segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Um padre

João César das Neves
DN, 20031117

Já não se publicam sermões. 
Depois de os padres terem passado no século XIX à categoria de ervas daninhas, abandonou-se o hábito de publicar sermões. Assim se perde para sempre um dos fenómenos culturais mais influentes da nossa língua.
Todos os dias, em milhares de locais, se prega em Portugal sobre o sentido da vida, os juízos morais, as virtudes práticas. 
Este grandioso património evapora-se, enquanto os etnógrafos se esforçam, por outros lados, a recolher os menores indícios do que chamam «cultura». 
Mas, felizmente, ainda há excepções. 
Acaba de sair um volume de homilias de um sacerdote lisboeta (Directo ao Assunto, Lucerna, 2003).
O Padre João Seabra é uma figura conhecida da nossa intelectualidade. Mas o que ele é, é sempre e apenas como padre. 
A sua fama provém sobretudo da sua frontalidade. Num tempo em 
que a Igreja se sente minoritária, às vezes acossada e complexada, o Padre Seabra nunca pediu desculpa por ser quem é ou licença para se meter na vida de quem encontra. 
Conheço muitos padres santos, fervorosos e cativantes. Mas com a sua «desfaçatez na Fé» só sei de outro, um polaco chamado Karol Wojtyla.
Os sermões deste livro não são habituais. 
Primeiro são curtos. Depois são muito coloridos, com humor e actualidade. Em terceiro lugar são desarmantes. 
Citam no mesmo fôlego a Astrofísica e a Inquisição (p. 81), Gore Vidal e S. Ambrósio (p. 89), S. Pedro e Krushchev (p. 107), Loretta Young e o bom samaritano (p. 201-202).
Os temas são muitos, mas o assunto é sempre o mesmo. Em todo o livro se sente a sua linha condutora: uma paixão intensa numa fidelidade férrea pela pessoa de Cristo e pela vida da Igreja. Com exemplos divertidos e sínteses iluminantes, o autor vai sempre directo ao assunto. E o assunto é sempre a Fé. O livro é, pois, uma notável mistura de catecismo, geopolítica, moral prática e história. Na clareza da argumentação, na contundência das comparações, sente-se o que tanto foi repetido nos milénios da Igreja: «Vieram para discutir, mas era-lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava» (Act 6, 9-10).
No meio aparecem frases brilhantes, tiradas geniais que não esquecem: «Toda a moralidade cristã se reduz a isto. Usar todas as coisas tomando nota da Luz da qual são feitas» (p. 125). «Porque quem resolve, nos momentos decisivos, pensar só pela sua cabeça acaba por pensar pela cabeça da opinião comum» (p. 190). «Para se renunciar à santidade é precisa uma disciplina de ferro, porque a santidade oferece-se a nós todos os dias»(p. 210). «Misteriosamente, os que estão no Inferno não estão lá presos. Estão lá porque não querem sair de lá (...) o seu castigo é esse ódio eterno ao bem» (p. 272). «A Europa é o nariz da Ásia. Se a Ásia se assoa, a Europa desaparece. (...) A Europa é o Cristianismo ou não é nada» (p. 277). «Meus amigos, meus irmãos, vivei cada instante como se fosse o primeiro instante, como se fosse o último instante, como se fosse o único instante» (p. 211).
É assim o autor. É assim este livro.À questão principal, ele mesmo respondeu logo na sua primeira missa: «O bom gosto do nosso mundo perguntará, escandalizado, se eu me considero, então, detentor da única verdade. E eu respondo que não. Não sou detentor da verdade. Mas sou detido por Ela, sou possuído, conduzido, impelido e guiado por Ela. Não sou senhor da verdade, mas sou servo da Verdade» (p. 13).
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Um padre

Queridos amigos:

Hoje, dia de Santa Isabel da Hungria, a Constança faz 12 anos. Esta crónica do João Luís César das Neves testemunhando a sua experiência de filiação com o "nosso" Padre João, é o melhor presente de anos que a Constança poderia ter.

A Constança interrompeu-lhe várias destas homilias com a sua voz a despropósito. Porém, habituaram-se um ao outro. A Constança porque lhe reconhecia a voz; o Padre João porque olhava para ela com o espanto perante o mistério da total dependência. Entretanto, nós guardávamos tudo isto no nosso coração.

Ser exactamente hoje que esta crónica é publicada não é uma mera coincidência. É, por isso, um presente de anos.

Obrigado, Padre João, por nos educar na Fé.

Obrigado, João Luís, por nos ajudar tão eloquentemente a recordar isto mesmo.

Parabéns Constança.

Pedro Aguiar Pinto

 

Um padre

João Luís César das Neves

Diário de Notícias, 20031117

Já não se publicam sermões. Depois de os padres terem passado no século XIX à categoria de ervas daninhas, abandonou-se o hábito de publicar sermões. Assim se perde para sempre um dos fenómenos culturais mais influentes da nossa língua.

