domingo, 30 de dezembro de 2007

O estranho facto de uma celebração pela família

No passado dia 30 de Dezembro, na Plaza Colón, em Madrid, centenas de milhares de pessoas (um milhão e meio de pessoas segundo os organizadores) participaram no encontro “Por la familia cristiana” presidido pelo cardeal de Madrid, Rouco Varela e que contou com uma mensagem especial de Bento XVI no decorrer do Angelus ao meio dia a partir da praça de S. Pedro.

A estranheza da enorme adesão é comentada neste artigo pelo padre Julián Carrón, presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação, publicado no jornal El Mundo de sábado passado.

O estranho facto de uma celebração pela família

Julián Carrón, El Mundo, 071229

Estamos perante um facto estranho. Indiscutível. A convocatória para a celebração deste domingo na Plaza Colón de Madrid suscitou um movimento de adesão em muitíssimas pessoas que quiseram reunir-se gozosas para expressar publicamente o bem que significa para eles a família. Não deveríamos menosprezar esta resposta.

Desde há décadas que continuamente recebemos mensagens que vão na direcção oposta: muitas séries de televisão, filmes e muita literatura convidam ao contrário. Ante esse impressionante emprego de meios, o normal seria que a família tivesse deixado de interessar. Porém, há algo que temos que reconhecer quase surpreendidos: essa impressionante maquinaria não mostrou ser mais potente que a experiência elementar que cada um de nós viveu na sua família, a experiência de um bem. Um bem de que estamos agradecidos e que queremos transmitir a nossos filhos e partilhar.

De onde nasceu este bem do qual estamos tão agradecidos? Da experiência cristão. Nem sempre foi assim, como testemunha a reacção dos discípulos a primeira vez que ouviram Jesus falar do matrimónio. “ E aproximaram-se d’Ele alguns fariseus para o porem à prova, dizendo: “É lícito a um homem divorciar-se de sua mulher por qualquer motivo?”. E, respondendo, Ele disse: “Não lestes que, no princípio, aquele que os criou os fez homem e mulher?”. E acrescentou: “Por esta razão o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne. Por conseguinte, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu nenhum homem pode separar”. Os discípulos disseram: “ Se é assim a relação do homem com a mulher, não convém casar-se (Mt 19, 3-6,10).

Não temos, pois, que nos surpreender.

O mesmo que a tantos de nossos contemporâneos e muitas vezes mesmo a nós próprios, aos discípulos também lhes parecia impossível. Só a graça de Jesus Cristo tornou possível viver a natureza original da relação entre homem e mulher.

É importante olhar para esta origem para poder responder aos desafios que temos que enfrentar. Os católicos não são diferentes dos outros; muitos de nós temos problemas na vida familiar.

Constatamos com dor como entre nós há numerosos amigos que não perseveram perante as numerosas dificuldades externas e internas que atravessam. Mesmo entre nós não nos basta saber a verdadeira doutrina sobre o matrimónio para poder resistir a todas as tentações da vida. Recorda-nos o Papa: “As boas estruturas ajudas, mas por si sós não bastam. O homem nunca pode ser redimido somente a partir do exterior (Spe Salvi, 25).

Necessitamos fazer nosso o que recebemos para poder vivê-lo na nova situação que se nos depara, como nos convida Goethe: “O que herdaste dos teus antepassados/deves reconquistá-lo de novo/para verdadeiramente o possuir”.

Para reconquistar de novo a experiência da família necessitamos aprender que “a questão da justa relação entre o homem e a mulher funde as suas raízes na essência mais profunda do ser humano e só pode encontrar a sua resposta a partir desta”, como disse Bento XVI. Com efeito, a pessoa amada revela-nos o “mistério eterno do nosso ser”.

Nada nos desperta tanto e nos faz tão conscientes do desejo de felicidade que nos constitui como o ser querido. A sua presença é um bem tão grande que nos faz cair na conta da profundidade e verdadeira dimensão deste desejo: um desejo infinito. As palavras de Cesare Pavese sobre o prazer podem aplicar-se à relação amorosa: “O que um homem busca no prazer é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de conseguir esta infinitude”. Um eu e um tu limitados suscitam-se reciprocamente um desejo infinito e descobrem-se lançados pelo seu amor a um destino infinito. Nesta experiência desvela-se a ambos a sua vocação.

Por isso os poetas viram na formosura da mulher um “raio divino”, quer dizer, um sinal que remete mais além, para outra coisa maior, divina, incomensurável em realação à sua natureza limitada. A sua beleza grita ante nós: “Não sou eu. Eu sou só um sinal. Olha! Olha! Quem te recordo?”. Com estas palavras o génio de C. S. Lewis sintetizou a dinâmica do sinal da qual a relação entre o homem e a mulher constitui um exemplo comovedor. Se não compreende tla dinâmica, o homem sucumbe ao erro de deter-se na realidade que suscitou o desejo. Então a relação acaba por tornar-se insuportável.

Como dizia Rilke, “este é o paradoxo do amor entre o homem e a mulher: dois infinitos encontram-se com dois limites. Dois infinitamente necessitados de ser amados, encontram-se com duas frágeis e limitadas capacidades de amar. E é só no horizonte de um amor maior que não se devoram em pretensão, nem se resignam, antes caminham juntos até uma plenitude da qual o outro é sinal”.

Nesta situação pode-se compreender a proposta inaudita de Jesus para que a mais bela experiência da vida, enamorar-se, não decaia até se converter numa pretensão sufocante. “Quem ama a seu pai e sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; o que ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que tentar salvar a sua vida, perdê-la-á; aquele que a perder por minha causa, reencontrá-la-á” (Mt 10, 34-37, 39-40). Com estas palavras Jesus desvela o alcance da esperança que a sua pessoa constitui para quem o deixa entrar na sua vida. Não se trata de uma ingerência nas relações mais íntimas, mas da maior promessa que o homem alguma vez pôde receber: sem amar a Cristo – a Beleza feita carne – mais do que à pessoa amada essa relação murchará. Ele é a verdade dessa relação, a plenitude a que os dois mutuamente se remetem na qual a sua relação se cumpre. Só permitindo-Lhe entrar nela é possível que a mais bela relação da vida não decaia e, com o tempo, morra. Nós sabemos bem que todo o ímpeo com que nos enamoramos não basta para impedir que o amor se oxide com o tempo. Tal é a audácia da sua pretensão.

Aparece então em toda a sua importância a tarefa da comunidade cristã: favorecer uma experiência de cristianismo para a plenitude da vida de cada um. Só no âmbito desta relação maior é possível não ser devorado, porque cada um encontra nela o seu cumprimento humano, surpreendendo em si uma capacidade de abraçar o outro na sua diferença, de gratuidade sem limites, de perdão sempre novo. Sem comunidades cristãs capazes de acompanhar e sustentar os esposos na sua aventura será difícil, se não impossível que a culminem com êxito. Eles, por sua vez, não se podem eximir do trabalho de uma educação da qual são os protagonistas principais, pensando que pertencer à comunidade eclesial os livra das dificuldades. Deste modo desvela-se plenamente a vocação matrimonial: caminhar juntos até ao único que pode responder à sede de felicidade que o outro desperta constantemente em mim, até Cristo.

