quinta-feira, 21 de abril de 2005

Nossa Senhora na História de Portugal

“Gostei muito deste livro, gostava que todas as crianças de Portugal o lessem para aprenderem a amar cada vez mais Nossa Senhora”.
Irmã Lúcia (Vidente de Fátima)

Alguns autores estreantes na escrita para crianças, como D.Luiz Flávio Cáppio, Bispo da Barra, a jornalista Aura Miguel, o Professor João César das Neves e SS.AA.RR. os Duques de Bragança, juntaram-se a nomes grandes da literatura infantil, como Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, e Maria Teresa Maia Gonzalez, num inovador projecto que envolveu quinze autores, quinze museus lisboetas e quinze instituições de solidariedade social.
O livro de contos “Nossa Senhora na História de Portugal”, com introdução do Prof. Dr. Joaquim Veríssimo Serrão, Presidente da Academia Portuguesa de História, foi apresentado no Museu dos Coches, em Lisboa, pelo Bispo Auxiliar de Lisboa, D.Manuel Clemente.

NOSSA SENHORA NA HISTÓRIA DE PORTUGAL
Coordenação de Thereza Ameal
Autores – Aires de Campos, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Ângela Sarmento, António O. Bettencourt , Aura Miguel, D.Duarte de Bragança, Inês Dentinho, D.Isabel de Bragança, João César das Neves, D.Luiz Flávio Cappio Bispo da Barra, Madalena Fontoura, Maria João da Câmara, Maria Reis, Maria Teresa Maia Gonzalez, Thereza Ameal
Introdução: Joaquim Veríssimo Serrão (Presidente da Academia Portuguesa de História)
LUCERNA/PATRIS DATA DE PUBLICAÇÃO – 21 DE ABRIL DE 2005
PREÇO - €12,45 . 120 págs . ISBN – 972-8835-10-8 . Dimensão – 20x20 cm

“Numa prosa límpida, pela mestria pedagógica e beleza de estilo, os autores deste livro recordam a multissecular comunhão entre a formação de Portugal e os valores eternos do Cristianismo. Não pode a divulgação da História erguer-se sem o apelo aos valores do espírito.”
Joaquim Veríssimo Serrão in Prefácio


A presença de Nossa Senhora na História de Portugal ultrapassa muito o episódico ou acessório. De facto, somos “terra de Santa Maria”, por razões de berço e de alma. Nascidos num território que também se chamava assim, nunca mais houve época ou circunstância nacionais que não encontrassem na relação com a Mãe de Jesus Cristo alguma origem ou interpretação. De Cárquere e Alcobaça, para a primeira dinastia; da Batalha e do Carmo para a segunda; da Atalaia e da Conceição para a Restauração; da Rocha, do Sameiro, ou de Fátima para a época contemporânea… Além destas, outras invocações marianas se juntariam, infindas. Tão infindas como a alma portuguesa, que os contos deste livro ajudam a revelar. Como de novo precisamos.

D. Manuel Clemente

terça-feira, 19 de abril de 2005

Habemus Papam

2005.04.19

“Os senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador da vinha do Senhor”, disse o Cardeal Joseph Ratzinger nas suas primeiras palavras como Papa.
Aparecendo ao balcão sobre a Basílica de São Pedro, Bento XVI abençoou a multidão que o saudava efusivamente gritando “Bento, Bento, Bento!”.
"Consola-me o facto de que o Senhor sabe trabalhar e actuar com instrumentos insuficientes e, sobretudo, confio nas vossas orações. Na alegria do Senhor ressuscitado, confiados na sua ajuda permanente, sigamos adiante. O Senhor nos ajudará. Maria, sua santíssima Mãe, está do nosso lado", assegurou aos fiéis.
"Obrigado!", disse ainda.

Bênção Apostólica "Urbi et Orbi" (19 de abril de 2005)


Amados Irmãos e Irmãs,

Depois do grande Papa João Paulo II, os Senhores Cardeais elegeram-me, simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor.

Consola-me saber que o Senhor sabe trabalhar e agir também com instrumentos insuficientes. E, sobretudo, recomendo-me às vossas orações.

