domingo, 25 de setembro de 2016

As notícias na televisão

António Barreto
DN20160925

Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo

É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.
Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.
Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.
Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.
É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.
Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.
A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.
Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.
A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos papagaios no seu melhor!
Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.

Aqui entre nós que ninguém nos ouve





O Bruno Faria Lopes escreveu um excelente texto no Negócios (mais um), a chamar novamente a atenção para um problema que passa frequentemente longe do radar da imprensa nacional: a percepção cada vez mais negativa que ‘lá fora’ se vai fazendo de Portugal. Vale a pena ler o artigo todo e passar os olhos pelas manchetes que o Bruno compilou, o que o leva a escrever que:
São intervenções cheias de “ses”, que misturam realidade, preconceito e interesse próprio? Em parte sim. Mas, no final do dia, isso interessa pouco. A cadência impiedosa destas notícias e análises é um sinal preocupante da consolidação de uma história, de uma “narrativa” sobre Portugal. O contraste entre esta e o ambiente político no país é grande – e o problema maior de percepção está no lado que mais tem a perder, ou seja, cá dentro.O BCE anestesia o mercado e Portugal paga hoje só 3% a dez anos para se financiar? Sim, Mario Draghi tem a mão em cima da tampa. Mas lá dentro, na panela, vai fervendo um caldo cada vez mais tóxico.
Eu acrescentaria duas coisas. A primeira é que estes sinais começam a complementar-se com outros, que não me deixam mais confortável – em particular, a tendência para desconsiderar os alertas como chantagem externa, ou como sinal de uma enorme conspiração (com jornalistas colaboracionistas e tudo) para pressionar o Governo a fazer alguma coisa diferente. Há em tudo isto um cheirinho a 2010 que, com as taxas de juro em 3,3%, era perfeitamente  dispensável.
A segunda coisa a acrescentar é que os receios de que se ouve falar têm uma tradução mais concreta e palpável do que apenas um punhado de notícias na imprensa internacional. Vejamos porquê.

A forma mais comum de tomar o pulso aos mercados é olhar para as yields das obrigações do Tesouro. Yields a subir sinalizam riscos, yields a descer apontam para acalmia. O gráfico de baixo mostra o caso das obrigações a 10 anos, retirado da Bloomberg.
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O gráfico apanha o início de mandato do novo Governo. Sem grande surpresa, os investidores não parecem ter ficado muito preocupados com um Executivo apoiado pelo Bloco e PCP. Mas a questão mudou de figura quando esse arranjo político pôs em risco a aprovação do Orçamento de 2016 por parte da Comissão Europeia. Nessa altura (Fevereiro) as yields passaram de 2,5% para 4%, e só voltaram a recuar para terrenos mais confortáveis quando as incertezas se dissiparam.
Vendo as coisas deste prisma, o percurso das yields parece um one-time-bump. Isto é, os juros orbitavam ali em torno de 2,5%, subiram com os receios em torno do Orçamento e voltaram a baixar pouco depois. Não voltaram a atingir os 2,5%, mas fixaram-se num novo patamar (3%), relativamente estável daí em diante. O nível subiu, mas a tendênciamanteve-se.
Ma há coisas que não aparecem neste gráfico e escondem parte da história. Entre Outubro de 2015 e Setembro de 2016 as condições globais de financiamento da Zona Euro melhoraram bastante. O BCE reforçou o programa de estímulos (e sinalizou que a sua duração pode ser prolongada) e os prémios de risco encolheram. Em suma, a estabilização das taxas de juro nacionais dá-se contra um pano de fundo de diminuição das taxas de juro dos restantes países. E, compondo as coisas, a comparação é mais ou menos assim:
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Portanto, Portugal foi o único país (a par da Grécia) em toda a Zona Euro – e são quase 20 países – cujas yields subiram no último ano. No resto das economias, o movimento foi de descida. Uma forma de se perceber melhor a avaliação que os mercados fazem das condições específicas da economia portuguesa é olhar para o spread exigido pelos investidores a Portugal para deter os títulos nacionais, face a um benchmark constituído pela média das yields dos outros títulos ‘periféricos’.
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O sombreado roxo assinala o período desde Outubro de 2015. Olhando para as taxas de juro efectivamente cobradas parece que Portugal passou pelo tal one-time-bump: os juros sobem em Janeiro, mas estabilizam a partir daí. Já o spread face à periferia mostra um percurso muito mais inquietante. A diferença face ao resto tem crescido ininterruptamente desde o final do ano passado. As subidas são pequenas, mas consistentes. O problema já não é de nível, mas de tendência.
Por que é que ninguém fala disto? Suspeito que é porque ainda ninguém notou. Ou, numa interpretação um pouco mais modesta, talvez seja só eu que estou a ler poucos jornais.
Em todo o caso, parece-me que pelo menos o IGCP não está muito confortável com a situação. Em Abril, quando foi apresentado o Programa de Estabilidade, esperava-se que o Estado reduzisse a sua almofada financeira (também conhecida como ‘depósitos da Administração Central’, ou ‘cofres cheios’), em linha com aquilo que tinha vindo a acontecer desde o fim do programa de ajustamento.
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E o que está a acontecer? Exactamente o contrário.
O PEC foi apresentado em Abril, portanto é legítimo supor que as contas são feitas com a informação disponível até Março. Utilizando a meta para a evolução dos depósitos e o valor dos mesmos depósitos em Março (a verde)  é possível ter uma ideia do perfilesperado para a almofada financeira do Estado (a vermelho). Mas os valores efectivos (azul claro) mostram que pelo menos até Junho a almofada estava a aumentar, em vez de mingar
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Porquê? Talvez aquela subida entre Abril e Junho seja normal e faça parte da gestão típica de dívida do IGCP (o que significa que, para cumprir a meta anual, a almofada tivesse de ser rapidamente ‘delapidada’ até Dezembro). Mas cheira-me que não é bem isso. O IGCP provavelmente está preocupado com o que vê nos mercados e acha melhor precaver-se para o futuro, acumulando agora activos para tapar mais tarde as necessidades de financiamento.
É bom que o IGCP esteja atento. Agora só falta o Governo dar uma ajuda em vez de contribuir para compor o ramalhete. Se houver muito mais títulos ‘lá fora’ deste génerodesconfio que os títulos seguintes a ser produzidos ‘cá dentro’ vão ser com outros responsáveis das Finanças a dizer que a procura superou a oferta.
P.S.– E já agora: não, o problema não são os 3,4%. Recordo que as simulações de sustentabilidade da dívida feitas pelo FMI assumiam uma taxa de juro de mercado um pouco acima dos 5%. O problema é a tendência.

sábado, 24 de setembro de 2016

A bloquização do PS

André Azevedo Alves
Observador 24/9/2016

O PS está a atirar para o caixote do lixo o seu legado na construção do actual regime democrático, feita contra a mesma extrema-esquerda revolucionária de que passou a depender para se manter no poder