Todos os dias, em milhares de locais, se prega em Portugal sobre o sentido da vida, os juízos morais, as virtudes práticas. Este grandioso património evapora-se, enquanto os etnógrafos se esforçam, por outros lados, a recolher os menores indícios do que chamam «cultura». Mas, felizmente, ainda há excepções. Acaba de sair um volume de homilias de um sacerdote lisboeta (Directo ao Assunto, Lucerna, 2003).

O Padre João Seabra é uma figura conhecida da nossa intelectualidade. Mas o que ele é, é sempre e apenas como padre. A sua fama provém sobretudo da sua frontalidade. Num tempo em que a Igreja se sente minoritária, às vezes acossada e complexada, o Padre Seabra nunca pediu desculpa por ser quem é ou licença para se meter na vida de quem encontra. Conheço muitos padres santos, fervorosos e cativantes. Mas com a sua «desfaçatez na Fé» só sei de outro, um polaco chamado Karol Wojtyla.

Os sermões deste livro não são habituais. Primeiro são curtos. Depois são muito coloridos, com humor e actualidade. Em terceiro lugar são desarmantes. Citam no mesmo fôlego a Astrofísica e a Inquisição (p. 81), Gore Vidal e S. Ambrósio (p. 89), S. Pedro e Krushchev (p. 107), Loretta Young e o bom samaritano (p. 201-202).

Os temas são muitos, mas o assunto é sempre o mesmo. Em todo o livro se sente a sua linha condutora: uma paixão intensa numa fidelidade férrea pela pessoa de Cristo e pela vida da Igreja. Com exemplos divertidos e sínteses iluminantes, o autor vai sempre directo ao assunto. E o assunto é sempre a Fé.

O livro é, pois, uma notável mistura de catecismo, geopolítica, moral prática e história. Na clareza da argumentação, na contundência das comparações, sente-se o que tanto foi repetido nos milénios da Igreja: «Vieram para discutir, mas era--lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava» (Act 6, 9-10).

No meio aparecem frases brilhantes, tiradas geniais que não esquecem: «Toda a moralidade cristã se reduz a isto. Usar todas as coisas tomando nota da Luz da qual são feitas» (p. 125). «Porque quem resolve, nos momentos decisivos, pensar só pela sua cabeça acaba por pensar pela cabeça da opinião comum» (p. 190). «Para se renunciar à santidade é precisa uma disciplina de ferro, porque a santidade oferece-se a nós todos os dias»(p. 210). «Misteriosamente, os que estão no Inferno não estão lá presos. Estão lá porque não querem sair de lá (...) o seu castigo é esse ódio eterno ao bem» (p. 272). «A Europa é o nariz da Ásia. Se a Ásia se assoa, a Europa desaparece. (...) A Europa é o Cristianismo ou não é nada» (p. 277). «Meus amigos, meus irmãos, vivei cada instante como se fosse o primeiro instante, como se fosse o último instante, como se fosse o único instante» (p. 211).

É assim o autor. É assim este livro.

À questão principal, ele mesmo respondeu logo na sua primeira missa: «O bom gosto do nosso mundo perguntará, escandalizado, se eu me considero, então, detentor da única verdade. E eu respondo que não. Não sou detentor da verdade. Mas sou detido por Ela, sou possuído, conduzido, impelido e guiado por Ela. Não sou senhor da verdade, mas sou servo da Verdade» (p. 13).

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

sábado, 8 de novembro de 2003

«Habemus Papa»