Na alegria do Senhor Ressuscitado, confiantes na sua ajuda permanente, vamos em frente. O Senhor ajudar-nos-á. Maria, sua Mãe Santíssima, está connosco. Obrigado!

segunda-feira, 11 de abril de 2005

A intercessão de São João Paulo Magno, JCdasNeves, DN050411

A intercessão de São João Paulo Magno
João César das Neves
DN 050411
Nestes dias muito se fala do Papa peregrino, ecuménico,reformador, do Papa dos
jovens, dos pobres, da vida. Mas,além de tudo isso, a morte de João Paulo II marca o termo do concílio Vaticano II. O seu imponente pontificado consistiu apenas na encarnação, institucionalização, normalização e plenitude desse ensinamento. Dentro de dias começará para a Igreja Católica a era pós-concílio. O próximo Papa, o
primeiro do último meio-século que não foi padre conciliar, lançará a nova fase da Igreja.
A situação dos cristãos em meados do século XX era muito difícil. O problema não vinha das perseguições e perda de fiéis, pois o "pequenino rebanho" (Lc 12, 32) vivia habituado a isso. A dificuldade estava em, desta vez, a Igreja se sentir culpada por essas circunstâncias. Por isso estava desanimada,complexada, à defesa.
Esta não era a primeira vez que o fenómeno existia. Era a segunda. No século XVI viveu-se um forte ataque de cristãos fervorosos contra o que consideravam a imoralidade, abusos e perversão eclesiais. O resultado foi a terrível
Reforma, que dividiu dolorosamente a Igreja e a Europa por 200 anos. Desta segunda vez as acusações não eram tão graves. Não se tratava de corrupção moral ou vícios institucionais, mas de desadequação da linguagem e métodos aos tempos modernos. A casa estava bem fundada; só precisava abrir as janelas.
Nos dois casos, a solução foi conciliar. O século XVI viu o grandioso concílio de Trento (1545-1563), aplicado por um santo, São Pio V (Papa de 1566-1572), inverter a situação.
"Em 1590 cerca de metade da massa terrestre europeia estava sob o controlo de Governos protestantes e/ou da cultura protestante; em 1690 o número era apenas cerca
de um quinto." (MacCulloch, D. Reformation, Penguin Books, Londres, 2003, p.669). Quatro séculos depois, o concílio Vaticano II (1962-1965) realizou uma reforma equivalente aplicada por quatro santos João, Paulo e João Paulo.
O impulso apostólico e pastoral de João Paulo II mudou completamente o estado de espírito, atitude e ânimo dos fiéis. O Papa deixa uma Igreja jovem e ordenada, empenhada, alegre e confiante.
Com a doutrina esclarecida no catecismo (1992), alimentada pelo jubileu (2000), pelo rosário (2003), pela eucaristia (2005), vive num mundo consagrado ao Imaculado Coração de Maria (1984). A receita vinha do primeiro momento "Não tenhais medo!
Abri, mais, escancarai as portas a Cristo! Abri ao seu poder salvador as portas dos Estados, dos sistemas económicos e políticos, dos extensos campos da cultura, da civilização e do desenvolvimento" (homilia na inauguração do pontificado, 22 de Outubro de 1978).
Hoje ninguém pode negar a enorme transformação do Vaticano II, semelhante à de Trento. Mas, por muito que se mude, ainda há quem queira mais. A História repete-se e os críticos do Papa pretendem alterações que transformariam a Igreja Católica numa seita protestante. Isto não é insulto, mas mera constatação. Com todo o respeito, nota-se que os propósitos dos opositores (descentralização papal e fim da cúria, casamento de padres e ordenação de mulheres, liberdade para aborto, homossexualidade, divórcio, preservativo, etc.) são aspectos que distinguem as comunidades protestantes e, com os avanços do diálogo ecuménico, quase os únicos que as distinguem.
Os críticos chamam aos fiéis "tradicionalistas" e "conservadores".
Bem podiam chamar-lhes "católicos" e a si próprios "protestantes".
As tarefas do novo Papa são gigantescas. A descristianização e decadência europeias, a crise de vocações no Ocidente, o desafio gnóstico e esotérico, a evangelização das potências nascentes China, Índia, Islão, os dramas sociais nas católicas América Latina e África, a luta pela vida e família, etc. São problemas que se podem dizer impossíveis de resolver.
Como sempre, a Igreja não tem capacidade humana de subsistir. Só a presença do Espírito Santo dá vida ao corpo místico de Jesus Cristo, que conta agora com a poderosa intercessão de São João Paulo Magno.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 10 de abril de 2005

