segunda-feira, 17 de dezembro de 2001

Terra dos livres, lar dos bravos

João Carlos Espada
Público, 2001.12.17
EDUARDO Prado Coelho voltou a brindar-me com uma crítica no jornal «Público». Desta vez, EPC critica-me pelo meu elogio a Harry Potter. Mas, o que realmente o indignou foi o facto de eu ter associado talibãs e pós-modernos. Isso não é possível, diz EPC, porque os talibãs têm uma verdade única e os pós-modernos negam os fundamentos de qualquer verdade. Para EPC, talibãs e pós-modernos são pólos opostos e eu, bem lá no fundo, estaria mais perto dos talibãs.
O facto, no entanto, é que os pós-modernos têm uma verdade, a que se apegam com grande entusiasmo: a de que não existe verdade. E mais: a de que essa verdade que a verdade não existe é a única base para a democracia, a liberdade e a tolerância. Devido a estes pressupostos, eles querem «educar-nos». E querem que o Estado adopte uma ideologia educativa oficial: a de que não existe verdade. Esta é a ideologia hoje propagada pelas escolas do Estado, pelas campanhas de «educação sexual» do Estado, na verdade, por todo e qualquer «intelectual» que se pretenda progressista — e queira ir à televisão ou receber um subsídio.
Deixarei de lado a questão filosófica, que abordei noutros lugares. Politicamente, o argumento pós-moderno é simplesmente autoritário. Esquece que a democracia não tem ideologia oficial. Ela assenta no governo representativo, limitado pela lei. A lei protege a liberdade e a segurança dos cidadãos e dos seus modos de vida — contra, designadamente, as tentativas centrais de redesenhar os modos de vida das pessoas de acordo com projectos ideológicos particulares. Uma das prerrogativas dos cidadãos e dos seus modos de vida é a de educarem os filhos em liberdade — bem como o de se autogovernarem como bem entenderem.
Este é o entendimento da democracia que emergiu da Magna Carta de 1215, da Revolução Inglesa de 1688 e da Revolução Americana de 1776. Mas existiu outro entendimento — o jacobino. Embora nunca tenha dado origem a democracias, reclamou-se da «verdadeira democracia». E emergiu da Revolução Francesa de 1789 e da Revolução Soviética de 1917.
Aqui, a democracia tem uma ideologia: a dos chamados «intelectuais avançados» que, em regra, é anti-religiosa, anticapitalista e defensora da igualdade. Se a «populaça» for religiosa, ou pró-capitalista, ou pela meritocracia, a democracia jacobina terá de «libertá-la» desses preconceitos. E lá vem o Estado educador impor aos cidadãos uma «verdade avançada» — que não é a deles. Os pós-modernos são os jacobinos de hoje. A sua «verdade avançada» é que não existe verdade, que a religião é o ópio do povo, o mercado um instrumento de exploração, e que a «populaça» — porque ignora estas verdades — é atrasada e precisa de ser «libertada».
Por isso, o principal inimigo dos pós-modernos (tal como dos talibãs) é a América. Porque a América é a democracia que mais ousa desafiar a ideologia autoritária dos pós-modernos. É a democracia mais religiosa e, simultaneamente, a que lidera a inovação científica e técnica. É a que tem mais orgulho em se fundar no mercado e empresa livre. É a que menos atribui à oligarquia dos «intelectuais avançados» o dinheiro dos nossos impostos para eles ofenderem tudo aquilo em que acreditamos: não há Ministério da Cultura; a lei permite que os filhos sejam educados em casa (há 2,5 milhões de crianças e adolescentes nessa situação, com excelentes resultados nos exames de acesso às universidades); e várias reformas democráticas estão em vias de quebrar o monopólio dos sindicatos sobre o sistema de ensino estatal.
Esta é a América que os pós-modernos e os talibãs odeiam, a América que não vai para onde eles mandam, mas que protege — pela força das armas, quando necessário — os modos de vida livres dos seus cidadãos. Por isso, estes orgulham-se dela como «land of the free, home of the brave».

quinta-feira, 29 de novembro de 2001

As falsas vítimas

João César das Neves, DN, 20011029
Os terroristas de Setembro justificaram o seu acto cruel pelo facto de serem... vítimas. A suposta legitimidade para matar milhares de inocentes vinha da resposta ao alegado imperialismo americano. Este raciocínio é típico desta época e, embora em geral menos sangrento, é hoje partilhado por muita gente. Vivemos num período em que grande parte da violência, mesmo a mais infame, é apresentada como indemnização de vítimas.
Uma das nossas grandezas é, sem dúvida, a grande preocupação com a equidade e a justiça. Desde o último século que se vive um grande movimento, de leis, programas e instituições para defesa e promoção dos pobres e desprotegidos, dos excluídos e minoritários. O juízo da História irá, certamente, sublinhar a generosidade e o valor do nosso grande interesse pelas vítimas da opressão, desvantagem e discriminação. Mas até os ideais mais elevados podem ser corrompidos. Por isso, frequentemente a luta contra a injustiça é invocada com propósitos muito pouco dignos ou até francamente viciosos. Numa época de relações públicas, é sempre bom ganhar uma imagem de oprimido e injustiçado, para tocar na corda sensível da nossa cultura. Mesmo os agressores o fazem.
Este processo tornou-se rotina. Os sindicatos e empresas, ao lado de verdadeiras queixas, misturam muitas falsas. Trabalhadores e empresários consideram-se automaticamente vítimas de exploração do patrão ou do Estado, independentemente das condições objectivas. A classe operária, mesmo com as regalias actuais, é por definição oprimida e o patronato sente-se sempre injustiçado pelos impostos. Ambos vêem nesse facto a justificação para as exigências mais variadas. Assim, gravíssimas injustiças são apresentadas como "justas reivindicações" para compensar alegados agravos. As verdadeiras vítimas acabam por ser os clientes e os contribuintes, roubados pelos falsos mártires da exploração.
Claro que hoje existem muitos infames abusos. Mas esses, normalmente, passam despercebidos. Vale a pena não esquecer que uma das características mais sensíveis das verdadeiras vítimas é o silêncio e o anonimato. Os crimes são, em geral, feitos às escondidas. Por isso, quando se ouve falar muito de um caso, isso é já um excelente sinal de que o problema não é grave ou está em vias de solução. Foi sempre assim. Na aventura colonial, por exemplo, os países europeus denunciavam ataques mútuos, justificando assim as agressões que praticavam. Mas os autênticos sacrificados eram os índios e os escravos, de quem ninguém falava.
Os casos multiplicam-se. Os homossexuais e as uniões de facto, apesar de viverem triunfantes nos tempos que correm, fazem grande alarde para se apresentarem como vítimas da sociedade. No entanto, quem realmente está a sofrer uma pressão terrível, mediática, legal e cultural é o matrimónio e a família. Múltiplos grupos sociais querem tratamento de excepção devido a agravos fictícios.
Médicos, professores ou camionistas mostram-se sempre humilhados e ofendidos.
Até os canhotos querem ser beneficiados, dizendo-se oprimidos por uma sociedade de destros, numa paródia grotesca aos problemas dos verdadeiros deficientes.
Num tempo que se preocupa tanto com as minorias, acabam por ser as pessoas banais, os cidadãos comuns, os contribuintes normais as verdadeiras vítimas dos interesses organizados, que se apresentam como minorias esquecidas e atacadas. Uma das manifestações mais recentes está no ressurgimento de agravos antiquados, exigindo-se reparações às gerações seguintes dos perpetradores. Começou com os descendentes das vítimas dos nazis, pretendendo que parentes ou sucessores longínquos das pessoas ou empresas que oprimiram os seus antepassados os indemnizem agora principescamente décadas após o acontecido. Na recente reunião da ONU, a prática quis alargar-se aos delitos dos colonizadores de há séculos. Ninguém duvida da gravidade do crime antigo. Mas também é evidente a injustiça de uma restituição anacrónica imposta a inocentes. Pessoas que não são vítimas recebem de pessoas que não são culpadas, as quais acabam por ser as reais vítimas.
A atenção ao verdadeiro sofrimento é vital na sociedade. Mas as coisas nem sempre são tão simples e lineares como parecem, e muitas queixas escondem verdadeiros ataques. Sobretudo é preciso rejeitar a ideia-base de que "ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão". Um mal nunca justifica outro mal; e se a vítima do roubo se sente justificada em reciprocar ao agressor, a lógica leva a uma espiral de roubo e violência que tantas vezes surge neste tempo tão justo, precisamente por causa desta falácia. As falsas vítimas existem desde a velha fábula do lobo e do cordeiro. O carnívoro sente-se obrigado a esconder a sua voracidade debaixo do agravo pueril de lhe terem turvado a água. E também ele, como tantos hoje, usa pretextos anacrónicos: "Se não fostes tu, foi o teu pai."

