quarta-feira, 8 de dezembro de 1971

Aos Pobres, aos Doentes, a todos que sofrem

MENSAGEM DO PAPA PAULO VI
NA CONCLUSÃO DO CONCÍLIO VATICANO II
AOS POBRES, AOS DOENTES,
A TODOS QUE SOFREM
8 de Dezembro de 1965

Aos pobres, aos doentes, a todos os que sofrem
Para vós todos, irmãos que suportas provações, visitados pelo sofrimento sob infinitas formas, o Concílio tem uma mensagem muito especial. 
O Concílio sente, fixados sobre ele, os vossos olhos implorantes, brilhantes de febre ou abatidos pela fadiga, olhares interrogadores, que procuram em vão o porquê do sofrimento humano, e que perguntam ansiosamente quando e de onde virá a consolação. 
Irmãos muito amados, sentimos repercutir profundamente nos nossos corações de pais e pastores os vossos gemidos e a vossa dor. E a nossa própria dor aumenta ao pensar que não está no nosso poder trazer-vos a saúde corporal nem a diminuição das vossas dores físicas, que médicos, enfermeiros, e todos os que se consagram aos doentes, se esforçam por minorar com a melhor das vontades. 
Mas nós temos algo de mais profundo e de mais precioso para vos dar: a única verdade capaz de responder ao mistério do sofrimento e de vos trazer uma consolação sem ilusões: a fé e a união das dores humanas a Cristo, Filho de Deus, pregado na cruz pelas nossas faltas e para a nossa salvação. 
Cristo não suprimiu o sofrimento; não quis sequer desvendar inteiramente o seu mistério: tomou-o sobre si, e isto basta para. nós compreendermos todo o seu preço. 
Ó vós todos, que sentis mais duramente o peso da cruz, vós que sois pobres e abandonados, vós que chorais, vós que sois perseguidos por amor da justiça, vós de quem não se fala, vós os desconhecidos da dor, tende coragem: vós sois os preferidos do reino de Deus, que é o reino da esperança, da felicidade e da vida; Vós sois os irmãos de Cristo sofredor; e com Ele, se quereis, vós salvais o mundo. 
Eis a ciência cristã do sofrimento, a única que dá a paz. Sabei que não estais sós, nem separados, nem abandonados, nem sois inúteis: vós sois os chamados por Cristo, a sua imagem viva e transparente. Em seu nome o Concílio saúda-vos com amor, agradece-vos, assegura-vos a amizade e a assistência da Igreja, e abençoa-vos.

terça-feira, 7 de dezembro de 1971

Declaração conjunta do Papa Paulo VI e do Patriarca Atenágoras

Ecclesia

«Declaração conjunta do Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras de Constantinopla»

7 de Dezembro de 1965
A declaração conjunta do S. S. Paulo VI e do S. S. o Patriarca Atenágoras I foi lida em francês na sessão pública conciliar de 7 de dezembro e ao mesmo tempo no Fanar do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

