sexta-feira, 28 de setembro de 2001

Três linhas da frente

A melhor resposta nesta frente veio de João Paulo II quando, no Cazaquistão, apelidou o terrorismo de "profanação de Deus". Na terceira frente da guerra não pode haver vencidos e vencedores, porque não é um jogo de soma-zero mas sim o tecido em que se cruzam as vidas humanas. O sagrado humanismo da Constituição americana e a religião do Corão concordam com as palavras do Papa, em Astana, de que "o ódio, o fanatismo e o terrorismo profanam o nome de Deus e deformam a autêntica imagem do Homem".

Três Linhas da Frente
Mendo Castro Henriques
Euronotícias, 28 de Setembro de 2001


Espero que Cabul não esteja já a arder, hoje, 10 do Rajab de 1422, era do profeta; mas é previsível que estejam em vias de se desenrolar operações especiais em um ou mais dos países que dão asilo aos terroristas das irmandades muçulmanas implicadas no genocídio de 11 de Setembro.
Seja qual for a eventual acção militar da coligação internacional liderada pelos EUA, estamos perante uma guerra com três linhas da frente: ganha-se ou perde-se uma guerra tanto nos campos de batalha, como nas mesas de negociações de paz, como na vida humana que prossegue, com os seus cultos e instituições. É por isso que a paz não é apenas a ausência de guerra mas qualquer coisa mais que os criadores deste mundo ajudam a definir.
Ora os EUA vão na sua sexta guerra no continente asiático. Após a vitória sobre as Filipinas espanholas em 1898, sobre o Japão em 1945, após a meia vitória sobre a China e a Coreia do Norte em 1950, após a derrota do Vietnam, em 1972, e outra meia vitória sobre o Iraque em 1991, encaminham-se agora para um inexorável conflito contra forças islâmicas, nomeadamente no Afeganistão.
Os EUA venceram o Japão em combate e com bombas nucleares ditas "civilizadas". Mas depois foi exemplar o modo como o General MacArthur criou compromissos com as instituições nipónicas, transmitindo o melhor que a América oferece. De igual modo, venceram a guerra da Coreia, contendo a China, e contendo-se a si próprios no paralelo 38º, de acordo com a interpretação rigorosa da doutrina Truman.
A Guerra do Vietnam foi perdida, apesar de o General Giap nunca ter ganho uma única batalha táctica. Nas negociações de Paris, Kissinger arrancou um compromisso que mostra a força do realismo diplomático. Mas quando o exército do Vietnam do Norte e o Vietcong entraram em Saigão, em 25 de Abril de 1975, o que restava da América era apenas um amálgama de órfãos, minas e ressentimento que só agora se começa a esbater, em nome da globalização.
Os EUA ganharam militarmente a Guerra de Golfo, após seis longos meses de preparação no deserto. Por motivos aparentes de equilíbrio geoestratégico, não tiveram capacidade negocial para levar o isolamento diplomático de Saddam Hussein até ao derrubamento do déspota que faz imperar o terror no seu palácio e entre os Curdos e que, para contrariar a miséria entre a sua população, apenas dispõe de projectos de vingança. A única paz no Iraque parece ser a dos cemitérios
A nova guerra asiática dos EUA ­ e da coligação que inclui a Rússia  - vai ser conduzida contra as irmandades muçulmanas acoitadas em vários Estados, mormente o Afeganistão. É tão nova quanto o acto de terrorismo estratégico de 11 de Setembro com que o famigerado OBL provocou deliberadamente os EUA, no seu território, para um confronto com as nações islâmicas.
Na resposta americana, e apesar da retórica do "bem contra o mal", a contenção está a prevalecer. Em vez de cair na armadilha diabólica de declarar guerra ilimitada aos muçulmanos, os EUA estão a criar os acordos com os principais parceiros estratégicos por forma a facilitar alianças e operações, e preparar a paz possível.
O factor ainda em falta na estratégia anti-terrorista - persuadir os dirigentes islâmicos que o terrorismo ameaça muito mais a estabilidade das próprias nações do que um ataque militar cirúrgico de americanos e aliados ­ evidencia a segunda frente desta guerra.
A frente diplomática da guerra exige exibição de provas concludentes que apontem o famigerado OBL como responsável pelo ataque de 11 de Setembro. A presunção não basta. Essa causa  tem que ser ganha no tribunal da opinião pública internacional, nomeadamente a islâmica, com ou sem Tribunal Penal Internacional. Só assim, os dirigentes moderados islâmicos anti-terroristas ganharão forças para perseguir os fundamentalistas.
Ora na frente diplomática, os EUA estão a obrigar os dirigentes islâmicos de estados soberanos ­ os aliados e os "suspeitos do costume" - a  fazer o que eles exigem; caso contrário...Dirigentes como o Gen. Musharraf são obrigados a aparecer como lacaios dos "frangues", e pior, do EUA, tornando-os mais vulneráveis às forças do terrorismo que a coligação internacional procura esmagar. Poderão ser úteis de momento; mas não se lhes dá tempo para mobilizarem a lei islâmica, em nome da qual, de bom ou mau grado, perseguiriam quem a quebrou.
A terceira frente desta guerra é cultural, na modalidade religiosa. O saudita sobre o qual impende uma condenação da ONU, e que está comprovadamente implicado em atentados contra os EUA, apelou à Jihad porque o seu país natal acolheu tropas não-islâmicas em 1991. O milionário terrorista, em tempos apoiado pela CIA - numa variação do banqueiro anarquista do nosso Pessoa -  considerou isso, um acto de profanação.
A melhor resposta nesta frente veio de João Paulo II quando, no Cazaquistão, apelidou o terrorismo de "profanação de Deus". Na terceira frente da guerra não pode haver vencidos e vencedores, porque não é um jogo de soma-zero mas sim o tecido em que se cruzam as vidas humanas. O sagrado humanismo da Constituição americana e a religião do Corão concordam com as palavras do Papa, em Astana, de que "o ódio, o fanatismo e o terrorismo profanam o nome de Deus e deformam a autêntica imagem do Homem".
Se quiserem vencer a sua sexta guerra asiática, os americanos não poderão usar da arrogância de 1898, nem da retórica de 1941, nem da estratégia de 1967, nem sequer das armas de 1991. Ao invés do fanfarrão do Departamento de Defesa, que chegou a seleccionar "Justiça Infinita" como o nome da operação, terão que se vencer a si próprios segundo a máxima escrita no gabinete de Colin Powell de que "o auto-controle é o mais respeitado dos poderes".

