segunda-feira, 31 de março de 2003

Explico porque é que para mim a política é servir

Alberto Savorana
Tracce, Março de 2003

Nas vésperas das eleições, o Presidente da Região Lombardia conta o motivo que o impele a candidatar-se ao Senado. Levando em conta o bem comum e a libertas Ecclesiae. E arriscando a sua liberdade até ao fim.

Roberto Formigoni acaba de falar a milhares de pessoas numa reunião da Companhia das Obras no Palalido de Milão, terça-feira, 18 de Março, a menos de um mês das eleições antecipadas depois da queda repentina do governo Prodi. É o início de uma campanha eleitoral das mais complicadas da história republicana.
Formigoni não esconde uma certa preocupação com a sua decisão de candidatar-se ao Senado, exactamente num momento como este, mas também não esconde o entusiasmo com esta nova aventura política. Aceitou contar à Passos as razões da sua escolha de levar para Roma – como ele diz – o exemplo da boa governação da Lombardia. Há treze anos que é governador da região por todos reconhecida como o motor económica de Itália; a nossa conversa começa exactamente aqui.
O que é que estes anos de administração da Lombardia te ensinaram?
Que há um número realmente grande de pessoas, famílias, associações, jovens, adultos, capazes de construir positivamente um mundo onde a pessoa é respeitada e valorizada.
Se tivesses que elencar alguns exemplos virtuosos da tua presidência, quais citarias?
Eu quis construir uma administração fundada no princípio da subsidiariedade. O que muitos consideravam um princípio abstracto, veio a transformar-se numa realidade de facto. Lançámos inúmeras reformas inovadoras. Por exemplo, leis sobre a família, pensadas e redigidas com as associações das próprias famílias lombardas; estas, em vez de distribuir fundos indiscriminadamente, convidam as famílias a apresentar projectos a ser financiados: sustentámos milhares deles durante estes anos. Ou a lei sobre a escola, que reforma profundamente o sistema de educação e de formação profissional, e coloca no centro o pedido de educação e de crescimento do capital humano. Mais, a invenção do cheque-escola, como sustento da liberdade de escolha educativa, que evoluiu para o sistema bem mais amplo do “dote”, que acompanha o estudante durante todo o percurso da sua formação. Sublinho, em geral, a exaltação da liberdade de escola em todos os sectores, na saúde, nos serviços sociais, na assistência aos idosos, aos deficientes, na escola.
Em que medida indicam um método original de administrar a coisa pública?
A subsidiariedade é a destruição da definição tradicional estatalista e centralizada, que dominou o mundo nestes últimos trezentos anos, que se seguiram ao Iluminismo. É colocar verdadeiramente a pessoa antes do partido, a sociedade antes do Estado. E as violentíssimas polémicas e as duríssimas hostilidades que tive que enfrentar, especialmente nos primeiros anos da minha presidência, documentam a radicalidade da mudança que foi introduzida. Foi uma luta realmente árdua. Mas depois, mantendo a firmeza, à medida que as coisas se realizavam, as pessoas estavam cada vez mais de acordo, sentia-se verdadeiramente mais livre e pedia que continuássemos.
Mas porque é que o Governo do País deveria precisar de se abrir ao “modelo lombardo”?
Como “modelo lombardo” eu entendo exactamente o modelo da subsidiariedade, e digo que Itália tem dele uma necessidade imensa. Por outro lado, nestes anos, à medida que o modelo lombardo se construía, vi que outras regiões copiavam partes, e que crescia o interesse dos cidadãos de italianos.
Algumas pessoas interrogam-se se é mesmo necessário deixar a Lombardia para ir para Roma. O que responderias?
Deixarei a Lombardia se puder fazer em Roma mais do que fiz até agora na Região, e do que pudesse fazer se ficasse. Parece-me que é um critério muito simples e muito claro. Não anseio por uma cadeira romana. Na Lombardia trabalhei e continuarei a trabalhar 16 horas por dia com gosto e divertindo-me. Se as circunstâncias – e talvez uma indicação por parte de quem formará novo governo – abrirem um espaço para fazer mais por Itália, creio que o sentido de responsabilidade me obrigará a abraçar o novo desafio.
