segunda-feira, 29 de outubro de 2001

Os (Dois) Lados da Guerra

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 29 de Outubro de 2001


1 - Nos últimos dias, vários articulistas sublinharam a ideia de que esta guerra contra o terrorismo tem dois lados: o lado do terrorismo, e o lado dos que consideram justo e necessário derrotar o terrorismo, e por isso apoiam a guerra empreendida pelos Estados Unidos numa larga coligação de países em todo o mundo. Quero declarar que me coloco na posição de apoio a esta guerra justa e necessária. Porque a humanidade não pode entrar num período da sua história em que o terrorismo massivo se torne legítimo ou tolerado, seja qual for o nome ou a causa que invoque. É necessário que esta guerra constitua um facto histórico inequívoco contra um tal terrorismo. Que o erradique da vida internacional de forma eficaz e inquestionável.

É por isso que as posições equívocas acerca da iniciativa dos Estados Unidos, mais centradas na sua crítica do que na compreensão da sua justiça e das suas dificuldades, se podem constituir em posições que enfraquecem a condenação do terrorismo.

Não se trata de, por estas razões, escamotear os problemas, éticos e políticos, que a situação do mundo e o protagonismo dos Estados Unidos levantam à nossa consideração. Trata-se, isso sim, de não os tratar de tal modo que o resultado prático político do discurso seja uma condenação dos Estados Unidos e do ocidente. Todos já sabemos muito bem as artes da dialéctica e o manejo da semântica para nos iludirmos uns aos outros com o que dizemos.

Podemos, é claro, manter esta guerra em tensão permamente com a justiça e a piedade, a eficácia e a contenção, a perseguição dos culpados e a protecção dos inocentes - e creio que tem sido essa tensão, alimentada de muitas vozes e de muitos lados, que tem ajudado os Estados Unidos a conduzir a guerra com cuidados e atenções como não há memória de nenhuma outra anterior. Fazer uma guerra assim é algo de impossível pré-definição prática. A severidade do julgamento ético tem de combinar-se com a compreensão das dificuldades existenciais.

Finalmente. É necessário continuar a defender a justiça e a paz no mundo. Mas esta guerra não é (não quer ser e não irá ser) uma guerra de ricos contra pobres: é uma guerra de homens que querem viver em paz e segurança contra os que defendem que podem matar, até ao limite do seu suicídio (o que agrava o problema) aqueles outros que erigem em seus inimigos. Se substituirmos a questão da guerra entre pacíficos e violentos pela questão da injustiça entre ricos e pobres, estamos a substituir um problema ético por outro. E a eliminar o primeiro, ou a reduzi-lo a um simples acréscimo. Infelizmente, a segurança impõe-se como valor autónomo perante a própria justiça, como a humanidade sabe desde há séculos. E nós, todos os dias, simples e convictos, aceitamos por exemplo o princípio do caso julgado. Ou a prisão preventiva. Ou muitas outras instituições da nossa democracia e da nossa civilização. Claro: sempre sem perder de vista o respeito pelas liberdades individuais, mas na razoável medida do bem comum de que somos capazes.

2 - As Nações Unidas comemoraram, na quarta-feira passada, os seus 56 anos. O dia das Nações Unidas é celebrado em 24 de Outubro, porque foi nesse dia do ano de 1945 que a ONU iniciou a sua existência, após satisfeita a exigência da ratificação da Carta das Nações Unidas pelas cinco potências (China, França, União Soviética, Reino Unido e Estados Unidos) e pela maioria dos outros estados signatários. 56 anos não são uma conta redonda; mas caem nesta situação dramática de guerra mundial (contra o terrorismo). Por esta razão, merecem ser especialmente festejados.

A Carta das Nações Unidas foi, no seu processo de nascimento, uma grande esperança para a humanidade, numa altura em que terminava a II Guerra Mundial e todas as nações ansiavam por uma paz comum e duradoira. Apesar das dificuldades e até dos falhanços, as Nações Unidas continuam a constituir, hoje, a referência político-institucional mais importante que possuímos de uma comunidade internacional que irmane todos os povos, e em que todos os povos podem entrar a contribuir com igual dignidade e responsabilidade.

3 - A paz e a segurança, como a saúde, o alimento e tantos outros bens essenciais, só os valorizamos devidamente quando, de repente, nos faltam. Somos assim, distraídos e levianos; habituamo-nos aos bens como se eles nos fossem garantidos para sempre. Por isso nos amadurecem as crises e as faltas. Aprendemos sempre de novo duas coisas: que nada nos é garantido, e que temos de nos esforçar pelos bens de que necessitamos. É um problema de educação. É um problema de cultura.

Muito significativamente, este ano de 2001 é um ano dedicado pela ONU ao voluntariado. Com estas comemorações do voluntariado, confluem as celebrações da UNESCO, que mantém como proposta o «ano das Nações Unidas do diálogo entre civilizações». A ideia força é a da «educação para uma cultura de paz», que pretende «promover valores, atitudes e comportamentos nas pessoas, de tal modo que se prossigam objectivos de solução pacífica dos problemas» (ver o sítio da UNESCO na Internet).

4 - Contribuições para a paz. As Nações Unidas e Kofi Anan receberam o prémio Nobel da Paz. O Comité do Prémio sublinhou que as Nações Unidas são uma vanguarda dos esforços para a paz e a segurança.

D. Zacarias Kamuenho recebeu («ex-aequo» com um par israelo-palestiniano) o Prémio Sakharov. Pelos seus esforços em favor da paz. Nestes dias, foi também lançada em Lisboa mais uma iniciativa de paz para Angola, por altos representantes da Igreja Católica de Angola e outras personalidades.

Enfim, a guerra é hoje um drama doloroso para a consciência do mundo, que anseia pela paz. Mas à nossa volta jorram constantemente fontes de paz. Graças a Deus. É preciso ter olhos para ver.  

domingo, 28 de outubro de 2001

A Guerra e o Crime

Portugal Diário 28-10-2001 18:06:26
António Barreto

Logo após o 11 de Setembro, foram dados, pelo governo americano, sinais confusos. Falou-se sucessivamente de «guerra» e «guerra ao terrorismo», o que não é exactamente a mesma coisa. Falou-se de seguida em «trazer os criminosos perante a justiça», logo se corrigindo com um acrescento «ou levando a justiça aos criminosos». Depois, a primeira designação da campanha política e militar em curso, «justiça infinita», foi de uma infelicidade a toda a prova, revelando seguramente um estado de espírito perturbado. O termo «cruzada», com toda a sua carga histórica e religiosa, foi utilizado frequentemente, pelo menos nos primeiros tempos. Não faltou muito tempo para que George W. Bush, numa velha tradição do «west», a meio caminho entre a guerra e a justiça, proclamasse que procurava Bin Laden «vivo ou morto».