segunda-feira, 26 de novembro de 2001

Guerra Santa

João César das Neves
DN 2001.11.26

As grandes religiões, incluindo o Islão, estão todas de acordo: Deus não gosta nada da violência e da guerra. Ele é o Deus da paz. Mas uma distorção subtil deste ponto tem vindo a ser usada para fazer guerra à religião. Diz ela que a luta entre crentes é inaceitável em qualquer situação. Ela é mesmo incompreensível. O nosso tempo não entende que alguém lute e morra em nome de Deus. Por isso despreza a religião.
A agressão é sempre, obviamente, inaceitável. Existe apenas um caso em que a violência se justifica, a legítima defesa. Foi essa a razão que os americanos invocaram para este ataque. O argumento é muitas vezes abusado, mas isso não lhe tira a lógica. Todos a aceitamos. Os combatentes pela liberdade têm um lugar elevado na glória da sociedade ocidental. A nossa opinião pública, tal como todas as culturas em todos os tempos, percebe perfeitamente que uma pessoa ou um povo se levantem em armas para defender as suas vidas, casas, modo de ser. O que não compreende, ao contrário das culturas de todos os tempos, é como alguém pode lutar pela sua fé. Até hoje, o ser humano sempre achou normal que, entre as coisas por que se está disposto a morrer, esteja o valor supremo da religião. Vivemos na primeira época que o desconhece. Quem é aqui o obscurantista?
Esta nossa limitação manifesta-se de várias formas. Fazemos, por exemplo, enorme ginástica mental para conseguir explicar por razões socioeconómicas, que são as únicas que verdadeiramente entendemos, o comportamento dos cruzados da fé e dos mártires da religião. Essas complexas elaborações lógicas, de que estamos tão orgulhosos, pretendem mostrar a ingenuidade dos que, na nossa visão materialista, pensam morrer por Deus mas apenas servem interesses produtivos. Realmente, a única coisa que tais raciocínios mostram é a nossa indigência espiritual e intelectual.
Ficaríamos muito ofendidos se alguém justificasse por motivos interesseiros a luta generosa dos voluntários da Guerra de Espanha ou da resistência ao nazismo. Mas não nos damos conta da aleivosia que cometemos na interpretação dos combates de religião. Se fosse por problemas de mercearia, acharíamos razoável que lutassem, mas não por convicções. Quem é aqui o fanático?
Um caso interessante, de que tanto se tem falado, é o das Cruzadas. Vistas como a suprema tolice do Ocidente e como uma infâmia histórica, essas expedições são tão intensamente desprezadas como incompreendidas. É importante notar que as Cruzadas têm muito pouco a ver com o ódio entre cristãos e muçulmanos. De facto, Jerusalém e a Terra Santa foram conquistadas pelas forças islâmicas logo em 637, cinco anos após a morte do profeta, mantendo-se debaixo do poder árabe ao longo de todos os séculos seguintes.
Mas este facto, naturalmente dramático para judeus e cristãos, não despoletou nenhum levantamento ou "guerra santa" por parte da Europa. O califa Omar e os seus sucessores permitiram as peregrinações aos lugares santos e em breve tudo se normalizou. Foi só quando em 1055 os turcos seldjúcidas tomaram a Palestina que as coisas mudaram radicalmente.
Os turcos oprimiam igualmente muçulmanos, judeus e cristãos. E, acima de tudo, fecharam a Terra Santa aos devotos. Para os medievais, esse atentado constituiu uma ofensa muito mais grave do que o corte do petróleo seria para nós. Quando, depois de várias tentativas diplomáticas falhadas, o papa Urbano II apelou em 1095 à primeira cruzada, toda a Europa aderiu entusiasticamente, porque compreendeu bem o seu significado. Poucos sabem hoje que este papa, que assim chamava os exércitos a lutar por Cristo, estava desterrado de Roma há anos pelas lutas na cidade. Mas nada parecia importante ao lado da impossibilidade de visitar o lugar da Ressureição. De todo o lado vinham pessoas alistar-se para poder arriscar vida, bens e viver em condições miseráveis. Mas faziam-no em nome do que tinham de mais elevado, a sua fé.
Obviamente que nas Cruzadas se cometeram excessos horrorosos e chacinas inaceitáveis, que aliás o papa, a Igreja e a sociedade condenaram. É assim em todas as guerras. Mas a origem e motivação destas incluem uma grandeza de espírito que falta aos nossos tempos.
A nós, não é tanto o problema da guerra que nos choca nos acontecimentos antigos e recentes; é mesmo a parte religiosa. Compreendemos que alguém lute e morra pelos valores em que acredita. O que nos custa é acreditar em Deus.
A fé é caminho de paz, como a Igreja o mostrou sempre ao longo dos séculos.
O nosso dever hoje é trabalhar pela harmonia entre os povos e o diálogo das culturas. Por isso, é muito triste e sério que pessoas, devido a uma horrorosa distorção na compreensão do que Deus quer, se entreguem ao morticínio em nome da sua fé. Mas é também muito triste e sério ver tantos que, atulhados em ocupações e delícias, não elevam os olhos acima da poeira. Desprezam mártires e cruzados só porque lhes falta ideal de vida mais alto que o seu ventre.

sábado, 17 de novembro de 2001

O bem e o mal

António Pinto Leite
Expresso, 2001.11.17 

O mês de Novembro do ano 2001 foi o tempo em que uma organização terrorista, capaz do crime de Nova Iorque, ameaçou o Mundo com o uso de armas nucleares.
Estes são os dias em que potências nucleares escondem as suas próprias armas, ou se desdobram, talvez mais do que nos bombardeamentos no Afeganistão, a proteger as suas centrais nucleares.
Neste contexto, a Humanidade vive com ansiedade diária a nova guerra. A questão de fundo, todavia, está para além dos protagonistas concretos do momento. A questão de fundo da actualidade é uma luta de ontem, de hoje e de sempre, é a luta entre o Bem e o Mal.
O Bem e o Mal não tanto entendidos como categorias morais, mas como conceitos que se jogam na fronteira patológica do demoníaco.
O Mal existiu, existe e existirá sempre. O Ocidente não tem, sequer, razões para se orgulhar: a evidência mais cruel da maldade humana recente pertence-lhe. Foi Hitler.
O que hoje há de novo na tensão entre o Bem e o Mal é a dimensão assustadora das armas de que o Mal dispõe.
O que se tornou qualitativamente diferente na História do Homem é a capacidade que o Mal tem de, não só destruir homens, como destruir a Humanidade.
A ansiedade diária pela nova guerra transforma-se numa pressa inútil se admitirmos que os terroristas de hoje mais não são do que a expressão da própria condição humana e daquela sua tremenda dualidade.
Olhar Bin Laden como causa aleatória de um tempo de terror, por pior que ele seja, é bem mais tranquilizante do que olhá-lo como sintoma natural da própria natureza humana.
A primeira versão torna-o perigoso mas derrotável. A segunda versão torna-o passageiro, é certo, mas imbatível, porque a natureza humana é, ela mesma, intorneável.
O conceito terrorista de não limite no uso das armas disponíveis, conjugado com as potencialidades mortíferas do arsenal de armas criadas pelo Homem, mais do que um acontecimento, desenha-se como um precedente.
Agora é a causa islâmica que inspira este momento e é o milionário saudita o seu grande animador. Mas não estarão criadas as condições - a perversidade marginal do Homem e as novas armas disponíveis - para que, amanhã, seja outra a causa e outros os animadores, sendo que as armas serão cada vez mais mortíferas e mais acessíveis?
E o potencial catastrófico das armas existentes não constitui, ele próprio, um factor fascinante e desencadeante da maldade humana?
O Mal é próprio da condição humana e, por isso, as suas consequências são recorrentes na vida em comum.
A visibilidade que hoje se pode ter do futuro permite perceber, por exemplo, como será transtornante o efeito para a Humanidade do acesso e da manipulação das ciências da vida por mentes perversamente orientadas. Levará dez, vinte ou cinquenta anos, mas chegará o dia em que a manipulação genética cairá também nas mãos deste tipo de personalidades e de organizações.
O verdadeiro problema da Humanidade é como passar a conviver com o Mal tendo-lhe dado a possibilidade quase decisiva de destruir o Homem ou de o tornar irreconhecível.
É preciso ganhar a guerra a curto prazo, para ir a tempo de repensar a Humanidade a longo prazo.
O mundo que combate o terrorismo combate o Mal, é certo, mas não representa, só por isso, o Bem. É sobre isso que é preciso reflectir e a partir daí transformar.
Quando potências nucleares se apressam a esconder os seus arsenais de um inimigo que não vêem, não vale a pena fazer de conta.

quarta-feira, 14 de novembro de 2001

O Sino da Minha Aldeia

Impressiona-me neste artigo a verificação de que a verdade do significado das coisas (como o ritmo do tempo marcado pelo sino da igreja que sacraliza o tempo, isto é, que reconhece a sua origem no Senhor de todas as coisas) é verdadeira para todos, sobretudo para aqueles que vivem de foma mais emenhada a sua humanidade, mesmo que a percebam superficial ou confusamente.
Fico contente por isso.
Pedro Aguiar Pinto
O Sino da Minha Aldeia EDUARDO PRADO COELHO
Público, Quarta-feira, 14 de Novembro de 2001


Dizem os jornais que a Direcção-Geral do Ambiente solicitou à Igreja Católica o cumprimento da lei do ruído. Ao que parece, há pessoas que não conseguem dormir porque os sinos lhes interrompem o sono. Sobretudo (e neste ponto não se pode deixar de lhes dar razão) quando os sinos por campânulas são substituídos por mecânicos sistemas de amplificação sonora.

Propõe-se assim que, sobretudo entre as 22 horas e as 7 horas da manhã, os sinos deixem de tocar - para que cada um possa ter o merecido repouso, obtido muitas vezes à custa de um "stress" acumulado e do apoio de soporíferos. Parece que na lei do ruído a Igreja é a principal prejudicada: não apenas está em causa o toque dos sinos, como as normas para a sua intensidade, que têm de ter em conta o que a legislação prescreve relativamente à proximidade de escolas, zonas habitacionais e espaços de recreio e lazer. E basta uma queixa para que a Igreja seja multada.

Acreditamos que as pessoas sofrem mesmo com estas formas de poluição sonora que são os sinos. O que isso significa é que algo na vida delas se empobreceu - e sobretudo que algo se perdeu na qualidade de vida de todos nós. Porque o toque dos sinos - que deveria ser tão pouco incomodativo como para o antigo moleiro o ruído da roda do moinho, que apenas o acordava quando deixava de rodar - foi sempre um sinal de paz, de serenidade e de aceitação deslumbrada da evidência das coisas.

Se os sinos nos incomodam, é porque nós perdemos algo de fundamental: deixámos de ser capazes de ouvir o silêncio. Porque o silêncio não é o não ouvir coisa nenhuma: é o sentimento dessa respiração nocturna donde os sons vêm e para onde os sons regressam. E o que nós queremos, no enredo neurótico das nossas vidas, é esconder a cabeça debaixo das almofadas e não ouvir absolutamente nada - em vez de sentirmos a felicidade dos sons que atravessam a noite: cães que ladram de casa em casa, sinos que tocam devagarinho por dentro das pálpebras.

Como escreveu Joaquim Manuel Magalhães, nesse extraordinário livro que é "Alta Noite em Alta Fraga", "ninguém acerta o relógio por um sino". E Fernando Pessoa, ao explicar que o sino da sua aldeia era o sino que tocava na sua igreja do centro de Lisboa, mostrou como cada uma das suas badaladas soa, não na rua, não no ar, nem sequer no céu, mas, sempre repetida, sempre a primeira que repete outra anterior que desde sempre existiu, "dentro da minha alma".

Se hoje já não somos capazes de ouvir as lentas badaladas das campânulas longínquas, é porque perdemos a capacidade de sentir esse espaço interior do mundo a que os poetas chamam "alma". E a alma não é mais do que isso: o lugar onde os sinos tocam.

terça-feira, 13 de novembro de 2001

A Banalidade do Mal

JOSÉ VÍTOR MALHEIROS
Público, Terça-feira, 13 de Novembro de 2001

Nunca um acidente de um enorme avião de passageiros foi recebido com maior frieza que o do Airbus que ontem se esmagou no bairro de Queens, em Nova Iorque, matando todos os seus ocupantes.