Expresso, 2003-11-08
PARA lá do sensacionalismo repetitivo e do alarmismo enfadonho a que a informação televisiva nos habituou, chamou a minha atenção o modo, tão típico do nosso tempo, como o recente agravamento do estado de saúde de João Paulo II foi abordado pelo telejornais.
Inicialmente havia, no relato das notícias, um tom subliminar de quase escândalo, como se a doença do Papa viesse demonstrar que a Igreja era imperfeita e que afinal o Papa não era divino, era um mortal como os outros. As perguntas sobre os assuntos aos altos dignitários da Igreja eram feitas com a pouco segura e usual agressividade, como se a súbita constatação de que o Papa poderia morrer viesse destapar uma carapuça, revelar que a mensagem de eternidade que a Igreja transmitia era afinal publicidade enganosa.
A coincidência com a comemoração do 25º aniversário da eleição de João Paulo II acabou por dar outra perspectiva aos noticiários, passando-se aos balanços, um pouco em tom final, do seu pontificado, intervalados com vácuas especulações sobre o seu sucessor e o que este teria de fazer para satisfazer a clientela e adaptar a fé ao gosto dos fiéis.
A ocasião forneceu contudo apreciações mais profundas do percurso de um dos mais marcantes protagonistas das mudanças que se deram nos finais do século XX, mas também e, sobretudo, de um dos mais afirmativos chefes da Igreja Católica de todos os tempos.
Sublinhou-se a sua luta pela liberdade, no combate a um regime que aguilhoava os povos, sacrificados a mais um mito redentor, desta vez pseudo-científico. Elogiou-se a sua obstinada e generosa defesa da dignidade do Homem, em todas as situações, sem desculpas e sem excepções. Louvou-se a denúncia das injustiças sociais, a coragem na oposição à violência.
Registou-se a dificuldade em classificá-lo segundo os parâmetros convencionais, apontando-se a sua experiência política, o progressismo social e o conservadorismo doutrinário, afinal uma forte afirmação de coerência. Ele é o homem que combateu o comunismo em nome da liberdade; que luta pelos oprimidos e humildes contra os fortes e prepotentes; que não hesitou em atribuir à intervenção divina a sua salvação do atentado que o vitimou num dia 13 de Maio; que escolheu as comemorações do seu jubileu de prata para beatificar a figura, tão ilustrativa das insuportáveis injustiças da sociedade moderna, e a que o seu pontificado tanto se identifica, da Madre Teresa de Calcutá. Ele não cedeu aos ventos da moda, não hesitou em proclamar a verdade da sua fé, mesmo sendo impopular - e por isso se tornou um ídolo da juventude. Como Cristo no Templo, ele veio para dividir, com a misericórdia do perdão, mas com a firmeza da fé, tão incómoda e difícil numa sociedade que se julga, no racionalismo, na ciência e - mais preocupantemente - na técnica, detentora da verdade e capaz de domesticar o mundo e a vida.
Mas todos esses comentários, certos e justos, tenderam a considerar a vida do Papa um pouco já no passado e não se terá salientado suficientemente o alcance do testemunho que, com o seu visível e angustiante sofrimento físico, está no presente a dar.
Num mundo onde, segundo a feliz frase de Chomsky - sobressaltem-se os puristas do pensamento único, li-a no «Figaro Magazine», citada por um eurodeputado gaullista - a mercantilização de todos os aspectos da vida está a criar um novo totalitarismo, onde as pessoas valem mais pelo que têm do que pelo que são, onde a condescendência própria só tem paralelo na implacável exigência com os outros, onde os valores éticos se moldam às conveniências, onde o expediente é mais apreciado que a integridade. Num mundo onde se atribui aos pobres e aos fracos o epítome de excluídos, cruelmente apropriado porque a sociedade os rejeita. Num mundo, enfim, onde a doença envergonha e se esconde a morte, porque destoa do hedonismo dominante, o Papa vem afirmar, com o seu exemplo, que a dignidade humana não tem fronteiras. Persiste além da doença, além da humilhação, além do sofrimento, além da morte. Que os pobres, os humildes, os doentes, os que sofrem, dela partilham inteiramente. E que todos sem excepção se têm de resignar à condição humana.
João Paulo II sobrepõe à doença e à dor a sua força espiritual para nos transmitir este testemunho inquietante e subversivo no mundo em que vivemos, talvez o mais forte do seu Pontificado. O qual é, por isso, bem presente. Foi essa a notícia que não vi nos telejornais. Porém, a mais sensacional e alarmante.
Embaixador