DECLARAÇÃO CONJUNTA 

7 de dezembro de 1965

heios de agradecimento a Deus pela graça que, em sua misericórdia lhes outorgou de encontrar-se fraternalmente nos sagrados lugares nos que, pela morte e a ressurreição de Cristo, consumou-se o mistério de nossa salvação e pela efusão do Espírito Santo, nasceu a Igreja, o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I, não esqueceram o projeto que cada um por sua parte concebeu naquela ocasião de não omitir em adiante, gesto algum dos que inspira a caridade e que sejam capazes de facilitar o desenvolvimento das relações fraternais entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa de Constantinopla, inauguradas nessa ocasião. Estão persuadidos de que desta forma respondem à chamada da graça divina que move hoje à Igreja Católica Romana e à Igreja Ortodoxa e a todos os cristãos a superar suas diferenças a fim de ser de novo "um" como o Senhor Jesus o pediu para eles a seu Pai. Entre os obstáculos que entorpecem o desenvolvimento destas relações fraternais de confiança e estima figura a lembrança das decisões, atos e incidentes penosos que desembocaram em 1054, na sentença de excomunhão pronunciada contra o Patriarca Miguel Cerulário e outras duas personalidades pelos legados da sede romana, presididos pelo Cardeal Humberto, legados que foram a sua vez objeto de uma sentença análoga por parte do Patriarca e o Sínodo Constantinopolitano.
Não se pode fazer que estes acontecimentos não tenham sido o que foram neste período particularmente agitado da história. Mas hoje, quando se emitiu sobre eles um juizo mais sereno e justo, é importante reconhecer os excessos com que foram escurecidos e que deram lugar ulteriormente a conseqüências que, na medida em que nos é possível julgar disso, superaram as intenções e previsões de seus autores, cujas censuras se referiam às pessoas em questão e não às Igrejas e não pretendiam quebrar a comunhão eclesiástica entre as sedes de Roma e Constantinopla.
Por isso, o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I e seu Sínodo, seguros de expressar o desejo comum de justiça e o sentimento unânime de caridade de seus fiéis e recordando o preceito do Senhor: "Quando apresentes a sua oferenda no altar e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa tua oferta ante o altar e vê primeiro a te reconciliar com teu irmão" (MT. 5, 23-24), declaram de comum acordo:
a) Lamentar as palavras ofensivas, as recriminações sem fundamento e os gestos imperdoáveis que de uma e outra parte caracterizaram a acompanharam os tristes acontecimentos daquela época.
b) Lamentar igualmente e apagar da memória e da Igreja as sentenças de excomunhão que lhes seguiram e cuja lembrança atua até nossos dias como um obstáculo à aproximação na caridade as relegando ao esquecimento.
c) Deplorar, finalmente, os lamentáveis precedentes e os acontecimentos ulteriores que, sob a influência de diferentes fatores, entre os quais contaram a incompreensão e a desconfiança mútua, levaram finalmente à ruptura efetiva da comunhão eclesiástica.
O Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I com seu Sínodo são conscientes de que este gesto de justiça e perdão recíproco não pode bastar para pôr fim às diferenças antigas ou mais recentes que subsistem entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa de Constantinopla e que, pela ação do Espírito Santo, serão superadas graças à purificação dos corações, ao fato de deplorar os enganos históricos e uma vontade eficaz de chegar a uma inteligência e uma expressão comum da fé apostólica e de suas exigências.
Entretanto, ao realizar este gesto, esperam seja grato a Deus, prestes a nos perdoar quando nos perdoamos uns aos outros e esperam igualmente que seja apreciado por todo o mundo cristão, mas sobre tudo pelo conjunto da Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, como a expressão de uma sincera vontade comum de reconciliação e como um convite a prosseguir com espírito de confiança, de estima e de caridade mútuas, o diálogo que nos leve, com a ajuda de Deus, a viver de novo para o maior bem das almas e o advento do Reino de Deus, na plena comunhão de fé, de concórdia fraterna e de vida sacramental que existiu entre elas com o passar do primeiro milênio da vida da Igreja.