terça-feira, 25 de setembro de 2001

Inundados pelo deserto

Inundados pelo deserto
António Rego
A tragédia americana de 11 de Setembro tem alguma novidade sobre as que a precederam: uma gama alargadíssima de facetas, de causas e consequências, que acabam por permitir milhares de leituras, contradições, revoltas e preces. À primeira vista tudo pode resultar da grandeza da América ­ não é fácil encontrar um país que junte tantas paixões, ódios e diferenças ­ mas também se pode olhar do lado das puras regras da narrativa de uma história: um caso onde o acontecimento é o resultado de uma cadeia de operações que abre um autêntico folhetim de perguntas, a lembrar uma telenovela que se vai alterando para manter bem viva a presença expectante de quem acompanha a história.
José Saramago, com a magia da sua palavra e a sua obsessão (anti?) religiosa, acha, em recente artigo, que as guerras do planeta se devem ao ³factor Deus² e que Ele, coitado, não teve, nem tem, a mais leve culpa de nada porque, simplesmente, não existe.
Mas não foi o factor Deus que provocou as vítimas dos Gulags, da Sibéria, do extermínio Nazi, de Auschwitz , Sachsenhousen, de Hiroshima, ou das guerras de petróleo e diamantes em África. Nenhuma destas tragédias, que se saiba, tem a ver com religião.
Mas há, isso sim, uma explosão do religioso na sequência da catástrofe americana: a multiplicidade ininterrupta de celebrações religiosas em todo o mundo, pelos vivos e pelos mortos, pelos agressores e pelos agredidos, em todos os credos, sem a mais leve mácula de ódio. Antes, um tempo de recolhimento pessoal, de encontros comunitários, de preces ecuménicas, partilhada por crentes e por laicos de todos os credos.
É que todo o ser humano se sente abalado, ou mesmo desamparado quando entregue apenas à sua fragilidade. É importante nestes momentos perguntar a Deus e ao homem pelo sentido da vida e pela condução da história. Desde aquele primeiro dia do Génesis que Deus nos entregou a responsabilidade por quanto se passa no mundo. Um pouco atordoados voltamo-nos para Ele a pedir-Lhe que nos empreste o seu olhar para o deserto que nos inunda.
António Rego 20010925 Agência Ecclesia