À medida que a realidade diverge cada vez mais das previsões e promessas do PS e que o descarrilamento das contas públicas face aos objectivos traçados para o défice e para a dívida se torna cada vez mais evidente, não surpreende que a discussão sobre o agravamento de impostos esteja na ordem do dia. É verdade que esse agravamento de impostos viola também o que o PS prometeu aos eleitores mas desde o início de funções do actual governo se percebeu que a inversão das políticas anteriores e a distribuição de benefícios pelos grupos e interesses favoritos da “geringonça” implicaria o agravamento da factura apresentada aos contribuintes. Nada de novo ou particularmente surpreendente nesta frente, portanto.
Aquilo em que a exibição de Mariana Mortágua numa conferência promovida pelo PS constituiu novidade foi a forma como a discussão sobre o aumento da carga fiscal que se perspectiva foi colocada. Com retórica mais própria de um assaltante à mão armada do que de um parlamentar numa democracia liberal, a deputada Mortágua não podia ter sido mais clara nas instruções que deu à sua audiência socialista: “a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro”.
Não é uma declaração irrelevante porque o Bloco de Esquerda já não é apenas um partido de protesto que integra vários movimentos de extrema-esquerda. Não é irrelevante porque com a “geringonça” o BE – tal como o PCP – passou a ser um partido com influência directa sobre a governação do país. Não é irrelevante porque a retórica inflamada e revolucionária de Mariana Mortágua foi aplaudida pela audiência presente na conferência organizada pelo PS e porque a liderança desse mesmo PS não se demarcou de imediato dessas declarações (ainda que, honra lhes seja feita, ainda resistem algumas vozes dentro do PS que o fizeram).
Mas Mariana Mortágua foi ainda mais longe: proclamou bem alto a necessidade de uma alternativa ao capitalismo e explicou que a causa da pobreza é a existência dos “ricos”. Queixou-se de que as suas declarações foram distorcidas uma vez que taxar riqueza acumulada não seria a mesma coisa que taxar poupança. Em sentido estrito, trata-se de uma afirmação verdadeira: se a riqueza acumulada em causa for resultado de um crime – por exemplo, de um assalto a um banco – não estamos perante poupança. Mas, no contexto das actividades económicas lícitas, a acumulação de riqueza dá-se precisamente por via da poupança.
O ataque de Mariana Mortágua contra a poupança esconde por isso um outro julgamento: o de que a generalidade da actividade económica no contexto dum sistema capitalista é intrinsecamente ilegítima. Só isso justifica a condenação generalizada da acumulação da riqueza. Juntem-se as declarações de Mortágua à afirmação por parte de Catarina Martins de que comprar casa não é investimento e aos planos para dar acesso ao fisco aos dados de quem tenha contas bancárias que superem os 50 mil euros e ficamos com uma ideia mais clara das intenções e objectivos da “geringonça” neste domínio.
Sinalizar que se pretende, em última instância, expropriar por via fiscal as poupanças acumuladas pelas famílias (sejam sob a forma de depósitos bancários, casas ou outras) não é apenas economicamente irracional e financeiramente suicidário para o Estado português na situação actual. É também sintomático do movimento de radicalização da esquerda que a “geringonça” colocou em marcha. Já não se trata “apenas” de uma questão de maximizar o saque fiscal no contexto de uma economia de mercado com pesada intervenção do Estado. Com a “geringonça” a discussão está gradualmente a mover-se para campos progressivamente mais radicais: trata-se agora de colocar na ordem do dia da governação as ambições revolucionárias de longa data da extrema-esquerda.
Em 2009, o socialista João Galamba ainda se demarcava claramente das ideias, propostas e métodos da extrema-esquerda: “É uma fantasia achar que se resolve o problema da pobreza e das desigualdades criando um escalão de 45% de IRS e um imposto sobre as grandes fortunas. Os nossos problemas também não se resolvem nacionalizando a banca, os seguros e o sector energético — e muitos menos se resolvem introduzindo mecanismos de controlo administrativo e burocrático dos juros. Em tudo o que cheire a economia a solução do BE é sempre a mesma: estatismo e penalização da iniciativa privada.”
Em 2016, o primeiro-ministro António Costa já não tem qualquer pudor – Mariana Mortágua certamente terá aplaudido a falta de vergonha – em descrever o seu modelo de sociedade usando deliberadamente terminologia marxista e o PS parece estar num processo de bloquização acelerada. Pelo caminho, o PS atira para o caixote do lixo o seu próprio legado na construção do actual regime democrático contra a mesma extrema-esquerda revolucionária de que passou a depender para se manter no poder. Um caminho que pode arrastar Portugal para um desfecho bem mais grave do que um segundo resgate.

Tu és um bem para mim

Franco Nembrini 
20160924
Inicio de Ano 2016/17 CST

Texto adaptado a partir de apontamentos, podendo não corresponder verbatim ao que foi dito por Inês Dias da Silva