Com os dias, gradualmente, foram sendo feitas correcções políticas. Estamos hoje perante uma situação um pouco mais clara, apesar de subsistirem, naturalmente, zonas de indeterminação. Temos assim, em paralelo, duas acções ou dois esforços: o de guerra e o esforço de justiça. Como temos ainda uma acção nacional por parte da potência americana; uma acção internacional da mesma; uma acção internacional política e militar à qual aderem vários Estados; e uma acção colectiva política e jurídica conduzida no âmbito das Nações Unidas. Como está de ver, a articulação entre estes vários níveis e estas diversas modalidades de intervenção é muito difícil, contraditória por vezes. Creio, todavia, que, numa situação tão complexa como esta, seria de esperar.

Uma das discussões mais importantes sobre a natureza das acções em curso é a que se realiza à volta do recurso à justiça para resolução dos conflitos conhecidos e futuros. Na retórica americana, aliada e internacional (designadamente no seio das Nações Unidas), a referência à justiça é permanente. Mas em quase todos os outros quadrantes se verifica o mesmo fenómeno. Os aliados dos americanos reclamam o respeito pelas normas de direito internacional. Os pacifistas e os adversários da resposta militar propõem a justiça como alternativa à guerra. Os Talibans e os terroristas exigem provas do seu envolvimento nos ataques de Setembro. Parece pois haver consenso sobre a necessidade de accionar os processos judiciários disponíveis, sendo que, evidentemente, não existe unanimidade, longe disso, quanto à jurisdição adequada. Um Tribunal internacional existente? Um Tribunal especial ou «ad hoc»? Um Tribunal americano? Um Tribunal «misto», americano e muçulmano? Um Tribunal «neutro»? Também não existe, aliás, entendimento comum quanto ao regime penal a aplicar em tal eventualidade: a hipótese da pena de morte, por exemplo, impede um acordo fundamental. Parecem questões menores, mas não são. Creio, todavia, que só muito mais tarde teremos decisões sobre a jurisdição competente e o regime penal aplicável. Antes disso, outros problemas mais importantes necessitam de resolução.

Um problema prévio reside evidentemente nos conceitos. Não estamos diante de factos exclusivamente do foro criminal e judicial. Pela dimensão dos actos, pela sua amplitude, pela organização, pelo apoio de Estados organizados, pelo tipo de operações desencadeadas, pelo número de vítimas já causadas e pela forma como as primeiras respostas estão a ser realizadas, estamos numa situação de guerra. Não seguramente uma guerra clássica e típica, com declarações formais, exércitos organizados, bandeiras visíveis, territórios em causa, objectivos definidos e inimigos declarados. Trata-se de uma guerra de tipo novo, internacional e multinacional, de inimigos parcialmente difusos, de bases territoriais dispersas, de organização militar e civil, de bandeiras invisíveis e de objectivos indeterminados. Entre estes últimos, a criação do terror sobrepõe-se a uma eventual conquista ou a uma derrota militar, finalidades clássicas.

A ideia de que se trata de uma guerra de tipo novo não é mais um artificialismo. Para só falar no século XX, assistimos em vários momentos à emergência de novos tipos de guerra, que se vieram acrescentar às guerras clássicas e às guerras «civis» bem conhecidas. Como sejam as guerras de libertação e de independência colonial; as guerras de guerrilha; ou as guerras simultaneamente civis e internacionais, como no caso do Próximo Oriente. Para já não referir as «guerras mundiais», a primeira e a segunda, que trouxeram às ciências militares novas dimensões. E sem esquecer questões aparentemente técnicas, mas que, na verdade, introduziram novas categorias: o bombardeamento indiscriminado de populações civis e de infra-estruturas económicas é uma triste aquisição do século XX. Finalmente, convém não deixar de lado certas manifestações de guerra, cuja codificação teórica ainda não está feita, mas que constituem novas modalidades: são os casos, por exemplo, das intervenções e dos bombardeamentos na antiga Jugoslávia e no Iraque.

É provável que as futuras guerras sejam, em grande parte, de novos tipos. O colossal desequilíbrio de armamentos e de capacidade militar faz com que muitos dos interessados em desencadear operações bélicas procurem novos modos de acção, entre os quais o terrorismo (e as guerras mais «baratas», como as químicas e as bacteriológicas ou as que recorrem a agentes suicidas). As guerras clássicas, internacionais ou «civis», ocorrerão sobretudo entre países de idêntica capacidade militar e económica ou dentro de países da débil organização política, económica e administrativa. Se envolverem as grandes potências, muito especialmente os Estados Unidos, as guerras tenderão a ser de novo tipo, particularmente recorrendo ao terrorismo.

Quer isto dizer que têm razão os que consideram que está em curso uma guerra e não uma mera procura de criminosos para os levar a tribunal. Espera-se, evidentemente, que tudo ou o mais possível seja feito dentro das regras, até porque existem regras para a condução de operações militares e de guerras internacionais. Seria excelente que, terminada a guerra, fosse possível julgar, em tribunal a definir, alguns dos principais autores e inspiradores dos actos de terror de massas já perpetrados. Mas creio que não devemos criar falsas expectativas. O primeiro objectivo de uma guerra consiste em derrotar o inimigo, o que significa sempre liquidar alguém. Não parece realista, nem sequer particularmente bem intencionado, esperar que os dirigentes das organizações terroristas e alguns dos responsáveis pelo regime Taliban venham a ser, um dia, julgados com todas as regras processuais dos tribunais penais democráticos. Não é a vontade de vingança que conduz a esta conclusão, mas tão só uma visão serena e racional do que é uma guerra e das circunstâncias em que se processa. Não consigo prever ou sequer imaginar operações de polícia destinadas a prender os chefes terroristas e a conduzi-los, salvaguardados os seus direitos constitucionais, à esquadra mais próxima, a fim de serem ouvidos pelo juiz de instrução. Como não sou capaz de antever os chefes terroristas, uns militares, outros políticos, alguns dos quais com formação militar, renderem-se diante de uma força policial.

A guerra não é a abolição total de regras políticas e morais, como alguns poderão dizer. É verdade que tais regras são, muito frequentemente, violadas. Mas existe hoje um património da humanidade composto por convénios, tratados, regras jurídicas e normas morais que conferem alguma «humanidade» à guerra, se assim se pode falar. Como se sabe, existem códigos relativos ao tratamento de civis e de militares, de prisioneiros de guerra, de espiões, de «traidores», do uso de certos armamentos, de respeito pela dignidade dos soldados e de acesso a meios de socorro. O respeito por tais regras, como a proibição de tortura de soldados, por exemplo, é um valor positivo de qualquer sociedade. Mas tenhamos consciência de que a guerra implica morte. Mesmo em países onde a pena de morte não existe. A guerra implica crueldade, porque matar é o objectivo. A guerra implica a existência de inimigos que procuram simplesmente derrotar-se e aniquilar-se. Custa dizer, mas é assim.

