segunda-feira, 30 de abril de 2001

"Um católico não pode viver a não ser com os olhos postos no céu"

DN, 20010430
João Miguel Tavares


Mesmo durante os quatro anos em que foi assessor económico de Cavaco Silva, no início da década de 90, nunca deixou de dar aulas na Católica. Privilegia a profissão de professor acima de todas as coisas?
Manter-me a dar aulas foi uma das condições que combinei, desde logo, com o professor Cavaco Silva. Na altura, lembro-me de lhe ter dito: "Não vai ter um assessor que dá aulas, vai ter um professor que é seu assessor". Fiz outras coisas na vida, mas aquilo que eu sou é professor. O meu avô dizia-me isto muitas vezes: há muitas profissões no mundo mas há apenas três vocações: padre, médico e professor. Foi sempre assim que vi esta minha tarefa. Ser professor não é um emprego, é um estilo de vida, uma vocação que tem de ser vivida por dentro. Não é uma coisa que eu também faço - é aquilo que eu sou.

E a que é que se deve esse fascínio pela profissão?
Ser professor universitário é uma tarefa extraordinária. Entendo a Universidade como um jardim do conhecimento, criado pela sociedade para que contivesse tudo o que de melhor ela foi produzindo ao longo dos séculos. Ora, ser o jardineiro desse jardim - que é isso o que um professor universitário é - é um privilégio extraordinário. Não o trocaria por nada e digo muitas vezes que gostaria de dar a minha última aula no dia em que morresse.

Os alunos gostam de si?
Varia muito. A relação entre o professor e o aluno é muito difícil. A tarefa do professor é particularmente complicada, porque é a de um actor que está sozinho em palco e que tem de representar um número para uma audiência que é hostil. Ela sabe que vai ser avaliada, não está com muita vontade de estar ali, porque não pagou o bilhete para assistir ao espectáculo, e sabe que, no final, com frequência o resultado é desagradável. Uma aula é uma das situações mais estranhas em que as pessoas podem ser encontradas. Mas em geral tenho uma boa relação com os meus alunos.

Suponho que seja um professor que dê o número de casa.
Exactamente. Há muito anos que dou o número de telefone de casa aos meus alunos.

Tem fama de ser muito disciplinado. Diz-se que Kant até tinha horas certas para os seus tempos de lazer. Também é assim?
Não, não. Não sou um fanático da disciplina. Tenho apenas uma enorme dificuldade em não fazer aquilo por que estou apaixonado e estou apaixonado por aquilo que estou a fazer. É verdade que ganhei uma rotina de trabalho, que montei e considero um valor muito importante, e grande parte da minha produtividade tem a ver com essa forma de organizar o tempo. Mas a dedicação é apenas fruto da paixão. Não há, do meu ponto de vista, nenhuma atitude kantiana, porque desse ponto de vista sou muito diferente de Kant.

Lá em casa não se queixam que trabalha demais?
A minha mulher não deixa. Tenho a sensação de que, se a minha mulher não fosse muito exigente nas horas de chegar a casa e não resmungasse quando chego um pouco mais tarde, poderia ser complicado. Mas ela aí tem sido muito clara e eu chego normalmente a casa às sete e meia, oito da noite. Começo cedo a trabalhar e em geral nunca trabalho depois do jantar. Sempre que posso deito-me às nove e tal, dez horas e levanto-me às seis da manhã.

Lá se vai a televisão pela noite dentro...
Essa é precisamente uma das razões por que quase nunca vejo televisão. Se há 20, 30 anos me dissessem que não iria ver televisão acharia impossível, porque era fanático quando era miúdo. Mas agora dou por mim a passarem-se semanas sem olhar para a televisão, o que tem consequências sociais terríveis, porque toda a gente vê e toda a gente sabe dos assuntos que eu não sei.

Uma das suas actividades mais notórias são os artigos no DN, onde expõe opiniões muito musculadas, digamos assim, que frequentemente são alvo de comentários noutros lugares. Mas nunca entra em polémica.
Não entro em polémica porque sempre achei que o artigo de jornal acha-se mais importante do que é. Acho graça escrever sobre a realidade, mas não sobre outras opiniões e sobre outros artigos de jornais. No entanto, gosto muito de ouvir as opiniões dos outros, e gosto muito que pessoas por quem tenho respeito digam bem de mim e pessoas por quem não tenho respeito digam mal de mim. São dois sinais que prezo muito. Nisto uso a regra de Confúcio: o importante é que as pessoas boas digam bem de ti e que as pessoas más digam mal de ti. Enquanto funcionar assim, eu não estou preocupado.