Depois de um primeiro momento de suspensão, em que se receou que pudéssemos reviver os momentos do ataque às torres do World Trade Center, em que se imaginou um segundo aparelho espetando-se na parede espelhada da sede das Nações Unidas, ou outro desastre encenado frente às câmaras que apontavam à distância para Queens, a adrenalina diminuiu até a excitação se transformar numa quase indiferença, à medida que a tese do possível ataque terrorista não era confirmada pelos dados.

Claro que a população das zonas limítrofes teve o seu momento de pânico (não é todos os dias que cai um avião na nossa rua), mas mesmo os moradores de Queens que foram entrevistados pelas televisões mostravam um sangue-frio de cirurgiões de Serviço de Urgência e faziam uma descrição factual e detalhada, digna do mais empedrenido dos pivôs televisivos. Reacções tanto mais surpreendentes quanto o acidente teve lugar em Nova Iorque e não num canto perdido da Ásia, com o qual a empatia podia ser mais difícil, e para mais num bairro residencial e não numa montanha inóspita, onde é sempre mais fácil aceitar que as desgraças aconteçam.

A verdade é que o 11 de Setembro colocou o nosso limiar de tolerância do horror num patamar de um nível diferente daquele onde se encontrava antes.

A encenação de mestre dos terroristas (Stockhausen teve o mau gosto de lhe chamar "obra de arte") joga assim, de alguma forma estranha, contra o terrorismo. Será cada vez mais difícil aterrorizar, como é cada vez mais difícil chocarmo-nos com a violência do cinema, ou mesmo impressionarmo-nos com a montra de crueldades dos telejornais.

Hannah Arendt falava da banalidade do mal a propósito de Adolf Eichmann, referindo-se à vulgaridade dos carrascos nazis, ao hábito da crueldade, à perda de sentido com que a rotina embebe a tortura. Mas há também uma banalidade do mal do ponto de vista de quem vê, não apenas de quem executa. O horrível acidente de ontem, com os 255 passageiros e tripulantes que morreram no choque e no incêndio, além dos não se sabe quantos moradores, foi uma manifestação de mais algo que se perdeu desde o 11 de Setembro. Antes só nos impressionávamos com o sofrimento próximo, de agora em diante só nos vamos impressionar com exibições de sofrimento de massas e espectaculares ("artísticas"?).

As pessoas protegem-se dos sentimentos que as perturbam. A fuga da dor alheia é uma das consequências da banalidade do mal à nossa volta. Mas se torna mais difícil o medo, torna também mais longínqua a nossa humanidade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2001

O maior dom

João César das Neves

Diário de Notícias, 20011112

Tempo é dinheiro. E nos tempos que correm, com a enorme ocupação geral, tempo é mesmo muito dinheiro. Por isso, dar tempo aos outros é hoje uma das ofertas mais difíceis e valiosas que se podem fazer. Estamos no Ano Internacional dos Voluntários, iniciativa com que a ONU pretende chamar a nossa atenção para a miríade de actividades desinteressadas em que, um pouco por todo o mundo, muitas pessoas se entregam em solidariedade ao próximo. Dada a estrutura da vida moderna, estas iniciativas contam-se entre as dádivas mais generosas da sociedade contemporânea. A opinião corrente é que vivemos num mundo egoísta e impiedoso, mesquinho e calculista, onde nada se dá sem receber algo em troca. No entanto, nesta como em todas as épocas, existem muitos exemplos grandiosos de benevolência generosa e altruísmo empenhado que nascem de uma nobre atitude de vida. As sociedades mecânicas e capitalistas, onde o poder de mercado domina, são também aquelas que mais se têm destacado nestas acções voluntárias. Aliás, o progresso económico é mesmo um dos principais factores decisivos na promoção dessa realidade. Fazendo subir o nível de vida e, sobretudo, criando tempo livre, ele permite às pessoas que se sentem interpeladas pelo sofrimento alheio ou por causas sociais o acesso aos meios para atender a essas necessidades. Claro que sempre houve ajuda desinteressada e gratuita, muitas vezes heróica e revolucionária. A diferença agora está nas novas características particulares, típicas do nosso tempo. Aquilo que as gerações antigas faziam muitas vezes de forma entusiasta mas improvisada é hoje realizado de maneira orgânica, rigorosa e planeada. Num tempo que se considera eficiente e produtivo, o voluntariado representa a formalização da beneficência e a sistematização da caridade. Esses organismos são em geral instituições caracteristicamente actuais, compartilhando da visão corrente do mundo e usando os métodos e técnicas contemporâneos. Nas sociedades ocidentais mais avançadas, o voluntariado é hoje já uma acção vastíssima e diversificada, com forte impacte local e mundial. São múltiplas as pessoas que se empenham em instituições de natureza muito diversificada. Alguns dedicam muito do seu tempo livre a actividades humanitárias, culturais e artísticas. Apoiam museus, escolas, hospitais, prisões, câmaras municipais, ajudam pobres e doentes, drogados ou abandonados, promovem a história, a música ou o folclore, protegem o ambiente e a qualidade de vida, incitam ao diálogo inter-racial e intercomunitário. Outros, em geral ligados a "organizações não governamentais para o desenvolvimento" (ONGD), partem para regiões subdesenvolvidas entregando alguns anos da sua vida aos mais pobres. A iniciativa de dar a conhecer esta realidade é meritória porque de facto muito deste trabalho, de grande valor, acaba por ficar ignorado. Em Portugal, por exemplo, a pouco conhecida Leigos para o Desenvolvimento é a ONGD nacional com mais cooperantes no terreno, envolvendo à volta de trinta pessoas por ano em projectos directos nos países pobres. Em São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Malawi, Timor e também aqui em Portugal, esta pequena organização já integrou dezenas de cooperantes na criação de escolas, cozinhas sociais, bibliotecas, centros de apoio à infância, à terceira idade e à ocupação de tempos livres, apoiou a alfabetização, os refugiados, a agricultura e até a construção dos edifícios correspondentes, deu serviço em hospitais, instituições de ensino, e tantos outros. Com pouco mais de 15 anos de existência, este grupo católico, ligado à Companhia de Jesus, é simplesmente constituído por pessoas comuns, dispostas a dedicar pelo menos dois anos da sua vida a ajudar os mais necessitados. Estes voluntários, normalmente jovens, interrompem as suas carreiras profissionais e deixam as suas famílias. Em troca recebem uma experiência humana única que os marcará para sempre. E esta é apenas uma entre múltiplas e variadas ONGDs portuguesas, sendo Portugal um País onde, ainda assim, este fenómeno está no seu início. Na Europa Ocidental e na América do Norte são sobretudo os jovens e os idosos os grandes intervenientes nestas actividades. A razão principal está ligada à sua maior disponibilidade, mas também ao grande proveito que daí tiram. Para a juventude e a terceira idade, o voluntariado é uma forma excelente de se integrarem na sociedade que é, já e ainda, a sua. Abandonando o divertimento acéfalo em que tantos os querem prender e repudiando a crítica derrotista, fácil e azeda aos males do mundo, mostram assim que são cidadãos de corpo inteiro, úteis e construtivos. A sua nobre atitude de vida dá um sinal de esperança no concreto da resolução de problemas. O voluntariado é a manifestação em pleno de uma das maiores verdades da humanidade: é dando que se recebe. E o maior dom é um pedaço da própria vida.

naohaalmocosgratis@vizzavi.pt

domingo, 4 de novembro de 2001

Um Certo Islão e Um Certo Ocidente

ANTÓNIO BAGÃO FÉLIX*
Público, Domingo, 4 de Novembro de 2001


O que certo Islão fanatizou por excesso, certo Ocidente banalizou por defeito: a religião.

O que certo Islão transformou em imposição e intolerância, certo Ocidente escarneceu com pretensa superioridade: a tradição.

O que certo Islão assassinou na perseguição, certo Ocidente desvalorizou no comportamento: a virtude.

O que certo Islão fingiu combater, certo Ocidente conseguiu trivializar: o vício.

O que certo Islão diabolizou, certo Ocidente relativizou: o bem.

O que certo Islão espalhou, certo Ocidente consentiu: o mal.

O que certo Islão abusou, certo Ocidente corrompeu: o respeito pela Vida.

O que certo Islão anulou, certo Ocidente deixou de consultar: a consciência.

O que certo Islão proibiu, certo Ocidente comercializou: o prazer sem limites.

O que certo Islão desviou para o mal, certo Ocidente idolatrou como fim supremo: o dinheiro.

O que certo Islão fabricou em nome do mal, certo Ocidente destruiu em nome do igualitarismo: líderes.

O que certo Islão perpetuou, certo Ocidente ignorou: a pobreza.

O que certo Islão aproveitou, certo Ocidente semeou: a indiferença.

O que certo Islão quis utilizar demoniacamente, certo Ocidente quis tornar dispensável: Deus.

Não admira, neste contexto, a coligação negativa entre este (in)certo Islão e este (in)certo Ocidente. Os extremos embora não se fundam, tocam-se. De um lado, um errado, obscuro e insuportável moralismo; do outro um neutral, anódino e asséptico amoralismo. O que prova, em ambos os casos, que moralismo e amoralismo podem nada ter a ver com a moral baseada na dignidade inalienável da pessoa humana e na defesa do bem comum.

Neste certo Ocidente está uma Europa, amorfa, lenta, gordurosa de palavras e raquítica de carácter, que, enquanto tal, só existe nos tratados e nos directórios europeus, mas que não existe na sociedade e deixou de fazer história. Fala-se, à saciedade, de taxas, de percentagens, de moeda, de quadros de apoio, de regiões, de geometria variável, de coesão, de programas. Ao mesmo tempo, minguam as referências éticas, valorativas, geracionais, familiares - coisas, por certo, antiquadas para alguns - e definha o caudal que gerava líderes capazes de unir, robustecer, encorajar, orientar as pessoas.

Perante este cenário de fraqueza, uma perigosa nova "bomba atómica" está aí. A pérfida coligação do mal com a inteligência quer arrasar a saudável coligação do bem com a sensibilidade. E há quem nesta nossa periclitante civilização teime em fazer, mesmo que inconscientemente, a sua propaganda mediática.