Fé e Razão em João Paulo II

João Carlos Espada
In: Expresso, 050410
Um Papa extraordinário.
Uma semana depois da morte de João Paulo II, já tudo foi dito sobre esse Papa extraordinário que conquistou o respeito e a admiração do mundo. Em modesta homenagem, permito-me apenas recordar um aspecto menos realçado: o combate intelectual de João Paulo II contra o niilismo contemporâneo.
Foi Karl Popper quem primeiro me chamou a atenção para o facto, à primeira vista inesperado, de ser o Papa uma das poucas vozes a defender a razão no mundo (pós) moderno que nos rodeia.
A mesma ideia tem sido realçada por George Weigel, o biógrafo norteamericano do Papa (Testemunho de Esperança, Bertrand, 2000). No seu estilo acutilante e divertido, George Weigel gosta de dizer que «Voltaire ficaria chocado com a ideia de que o Papa e a Igreja católica pudessem ser os defensores dos direitos humanos e da razão».
Contra a negação da verdade objectiva O tema foi particularmente crucial na Encíclica «Veritatis Splendor», de 1993, e foi retomado na Carta Encíclica «A Fé e a Razão», de 1998. Esta Encíclica afirma que «um dos dados mais salientes da nossa situação actual consiste na ‘crise de sentido’ (gerada por) esta dúvida radical que facilmente leva a um estado de cepticismo ou indiferença ou às diversas expressões de niilismo» (págs. 108-109). O niilismo caracteriza-se por uma «rejeição de qualquer fundamento e, simultaneamente, a negação de toda a verdade objectiva»(pág.120).
Quais são as consequências do niilismo? «Antes mesmo de estar em contraste com as exigências e os conteúdos próprios da palavra de Deus, (o niilismo) é a negação de toda a verdade objectiva... Deste modo, abre-se espaço à possibilidade de apagar, da face do homem, os traços que revelam a sua semelhança com Deus, conduzindo- o progressivamente a uma destrutiva ambição de poder ou ao desespero da solidão» (pág. 120). Este foi, em meu entender, precisamente o destino do niilismo germânico na viragem do século XIX para o XX: nas ruínas da razão e do sentido deixadas pelas investidas de Nietzsche e seus seguidores, cresceu o irracionalismo nacional-socialista, ou a ambição crua do poder nu.
Do racionalismo dogmático ao relativismo dogmático Mas donde surgiu, por sua vez, a investida niilista? Karl Popper pensava que ela surgira das debilidades próprias do racionalismo dogmático, do racionalismo excessivo - que Nietzsche detectara, caindo na filosofia do desespero. E Popper antecipara que, quando o racionalismo dogmático do marxismo caísse por terra, uma espécie de simbiose niilista entre Marx e Nietzsche passaria a ser o novo «ópio dos intelectuais», ou a nova «religião secular». Da confiança cega na certeza da Razão, passar-se-ia à certeza cega na impotência da razão.
João Paulo II não poupou «o espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores». E recordou que «diversas formas de humanismo ateu... não tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando base a projectos que desembocaram, no plano político e social, em sistemas totalitários que foram traumáticos para a humanidade»(págs. 64- 65).
«Como consequência da crise do racionalismo», prossegue a Encíclica, «apareceu o niilismo. Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo fascínio sobre os nossos contemporâneos...
Na interpretação niilista, a existência é somente uma oportunidade para sensações e experiências onde o efémero detém o primado» (págs. 65-66).
À beira do precipício.
Face ao niilismo, João Paulo II afirmou que «a necessidade de um alicerce para construir a existência pessoal e social faz-se sentir de maneira premente, principalmente quando se é obrigado a verificar o carácter fragmentário de propostas que elevam o efémero ao nível do valor, anulando assim a possibilidade de se alcançar o verdadeiro sentido da existência.
Deste modo, muitos arrastam a sua vida quase até à beira do precipício, sem saber o que os espera»(págs. 13-14).
Por isso, considerou «muito importante que, no contexto actual, alguns filósofos se façam promotores da descoberta do papel determinante da tradição para uma forma correcta de conhecimento. De facto, o recurso à tradição não é mera evocação do passado; constitui, sobretudo, o reconhecimento dum património cultural que pertence a toda a humanidade.
Poder-se-ia mesmo dizer que somos nós que pertencemos à tradição, e por isso não podemos dispor dela a nosso bel-prazer. É precisamente este enraizamento na tradição que hoje nos permite poder exprimir um pensamento original, novo e aberto ao futuro» (pág. 116).
No centro da mensagem papal parece estar precisamente o apelo a «recuperar quer a profunda tradição teológica... quer a tradição perene daquela filosofia que, pela sua real sabedoria, conseguiu superar as fronteiras do espaço e do tempo» (pág. 116).
Fé e Razão
Pessoalmente, entendo assim a mensagem do Papa: se a razão abdicar da arrogância fatal que a levou ao racionalismo dogmático e, a seguir, ao desespero niilista, ela pode e deve retomar a legítima ambição da busca, sempre inacabada, do bem e da verdade. Uma razão crítica como esta só pode trabalhar em diálogo com as tradições, designadamente com a tradição teológica e metafísica, e com as propostas da Fé, reconhecendo a autonomia mútua. Daqui renascerá «o ponto de encontro (ou o terreno comum de entendimento e diálogo, pág. 136) entre as culturas e a fé cristã, o espaço de entendimento entre crentes e não crentes » (pág .106). Mas, para que esse diálogo possa ter lugar, é indispensável que a filosofia se liberte do subjectivismo e relativismo desenfreados para onde é empurrada pelo niilismo, produto do fracasso merecido do racionalismo dogmático.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Homilia do Cardeal Ratzinger na missa exequial do Papa João Paulo II

