquele que executa a ditadura de Deus na Terra. Ao mesmo tempo, não é possível desejar uma democracia e uma sociedade democrática sem nos libertarmos da ditadura religiosa. O totalitarismo político e o totalitarismo religioso estão a par, não nos podemos libertar de um sem nos libertarmos do outro.
“Basta olharmos para os países em que o Islão é aplicado, parcial ou totalmente, para nos darmos conta do pouco caso que os islamistas fazem dos princípios universais de que os próprios se aproveitam em democracia. Em nenhuma teocracia islâmica é concedida a liberdade de consciência e de culto aos seus cidadãos.” 
pág. 19
Tornou-se numa muçulmana ateia, o que não é muito comum.Na verdade, quem nasce em Marrocos é obrigatoriamente rotulado de muçulmano. Não existe escolha, não há leis seculares. As leis que regulam o casamento, o divórcio ou a herança são inspiradas no Islão. A educação religiosa é obrigatória na escola, desde o jardim infantil até ao fim da escola secundária. É uma lavagem ao cérebro. Mais tarde, quando evoluí para o livre arbítrio, passei a ser uma muçulmana ateia, uma ateia de cultura muçulmana. Também há em Marrocos quem seja ateu de cultura católica. Para mim é importante referir que a civilização islâmica também produz pessoas que são livres. O discurso que se ouve hoje na Europa é que não se pode criticar o Islão, porque é racismo. Para mim, a religião e a raça são coisas diferentes. No caso do Islão, a ideologia religiosa não se deve confundir com a identidade étnica ou racial dos povos. É completamente absurdo.
“O islamista trabalha para isolar a sua comunidade, para erguer um muro de vestuário, um muro cultural, linguístico, geográfico e jurídico entre os muçulmanos e os outros, mas é ele quem acusa o mundo inteiro de o odiar.” 
pág. 19

Transladação dos restos mortais do Apóstolo de Fátima

Padre Manuel Nunes Formigão
Co-Fundador da Associação dos Servitas de Fátima
com o Bispo D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria

O padre Manuel Nunes Formigão nasceu em Tomar, a 1 de janeiro de 1883 e aos 12 anos entrou no Seminário Patriarcal em Santarém, onde realizou os estudos eclesiásticos, findos os quais, “tendo em conta a sua sagacidade intelectual e grande vida de piedade, foi enviado para Roma, onde obteve o grau académico de Doutor em Teologia e Direito Canónico pela Pontifícia Universidade Gregoriana”, refere uma nota biográfica enviada à Agência ECCLESIA.

A 13 setembro de 1917 foi pela primeira vez à Cova da Iria, como simples curioso e “profundamente cético relativamente aos factos que se diziam ali estarem a acontecer”. Não se aproximou do local das aparições e saiu de Fátima ainda “mais cético, pois não presenciou nada de invulgar, apenas notando a diminuição da luz solar por altura das supostas aparições, mas facto que não deu qualquer importância”.
No entanto voltou a Fátima, em concreto a Aljustrel, no dia 27 desse mesmo mês a fim de interrogar, em separado, os três videntes.

A este interrogatório sucederam-se outros nas semanas seguintes, nomeadamente o efetuado no dia 13 de outubro, horas depois da última aparição e depois de ter sido testemunha, juntamente com mais de 60.000 pessoas ao assombroso fenómeno solar, que o povo apelidou como “Milagre do Sol”.

O servo de Deus faleceu em Fátima, a 30 de Janeiro de 1958 e no ano 2000 a Conferência Episcopal Portuguesa concedeu a anuência para a introdução da causa de Beatificação e Canonização do Apóstolo de Fátima.


Fundação da Associação dos Servitas de Fátima

Carta de D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria para o Dr. Manuel Nunes Formigão:


 Leiria 2 de junho de 1924

Exmo. e Revmo. Senhor Padre Formigão

No próximo dia 12 irei, se Deus quizer, à Cova da Iria tratar das obras e ainda desejava reunir um grupo de pessoas dedicadas para a creação d`uma Associação similhante à dos Brancardieres ou Hospitaleiros de Lourdes.
Escolhi esse dia por me parecer ser mais conveniente a V.Exª., pois muito desejava vê-lo lá acompanhado das pessoas que entender bem.
Com toda a consideração me subscrevo.
De V.Excia.
Servo em JC
+ José, Bispo de Leiria


E assim, em 14 de Junho de 1924, depois da Missa celebrada na Capelinha pelo Padre Formigão, o Senhor Bispo D. José Alves Correia da Silva fundou a “Associação do Servos de Nossa Senhora do Rosário da Fátima.



28 DE JANEIRO
Transladação dos restos mortais do Padre Manuel Nunes Formigão

A cerimónia de trasladação dos restos mortais do Padre Manuel Nunes Formigão, do cemitério de Fátima para um mausoléu construído na Casa de Nossa Senhora das Dores, vai realizar-se a 28 de Janeiro.