sexta-feira, 26 de outubro de 2001

A cultura do medo

Manuel Pinto-Coelho Euronotícias 2001.10.26
Mas que mundo estranho este o nosso que se sente vulnerável e inseguro por causa de um mal para o qual a ciência já há muito encontrou um antídoto e que até à data não vitimou ao todo mais que duas mãos-cheias de pessoas, insistindo em viver masoquisticamente em sessão contínua à espera sofregamente de mais alguma notícia que possa continuar a alimentar a sua sede draculineana de mais vítimas desse “terrível” antraz, qual flagelo implacável que, a todo o momento, através de um qualquer sobrescrito mais manhoso se pode abater sobre a cabeça do mais incauto, gastando milhões para caçar os terroristas responsáveis, negligenciando uma oportunidade de ouro para, isso sim, prevenir facilmente um mal que mata incomparavelmente muito mais, utilizando meios incomparavelmente mais modestos e não tendo ainda por cima que sacrificar qualquer vida humana!?
Referimo-nos, claro está, à toxicodependência, à heroína, de que os afegãos “contribuem” com 65 a 70% de toda a produção mundial e que, a nosso ver, deveria cativar de outra maneira a opinião pública.
Ora, se esta, na sua grande maioria, aceitou a invasão americana do Afeganistão, sabendo que as possibilidades de se encontrar Bin Laden são diminutas, será que não iria aceitar muito mais depressa que se desviasse uma infinitésima parte dos seus recursos, para se pulverizar com os produtos adequados, os seus extensíssimos campos de papoilas, ferindo assim de morte não só a principal fonte de receita das suas acções terroristas, mas, o que nos parece indubitavelmente muito mais importante, reduzindo drasticamente, logo na origem, a principal causa do maior flagelo social que se conhece, essa verdadeira praga que teima em aterrorizar milhares e milhares de pessoas deste nosso mundo em que vivemos?
Se é verdade que o presidente americano nos convidou sem rodeios a assumirmos uma posição firme e resoluta, colocados que estamos perante o problema do terrorismo, desafiando-nos a adoptar claramente uma posição inequívoca, a favor ou contra, porque não convidá-lo agora, a ele, na mesma linha, a adoptar uma posição de igual modo clara, de repúdio para com o terrorismo provocado pela heroína e arrasar sem contemplações aqueles campos responsáveis por muitas mais mortes por esse mundo fora que várias torres gémeas e Pentágonos juntos, sugerindo-lhe ainda e para dar o exemplo, que começasse por fazê-lo às suas próprias plantações de cannabis, responsáveis por 20% da produção mundial de haxixe?
É que, francamente, , que esfrega as mãos de contente com toda a situação criada.
Perguntamos nós: já se imaginou no que se lucraria em termos de saúde pública, se houvesse habilidade para desviar uma fatia por pequena que fosse, das verbas gastas em segurança por causa do antraz para a prevenção e tratamento de doenças como o dengue, o paludismo, a Sida e a tuberculose, para não falar das doenças cardiovasculares que, como aquelas, matam um número incomparavelmente maior de seres humanos neste planeta?
“A única coisa que temos de recear é o próprio medo.” Quem falava assim era Franklin Roosevelt, em 1933.
Também nós achamos que às vezes dá-nos para recear as coisas erradas e é extraordinário constatar a facilidade com que todos, sem excepção, embarcamos à primeira com os “medos” que a comunicação social nos tenta transmitir, não percebendo que esta não está a fazer mais que o seu papel!
Na realidade, parece-nos claro que a “cultura do medo” levantada entre outras coisas pelo bacilo do carbúnculo é determinada em boa parte pelos “media” especialmente pela televisão e é espantoso como nós, incluindo os cidadãos americanos e o seu presidente Bush, não nos apercebemos de que essa é tão-só a sua forma de subsistência, jogando, com a sua cegueira, a favor de quem menos lhes interessava!
Manuel Pinto-Coelho
Médico

segunda-feira, 22 de outubro de 2001

O Lugar do Meu Deus

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 22 de Outubro de 2001


1 - No Público do dia 20, Helena Matos escreveu um artigo focando o lugar de Deus e o lugar dos homens numa civilização da concórdia universal. O artigo respira uma visão alternativa entre Deus e os homens; entre o lugar de Deus e o lugar dos homens. Nele se nota que Deus tem um lugar, o lugar «da consciência e da fé» de cada um dos crentes. Mas que «a vida dos homens no mundo, essa, depende dos homens». E se conclui que «por amor dos homens - e porque não de Deus? - convém que jamais confundamos uma coisa com a outra».

Li esta reflexão e estou de acordo com a ideia da autonomia das realidades terrenas. Contudo, debaixo desta formulação a Autora parece defender uma convicção acerca do lugar de Deus que não é a minha. O Deus da minha fé está excluído da sua pressuposição. Vale então a pena que eu exponha algumas reflexões, a este propósito.

2 - Helena Matos considera que, com «colocar Deus no seu devido lugar», «um dos mais importantes exercícios da civilização ocidental», «foi resolvido por milhões de crentes, nomeadamente católicos que, independentemente da sua fé, determinaram colocar outros valores acima dos ditames das suas Igrejas». É nesta base que a Autora explica como «os cidadãos dessa mesma civilização (ocidental), independentemente de serem crentes ou não, devem muito da sua paz, da sua tolerância e da sua qualidade de vida precisamente ao facto de agirem "como se o futuro do mundo dependesse apenas do homem e do seu poder"».

Estas afirmações podem levar a pensar que só por fora e por cima das igrejas foi possível a modernidade. É uma ideia pós-modernista da modernidade: a de que as concepções substantivas da verdade e do bem (como as das religiões) são todas exteriores à polis e à civilização; e até lhes são prejudiciais. O que implicaria uma contradição das igrejas, e também das cristãs, com o espaço público. Ora isto, se fosse verdade, nenhum crente católico o poderia aceitar sem contradição pessoal insanável. Mas não é. A verdade é que não existe essa contradição.

A autonomia das realidades temporais é um ponto da fé dos cristãos. Logo, não é contraditória com essa fé. Está escrito no Génesis que Deus disse ao homem e à mulher (ao par): ide, sede fecundos; transformai a terra e dominai o mundo. Desde então, para os crentes, o mundo está à conta dos homens por determinação de Deus. A chamada autonomia das realidades terrestres é uma ideia assente desde os princípios do cristianismo. Desde os alvores das primeiras comunidades cristãs, S. Paulo recomendava estritamente aos seus discípulos para respeitarem a autoridade estabelecida e pagarem honestamente os seus impostos (Rm 13,1-7). A autoridade civil era logo então pensada como não tendo necessidade de ser cristã ou religiosa. Os cristãos integravam-se como cidadãos iguais aos outros na sociedade civil e política; respeitavam essa sociedade e cooperavam nela, pagando os seus impostos, que são a base da organização social e política. Do Concílio Vaticano II, a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo diz (entre muitas outras afirmações que seriam úteis para aqui), que «aumenta cada dia mais no mundo inteiro o sentido da autonomia e da responsabilidade, o qual é da máxima importância para a maturidade espiritual e moral do género humano» (GS 55).