O mal não pede autorização, nem suporta hediondas e ineficientes teias burocráticas. Ao contrário do bem que, não raro, tem que obter licença e resistir aos entraves de mil e uma coisas.

Enquanto em certo Islão, Bush e Blair são "queimados", em certo Ocidente decadente e totalmente permeável, arriscamo-nos a ver Osama Bin Laden passar de vilão assassino a herói romântico. Uma espécie de Che Guevara do fundamentalismo...

Asfixiadas por um indiferentismo que adormece, anestesia, fere e até deixa matar, as sociedades democráticas, livres e abertas não estão preparadas para combater o mal nas suas formas mais insidiosas, cobardes e paradoxalmente mais artesanais. Como o efeito da pedra lançada à água, o terrorismo aproveita-se também das psicoses que sempre seguem acções criminosas. As pessoas sentem-se ameaçadas por um qualquer pó, por uma qualquer contaminação, por uma qualquer perturbação ou anomalia. As pessoas são, de facto, menos livres.

Será que vamos ser capazes de superar esta batalha que temos de travar dentro das nossas portas, mas que nem sempre enxergamos com clareza, lucidez e frontalidade?

*Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz


Afeganistão: Uma Guerra com Sexo

ZITA SEABRA
Público, Domingo, 4 de Novembro de 2001

Já se entendeu em todas as guerras recentes que tão importante como a condução das operações militares no terreno é a capacidade de fazer propaganda. Está em muitas memórias a influência decisiva da divulgação da fotografia da menina vietnamita bombardeada com Napalm para o desenlace da guerra do Vietname, e ainda não estávamos, como hoje, na era das comunicações, da televisão, da Net.

Vivemos presentemente um tempo em que tudo está tão próximo de nós, que temos a sensação de que a informação é neutra e isenta, que não é possível que ninguém a filtre e que somos nós, cada um de nós, que está no terreno a julgar com os seus próprios olhos o que se está passando. Há, porém, um momento em que consciencializamos o que estamos a ver e sobretudo o que estamos a não ver. É esse o momento em que a passividade do telespectador dá lugar à indignação, por vezes tão profunda que temos necessidade de a partilhar com outros.

Tudo isto vem a propósito das imagens que nos chegam do Afeganistão, particularmente das filmagens de vítimas civis dos bombardeamentos que ocorrem há três semanas. São imagens cedidas por um canal Árabe, autorizadas pelos taliban, filmadas no Afeganistão e retransmitidas pelos canais de televisão de todo mundo, incluindo as televisões portuguesas. São imagens de feridos civis nos hospitais afegãos, de pessoas feridas deitadas nas camas das enfermarias ou de pessoas feridas nas aldeias, ou nas cidades do país que se encontra sob os bombardeamento.

Ontem, vendo mais uma vez imagens, repentinamente consciencializei que até hoje não se viu, ninguém mostrou que eu tivesse visto, nenhuma mulher numa daquelas camas de hospital improvisadas num terreno de guerra! Corri rapidamente todos os canais nacionais e estrangeiros para verificar se nalgum sítio me aparecia uma única mulher ou uma única menina.

A conclusão é evidente: a acreditar nas imagens dos taliban, não há mulheres feridas. Se as imagens mostram só homens, mostram só meninos, é porque elas não existem. E qual será a razão de tão estranha constatação, sabendo-se que quando populações civis são bombardeadas são sempre elas as primeiras vítimas? Será que as bombas escolhem o sexo? Será que as vítimas são afinal militares e não civis? Ou será que os taliban, mesmo em guerra e com imagens para impressionar o Ocidente, não autorizam que as mulheres tenham tratamento nos hospitais deles, tal como decretaram desde que chegaram ao poder no Afeganistão já lá vão seis anos? Sabe-se, infelizmente, que, em todas as guerras, quando existem vítimas civis, a maioria são sempre mulheres e crianças. São elas as mais fotografadas e mostradas porque simbolizam a imagem da injustiça de quem é apanhado num conflito sem armas na mão.

Será que os taliban, fiéis à sua interpretação das leis religiosas que chamaram suas, deixam as mulheres morrer pura e simplesmente sem tratamento médico ou hospitalar, com o argumento de que não podem ser olhadas ou tocadas por nenhum outro homem? Será que, tal como acontece desde há seis anos (em que as deixam morrer de parto, ou morrer doentes), as deixam morrer feridas sem tratamento médico e hospitalar? Desde que chegaram ao poder, é sabido que os taliban não autorizam as mulheres a trabalhar e não consentem que sejam médicas ou enfermeiras, pelo que as doentes morrem em casa sem tratamento para que nenhum olhar masculino as toque...

As imagens que nos mostram dos hospitais no Afeganistão, só com homens, são a imagem mais cruel de uma guerra e não podem escapar a nenhum olhar civilizado. Não há diferença cultural (?), argumento religioso ou outro, que possa deixar passar essas imagens. A partir do momento em que pessoalmente interiorizei esse facto, de cada vez que os écrãs da televisão fixam os feridos de um hospital, só consigo perguntar a mim própria pelas mulheres e pelas meninas!

Como parecem estranhas as discussões de argumentos fantásticos em colunas enormes dos jornais ou em seminários bem pensantes, ou em programas de rádio, procurando apurar com rigor se estamos a assistir afinal a uma guerra de culturas, ou de religiões, ou dos pobres contra os ricos do mundo, ou de Deuses. Face a tamanha eloquência, só me vem ao pensamento a realidade da vida das mulheres, proibidas de aceder aos tratamentos médicos, que morrem de parto e de dor, que não podem ir à escola, nem à rua, que não podem fazer planeamento familiar - mulheres a quem até o olhar lhes é negado.

Não se pode deixar de pensar no que é a vida destas afegãs, vivendo em poligamia e coexistindo com o evidente pressuposto de que, se morrerem, o "seu" homem não fica viúvo porque tem mais 17 ou 18 mulheres para substituir alguma que adoeça e morra. E nova questão tem de ser colocada: será a poligamia uma das diferenças culturais de que se fala? Ou a monogamia é uma conquista civilizacional da humanidade inquestionável à luz dos nossos valores?

A mutilação sexual dos órgãos genitais femininos, como existe nalguns países muçulmanos de África (como o Togo, por exemplo), será também uma mera diferença cultural entre nós e eles? Ou constituirá uma barbaridade contra as mulheres e a universalidade dos direitos do Homem? Se é assim, então não podemos permitir que, quando vivem entre nós, tal prática seja invocada em nome de uma qualquer tradição cultural ou religiosa. E temos mesmo a obrigação de a denunciar. Ou será que alguém discorda da decisão, já tomada nos Estados Unidos e em França, de conceder o estatuto de asilo de refugiado a mulheres que fugiram dessa barbaridade?

Quando os taliban mandam imagens dos seus hospitais e não se vê nenhuma mulher ou menina, não pode haver complacência como se observássemos uma qualquer bizarria cultural do mundo islâmico. Devemos, sim, olhá-las com os olhos da nossa visão, de quem aceita que as conquistas civilizacionais, como o direito à igualdade (e aqui escrevo expressamente igualdade) entre o homem e a mulher não são questionáveis.

As imagens e os testemunhos que nos mostram que os taliban consideram que têm o direito de bater nas mulheres com paus porque mostram um pouco de pele, como fazem nas ruas de Cabul, não serão suficientes para se desejar, todos os dias, que rapidamente aquelas mulheres sejam libertadas e, juntamente com as suas filhas, tenham direitos que para nós fazem já parte da nossa identidade, da nossa pele? Ou alguma diferença cultural pode justificar aqueles paus que se vêem nas televisões não autorizadas pelos taliban? Diferenças culturais?

Dir-se-á que nós - as que não vivemos em poligamia, e que vamos ao hospital se estamos doentes e que não consentimos que ninguém nos tape a cara - só acordámos depois de percebemos que alguém atirou uns aviões cheios de homens, mulheres e crianças contra prédios cheios de pessoas. E, no entanto, desde os anos sessenta que não só as feministas, mas todas as que lutaram pelos direitos das mulheres, demonstraram que uma sociedade que oprime as mulheres não é uma sociedade livre, não é uma sociedade democrática, não é uma sociedade compatível com os valores civilizacionais que conquistámos. Apesar disso, durante anos fomos sabendo que as aquelas mulheres eram tratadas pelos taliban pior que nós tratamos os animais e preocupámo-nos mais com eles do que com elas. Deixámo-las sem palavras de denúncia, sem campanhas de mobilização, sem feministas que se manifestem e sobre elas escrevam e lhes façam chegar a nossa indignação.

Mas, mesmo agora, depois de nos mandarem imagens de hospitais sem mulheres e meninas; depois de sabermos que há países onde o prazer é abolido; de vermos mulheres batidas na rua com paus por serem mulheres; de sabermos que há mulheres proibidas de ir à escola; ou depois de termos consciência de que cada um daqueles homens tem dúzias de mulheres que acham ser sua propriedade privada; que têm 52 filhos e dezenas de irmãos; e de sabermos muito mais que tudo isso, ainda há quem discuta se não devemos respeitar estas diferenças culturais ou sociais da nossa civilização ocidental, a que alguns chamam decadente, e a deles, a que outros chamam "diferente".

Há mesmo quem sinta mais culpa por vivermos com os nossos valores do que culpa por consentirmos que esta barbaridade se passe em frente aos nossos olhos e até consinta que, quando alguns emigrantes chegam ao Ocidente, vivam com essas especificidades como a poligamia, ou tapem a cara das filhas para andarem nas nossas ruas ou as mandem de "chador" (esse símbolo da inferioridade feminina) às nossas escolas. Isto é: que nos imponham em nossa casa, aquilo que, com tanto sacrifício, abolimos há anos na lei e na vida do nosso mundo.

Uma sociedade onde o prazer e o gosto é proibido é uma sociedade condenada. Esperemos que rapidamente as mulheres afegãs se vejam livres de um pesadelo e se encontrem com um tempo que felizmente é o nosso e o das nossas filhas.  

segunda-feira, 29 de outubro de 2001

Os (Dois) Lados da Guerra

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 29 de Outubro de 2001


1 - Nos últimos dias, vários articulistas sublinharam a ideia de que esta guerra contra o terrorismo tem dois lados: o lado do terrorismo, e o lado dos que consideram justo e necessário derrotar o terrorismo, e por isso apoiam a guerra empreendida pelos Estados Unidos numa larga coligação de países em todo o mundo. Quero declarar que me coloco na posição de apoio a esta guerra justa e necessária. Porque a humanidade não pode entrar num período da sua história em que o terrorismo massivo se torne legítimo ou tolerado, seja qual for o nome ou a causa que invoque. É necessário que esta guerra constitua um facto histórico inequívoco contra um tal terrorismo. Que o erradique da vida internacional de forma eficaz e inquestionável.