Assim se evitará ir, como a Samaritana, de marido em marido (Jo 4, 18), sem conseguir apagar a sua sede. A consciência da sua incapacidade para resolver por si mesma aquele drama, nem sequer mudando cinco vezes de marido, fê-la perceber a Jesus como um bem tão desejável que não pode evitar gritar: “Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede (Jo 4,15).

Sem a experiência de plenitude humana que faz possível Cristo, o ideal cristão do matrimónio reduz-se a algo impossível de realizar. A indissolubilidade do matrimónio e a eternidade do amor aparecem como quimeras inalcançáveis. Estas, na realidade, são os frutos de uma intensidade da experiência de Cristo, tão gratuitos que aparecem aos mesmos esposos como uma surpresa, como o testemunho de que “para Deus nada é impossível”. Só uma experiência assim pode mostrar a racionalidade da fé cristã, como uma realidade totalmente correspondente ao desejo e à exigência do homem, também no matrimónio e na família.

Uma relação vivida assim constitui a melhor proposta educativa para os filhos. Através da beleza da relação de seus pais são introduzidos, quase por osmose, no significado da existência. Na estabilidade dessa relação a sua razão e a sua liberdade são constantemente solicitadas a não perder semelhante beleza. É a mesma beleza, resplandecente no testemunho dos esposos cristãos, que os homens e mulheres do nosso tempo necessitam de encontrar

JUlian Carrón é o presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Spe Salvi


Spe Salvi

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Concursos abertos

sábado, 17 de novembro de 2007

Santa Isabel da Hungria (1207-2007)


Igreja celebra os 800 anos do nascimento de uma das mulheres mais extraordinárias da Idade Média
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1. Santa Isabel da Hungria nasceu em 1207 e morreu em 1231, com 24 anos vividos com grande intensidade. Isabel aparece nas páginas da história como Princesa da Hungria, Grande Condessa da Turíngia e Penitente Franciscana. A sua memória litúrgica é no dia 17 de Novembro. Filha do Rei André II e de Gertrudes de Andechs-Merano, casou-se aos catorze anos com Luís IV, Landgrave ou Grande Conde da Turíngia. Teve três filhos: Germano, o herdeiro do trono, Sofia e Gertrudes. Ficou viúva aos 20 anos. Foi canonizada pelo Papa Gregório IX, em 1253. É tia-avó de Santa Isabel de Portugal.

2. Com a morte do marido, a Grande Condessa dá lugar à Irmã Penitente. Ela é a primeira figura feminina que mais genuinamente encarna o espírito penitencial de Francisco de Assis: fé profunda em Deus, vida humilde e serviço aos pobres e doentes. Está na origem da Ordem Terceira Franciscana, Secular e Regular. As Fontes Isabelinas evidenciam o paralelo entre Isabel e Francisco, nomeadamente na sua atitude perante os leprosos e outros doentes e necessitados, cuidando deles com muita alegria. A sua acção no mundo da saúde é uma das páginas mais belas da Igreja medieval. Concretizou na sua vida o ideal das obras de misericórdia. No exercício do cuidado justo aos mais vulneráveis (o seu director espiritual, numa Carta enviada ao Papa Gregório IX, testemunha a sua competência na arte de cuidar) descobre a sua realização pessoal, o seu caminho de santidade. O hospital que fundou em Marburgo (1229) e dedicou a S. Francisco é expressão mais acabada da sua forma de ser.

3. Com Santa Isabel da Hungria, a Igreja e a sociedade ficaram mais enriquecidas. Ao associar-se às celebrações do VIII Centenário Isabelino, o Papa Bento XVI, numa Carta dirigida ao Primaz da Hungria, refere-se à importância que Isabel tem na descoberta das raízes cristãs da Hungria e de toda a Europa, chama-lhe Santa "europeia". A Conferência da Família Franciscana, na Carta por motivo do mesmo VIII Centenário, depois de apresentar os traços fundamentais da fisionomia humana e espiritual de Isabel, conclui em forma de compromisso: "Se fizermos memória do seu nascimento, da sua personalidade singular e da sua sensibilidade é para que, através do conhecimento e da admiração, também nós nos tornemos instrumentos de paz e aprendamos a derramar um pouco de bálsamo sobre as feridas dos marginalizados do nosso tempo, a tornar mais humano o nosso ambiente e enxugar as lágrimas. Vamos difundir a bondade do coração lá onde, aos olhos humanos, parece faltar a misericórdia do Pai. O seu exemplo e a sua intercessão vão iluminar os nossos caminhos para o Pai, fonte de todo amor: o Bem, Todo o Bem, o Sumo Bem; serenidade e alegria".

4. Celebrar é progredir. Ficamos todos mais enriquecidos: a Família Franciscana, que celebra também os 800 anos da sua origem e considera Isabel um dos seus pilares na fundação; as instituições da Igreja e da sociedade que a têm como padroeira; e os que vêem em Isabel da Hungria uma referência fundamental para a sua forma de viver. Com a celebração desta data festiva, fica mais vivo o exemplo desta jovem, que viveu tão poucos anos, mas tão intensamente, que se tornou uma das mulheres mais extraordinárias da Idade Média.