Não sou um teórico da educação, mas os meus pais foram dois santos que vi educar.
Os homens quando dão a vida, não dão só a vida, dão também o sentimento da vida, porque a vida biológica, tambem a dão os animais, mas os homens dão um certo sentimento da vida; e todos educamos, sempre, nos encontros que fazemos com todas as pessoas com quem nos cruzamos, seja na caixa do supermercado ou onde for.
Uma criança que passa 9 meses na barriga de uma mãe que está de bem com a vida, provavelmente terá mais hipóteses de ver a vida como uma coisa boa. Ao invés, uma criança que passa os primeiros 9 meses na barriga de uma mãe amargurada, aborrecida com o marido e com os outros filhos, ou mesmo infeliz com a perspectiva do filho que vai nascer, terá mais dificuldade em ver a vida como uma coisa boa. 
Uma mãe, para educar, não tem mais nada a fazer do que estar contente.
Um filho está sempre a observar os pais. Respira o sentimento da vida que têm o pai e a mãe. Não é uma questão de regras e palavras. Graças a Deus é sempre possível recomeçar, mas esta é a lei da vida. Eles não aprendem com as nossas palavras, mas observando-nos, tendo dentro o desejo desesperado que respondamos à única pergunta que é verdadeiramente decisiva.
Lembro-me do momento em que percebi isto verdadeiramente. Adormeci enquanto corrigia testes e quando despertei, vejo os olhos do meu filho por cima do tampo da mesa, a olhar para mim. Não sei há quanto tempo estaria ali. Perguntei-lhe o que precisava, mas ele não pediu nada, não precisava de nada, mas olhava-me como que fazendo a pergunta:
- Pai, garante-me que vale mesmo a pena vir ao mundo.
Se um educador não sente esta pergunta em si, como que a arder, haverá instrução, eventualmente plágio, haverá certamente a violência de mudar o outro, mas não haverá Educação. 
O segredo da educação é não ter o problema da educação. A educação acontece, porque os filhos estão sempre a olhar para nós.
O que os filhos fazem não é um problema porque eles vieram ao mundo, feitos por Deus, bem feitos!!!
Porque foi Deus que criou o Universo e viu que era bom. No fim, havia algo que faltava, porque os animais comiam a erva, ohavam para as estrelas no céu... e... voltavam a comer a erva. Foi preciso uma besta especial, que mesmo estando a comer uma coisa óptima, olhasse as estrelas, se comovesse e perguntasse:
 - Que maravilha! Quem fez isto tudo para mim?!
Então, Deus criou o Homem. 
E Deus continua a criar todos os dias, a criar o coração de cada filho que vem ao mundo. 
Ninguém pode jurar que o sol vai nascer amanhã. Só mesmo pela fidelidade de Deus. E este é o ponto que faz com que a vida seja uma aventura sem fim.
É preciso adultos que saibam responder a esta pergunta, então o problema da educação não são os miúdos, mas somos nós, os adultos.
A educação é um testemunho que se vive, não são regras. O meu pai, ocupou-se da sua santidade e não da minha e por isso lhe agradeço, e assim arrastou 10 filhos a procurar serem como ele. 
À noite entrava no nosso quarto, onde dormíamos 6 rapazes em dois beliches (imaginem a confusão e as guerras que fazíamos). Nunca nos mandou rezar, mas sim, rezava ele. Ajoelhava-se, nessa altura andava já com dificuldade, apoiado numa bengala, doente com esclerose múltipla, e rezava. 
 Pai Nosso...
Isto levava-me a pensar, quem é este Pai a quem o meu pai rezava.
Quem é que põe o meu pai de joelhos?  Ver o meu pai de joelhos era algo que me feria porque para mim, ele era o maior do mundo, não havia ninguém maior.
Eu queria ser como o meu pai...
- Senhor, faz com que eu seja com o meu pai!
Este era um sentimento fortíssimo . E não era que fossem outros tempos, já havia televisão, já havia sexo, já havia política. O meu pai não sabia nada do que não era preciso saber, mas sabia tudo do que realmente era preciso saber. Do bem e do mal, da vida e da morte, da felicidade e da tristeza, da saúde e da doença, da verdade e da mentira.
Eu aprendia só de olhar.
A minha mãe ia todos os dias à Missa, e para isso levantava-se as 5 da manhã. De vez em quando convidava um de nós para ir com ela. Não imaginam o significava para nós, ser escolhido para ir à missa com a mãe. Era como um presente, a escolha e o chocolate quente com nata que tomávamos sempre depois. Podíamos às vezes passar fome, mas havia sempre depois da missa com a mãe, chocolate quente com nata. Esta foi para mim a experiência da conveniência da fé cristã que a minha mãe me ensinou e que os padres e as freiras não conseguiram desfazer. Digo isto, porque mais tarde na catequese fizeram uma vez uma lista daquilo que agradava a Jesus e não agradava a Jesus. E eu fiquei aflito porque tudo o que agradava a Jesus não me interessava nada e só me interessava aquilo que não agradava a Jesus...
- Meu Deus! Como farei para ser cristão?
Graças a Deus ganhou o conceito da conveniência da fé cristã da minha mãe e do chocolate quente com natas.
Durante a missa, que era em latim, a mãe ia-me explicando o que estava a acontecer, mas depois da comunhão, a minha mãe tapava a cara com o véu e eu ouvi-a falar, mas já não era comigo. 
Com quem está a minha mãe a falar?
Eram 5 minutos em que ela já não se importava comigo. 
Com quem está a minha mãe a falar, que tanto a absorve?
Estou certo que a minha mãe vivia a sua vida, com os sacrifícios e o muito trabalho que tinha, pelos 5 minutos que se ajoelhava todos os dias, depois da comunhão.
Preocupemo-nos com a nossa Santidade e não com a dos nossos filhos. 
E não tenhamos medo de errar, porque na educação erramos sempre. Deus confia em nós e os nossos filhos perdoam-nos tudo, muito mais do que pensamos.  O que têm realmente dificuldade em perdoar é a nossa falta de esperança e de alegria.  A nossa incapacidade de dizer: Sim, a Vida é um Bem para ti e para mim.
Escola, esse maldito ídolo.
Há, hoje em dia, um equívoco com o qual é importante acabar. Dizemos aos nossos filhos: Gosto de ti. Mas o que queremos mesmo dizer? Gosto de ti, se a), b) e c) e cada um preencha as alíneas com aquilo que corresponder. Isto é uma chantagem! O que estamos a dizer é: Gosto de ti, se tu mudares.  Mas não pusemos os filhos no mundo assim! Antes, com uma gratuidade à imagem e à semelhança da gratuidade de Deus. O que os pôs no mundo foi uma gratuidade! As alíneas a), b), c) virão, se não forem objecto de uma chantagem que eu lhe faço.
Esta é uma geração que sofre.
É a primeira geração que é mal amada, não é perdoada.
É uma geração órfã .
Uma geração que não agrada a ninguém.
Não agrada aos pais,
Não agrada aos padres,
Não agrada aos professores.
É uma geração que se pune com a culpa de ter nascido!
E surgem então fenómenos que estudam os psicólogos, que não existiam antes. Jovens que se auto-flagelam, e quando se procura a razão profunda para tal coisa, descobre-se que sentem culpa por existir! O nosso testemunho deve dizer:
 - TU és um bem!
Claro que há outros fenómenos que sempre existiram e continuam a existir. Continuam a achar tudo uma porcaria, sempre houve a fase em que tudo mete nojo. 
Que porcaria, a minha família!
Que porcaria a escola!
Que porcaria, a política!
Que porcaria, a sociedade!
Mas dantes, dizíamos: É tudo uma porcaria, mas nós mudaremos o mundo! (E vejam como nos saímos bem..., as asneiras que fizemos!).
Mas hoje em dia o mesmo raciocínio leva-os a dizer: Também eu sou uma porcaria. E por isso maltratam-se.
Precisam de adultos que amem a vida! Se quando nos casámos tivéssemos dito um ao outro, casamo-nos mas só se a), b), c)... estaríamos todos solteiros ainda hoje. 
A escola é uma chantagem diária que os fazemos viver. O valor das crianças não são as notas que tiram na escola! 
A escola é uma estrada (não a única) para chegar à meta, não é a meta.
Confundir a estrada com a meta é um perigo sério na vida.
Conto só uma última história de quando conheci o Padre Bretore que estava a montar uma missão na Serra Leoa, na altura em que tinha acabado de começar a guerra. Tivémos oportunidade de viajar até Africa e conhecer a missão. Impressionados com o que vimos quisemos juntar esforços para montar uma escola na missão onde as condições eram muito más. Mexemo-nos todos, era bonito ver os meus filhos a fazerem telefonemas. Foi o nosso filho mais católico de todos que comentou: Só nos faltava virem agora estes pretos. Ocorreu-me dizer-lhe muitas coisas, mas decidimos eu e a minha mulher, que o que podíamos fazer era levá-lo lá, para que ele visse também o que nós vimos. 
Nas férias do Natal fomos então, a familia toda, visitar a missão do Padre Bretore.
A passagem de avião custou 1800 euros, cada uma, tivémos que mendigar pelos nossos amigos e ficámos com uma dívida que ainda pagaremos um dia. Mas depois desta estadia, o nosso filho agradeceu ter ido ver "o Paraíso no Inferno."
Pois, ir ver, fazer experiência, tocar a carne é condição necessária para distinguir o Paraíso do Inferno.