Homilia do Cardeal Joseph Ratzinger

MISSA EXEQUIAL

PELO DEFUNTO PONTÍFICE ROMANO

JOÃO PAULO II

Praça de São Pedro

Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

"Segue-Me", diz o Senhor ressuscitado a Pedro, como última palavra a este discípulo, escolhido para apascentar as suas ovelhas. "Segue-Me" – esta palavra lapidar de Cristo pode considerar-se a chave para compreender a mensagem que surge da vida do nosso chorado e amado Papa João Paulo II, cujos restos mortais hoje depositamos na terra como semente de imortalidade – o coração cheio de tristeza, mas também de jubilosa esperança e profunda gratidão.

São estes os sentimentos do nosso espírito, Irmãos e Irmãs em Cristo, presentes na Praça de S. Pedro, nas ruas adjacentes e em vários outros locais da cidade de Roma, povoada nestes dias por uma imensa multidão silenciosa e orante. A todos cumprimento cordialmente. Também em nome do Colégio dos Cardeais, desejo endereçar a minha atenção deferente aos Chefes de Estado, de Governo e às delegações dos vários Países. Cumprimento as Autoridades e os Representantes das Igrejas e Comunidades Cristãs, bem como das diversas religiões.

Cumprimento ainda os Arcebispos, os Bispos, os sacerdotes, os religiosos, as religiosas e todos os fiéis provenientes de todos os Continentes; de modo especial os jovens, que João Paulo II gostava de definir como futuro e esperança da Igreja. A minha saudação estende-se, além disso, a quantos por toda a parte do mundo estão unidos a nós através da rádio e da televisão nesta participação coral no solene rito de despedida do amado Pontífice.

Segue-Me – enquanto jovem estudante Karol Woityła era entusiasta da literatura, do teatro, da poesia. Trabalhando numa fábrica de químicos, rodeado e ameaçado pelo terror nazi, sentiu a voz do Senhor: Segue-Me! Neste contexto muito particular começou a ler livros de filosofia e de teologia, mais tarde entrou no seminário clandestino criado pelo Cardeal Sapieha e depois da guerra pôde completar os seus estudos na faculdade teológica da Universidade Jaghellonica de Cracóvia. Muitas vezes, nas suas cartas aos sacerdotes e nos seus livros autobiográficos, falou-nos do seu sacerdócio, para o qual foi ordenado a 1 de Novembro de 1946. Nestes textos interpreta o seu sacerdócio particularmente a partir de três palavras do Senhor. Em primeiro lugar esta: "Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça " (Jo 15,16). A segunda palavra é: "O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas" (Jo 10,11). E finalmente: "Assim como o Pai me amou, assim Eu vos amei. Permanecei no meu amor" (Jo 15,9). Nestas três palavras vemos toda a alma do nosso Santo Padre. Foi realmente por toda a parte e incansavelmente para dar fruto, um fruto que permanece. "Levantaivos, vamos!", é o título do seu penúltimo livro. "Levantaivos, vamos!" – com estas palavras despertou-nos duma fé cansada, do sono dos discípulos de ontem e de hoje.