É por isso que as posições equívocas acerca da iniciativa dos Estados Unidos, mais centradas na sua crítica do que na compreensão da sua justiça e das suas dificuldades, se podem constituir em posições que enfraquecem a condenação do terrorismo.

Não se trata de, por estas razões, escamotear os problemas, éticos e políticos, que a situação do mundo e o protagonismo dos Estados Unidos levantam à nossa consideração. Trata-se, isso sim, de não os tratar de tal modo que o resultado prático político do discurso seja uma condenação dos Estados Unidos e do ocidente. Todos já sabemos muito bem as artes da dialéctica e o manejo da semântica para nos iludirmos uns aos outros com o que dizemos.

Podemos, é claro, manter esta guerra em tensão permamente com a justiça e a piedade, a eficácia e a contenção, a perseguição dos culpados e a protecção dos inocentes - e creio que tem sido essa tensão, alimentada de muitas vozes e de muitos lados, que tem ajudado os Estados Unidos a conduzir a guerra com cuidados e atenções como não há memória de nenhuma outra anterior. Fazer uma guerra assim é algo de impossível pré-definição prática. A severidade do julgamento ético tem de combinar-se com a compreensão das dificuldades existenciais.

Finalmente. É necessário continuar a defender a justiça e a paz no mundo. Mas esta guerra não é (não quer ser e não irá ser) uma guerra de ricos contra pobres: é uma guerra de homens que querem viver em paz e segurança contra os que defendem que podem matar, até ao limite do seu suicídio (o que agrava o problema) aqueles outros que erigem em seus inimigos. Se substituirmos a questão da guerra entre pacíficos e violentos pela questão da injustiça entre ricos e pobres, estamos a substituir um problema ético por outro. E a eliminar o primeiro, ou a reduzi-lo a um simples acréscimo. Infelizmente, a segurança impõe-se como valor autónomo perante a própria justiça, como a humanidade sabe desde há séculos. E nós, todos os dias, simples e convictos, aceitamos por exemplo o princípio do caso julgado. Ou a prisão preventiva. Ou muitas outras instituições da nossa democracia e da nossa civilização. Claro: sempre sem perder de vista o respeito pelas liberdades individuais, mas na razoável medida do bem comum de que somos capazes.

2 - As Nações Unidas comemoraram, na quarta-feira passada, os seus 56 anos. O dia das Nações Unidas é celebrado em 24 de Outubro, porque foi nesse dia do ano de 1945 que a ONU iniciou a sua existência, após satisfeita a exigência da ratificação da Carta das Nações Unidas pelas cinco potências (China, França, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos) e pela maioria dos outros estados signatários. 56 anos não são uma conta redonda; mas caem nesta situação dramática de guerra mundial (contra o terrorismo). Por esta razão, merecem ser especialmente festejados.

A Carta das Nações Unidas foi, no seu processo de nascimento, uma grande esperança para a humanidade, numa altura em que terminava a II Guerra Mundial e todas as nações ansiavam por uma paz comum e duradoira. Apesar das dificuldades e até dos falhanços, as Nações Unidas continuam a constituir, hoje, a referência político-institucional mais importante que possuímos de uma comunidade internacional que irmane todos os povos, e em que todos os povos podem entrar a contribuir com igual dignidade e responsabilidade.

3 - A paz e a segurança, como a saúde, o alimento e tantos outros bens essenciais, só os valorizamos devidamente quando, de repente, nos faltam. Somos assim, distraídos e levianos; habituamo-nos aos bens como se eles nos fossem garantidos para sempre. Por isso nos amadurecem as crises e as faltas. Aprendemos sempre de novo duas coisas: que nada nos é garantido, e que temos de nos esforçar pelos bens de que necessitamos. É um problema de educação. É um problema de cultura.

Muito significativamente, este ano de 2001 é um ano dedicado pela ONU ao voluntariado. Com estas comemorações do voluntariado, confluem as celebrações da UNESCO, que mantém como proposta o «ano das Nações Unidas do diálogo entre civilizações». A ideia força é a da «educação para uma cultura de paz», que pretende «promover valores, atitudes e comportamentos nas pessoas, de tal modo que se prossigam objectivos de solução pacífica dos problemas» (ver o sítio da UNESCO na Internet).

4 - Contribuições para a paz. As Nações Unidas e Kofi Anan receberam o prémio Nobel da Paz. O Comité do Prémio sublinhou que as Nações Unidas são uma vanguarda dos esforços para a paz e a segurança.

D. Zacarias Kamuenho recebeu («ex-aequo» com um par israelo-palestiniano) o Prémio Sakharov. Pelos seus esforços em favor da paz. Nestes dias, foi também lançada em Lisboa mais uma iniciativa de paz para Angola, por altos representantes da Igreja Católica de Angola e outras personalidades.

Enfim, a guerra é hoje um drama doloroso para a consciência do mundo, que anseia pela paz. Mas à nossa volta jorram constantemente fontes de paz. Graças a Deus. É preciso ter olhos para ver.  

domingo, 28 de outubro de 2001

A Guerra e o Crime

Portugal Diário 28-10-2001 18:06:26
António Barreto

Logo após o 11 de Setembro, foram dados, pelo governo americano, sinais confusos. Falou-se sucessivamente de «guerra» e «guerra ao terrorismo», o que não é exactamente a mesma coisa. Falou-se de seguida em «trazer os criminosos perante a justiça», logo se corrigindo com um acrescento «ou levando a justiça aos criminosos». Depois, a primeira designação da campanha política e militar em curso, «justiça infinita», foi de uma infelicidade a toda a prova, revelando seguramente um estado de espírito perturbado. O termo «cruzada», com toda a sua carga histórica e religiosa, foi utilizado frequentemente, pelo menos nos primeiros tempos. Não faltou muito tempo para que George W. Bush, numa velha tradição do «west», a meio caminho entre a guerra e a justiça, proclamasse que procurava Bin Laden «vivo ou morto».

Com os dias, gradualmente, foram sendo feitas correcções políticas. Estamos hoje perante uma situação um pouco mais clara, apesar de subsistirem, naturalmente, zonas de indeterminação. Temos assim, em paralelo, duas acções ou dois esforços: o de guerra e o esforço de justiça. Como temos ainda uma acção nacional por parte da potência americana; uma acção internacional da mesma; uma acção internacional política e militar à qual aderem vários Estados; e uma acção colectiva política e jurídica conduzida no âmbito das Nações Unidas. Como está de ver, a articulação entre estes vários níveis e estas diversas modalidades de intervenção é muito difícil, contraditória por vezes. Creio, todavia, que, numa situação tão complexa como esta, seria de esperar.

Uma das discussões mais importantes sobre a natureza das acções em curso é a que se realiza à volta do recurso à justiça para resolução dos conflitos conhecidos e futuros. Na retórica americana, aliada e internacional (designadamente no seio das Nações Unidas), a referência à justiça é permanente. Mas em quase todos os outros quadrantes se verifica o mesmo fenómeno. Os aliados dos americanos reclamam o respeito pelas normas de direito internacional. Os pacifistas e os adversários da resposta militar propõem a justiça como alternativa à guerra. Os Talibans e os terroristas exigem provas do seu envolvimento nos ataques de Setembro. Parece pois haver consenso sobre a necessidade de accionar os processos judiciários disponíveis, sendo que, evidentemente, não existe unanimidade, longe disso, quanto à jurisdição adequada. Um Tribunal internacional existente? Um Tribunal especial ou «ad hoc»? Um Tribunal americano? Um Tribunal «misto», americano e muçulmano? Um Tribunal «neutro»? Também não existe, aliás, entendimento comum quanto ao regime penal a aplicar em tal eventualidade: a hipótese da pena de morte, por exemplo, impede um acordo fundamental. Parecem questões menores, mas não são. Creio, todavia, que só muito mais tarde teremos decisões sobre a jurisdição competente e o regime penal aplicável. Antes disso, outros problemas mais importantes necessitam de resolução.

Um problema prévio reside evidentemente nos conceitos. Não estamos diante de factos exclusivamente do foro criminal e judicial. Pela dimensão dos actos, pela sua amplitude, pela organização, pelo apoio de Estados organizados, pelo tipo de operações desencadeadas, pelo número de vítimas já causadas e pela forma como as primeiras respostas estão a ser realizadas, estamos numa situação de guerra. Não seguramente uma guerra clássica e típica, com declarações formais, exércitos organizados, bandeiras visíveis, territórios em causa, objectivos definidos e inimigos declarados. Trata-se de uma guerra de tipo novo, internacional e multinacional, de inimigos parcialmente difusos, de bases territoriais dispersas, de organização militar e civil, de bandeiras invisíveis e de objectivos indeterminados. Entre estes últimos, a criação do terror sobrepõe-se a uma eventual conquista ou a uma derrota militar, finalidades clássicas.

A ideia de que se trata de uma guerra de tipo novo não é mais um artificialismo. Para só falar no século XX, assistimos em vários momentos à emergência de novos tipos de guerra, que se vieram acrescentar às guerras clássicas e às guerras «civis» bem conhecidas. Como sejam as guerras de libertação e de independência colonial; as guerras de guerrilha; ou as guerras simultaneamente civis e internacionais, como no caso do Próximo Oriente. Para já não referir as «guerras mundiais», a primeira e a segunda, que trouxeram às ciências militares novas dimensões. E sem esquecer questões aparentemente técnicas, mas que, na verdade, introduziram novas categorias: o bombardeamento indiscriminado de populações civis e de infra-estruturas económicas é uma triste aquisição do século XX. Finalmente, convém não deixar de lado certas manifestações de guerra, cuja codificação teórica ainda não está feita, mas que constituem novas modalidades: são os casos, por exemplo, das intervenções e dos bombardeamentos na antiga Jugoslávia e no Iraque.