Os filhos dos outros e os nossos

Inês Teotónio Pereira
DN20160924

Os pais de hoje chateiam imenso os filhos. Tanto amor é defeito, dizia a minha avozinha. E é. Nós passamos os nossos dias obcecados com os dias dos miúdos. Não lhes damos descanso. Onde estão, o que fazem, o que estudam, com quem se dão, se estão agasalhados, se estão felizes, se têm amigos, o que pensam. E vivemos paranoicos com o futuro deles. Aos 15 anos já deviam saber o que querem da vida. Uma ideia, mais ou menos. Mas não. Os miúdos não têm interesses, meu Deus. Não leem, só gostam de consolas e do YouTube. Acham que wi-fi é gratuito e que o leite nasce do frigorífico. Caminhamos para o fim do mundo e eles são os protagonistas. É o fim. Não dormimos. Além disso não são autónomos (pudera). Depois, olhamos para os filhos dos outros e ficamos deprimidos. Há sempre os filhos dos outros. Aqueles filhos que os nossos pais nos apontavam como a luz do farol. Aqueles filhos dos outros que estão sempre felizes, que têm um futuro brilhante pela frente, que são bons em tudo e que ainda por cima são excelentes filhos dos outros. Aqueles que há um século (na altura em que tínhamos 15 anos), desejávamos secretamente empurrar para debaixo de um autocarro. Agora, estamos todos iguais aos nossos queridos pais: "Olha, o filho da não-sei-quantas, faz surf, voluntariado e já sabe que quer ir para Gestão. Não anda esparralhado nos sofás... Desde o 9.º ano que ele sabe o que quer. E tu?". Pumba. E lá vai uma direita bem enfiada nos queixos da autoestima do nosso adolescente. Não, os pais não aprendem: os adolescentes ambicionam ser uma árvore e não engenheiros. Eles querem vegetar até serem horas de irem vegetar com os amigos. Ponto. Tudo o resto, é uma miragem. Um adolescente descreve-se numa linha: já não são uma coisa e ainda não são outra - estão em trânsito. E os filhos dos outros, caros pais, não existem e a existirem deviam ser vistos por uma equipa de cientistas da NASA.

Torre dos Clérigos doa prémio de 50 mil euros a instituição de Matosinhos

Público 20/09/2016 - 20:34

Só este ano, o monumento da Invicta já doou mais de 400 mil euros de receitas em bilheteira. Desta vez, o dinheiro era de um prémio atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian.

A irmandade que tutela a Igreja e a Torre dos Clérigos, no Porto, doou à Casa Kastelo, em Matosinhos, os 50 mil euros que recebeu enquanto vencedora do Prémio Vasco Vilalva, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian pelas obras de restauro naquele conjunto.
A Casa Kastelo é a primeira unidade de cuidados continuados pediátricos constituída na Península Ibérica e foi inaugurada em Junho pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para funcionar de modo experimental durante um ano e servir de modelo à expansão da rede prevista pelo Ministério da Saúde.
"A nossa maior alegria é dar sorrisos àquelas crianças e famílias que vivem fases críticas e difíceis da vida. Este dinheiro vai faze-las mais felizes e menos preocupadas", disse hoje à Lusa o presidente da Irmandade dos Clérigos, padre Américo Aguiar, na cerimónia de entrega do prémio.
Américo Aguiar revelou que o dinheiro vai permitir à Kastelo, da Associação Nomeiodonada, pôr em funcionamento a sala de terapias, ficando a Igreja e Torre dos Clérigos como "padrinho" dessa ala. E acrescentou: "a Torre dos Clérigos é agora a Torre do Kastelo".
A nova unidade de cuidados continuados pediátricos está situado em S. Mamede de Infesta, Matosinhos, vai estar aberta 24 horas por dia, com uma unidade de dia e outra de internamento, com capacidade para acolher 30 crianças. O presidente da Irmandade realçou que não poderia usar este prémio de outra forma porque a Casa Kastelo é um projecto "muito importante".
Durante este ano, a Torre dos Clérigos, cujos 85% dos visitantes são estrangeiros, deu mais de 400 mil euros da receita das bilheteiras a 12 instituições nacionais.
"Esta partilha é fundamental e bem demonstrativa do que deve ser um coração solidário", afirmou. Já o presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva, entendeu a recuperação do edifício "extraordinária", daí considerar a atribuição "mais que justa".
"É uma obra de arquitectura notável e um exemplo a replicar, sendo importante que se valorize o património português", realçou. O turismo é "importantíssimo" para a cidade e a Torre dos Clérigos é disso exemplo, por isso, vê-la renascida é "fantástico", salientou o autarca do Porto, Rui Moreira. O bispo do Porto, António Francisco dos Santos, ressalvou que as obras de recuperação do ex-libris do Porto é a expressão da arte e exemplo de abertura da igreja à sociedade. 
Classificado Monumento Nacional em 1910, a Igreja e Torre dos Clérigos é propriedade da Irmandade dos Clérigos, e o projecto da sua recuperação e restauro foi elaborado por uma equipa multidisciplinar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Lei natural

POVO 23.09.16 
Quando a lei natural e a responsabilidade que ela implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo no plano individual e ao totalitarismo de Estado a nível político
Joseph Ratzinger