"Levantai-vos, vamos!" diz-nos também hoje. O Santo Padre foi, ainda, sacerdote até ao extremo, porque ofereceu a sua vida a Deus pelas suas ovelhas e por toda a família humana, numa entrega quotidiana ao serviço da Igreja, sobretudo nas difíceis provações dos últimos meses. Deste modo tornou-se uma coisa só com Cristo, o bom pastor que ama as suas ovelhas. E, por fim, "permanecei no meu amor": O Papa que procurou o encontro com todos, que teve uma capacidade de perdão e de abertura de coração para com todos, diz-nos, também hoje, com estas palavras do Senhor: Permanecendo no amor de Cristo aprendemos, na escola de Cristo, a arte do verdadeiro amor.

Segue-Me! Em Julho de 1958 começa para o jovem sacerdote Karol Woityla uma nova etapa no caminho com o Senhor e atrás do Senhor. Karol dirigira-se como habitualmente, com um grupo de jovens apaixonados pela canoagem, aos lagos Masuri para umas férias em conjunto. Mas levava consigo uma carta que o convidava a apresentar-se ao Primaz da Polónia, Cardeal Wyszynski e era capaz de adivinhar o objectivo do encontro: a sua nomeação como Bispo Auxiliar de Cracóvia. Deixar o ensino académico, deixar esta estimulante comunhão com os jovens, deixar o grande campo da discussão intelectual para conhecer e interpretar os mistério da criatura homem, para tornar presente no mundo de hoje a interpretação cristã do nosso ser – tudo isto devia parecer-lhe como um perder-se a si mesmo, perder até quanto se tornara a identidade humana deste jovem sacerdote.

Segue-Me – Karol Woityła aceitou, sentindo no chamamento da Igreja a voz de Cristo. E depois deu-se conta de quão verdadeira é a palavra do Senhor: "Quem procurar salvar a vida há-de perdê-la; e quem a perder, há-de conservá-la" (Lc 17,33). O nosso Papa – todos sabemos – nunca quis salvar a sua vida, guardá-la para si; quis dar-se a si mesmo sem reservas, até ao último momento, por Cristo assim como também por nós. Precisamente desse modo pôde experimentar que tudo o que entregara nas mãos do Senhor regressou dum modo novo: o amor à palavra, à poesia, às letras foi uma parte essencial da sua missão pastoral e deu uma nova frescura, uma nova actualidade, uma nova atracção ao anúncio do Evangelho, até mesmo quando este é sinal de contradição.

Segue-Me! Em Outubro de 1978 o Cardeal Woityła ouve de novo a voz do Senhor. Renova-se o diálogo com Pedro relatado no Evangelho desta celebração: "Simão filho de João, tu amas-Me? Apascenta as minhas ovelhas!" à pergunta do Senhor: Karol, tu amas-Me?, o Arcebispo de Cracóvia respondeu do fundo do seu coração: "Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que te amo". O amor de Cristo foi a força dominante no nosso amado Santo Padre; quem o viu rezar, quem o ouviu pregar, sabe-o. E assim, graças a este profundo enraizamento em Cristo conseguiu carregar um peso que ultrapassa as forças meramente humanas: Ser pastor do rebanho de Cristo, da sua Igreja universal. Não é este o momento de falar dos conteúdos ímpares deste Pontificado tão rico. Gostaria somente de ler duas passagens da liturgia de hoje, nas quais aparecem elementos centrais do seu anúncio. Na primeira leitura diz-nos São Pedro – e diz-nos o Papa com São Pedro: "Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável.