Portanto, aceitando embora que historicamente houve desvios e instrumentalizações, não há, para os cristãos, nenhum lugar de Deus que retire à sociedade civil a sua autonomia. É aliás sabido que Jesus Cristo recusou sempre qualquer compromisso com a política e a construção humana da sociedade civil e política. Este é um dos factos mais extraordinários da vida de Jesus. Talvez tenha sido por isso que Judas o traíu.

Sendo assim, a tese da exclusão da fé de milhões de crentes, ou a da incompatibidade subordinada da doutrina de todas as igrejas, relativamente à civilização ocidental, só poderia ser afirmada com a demonstração da contradição dos respectivos conteúdos. O que não se pode dar como provado.

3- Gostaria ainda de esclarecer um outro aspecto acerca do lugar de Deus, no cristianismo. É que o Deus dos cristãos está sem dúvida nas consciências e na fé dos crentes. Mas, para cada crente, o lugar de Deus é, antes de mais, nas pessoas dos outros. O Evangelho não cessa de o dizer. Mateus relata o ensinamento de Jesus, que disse: «portanto, se estiveres para fazer a tua oferta no altar e te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão» (Mt 5, 23-24). E S. Paulo catequisou: «ninguém procure satisfazer os seus próprios interesses, mas os do próximo» (1Cor 10,24). Ao longo do Novo Testamento, Deus identifica-se sempre com o outro, sobretudo o pequenino, como se vê na descrição dramática do juízo final no Evangelho de Mateus (Mt 25, 31-46), em que Cristo pronuncia estas palavras: «de cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes». Eis portanto aí o lugar de Deus que é proposto como decisivo para toda a vida do crente.

Não conheço, nem concebo, melhor base para a paz, a tolerância e a qualidade de vida da civilização universal. Devo portanto insistir: os católicos não precisam de colocar outros «valores acima dos ditames da sua Igreja» para contribuirem para essa civilização; não precisam de considerar que «a vida dos homens no mundo, essa, depende dos homens», mas que a sua fé é «outra questão». Não é outra questão. O problema está noutro lado. Lê-se na Constituição conciliar já citada, que afirma a autonomia das actividades temporais: «no entanto, muitos dos nossos contemporâneos parecem temer que a íntima ligação entre a actividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos homens, das sociedades ou das ciências» (GS 36).

Todos teremos presente o exemplo dos talibans. Mas esse, como os demais exemplos históricos de desvios autoritários ou totalitaristas ligados a doutrinas religiosas (como até ao cristianismo), não são nenhuma prova de que os valores civilizacionais, fraternais e universais estão por cima das religiões e contra elas. Até porque também há totalitarismos não ligados a religiões e anti-religiosos. Esses valores estão portanto apenas acima dos autoritarismos e dos totalitarismos, tout court. Pessoalmente, quero valorizar essa afirmação substantiva de valores humanistas da civilização ocidental. Que as religiões elevadas iluminam e fundamentam, mais e melhor do que qualquer outra fonte de pensamento ou convicção.

sábado, 20 de outubro de 2001

Liberdades

Vasco Pulido Valente
DN, 20011020
Algumas personagens de comprovada lucidez pensam que Bin Laden está a ganhar a guerra e começam a temer pelas liberdades. Segundo parece, Bin Laden está a ganhar a guerra, por causa do pânico que o anthrax provocou na América. O anthrax encontrou, de facto, um bom terreno. Há anos que os média se comprazem em lançar os seus pequenos pânicos neste particular capítulo: vamos todos morrer, por causa do álcool, do tabaco, da margarina, da manteiga, da carne, do peixe, do sol, do stress, dos remédios, disto, daquilo e daqueloutro e até dos telefones. Eu já cheguei a escrever uma coluna (meia página) só com a lista dos perigos da semana. O anthrax (de resto, uma doença não transmissível e curável) excita fatalmente a sociedade hipocondríaca em que vivemos. Mas não notei qualquer tentativa para suprimir informação. Pelo contrário, na América, os média não falam de outra coisa. Como também não vi nada que se parecesse com autêntico terror. O Estado Federal, que não se abana com facilidade, continua a funcionar, do mais remoto departamento de polícia ao Governo de Washington; a população, por enquanto, não dá sinais de histeria; e os muçulmanos não foram perseguidos. Claro que as pessoas andam menos de avião e que, por razões de segurança, o comando militar pediu aos média que não transmitissem as mensagens do Al-Quaida. E depois? Basta um medo transitório e um procedimento normalíssimo em tempo de guerra para anunciar a vitória de Bin Laden e a iminência da tirania universal? A mim, não basta. Os guardiões da liberdade - se é mesmo a liberdade que eles querem guardar - fariam melhor se reparassem na Europa. Quem anda por aí a exigir, em nome da "luta contra o Mal", que se limite a imigração e uma vigilância quase feroz a qualquer imigrante? Adivinhem.

segunda-feira, 15 de outubro de 2001

A verdadeira guerra

João César das Neves
DN 20011015
A palavra "guerra" apareceu logo nos primeiros momentos após o atentado de 11 de Setembro. De facto, o número de vítimas, a dimensão da destruição e a crueldade do acto parecem episódios dessa mais horrível das actividades humanas. Mas, se se trata de uma guerra, os Estados Unidos e a civilização estão a perder.

Os danos causados pelos terroristas, que só no World Trade Center estão estimados pelas seguradoras acima de 30 mil milhões de dólares, são mais do dobro de todo o produto nacional do Afeganistão após anos de guerra civil. O número de vítimas ultrapassa o de muitas batalhas da história.

Comparando estes estragos feitos por 19 homens armados de navalhas com os sofisticados bombardeamentos americanos, vemos imediatamente que a vantagem está do lado dos terroristas.

Esta é a razão do medo gélido que traz todo o Ocidente refém. As ameaças de Ben Laden, a sua capacidade de destruição e impunidade, que desafia as tecnologias de armamento e espionagem do século XXI, são muito maiores que as de Saddam, Fidel, Kadhafi ou qualquer outro dos anteriores inimigos da civilização. Se voltar a atacar de surpresa uma cidade, pode arrasar muito mais que o exército americano, a maior força militar de sempre. Neste sentido, o mundo mudou a 11 de Setembro e começou um novo tipo de guerra.

Mas os termos em que se joga esse conflito são muito diferentes dos tradicionais. O atentado não constituiu uma batalha, em qualquer sentido da palavra. Pior que isso, ele escapou a todas as medidas de protecção. Quase não foram usadas as contas bancárias do terrorismo agora congeladas, nem pistolas detectáveis na segurança dos aeroportos. Identidades falsas anulam qualquer controlo. A simplicidade e singeleza do golpe arrepiam qualquer um: bastaram alguns homens dispostos a morrer.