É provável que as futuras guerras sejam, em grande parte, de novos tipos. O colossal desequilíbrio de armamentos e de capacidade militar faz com que muitos dos interessados em desencadear operações bélicas procurem novos modos de acção, entre os quais o terrorismo (e as guerras mais «baratas», como as químicas e as bacteriológicas ou as que recorrem a agentes suicidas). As guerras clássicas, internacionais ou «civis», ocorrerão sobretudo entre países de idêntica capacidade militar e económica ou dentro de países da débil organização política, económica e administrativa. Se envolverem as grandes potências, muito especialmente os Estados Unidos, as guerras tenderão a ser de novo tipo, particularmente recorrendo ao terrorismo.

Quer isto dizer que têm razão os que consideram que está em curso uma guerra e não uma mera procura de criminosos para os levar a tribunal. Espera-se, evidentemente, que tudo ou o mais possível seja feito dentro das regras, até porque existem regras para a condução de operações militares e de guerras internacionais. Seria excelente que, terminada a guerra, fosse possível julgar, em tribunal a definir, alguns dos principais autores e inspiradores dos actos de terror de massas já perpetrados. Mas creio que não devemos criar falsas expectativas. O primeiro objectivo de uma guerra consiste em derrotar o inimigo, o que significa sempre liquidar alguém. Não parece realista, nem sequer particularmente bem intencionado, esperar que os dirigentes das organizações terroristas e alguns dos responsáveis pelo regime Taliban venham a ser, um dia, julgados com todas as regras processuais dos tribunais penais democráticos. Não é a vontade de vingança que conduz a esta conclusão, mas tão só uma visão serena e racional do que é uma guerra e das circunstâncias em que se processa. Não consigo prever ou sequer imaginar operações de polícia destinadas a prender os chefes terroristas e a conduzi-los, salvaguardados os seus direitos constitucionais, à esquadra mais próxima, a fim de serem ouvidos pelo juiz de instrução. Como não sou capaz de antever os chefes terroristas, uns militares, outros políticos, alguns dos quais com formação militar, renderem-se diante de uma força policial.

A guerra não é a abolição total de regras políticas e morais, como alguns poderão dizer. É verdade que tais regras são, muito frequentemente, violadas. Mas existe hoje um património da humanidade composto por convénios, tratados, regras jurídicas e normas morais que conferem alguma «humanidade» à guerra, se assim se pode falar. Como se sabe, existem códigos relativos ao tratamento de civis e de militares, de prisioneiros de guerra, de espiões, de «traidores», do uso de certos armamentos, de respeito pela dignidade dos soldados e de acesso a meios de socorro. O respeito por tais regras, como a proibição de tortura de soldados, por exemplo, é um valor positivo de qualquer sociedade. Mas tenhamos consciência de que a guerra implica morte. Mesmo em países onde a pena de morte não existe. A guerra implica crueldade, porque matar é o objectivo. A guerra implica a existência de inimigos que procuram simplesmente derrotar-se e aniquilar-se. Custa dizer, mas é assim.

sexta-feira, 26 de outubro de 2001

A cultura do medo

Manuel Pinto-Coelho Euronotícias 2001.10.26
Mas que mundo estranho este o nosso que se sente vulnerável e inseguro por causa de um mal para o qual a ciência já há muito encontrou um antídoto e que até à data não vitimou ao todo mais que duas mãos-cheias de pessoas, insistindo em viver masoquisticamente em sessão contínua à espera sofregamente de mais alguma notícia que possa continuar a alimentar a sua sede draculineana de mais vítimas desse “terrível” antraz, qual flagelo implacável que, a todo o momento, através de um qualquer sobrescrito mais manhoso se pode abater sobre a cabeça do mais incauto, gastando milhões para caçar os terroristas responsáveis, negligenciando uma oportunidade de ouro para, isso sim, prevenir facilmente um mal que mata incomparavelmente muito mais, utilizando meios incomparavelmente mais modestos e não tendo ainda por cima que sacrificar qualquer vida humana!?
Referimo-nos, claro está, à toxicodependência, à heroína, de que os afegãos “contribuem” com 65 a 70% de toda a produção mundial e que, a nosso ver, deveria cativar de outra maneira a opinião pública.
Ora, se esta, na sua grande maioria, aceitou a invasão americana do Afeganistão, sabendo que as possibilidades de se encontrar Bin Laden são diminutas, será que não iria aceitar muito mais depressa que se desviasse uma infinitésima parte dos seus recursos, para se pulverizar com os produtos adequados, os seus extensíssimos campos de papoilas, ferindo assim de morte não só a principal fonte de receita das suas acções terroristas, mas, o que nos parece indubitavelmente muito mais importante, reduzindo drasticamente, logo na origem, a principal causa do maior flagelo social que se conhece, essa verdadeira praga que teima em aterrorizar milhares e milhares de pessoas deste nosso mundo em que vivemos?
Se é verdade que o presidente americano nos convidou sem rodeios a assumirmos uma posição firme e resoluta, colocados que estamos perante o problema do terrorismo, desafiando-nos a adoptar claramente uma posição inequívoca, a favor ou contra, porque não convidá-lo agora, a ele, na mesma linha, a adoptar uma posição de igual modo clara, de repúdio para com o terrorismo provocado pela heroína e arrasar sem contemplações aqueles campos responsáveis por muitas mais mortes por esse mundo fora que várias torres gémeas e Pentágonos juntos, sugerindo-lhe ainda e para dar o exemplo, que começasse por fazê-lo às suas próprias plantações de cannabis, responsáveis por 20% da produção mundial de haxixe?
É que, francamente, , que esfrega as mãos de contente com toda a situação criada.
Perguntamos nós: já se imaginou no que se lucraria em termos de saúde pública, se houvesse habilidade para desviar uma fatia por pequena que fosse, das verbas gastas em segurança por causa do antraz para a prevenção e tratamento de doenças como o dengue, o paludismo, a Sida e a tuberculose, para não falar das doenças cardiovasculares que, como aquelas, matam um número incomparavelmente maior de seres humanos neste planeta?
“A única coisa que temos de recear é o próprio medo.” Quem falava assim era Franklin Roosevelt, em 1933.
Também nós achamos que às vezes dá-nos para recear as coisas erradas e é extraordinário constatar a facilidade com que todos, sem excepção, embarcamos à primeira com os “medos” que a comunicação social nos tenta transmitir, não percebendo que esta não está a fazer mais que o seu papel!
Na realidade, parece-nos claro que a “cultura do medo” levantada entre outras coisas pelo bacilo do carbúnculo é determinada em boa parte pelos “media” especialmente pela televisão e é espantoso como nós, incluindo os cidadãos americanos e o seu presidente Bush, não nos apercebemos de que essa é tão-só a sua forma de subsistência, jogando, com a sua cegueira, a favor de quem menos lhes interessava!
Manuel Pinto-Coelho
Médico

segunda-feira, 22 de outubro de 2001

O Lugar do Meu Deus

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 22 de Outubro de 2001


1 - No Público do dia 20, Helena Matos escreveu um artigo focando o lugar de Deus e o lugar dos homens numa civilização da concórdia universal. O artigo respira uma visão alternativa entre Deus e os homens; entre o lugar de Deus e o lugar dos homens. Nele se nota que Deus tem um lugar, o lugar «da consciência e da fé» de cada um dos crentes. Mas que «a vida dos homens no mundo, essa, depende dos homens». E se conclui que «por amor dos homens - e porque não de Deus? - convém que jamais confundamos uma coisa com a outra».

Li esta reflexão e estou de acordo com a ideia da autonomia das realidades terrenas. Contudo, debaixo desta formulação a Autora parece defender uma convicção acerca do lugar de Deus que não é a minha. O Deus da minha fé está excluído da sua pressuposição. Vale então a pena que eu exponha algumas reflexões, a este propósito.

2 - Helena Matos considera que, com «colocar Deus no seu devido lugar», «um dos mais importantes exercícios da civilização ocidental», «foi resolvido por milhões de crentes, nomeadamente católicos que, independentemente da sua fé, determinaram colocar outros valores acima dos ditames das suas Igrejas». É nesta base que a Autora explica como «os cidadãos dessa mesma civilização (ocidental), independentemente de serem crentes ou não, devem muito da sua paz, da sua tolerância e da sua qualidade de vida precisamente ao facto de agirem "como se o futuro do mundo dependesse apenas do homem e do seu poder"».

Estas afirmações podem levar a pensar que só por fora e por cima das igrejas foi possível a modernidade. É uma ideia pós-modernista da modernidade: a de que as concepções substantivas da verdade e do bem (como as das religiões) são todas exteriores à polis e à civilização; e até lhes são prejudiciais. O que implicaria uma contradição das igrejas, e também das cristãs, com o espaço público. Ora isto, se fosse verdade, nenhum crente católico o poderia aceitar sem contradição pessoal insanável. Mas não é. A verdade é que não existe essa contradição.

A autonomia das realidades temporais é um ponto da fé dos cristãos. Logo, não é contraditória com essa fé. Está escrito no Génesis que Deus disse ao homem e à mulher (ao par): ide, sede fecundos; transformai a terra e dominai o mundo. Desde então, para os crentes, o mundo está à conta dos homens por determinação de Deus. A chamada autonomia das realidades terrestres é uma ideia assente desde os princípios do cristianismo. Desde os alvores das primeiras comunidades cristãs, S. Paulo recomendava estritamente aos seus discípulos para respeitarem a autoridade estabelecida e pagarem honestamente os seus impostos (Rm 13,1-7). A autoridade civil era logo então pensada como não tendo necessidade de ser cristã ou religiosa. Os cristãos integravam-se como cidadãos iguais aos outros na sociedade civil e política; respeitavam essa sociedade e cooperavam nela, pagando os seus impostos, que são a base da organização social e política. Do Concílio Vaticano II, a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo diz (entre muitas outras afirmações que seriam úteis para aqui), que «aumenta cada dia mais no mundo inteiro o sentido da autonomia e da responsabilidade, o qual é da máxima importância para a maturidade espiritual e moral do género humano» (GS 55).

Portanto, aceitando embora que historicamente houve desvios e instrumentalizações, não há, para os cristãos, nenhum lugar de Deus que retire à sociedade civil a sua autonomia. É aliás sabido que Jesus Cristo recusou sempre qualquer compromisso com a política e a construção humana da sociedade civil e política. Este é um dos factos mais extraordinários da vida de Jesus. Talvez tenha sido por isso que Judas o traíu.

Sendo assim, a tese da exclusão da fé de milhões de crentes, ou a da incompatibidade subordinada da doutrina de todas as igrejas, relativamente à civilização ocidental, só poderia ser afirmada com a demonstração da contradição dos respectivos conteúdos. O que não se pode dar como provado.