Enviou a sua palavra aos filhos de Israel, anunciando-lhes a Boa-Nova da paz, por Jesus Cristo, Ele que é o Senhor de todos" (Act 10,34-36). E, na segunda leitura, São Paulo – e com São Paulo o nosso Papa defunto – exorta-nos em alta voz: "Meus caríssimos e saudosos irmãos, minha alegria e minha coroa, permanecei assim firmes no Senhor, caríssimos" (Fl 4,1).

Segue-Me! Com o mandato de apascentar o seu rebanho, Cristo anunciou a Pedro o seu martírio. Com esta palavra conclusiva e que resume o diálogo sobre o amor e sobre o mandato de pastor universal, o Senhor evoca um outro diálogo, que teve lugar no contexto da última ceia. Aqui Jesus tinha dito: "Para onde Eu vou, vós não podeis vir".

Pedro disse-Lhe: "Senhor, para onde vais?". Jesus respondeu- lhe: "Para onde eu vou, não podes tu agora seguir-Me, mas seguir-Me-ás mais tarde" (Jo 13,33.36). Jesus da ceia vai para a cruz, vai para a ressurreição – entra no mistério pascal; Pedro não pode segui-Lo ainda. Agora – depois da ressurreição – chegou este momento, este “mais tarde”.

Apascentando o rebanho de Cristo, Pedro entra no mistério pascal, vai para a cruz e a ressurreição. O Senhor di-lo com estas palavras: "… quando eras mais novo... ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde tu não queres" (Jo 21,18). No primeiro período do seu Pontificado o Santo Padre, ainda jovem e cheio de forças, guiado por Cristo ia até aos confins do mundo.

Mas depois entrou cada vez mais na comunhão dos sofrimentos de Cristo, cada vez mais compreendeu a verdade das palavras: "Outro te cingirá…". E precisamente nesta comunhão com o Senhor sofredor anunciou incansavelmente e com renovada intensidade o Evangelho, o mistério do amor que vai até ao extremo (cf. Jo 13,1).

Ele interpretou por nós o mistério pascal como mistério da divina misericórdia.

Escreve no seu último livro: O limite imposto ao mal "é, definitivamente, a divina misericórdia" ("Memória e Identidade", p. 70). E reflectindo sobre o atentado diz: "Cristo, sofrendo por todos nós, conferiu um novo sentido ao sofrimento; introduziu-o numa nova dimensão, numa nova ordem: a do amor… é o sofrimento que queima e consome o mal com a chama do amor e retira até do pecado um multiforme florescimento de bem" (p. 199). Animado por esta visão, o Papa sofreu e amou em comunhão com Cristo e por isso a mensagem do seu sofrimento e do seu silêncio foi tão eloquente e fecundo.

Divina Misericórdia: O Santo Padre encontrou o reflexo mais puro da misericórdia de Deus na Mãe de Deus. Ele, que perdera a mãe em tenra idade, amou muito mais a Mãe divina. Ouviu as palavras do Senhor crucificado como se lhe fossem realmente ditas a ele pessoalmente: "Eis a tua mãe!".

E fez como o discípulo predilecto: acolheu-a no íntimo do seu ser (eis ta idia: Jo 19,27) – Totus tuus. E com a mãe aprendeu a conformar-se a Cristo.

Para todos nós permanece inesquecível como neste último domingo de Páscoa da sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, apareceu uma vez mais à janela do Palácio Apostólico e deu pela última vez a bênção "Urbi et orbi".

Podemos estar certos de que o nosso amado Papa está agora à janela da casa do Pai, vê-nos e abençoa-nos. Sim, abençoenos, Santo Padre. Nós confiamos a tua querida alma à Mãe de Deus, tua Mãe, que te guiou todos os dias e te guiará agora à glória eterna do Seu Filho, Jesus Cristo nosso Senhor. Ámen.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Líções do crepúsculo de um pontífice, George Weigel, Público