«A tarefa imediata de acção no âmbito político para construir uma ordem justa na sociedade não pertence à Igreja enquanto tal, mas sim aos fiéis leigos, que operam como cidadãos sob a sua própria responsabilidade: trata-se de uma tarefa da maior importância, à qual os cristãos leigos italianos são chamados a dedicar-se com generosidade e com coragem, iluminados pela fé e pelo Magistério da Igreja e animados pela caridade de Cristo» (Bento XVI). O Papa diz estas coisas numa época que separou a fé (o âmbito das coisas de Deus) e a razão (entendida como espaço das coisas do mundo). Que utilidade tem a fé para ti?
Tem uma utilidade total para a minha vida. Para o meu empenho político, é a mesma coisa. A fé, esta fé de que o Papa fala, que é a autêntica fé católica, é profundamente amiga da razão e não se pode separar dela; ilumina a razão e fornece os critérios de juízo da vida e do próprio empenho político. Concordo: fazer política é uma tarefa da maior importância, sobretudo hoje em dia, mas é uma coisa completamente da minha responsabilidade. A educação de fé recebida no CL sempre me estimulou a assumir a responsabilidade de por na prática o ensinamento recebido.
O facto de seres do CL (e não escondes isso) suscita em algumas pessoas um olhar de suficiência; em outros, uma reacção de despeito, devido ao suspeito de todas as formas de pertença – mais ainda, se for religiosa – representam um factor que faz perder a objectividade nos juízos e na acção. Traduzido para uma linguagem terra-a-terra: Formigoni é do CL e portanto favorece os seus amigos. O que responderias?
Os 13 anos de presidência da Região Lombardia respondem por mim. Sempre defini a minha acção em fazer crescer o protagonismo da sociedade. Nestes anos, a Região Lombardia sempre se moveu nesta direcção, sem privilégios nem desvantagens para ninguém: os celinos não ganharam vantagens e ninguém ficou desvantajado, nem sujeitos, nem iniciativas sociais, mesmo que fossem de uma cor diferente da minha.
A mentalidade comum considera que todas as intervenções do Papa e dos Bispos a respeito das coisas do mundo são uma ingerência indevida. Para ti, enquanto laico, o que significa ter presente o Magistério da Igreja?
Mais do que ingerência! Uma democracia moderna enriquece-se com o contributo e o ensinamento de qualquer pessoa autorizada, especialmente no campo religioso. A democracia é o antigo agora ateniense, no qual todos tinham o direito a falar e fazer-se ouvir, e depois o cidadão escolhe livremente. O Magistério da Igreja ilumina a minha vida e é para mim o critério de juízo. Mas as escolhas que faço, faço-as eu; e submeto-as sempre ao consenso dos outros, da Câmara e do Conselho Regional, no que diz respeito a alguma medida operativa, do mundo económico, social sindical nas mesas das parcerias, dos cidadãos e do seu voto em cada ronda eleitoral.
Libertas Ecclesiae e bem comum são os dois factores que a Igreja sempre utilizou para ajuizar o poder civil e a política. Que tradução prática tiveram estes princípios nestes anos da tua actividade política e administrativa?
Percebo a libertas Ecclesiae deste modo: um governo que garanta a liberdade da Igreja, garante por si só a liberdade a qualquer sujeito e a quem quer que seja. Porque a vida da Igreja é mais “volumosa” do que a vida de qualquer outro sujeito social. No que se refere ao bem comum, é evidente que talvez antes de qualquer outra pessoa, eu falei da necessidade de superar o bipolarismo de guerra e avançar para um confronto respeitoso entre os vários pólos políticos, que seja capaz de assumir também o ponto de vista dos outros. Há três anos que na Lombardia as principais escolhas estratégicas são discutidas aprofundadamente, e muitas vezes, votadas em conjunto por um largo arco de forças presentes no conselho regional; em todos estes anos, as principais escolhas estratégicas sobre o território foram partilhadas com províncias, municípios e com organizações de cidadãos, e empresários, de trabalhadores e representantes de interesses legítimos.