A celebração de trasladação do «Apóstolo de Fátima», como é conhecido o servo de Deus, padre Manuel Nunes Formigão, começa às 10:00 com a concentração na Rua Francisco Marto, 203 e saída para o cemitério da Freguesia de Fátima.
Pelas 11:00 celebra-se a eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade - Santuário de Fátima, seguindo-se cortejo para o Mausoléu - Casa Senhora das Dores.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Uma decisão acertada

LUÍS MENEZES LEITÃO    JORNAL I   18.01.17
Se houve decisão acertada tomada por Passos Coelho nos últimos tempos, essa é precisamente a de votar contra a redução da TSU
Surgiu nos últimos tempos um coro afinado de pessoas da área do PSD a protestar contra a decisão de Passos Coelho de não dar apoio ao governo na redução da TSU. Foi esta a posição, sucessivamente, de Silva Peneda, Manuela Ferreira Leite e Marques Mendes. No movimento sindical, também Carlos Silva, da UGT, e Pedro Torres, dos TSD, apareceram a defender a abstenção do PSD na questão da TSU. É manifesto que não têm razão alguma e que, se houve decisão acertada tomada por Passos Coelho nos últimos tempos, essa é precisamente a de votar contra a redução da TSU.
Em primeiro lugar, a redução da TSU é uma medida péssima. Ou a economia tem condições para suportar a subida do salário mínimo para os 557 euros, e então esse salário tem de ser pago pelas empresas, ou não tem essas condições, e então o salário mínimo não pode atingir esse valor. Fazer subir o salário mínimo mas estabelecer que o Estado passa a pagar uma parte do mesmo, às custas da Segurança Social, é absolutamente inaceitável. Não podemos ter uma economia de empresas subsidiadas pelo Estado, especialmente porque o Estado não tem condições para pagar esses subsídios. E muito menos é aceitável depauperar a Segurança Social, pondo em risco as pensões futuras, apenas para sustentar um salário mínimo artificial.
Argumenta-se, por outro lado, que o PSD já defendeu a redução da TSU para as empresas. Esse foi um dos maiores erros políticos do PSD e pelo qual pagou um custo político elevado. Ora, quando se erra uma vez, deve corrigir-se o erro posteriormente, em vez de persistir no mesmo para sempre.
Finalmente, diz-se que a votação afronta a concertação social. A concertação social não pode assentar em financiamentos públicos a negócios privados, e o PSD não é muleta para assinar de cruz os acordos que o governo celebra sem a sua intervenção. Quem celebra acordos com um governo de geringonça deve saber que, a qualquer momento, essa geringonça pode não funcionar, e nessa altura só se pode queixar de si própria. Não vale a pena apelar a terceiros que não celebraram qualquer acordo e que, por isso, não têm obrigação de viabilizar o mesmo. Fique, pois, a TSU como está, que está muito bem.

Passos começou a fazer oposição

BERNARDO FERRÃO    EXPRESSO   16.01.17 
É inegável a habilidade política de António Costa, mas no caso da TSU e do acordo de concertação social só cai quem quer. A verdade dos factos é que o primeiro-ministro fechou um acordo sabendo que não o podia cumprir. E agora tenta desviar-nos o olhar para o PSD, como se fosse ele o culpado, quando o problema está na geringonça. Antes de atacar Passos, Costa devia resolver os problemas em casa com o PCP e BE.
O líder do PSD está a fazer o que deve (e o que tanto lhe pediram): oposição.
Muitos têm visto na atitude social-democrata uma enorme incoerência. Perguntam: então o PSD que antes pôs em prática o alívio da TSU para os patrões, e que até se absteve na votação de 2016, vai agora chumbar uma medida semelhante? A verdade é que há diferenças na medida posta em prática pelo Governo de Passos e na que está agora em causa. Depois, é preciso lembrá-lo, também o PS se mostra incoerente: no passado os socialistas nem sempre defenderam reduções na TSU dos patrões. E no acordo que estabeleceram com as esquerdas (mais concretamente com o PEV) que viabilizou o governo, os socialistas assumiram o compromisso de não baixar a Taxa Social Única para as empresas.
António Costa sabia, por isso, que estava a negociar com os parceiros sociais o que não podia cumprir. Em vez de tentar uma verdadeira concertação, falando com o PSD e não o ignorando, preferiu o jogo político. Acreditou que o partido de Passos, devidamente pressionado, iria salvar a “negociata” que os parceiros das esquerdas se recusam a aceitar. E com razão, no fundo o Governo está a pôr o Orçamento do Estado, ou seja os contribuintes, a pagar um aumento do salário mínimo que devia ficar a cargo dos patrões.
A decisão de Passos é arriscadíssima. E os perigos são já bem visíveis. Será acusado de estar a matar a concertação social. Já está a dividir e muito o partido. Verá os patrões entrincheirados contra si. As IPSS não lhe vão perdoar. Mas Passos, coerente na sua teimosia, seguirá em frente. Doa o que doer. E dentro da incoerência da sua decisão, haverá uma coerência: se Costa tem uma maioria no parlamento, é com ela que se deve entender. Se não o fizer, mostra que a geringonça pode não ser autossustentável.
Num ano decisivo para a sua liderança, Passos precisa de se fortalecer. A sua oposição tem andado perdida e raramente acerta – conseguiu-o em parte no processo da CGD. Ao ir contra o que defendeu no passado, Passos prescinde de um dos seus ativos, a responsabilidade, mas ganha nos danos que provoca na geringonça. Põe a nu a fragilidade da solução de António Costa. Se isso é suficiente para se relegitimar dentro do partido, logo se verá, mas sem dúvida que recupera espaço e marca pontos. Talvez por isso tenha incomodado alguns sociais-democratas que se mostraram violentamente indignados com a atitude do líder. Julgavam-no morto e acabado, mas o líder social-democrata mostrou-lhes que está vivo. Os jornais escrevem que Marcelo está furioso. Não admira, Passos estragou-lhe a estabilidade que tanto preza (e precisa). E Costa percebeu o quão isolado pode ficar. O seu governo coeso e estável parece-nos agora um governo de minoria.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Professor Daniel Serrão