Lições do crepúsculo de um pontífice

Cinco dias antes de ter deixado a Polónia para o conclave que o elegeria Papa, o cardeal Karol Wojtyla assistiu a uma celebração do vigésimo aniversário da sua consagração como bispo. A residência em Cracóvia dos seus amigos Gabriel e Bozena Turowski estava decorada com dezenas de fotografias tiradas, ao longo de um quarto de século, de Wojtyla a pedir boleia, a esquiar e a andar de caiaque com os Turowskis e outros amigos laicos, que ainda chamavam ao cardeal "Wujek" (tio), o nome de guerra que lhe tinham dado quando era um jovem capelão na Polónia estalinista. Por cima das fotografias estava um dístico caseiro a dizer "Wujek continuará a ser Wujek" - precisamente o que Wojtyla dissera aos amigos quando regressara a uma viagem de caiaque interrompida em 1958 pela notícia de que fora nomeado bispo.
Mais de um quarto de século depois, o homem que o mundo conhece como João Paulo II está ainda a ser Wujek. Durante estas semanas da sua doença, todas as espécies de perguntas foram feitas. Viria o Papa a considerar a abdicação? O que é que aconteceria se ficasse gravemente incapacitado durante um longo período de tempo?
Estas questões não são sem interesse, mas falham o ponto mais importante do drama. O mundo está a ver um homem a viver, até ao fim, uma das convicções que modelaram a sua vida e o seu impacto na história: a convicção de que a luz da Páscoa é sempre precedida pela escuridão da Sexta-Feira Santa, não só no calendário, mas no reino do espírito.
A cultura ocidental contemporânea não se casa bem com o sofrimento. Evitamo-lo, se possível. Sequestramo-lo quando se torna inevitável. Quantos de nós morreremos em casa? Abraçar o sofrimento é um conceito que nos é estranho. E, no entanto, o sofrimento abraçado em obediência à vontade de Deus está no centro da cristandade. O Cristo cuja paixão mais de 1500 milhões de cristãos comemoraram há pouco não está retratado nos Evangelhos como alguém a quem o sofrimento tenha meramente acontecido - um profeta com a sua dose típica de má sorte. O Cristo dos Evangelhos abraça o sofrimento como o seu destino, a sua vocação - e é recompensado por esse sacrifício na Páscoa.
É isso que João Paulo II - não um velho teimoso mas um verdadeiro discípulo cristão - tem vindo a fazer neste último mês: a ser testemunho da verdade de que o sofrimento encarado com obediência e amor pode ser redentor.
Há dias, em Roma, quando perguntei ao cardeal nigeriano Francis Arinze o que é que esta fase do notável pontificado de João Paulo II significava, o cardeal sugeriu que, do seu leito de hospital, o Papa estava a colocar algumas graves questões na agenda mundial: o sofrimento significa alguma coisa, ou é simplesmente um absurdo? O sofrimento contribui de algum modo para o resto de nós? Existe dignidade na velhice?
Na mente do cardeal Arinze o exemplo de João Paulo II oferece uma resposta a estas perguntas. Sim, o sofrimento pode ter significado. Sim, esse sofrimento pode-nos ensinar: recorda-nos que não podemos controlar as nossas vidas, e estimula uma compaixão que nos enobrece. Para além disso, sugeriu o cardeal, João Paulo II, na sua fraqueza e sofrimento, foi um tremendo encorajamento para os idosos, os doentes, os diminuídos e os moribundos, que encontram força e esperança no seu exemplo.
O mundo perdeu muito da história de Karol Wojtyla nos seus 26 anos como Papa porque o mundo tenta compreendê-los em termos políticos, como apenas outro jogador na cena global. Não há dúvida de que João Paulo II tem sido o Papa politicamente mais influente desde há séculos, mas isso não é o que ele é no mais profundo do seu ser. As suas recentes hospitalizações e a sua luta para estar à altura do compromisso que assumiu ao ser eleito em 1978 deve recordar a toda a gente que este homem é, acima de tudo, um pastor cristão que vai desafiar-nos até ao fim com a mensagem da cruz - a mensagem da Sexta-Feira Santa e da Páscoa.
Tal como Hanna Suchocka, a antiga primeira-ministra polaca, me disse recentemente, o Papa "está a viver a sua via sacra". Não é algo que o mundo, desde há muito tempo, tenha visto um Papa fazer. Devemos reconhecê-lo pelo que ele é, e estar gratos pelo exemplo.

O escritor é senior fellow no Centro de Ética e Política Pública e autor de Testemunho de Esperança: a biografia do Papa João Paulo II