Considera-se um provocador?
Isso considero. E acho que a razão por que sou provocador tem a ver com as minhas aulas. Costumo dizer que o meu teste de fogo foi dar aulas aos caloiros, porque eles são a audiência mais difícil do mundo. A sua atenção precisa de ser constantemente provocada, nunca pode ser dada como garantida. Esse meu tique manifesta-se em todo o lado. Realmente, sou um provocador nato, por construção gosto sempre de ver aquele lado que as pessoas não viram, apresentar as coisas num estilo rebarbativo. Às vezes causo alguma irritação, é verdade, e peço desculpa. Mas a causa é esta: ser provocador é uma outra definição de professor.

Quando escreve que a irmã Lúcia é "uma das nossas figuras intelectuais mais influentes" está a provocar?
Eu acho que é verdade, acho que a irmã Lúcia é, em Portugal, uma das figuras intelectuais mais influentes. Não é uma das figuras intelectuais mais influentes no meio intelectual que se considera com o monopólio da intelectualidade portuguesa. Aí não só não é influente como nem sequer é conhecida. Mas quando a poeira assentar e todos os génios que encontramos na nossa vida intelectual forem esquecidos, ainda se irá falar da irmã Lúcia. Em termos objectivos, e não facciosos.

A provocação não está em defender a influência da irmã Lúcia, está na utilização do adjectivo "intelectual".
Mas a provocação da irmã Lúcia é intelectual. Não é económica, política, material. A sua intervenção é no mundo das ideias. O facto de alguns dos intelectuais portugueses, com uma enorme falta de dignidade científica, terem desprezado as opiniões da irmã Lúcia como não intelectuais é um erro desses senhores. O problema é que alguns intelectuais consideram como vida intelectual aquela suprema ociosidade em que eles elucubram asneiras. Isso não é intelectualidade, isso é o lixo intelectual que rapidamente desaparece da História.

Acredita em Fátima, portanto.
Acredito em Fátima. Só há duas hipóteses: ou é verdade ou é uma palhaçada. E eu digo que é muito mais difícil sustentar que Fátima é falso do que é verdadeiro. No mínimo, é uma coincidência extraordinária que a perestroika se tenha iniciado poucos meses depois da Consagração do Mundo pelo Papa, em 1984, nas condições que a irmã Lúcia havia definido nos anos 40. Ainda hoje é um dos mistérios da História.

Reza o terço todos os dias?
Exactamente.

A figura do católico não praticante faz para si algum sentido?
Tenho dificuldade em compreendê-lo. Repare: a religião é um projecto de vida. Uma pessoa que é católica não pode viver a não ser com os olhos postos no céu, porque é para aí que está a ir. Se a pessoa vai passar a maior parte da sua vida no céu e neste momento está só na sala de espera, durante uns anitos, esse é um facto de tal maneira importante que não nos podemos lembrar dele só de vez em quando. Por isso, não ser praticante é difícil, como é difícil ser casado e não ser praticante. Agora, não menosprezo a fé latente que certas pessoas têm.

Nunca teve dúvidas de fé?
Nunca tive dúvidas paralisantes de fé. Mas há um crescimento na fé que é feito de altos e baixos.

Pertence à Opus Dei?
Não. Tenho muito respeito pela Opus Dei e procuro colaborar com todos os movimentos da Igreja, mas não pertenço. Não calhou ir por aí.

Estuda regularmente teologia?
O facto de ter a Bíblia e a Suma Teológica [de S. Tomás de Aquino] aqui na minha secretária é capaz de ser um sinal disso.

Essa "Suma Teológica" é em latim. Lê latim?
Tive de estudar latim por causa dela. Há seis anos descobri a personagem de S. Tomás de Aquino, que é um homem absolutamente extraordinário. Comecei a ler a Suma Teológica e só a larguei daí a quatro anos. Foi um momento de revelação. Fiquei fascinado com a clareza de espírito, com a ordenação das ideias, com a forma de olhar para o mundo. Não sou um especialista em mais nada mas tento estudar S. Tomás de Aquino sempre que posso. Não sei muito de latim, tive de aprender sozinho e hoje tento ler uma hora de latim por dia. Neste momento até publico textos científicos em revistas internacionais de economia sobre o pensamento económico de S. Tomás de Aquino. Encontrei lá motivos de investigação na minha própria área. Fiquei com o tique doentio de citar S. Tomás de Aquino em todos os textos que escrevo e tenho de fazer um esforço para me conter.

A cara da notícia

João César das Neves

Idade: 43 anos
Nascimento: Lisboa
Estado Civil: Casado
Filhos: Quatro
Partido: Não tem
Clube: Não tem
Obras publicadas: Cerca de 20
Livro: Bíblia
Peça Musical: "Heroíca", de Beethoven

quinta-feira, 26 de abril de 2001

Crise de Sociedade. Crise de Civilização


Crisedesociedadecrisedecivilizacao

Crise de sociedade, crise de civilização


CrisedeSociedade

sábado, 21 de abril de 2001

Todos devem ter prémios?