segunda-feira, 6 de outubro de 2003

Dois Milénios

Público, Segunda-feira, 06 de Outubro de 2003
No próximo dia 16 de Outubro João Paulo II terá estado sentado há um quarto de século na cadeira de Pedro. Os sinais dados pelas suas acções na defesa da paz ou face às outras religiões tornam oportuna a comemoração que a Diocese de Lisboa promove no Estádio Nacional.
A duração do pontificado impressiona; um quartel de século que cavalga dois milénios - no sentido das civilizações e não só do calendário. Poucos Papas governaram tanto tempo. Aliás, poucos Presidentes ou Chefes de Governo exerceram responsabilidades por um período tão longo.
A capacidade de sobrevivência de João Paulo II impressiona também. A edição dá-nos obras serenas sobre João Paulo II como «Porque viajas tanto?», as crónicas de Aura Miguel. A televisão usa o sofrimento do Papa para o silenciar: mostra-lhe o rosto contorcido e obriga-nos a ouvir o voice over e a voz off.
A televisão exibe-nos o sofrimento do Papa e agoira a sua morte. O telejornal fala-nos de um Woytula moribundo e vemos imagens de um homem vigoroso, tendo em conta a idade e as doenças - num vídeo de João Paulo II gravado nesse mesmo dia. O telejornal revela que uma alta figura da Igreja dá o Papa por morto - certamente com o são propósito de nos preparar para esse acontecimento futuro e incerto - , e eis que o Santo Padre quase à mesma hora recebe o arcebispo de Cantuária.
Este tipo de intoxicação, silenciando João Paulo II, deveria impedir-nos de saber que João Paulo II estabeleceu o espírito de Assis, de diálogo entre as religiões; soube opor-se à guerra feita ao Iraque sem fazer política mas apenas em nome da paz; levou ao rubro a religiosidade - no que ela tem de místico - com a preocupação social. É uma originalidade: os crentes místicos esquecem o social e os cristãos sociais arrefecem a mística. Ora o social é parte inevitável de uma Igreja que é «assembleia» e louva a Encarnação de Deus.
Esta intoxicação, porém, falha; em vez de nos perturbar, ilumina-nos. Porquê? O pouco que a televisão mostra do Papa, mostra-o a sofrer pelo bem. É a capacidade de transformar a dor em bem que mais nos impressiona quando vemos João Paulo II. Ora esta transformação é uma figura da Paixão e nada de mais próprio para um Papa do que evocá-la de maneira tão visível.
A grande festa da diocese de Lisboa no Estádio Nacional, de sábado a oito dias, às 18 horas, encerra o ano do Rosário; é uma retribuição do amor do Santo Padre pelos homens, por Lisboa e por Fátima. A festa terminará por uma Eucaristia, presidida pelo Cardeal Patriarca, D. José Policarpo. Será rezado o terço, com o acompanhamento de 2500 homens e mulheres que, no relvado, formarão um terço vivo e em movimento: será a forma actual dos antigos mistérios medievais. E lembra os coros falados da Juventude Operária Católica (JOC) de há uns cinquenta anos. É interessante que a intensidade da fé, em simultâneo com o empenho social dessa mesma JOC, pareçam prefigurar a acção do Papa hoje.

segunda-feira, 15 de setembro de 2003

Constança

Pedro Aguiar Pinto
Jornal das Boas Notícias 2003.09.15

O Jornal das Boas Notícias está de volta ao fim de quase um ano e meio de ausência. Era meu propósito retomar a publicação mais regular do jornal no início do mês de Setembro, após as férias de verão. Comecei, por isso, por juntar alguns artigos que o tempo não corroeu e que me pareceram  manter o interesse que poderiam ter para os leitores. Alguns são de há mais de um ano e já estavam seleccionados para um Jornal das Boas Notícias que nunca chegou a sair.
No dia 1 de Setembro, a nossa filha Constança, deficiente profunda com quase 12 anos, foi operada e nos turnos que repartia com a minha mulher ao lado da Constança na sua convalescença, fui juntando e compondo este número do Jornal das Boas Notícias. No dia 8 de Setembro à tarde, enquanto estava neste trabalho, o oxímetro ligado ao dedo da Constança começou a apitar. Desliguei o computador à pressa sem guardar o que estava a fazer e fui para o lado dela. Pouco depois o seu coração parou. A Constança tinha ido para o Céu. Os dias que se seguiram foram dias intensos, mas misteriosamente pacíficos, de uma paz e de uma letícia que só podem vir da certeza de que a sua vida no seio da nossa família, de que ela foi o centro nestes últimos doze anos, foi um dom de graça que Deus nos concedeu.
Deus a deu, Deus a levou, no dia da Natividade de Nossa Senhora.
Sabê-la na presença de Deus, a Quem ela agora vê face a face é uma experiência de cumprimento de um destino de felicidade agora realizado.
Quando voltei a abrir o processador de texto, o ficheiro que não tinha guardado com a urgência, apareceu recuperado com o trabalho onde o deixara.
Acrescento-lhe apenas estas linhas que quis partilhar convosco, porque as Boas Notícias, geralmente ignoradas, são também o fruto da misteriosa acção de Deus através dos Seus filhos.
A Constança na sua total incapacidade tocou de forma única a vida de muita gente e despertou todos os que a conheceram para o mistério do Ser e, por isso, do amor.
Que Nossa Senhora das Dores, cuja festa celebramos hoje (15 de Setembro) a acolha e torne fecunda a sua curta viagem por esta terra

Jornal das Boas Notícias, 13

sexta-feira, 18 de abril de 2003

As Sete Palavras do Senhor

JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público Sexta-feira, 18 de Abril de 2003