ISILDA PEGADO      VOZ DA VERDADE    15.01.17


       Há vidas cuja Luz irradia de tal forma em seu redor, que se tornam presentes em muitas
circunstâncias. Dá gosto estar envolvido nessa “Luz”, nesse caminhar e entrega.
O Professor Daniel Serrão foi, e continuará a ser, o homem cujo saber, ciência, Fé, amor e estima aos outros, é uma “Luz” na nossa Sociedade e nos nossos tempos.
O Prof. Daniel Serrão foi um Humanista no sentido mais Nobre do conceito. Sendo médico, teve sempre o cuidado de pôr ao serviço do Homem todo o seu saber. O Homem que ele definia como um “todo” desde a fusão dos gâmetas feminino e masculino até ao suspiro final, enchia o seu coração. Não há homens mais ou menos capazes, mais ou menos dignos, todos têm a mesma condição e dignidade.
O Prof. Daniel Serrão era estruturalmente cientista, médico que bem sabia dever ser a sua ciência ao serviço do Homem e nunca o Homem ao serviço da ciência. Esta inquietação constante levou-o a ser um dos “pais da Bioética” em Portugal.
Homem de grandes interrogações – como o vimos fazer em Roma, nos congressos da “Academia Pontifícia para a Vida” – honesto no discernimento científico e filosófico, não se quedava enquanto não obtivesse “a resposta”.
Por várias vezes, em Roma (onde nos encontrávamos mais do que em Portugal) acompanhamos essas suas inquietações que, não se escondendo em qualquer ditame ideológico ou dogmático, tinham sempre o objectivo de encontrar na Razão e nos factos a resposta adequada.
Nas suas funções de Conselheiro do Papa (nomeado por João Paulo II) era um espírito inconformado até encontrar a resposta que a razão, a verdadeira razão ditava, e que obviamente coincidia com a posição mais ortodoxa da Doutrina e da Fé. E aí também a sua lealdade se tornava evidente naquele meio da elevada Academia e do saber das coisas de Deus. 
Num desses Congressos, a propósito do uso das células estaminais embrionárias cuja prática se mostrava inconsequente, para além de ser moral e eticamente inaceitável para todos nós, foram apresentados trabalhos médicos com células estaminais adultas, viáveis e que se apresentava como um caminho sério, científico e uma verdadeira aposta no futuro, sem qualquer limitação ética.
Comentado entre nós, os portugueses presentes, tamanha evidência e alegria pelas descobertas feitas, perguntávamos qual a razão pela qual não se parava com esta “maldade” de usar embriões humanos quando, se pode fazer melhor com células estaminais adultas. O Prof. Daniel Serrão apresentou-nos a seguinte explicação: - Tem de vir alguém de fora deste nosso círculo (referia-se à Igreja Católica) por exemplo, um Judeu ou um Oriental, para ser aceite esta evidência. Tem sido assim ao longo da História. Mas nós, vamos continuar o nosso trabalho. Tinha razão. Cerca de 7 anos depois foi Nobel da Medicina Shinya Yamanaka que publicamente disse que, após ter visto a ecografia do seu filho, com apenas algumas semanas de gestação, nunca mais trabalhou com embriões. Palavras que correram o mundo inteiro, e que estão a mudar a investigação científica. O Nobel da Medicina de 2012 é Japonês. Tinha razão o Prof. Daniel Serrão.
Com o Prof. Daniel Serrão Fé e razão caminhavam lado a lado. Tal como ouvimos do Papa João Paulo II na audiência privada em que nos recebeu - Tudo está lá desde a Criação, basta ao homem estudar, conhecer, procurar (referia-se às descobertas médicas feitas a partir das células estaminais adultas) com empenho e verdade”.
Obrigado Senhor Professor Daniel Serrão.