Frei Hermínio Araújo, OFM

domingo, 11 de novembro de 2007

A CHEGADA DA MORTE


Maria José Nogueira Pinto | DN 2007.11.11

Com o fim das grandes escatologias, das perspectivas colectivas de um final feliz, religiosas ou científicas, como foi o caso do marxismo, os seres humanos viraram-se para um individualismo feroz, projectos próprios de felicidade e de futuro, despidos de transcendência, valores ou referências. Numa cultura caracterizada pelo valor máximo do sucesso pessoal, da beleza e da perfeição, o sofrimento e a morte, a percepção do outro e a referência da dignidade humana foram-se perdendo. 
Dizia-se que começávamos a morrer no dia em que nascíamos. Hoje, esta afirmação parece uma indelicadeza desnecessária. O mito dos recursos inesgotáveis da ciência e da tecnologia criou a convicção de ser possível eliminar todo o sofrimento e adiar indefinidamente a morte. Estas expectativas esbarram inevitavelmente com aquilo que é e será sempre a condição humana: uma condição forte e fraca, gloriosa e pungente, perfeita e imperfeita, criadora e refém, presa das vicissitudes da felicidade e do sofrimento. Mas finita, em qualquer circunstância.
O fim da vida, o tempo que precede uma morte anunciada, o último trecho do caminho, é um tempo de enorme perplexidade, em que tudo à nossa roda é posto bruscamente em causa. O sofrimento daquele doente terminal, criança, jovem, adulto, idoso, que devíamos partilhar numa total intimidade com ele, torna-se insustentável para nós. Compaixão? Não. Medo, incapacidade, cobardia. A compaixão só se sobrepõe quando procedemos ao exercício dificilíssimo de nos vermos no outro e, assim, fazer com ele, e como ele, essa derradeira caminhada.
Foi por tudo isto que nasceram os cuidados paliativos. Cuidados de Saúde que não se destinam a curar mas a retirar todo o sofrimento e incomodidade aos doentes terminais. Cuidados familiares, porque os que acompanham o doente também precisam de orientação, apoio para um luto que se vai fazendo. Cuidados indispensáveis a um novo conceito de morrer em casa, em vez de morrer só e perdido num hospital. São também o tributo do "estado da arte" ao respeito pela dignidade da vida humana, ainda na sua fase final, mesmo quando, de modo simplista e egoísta, alguns sugerem que já não vale a pena fazer mais nada.
Em saúde, qualquer direito que se crie é, por definição, universal. Esses direitos vão-se criando sempre que as necessidades encontram resposta na ciência. Se a resposta existe, quem dela necessita adquire o direito aos cuidados correspondentes. Sabemos que não é fácil conjugar o aumento das necessidades e a escassez de recursos pelo que se espera que os decisores saibam estabelecer as prioridades. Em Portugal, milhares de doentes e famílias que precisam de cuidados paliativos, que têm direito a aceder a esses cuidados, não obtêm resposta. Corremos o risco da chamada "morte a duas velocidades". Onde exista uma cultura paliativa que difunda um saber-fazer e um saber-ser haverá condições para um fim de vida digno e sereno. Onde tal não aconteça (e são muitos os casos...) estamos a substituir a possibilidade concreta de aliviar o sofrimento e dar serenidade, por um desesperado e solitário pedido de morte. A desigualdade de acesso aos cuidados paliativos é, por isso, inadmissível.
 Em 2006 foram estabelecidos objectivos e criadas metas e expectativas quanto à rede de paliativos. A concretização ficou muito aquém. Numa matéria que não se compadece com atrasos, e tão pouco com menos exigência de qualidade, que deve ser protegida de tentações experimentalistas e fugir de demagogia política, o desafio que se coloca ao Ministério da Saúde vai além de passar de 20 camas para 85 camas. "Quadruplicar" é um bom título, mas 85 camas num país onde pelo menos seis mil pessoas precisam destes cuidados, onde o apoio no domicílio se torna urgente, onde a rede não cresce por falta de acordos, onde os profissionais de saúde precisam e reclamam formação, um título serve para pouco.
O desafio é enorme. Quer pelos meios que envolve quer pelas decisões políticas a que obriga. É mais um exemplo do chamado dilema da escolha, tão frequente em Saúde. O desafio é que em Portugal, país da UE, neste século XXI, não exista, em breve, um único lugar onde se possa reclamar a morte, porque não se suporta mais sofrer. Um desafio colectivo e eminentemente civilizacional. 

sábado, 18 de agosto de 2007

Paridade

Diário de Notícias, 20070818
João Miranda

investigador em biotecnologia

A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. A paridade não é entendida apenas como um resultado expectável da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, mas, sobretudo como um objectivo a atingir através de medidas políticas. A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.

A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. Em média, as mulheres preferem trabalhar com pessoas, os homens com tecnologia, as mulheres são mais cautelosas, os homens gostam de correr riscos, os homens são melhores a matemática, as mulheres a línguas, as mulheres preferem empregos seguros no sector público, os homens estão mais dispostos a arriscar a sorte no sector privado. E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural. Mesmo que pequenas, as diferenças entre homens e mulheres são amplificadas por factores económicos. Um casal pode aumentar o seu rendimento e melhorar a sua qualidade de vida se cada um dos seus membros se especializar naquilo que sabe ou prefere fazer.

A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. Os tribunais tendem a reconhecer a especialização de homens e mulheres quando atribuem a guarda dos filhos preferencialmente à mãe e obrigam o pai a pagar uma pensão de alimentos. Os legisladores costumam enviar sinais contraditórios. Quando criam quotas nas várias profissões procuram defender a paridade. Mas quando alargam a duração das licenças de maternidade ou criam subsídios à natalidade contribuem para aprofundar a especialização. As licenças de maternidade/paternidade aprofundam a especialização mesmo quando podem ser partilhadas pelos membros do casal. Podendo escolher, os casais optarão por prejudicar a carreira de apenas um dos seus membros. Os subsídios à natalidade criam um incentivo para que um dos membros do casal abdique da carreira e se dedique exclusivamente aos filhos. Sabendo-se quais são as preferências típicas de homens e mulheres não é difícil prever qual será, na maior parte dos casos, o membro do casal a dedicar mais tempo aos filhos do que à carreira.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O discurso do futuro presidente dos EUA

Diário de Notícias, 20070813
João César das Neves

professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

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No dia 7 de Janeiro de 2017, Jack Stevens tomou posse como Presidente dos Estados Unidos da América. O discurso que então fez ficou famoso:
"Americanos. Sou a partir de hoje o vosso Presidente. Não sou o primeiro Presidente negro, mulher, muçulmano, judeu, austríaco. Sou apenas eu, sem nada de especial que me distinga. Para lá do vosso voto, na nossa gloriosa democracia.
Nessa democracia anda já muito ocupada uma pequena indústria a tratar de mim. Investiga todos os detalhes da minha vida e, usando os métodos mais avançados da técnica, informará sobre os factos mais estranhos da minha pessoa, verdadeiros ou falsos. Ela acha que há algo de especial que me distingue.
Sobre isso ficai desde já informados que eu admito tudo, confirmo tudo e não comento nada. Sobre a enorme quantidade de material que será publicado, emitido, noticiado e relatado sobre mim, assumo tudo sem nada discutir. Tudo será, até ao fim do mandato, implicitamente aceite e oficialmente irrelevante.