A arma de Ben Laden, que derrota os mísseis americanos de um milhão de dólares cada, é uma das mais antigas do mundo: o fanatismo religioso. Isso significa que a verdadeira guerra se trava no campo espiritual. A origem do problema reside nas razões que levaram aquelas pessoas a largar amizades e sonhos, a esquecer família e projectos, para se oferecerem à morte. A longa e minuciosa preparação dos assassinos mostra que a explicação não está na loucura ou na barbaridade. O elemento central do novo conflito vem dos paroxismos de sofrimento e indignação capazes de causar actos destes.

Por isso, bombardear os talibãs, sendo um castigo justo, não resolve o problema e até pode agravar o fanatismo. O poder bélico da tecnologia americana exercido contra a miséria reforça o sentimento de irritação. Matar um terrorista faz surgir mil outros. Como tantos impérios aprenderam à sua custa, não se ganham as lutas contra mártires.

A única hipótese de vencer esta guerra reside numa única força: a teologia islâmica. É preciso que os líderes espirituais muçulmanos, e não apenas os seus dirigentes políticos, expliquem convictamente que estes métodos extremistas são opostos ao Corão. É urgente que as comunidades maometanas, e não apenas os países ocidentais, reneguem claramente os métodos de Ben Laden e a sua pretensão de representar a fé. Só assim o terror será eliminado, e não alimentado ao extremo. Isto é essencial para terminar a destruição do Ocidente. Mas, mais que isso, é indispensável para evitar o isolamento e a obsolescência da cultura islâmica.

Porque a questão de fundo que origina todo este fenómeno é a integração do Islão no processo de desenvolvimento. As dolorosas transformações que o Ocidente conhece há trezentos anos vêm-se espalhando, entretanto, pelas diferentes regiões do mundo. Um pouco por todo o lado se vivem as profundas modificações culturais, sociais e espirituais que traz a incrível dinâmica técnico-económica em que a humanidade entrou desde a Revolução Industrial.

Nos últimos séculos, muitas foram as instituições e hábitos que desapareceram ou se modificaram para sempre debaixo da pressão do progresso. A vassalagem e o colonialismo, o almocreve e a desfolhada, o telégrafo e a lamparina são realidades do passado enterradas pelo desenvolvimento. O trabalho, a família, a política e os tempos livres são hoje muito diferentes de há cem anos. A vida e cultura mundiais evoluíram incrivelmente e continuam a transformar-se.

O mundo muçulmano, uma das culturas mais ricas e flexíveis da história, sofre essa evolução já há umas décadas. Múltiplas comunidades, da Europa à Indonésia, mostram bem como é possível e praticável a conciliação entre o Corão e o progresso. Mas o fanatismo revela bem a dimensão do desafio. A verdadeira guerra que se está a travar, por cima dos cadáveres americanos e afegãos, é a da entrada do Islão para o mundo moderno. Os terroristas apostam no tradicionalismo e caem no obscurantismo e no horror da mais infame destruição. A palavra final, porém, cabe ao fiel muçulmano comum e à sua aposta no futuro de um Islão moderno e dinâmico.

domingo, 14 de outubro de 2001

O Terror e a Esquerda

ANTÓNIO BARRETO
Público , Domingo, 14 de Outubro de 2001


A esquerda sempre teve um problema com a violência e o terrorismo. Há excepções, um partido aqui, um dirigente ali, um governante acolá, um pensador mais além. Mas, no conjunto e ao longo da história recente, jamais a esquerda conseguiu libertar-se desta espécie de hipoteca filosófica. "A violência é parteira da história". "Há terrorismo necessário". "A revolta violenta das massas oprimidas é legítima". "A violência revolucionária é a resposta das massas exploradas à violência da burguesia". "Nas revoluções há sempre vítimas inocentes". Eis alguns exemplos de frases conhecidas há décadas. Com isto, a maior parte da esquerda nunca condenou integralmente, quaisquer que fossem os seus autores e os seus alvos, o terrorismo. A maior parte da esquerda nunca distinguiu rigorosamente a violência legítima do terrorismo.

Sempre a esquerda, com excepções, se sentiu desconfortável com o terrorismo. Porque desde sempre considerou que a violência é um meio necessário e legítimo para atingir os seus fins. É possível que a origem desta atitude tenha raízes antigas, mas, nos tempos modernos, talvez se possa datar dos tempos da revolução francesa. "O governo da República é o despotismo da liberdade contra a tirania", garantia Robespierre e Saint-Just, quando defendiam a necessidade do uso do terror. Mais tarde, Sorel defendeu o uso de terror, pois só assim se poderia termo à "violência das instituições". Lenine e Trotski não se limitaram a defender o uso da violência: aplicaram-na em larga escala, nunca se deixando intimidar perante as acusações de terror que lhes eram justamente feitas. Trotski, aliás, foi mais longe e "resolveu", em livro célebre, o problema teórico: dados os objectivos políticos finais, a moral dos comunistas era superior à dos conservadores, facto que justificava que eles, comunistas do Exército Vermelho, pudessem tomar e executar reféns, assassinar civis e aterrorizar populações. Com Estaline, o terrorismo ganhou pergaminhos de método de governo. Com as ditaduras de esquerda no Terceiro Mundo, o terrorismo alastrou, com uma novo atributo: a culpa era do imperialismo e do capitalismo. Com os anos sessenta, chegaram novas modas e o terrorismo esquerdista foi feito forma superior de luta.

A revolução francesa e, mais tarde, o socialismo, o comunismo e a revolução social, com a ajuda de algumas franjas anarquistas, contribuíram para apertar o laço entre grande parte da esquerda e a violência revolucionária, a qual, quase sempre, inclui formas de terrorismo. A revolução russa, o anti-fascismo, o anti-imperialismo e a luta contra as formas modernas de capitalismo confirmaram esta perversa relação. Com uma consequência suplementar: se é verdade que uma parte da esquerda (dita moderada, por vezes independente, frequentemente social democrata) é inimiga da violência, sejam quem forem os autores ou os alvos, também não é menos certo que mesmo essa esquerda se sente desconfortável quando o terror se reclama de causas sociais.

Com excepção dos comunistas durante o pacto germano-soviético, a esquerda não hesitou em atacar o terrorismo de Hitler e a violência de Mussolini, Salazar ou Pinochet, mas desculpou e muitas vezes apoiou o terrorismo de Estaline e a violência de Mao Tsé Tung e Fidel Castro. Grande parte da esquerda revela complacência, quando não cumplicidade, com o terrorismo nacionalista e minoritário da ETA, do IRA, da Fracção do Exército Vermelho alemão e da Brigadas Vermelhas italianas. A maior parte da esquerda esteve justamente atenta às intervenções europeias e americanas em África, na Ásia e sobretudo no Vietname, mas foi incapaz do mesmo critério cada vez que os Soviéticos agiram com violência, ilegitimidade e terror. Boa parte da esquerda portuguesa não conseguiu condenar o terrorismo das FP-25 ou das BR, como já antes não tinha conseguido estabelecer a diferença entre as guerras de libertação colonial e os actos terroristas cometidos pelos respectivos movimentos em Angola, em Moçambique ou na Argélia.

O terrorismo pode ser praticado e apoiado por ditadores, governos reconhecidos, milionários, filhos-famílias, oficiais do exército, filósofos em busca da redenção e traficantes de droga. Mas, desde que invoque razões revolucionárias e causas profundas, é logo fonte de mal-estar para a esquerda. Ou de regozijo. Mais: se as vítimas, mesmo inocentes, mesmo civis, mesmo de todas as condições sociais, forem de nacionalidade suspeita, isto é, americanos ou europeus, o terror ganha estatuto de acto político sobre o qual é necessário reflectir. Se os alvos simbólicos do terrorismo puderem ser claramente identificados com os poderosos (edifícios governamentais, quartéis, esquadras, bancos, empresas...), então as dúvidas desaparecem: o gesto assassino é equiparado à justa revolta. Houve mesmo quem, na esquerda portuguesa, comparasse os terroristas a David e Nova Iorque a Golias!

Os critérios de análise de grande parte da esquerda parecem mutáveis. O mesmo gesto seria diversa e arbitrariamente avaliado: apoio em certos casos, condenação em outros, complacência noutros ainda. Mas, na verdade, o critério é mais permanente do que parece. A avaliação do terrorismo depende de quem o pratica. E de quem é visado. Se os terroristas forem esquerdistas confessos, amigos da esquerda ou defensores proclamados das suas ideias; se pertencerem a movimentos ou partidos conotados com a esquerda; e se falarem em nome dos pobres, dos trabalhadores, dos oprimidos ou de minorias consideradas amigas; nessas circunstâncias, o terrorismo é justificado, compreendido e explicado. Ou pelo menos desculpado. Quanto ao alvo, o critério é idêntico: importante é a identidade de quem é politicamente visado. Se for o ocidente, a sua cultura e a sua economia; se for a democracia e respectivos governos; se forem os americanos e os europeus em geral; e se forem os poderosos do ocidente, assim como os seus amigos pelo mundo fora, os capitalistas, as instituições democráticas, as multinacionais e algumas igrejas e religiões; também nessas circunstâncias o terrorismo deve ser desculpado ou tolerado, que é o que a esquerda pretende quando afirma, com aparente

quinta-feira, 11 de outubro de 2001

O "MAS" DA TRAGÉDIA ou A TRAGÉDIA DO "MAS"?

António Bagão Félix
2001-10-11
Com a tragédia de 11 de Setembro, o coração da dignidade da pessoa humana foi esventrado de uma maneira inimaginavelmente brutal.
O mais insondável obscurantismo aliou-se terrificamente ao fenómeno de banalização das sofisticadas tecnologias do progresso, para destruir e matar cegamente.
Porque a "distância" entre crime  e castigo é, neste caso, perturbadoramente assimétrica, a busca persistente da justa justiça vai ser tarefa bem árdua, num atentado que foi direito às entranhas dos valores civilizacionais (e não apenas americanos).
É preciso ser claro: a questão aqui não é ideológica, religiosa, política, intelectual. É "apenas" e na sua essência humana e moral. Não há fins que possam justificar meios tão demoníacos.
Quase metade dos países deste mundo têm homens e mulheres mortos nesta tragédia. Sessenta e dois, mais precisamente. Que outro ponto do Mundo poderia melhor representar a humanidade no caleidoscópio das nações, etnias, confissões? No meio de tanta impureza e injustiça ­ a começar na cidade da tragédia ­ não é isto um sinal de tolerância, liberdade e convivência, que é do melhor que há na nossa civilização?
A barreira ­ a barreira da vida - foi gratuitamente quebrada. Quem quiser estar do lado da morte como solução para seja o que for, sabe que entra num pântano de onde já não se sai. A vida não se relativiza, nem é moeda de troca.
A hora é dramaticamente difícil. Por isso, mais do que nunca, é necessário saber conciliar a firmeza da luta contra o terror e a impunidade com a fortaleza da serenidade.
A esta desordem internacional em que se misturam factores explosivos de fanatismo letal, indignidade humana, relativismo ético, globalização do terror e indiferença do sofrimento, é imperativo responder com o mais elevado e rigoroso sentido de justiça, na esperança de uma total concertação no combate ao mal e ao mesmo tempo profundamente despertos para com o sofrimento humano que grassa no mundo.
Seja-me permitido destacar apenas uma das várias causas desta desordem: o relativismo.
É o relativismo que nos põe a caminhar sobre um algodão movediço.
É o relativismo que amolece as consciências boas e endurece as satânicas.
É o relativismo que torna algumas pessoas apenas mais animais.
É o relativismo que quase anestesia os comportamentos letais, porque retira valor absoluto à vida.
É o relativismo que faz germinar a indiferença e o comodismo atrofiantes.
É o relativismo que faz ricos e pobres consumir-se no consumismo, espécie de "ecstasy-do-dia-seguinte".
É o relativismo que corrompe  almas por troca com uma qualquer mordomia.
É o relativismo que alcandorou a estatística à categoria de mãe de todas as análises frias e racionais.
É ainda o relativismo que subjuga o importante ao efémero aparentemente urgente.
É o relativismo que igualiza, moralmente, fins e meios.
É o relativismo que encurta a memória e despreza a sabedoria.
É o relativismo que nos afasta da transcendência e da procura de nós mesmos.
É o relativismo que usa e abusa das conjunções adversativas, dominadas altaneiramente pela mais curta mas também a mais demolidora: mas. Simplesmente mas.
"Isto e aquilo foi um horror, mas...",  "Tenho muita pena, mas..",  "Aconteceu assim, mas..",  "Os Estados Unidos foram atacados, mas..."
O mas está para o relativismo, como o não está para o individualismo.
O mas é o não obstante do sofrimento. O sofrimento não é o não obstante do mas.
O mas é a penitência laica do pecado para enfraquecer o código moral sob a bondosa semântica de um qualquer mas apresentado como símbolo de uma certa tolerância bacoca, falsa e diluente.
O mas é a versão intelectual do cínico que perverte a hierarquia e reduz a pó o valor das palavras, actos e pensamentos. Daí a sua consequência (matemática) do mais ou menos que mais não é que o intervalo da nossa indiferença, debilidade ou cobardia.
O mas é o dissolvente do bem e do mal  no novo reino das opiniões e impressões, onde nada vale porque tudo vale. Uma nova amiba (a)moral que tudo aceita excepto quando nos atinge na nossa pequenez.
Fazer o mal para atingir o bem? Chegar ao Tudo através do nada? Demonizar o absurdo para desvendar o Mistério? Apodrecer no relativo para alcançar o Absoluto?
Neste trágico luto para a humanidade, temo, ao contrário do que até parece evidente, a "normalização" das consciências trucidadas por um quotidiano que não deixa as pessoas serem, mas tão só estarem.
Passada a hora do compulsivo unanimismo emocional, já aí estão os tiques primariamente anti-americanos.
À falta de melhor, a América é a posta restante ou o tumor de fixação de certa  intelectualidade empanturrada até ao esófago de ícones americanos que tanto escarnecem.
E já são visíveis, ao menos implicitamente, manifestações de alguma simpatia (ou, pelo menos, compassiva compreensão) para regimes obscurantistas que apenas a si devem o atraso e a mentalidade intoleravelmente doentia em que imergiram.
A pouco e pouco a globalização do sentimento será tomada pela privatização da dor. A vida regressará ao vaivém de um pêndulo de uma viagem onde o tempo sem mostrador se entrecruza com um espaço de vida minimal.
Que de toda esta tragédia humana possa sair o fortalecimento da justiça, da paz, do inconformismo perante o sofrimento, da salvaguarda de valores perenes e inegociáveis da civilização, entre os quais e  acima de todos está o (mais) absoluto: o respeito pela Vida.

António Bagão Félix
Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

terça-feira, 2 de outubro de 2001

11 Setembro: Aquele dia tenebroso

Infovitae, 55, 2001.10.02
Nuno Serras Pereira
O horror dos acontecimentos trágicos do dia 11 de Setembro, nos USA, assombraram-nos a todos pela perversidade inédita e pela crueldade inaudita. Perante tamanha catástrofe, deliberada e gelidamente perpetrada, ficou-nos uma mágoa funda, um pesar entranhado pelas vítimas inocentes; uma simpatia imensa para com os familiares, amigos e compatriotas dos que barbaramente foram chacinados; um sentimento difuso de "absoluta" insegurança, como um pasmo, uma perplexidade; uma indignação, uma raiva incontida contra o terror, uma exigência firme de que imediatamente se lhe ponha cobro. Do abismo da nossa impotência surgiu uma prece, uma entrega confiante a Deus Providente e misericordioso que é, só Ele e não o mal, a última Palavra.

Que seja garantido o direito dos indivíduos e dos povos à legítima defesa, à segurança e à justiça; que se evite todo o excesso e desproporção; que o perdão magnânimo, tão próprio da matriz cristã, esteja presente nas soluções políticas, de modo a que se venha a conseguir uma paz duradoura; que o Espírito Santo, Senhor e doador da Vida, toque os corações de todos para que se extinga, em todo o lado, a cultura de morte e surja uma cultura da vida e do amor.

Ainda será cedo para comparar este atentado contra a vida humana com outro género de ataques contra a mesma,  mas dias virão em que não se poderá evitar fazê-lo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2001

Dar a outra face

João César das Neves
DN, 2001-10-01
A primeira guerra do milénio é um insólito conflito religioso que pode envolver o mundo numa escalada de absurdo e violência. Fanáticos ocultos ameaçam o progresso com terror, em nome de Deus. Acumulam-se forças militares avassaladoras contra um fantasma evaporado nas sombras. Multidões de miseráveis fogem aterrorizadas, com medo da resposta civilizada. Acusa-se o islão e o sionismo, a globalização injusta e o imperialismo americano, que desta vez é a vítima sangrenta. Mas a causa última é a luta pela cidade santa de Jerusalém. Sente-se o vento gelado de horríveis medos antigos.
O Ocidente rico e sofisticado está envolvido num processo que, no fundo, não entende. Boa parte vive o vazio ético do consumismo morno e das falácias filosóficas. Repudiada a raiz cultural cristã, a única que tem, está sem referências para opor ao fanatismo. Repete princípios abstractos de justiça, liberdade e progresso que de pouco servem, perante os cadáveres nos prédios e nas batalhas.
Mas a resposta da herança cristã, que tantos seguem, parece ainda menos adequada: "Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.
(...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem." (Mt., 5, 38 e 44.) Perante os escombros fumegantes de Nova Iorque, não será isto uma infâmia grotesca? Como amar e dar a outra face a gente desta? Terá ainda aplicação, no nosso tempo, para mais, em política internacional? Esta atitude pode vir de hipocrisia, ou cobardia política. Alguns mesquinhos dizem que, como desta vez as vítimas são ricas, a América, o país mais desprezado do planeta, deve perdoar. Mas nunca o diriam depois do massacre de Santa Cruz, em Timor, por exemplo. Dar a outra face, como a tolerância, é só para quando dá jeito.
Mas nada há de mesquinho neste mandamento. Após séculos de esquecimento, muita da cultura moderna não entende a grandeza e coragem dos princípios cristãos. Sobretudo deste, que confundiu e perturbou todas as épocas. A causa do repúdio que diante do televisor sentimos pela ideia de dar a outra face é a mesma que sentiram romanos e hunos: simples ignorância.
Só é possível compreender este preceito dentro da vida de Cristo e da sua Igreja, nos dois mil anos em que se esforçou para seguir este enorme desafio. Os que, hoje, no conforto do sofá, proferem juízos severos sobre essa história pouco mais sabem do que a visão positivista das Cruzadas e da Inquisição. E nem se dão conta de como esses momentos dolorosos, que realmente não compreendem, são pouco significativos em dois milénios. Sobretudo quando comparados com as miríades de santos que mostraram na prática o que significa dar a outra face.
A frase confronta o clássico dilema ético entre justiça e misericórdia. Deve castigar-se o mal e prevenir-se o sofrimento, mas a justiça estrita está próxima da maldade: "Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não o fazem também os pecadores?" (Mt., 5, 46.) Ela não sugere uma apatia passiva, que é budista, e não cristã. Quem a disse também afirmou: "Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos. Sede, pois, prudentes como serpentes e simples como pombas." (Mt., 10, 16.) Nem se trata do culto da dor, que é hinduísmo, não cristianismo. Ele também disse: "Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma." (Mt., 10, 28.)
O verdadeiro significado diplomático de "dar a outra face" é fácil de entender, se lembrarmos um exemplo próximo. No final da Primeira Guerra Mundial, a atitude foi de justiça, com a dureza das "reparações de guerra" impostas aos vencidos. O resultado foram vinte anos de crise e nova guerra. Após a Segunda Guerra, a atitude foi de misericórdia. Decidiu-se ajudar os inimigos e até se deu a outra face, somando-se aos prejuízos da Guerra a despesa do Plano Marshall. O efeito foram décadas de paz e prosperidade.
A mudança foi surpreendente. Os valores dos líderes de Versalhes eram muito mais elaborados que o cinismo de Ialta. E teria sido muito mais fácil em 1918 do que em 1945 perdoar ao povo os erros dos seus dirigentes de guerra. Afinal, Hitler fora eleito democraticamente e gozara de um apoio entusiástico muito maior do que o Kaiser. Mas, mesmo improvável, a atitude de clemência e magnanimidade foi excelente.
Como então, o mundo civilizado tem de se defender e há que aplicar a justiça legal aos culpados do horror. É legítimo e urgente que os americanos e o mundo actuem. A acção parece ser mais de espiões e polícias do que de militares e bombas. A cooperação generosa com os países islâmicos será muito eficaz na erradicação prática do mal.
Acima de tudo, a civilização tem de parar a escalada da violência, que só interessa aos terroristas. É urgente substituir a fúria pela compaixão.
Amam-se os inimigos quando se olha para a face concreta do seu sofrimento. Quer no sangue americano inocente, nos seus sonhos e famílias destruídas, quer na angústia das crianças afegãs fugindo com fome e frio. Só oferece a outra face quem olha a dor nos olhos.