O regresso de Sócrates

Rui Ramos
Observador 23/9/2016

Porque é que Ana Gomes parece ser a única socialista à vontade para dizer em público o que deve ser dito, isto é, que José Sócrates, pelo que admitiu, não deveria ter lugar na vida do regime?
É o regresso de José Sócrates. O regresso oficial. Depois dos comícios na província, depois das invasões de palco durante visitas do primeiro-ministro e do presidente da república, eis o convite oficial e legítimo para participar num “evento institucional” do Partido Socialista, hoje, sexta-feira. E perante este regresso, que diz o líder do PS e primeiro-ministro, António Costa? António Costa não diz nada, mas constou na imprensa que estaria “confortável”, porque não tenciona frequentar o referido “evento”. Para António Costa, tudo parece estar bem desde que, ao contrário do presidente da república, não tenha de aparecer com Sócrates na fotografia.
Os defensores de José Sócrates vêm sempre com figuras jurídicas: não foi condenado, ainda nem sequer foi acusado, é apenas arguido sob investigação, deve ser presumido inocente. Quantas vezes será necessário explicar que na vida pública há comportamentos que não precisam do trânsito em julgado para deverem ter consequências? Deixemos de lado as suspeitas de corrupção, branqueamento de capitais e fuga ao fisco, de que trata a justiça. Deixemos de lado as suspeitas, levantadas outrora por alguns magistrados, de conspiração contra o Estado de direito, de que ninguém trata. Fiquemos apenas, como fez a eurodeputada Ana Gomes, pelo que o próprio já admitiu: Portugal teve, durante vários anos, um chefe de governo na dependência financeira secreta de um empresário ligado a um grupo com contratos com o Estado. É isto aceitável? Já uma vez dei este exemplo: na Inglaterra, um ministro de Tony Blair, Peter Mandelson, teve de se demitir em 1998 por não ter revelado que um colega de governo lhe tinha emprestado dinheiro. Um colega de governo, não o empresário de um grupo interessado em negócios com o Estado. Outros costumes, outro mundo.
Foi esta semana muito discutida a possível conversão do PS de António Costa às ambições de expropriação fiscal do Bloco. Mas a incapacidade deste PS de sacudir o socratismo devia-nos preocupar outro tanto. Que se passa? António Costa não se importa? Ou, importando-se, não sente força ou não acha oportuno limitar as incursões socráticas? Que poder ainda tem José Sócrates no PS? Qual é a origem desse poder? Porque é que Ana Gomes parece ser a única socialista à vontade para dizer em público o que deve ser dito, isto é, que José Sócrates, pelo que já admitiu, não deveria ter lugar na vida pública sob o patrocínio de partidos ou figuras do regime? E se isto é assim, que devemos pensar deste PS e da autoridade de António Costa?
José Sócrates faz o que julga convém aos seus interesses, e naturalmente que convém aos seus interesses criar a impressão de que, no regime, ninguém leva a sério o inquérito judicial, tanto que não se inibem de o cumprimentar, convidar e homenagear. D. Sebastião deveria ter regressado numa manhã de nevoeiro. José Sócrates regressa num crepúsculo de confusão moral. É a complacência da direcção do PS, que se limita a não tirar selfies com o arguido; é a indiferença dos outros partidos, que nada dizem; é a excitação da imprensa, que lá há-de estar para lhe ampliar as lições; é provavelmente o cansaço de toda a gente, que há anos ouve falar de Sócrates e dos seus casos. Chegou a vida pública portuguesa àquele grau de tribalismo em que aos do nosso lado tudo é admitido e desculpado, e a ética na vida pública só se aplica aos nossos adversários? Ou pura e simplesmente já ninguém quer saber de nada, neste cada vez mais óbvio desmanchar de feira, em que uma classe política se prepara para legar aos vindouros não só a enorme dívida de um Estado desequilibrado, mas um tremendo vazio moral?

Meu Deus

Inês Dias da Silva
20160923

Subiu ontem à cena e fica até dia 9 de Outubro, no teatro Tivoli, a peça Meu Deus, onde assistimos a um encontro entre Deus e uma mulher. Ao contrário do que ela própria julga, ela não morreu e foi para o céu, mas foi antes Ele, o Criador, que veio ao seu encontro para uma sessão de psicoterapia.

Na sinopse que se encontra nas várias publicidades, descreve-se este encontro como uma fantasia, algo insólito, improvável e inusitado. Mas o diálogo é tudo menos isso. Na troca acesa de palavras, no ajuste de contas de momentos passados na vida dela, e do início do mundo, da criação do homem e na sua sempre violenta relação com Deus, transparece o desejo de amor de cada um pelo outro.

'Deus mendicante do coração do homem, o homem mendicante de Deus'. (Luigi Giussani)

Na hipótese de um Deus deprimido e solitário, que perdeu a sua força e os seus dons, a psicóloga Ana tenta mostrar-lhe que, se trata os homens com a violência correctiva que a Bíblia conta em tantos episódios, como pode esperar que O cheguem a amar? Uma conversa fantasiada, mas que levanta perguntas cuja resposta queremos todos saber, e muitas vezes não temos coragem de perguntar. Porque é que Deus permite o mal, o sofrimento, a doença? Onde está a misericórdia de Deus num mundo onde acontecem desastres naturais e os homens fazem a guerra. Porque é que é não ouvimos a Sua voz?

A resposta esconde-se numa terceira personagem. Não tem falas, entra e sai sem deixa ou regra, uma personagem que é dependente mas é Homem, que é pobre mas é Criatura gerada daquele gesto de amor,  retratado por Michelangelo no teto da capela Sistina. E agora que se voltam a encontrar, é possível voltar a reconhecer o Dom que é a vida gerada em cada instante, e tudo ganha a beleza original, e tudo o que é desejo verdadeiro concretiza-se, como uns pingos de chuva num dia de calor.

Vale a pena ir ver, pelo texto e pela actuação de Irene Ravache, que é imaculada. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A classe média não existe

Anselmo Crespo
TSF 19 DE SETEMBRO DE 2016

Essa conversa da produtividade é muito bonita, o Estado agradece, mas mais valia estar quieto. Pior. Se for daqueles que gosta de poupar uns trocos também não pode dormir descansado.