Sabeis americanos que a lei garante imunidade presidencial. Não o faz por simpatia ou respeito pelo cargo que é, como sabeis, o mais detestado e desrespeitado do planeta. A razão está no interesse nacional. Tenho imunidade só porque o país o exige. Porque a minha preocupação está totalmente centrada no desemprego e na injustiça social, na saúde e educação, no crime e terrorismo. Por isso o cargo tem imunidade. No cargo, o menos importante sou eu.
Em vários anos da nossa História os nossos gravíssimos problemas sociais e económicos ficaram esquecidos enquanto o país discutia se o Presidente permitiu ou não escutas ao adversário eleitoral, se tivera ou não relações sexuais com uma rapariga. Qualquer que fosse o interesse particular desses assuntos, o prejuízo pela paralisia do Governo ultrapassou-o esmagadoramente. Ninguém ganhou. Todos perdemos. Esse crime contra o interesse nacional não acontecerá no meu mandato. Esse terrível vício da nossa gloriosa democracia não se repetirá.
Fica portanto combinado que, até daqui a quatro anos, eu confesso todas as tropelias eleitorais que imaginarem, assumo relações com todas as raparigas que nomearem e o mais que inventarem. Depois do mandato, quando terminar a imunidade, conversaremos sobre isso nos tribunais. Aliás, no que toca às raparigas nem então haverá conversas, pois nisso só admito comentários de uma pessoa, com quem conversarei em privado. Ela não me concede imunidades.
Claro que quando acabar o meu mandato já ninguém se interessará, pois estarão todos centrados no meu sucessor. Mas só então trataremos dos meus alegados crimes e tropelias.
Até lá, enquanto for Presidente, debateremos os problemas nacionais, desemprego e desigualdade, saúde, educação, crime e terrorismo. Foi desses temas que vos falei nos meses de campanha. Não de mim. Apresentei-vos ideias, projectos, políticas. Aqueles que não se deram ao trabalho de ver o que prometi talvez o queiram fazer agora, porque é isso que vou aplicar.
Não irei resolver os problemas. Não tornarei a América rica, livre, feliz. Vou simplesmente aplicar o programa que vos apresentei o melhor que conseguir. Estou convencido, de forma humilde mas confiante, de que essas medidas contribuirão para resolver os nossos problemas e para termos uma América mais rica, livre e feliz. Também vós acreditastes, por isso votastes. Sou o vosso Presidente. Mas não vos garanto o sucesso. Se virmos que estou enganado, corrigiremos o erro e procuraremos juntos outro caminho melhor.
Sei que acham que tenho poder absoluto. Tendes família. Sabeis o poder que exerceis sobre os vossos filhos. Os funcionários públicos são pouco menos turbulentos que crianças, e os membros do congresso, empresários, sindicalistas e autarcas muito mais arrogantes e insolentes que adolescentes. Sabeis o que conseguis no controlo de um ou dois dos vossos jovens. Imaginai o sucesso que terei com essa multidão.
Americanos. Tenho um programa e, sobretudo, a vossa confiança. Sou a partir de hoje o vosso Presidente. Deus salve a América."

domingo, 12 de agosto de 2007

Aaron Jean-Marie Lustiger, o cardeal judeu

Público, 12.08.2007, Esther Mucznik

Até ao fim, foi o incansável obreiro de uma relação mais fraterna entre judeus e cristão

"Exaltado e santificado seja o Seu grande Nome, no mundo que Ele criou por Sua vontade..." Assim começa o kadish, oração judaica dos enlutados, que abriu na passada sexta-feira a cerimónia de homenagem ao Cardeal Jean-Marie Lustiger no adro da catedral de Notre-Dame de Paris.
Judeu de nascimento e católico por opção, o Cardeal quis fazer da sua cerimónia fúnebre um acto simbólico da sua própria vida: por sua vontade expressa, Jonas Moses-Lustiger, neto do seu primo Arno Lustiger, leu em hebraico e em francês o salmo 113; em seguida, depositou no caixão um pouco de terra trazida de Jericó e de Jerusalém e levada ao Santo-Sepulcro e ao Muro das Lamentações, símbolos respectivos da cristandade e do judaísmo. Por sua vontade também, Arno Lustiger pronunciou o kadish junto ao caixão, acompanhado por rabinos e entidades judaicas.
Parodoxal, este cerimonial judaico a preceder as exéquias cristãs do cardeal Lustiger, presididas pelo seu sucessor, o cardeal André Vingt-Trois? Talvez não, se tivermos em conta a vida e a personalidade deste homem extraordinário, no sentido literal da palavra.
Conversão aos 14 anos
Aaron Lustiger nasceu em 1926 no seio de uma família judia polaca que emigrara para França durante a I ª Grande Guerra. O avô foi rabino ortodoxo em Bedzin, na Polónia, e os pais não sendo religiosos, educaram os filhos na consciência da sua identidade judaica. Depois da ocupação da França pela Alemanha nazi em 1940, Aaron e a sua irmã Arlette foram enviados de Paris para Orleães, para casa de uma família católica, como forma de assegurar a sua protecção, tal como milhares de crianças judias na época. É aí que Aaron se converte ao catolicismo, contra a vontade dos pais, acrescentando o nome de Jean-Marie ao seu próprio nome: tinha 14 anos. Dois anos mais tarde, em Paris, a sua mãe, Giselle, denunciada por um vizinho, é presa e deportada para Auschwitz onde é gaseada. O pai sobrevive à guerra e tenta sem sucesso anular a conversão do filho. Em 1954 assistirá, nos bancos de trás, à sua ordenação para padre.
Como clérigo, Jean-Marie foi capelão na Sorbonne, onde estudara literatura antes de entrar para o seminário, servindo em seguida na paróquia de Sainte-Jeanne de Chantal, em Paris, antes de voltar a Orleães já como bispo. Em 1981, o Papa João Paulo II com quem tinha afinidades profundas que não se limitavam às origens polacas comuns, nomeia-o arcebispo de Paris e em 1983 cardeal, cargo que ocupará até 2005.
Toda a sua vida, Aaron Jean-Marie afirmou a sua identidade judaica em paralelo com a cristã: "Nasci judeu e assim permaneço, embora para muitos isso seja inaceitável. Para mim, a vocação de Israel é trazer a luz aos goim [gentios]. Essa é a minha esperança, e eu acredito que o cristianismo é o meio para o conseguir", afirmou numa entrevista ainda como arcebispo, causando algum mal-estar nos meios rabínicos. "Um judeu ao tornar-se cristão, não promove o autêntico judaísmo, mas volta-lhe as costas", respondeu na época o grão-rabino de Paris.
No entanto, o cardeal assumiu pública e abertamente, até na morte, a sua pertença judaica e todos os anos, por ocasião do serviço religioso em memória dos deportados, deslocava-se à grande sinagoga de Paris. Foi o grande obreiro do estreitamento das relações judaico-cristãs: teve um papel decisivo na resolução do conflito a propósito da presença das carmelitas polacas em Auschwitz, contribuindo para a sua deslocação para outro local menos simbólico do sofrimento judaico; foi o inspirador da declaração de arrependimento da igreja de França em 1997, no antigo campo de Drancy; contribuiu decisivamente para o sucesso da visita histórica de João Paulo II a Jerusalém em 2000; foi o impulsionador dos encontros internacionais para o diálogo judeo-cristão que até hoje se reúnem anualmente em Nova Iorque. Até ao fim, Aaron Jean-Marie foi o incansável obreiro de uma relação mais fraterna entre judeus e cristãos.
Um homem de mudança
Como membro da Igreja católica, foi homem de uma fé ardente e de afirmação. Contra os que defendiam que a juventude europeia não era receptiva à religião, conseguiu juntar em Paris mais de um milhão de jovens no Dia Mundial da Juventude, em 1997. Toda a sua vida combateu a secularização e a descristianização, denunciando a pretensão do homem moderno a viver sem Deus. Denunciou sem tréguas o comunismo, "construído sobre a impostura", o racismo "todos os homens são iguais na dignidade, porque criados à imagem de Deus", a visão da sociedade como um conjunto de comunidades religiosas, étnicas ou culturais, defendendo, em contrapartida, a integração, a laicidade e o respeito dos direitos, em particular a uma educação livre. Construiu novas igrejas e novas escolas de formação teológica, fundou uma rádio e uma televisão católicas. Promoveu a descentralização das estruturas da Igreja e uma intervenção activa na sociedade, o diálogo com a as artes, a cultura e a filosofia. Consciente da importância crescente das cidades, foi para elas que voltou o seu esforço de evangelização. Foi nesse quadro que veio a Portugal em Novembro de 2005, para a 3ª sessão do Congresso Internacional da Nova evangelização. O cardeal Lustiger, não foi provavelmente um homem consensual, mas foi certamente um homem de mudança.
Conheci-o pessoalmente em 2005, em Bruxelas, por ocasião de uma Assembleia Geral do Congresso Judaico Mundial, onde Lustiger foi um dos convidados de honra. A sua intervenção, constantemente interrompida pelos aplausos das centenas de participantes judeus de todo o mundo, e a sua presença de uma humanidade quase dolorosa, tocaram-me profundamente: "Sou tão judeu como todos os membros da minha família que foram assassinados em Auschwitz... temos, cristãos e judeus uma responsabilidade mútua - o combate sem tréguas contra o antisemitismo..."
Confesso que a conversão de Aaron permanece para mim um mistério incompreendido. Mas ninguém pode ler no coração de um homem - e reconheço no cardeal Lustiger um destino excepcional. Como disse Maurice Druon da Academia Francesa na homenagem fúnebre: "Vós fostes uma forma de milagre, o impossível existente, vós fostes o cardeal judeu."