1 - "O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!"
Esta frase de Romano Guardini, que li há muito longo tempo, sempre a retive sem perceber bem porquê. Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa, ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer, pois que não tenho sustentação possível.
Porque é que então a dupla exclamação de Guardini tanto se me colou?
Para lá do que análises ou psicanálises possam descobrir (e nunca acreditei que descobrissem muito), julgo que o grande susto vem da familiaridade da imagem com a incognoscência da ideia.
Se nenhum de nós viu nunca alguém a ser pregado numa cruz, alguém a morrer numa cruz (banido o suplício, há muitos séculos, dos usos e costumes de qualquer reino), quase todos nós fomos nascidos e crescidos sob o signo da Cruz, sob o sinal da Cruz. E só muito de longe em longe - às vezes de tão longe, de tão longe - nos damos conta de que, se esse sinal é tão esmagadoramente representativo, é porque na Cruz (uma cruz que nem sequer estamos certos de corresponder à figura geométrica que a ela associamos) morreu, há quase dois mil anos, um homem que alguns milhares de milhões de pessoas acreditaram ou acreditam que é Deus.
Deus pregado numa cruz? Deus morto numa cruz? Se conseguirem ler estas duas perguntas como se nunca as tivessem ouvido, como se fosse a primeira vez que alguém as pergunta, talvez se aproximem do que Romano Guardini quis dizer. Hoje, Sexta-Feira Santa do ano de 2003, talvez seja um dia adequado à experiência que vos proponho.
São Paulo disse-nos (Filipenses II, 6-8) que "Jesus, existindo na forma de Deus, não julgou ser igual a Ele. Mas aniquilou-se a Si mesmo, tomando a forma de escravo e tornando-se semelhante aos homens, e, sendo reconhecido por condição, como homem, humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, até à morte da cruz!" Como é que Deus não julgou ser Deus? Como é que Deus se pode humilhar a si próprio? A quem obedece Deus, que, por natureza e essência, não pode obedecer a ninguém? E, sobretudo - chego sempre à minha citação e à minha radical suspensão -, como pode morrer Deus, de mortal morte na Cruz? Porque a condição divinal foi trocada pela condição mundanal, o Filho de Deus assumindo-se como Filho do Homem? É essa a nossa fé, mas também é esse o nosso absurdo. Não é só levar o credo até ao cabo, na pasmosa expressão de Gil Vicente no "Auto da Barca do Purgatório", é ultrapassar qualquer cabo. "Credo quia absurdum". Hoje, entre a hora sexta e a hora nona, comemora-se o aniversário litúrgico da Morte de Deus. Nunca me admirou que tivesse ficado tudo tão escuro, como desde Amos fora predito, tão escuro que no apócrifo Evangelho de Pedro se diz que os judeus tropeçavam uns nos outros, sem encontrar o caminho para casa. Luto por Deus, luto pelo Filho Único. "E farei deste dia, até ao fim, o dia da amargura" (Am 8, 10).
2 - "O Cristo na Cruz!"
Todos os evangelhos são muito parcos na descrição dessas horas que nos perderam e que nos salvaram. É verdade que, de todos os discípulos, "só aquele que o Senhor amava", como S. João a S. João se chama, ficou junto d'Ele todo esse tempo. E o quarto Evangelho é o que nos dá mais pormenores, como, noutra perspectiva, o Evangelho segundo S. Lucas.
Em Marcos e Mateus, como notou Jean-Noël Aletti, nesse extraordinário livro que se chama "L'Art de Racconter Jésus - Christ", Jesus morre sozinho, abandonado pelos discípulos e só observado, de longe, por algumas mulheres. Mas Jesus está também silencioso. "Injuriado e provocado, mas silencioso perante os ultrajes." A única palavra desses Evangelhos é o brado que os dois evangelistas conservam em aramaico: "Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?" Deus desesperando de Deus? Se houvesse desespero, não haveria invocação e sobretudo nunca Deus diria "Meu Deus". O adjectivo possessivo é, neste caso, o abissal, porque substantivo e adjectivo são um só, porque o "meu" é tão mais d'Ele quanto é Ele. A variação do apócrifo de Pedro ilumina, nesta passagem, o que nela pode ser iluminado. Nesse texto, o Senhor não se dirige ao Pai, mas a Si Próprio: "Minha força, minha força, tu me abandonaste." E, depois, dando um grande brado, expirou.