A classe média é provavelmente a classe mais elástica deste país. Quem ganha 700 euros é da classe média. Quem ganha 1500 também. E quem ganha 2500 não deixa de ser da classe média. E se ganhar 3500? Depende. Tem filhos? Se tem filhos é claramente da classe média. Há quem ganhe mais que isso e também se considere classe média. A classe média dá para tudo. É pena não existir.
A discussão é antiga e nunca nos levou a lado nenhum. É muito simples, na verdade. O Estado depende da classe média para sobreviver. Primeiro porque os pobres não "rendem" e depois porque os ricos, os verdadeiramente ricos, também não. Uns porque arranjaram forma de não serem tributados cá. Os restantes são tão poucos, que rendem ainda menos que os pobres. Quem é que paga impostos afinal? A classe média. E quem é a classe média? São todos os que pagam impostos. E quem é que paga impostos? Os que não sendo pobres e não podendo fugir, não têm outro remédio que não seja... pagar impostos. Daí que, quanto mais elástica for a classe média, melhor para o Estado.
A classe média já andava moribunda há algum tempo. Em 2011, com a chegada da troika e da dupla Passos/Portas levou a estocada final. O slogan político podia ter sido "Dinheiro rápido e fácil? É na classe média, pois claro". Vítor Gaspar preferiu chamar-lhe um "enorme aumento de impostos" que, na verdade, foi um silogismo para "dinheiro rápido e fácil? É na classe média, pois claro". Nos últimos anos a classe média habituou-se a duas coisas: a exercitar-se a e a ser pobre. Se tem filhos tem que fazer ginástica para conseguir educá-los, dar-lhes saúde, alimentá-los e, o que sobrar, gasta-se com os pais. Isto depois de pagar os impostos, claro. No fim do dia, é pobre, mas fez bastante exercício. Se não tem filhos, também não se livra da ginástica financeira. É que ser casado sem filhos ou solteiro neste país é quase o equivalente a ser criminoso. Paga a dobrar só para aprender que tem que contribuir para a natalidade. Ou seja, é pobre.
Mas o nosso sistema fiscal tem uma perversidade ainda maior. Premeia quem trabalha menos e penaliza quem trabalha mais. Quem é apenas trabalhador por conta de outrem, se pagar os seus impostos, chega ao final do ano e tem contas praticamente certas. Quem trabalha para dois ou mais patrões, paga na mesma os seus impostos, nos dois lados, mas chega à altura de fazer o IRS e leva com a guilhotina. Porquê? Porque somam-se novamente os rendimentos e aproveita-se para cobrar mais uns cobres. Quem é que o mandou trabalhar mais? Essa conversa da produtividade é muito bonita, o Estado agradece, mas mais valia estar quieto. Pior. Se for daqueles que gosta de poupar uns trocos, pensar no dia de amanhã, nos filhos ou na reforma, também não pode dormir descansado. Tem mais de 50 mil euros na conta, é um perigoso capitalista que anda a fugir ao fisco. Tem uma casa com vista para a Amadora, ou sem nenhum prédio à frente, paga uma taxa sobre o património, em cima do IMI, que essa casa tem uma vista ótima e é capaz de valer mais de 500 mil euros. Quem avalia? O fisco. Com que critérios? Sabe-se lá.
Regressemos à pergunta original. Quem é a classe média em Portugal? São todos os que pagam impostos. Os que não podem ou não querem fugir. Independentemente de ganharem pouco mais que o salário mínimo, 1000, 2000 ou 4000 euros. A classe média são todos os cidadãos honestos que dizem ao Estado quanto ganham, o património que têm, para que o Estado possa fazer as contas e lhes possa cobrar o que lhe apetecer. Tudo o resto são ricos, ou muito ricos, e pobres. Ou seja a classe média, na prática, não existe. Para o Governo existe. Seja ele de esquerda ou de direita, a classe média é sempre o alvo principal. É fácil, é rápido, dá milhões, e não dá trabalho.

Ricos e pobres

POVO 22.09.16 
Não se consegue fazer os pobres mais ricos, tornando os ricos mais pobres
Winston Churchill

Ódio de classe!