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O nosso admirável Portugal novo

José Manuel Fernandes

Público, 07.08.2007

Regulamentar o acesso às profissões. Criar uma caderneta individual de competências. Acrescentar os organismos públicos de fiscalização. Assim se constrói um Portugal "eficiente". Está tudo na resolução do último Conselho de Ministros

Passou quase desapercebida a resolução do Conselho de Ministros de 2 de Agosto onde se anuncia legislação sobre o acesso e o exercício das profissões, tendo "em conta aspectos essenciais, partindo da identificação do interesse colectivo ou das razões inerentes à própria capacidade que fundamentam a restrição à liberdade de escolha da profissão". Na conferência de imprensa que se seguiu, o ministro Vieira da Silva deu, como exemplos das profissões a regular, a de jornalista e a piloto de linha aérea.
Acontece, porém, que, na redacção daquela resolução, se procede a uma importante inversão da ordem dos factores, quando a comparamos com o texto constitucional. É que, enquanto este, no seu artigo 47.º, estabelece que "todos têm o direito de escolher livremente a profissão ou o género de trabalho, salvas as restrições legais impostas pelo interesse colectivo ou inerentes à sua própria capacidade", na resolução o "interesse colectivo" e as "razões inerentes à própria capacidade" já não surgem como excepções, antes como restrições à liberdade de escolha - ou seja, como regras regulamentares.
A diferença não é pequena, se considerarmos que, ao mesmo tempo, se anuncia o "estabelecimento do Sistema Nacional de Qualificações", que incluirá "o Quadro Nacional de Qualificações, o Catálogo Nacional de Qualificações e a Caderneta Individual de Competências"; que, nesta última, pretende registar-se, imagine-se, "o conjunto das competências e formações certificadas, permitindo aos indivíduos apresentar de forma mais eficaz as formações e as competências que foram adquirindo ao longo da vida". Mais: que, para o acesso às tais profissões "especiais", haverá uma "entidade pública competente para emitir o título profissional e a validade do mesmo", ao mesmo tempo que, "no caso de profissão já anteriormente regulamentada", se criará "o correspondente regime transitório". Vieira da Silva não clarificou se estas profissões já "regulamentadas" incluem as de advogado, médico, engenheiro ou qualquer daquelas em que é uma Ordem a desempenhar essas funções sem interferência do Estado.
Mas aquilo que assusta em toda esta montagem é a sua lógica interna, coerente com o essencial do que tem sido a produção legislativa deste Governo: onde se deveria apenas regular, permitindo aos agentes actuar com o maior grau de liberdade possível, tem-se preferido regulamentar de forma minuciosa e detalhada, substituindo os actores dos diferentes sistemas por "comissões" onde o Estado tem sempre uma palavra a dizer. Da recentíssima lei da televisão ao novo regime jurídico das instituições do ensino superior, das comissões para aprovação dos livros escolares à recusa de concessão de autonomia administrativa e financeira ao nosso principal museu nacional, da lei das finanças locais ao protagonismo crescente do grupo bancário do Estado, o padrão repete-se: em última análise, e em nome da "eficiência", caminha-se para um Estado "em que o todo--poderoso comité executivo dos chefes políticos e o seu exército de directores" tudo controlará.
Claro que os "indivíduos que governam" "não são loucos", pois "o seu fim não é a anarquia, mas a estabilidade social". Área em que têm sido mestres, pois sabem que "grande é a verdade, mas maior ainda, do ponto de vista prático, é o silêncio a respeito da verdade. Abstendo-se simplesmente de mencionar alguns assuntos, baixando aquilo que o senhor Churchill chama uma "cortina de ferro" entre as massas e certos factos que os chefes políticos locais consideram como indesejáveis, (...) têm influenciado a opinião de uma maneira bastante" eficaz.
Poderíamos continuar as citações, todas extraídas do prefácio à segunda edição de um livro escrito há 75 anos onde a Utopia permitia não apenas regular, não só regulamentar, mas programar a "estabilidade social", fabricando, através da clonagem industrializada, os seres humanos necessários e ideiais para cada profissão. Esse mundo imaginado e "ideal", onde "comissões de certificação" e "cadernetas de competências" seriam obsoletas, é o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, uma agradável leitura de férias. E uma leitura que as resoluções citadas tornam bem actual.
José Manuel Fernandes