3- Gostaria ainda de esclarecer um outro aspecto acerca do lugar de Deus, no cristianismo. É que o Deus dos cristãos está sem dúvida nas consciências e na fé dos crentes. Mas, para cada crente, o lugar de Deus é, antes de mais, nas pessoas dos outros. O Evangelho não cessa de o dizer. Mateus relata o ensinamento de Jesus, que disse: «portanto, se estiveres para fazer a tua oferta no altar e te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão» (Mt 5, 23-24). E S. Paulo catequisou: «ninguém procure satisfazer os seus próprios interesses, mas os do próximo» (1Cor 10,24). Ao longo do Novo Testamento, Deus identifica-se sempre com o outro, sobretudo o pequenino, como se vê na descrição dramática do juízo final no Evangelho de Mateus (Mt 25, 31-46), em que Cristo pronuncia estas palavras: «de cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes». Eis portanto aí o lugar de Deus que é proposto como decisivo para toda a vida do crente.

Não conheço, nem concebo, melhor base para a paz, a tolerância e a qualidade de vida da civilização universal. Devo portanto insistir: os católicos não precisam de colocar outros «valores acima dos ditames da sua Igreja» para contribuirem para essa civilização; não precisam de considerar que «a vida dos homens no mundo, essa, depende dos homens», mas que a sua fé é «outra questão». Não é outra questão. O problema está noutro lado. Lê-se na Constituição conciliar já citada, que afirma a autonomia das actividades temporais: «no entanto, muitos dos nossos contemporâneos parecem temer que a íntima ligação entre a actividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos homens, das sociedades ou das ciências» (GS 36).

Todos teremos presente o exemplo dos talibans. Mas esse, como os demais exemplos históricos de desvios autoritários ou totalitaristas ligados a doutrinas religiosas (como até ao cristianismo), não são nenhuma prova de que os valores civilizacionais, fraternais e universais estão por cima das religiões e contra elas. Até porque também há totalitarismos não ligados a religiões e anti-religiosos. Esses valores estão portanto apenas acima dos autoritarismos e dos totalitarismos, tout court. Pessoalmente, quero valorizar essa afirmação substantiva de valores humanistas da civilização ocidental. Que as religiões elevadas iluminam e fundamentam, mais e melhor do que qualquer outra fonte de pensamento ou convicção.

sábado, 20 de outubro de 2001

Liberdades

Vasco Pulido Valente
DN, 20011020
Algumas personagens de comprovada lucidez pensam que Bin Laden está a ganhar a guerra e começam a temer pelas liberdades. Segundo parece, Bin Laden está a ganhar a guerra, por causa do pânico que o anthrax provocou na América. O anthrax encontrou, de facto, um bom terreno. Há anos que os média se comprazem em lançar os seus pequenos pânicos neste particular capítulo: vamos todos morrer, por causa do álcool, do tabaco, da margarina, da manteiga, da carne, do peixe, do sol, do stress, dos remédios, disto, daquilo e daqueloutro e até dos telefones. Eu já cheguei a escrever uma coluna (meia página) só com a lista dos perigos da semana. O anthrax (de resto, uma doença não transmissível e curável) excita fatalmente a sociedade hipocondríaca em que vivemos. Mas não notei qualquer tentativa para suprimir informação. Pelo contrário, na América, os média não falam de outra coisa. Como também não vi nada que se parecesse com autêntico terror. O Estado Federal, que não se abana com facilidade, continua a funcionar, do mais remoto departamento de polícia ao Governo de Washington; a população, por enquanto, não dá sinais de histeria; e os muçulmanos não foram perseguidos. Claro que as pessoas andam menos de avião e que, por razões de segurança, o comando militar pediu aos média que não transmitissem as mensagens do Al-Quaida. E depois? Basta um medo transitório e um procedimento normalíssimo em tempo de guerra para anunciar a vitória de Bin Laden e a iminência da tirania universal? A mim, não basta. Os guardiões da liberdade - se é mesmo a liberdade que eles querem guardar - fariam melhor se reparassem na Europa. Quem anda por aí a exigir, em nome da "luta contra o Mal", que se limite a imigração e uma vigilância quase feroz a qualquer imigrante? Adivinhem.

segunda-feira, 15 de outubro de 2001

A verdadeira guerra

João César das Neves
DN 20011015
A palavra "guerra" apareceu logo nos primeiros momentos após o atentado de 11 de Setembro. De facto, o número de vítimas, a dimensão da destruição e a crueldade do acto parecem episódios dessa mais horrível das actividades humanas. Mas, se se trata de uma guerra, os Estados Unidos e a civilização estão a perder.

Os danos causados pelos terroristas, que só no World Trade Center estão estimados pelas seguradoras acima de 30 mil milhões de dólares, são mais do dobro de todo o produto nacional do Afeganistão após anos de guerra civil. O número de vítimas ultrapassa o de muitas batalhas da história.

Comparando estes estragos feitos por 19 homens armados de navalhas com os sofisticados bombardeamentos americanos, vemos imediatamente que a vantagem está do lado dos terroristas.

Esta é a razão do medo gélido que traz todo o Ocidente refém. As ameaças de Ben Laden, a sua capacidade de destruição e impunidade, que desafia as tecnologias de armamento e espionagem do século XXI, são muito maiores que as de Saddam, Fidel, Kadhafi ou qualquer outro dos anteriores inimigos da civilização. Se voltar a atacar de surpresa uma cidade, pode arrasar muito mais que o exército americano, a maior força militar de sempre. Neste sentido, o mundo mudou a 11 de Setembro e começou um novo tipo de guerra.

Mas os termos em que se joga esse conflito são muito diferentes dos tradicionais. O atentado não constituiu uma batalha, em qualquer sentido da palavra. Pior que isso, ele escapou a todas as medidas de protecção. Quase não foram usadas as contas bancárias do terrorismo agora congeladas, nem pistolas detectáveis na segurança dos aeroportos. Identidades falsas anulam qualquer controlo. A simplicidade e singeleza do golpe arrepiam qualquer um: bastaram alguns homens dispostos a morrer.

A arma de Ben Laden, que derrota os mísseis americanos de um milhão de dólares cada, é uma das mais antigas do mundo: o fanatismo religioso. Isso significa que a verdadeira guerra se trava no campo espiritual. A origem do problema reside nas razões que levaram aquelas pessoas a largar amizades e sonhos, a esquecer família e projectos, para se oferecerem à morte. A longa e minuciosa preparação dos assassinos mostra que a explicação não está na loucura ou na barbaridade. O elemento central do novo conflito vem dos paroxismos de sofrimento e indignação capazes de causar actos destes.

Por isso, bombardear os talibãs, sendo um castigo justo, não resolve o problema e até pode agravar o fanatismo. O poder bélico da tecnologia americana exercido contra a miséria reforça o sentimento de irritação. Matar um terrorista faz surgir mil outros. Como tantos impérios aprenderam à sua custa, não se ganham as lutas contra mártires.

A única hipótese de vencer esta guerra reside numa única força: a teologia islâmica. É preciso que os líderes espirituais muçulmanos, e não apenas os seus dirigentes políticos, expliquem convictamente que estes métodos extremistas são opostos ao Corão. É urgente que as comunidades maometanas, e não apenas os países ocidentais, reneguem claramente os métodos de Ben Laden e a sua pretensão de representar a fé. Só assim o terror será eliminado, e não alimentado ao extremo. Isto é essencial para terminar a destruição do Ocidente. Mas, mais que isso, é indispensável para evitar o isolamento e a obsolescência da cultura islâmica.

Porque a questão de fundo que origina todo este fenómeno é a integração do Islão no processo de desenvolvimento. As dolorosas transformações que o Ocidente conhece há trezentos anos vêm-se espalhando, entretanto, pelas diferentes regiões do mundo. Um pouco por todo o lado se vivem as profundas modificações culturais, sociais e espirituais que traz a incrível dinâmica técnico-económica em que a humanidade entrou desde a Revolução Industrial.

Nos últimos séculos, muitas foram as instituições e hábitos que desapareceram ou se modificaram para sempre debaixo da pressão do progresso. A vassalagem e o colonialismo, o almocreve e a desfolhada, o telégrafo e a lamparina são realidades do passado enterradas pelo desenvolvimento. O trabalho, a família, a política e os tempos livres são hoje muito diferentes de há cem anos. A vida e cultura mundiais evoluíram incrivelmente e continuam a transformar-se.

O mundo muçulmano, uma das culturas mais ricas e flexíveis da história, sofre essa evolução já há umas décadas. Múltiplas comunidades, da Europa à Indonésia, mostram bem como é possível e praticável a conciliação entre o Corão e o progresso. Mas o fanatismo revela bem a dimensão do desafio. A verdadeira guerra que se está a travar, por cima dos cadáveres americanos e afegãos, é a da entrada do Islão para o mundo moderno. Os terroristas apostam no tradicionalismo e caem no obscurantismo e no horror da mais infame destruição. A palavra final, porém, cabe ao fiel muçulmano comum e à sua aposta no futuro de um Islão moderno e dinâmico.

domingo, 14 de outubro de 2001

O Terror e a Esquerda

ANTÓNIO BARRETO
Público , Domingo, 14 de Outubro de 2001


A esquerda sempre teve um problema com a violência e o terrorismo. Há excepções, um partido aqui, um dirigente ali, um governante acolá, um pensador mais além. Mas, no conjunto e ao longo da história recente, jamais a esquerda conseguiu libertar-se desta espécie de hipoteca filosófica. "A violência é parteira da história". "Há terrorismo necessário". "A revolta violenta das massas oprimidas é legítima". "A violência revolucionária é a resposta das massas exploradas à violência da burguesia". "Nas revoluções há sempre vítimas inocentes". Eis alguns exemplos de frases conhecidas há décadas. Com isto, a maior parte da esquerda nunca condenou integralmente, quaisquer que fossem os seus autores e os seus alvos, o terrorismo. A maior parte da esquerda nunca distinguiu rigorosamente a violência legítima do terrorismo.