domingo, 23 de setembro de 2001

Visita do papa ao Cazaquistao, 20010923

Atentados não podem dividir
23-09-2001 11:17:03

 O Papa João Paulo II apelou este domingo aos cristãos e muçulmanos para que não permitam que os atentados de 11 deste mês nos Estados Unidos os dividam, sublinhando que a religião «jamais deve ser utilizada para alimentar conflitos».

«Não devemos permitir que os acontecimentos nos Estados Unidos nos possam dividir», afirmou o bispo de Roma, de 81 anos, durante a celebração de uma missa em Astana, capital do Cazaquistão, uma ex-república soviética da Ásia central, de maioria muçulmana.

João Paulo II, que chegou sábado ao Cazaquistão para uma visita pastoral de três dias, apelou ainda aos cristãos «e aos fiéis de outras religiões» para trabalharem em conjunto, «para construir um mundo sem violência, que ama a vida e que crê na justiça e na solidariedade».

«Que cada povo, inspirado pelo espírito divino, possa trabalhar para uma civilização de amor», afirmou na missa, perante cerca de 40 mil pessoas, manifestando também a esperança no desaparecimento «de todas as formas de ódio, de discriminação e de violência».

O Papa, por outro lado, manteve de manhã uma longa conversa telefónica com o seu secretário de Estado, o cardeal Angelo Sodano, que permaneceu no Vaticano para seguir os acontecimentos internacionais, relacionados sobretudo com a operação americana.

A visita de João Paulo II ao Cazaquistão, primeira etapa de uma curta digressão que o levará também à Arménia, a partir de terça-feira, está rodeada de medidas de segurança excepcionais, para o que foram convocados mais de 2.400 agentes policiais.

A deslocação ao Cazaquistão representa também um sinal de respeito de João Paulo II pela pequena comunidade católica de cerca de 300 mil pessoas, na sua maioria descendentes de alemães e polacos deportados para as estepes áridas deste país da Ásia central pelo antigo líder soviético Estaline durante a Segunda Guerra Mundial.

É também vista como uma oportunidade para reforçar os laços entre cristãos católicos e ortodoxos, pois cerca de 20 por cento dos mais de 20 milhões de habitantes do Cazaquistão são russos ortodoxos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2001

E a luz brilhou nas trevas (Jo. 1,5)

Tomada de posição do Cardeal Patriarca face ao atentado de Nova Iorque.

D. José Policarpo
E a luz brilhou nas trevas (Jo. 1,5)

1. Ao encetar esta presença, que espero seja mensal, nas páginas da "Voz da Verdade", não posso deixar de meditar convosco nos dramáticos acontecimentos das últimas semanas, que tendo atingido directamente o Povo dos Estados Unidos da América, encerram um significado para toda a humanidade, neste início do séc.º XXI. É que um dos frutos da nossa fé cristã é ser luz que nos permite ler os acontecimentos da história humana, captando-lhe as interpretações e exigências para a edificação do Reino de Deus.
O primeiro elemento significativo é a sua brutal surpresa. A ordem mundial decorria na sua rotina assumida e eis que de repente tudo é posto em questão, obrigando-nos a pôr questões sobre o sentido da civilização que edificamos, sobre as injustiças e desarmonias a que nos habituámos, sobre movimentos de fundo que desconhecíamos. O Senhor Jesus avisou-nos que a hora do Reino virá de surpresa, como um ladrão!
A crueldade dos acontecimentos, expressão dramática do desrespeito pela pessoa humana e pela sua dignidade, alertam-nos para a injustiça e inutilidade da violência como caminho para encontrar soluções para os problemas da humanidade. Dos nossos corações perturbados tem de brotar um grito decisivo contra a violência, que se traduza nos nossos comportamentos diários, na construção generosa da harmonia, da fraternidade e da paz.
No momento em que escrevo todos nos perguntamos qual vai ser a reacção do país atacado, exercendo, aliás, o seu legítimo direito de defesa. Oxalá não se traduza em mais uma manifestação de violência estéril e ineficaz, sacrificando mais vítimas inocentes. É preciso interpretar, sábia e corajosamente, os factos, para poder agir sobre as causas, sem deixar de julgar com justiça os culpados. Uma grande Nação, como os Estados Unidos, tem a oportunidade de dar à história uma lição de grandeza, reagindo de modo a marcar positivamente a humanidade na superação dos seus problemas e conflitos.