3 - Em Lucas, pelo contrário, chegado ao lugar dito do Crâneo (o Gólgota) e crucificado entre dois ladrões, a narração começa com a palavra de Jesus: "Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem." Ela é o nosso mais absoluto perdão, pois que os céus e as terras passarão mas a Palavra do Senhor não passará e nessa palavra (oculta sob a forma de pedido) todos somos perdoados, porque nunca soubemos nem saberemos o que fizemos ou faremos. Ou, dito de outro modo, se quem pregou Deus na Cruz é perdoado, quem o poderá não ser?
Como nos outros sinópticos, segue-se breve descrição das injúrias e sarcasmos. À soldadesca e à populaça, junta-se, no entanto, um dos ladrões igualmente crucificados, mas que o injuria com uma réstea de esperança: "Se és Cristo, salva-te e salva-nos a nós também." Mas o outro ladrão censura-o e diz-lhe esta coisa espantosa: "Nem a Deus temes, tu que sofres da mesma pena?" Para aquele que a história viria a conhecer como o Bom Ladrão, Deus está ao lado dele na Cruz. Foi o único homem que viu Deus na Cruz e que não o tomou por impossível. Tamanha fé - eu creio que é o maior acto de fé de que nos foi dado conhecimento - merece a recompensa: "Em verdade, em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso." Foi o único homem que morreu certo da sua salvação, porque foi o único homem que existiu que não duvidou de Deus crucificado, nem duvidou da realidade do reino dele.
Mas, ao Mau Ladrão, Deus nada respondeu e nunca lhe disse que o recusaria no Paraíso.
A terceira das palavras relatadas por Lucas é também uma palavra de comunicação. "E, num grande brado, Jesus disse: " Pai, nas Tuas mãos deponho o meu espírito."
3 - No Evangelho de João, a quinta palavra que, na Cruz, do Senhor nos ficou, é a que designa, para o discípulo que amava, Maria como mãe dele ("Eis a tua mãe") e a que confia a Maria o discípulo amado ("Mulher, eis o teu filho"). Na Terra, a Mãe de Deus achava um outro filho, na Terra, João é confiado aos cuidados da Mãe de Deus.
Depois, Jesus disse a palavra talvez mais enigmática: "Tenho sede." João explica-nos que a disse para que as Escrituras se cumprissem. Mas Eckhart, o místico, num texto sobre o recolhimento, recordou que ter sede é abrir os peitos. "A imagem da coisa a beber não o deixa, enquanto a sede durar não o deixa. E quanto maior for a sede, mais interior, presente e contínua é a imagem da coisa a beber." De Si Próprio, muito antes dessa tarde escura, o Filho do Homem tinha dito: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba."
Por isso, depois de ter bebido do vinagre, Jesus disse: "Tudo está consumado." E, baixando a cabeça, entregou o espírito.
São Bernardo, num hino que lhe é atribuído, demora-se a olhar-Lhe o rosto e diz que "os Altíssimos adoram essa palidez". Quem são esses Altíssimos, o texto não explica.
Mas só podemos pensar o dia de hoje, se o pensarmos como a perfeição de uma esfera admirável, porque, como disse frei Heitor Pinto, "O princípio une-se com a fim." "Esta é a perfeita figura, este é o círculo divino (...) este é o filho que é padre da madre; este é o que, nascendo em tempo, foi antes do tempo e fez o tempo; este é o que sendo impossível se fez possível e sendo eterno se fez mortal."
Podemos então começar a ver a Cruz fundir-se com a Árvore. A Árvore da Vida, a Árvore da Vera Cruz.
E termino como se deve, ou seja como comecei. "Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!" Esta é a Sexta-Feira Santa, Sexta-Feira da Paixão.