Sempre a esquerda, com excepções, se sentiu desconfortável com o terrorismo. Porque desde sempre considerou que a violência é um meio necessário e legítimo para atingir os seus fins. É possível que a origem desta atitude tenha raízes antigas, mas, nos tempos modernos, talvez se possa datar dos tempos da revolução francesa. "O governo da República é o despotismo da liberdade contra a tirania", garantia Robespierre e Saint-Just, quando defendiam a necessidade do uso do terror. Mais tarde, Sorel defendeu o uso de terror, pois só assim se poderia termo à "violência das instituições". Lenine e Trotski não se limitaram a defender o uso da violência: aplicaram-na em larga escala, nunca se deixando intimidar perante as acusações de terror que lhes eram justamente feitas. Trotski, aliás, foi mais longe e "resolveu", em livro célebre, o problema teórico: dados os objectivos políticos finais, a moral dos comunistas era superior à dos conservadores, facto que justificava que eles, comunistas do Exército Vermelho, pudessem tomar e executar reféns, assassinar civis e aterrorizar populações. Com Estaline, o terrorismo ganhou pergaminhos de método de governo. Com as ditaduras de esquerda no Terceiro Mundo, o terrorismo alastrou, com uma novo atributo: a culpa era do imperialismo e do capitalismo. Com os anos sessenta, chegaram novas modas e o terrorismo esquerdista foi feito forma superior de luta.

A revolução francesa e, mais tarde, o socialismo, o comunismo e a revolução social, com a ajuda de algumas franjas anarquistas, contribuíram para apertar o laço entre grande parte da esquerda e a violência revolucionária, a qual, quase sempre, inclui formas de terrorismo. A revolução russa, o anti-fascismo, o anti-imperialismo e a luta contra as formas modernas de capitalismo confirmaram esta perversa relação. Com uma consequência suplementar: se é verdade que uma parte da esquerda (dita moderada, por vezes independente, frequentemente social democrata) é inimiga da violência, sejam quem forem os autores ou os alvos, também não é menos certo que mesmo essa esquerda se sente desconfortável quando o terror se reclama de causas sociais.

Com excepção dos comunistas durante o pacto germano-soviético, a esquerda não hesitou em atacar o terrorismo de Hitler e a violência de Mussolini, Salazar ou Pinochet, mas desculpou e muitas vezes apoiou o terrorismo de Estaline e a violência de Mao Tsé Tung e Fidel Castro. Grande parte da esquerda revela complacência, quando não cumplicidade, com o terrorismo nacionalista e minoritário da ETA, do IRA, da Fracção do Exército Vermelho alemão e da Brigadas Vermelhas italianas. A maior parte da esquerda esteve justamente atenta às intervenções europeias e americanas em África, na Ásia e sobretudo no Vietname, mas foi incapaz do mesmo critério cada vez que os Soviéticos agiram com violência, ilegitimidade e terror. Boa parte da esquerda portuguesa não conseguiu condenar o terrorismo das FP-25 ou das BR, como já antes não tinha conseguido estabelecer a diferença entre as guerras de libertação colonial e os actos terroristas cometidos pelos respectivos movimentos em Angola, em Moçambique ou na Argélia.

O terrorismo pode ser praticado e apoiado por ditadores, governos reconhecidos, milionários, filhos-famílias, oficiais do exército, filósofos em busca da redenção e traficantes de droga. Mas, desde que invoque razões revolucionárias e causas profundas, é logo fonte de mal-estar para a esquerda. Ou de regozijo. Mais: se as vítimas, mesmo inocentes, mesmo civis, mesmo de todas as condições sociais, forem de nacionalidade suspeita, isto é, americanos ou europeus, o terror ganha estatuto de acto político sobre o qual é necessário reflectir. Se os alvos simbólicos do terrorismo puderem ser claramente identificados com os poderosos (edifícios governamentais, quartéis, esquadras, bancos, empresas...), então as dúvidas desaparecem: o gesto assassino é equiparado à justa revolta. Houve mesmo quem, na esquerda portuguesa, comparasse os terroristas a David e Nova Iorque a Golias!

Os critérios de análise de grande parte da esquerda parecem mutáveis. O mesmo gesto seria diversa e arbitrariamente avaliado: apoio em certos casos, condenação em outros, complacência noutros ainda. Mas, na verdade, o critério é mais permanente do que parece. A avaliação do terrorismo depende de quem o pratica. E de quem é visado. Se os terroristas forem esquerdistas confessos, amigos da esquerda ou defensores proclamados das suas ideias; se pertencerem a movimentos ou partidos conotados com a esquerda; e se falarem em nome dos pobres, dos trabalhadores, dos oprimidos ou de minorias consideradas amigas; nessas circunstâncias, o terrorismo é justificado, compreendido e explicado. Ou pelo menos desculpado. Quanto ao alvo, o critério é idêntico: importante é a identidade de quem é politicamente visado. Se for o ocidente, a sua cultura e a sua economia; se for a democracia e respectivos governos; se forem os americanos e os europeus em geral; e se forem os poderosos do ocidente, assim como os seus amigos pelo mundo fora, os capitalistas, as instituições democráticas, as multinacionais e algumas igrejas e religiões; também nessas circunstâncias o terrorismo deve ser desculpado ou tolerado, que é o que a esquerda pretende quando afirma, com aparente

quinta-feira, 11 de outubro de 2001

O "MAS" DA TRAGÉDIA ou A TRAGÉDIA DO "MAS"?

António Bagão Félix
2001-10-11
Com a tragédia de 11 de Setembro, o coração da dignidade da pessoa humana foi esventrado de uma maneira inimaginavelmente brutal.
O mais insondável obscurantismo aliou-se terrificamente ao fenómeno de banalização das sofisticadas tecnologias do progresso, para destruir e matar cegamente.
Porque a "distância" entre crime  e castigo é, neste caso, perturbadoramente assimétrica, a busca persistente da justa justiça vai ser tarefa bem árdua, num atentado que foi direito às entranhas dos valores civilizacionais (e não apenas americanos).
É preciso ser claro: a questão aqui não é ideológica, religiosa, política, intelectual. É "apenas" e na sua essência humana e moral. Não há fins que possam justificar meios tão demoníacos.
Quase metade dos países deste mundo têm homens e mulheres mortos nesta tragédia. Sessenta e dois, mais precisamente. Que outro ponto do Mundo poderia melhor representar a humanidade no caleidoscópio das nações, etnias, confissões? No meio de tanta impureza e injustiça ­ a começar na cidade da tragédia ­ não é isto um sinal de tolerância, liberdade e convivência, que é do melhor que há na nossa civilização?
A barreira ­ a barreira da vida - foi gratuitamente quebrada. Quem quiser estar do lado da morte como solução para seja o que for, sabe que entra num pântano de onde já não se sai. A vida não se relativiza, nem é moeda de troca.
A hora é dramaticamente difícil. Por isso, mais do que nunca, é necessário saber conciliar a firmeza da luta contra o terror e a impunidade com a fortaleza da serenidade.
A esta desordem internacional em que se misturam factores explosivos de fanatismo letal, indignidade humana, relativismo ético, globalização do terror e indiferença do sofrimento, é imperativo responder com o mais elevado e rigoroso sentido de justiça, na esperança de uma total concertação no combate ao mal e ao mesmo tempo profundamente despertos para com o sofrimento humano que grassa no mundo.
Seja-me permitido destacar apenas uma das várias causas desta desordem: o relativismo.
É o relativismo que nos põe a caminhar sobre um algodão movediço.
É o relativismo que amolece as consciências boas e endurece as satânicas.
É o relativismo que torna algumas pessoas apenas mais animais.
É o relativismo que quase anestesia os comportamentos letais, porque retira valor absoluto à vida.
É o relativismo que faz germinar a indiferença e o comodismo atrofiantes.
É o relativismo que faz ricos e pobres consumir-se no consumismo, espécie de "ecstasy-do-dia-seguinte".
É o relativismo que corrompe  almas por troca com uma qualquer mordomia.
É o relativismo que alcandorou a estatística à categoria de mãe de todas as análises frias e racionais.
É ainda o relativismo que subjuga o importante ao efémero aparentemente urgente.
É o relativismo que igualiza, moralmente, fins e meios.
É o relativismo que encurta a memória e despreza a sabedoria.
É o relativismo que nos afasta da transcendência e da procura de nós mesmos.
É o relativismo que usa e abusa das conjunções adversativas, dominadas altaneiramente pela mais curta mas também a mais demolidora: mas. Simplesmente mas.
"Isto e aquilo foi um horror, mas...",  "Tenho muita pena, mas..",  "Aconteceu assim, mas..",  "Os Estados Unidos foram atacados, mas..."
O mas está para o relativismo, como o não está para o individualismo.
O mas é o não obstante do sofrimento. O sofrimento não é o não obstante do mas.
O mas é a penitência laica do pecado para enfraquecer o código moral sob a bondosa semântica de um qualquer mas apresentado como símbolo de uma certa tolerância bacoca, falsa e diluente.
O mas é a versão intelectual do cínico que perverte a hierarquia e reduz a pó o valor das palavras, actos e pensamentos. Daí a sua consequência (matemática) do mais ou menos que mais não é que o intervalo da nossa indiferença, debilidade ou cobardia.
O mas é o dissolvente do bem e do mal  no novo reino das opiniões e impressões, onde nada vale porque tudo vale. Uma nova amiba (a)moral que tudo aceita excepto quando nos atinge na nossa pequenez.
Fazer o mal para atingir o bem? Chegar ao Tudo através do nada? Demonizar o absurdo para desvendar o Mistério? Apodrecer no relativo para alcançar o Absoluto?
Neste trágico luto para a humanidade, temo, ao contrário do que até parece evidente, a "normalização" das consciências trucidadas por um quotidiano que não deixa as pessoas serem, mas tão só estarem.
Passada a hora do compulsivo unanimismo emocional, já aí estão os tiques primariamente anti-americanos.
À falta de melhor, a América é a posta restante ou o tumor de fixação de certa  intelectualidade empanturrada até ao esófago de ícones americanos que tanto escarnecem.
E já são visíveis, ao menos implicitamente, manifestações de alguma simpatia (ou, pelo menos, compassiva compreensão) para regimes obscurantistas que apenas a si devem o atraso e a mentalidade intoleravelmente doentia em que imergiram.
A pouco e pouco a globalização do sentimento será tomada pela privatização da dor. A vida regressará ao vaivém de um pêndulo de uma viagem onde o tempo sem mostrador se entrecruza com um espaço de vida minimal.
Que de toda esta tragédia humana possa sair o fortalecimento da justiça, da paz, do inconformismo perante o sofrimento, da salvaguarda de valores perenes e inegociáveis da civilização, entre os quais e  acima de todos está o (mais) absoluto: o respeito pela Vida.

António Bagão Félix
Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz