É o papa, gente!

ANTONIO MARCHIONNI
Especial para o Estado (Julho de 2002)

O escritor Mario Prata viu o papa na televisão e viu que "ele estava babando". Ficou incomodado, segundo sua coluna de 26/6/2002 neste jornal, com o título "E o papa, gente?". O nosso escritor lança um grito cardíaco aos cardeais e ao povo cristão: pelo amor de Deus, tirem esta figura com mal de Alzheimer de nossos olhos, comprem para "o polonês" uma casinha numa montanha da Polônia, aposentem esse papa "caduco", que "atrasou a Igreja em pelo menos um século", ponham no lugar dele um belo exemplar de papa "jovem, vigoroso, esperto".

Ao ler o Mario com tanto dó do papa, tive dó do Prata. E sim, porque me perguntei: o que Mario Prata teria escrito, se tivesse visto na televisão Jesus Cristo pendurado na cruz? Jesus na cruz deve ter babado e muito mais.

Isto não impediu que o centurião (um militar, pensem!) exclamasse que Ele era mesmo o Filho de Deus, enquanto os escribas (os intelectuais, pensem!) ironizavam o final infeliz daquele pobre judeu, tão parecido com o pobre "polonês". Tenho a leve impressão que o nosso escritor simpatize com aqueles escribas, mesmo que se declare católico, de um catolicismo caseiro, cozinhado à moda do Leonardo Boff, por ele citado em oposição preferida ao Pontífice. Ouso achar que o do Prata não é o catolicismo dos 300 mil fiéis ajoelhados na Praça do Bernini enquanto "o papa babava", nem o catolicismo da Mãe que recolheu em seus joelhos o corpo mutilado e malcheiroso do Filho.

Senhor Prata, o mistério da Igreja Católica transcende o pragmatismo de uma multinacional conduzida por um manager. Pense no catolicismo do Santo Tomás, curvado diante da Hóstia consagrada: "Adóro te devóte, látens déitas." (Te adoro devotamente, divindade escondida.) Pense no catolicismo do meu pai, quando tirava a sua boina consumpta de camponês, se ajoelhava diante da televisão em nossa pobre cozinha e fazia a cruz, seguindo as mãos do papa.

Procure ver no papa, para além da baba, o sinal da unidade eclesial pensado por Deus, aquele Deus que desejou tornar-se visível em forma de homem e deseja continuar visível em forma de papa.

"O discípulo não é maior que seu Mestre", ensinou o próprio Mestre. O papa é aquele que repete Jesus sofredor, que mostra sua dor ao mundo do alto da colina, sua voz inaudível e eloqüente, seu corpo perfurado por três projéteis como o corpo do Mestre transpassado pela lança. Já há doentes de todos os quadrantes, os quais anteriormente escondiam envergonhados a sua ferida corporal e hoje fazem da doença um ensino e uma revolução, impulsionados pelo sofrimento público do papa, que irá ao Canadá, onde milhões de pessoas, sabedoras da baba e do mal de Alzheimer, aclamá-lo-ão em ruas, estádios e templos. Senhor Prata, pelo céu, não esconda seus pais octogenários, como escreveu que faria. Leia a Carta Apostólica "Da Dor Que Salva", deste mesmo papa em 1984, sobre o significado cristão da dor.

Junte-se, católico que se diz, aos seguidores da cruz, uma cruz que, com o passar do viço da carne, será reservada também a você, a mim, como script misteriosamente obrigatório para a beatitude total.

O católico, mesmo condoendo-se dos fatos de pedofilia recordados pelo escritor, sabe que existem 500 mil sacerdotes no mundo e 700 mil irmãs, os quais anunciam em seu corpo a existência de realidades acima do nosso sexo e dinheiro. Resistindo bravamente à avalanche sexual do século e dos vários Big Brother, estes heróis, com derrotas iguais às nossas, fermentam uma Igreja que, em força da espiritualidade do celibato, é a instituição mais numerosa, mais forte, mais unida e mais universal do planeta. Quando a tormenta materialista e genital tiver passado, saberemos que os ideais preservados galhardamente por este papa terão triunfado como patrimônio do Espírito. Há milhões, dentro e fora do Brasil, que já consideram papa Woityla o homem do século, deste século por ele definido "grandioso e tremendo", ele que, entre os inúmeros feitos invisíveis aos distraídos, circulou na Esplanada das três religiões em Jerusalém como bastião moral do mundo e derrubou o muro de Berlim sem golpe ferir.

A lógica do católico profundo é outra da lógica do mundo. Também na espiritualidade do sexo como na condenação do aborto, contrariamente ao "liberou e matou geral", para o qual a praça secularizada pretenderia o aval pontifício. O mundo programa a vida até o caixão, o católico programa seus atos até o eterno.

Pertence à essência da adesão católica acolher a figura e a palavra do papa como um dom do Pai, com fé devotada e gozosa. Quem se sente aflito neste catolicismo universal tem liberdade total de migrar para sua crença pessoal, sem caiar-se de católico e ensinar com categorias racionalistas os aderentes aos mistérios revelados da Igreja, Corpo Místico de Cristo. "Ne, sútor, últra crépidam", disse o pintor grego Apele ao sapateiro que, após criticar a sandália de um quadro, quis criticar todo o quadro: "Não vá, sapateiro, além do sapato."

Quem dirige e salva a Igreja, mais que um manager musculoso, é o Espírito Paráclito, que prometeu: "Estarei convosco até o fim dos tempos." Nos semblantes do servo sofredor, qual é João Paulo II, ferve a Mente Eterna.

Ele se humilhou e "o Senhor exaltou-o e deu-lhe um nome acima de todo nome" (Fil. 2, 6-11). É o Papa, gente!

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