2. As clivagens entre a Civilização Ocidental, marcada pela liberdade democrática e pelo sucesso económico e o resto do mundo, marcado pela pobreza e pelo sub-desenvolvimento, é mais profundo do que parecia. A amplitude dos acontecimentos revelaram-nos uma ampla organização, porventura a plano mundial, da reacção contra a Sociedade Ocidental, que não está isenta de culpas, na tibieza com que enfrenta o drama dos países pobres, nas injustiças praticadas em nome de políticas de sucesso e de lucro, na humilhação, tantas vezes gratuita, de povos e Nações. Ou o Ocidente aparece claramente com projectos generosos, ao serviço da outra parte da humanidade, ou isto é apenas o início de uma longa luta, em que a vitória, se para ela houver lugar neste género de conflito, não é certa para ninguém. Uma nova ordem mundial acabará por surgir: ela pode ser fruto da generosidade ou de um sofrimento colectivo de consequências imprevisíveis. Em dezenas de conflitos que retalham a humanidade, estamos ainda a tempo de encontrar soluções justas e criativas. Que ao menos aprendamos isso: uma solução injusta em qualquer ponto da humanidade, globaliza-se nas consequências do drama. As Nações poderosas têm de ser audazes nas propostas, generosas nas soluções, se querem ser protagonistas de uma nova ordem que inevitavelmente surgirá.

3. A violência dos últimos dias tem sido relacionada com pessoas e países de religião islâmica. Com o Santo Padre João Paulo II acredito que o diálogo inter-religioso é uma pedra fundamental desse mundo novo, mais harmónico e mais justo. Temo que este ambiente o comprometa, acentuando, em todos os quadrantes, a intolerância cultural e religiosa. Não confundamos os criminosos e os extremistas com as centenas de milhões de irmãos nossos que praticam pacificamente a sua fé num Deus único.
Peço a Deus que ilumine os nossos irmãos islâmicos em todo o mundo, lideres religiosos e chefes políticos, para se distanciarem de interpretações abusivas e violentas do seu livro sagrado. O Deus único em Quem todos acreditamos, não pode ser fundamento para meios violentos, na luta por causas, porventura justas.

4. Neste início de ano pastoral, que a nossa oração se eleve em memória de tantas vítimas inocentes, em auxílio das pessoas retalhadas pela dor e perdidas na confusão. Sejamos incansáveis na recusa da violência, na construção da fraternidade e da paz, na construção corajosa da justiça. Só assim cada cristão e a Igreja toda serão sinal anunciador de uma civilização do amor.

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca
In "Voz da Verdade"
[19-09-2001 18:26:24] [Documentos] [4554 caracteres] [Grátis] [ D. José Policarpo ]

Jornal das Boas Notícias, 8

JBN08

terça-feira, 18 de setembro de 2001

América

América
O atentado terrorista contra os Estados Unidos constitui, antes de mais, uma surpresa terrível. Os símbolos do poder no mundo foram abatidos, arrastando consigo milhares de mortos. Como se o poder, a ostentação máxima da construção humana, nada pudessem diante de uma outra capacidade humana, a de destruir, de aniquilar o esforço da civilização. Assim, os ocidentais, distraídos e esquecidos da sua fragilidade, do mal e do pecado que  trazem dentro, ficaram aterrorizados em frente da televisão, que mostrava, como num cenário de ficção científica, a realização da intenção malvada dos "outros". Com efeito, tudo aquilo que é humano está em gravíssimo risco, que nenhum escudo de guerra das estrelas pode eliminar. Não por razões técnicas, mas por aquele veneno a que os cristãos chamam "pecado original": a inveja que o homem traz dentro de si contra o bem e contra si próprio.

    É difícil combater quem não tem medo de morrer, quem pelo contrário faz da morte, da autodestruição, a estratégia absurda para se afirmar a si próprio. Normalmente faz-se a guerra pela paz. Mas como é que isto é possível com quem já não tem personalidade, com quem, vivo, caminha voluntariamente como um morto, tendo queimado o sabor da existência e da liberdade na alienação total a um desígnio alheio? Este, seja ele dedicado ao seu deus, ou, pior ainda, a outros homens, é como se já não existisse: reduziu-se a si próprio, fazendo-se um nada cheio de explosivos que reduz a nada aquilo que encontra. Aqueles que o celebram compartilham e assumem a mesma carga destrutiva, a qual se não for aplicada a si, será aplicada aos outros. Como parar uma degenerescência que na violência, mesmo na suportada, encontra a possibilidade de se multiplicar ao infinito?

A desorientação e a dor de quanto sucedeu não podem ser aplacadas, ou ainda menos resolvidas, nem pela indiferença que tende a reduzi-las a emoções de um filme, nem pela vingança que pode só transformá-las no sabor amargo de uma vitória devastadora e provisória. É preciso procurar a justiça, com todos os meios dos homens, não segundo a presunção dos homens, mas segundo a vontade de Deus, daquele Deus que o Papa invocou, seguido de tantos que se ajoelharam em oração: «Mesmo que a força das trevas pareça prevalecer, o crente sabe que o mal e a morte não têm a última palavra. Fortes pela fé que sempre guiou os nossos pais, dirigimo-nos ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, salvação do seu povo, e com confiança de filhos, suplicamos-Lhe que venha em nosso socorro nestes dias de luto e de dor inocente».

Precisamos de nos encontrar de novo a nós próprios, isto é, Àquele que nos fez conhecer o bem, o gosto da vida, o gosto do próprio eu como factor indispensável ao mundo. Precisamos de O encontrar de novo, para o comunicar a todos: não só através do cintilar das luzes, mas sobretudo através do testemunho de uma entrega à verdade. É um caminho longo e nada fácil, mas provavelmente o único.