segunda-feira, 31 de março de 2003

Explico porque é que para mim a política é servir

Alberto Savorana
Tracce, Março de 2003

Nas vésperas das eleições, o Presidente da Região Lombardia conta o motivo que o impele a candidatar-se ao Senado. Levando em conta o bem comum e a libertas Ecclesiae. E arriscando a sua liberdade até ao fim.

Roberto Formigoni acaba de falar a milhares de pessoas numa reunião da Companhia das Obras no Palalido de Milão, terça-feira, 18 de Março, a menos de um mês das eleições antecipadas depois da queda repentina do governo Prodi. É o início de uma campanha eleitoral das mais complicadas da história republicana.
Formigoni não esconde uma certa preocupação com a sua decisão de candidatar-se ao Senado, exactamente num momento como este, mas também não esconde o entusiasmo com esta nova aventura política. Aceitou contar à Passos as razões da sua escolha de levar para Roma – como ele diz – o exemplo da boa governação da Lombardia. Há treze anos que é governador da região por todos reconhecida como o motor económica de Itália; a nossa conversa começa exactamente aqui.
O que é que estes anos de administração da Lombardia te ensinaram?
Que há um número realmente grande de pessoas, famílias, associações, jovens, adultos, capazes de construir positivamente um mundo onde a pessoa é respeitada e valorizada.
Se tivesses que elencar alguns exemplos virtuosos da tua presidência, quais citarias?
Eu quis construir uma administração fundada no princípio da subsidiariedade. O que muitos consideravam um princípio abstracto, veio a transformar-se numa realidade de facto. Lançámos inúmeras reformas inovadoras. Por exemplo, leis sobre a família, pensadas e redigidas com as associações das próprias famílias lombardas; estas, em vez de distribuir fundos indiscriminadamente, convidam as famílias a apresentar projectos a ser financiados: sustentámos milhares deles durante estes anos. Ou a lei sobre a escola, que reforma profundamente o sistema de educação e de formação profissional, e coloca no centro o pedido de educação e de crescimento do capital humano. Mais, a invenção do cheque-escola, como sustento da liberdade de escolha educativa, que evoluiu para o sistema bem mais amplo do “dote”, que acompanha o estudante durante todo o percurso da sua formação. Sublinho, em geral, a exaltação da liberdade de escola em todos os sectores, na saúde, nos serviços sociais, na assistência aos idosos, aos deficientes, na escola.
Em que medida indicam um método original de administrar a coisa pública?
A subsidiariedade é a destruição da definição tradicional estatalista e centralizada, que dominou o mundo nestes últimos trezentos anos, que se seguiram ao Iluminismo. É colocar verdadeiramente a pessoa antes do partido, a sociedade antes do Estado. E as violentíssimas polémicas e as duríssimas hostilidades que tive que enfrentar, especialmente nos primeiros anos da minha presidência, documentam a radicalidade da mudança que foi introduzida. Foi uma luta realmente árdua. Mas depois, mantendo a firmeza, à medida que as coisas se realizavam, as pessoas estavam cada vez mais de acordo, sentia-se verdadeiramente mais livre e pedia que continuássemos.
Mas porque é que o Governo do País deveria precisar de se abrir ao “modelo lombardo”?
Como “modelo lombardo” eu entendo exactamente o modelo da subsidiariedade, e digo que Itália tem dele uma necessidade imensa. Por outro lado, nestes anos, à medida que o modelo lombardo se construía, vi que outras regiões copiavam partes, e que crescia o interesse dos cidadãos de italianos.
Algumas pessoas interrogam-se se é mesmo necessário deixar a Lombardia para ir para Roma. O que responderias?
Deixarei a Lombardia se puder fazer em Roma mais do que fiz até agora na Região, e do que pudesse fazer se ficasse. Parece-me que é um critério muito simples e muito claro. Não anseio por uma cadeira romana. Na Lombardia trabalhei e continuarei a trabalhar 16 horas por dia com gosto e divertindo-me. Se as circunstâncias – e talvez uma indicação por parte de quem formará novo governo – abrirem um espaço para fazer mais por Itália, creio que o sentido de responsabilidade me obrigará a abraçar o novo desafio.
«A tarefa imediata de acção no âmbito político para construir uma ordem justa na sociedade não pertence à Igreja enquanto tal, mas sim aos fiéis leigos, que operam como cidadãos sob a sua própria responsabilidade: trata-se de uma tarefa da maior importância, à qual os cristãos leigos italianos são chamados a dedicar-se com generosidade e com coragem, iluminados pela fé e pelo Magistério da Igreja e animados pela caridade de Cristo» (Bento XVI). O Papa diz estas coisas numa época que separou a fé (o âmbito das coisas de Deus) e a razão (entendida como espaço das coisas do mundo). Que utilidade tem a fé para ti?
Tem uma utilidade total para a minha vida. Para o meu empenho político, é a mesma coisa. A fé, esta fé de que o Papa fala, que é a autêntica fé católica, é profundamente amiga da razão e não se pode separar dela; ilumina a razão e fornece os critérios de juízo da vida e do próprio empenho político. Concordo: fazer política é uma tarefa da maior importância, sobretudo hoje em dia, mas é uma coisa completamente da minha responsabilidade. A educação de fé recebida no CL sempre me estimulou a assumir a responsabilidade de por na prática o ensinamento recebido.
O facto de seres do CL (e não escondes isso) suscita em algumas pessoas um olhar de suficiência; em outros, uma reacção de despeito, devido ao suspeito de todas as formas de pertença – mais ainda, se for religiosa – representam um factor que faz perder a objectividade nos juízos e na acção. Traduzido para uma linguagem terra-a-terra: Formigoni é do CL e portanto favorece os seus amigos. O que responderias?