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O FIM DA CONCORRÊNCIA LIVRE E NÃO DISTORCIDA

Diário de Notícias 20070806

João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp..pt

No meio de dificuldades uma nova geração de políticos toma as rédeas da Europa. A sua primeira tarefa é majestosa: definir os princípios da União. O Presidente francês, Nicolas Sarkozy, teve já uma influência decisiva, ao retirar a concorrência dos princípios da Constituição Europeia. O n.º 3 do artigo 3.º do futuro Tratado dizia: "A União Europeia estabelece um mercado interno, onde a concorrência seja livre e não distorcida." Agora a frase termina na vírgula.
A Europa descobre assim que está enganada há 50 anos. Sarkozy explicou as razões: "Isso vai talvez dar um pouco mais de humanidade à Europa. Porque enquanto ideologia, enquanto dogma, que deu a concorrência à Europa? Deu cada vez menos gente que vota nas eleições europeias, cada vez menos pessoas que acreditam na Europa. Havia talvez a necessidade de reflectir. Eu acredito na concorrência, acredito nos mercados, mas acredito na concorrência como meio e não como fim em si. Isso vai talvez dar também uma jurisprudência diferente à Comissão. A de uma concorrência que está lá para favorecer a emergência de campeões europeus, para levar a uma verdadeira política industrial. A protecção lembra talvez a todos os chefes de Estado e de governo que a Europa está lá para proteger, não para inquietar. Mas se tudo estivesse bem na Europa, se tudo fosse perfeito, pergunto-me verdadeiramente porque temos tantos problemas" (declaração de 23 de Junho em http://www.elysee.fr/).
Esta declaração da nova estrela política europeia revela muito sobre o futuro da União. Revela por exemplo que o populismo dos novos líderes nada deve à lógica. Será que a Europa tem falta de humanidade por excesso de concorrência? Alguém no seu juízo pensa que se houvesse menos liberdade e mais distorção os europeus seriam mais humanos? Será que é a suposta concorrência livre e não distorcida que gera o desinteresse dos eleitores? Se a concorrência fosse mais limitada e distorcida haveria menos abstenção e desinteresse nas instituições? Será que na Europa a concorrência é não um meio mas um fim? Alguém, até o liberal mais fanático, quer a concorrência como um fim, a concorrência pela concorrência?

A declaração mostra também que o novo populismo europeu nada deve ao realismo. Onde está o tal excesso de concorrência na Europa? Há muito que a Comissão prende as empresas europeias em miríades de regulamentos tontos e paralisantes e favorece os supostos "campeões nacionais". Campeões que, é preciso dizer, não são assim tão fortes se precisam do tal apoio. Imagine-se essa lógica aplicada ao desporto onde, em nome da humanidade, cada país financiasse o doping de alguns dos atletas. O desporto europeu só é bom porque lá ainda vigora a concorrência livre e não distorcida, para bem do espectáculo e da verdade.

A concorrência é sem dúvida a razão dos problemas da UE no mercado global. Mas por falta, não excesso. A economia mundial mostra hoje bem o valor da abertura de mercados, sem batotas nem distorções. Índia, África, China, EUA concorrem, enquanto a tímida Europa insiste que os políticos escolham os campeões. Assim não tem hipóteses. O sucesso na globalização vem não da fraude da "verdadeira política industrial" mas da competição livre e não distorcida que a Europa professa há décadas, mas não pratica.

Enquanto ideologia, enquanto dogma, que deu a concorrência à Europa? Deu, por exemplo, Nicolas Sarkozy como Presidente. Na política o dogma da concorrência livre e não distorcida chama-se "democracia" e por ela Sarkozy foi eleito. Num processo "protegido" ele teria sido derrotado, pois nenhum líder francês o considera "campeão".

Na ambiguidade habitual das declarações comunitárias, os funcionários fizeram o possível por minimizar o significado da referida correcção ao Tratado. Disseram que a expressão eliminada é referida outras 13 vezes nos textos legais da UE.

De facto o problema da Europa nunca foi a falta de promessas de concorrência livre e não distorcida. O que falta é mesmo essa concorrência. Por isso "temos tantos problemas".

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ainda sabe dividir quatro por sete? E o seu filho? , JMFernandes, Publico, 070723

Ainda sabe dividir quatro por sete? E o seu filho?
23.07.2007

O "eduquês" não desiste. A calculadora está de regresso ao ensino básico, a tabuada ou as regras da divisão ou saber tirar a "prova dos nove" ficam para depois. Sendo assim, alguém se surpreende com os maus resultados que se registam a Matemática?

Vale a pena aprender a nadar? Para quê, se há barcos e, nos barcos, há bóias?
Vale a pena aprender andar de bicicleta? Para quê, se há motas, automóveis, autocarros, comboios?...
Vale a pena aprender a ler? Para quê, se os computadores já são capazes de ler por nós e basta conhecermos o significado das palavras?
Contudo, procuramos que os nossos filhos aprendam a nadar, mesmo que não sejam pescadores. E entusiasmamo--nos quando se equilibram na bicicleta ou associam as primeiras letras.
O surpreendente é que, apesar de acharmos natural qualquer das anteriores aprendizagens, ouvimos com naturalidade, porventura sem estranheza, miúdos dizer que têm más notas a Matemática "porque não serve para nada" (o que é uma criancice, mas não devia passar sem separo) e, pior do que isso, assistimos (ou muitos assistem) sem indignação à consagração das máquinas de calcular no ensino básico.
Os mesmos que sabem como é difícil aprender a coordenar os movimentos para nadar ou como se estragam muitos joelhos ao aprender-se a arte do equilíbrio em cima de uma bicicleta, acham desnecessário que se perca tempo a aprender a tabuada ou a verificar se uma conta está certa aplicando a prova dos nove. Afinal, não é muito mais simples utilizar uma simples calculadora?
Não, não é. A calculadora facilita a vida, como um computador nos permite fazer inúmeros cálculos que, manualmente, exigiriam dias. Mas a calculadora não é capaz de nos dizer se introduzimos correctamente os dados. Pior: a calculadora, sobretudo se utilizada pelos mais novos, impede--os de desenvolver competências que servem não apenas para realizar operações aritméticas simples, mas também para treinar o seu cálculo mental e ter uma ideia mais precisa da ordem de grandeza relativa dos grandes números.