Deus, Nós e Amálgamas

MÁRIO PINTO
Público, Segunda-feira, 1 de Outubro de 2001


1. Doutrina e ideologia

No Antigo Testamento, colecção de livros sagrados do judaísmo e do cristianismo, há um profeta considerado dos maiores, Isaías, de que nos ficou a seguinte profecia:

"Diz o Senhor: os meus planos não são os vossos planos; os vossos caminhos não são os meus caminhos. Tanto quanto se acham elevados os céus acima da terra, assim se acham elevados os meus caminhos acima dos vossos caminhos e os meus planos acima dos vossos planos". (Is 55, 8-9).

Esta citação serve para mostrar que, desde há milénios se sabe, e não apenas entre os cristãos, que os próprios crentes têm pensamentos e caminhos que não coincidem com os de Deus. Nenhuma novidade, nenhuma surpresa, a este respeito. Aqui se encerra um problema, por assim dizer de doutrina; mas se abre outro, que é já de praxis, ou de ideologia. É nesta sede que se coloca o problema da fidelidade ou da infidelidade ao espírito de Deus.

Em termos filosóficos, reencontramos aqui (em minha opinião) o problema que é oportunamente tocado por Fernando Gil, no seu belo artigo do dia 11 último no DN; o problema da alegada "amálgama". Escreve ele: "Desgraçadamente, elas (amálgamas) estão nas próprias coisas. Os fundamentalistas conseguiram fazer passar as suas posições políticas por actos de fé religiosa".

Numa perspectiva de reflexão metodológica, sinto-me sempre reenviado ao ensino de um dos meus queridos e saudosos companheiros e mestres, Adérito Sedas Nunes, fundador da nova escola de sociologia portuguesa. Num livro que saiu apenas editado para os seus alunos (Introdução ao estudo das sociedades, Instituto de Estudos Sociais, Lisboa, 1963-1964, texto copiografado), ensinava ele a distinção entre as doutrinas e as ciências sociais; e, por sua vez, a distinção entre as doutrinas e as ideologias. É que as ideologias incorporam, para além de pensamento doutrinal, outros elementos, designadamente desígnios de poder, interesses, frustrações, etc. Na década de sessenta, que foi uma década de debate epistemológico, ilustres marxistas prestaram também homenagem a esta distinção, falando então de pensamento marxiano, como doutrina de Marx, por um lado, e de marxismo, por outro lado.

Pelos vistos, a propósito deste novo terrorismo que atingiu a América, continuamos a fazer amálgama entre pensamento doutrinal e ideologias, entre religião (doutrina da fé) e religião (fundamentalismos cesaristas). Nada de novo, portanto; apenas nos repetimos novamente. Mas parece que alguns têm menos memória do que outros.
2. Proposta de "cut" virtual

Lendo na imprensa artigos de pessoas com um currículo brilhante, como Fernando Rosas e Miguel Sousa Tavares (aliás em textos não comparáveis, e até com opiniões contrárias), vem-me uma ideia: que tal se pudéssemos fazer uma experiência virtual?

Assim, para Fernando Rosas, o exercício seria apagar do mundo os Estados Unidos da América. De repente, sem mais, com uma batida de teclado: clic. Não mais "América". Ficaria a Europa Continental ("sorry!", mas o Reino Unido teria de ser apagado com os Estados Unidos), a América Latina, o Canadá (podia ficar), a Ásia, a África e a Oceania (também podia ficar).

Para Miguel Sousa Tavares, que diz que "Deus é hoje o grande factor de desordem internacional" (PÚBLICO, 28), o exercício seria apagar do mundo as crenças em Deus. Tic: ninguém mais, neste mundo de Deus, acreditaria mais em Deus. Não mais Vaticano. Não mais religiões orientais. Não mais o Islão. Nem mesmo os horóscopos. De humanismos, ficaria(m) apenas o(s) laico(s), como o "humanismo real" em que Saramago tem fé. Aliás já experimentado, em países que impuseram o ateísmo. E de resto também liberalmente disponível, para os numerosos ateus do mundo.

Claro que a minha proposta é apenas um exercício a prazo. Com possibilidade de retorno ("undo").

Uma variante deste exercício poderia ser de simulação virtual de um passado alternativo. Neste sentido, deixaria um desafio: o de um livro histórico sobre esse passado. Apagando da história do mundo tudo quanto é América do Norte e fé em Deus. Seria de modo especial interessante conhecer como teria sido o mundo desde a última guerra mundial sem os Estados Unidos. E o que teria sido a nossa cultura (no ocidente), ao longo destes dois mil anos, sem o cristianismo.
3. De novo, a avaliação das escolas

É visível na imprensa uma orquestração de críticas à publicidade dos resultados nacionais no ensino secundário. Do lado sindical, já houve quem criticasse o Ministro da Educação por divulgar os dados referentes aos exames nacionais do acesso ao ensino superior. Com risco, evidentemente, de que se pense que os sindicatos não querem que os cidadãos em geral conheçam essa realidade (a dos resultados dos exames) porque (pensam que) são os professores que assim (também) ficam em causa.

Continua a propor-se uma alternativa abstracta, de "avaliação qualitativa" dos resultados. Todos os progressos em matéria de avaliação são bem-vindos. Mas esta tese da avaliação qualitativa para substituir avaliações quantitativas lembra a tese soviética, da recusa de publicar indicadores quantitativos de variáveis sociais e económicas, precisamente com o mesmo argumento, isto é, de que o desenvolvimento socialista era sobretudo qualitativo. Sabemos agora inequivocamente o que isso então significava.

Num artigo recente, chega-se a insinuar um argumento de ilegalidade. Ora, a verdade é que, pelo contrário, foi a lei do acesso aos documentos administrativos que impôs ao Ministro que facultasse o conhecimento das classificações dos exames nacionais. Aliás, por determinação da Comissão Nacional legalmente incumbida de aplicar a lei, a quem os cidadãos interessados tiveram de requerer em conformidade.

Dir-se-ia que, segundo um imperativo de coerência, os defensores do segredo das classificações deveriam propor a extinção dos exames nacionais com avaliações quantitativas - porque esses exames são incapazes de avaliar os alunos segundo a orientação qualitativa. E, pelas mesmas razões, também deviam propor a extinção das avaliações internas quantitativas. Pelo menos, a sua afixação pública nas escolas - embora para isso lhes falta uma base legal. A menos que se invocasse a privacidade (de que resultaria a irrelevância da avaliação e a impossibilidade de os alunos concorrerem entre si). Mais do que isto, só uma classificação como segredo de Estado.