Os 13 anos de presidência da Região Lombardia respondem por mim. Sempre defini a minha acção em fazer crescer o protagonismo da sociedade. Nestes anos, a Região Lombardia sempre se moveu nesta direcção, sem privilégios nem desvantagens para ninguém: os celinos não ganharam vantagens e ninguém ficou desvantajado, nem sujeitos, nem iniciativas sociais, mesmo que fossem de uma cor diferente da minha.
A mentalidade comum considera que todas as intervenções do Papa e dos Bispos a respeito das coisas do mundo são uma ingerência indevida. Para ti, enquanto laico, o que significa ter presente o Magistério da Igreja?
Mais do que ingerência! Uma democracia moderna enriquece-se com o contributo e o ensinamento de qualquer pessoa autorizada, especialmente no campo religioso. A democracia é o antigo agora ateniense, no qual todos tinham o direito a falar e fazer-se ouvir, e depois o cidadão escolhe livremente. O Magistério da Igreja ilumina a minha vida e é para mim o critério de juízo. Mas as escolhas que faço, faço-as eu; e submeto-as sempre ao consenso dos outros, da Câmara e do Conselho Regional, no que diz respeito a alguma medida operativa, do mundo económico, social sindical nas mesas das parcerias, dos cidadãos e do seu voto em cada ronda eleitoral.
Libertas Ecclesiae e bem comum são os dois factores que a Igreja sempre utilizou para ajuizar o poder civil e a política. Que tradução prática tiveram estes princípios nestes anos da tua actividade política e administrativa?
Percebo a libertas Ecclesiae deste modo: um governo que garanta a liberdade da Igreja, garante por si só a liberdade a qualquer sujeito e a quem quer que seja. Porque a vida da Igreja é mais “volumosa” do que a vida de qualquer outro sujeito social. No que se refere ao bem comum, é evidente que talvez antes de qualquer outra pessoa, eu falei da necessidade de superar o bipolarismo de guerra e avançar para um confronto respeitoso entre os vários pólos políticos, que seja capaz de assumir também o ponto de vista dos outros. Há três anos que na Lombardia as principais escolhas estratégicas são discutidas aprofundadamente, e muitas vezes, votadas em conjunto por um largo arco de forças presentes no conselho regional; em todos estes anos, as principais escolhas estratégicas sobre o território foram partilhadas com províncias, municípios e com organizações de cidadãos, e empresários, de trabalhadores e representantes de interesses legítimos.
É possível conseguir-se viver a política como caridade? Não é a política o lugar dos interesses e das conveniências, onde quem mais se mexe, mais obtém para si e para os seus interesses?
Muitas vezes, é o lugar dos interesses e das conveniências. Muitas vezes, é o lugar onde quem mais se mexe, mais obtém. Eu estive entre aqueles - não o único - que nestes anos mudou a hierarquia das questões discutidas nas reuniões políticas. À frente da hierarquia nunca pus a obtenção de um lugar para um dos meus, preferi sempre obter a realização de uma lei ou uma medida inspirada na subsidiariedade e útil aos cidadãos e à sociedade. Para além do mais, acredita que, se a caridade para mim não fosse a mola de base, verificada todos os dias mesmo com todas as dificuldades dos casos, que coloca um ideal altíssimo e concreto em acção… depois de 5 ou 10 ou 125 anos, garanto-te que uma pessoa se cansaria. Há 24 anos que eu faço política assim, e estou mais entusiasmado e com as baterias mais carregadas do que no primeiro dia.
O que significa para ti a coerência na política?
Significa a coerência com os ideais. Quer dizer: não com o que tu disseste dois ou três anos antes, até podes reconhecer que erraste e ter que te corrigir. A coerência é a coerência com uma realidade que muda constantemente e portanto exige que se saiba servir o homem dentro daquela realidade concreta.
Recentemente, reuniste em Riva del Garda, algumas centenas de políticos e administradores locais. Do que se tratou?
Da Rede Itália. Em Riva reuniram-se 850 pessoas, políticos e administradores, a grande maioria era do meu partido, todos movidos pela convicção que a política pode ser um exercício de caridade, que a política possa ter uma raiz ideal, que valha a pena empenhar-se na política para servir a vida de um povo e o seu crescimento. Há já alguns anos que alguns deste 850 se encontravam uma vez por ano em Agosto, em Rimini, por ocasião do Meeting; no ano passado decidimos dar uma forma mais estruturada à nossa ajuda recíproca. Sim, Rede Itália e a outra iniciativa da Escola de formação política – também esta chegou ao segundo ano com 400 jovens inscritos – são dois frutos da nossa fidelidade ao primeiro impulso, que nos impeliu a atirarmo-nos a esta aventura política, rica em marés, mas onde é doce nadar.
O que é que longos anos de empenho político-institucional fazer urgir em ti como desafio para o futuro?
Na actuação da subsidiariedade, independentemente de todas as coisas já realizadas, estamos só no princípio de um caminho. Porque a subsidiariedade é realmente um princípio capaz de subverter a própria fundamentação do estatalismo de direita e de esquerda tal como o herdámos. Ainda não perdi vontade de participar nesta batalha, e portanto, em Itália ou na Lombardia, ou onde quer que me seja possível, pretendo continuá-la.
Depois de tanto empenho público, primeiro no Movimento Popular, depois na Europa e na Lombardia, em que é que sentes que tens que mudar?
Itália está objectivamente pior hoje do que há 24 anos quando eu comecei. A Europa perdeu muitas das suas dimensões ideais e independentemente da queda do muro de Berlim (facto muito positivo), o mundo não está mais seguro; pelo contrário, os cristãos no mundo continuam a ser objecto de hostilidades, e às vezes de verdadeiras perseguições. É este o campo de acção. O que sinto que devo mudar em mim é saber reunir cada vez melhor à minha volta e à volta dos outros amigos, outros operadores, um povo, porque esta responsabilidade por ser levada a cabo só com um envolvimento profundo, vasto e apaixonado.