Comunhão e Libertação
18 de Setembro de 2011

segunda-feira, 17 de setembro de 2001

A resposta ao horror

João César das Neves
DN 20010917
Na guerra: firmeza; na derrota: resistência; na vitória: magnanimidade; na paz: benevolência" (Winston Churchill The Second World War, Cassell, 1948-1954). O inqualificável ataque terrorista contra a América tem um propósito claro: pôr em causa os fundamentos do mundo civilizado. Perante ele, só há uma resposta digna: a afirmação inequívoca dos mesmos fundamentos da civilização. Assim, junto com o resgate das vítimas e a reconstrução da cidade, este tem de ser um momento de proclamar, clara e serenamente, os valores da justiça, liberdade, cooperação e abertura que sustentam o nosso modo de vida. Qualquer outra resposta serve apenas os objectivos dos terroristas.
A humanidade atingiu a 11 de Setembro um novo patamar de horror numa escalada secular. Desde a guilhotina do "Terror", a era contemporânea já viu muito. Mas atirar aviões cheios de passageiros contra prédios cheios de gente é uma crueldade que abre novos abismos da maldade humana.
A resposta civilizada tem de ser castigar os culpados; mas não os vizinhos e simpatizantes. Tem de ser condenar e combater o terrorismo, não o mundo árabe ou outra comunidade. Tem de ser justiça, não mais terrorismo. Está em causa a humanidade contra o comportamento inumano. O Islão faz parte do concerto das nações civilizadas que repudiam e combatem este horror. Aliás, a atribuição de culpas culturais seria muito complicada. Todas as civilizações, quando esquecem os seus valores, caem na perversão.
A explicação de que este é um acto bárbaro cometido por fundamentalistas exóticos é verosímil, mas também cómoda. Um atentado terrorista é sempre maior que as respostas simples. Um indício de que a realidade é mais complexa do que parece é o facto de todos no Ocidente já termos visto coisas daquelas centenas de vezes. No cinema e na televisão as audiências vivem múltiplas variantes da atrocidade global, com supercriminosos prontos a chacinar multidões para, no último momento, o herói salvar a situação. Isso significa que os nossos divertimentos quotidianos tornaram banal o horror inaudito. Todos já fomos colocados dentro de mentes capazes de actos semelhantes, com os nossos melhores génios literários esforçando-se para dar credibilidade ao impensável. Assim, não podemos dizer, como os nossos antepassados, que uma supina barbárie destas é incompreensível, inqualificável, inaudita. Porque estamos fartos de a compreender, qualificar e ouvir.
Ninguém como os ocidentais modernos entende como se podem fazer actos destes. Todas as civilizações que esquecem os seus valores caem na perversão.
Este não é um acto bárbaro, porque nenhum bárbaro seria capaz de o praticar. Só na nossa sociedade rica e desenvolvida ele é possível. A preparação para o ataque seguiu técnicas e conhecimentos americanos. O treino foi feito num jogo de computador que os nossos filhos usam. O atentado mais próximo deste, a explosão do edifício federal em Oklahoma City, em Abril de 1995, não veio de um árabe furioso, mas de Timothy McVeigh (1968-2001), um jovem americano comum. O maior terrorista mundial, culpado de múltiplas atrocidades e agora principal suspeito, Osama Bin Laden (1956- ...), não é um selvagem primitivo, mas um milionário sofisticado, que se diz ser licenciado em engenharia por Londres.
Mas além de criar o ambiente e dar os meios, a sociedade ocidental também o ajuda a justificar. Um acto terrorista desta magnitude só é possível quando se atira graves culpas para cima de pessoas inocentes. Os terroristas acham que as vítimas são, de alguma forma, cúmplices dos sofrimentos horríveis que querem vingar. Esta perversa distorção da justiça segue um raciocínio cuja origem não é tanto islâmica, árabe ou oriental. É mais iluminista, jacobina, marxista ou nazi, claramente herdeira da lógica política ocidental dos últimos séculos.
Na nossa história e filosofia recentes assistimos repetidamente a este tipo de transposição social da culpa para inocentes. As doutrinas europeias dos séculos XIX e XX justificaram que a origem de classe de uma pessoa chega para a condenar, independentemente dos seus actos. Movimentos pacifistas, ecológicos e contra a globalização repetem acusações de "pecado social" e "responsabilidade nacional" sobre pessoas sem envolvimento directo. Na era moderna habituámo-nos a culpar a sociedade de todos os males, fazendo publicamente transposições de culpa semelhantes à dos terroristas. A esta lógica só falta a violência, que outros se encarregam de juntar. As civilizações que esquecem os seus valores caem na perversão. O terrorismo é uma doença social terrível. Como outros horrores históricos, nasce da perda dos princípios da natureza humana. Só se pode confrontar exaltando esses princípios.
Não há nenhum momento em que a sabedoria, a prudência e a virtude sejam tão necessárias como perante um horror inexplicável. Sob pena de perpetuar esse horror.