Maria de Fátima Bonifácio
Observador 22/9/2016

Mariana não sabe, não tem mundo para saber como são os verdadeiros ricos. Mas sabe uma coisa: “Não se pode ser rico inocentemente.” Todos roubaram, exploraram, ou são réus de qualquer crime semelhante
Em Novembro de 1793, quando, na Convenção Nacional Francesa, já declarada a abolição da monarquia e proclamada a Primeira República, se iniciou o julgamento do rei Luis XVI, acusado de “conspiração contra a liberdade pública”, o deputado Louis Saint-Just, com apenas 26 anos, proferiu uma frase que ficou para a História: “Não se pode reinar inocentemente.” E de seguida explicou-se: “Todos os reis são rebeldes e usurpadores.” Todos. Portanto, todos merecem a morte, e esta pré-condenação universal dispensaria até as formalidades de um processo judicial. Na Convenção, Saint-Just depressa se destacou pela violência da linguagem, pela sede de vingança e de sangue; de muito sangue. Adorava a guilhotina, erguida na Praça da Revolução, que no auge do Terror exalava um fedor insuportável a sangue humano – de reis, de aristocratas, de burgueses, de pobres e remediados. Como o Terror acaba por devorar os seus próprios filhos, no dia 10 de Julho de 1794 chegou a vez da execução do próprio Saint-Just, numa leva de 22 jacobinos abrilhantada por Maximilien Robespierre, o “Incorruptível”. (No dia 11, mais 106 robespierristas foram guilhotinados.)
A Grande Revolução Francesa de 1789, de cujas aquisições civilizacionais ainda hoje gozamos, fizera-se em nome da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não está em causa a sinceridade dos que a saudaram e apoiaram – aristocratas, dignitários eclesiásticos e plebeus, o chamado “Terceiro Estado”. Porém, os que nos primeiros anos a dirigiram e se foram guerreando e substituindo uns aos outros no Poder, não eram prioritariamente movidos por esses generosos valores humanistas. Para se compreender a que paroxismos de ignomínia e crueldade puderam chegar, é preciso rebuscar as “profundezas antropológicas” do homem, lá onde se albergam emoções e instintos que escapam a um escrutínio racional, e que constituem, em certas circunstâncias, a mais poderosa motivação das acções humanas. Dessa fonte insondável do nosso ser nasce, entre outros sentimentos, o ódio de classe, um ódio arreigado e sequioso de vingança. Na época contemporânea, digamos que desde meados do século XVIII, quando Rousseau descobriu a incarnação do Mal no “burguês”, o ódio de classe, – o ódio aos ricos e ao “burguês” – constituiu o mais inflamável combustível das revoluções do século XX. E, se não é fácil imaginar concretamente que tipo de convulsões ainda há-de produzir no século XXI, o certo é que, apesar da crescente mobilidade e integração das classes sociais, e apesar da imensa melhoria das condições de vida registada nas sociedades capitalistas ocidentais, o ódio de classe está lá, bem vivo, e nem é certo que tenha abrandado. O caso de Mariana Mortágua não passa da ilustração desta vulgar constante histórica.
O percurso ascendente de Mariana Mortágua na época da “geringonça” foi fulminante. Conhecemo-la na Comissão de Inquérito Parlamentar ao caso BES. Bem preparada, inteligente, serena, firme e discreta, a jovem deputada fizera como deve ser o seu trabalho de casa, e deu nas vistas. Ricardo Salgado felicitou-a diante das câmaras pela sua proficiência. Por falta de tempo, não costumo seguir pela televisão os debates parlamentares, mas constou-me que a promissora Mariana começava a ganhar maior protagonismo no hemiciclo de São Bento, embora de algum modo sempre algo ofuscada pela presidente do Bloco, a grande actriz da política portuguesa que dá pelo nome de Catarina Martins. Digamos que houve entre ambas uma fase de empate, que, como todos os empates, alguma vez ou algum dia têm de ser desempatados.
Essa vez ou esse dia já chegou. Mariana começou a crescer, e, muito humanamente, o crescimento foi-lhe subindo à cabeça. Revelou-se, por fim, uma criatura com as mesmas fraquezas de outra qualquer: queria palco, queria espectáculo com muitos espectadores. Afinal, à sua volta, o bacoquismo nacional, propenso ao deslumbramento, já a promovera a génio nunca visto. Pois era preciso que a vissem, que a vissem bem, que vissem a superioridade com que pisava e ocupava o palco nacional; era preciso que se transformasse “no centro disto tudo” (Público, 21.9), numa verdadeira CDT, sem rivais. Mariana foi mudando, foi crescendo até se agigantar diante dos basbaques socialistas que acorreram a vê-la e a ouvi-la numa rentrée organizada pelo PS no passado Sábado em Coimbra.
No palco, sentado ao lado dela, um tal João Galamba sorria de orgulho, por vezes literalmente embevecido. Mariana percebeu que era chegada a oportunidade de consolidar a sua ascendência, a sua importância, a sua saliência, e que para isso tinha de chocar, de escandalizar, porque entre nós o choque e o escândalo, mesmo que pelas piores razões, são sempre admirados como grande coragem. Mariana percebeu que tinha de perder a vergonha e dizer o que lhe ia na alma, embora sem confessar o que lhe ia, e vai nas entranhas: um enorme ódio de classe: Vamos a eles ! Vamos aos ricos ! “A primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro.” E a este roubo descarado chamou – “política social” (Público, 21.9). Vamos a isso ! Roubemos todos !
Os “ricos”! Mariana não sabe, não tem mundo para saber o que são e como são os verdadeiros ricos. Mas sabe uma coisa: “Não se pode ser rico inocentemente.” Todos os ricos – todos os ricos mais os que ela, coitada, julga ricos – roubaram, exploraram, espoliaram ou são réus de qualquer crime semelhante. Acabe-se com os ricos – para que se acabe com os pobres! Distribua-se a riqueza dos indivíduos, para melhorar a condição das multidões pobres! Pedir aos trabalhadores que trabalhem mais e melhor? Que ideia tão estúpida! Cita Keynes (de memória), já em 2015: “Não vale a pena as empresas produzirem mais se as pessoas não tiverem dinheiro para comprar a produção.” A invocação do grande economista é de uma extraordinária desonestidade intelectual: Keynes viveu num mundo e pensou para um mundo em que havia fronteiras nacionais, em que vigoravam altas taxas alfandegárias proteccionistas e em que os Estados cunhavam moeda própria à sua vontade. Keynes nasceu em 1883 e morreu em 1946 – muito, muito antes de se iniciar e consolidar o processo de globalização capitalista que define o mundo de hoje. Será plausível, será honesto invocar o seu pensamento de há quase cem anos para caucionar com o seu grande nome uma visão retrógrada e miserabilista de um mundo por ela apregoado como mais próspero e justo? Quem, hoje em dia, a não ser as empresas condenadas a definhar, não produz para exportação?! E quem, senão precisamente os países pequenos, necessita como de pão para a boca dos mercados externos?! A Suécia, a Dinamarca, a Noruega e demais países ricos vivem do mercado interno? Oh, dra. Mariana: mesmo em Portugal, nem toda a gente é imbecil.
Mariana Mortágua, mesmo quando arvora a pose de CDT, ignora a história e não entende o presente: por uma óbvia coincidência, em Portugal há muitos pobres porque há poucos ricos. E onde não há ricos, só há pobres. É só olhar à nossa volta, país a país, e verificar o facto. Vindo ainda a talhe de foice acrescentar que muita da estagnação económica da Europa é apenas o resultado de uma deslocalização das indústrias para longínquas paragens onde, graças à desindustrialização do Ocidente, centenas de milhões de seres humanos saíram da mais extrema miséria – da fome pura e dura. Isso incomoda-nos muito, não é ? Pois, mas é a dra. Mariana que enche a boca com os pobres, com a pobreza, com a justiça social, com a infame desigualdade das nossas sociedades ocidentais. Mas nestas, que importa que haja mais milionários se os pobres se tornarem, como tornam, menos pobres?
Bem sei: os milionários são demasiado “ricos”, e como todos os ricos, grandes ou pequenos, devem ser exterminados. Ódio de classe. Pois bem, pago na mesma moeda: nasci numa família rica graças à indústria de meu Pai, em que desde muito pequena aprendi o valor supremo do trabalho e da honestidade: aprendi a ser uma pessoa de bem. Também aprendi a “acumular dinheiro”!!! Quer dizer, a poupar o necessário para evitar depender de terceiros. Aprendi o valor da independência, condição da liberdade, o meu valor supremo. Aprendi o valor de viver numa sociedade decente, em que a pobreza não seja miséria, em que a igualdade de oportunidades seja garantida e em que o mérito seja premiado. Pago os meus impostos todos, todos e mais alguns, mas não aceito o confisco que a dra. Mariana, por puro ódio de classe e correlativo espírito de vingança, quer impor a quem trabalha, ganha e poupa, ou a quem herda o que os pais ganharam e pouparam. Não quero que o Estado me seja imposto como sócio num negócio privado de família.
Tenho orgulho de classe. Porquê? Porque a civilização burguesa, a que pertenço, foi a primeira civilização na História a dignificar o esforço e o trabalho.

O jogo mudou

João César das Neves
DN 20160922

Portugal parece regressado a 2010. A economia cresce, mas quase nada; o Orçamento diz-se controlado sem estar; o governo garante solidez, mas não se sabe quanto; os bancos aguentam-se, sem convencer ninguém. Vive-se o clima de acalmia antes da tempestade. Nesta morna ambiguidade passou despercebido que tudo mudou a 23 de Junho.