João Carlos Espada
Expresso 2001.04.21

«No lugar antes ocupado pelo mérito ou merecimento do desempenho individual, independentemente do berço, instalou-se hoje a igualdade de resultados. Em vez de mais oportunidades leais para todos, instalou-se o dogma dos prémios para todos - se possível, prémios iguais para todos. A consequência é óbvia: se todos devem ter prémios, o valor do prémio desaparece. Este igualitarismo foi reforçado por um individualismo sem entrave. Antes, a liberdade do indivíduo era entendida como condição da busca do bem e da verdade.» 

NA EDIÇÃO da semana passada, a revista britânica «The Economist» dedicou a crónica norte-americana Lexington ao nosso amigo Harvey C. Mansfield, professor em Harvard desde 1962 e membro do Conselho Editorial da revista luso-brasileira «Nova Cidadania». O facto é interessante a mais do que um título.
Em Harvard, Mansfield é conhecido pela alcunha de «Harvey C-minus Mansfield» - uma referência ao seu rigor na avaliação dos alunos, em época de inflação das notas. Numa escala crescente de D a A, metade dos estudantes obtém notas iguais ou superiores a «A menos», e apenas 6% obtêm notas iguais ou inferiores a «C mais».
Mansfield cansou-se de contrariar esta tendência inflacionista e, temendo estar a prejudicar os alunos, anunciou que passará a dar duas notas: uma, irónica, acompanhará a inflação e irá para os registos oficiais; outra, realista e exigente, será privadamente comunicada ao aluno para que este possa usufruir de uma avaliação séria - sem, no entanto, ficar prejudicado por comparação com os outros.
A decisão de Mansfield provocou os habituais protestos dos círculos politicamente correctos. «The Economist» veio apoiar Mansfield e condenar as (pós-)modernas teorias educativas que, em nome do culto da chamada auto-estima, estão a transformar o sistema educativo numa monumental operação de terapia. Em vez de ensinar, estas teorias visam que os alunos «se sintam bem» («feeling good»). O resultado é a dramática quebra de padrões, que começa a ameaçar mesmo as melhores universidades.
A resistência de Harvey C. Mansfield ao abaixamento de padrões não é facto isolado ou puramente idiossincrático. Tal como outros grandes intelectuais americanos curiosamente citados noutro artigo da mesma edição de «The Economist» - Leon Kass, de Chicago, Bill Galston, de Maryland, e o jovem Adam Wolfson, da revista «The Public Interest» - Mansfield vem há muito tempo denunciando a deriva de padrões em toda a atmosfera cultural que nos rodeia.
Essa deriva é resultado de uma subtil mas dramática transformação no entendimento dos alicerces espirituais da tradição liberal democrática. No lugar antes ocupado pelo mérito ou merecimento do desempenho individual, independentemente do berço, instalou-se hoje a igualdade de resultados. Em vez de mais oportunidades leais para todos, instalou-se o dogma dos prémios para todos - se possível, prémios iguais para todos. A consequência é óbvia: se todos devem ter prémios, o valor do prémio desaparece.
Este igualitarismo foi reforçado por um individualismo sem entrave. Antes, a liberdade do indivíduo era entendida como condição da busca do bem e da verdade. Estava, por isso, indissociavelmente ligada à existência de erro, e de responsabilidade perante o erro. Mas as teorias pós-modernas decretaram o fim das ideias de bem, de verdade e de erro. A liberdade passou a ser entendida apenas como condição da «auto-expressão» das inclinações de cada indivíduo - todas elas legítimas, desde que sejam «autênticas».
Há mais de 200 anos, Edmund Burke (um dos autores em que Harvey C. Mansfield é uma autoridade) tinha previsto o resultado destas ideias: a generalização da grosseria e o fim da «gentlemanship». Alexis de Tocqueville - cuja «Democracia na América» acaba de ser novamente traduzida para inglês, precisamente por Harvey C. Mansfield, sob o aplauso unânime da crítica - observou exactamente o mesmo. Mas acrescentou uma nota optimista que certamente não passou despercebida a Mansfield:
«A alma tem necessidades que precisam de ser satisfeitas, e, por muito que tentemos distraí-la de si mesma, ela depressa acaba por se aborrecer, inquietando-se e agitando-se no meio dos prazeres dos sentidos (...). Tudo o que eleva, enobrece e expande a alma torna-a mais capaz de triunfar até nos empreendimentos que nada têm a ver com ela».
jcespada@netcabo.pt