naohaalmocosgratis@netc.pt

quinta-feira, 13 de setembro de 2001

Depois do fanatismo e da tragédia

DEPOIS DO FANATISMO E DA TRAGÉDIA:
JUSTIÇA E PAZ
Aconteceu tragédia no palco da vida, onde esta palpita forte, onde homens e mulheres se cruzam ao ritmo célere de todas as motivações. Milhares de inocentes foram sacrificados, em nome de um fanatismo neste momento ainda sem rosto e sem responsáveis identificados.
A humanidade tremeu incrédula, em estado de choque, perante o desenrolar do drama. O coração da dignidade da pessoa humana foi esventrado de uma maneira inimaginavelmente brutal.
Foram tomadas todas as providências que se impõem para auxílio dos feridos, resgate dos mortos e restabelecimento da normalidade nos locais afectados. Tudo vai levar muito tempo, mas está ao alcance dos homens.
Mais problemático e difícil será, no entanto, normalizar consciências, reflexos e atitudes.
São inevitáveis as declarações que se vão produzindo e os apelos que se ouvem, ditados por sentimentos de profunda repulsa e de retaliação contra quem possa estar ou ter estado em relação com a autoria da tragédia.
A CNJP apela a que se faça justiça, investigando com todo o rigor e punindo exemplarmente os responsáveis, e concertando esforços efectivos para prevenir e suster o terrorismo.
Os governos e as organizações responsáveis não poderão, porém, incorrer no risco da injustiça de fazer mais inocentes pagar pelos culpados ou da generalização abusiva destes quanto à sua origem étnica ou credos religiosos.
Isso não faria mais do que disseminar mais sementes de violência que, perto ou longe, cedo ou tarde, germinam e matam.
É este perigo de uma grave injustiça no fazer justiça que é preciso evitar enquanto é tempo. A morte não é, nunca foi o caminho para nada.
A hora é dramaticamente difícil. Por isso, mais do que nunca é necessário saber conciliar a firmeza da luta contra o terror e a impunidade, com a fortaleza da serenidade.
A esta desordem internacional em que se misturam factores explosivos de fanatismo letal, indignidade humana, relativismo ético, globalização do terror e indiferença do sofrimento, saibamos ser capazes de responder com o mais elevado e rigoroso sentido de justiça, na esperança de uma total concertação no combate ao mal, ao mesmo tempo profundamente despertos para com o sofrimento humano que grassa no mundo.
Lisboa, 13 de Setembro de 2001

quarta-feira, 12 de setembro de 2001

EUA/Atentado: São dias de luto e dor inocente...

O Papa está profundamente abatido face aos acontecimentos de "tão inqualificável horror", que ontem ocorreram nos Estados Unidos.
2001-09-12 - 11:57
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O horror sentido pelo Santo Padre está bem expresso na mensagem que proferiu esta manhã na sua audiência semanal.
Assim, enviou ao Presidente dos Estados Unidos e a todos os cidadãos americanos os seus mais sinceros pêsames, acrescentando que perante "acontecimentos de tão inqualificável horror, só se pode permanecer profundamente perturbado".
"Quero unir-me a quantos nesta hora expressaram a mais indignada condenação, reafirmando com vigor que os caminhos da violência nunca levam à verdadeira solução dos problemas da humanidade", afirmou João Paulo II.
Na sua opinião, ontem foi um dia de escuridão na história da humanidade, uma terrível afronta à dignidade do homem.
O Santo Padre admitiu que mal soube da notícia, seguiu intensamente o desenrolar da situação, elevando ao senhor a sua intensa oração.
"Como é possível verificarem-se episódios de tão selvagem frieza? O coração do homem é um abismo no qual às vezes brotam desígnios de inaudita ferocidade, capazes de, num instante, desestabilizar a vida serena de um povo, mas a fé vem ao nosso encontro nestes momentos em que qualquer comentário parece inadequado. A palavra de Cristo é a única que pode dar resposta às perguntas que se agitam na nossa alma", considerou o Papa.
Esta manhã, em Roma, João Paulo II rezou em várias línguas pelos mortos e pelo sofrimento dos vivos e invocou o Deus de Abraão, Isaac e de Jacobs - comum às três religiões moteistas - para vir em auxílio da humanidade nestes dias de luto.
"Com grande estupefacção perante o horror da violência destruidora, mas fortes na fé que sempre guiou os nossos pais, dirigimo-nos ao Deus de Abrãao de Isaac e de Jacob, e com confiança, nós, como filhos suplicamo-lhes para vir em nosso auxílio nestes dias de luto e dor inocente".

terça-feira, 11 de setembro de 2001

Terror nos EUA - Ameaca mundial, SIC on-line, 20010911

O que está a acontecer nos Estados Unidos choca toda a gente. A desumanidade das consequências dos atentados agride o nosso desejo de viver e de ser feliz.
Peçamos a Deus pelas vítimas e suas famílias para que Ele na Sua misericórdia as receba e console os que ficam.
Peçamos também pelos terroristas para que Deus os perdoe, porque não sabem o que fazem.
Peçamos ainda pelo povo e governo americano para que reaja com sabedoria ao horror destes atentados.
Alguns amigos sugerem que rezemos o terço por estas intenções, pedindo a intercessão de Nossa Senhora, Rainha da Paz
Pedro Aguiar Pinto

Cronologia dos acontecimentos

Terror nos EUA - Ameaça mundial? (Todas as horas são de Nova Iorque - menos cinco que em Portugal)
08h30 - Primeiro avião colide contra uma das "Twin Towers", em Nova Iorque. O avião, um Boeing 737 da United Airlines e com 64 pessoas a bordo, foi desviado por terroristas do ar. Fazia o percurso de Washington para Los Angeles.
08h48 - Segundo avião colide contra a outra torre de Nova Iorque. O aparelho, um Boeing 767 da companhia American Airlines, havia partido de Boston e tinha como destino Los Angeles. Transportava 81 passageiros e foi desviado por piratas do ar, que se encontravam a bordo. Colidiu directamente contra a torre norte, o maior edifício de Nova Iorque.
09h30 - Grupo terrorista da Frente de Libertação Palestiniana reivindica os atentados.
09h50 - Um terceiro avião colide contra o Pentágono, em Washington.
09h51 - Casa Branca e Capitólio são evacuados.
09h52 - Todos os aeroportos dos EUA são encerrados. Governo proibe todo o tipo de vôos. Todos os aviões estão a ser desviados para fora dos Estados Unidos.
09h53 - Toda a zona do World Trade Center é evacuada. Bolsa de Nova Iorque encerrada.
09h54 (14h54 hora de Lisboa) - Bolsa de Lisboa suspensa.
09h59 - O Presidente norte-americano, George W. Bush, é evacuado para parte incerta.
10h00 - Cai a torre sul das "Twin Towers" devido a uma terceira explosão. Aparentemente não existiam pessoas dentro dos edifícios.
10h07 - Governo norte-americano decreta o estado de alerta máximo.
10h14 - Dá-se uma quarta explosão, desta vez no Capitólio, sede do senado norte-americano.
10h16 - O Presidente norte-americano, George W. Bush, é evacuado no Air Force 1. O seu destino não é conhecido.
10h19 - Tony Blair e Lionel Jospin expressam votos de solidariedade para com os EUA. Mostraram-se ambos profundamente chocados.
10h25 (15h25 hora de Lisboa) - Reforço de segurança na embaixada norte-americana de Lisboa.
10h28 - Segunda "Twin Tower" cai.
10h30 - Governo decreta recolher obrigatório nos Estados Unidos.
10h32 - Departamento do Estado, da Justiça, do Tesouro, Congresso e ONU são evacuados.
10h33 - EUA têm conhecimento de um terceiro avião desviado para Washington.
10h36 - Um carro armadilhado explode no Departamento de Estado, em Washington.
10h38 - Parte do edifício do Pentágono cai.
10h43 - Cai um Boeing 747 na Pensilvânia, a sudoeste de Pittsburgh. O aparelho, da United Airlines, transportava 93 pessoas e fazia o trajecto de Chicago para Nova Iorque.
10h45 - Arafat e líderes mundiais condenam atentados.
10h50 - Evacua delegações diplomáticas nos EUA.
10h51 - Rússia acciona medidas anti-terroristas.
10h55 - Governo norte-americano dá ordens para abater todos os aviões que entrem no espaço aéreo da capital norte-americana, Washington.
11h00 - O presidente da Câmara de Nova Iorque ordena a evacuação de toda a zona central de Manhattan.
11h05 - Secretário-Geral da NATO apela à Frente Anti-Terrorista.
11h06 (16h06 hora de LIsboa) - TAP anula todos os vôos para os EUA .
11h07 - Autoridades norte-americanas têm conhecimento que um quarto avião se dirige para o Pentágono carregado de explosivos.
11h15 - Taliban no Afeganistão convocam conferência de imprensa.
11h17 - Um outro avião cai em Filadélfia com 54 passageiros a bordo.
11h19 - Cai mais um avião a caminho de S. Francisco.
11h20 - Tiros de alegria nos campos de refugiados do Líbano.
11h25 - Festeja-se nas ruas do Iraque, do Afeganistão e da Palestina.
11h35 - A CN Tower no Canadá, o ponto mais alto do mundo construído pelo homem, é evacuada.
11h40 - Embaixadas e consulados norte-americanos de todo o mundo são evacuados.
11h43 - Cai um outro avião perto de Pensilvânia.