O resultado do referendo britânico acerca da permanência na União Europeia lançou uma nova fase na história da integração comunitária. Ninguém ainda sabe as consequências deste complexo processo, mas é evidente que a vida dentro da Europa não voltará a ser a mesma. Os cenários são muitos, com só uma coisa certa: nos choques, é nas rachas que se sente maior tensão.
Paradoxalmente, o Reino Unido é capaz de não ter grandes consequências. Fora do euro e do espaço Schengen, manteve um estatuto especial nos sucessivos tratados. Se a negociação optar por um modelo de associação próxima, semelhante ao da Noruega, poucas mudanças reais acontecerão na prática. Pelo contrário, o velho aliado Portugal está na posição mais delicada. O nosso país pode vir a ser a principal vítima do brexit.
A saída da Grã-Bretanha, mesmo sem grandes repercussões socioeconómicas, representa um grande choque político e simbólico. Depois de 60 anos de sucessivas adesões, o grupo começa a desfazer-se. Isso não significa uma União menos coesa. Pelo contrário, a deserção britânica motivará certamente um surto de empenho e compromisso. Com ele crescerá a suspeição à volta dos que pareçam menos diligentes, inclinados a futuros abandonos. Neste clima de "refundação da Europa", que surge em vários círculos, a violação das obrigações comunitárias pesará muito mais do que todas as juras de fidelidade. Isto coloca Portugal na primeira linha dos suspeitos.
Pertencemos claramente ao grupo dos faltosos, sem nenhuma das desculpas dos demais. Não estamos desesperados, como a Grécia e Chipre, o que os coloca na enfermaria. Não somos fundadores como a Itália nem grandes como a Espanha. Já cá andamos há muitas décadas, ao contrários dos países de Leste, e violámos os nossos compromissos todos os anos desde a entrada no euro. Somos o candidato ideal a bode expiatório. A conclusão só pode ser que, quase de certeza, veremos nos próximos meses evaporar-se aquele clima de benevolência de que gozámos nos últimos anos.
Falar de benevolência pode parecer escandaloso a quem acompanha o comentário político nacional, habituado a culpar a Europa de todos os males. Mas realmente, vendo as coisas do outro lado, a imagem inverte-se. Foi a benignidade europeia que, por exemplo, levou a troika a aprovar-nos em todas as suas avaliações, apesar da nossa transgressão descarada de todos e cada um dos limites previstos no memorando de entendimento de 2011. Na altura interessava à Europa registar um sucesso no Sul do continente, para contrastar com as desgraças helénica e cipriota. Isso era antes de 23 de Junho.
A verdade é que nós somos um dos maiores, senão o maior, beneficiário da integração europeia entre os 28 membros. Entrado em 1986, antes de começar a enxurrada de legislação comunitária, em que pôde ter influência, Portugal foi o que mais cresceu nos primeiros dez anos da adesão. O país transformou-se numa sociedade moderna e desenvolvida graças à UE. Este ponto, que anda muito esquecido, é perfeitamente evidente e decisivo.
Até a entrada no euro constituiu um benefício evidente. Como coincidiu com o início da decadência, nas análises populares é normalmente acusada da crise. Mas aqueles que anseiam pela nossa saída da moeda única nunca dizem como teríamos suportado a crise internacional sem a âncora do euro, ou como hoje o governo conseguiria financiar-se afastado do BCE.
Se é verdade que somos um clamoroso beneficiário da União, também é evidente que somos um descarado infractor das regras comunitárias. Prometemos repetidamente aquilo que nunca pensávamos cumprir e hoje, com a retórica antiausteridade no discurso oficial, já nem fingimos obediência. Por isso é que é urgente perceber que o jogo mudou em Junho. Aliás o processo que sofremos em Julho, e que a benevolência ainda nos perdoou, foi um primeiro sinal disso mesmo. Para o ano haverá novo processo, e não será tão fácil.
As luminárias lusitanas nunca admitem a bonomia europeia, demasiado ocupadas a atribuir à austeridade todos os males nacionais. Mas é bom que alterem drasticamente a atitude. Sob pena de verem os seus desejos realizados e Portugal sem troika, sem euro, sem Europa e sem rumo.

Bloco e PS: o dia da primeira traição

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 22/09/2016

Na velha arte de espetar facas em costas alheias, o Bloco ainda tem muito a aprender com o PS.

Não é só Brad e Angelina que estão com problemas: o casamento entre o Partido Socialista e o Bloco de Esquerda também já viu melhores dias. É certo que ainda ninguém entregou os papéis do divórcio, até porque é cedo para isso, mas ontem de manhã fomos confrontados com a primeira traição, pela boca de dois Pedros. Pedro Nuno Santos, do PS, deu a primeira facada no matrimónio nas páginas do DN, ao declarar que “os anúncios sobre o Orçamento são feitos pelo governo”, forma muito pouco subtil de desautorizar Mariana Mortágua. Pedro Filipe Soares, do Bloco de Esquerda, respondeu com outra facada aos microfones da TSF, garantindo que o processo que levou Mariana a anunciar a tributação de imóveis acima de 500 mil euros não só foi feito “com o conhecimento do Governo”, como foi “enquadrado numa estratégia mediática aceite pelas duas partes, que estiveram à mesa quer na elaboração da proposta, quer na discussão de como ela se tornava pública”. E para o caso de nem toda a gente ter percebido que era mesmo de traição de que ali se estava a falar, Pedro Filipe Soares voltou a repetir: trata-se de “um processo – insisto – que foi analisado quer pelo Bloco de Esquerda, quer pelo governo, quer com a envolvência do Partido Socialista”.
Estas declarações apenas confirmam o óbvio: Mariana Mortágua falou publicamente do novo imposto com a autorização do Partido Socialista e do governo. Ninguém imaginava que pudesse ser de outra forma. O que o Bloco e o PS imaginavam, isso sim, é que as consequências da comunicação fossem outras. No seu actual delírio colectivista e na sua paixão descabeçada pela igualdade, ambos os partidos acreditavam que um imposto para tributar a terceira vivenda de família acima do meio milhão de euros iria ser festivamente acolhido como um imposto sobre os ricos, e que a classe média rejubilaria – finalmente, Ricardo Salgado iria começar a pagar o que deve! Só que a classe média portuguesa já tem calos nos bolsos, e está habituada a que lhe chamem classe alta há muito tempo. Desconfia, por isso, que mais tarde ou mais cedo os “impostos para os ricos” acabarão por sobrar para si – senão em 2017, talvez em 2018 ou 2020. Podemos baptizar este fenómeno de trickle-down taxes: os impostos começam por ser para os 1% do topo e rapidamente descem por aí abaixo quando se percebe que só com esses não se arrecada dinheiro nenhum (é ver o que se amealhou com o 1% de imposto de selo em casas de valor superior a um milhão de euros).
Quando se junta a má explicação do imposto às declarações de Mortágua no colóquio do PS, o resultado é um cocktail explosivo. Mas este até poderia ser apenas um daqueles azares que acontecem na política, não fosse a velocidade a que o PS roeu a corda do Bloco. Assim que as coisas começaram a aquecer tivemos o primeiro vislumbre da extraordinária consistência daquela união – e de como há muita gente no PS a não achar graça nenhuma à ascensão mediática do Bloco de Esquerda. Vai daí, António Costa, político que faz sempre a mesma finta, como Vítor Paneira, apareceu logo a aplicar a sua especialidade: desvalorizar declarações falhadas oriundas do seu campo político (neste caso, e para variar, não de Mário Centeno, mas de Mariana Mortágua) e garantir que está tudo bem. Só que desta vez a desvalorização não é anódina – ela coloca em xeque a posição dos seus aliados. Na velha arte de espetar facas em costas alheias, o Bloco ainda tem muito a aprender com o PS.