Aqui há uns anos, num debate que teve lugar na Livraria Almedina em Lisboa, o professor Alexandre Castro Caldas, professor de Neurologia, recordou aos desmemoriados (o termo é apropriado) que o cálculo mental, tal como a memorização, tanto de como se escreve uma palavra ou de como se trauteia a tabuada, permite o desenvolvimento de partes do cérebro que, sem esse treino, ficam atrofiadas. Como essas regiões do cérebro são necessárias para outras actividades, evitar a "chatice" da tabuada, as regras da soma de parcelas ou a utilização correcta de números decimais inferiores à unidade tem inúmeras consequências perversas. A primeira, imediata, é tornar-nos numericamente iletrados, incapazes de relacionar números uns com os outros, compreender o significado de uma percentagem e, por isso, não perceber o sentido e o impacto de uma taxa de juro. A segunda, menos imediata, é tornar-nos menos aptos a raciocinar. Da mesma forma que, se deixarmos de utilizar este ou aquele músculos, andaremos mancos ou curvados, deixar de utilizar partes do cérebro diminui as nossas capacidades gerais.
Claro que dizer isto não implica atirar com as máquinas de calcular borda fora. Elas são e serão sempre muito úteis, sobretudo em graus de ensino mais adiantados do que as primeiras fases do básico, onde agora se advoga a sua reintrodução. Só que só utilizaremos bem esses instrumentos se soubermos introduzir correctamente os algarismos, se olharmos para o resultado final e percebermos, mesmo sem sabermos se está correcto até às milésimas, se faz sentido. Não vale a pena perder tempo, por exemplo, a fazer contas com muitas casas decimais onde, por exemplo, tenhamos de utilizar senos e co-senos. Mas de nada nos serve a máquina de calcular se não soubermos o que é um seno ou um co-seno, algo que se terá mais dificuldade em entender se, logo nos primeiros anos, não continuarmos a exercitar o cálculo mental e a saber resolver uma operação tão simples como dividir quatro por sete. Ou respondermos sem hesitar que 75 por cento é mais do que dois terços e menos do que quatro quintos.
Alguns dirão: mas quem é que não sabe isso num país onde concluir o 9.º ano é obrigatório? Pois, para não me estender nos exemplos, boa parte dos finalistas de muitos cursos universitários.
Contudo, a ideia de recomendar a utilização da calculadora nos primeiros anos do ensino básico está de regresso. Não se sabe bem em nome de quê, pois já devíamos ter aprendido que treinar a memorização e saber a tabuada não é torturar as criancinhas: é até menos complexo do que ensiná-las a nadar ou a andar de bicicleta...


domingo, 15 de julho de 2007

Ma educacao, VPV, Publico 070715

Má educação
15.07..2007, Vasco Pulido Valente

Não sei como a minha geração, que viveu em permanente perigo de morte, conseguiu chegar à idade adulta. A bolas-de-berlim, por exemplo. Quando, em 1940 ou 50, comecei a ir à praia, comia bolas-de-berlim, com a criminosa colaboração da minha família. Aparecia a D. Aida com a sua lata e, em dez minutos, lá iam duas bolas a escorrer de creme, sem qualquer investigação ou autorização do Estado. O Estado nessa altura não se interessava pela minha saúde. Fazia mal, fazia muito mal. Agora felizmente existe uma Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, a ASAE, que vigia este delicado comércio. As bolas têm hoje de estar em malas térmicas com uma temperatura de, pelo menos, 7 graus, têm de ser servidas com pinças (suponho que para evitar o pernicioso contacto da mão humana) e os vendedores têm, como é natural, de tirar um curso especial de "manuseamento". As multas vão até aos 3740 euros; coisa que se percebe muito bem quando se trata de combater a bactéria e a toxina e, sobretudo, de proteger a infância.
Mas não se julgue que a ASAE fica por aqui. Sendo uma polícia cumpridora, não esquece esse outro foco de infecção, que tanto envergonha Portugal: a festa popular. O povo, manifestamente, precisa de quem o defenda de si mesmo. E a ASAE não hesita. Na festa de Odivelas, fechou 16 barracas que vendiam "alimentos", por "falta de higiene" e "deficientes condições técnico-funcionais", e aprendeu 25 quilos de produtos "fora das regras". Quantas vidas não salvou com esta intervenção paternal? E que exemplo não deu a dezenas de loucas localidades, que preparam festas sem o escrúpulo e a assepsia que o nosso querido corpo exige.

Em Inglaterra, até já se criou uma ASAE que se ocupa do espírito e que proibiu (por racismo) um álbum de Tintim, o Tintim no Congo. Esperemos que o eng. Sócrates nos dote rapidamente com uma instituição semelhante. Na minha adolescência, era permitido ver filmes em que os cowboys matavam índios do princípio ao fim: um espectáculo deletério e deformador, que fica para sempre. Às vezes penso que, sem as bolas-de-berlim da D. Aida, sem as feiras populares por onde inconscientemente andei e sem cowboys, seria com certeza uma pessoa muito melhor. Mas, por má sorte, o Estado do dr. Salazar não me educou, nem educou o povo, como o Estado benemérito e providencial da "Europa" e do eng. Sócrates. Não se imagina o que sofri com isso. E o que ainda sofro.
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sábado, 14 de julho de 2007

Zita Seabra, JCEspada, Expresso, 070714

Zita Seabra

jcespada@netcabo.pt

A alegria de viver de Zita Seabra é a melhor celebração da liberdade e a mais profunda ruptura com o universo soturno do comunismo

‘Foi Assim’ é o título do livro de Zita Seabra que foi apresentado na semana passada, no Quartel do Carmo perante vasta assistência, por Mário Soares, José Pacheco Pereira e Carlos Gaspar. Foi uma celebração da liberdade.

Zita Seabra conta as suas memórias desde que, aos 15 anos, aderiu ao partido comunista (em 1965) até que deixou a ideologia comunista, em 1989 (tendo sido expulsa em Maio de 1988). A principal mensagem que insiste em transmitir é que, para romper com o comunismo, é preciso compreender que não foi a (má) prática comunista que distorceu os (bons) ideais comunistas. A má prática foi apenas a consequência dos maus ideais.

Qual é a natureza do mal comunista? Vários grandes autores do século XX deram contributos para o definir. Raymond Aron pôs a nu o ópio dos intelectuais, uma ideologia totalizante que recusa ser confrontada com os factos. Karl Popper denunciou o dogmatismo historicista, gerador de um profundo relativismo moral. Friedrich Hayek mostrou como marxismo e nacional-socialismo eram duas expressões de uma mesma atitude intelectual, hostil a uma ordem livre e descentralizada.

Todos eles enfatizaram a hostilidade do comunismo contra os modos de vida espontâneos das pessoas comuns, enraizadas em instituições livres nas quais se sentem confortáveis: a casa própria, a família, a realização profissional, os hóbis, a religião. Estas esferas plurais constituem uma reserva de liberdade contra a vontade política sem entrave. Mas, acima de tudo, elas constituem reservas de felicidade e realização pessoal, independentes da manipulação política.

Em meu entender, foi Michael Oakeshott, o filósofo conservador inglês, quem melhor captou este núcleo central da resistência ao totalitarismo comunista ou nacional-socialista: a disposição para usufruir, para desfrutar, para celebrar um modo de vida que é o nosso e não foi centralmente desenhado. Oakeshott disse residir aqui o segredo da liberdade ocidental.

Não sei se Zita Seabra concordará com Oakeshott. Mas atrevo-me a dizer que ela é o melhor exemplo da tese Oakeshotteana. Ao abandonar o PCP, Zita Seabra teve a audácia de refazer inteiramente a sua vida. Lançou-se na actividade editorial privada, de rara qualidade; preservou a sua vida familiar intacta, longe dos holofotes colectivistas da praça pública (o que, aliás, muito bem faz também no seu livro); refez e ampliou amizades; retomou a acção política no PSD, a tempo parcial; finalmente, fez um percurso privado de aproximação à religião cristã.