NOTAS: 
Destaques em negrito deste editor.
Jerusalém - Entrevista de 5 de Janeiro de 1964.
O Patriarca começa a entrevista em Inglês.
O Papa diz: entendo o inglês mas não o falo fluente
Patriarca Athenágoras: Então falemos francês.
Paulo VI: Assim será mais fácil para mim... quero lhe comunicar toda minha alegria, minha emoção. Verdadeiramente penso que é um momento em que vivemos em presença de Deus.
A: Em presença de Deus, repito-o.
P: E não tenho outro pensamento que o de falar com Deus enquanto falo com o senhor. Estou muito bem, sua Santidade.
A:.... profundamente emocionado. As lágrimas vêm aos olhos.
P: E como é verdadeiramente um momento de Deus, devemos vivê-lo com toda a intensidade, toda a verdade, todo o desejo de seguir adiante 
A: .... pelos caminhos de Deus.
P: Tem sua Santidade alguma idéia, algum desejo, ao qual eu pudesse corresponder?
A: Temos o mesmo desejo....
P: Pois é, nós somos dois caminhos que possivelmente vão encontrar-se.
A: Temos o mesmo desejo. Assim que eu li nos jornais que o senhor tinha decidido visitar este país, imediatamente pensei que nos encontrássemos aqui e estava seguro que receberia, de sua Santidade a resposta.... (PauloVI: afirmativa) afirmativa, já que confio em sua Santidade. Eu o vejo, eu o vejo, sem querer adulá-lo, nos Atos dos apóstolos, eu o vejo nas Cartas de São Paulo, de quem o senhor toma o nome, eu o vejo aqui, sim, eu o vejo.
P: Falo-lhe como irmão: saiba que tenho a mesma confiança no senhor. Penso que a Providência escolheu o senhor para continuar esta história.
A: Eu penso que a Providência escolheu o senhor para abrir o caminho de seu predecessor.
P: A Providência nos escolheu para que nos entendêssemos.
A: Os séculos o esperavam, para este dia, este grande dia... que alegria... nesta pequena peça. Que alegria havia no Sepulcro, que alegria havia no Gólgota, que alegria no caminho que o senhor fez ontem. [a Via sacra]
P: Estou de tal maneira transbordante de impressões que fará falta muito tempo para deixar que se acalmem (sorriso) e interpretar toda esta riqueza de emoções que tenho em meu espírito. Mas quero aproveitar este momento para lhe expressar a lealdade absoluta com a qual sempre tratarei com o senhor.
A: Digo o mesmo.
P: Nunca lhe ocultarei a verdade.
A: Sempre terei confiança.
P: Não tenho nenhum desejo de decepcioná-lo, de abusar de sua boa vontade. Não desejo outra coisa que seguir o caminho de Deus.
A: Tenho uma confiança absoluta em Sua Santidade. Absoluta, absoluta. Sempre terei confiança, sempre estarei de seu lado.
P: Para não faltar a merecê-la, agora saiba Sua Santidade que rezarei todos os dias por Ela e pelas intenções que temos em comum pelo bem da Igreja.
A: Dado que temos este grande momento, estaremos juntos. Caminharemos juntos.... Ver sua Santidade, a sua Grande Santidade enviada por Deus, sim, o Papa de grande coração. O senhor sabe como o chamo? megalo-kardos, o Papa de grande coração.
P: Nós somos pequenos instrumentos.
A: É necessário ver as coisas assim.
P: quanto menores somos, somos melhores instrumentos, quer dizer que a ação de Deus deve prevalecer (Athenágoras: prevalecer) e ser a proprietária de todas nossas ações. Pela minha parte, vivo na docilidade, no desejo de ser o mais obediente à vontade de Deus, e de ser para o senhor, Santidade, para seus irmãos, para seu meio, o mais pormenorizado possível.
A: Acredito, sem pedi-lo, acredito.
P: Eu sie que é difícil, eu sei que há dificuldades, que há uma psicologia mas sei também.... (Athenágoras: por ambos os lados), que há uma grande retidão e o desejo de amar a Deus, de servir à causa de Jesus Cristo. É sobre isto que eu tenho confiança.
A: Nisto tenho confiança, junto, juntos....
P: Não sei se for o momento, mas vejo o que faria falta, quer dizer estudar (Athenágoras: estudar) juntos ou designar alguém.
A: Sim, de ambos os lados.
P: Eu gostaria de conhecer qual é a idéia de sua Santidade, de sua Igreja sobre a constituição da Igreja. É o primeiro passo.
A: Seguiremos suas opiniões.
P: Direi-lhe o que acredito, que é o exato, o que deriva do Evangelho e da vontade de Deus e da autêntica tradição. Direi-lhe. Se houver pontos que não coincidem com sua idéia da constituição da Igreja....
A: O mesmo da minha parte.
P: Discutiremos, procuraremos encontrar a verdade.
A: O mesmo de nossa parte e estou seguro que sempre estaremos juntos.
P: Eu espero, eu penso, que possivelmente será mais fácil que do que nós pensamos. Há 2 ou 3 pontos de doutrina nos que evoluímos já, que se progrediu em seu estudo e que quereria explicar - a seu critério se lhe parecer - aos seus teólogos o porquê disto, sem pôr nisto nada de artificial nem acidental mas o que acreditamos, é o pensamento autêntico (Athenágoras: no amor de Jesus Cristo). E outra coisa que parece secundária mas que tem sua importância: tudo o referente à disciplina, as honras, as prerrogativas, estou bem disposto a escutar o que Sua Santidade acreditar ser o melhor.
A: O mesmo da minha parte
P: Nenhuma questão de prestígio, de primazia que não seja a que foi fixada por Cristo; mas no que diz a honras, privilégios, nada disso. Vejamos o que Cristo nos pede e que cada um tome sua posição mas não com parâmetros humanos de prioridade, de elogios, de vantagens, mas sim de serviço.
A: Como o senhor me é querido no mais profundo de meu coração....!