É possível conseguir-se viver a política como caridade? Não é a política o lugar dos interesses e das conveniências, onde quem mais se mexe, mais obtém para si e para os seus interesses?
Muitas vezes, é o lugar dos interesses e das conveniências. Muitas vezes, é o lugar onde quem mais se mexe, mais obtém. Eu estive entre aqueles - não o único - que nestes anos mudou a hierarquia das questões discutidas nas reuniões políticas. À frente da hierarquia nunca pus a obtenção de um lugar para um dos meus, preferi sempre obter a realização de uma lei ou uma medida inspirada na subsidiariedade e útil aos cidadãos e à sociedade. Para além do mais, acredita que, se a caridade para mim não fosse a mola de base, verificada todos os dias mesmo com todas as dificuldades dos casos, que coloca um ideal altíssimo e concreto em acção… depois de 5 ou 10 ou 125 anos, garanto-te que uma pessoa se cansaria. Há 24 anos que eu faço política assim, e estou mais entusiasmado e com as baterias mais carregadas do que no primeiro dia.
O que significa para ti a coerência na política?
Significa a coerência com os ideais. Quer dizer: não com o que tu disseste dois ou três anos antes, até podes reconhecer que erraste e ter que te corrigir. A coerência é a coerência com uma realidade que muda constantemente e portanto exige que se saiba servir o homem dentro daquela realidade concreta.
Recentemente, reuniste em Riva del Garda, algumas centenas de políticos e administradores locais. Do que se tratou?
Da Rede Itália. Em Riva reuniram-se 850 pessoas, políticos e administradores, a grande maioria era do meu partido, todos movidos pela convicção que a política pode ser um exercício de caridade, que a política possa ter uma raiz ideal, que valha a pena empenhar-se na política para servir a vida de um povo e o seu crescimento. Há já alguns anos que alguns deste 850 se encontravam uma vez por ano em Agosto, em Rimini, por ocasião do Meeting; no ano passado decidimos dar uma forma mais estruturada à nossa ajuda recíproca. Sim, Rede Itália e a outra iniciativa da Escola de formação política – também esta chegou ao segundo ano com 400 jovens inscritos – são dois frutos da nossa fidelidade ao primeiro impulso, que nos impeliu a atirarmo-nos a esta aventura política, rica em marés, mas onde é doce nadar.
O que é que longos anos de empenho político-institucional fazer urgir em ti como desafio para o futuro?
Na actuação da subsidiariedade, independentemente de todas as coisas já realizadas, estamos só no princípio de um caminho. Porque a subsidiariedade é realmente um princípio capaz de subverter a própria fundamentação do estatalismo de direita e de esquerda tal como o herdámos. Ainda não perdi vontade de participar nesta batalha, e portanto, em Itália ou na Lombardia, ou onde quer que me seja possível, pretendo continuá-la.
Depois de tanto empenho público, primeiro no Movimento Popular, depois na Europa e na Lombardia, em que é que sentes que tens que mudar?
Itália está objectivamente pior hoje do que há 24 anos quando eu comecei. A Europa perdeu muitas das suas dimensões ideais e independentemente da queda do muro de Berlim (facto muito positivo), o mundo não está mais seguro; pelo contrário, os cristãos no mundo continuam a ser objecto de hostilidades, e às vezes de verdadeiras perseguições. É este o campo de acção. O que sinto que devo mudar em mim é saber reunir cada vez melhor à minha volta e à volta dos outros amigos, outros operadores, um povo, porque esta responsabilidade por ser levada a cabo só com um envolvimento profundo, vasto e apaixonado.