Esta alegria de viver e apreciar de Zita Seabra é, em meu entender, a melhor celebração da liberdade e a mais profunda ruptura com o universo soturno do comunismo.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Nos 80 anos do Papa Bento XVI

D. Javier Echevarría 
Público 19.04.2007 

Ser Romano Pontífice significa tornar-se pai de uma multidão de filhos e filhas e amá-los em todas as circunstâncias

O aniversário do Papa Bento XVI traz-me à memória a fumata bianca do dia 19 de Abril de 2005. O fumo branco da chaminé da Capela Sistina anunciou, mais do que uma eleição, uma oblação, isto é, uma entrega. Foi sinal da aceitação alegre do peso de ser sucessor de São Pedro, quando no horizonte do cardeal Joseph Ratzinger se podia antever um justo e merecido descanso, depois de longos anos de trabalho intenso na vinha do 
Senhor.
Deus concedeu ao Papa uma paternidade universal. Ser Romano Pontífice significa tornar-se pai de uma multidão de filhos e filhas, ser seu guia, atender às suas muitas solicitações, e amá-los em todas as circunstâncias.
Num aniversário, o pensamento costuma olhar para o passado, mas também é um momento para contemplar o presente e projectar o futuro. Imaginar os saborosos frutos que a árvore da Igreja vai dar pela generosidade da entrega de Bento XVI. Um homem que sabe abraçar o encargo recebido, tal como Cristo abraçou a Cruz. Como quem une inteligência e humildade, amabilidade e firmeza.
No 80.º aniversário do Santo Padre, o desejo é de lhe agradecer a ajuda com que nos leva a apreciar a beleza da vida cristã, e a recordar a alegria e a liberdade de ser fiéis aos preceitos divinos. Gratidão, ainda, por nos alentar a colocar a caridade no centro do nosso agir.
Na missa com que inaugurou o pontificado, Bento XVI pediu aos cristãos a ajuda da oração. Um ano depois, dizia: "Cada vez estou mais convencido de que por mim mesmo não poderia cumprir esta tarefa, esta missão. Mas também sinto que vocês me ajudam a cumpri-la. Desta maneira estou numa grande comunhão e, juntos, podemos realizar a missão do Senhor (...). Obrigado do fundo do coração a todos quantos de diversas maneiras me acompanham de perto ou me seguem de longe espiritualmente com o seu afecto e a sua oração, pedindo a Deus que me conceda ser pastor manso e firme da sua Igreja".
Este aniversário constitui um convite a rezar e a oferecer sacrifícios pela sua pessoa e intenções, de maneira que o Papa sinta a comunhão da Igreja inteira, no empenho por progredir na missão confiada a todos pelo Senhor. 
Prelado do Opus Dei

segunda-feira, 16 de abril de 2007

A vida humana, afinal, é violável

João César das Neves
DN 2007.04.16

É oficial: em Portugal a vida humana é violável. Continua em vigor o artigo 24.º n.º 1 da Constituição da República Portuguesa, que afirma taxativamente: "A vida humana é inviolável." Mas, com a promulgação do decreto da Assembleia n.º 112/X de "exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez", a vida humana passou a ser violável. É apenas durante as primeiras dez semanas de particular fragilidade. Mas é indiscutivelmente vida humana e é inegavelmente violável.
Vale a pena lembrar que, durante a enorme discussão à volta do referendo recente, ninguém respeitável se atreveu a dizer que o zigoto, embrião ou feto não constituíssem vida humana. Alguns fizeram grandes esforços para afirmar não se tratar de uma "pessoa humana". Dado ser um conceito filosófico, é susceptível de enormes discussões. Mas não foi possível recusar o facto cientificamente demonstrado de que se trata de uma vida, nem a evidência de senso comum que é humana. Aquilo que se vai poder violar, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mãe, é indubitavelmente uma vida humana.
Assim o nosso ordenamento jurídico passará a incluir um diploma que diz que a vida humana é violável. Não parece levantar preocupação a flagrante inconsistência lógica entre um decreto da Assembleia da República e a Constituição da República que a mesma jurou cumprir e defender. A não ser que se tome como manifestação dessa preocupação o excessivo aparato democrático de que essa Assembleia se procurou revestir para justificar a inconsistência.
O referido decreto baseia-se num referendo com 59,25% de aprovação (apesar de isso só representar 26% dos eleitores) e uma votação parlamentar largamente maioritária. Ninguém desconfia, pois, dos pergaminhos eleitorais dessa legislação. Parece que, desde que existam maiorias suficientes, passa a ser aceitável proclamar incongruências lógicas. Parece que, se a maioria quiser, pode violar-se a vida humana.
Passado o processo legislativo (a menos de alguns recursos) ficará o juízo da História. E esse pode ser muito severo. A nossa geração, impiedosa com as épocas passadas e as suas violações da vida e dignidade humanas, sabe isso muito bem. A nossa geração, que proclamou direitos, instituiu tribunais, condenou culturas, regimes, povos, conhece bem a dureza desse juízo.
A gravidade de uma atrocidade não depende da legitimidade do documento ou da representatividade do seu apoio. No passado, muitas abominações, da escravatura e guerra ao genocídio, também gozaram de toda a legitimidade institucional, consenso social e adesão entusiástica. Isso não só não desculpou mas até suscitou censura maior. Não é por isso que deixam de ser hoje repudiadas violentamente. Esta nossa lei não conduz a práticas comparáveis às dos nazis, esclavagistas, chauvinistas e afins. Mas com elas tem em comum precisamente este ponto: considerar a vida humana violável. E são repudiadas por nós por causa disso mesmo. Foi essa a razão porque se pôs na Constituição o princípio que agora corrompemos.
Quando a História julgar esta geração pelos seus crimes, lembrará os nomes inscritos no decreto que promoveu esta infâmia. Estarão lá os nomes de quem o elaborou, propôs, aprovou e promulgou. Mas também lá estará a assinatura de quem fez campanha a seu favor, quem votou, aplaudiu e exultou com ele. Aqueles que consideraram este atropelo à vida humana como um direito, os sicofantas que inventaram argumentos, congeminaram embustes e manipularam a verdade para encontrar justificações falaciosas. Os que apenas lavaram as mãos. Todos têm o nome inscrito neste diploma.
Chegámos ao fim de uma das mais longas e controvertidas epopeias parlamentares. A questão real só agora começará. Será preciso adaptar o sistema de saúde e lidar com milhares de dramas pungentes. Mas acabou o entusiasmo, ruído, balbúrdia, argumentação, interesse dos políticos. O que ficou foi apenas um ponto muito simples: a partir de agora em Portugal a vida humana é violável.