segunda-feira, 23 de julho de 2007

Ainda sabe dividir quatro por sete? E o seu filho? , JMFernandes, Publico, 070723

Ainda sabe dividir quatro por sete? E o seu filho?
23.07.2007

O "eduquês" não desiste. A calculadora está de regresso ao ensino básico, a tabuada ou as regras da divisão ou saber tirar a "prova dos nove" ficam para depois. Sendo assim, alguém se surpreende com os maus resultados que se registam a Matemática?

Vale a pena aprender a nadar? Para quê, se há barcos e, nos barcos, há bóias?
Vale a pena aprender andar de bicicleta? Para quê, se há motas, automóveis, autocarros, comboios?...
Vale a pena aprender a ler? Para quê, se os computadores já são capazes de ler por nós e basta conhecermos o significado das palavras?
Contudo, procuramos que os nossos filhos aprendam a nadar, mesmo que não sejam pescadores. E entusiasmamo--nos quando se equilibram na bicicleta ou associam as primeiras letras.
O surpreendente é que, apesar de acharmos natural qualquer das anteriores aprendizagens, ouvimos com naturalidade, porventura sem estranheza, miúdos dizer que têm más notas a Matemática "porque não serve para nada" (o que é uma criancice, mas não devia passar sem separo) e, pior do que isso, assistimos (ou muitos assistem) sem indignação à consagração das máquinas de calcular no ensino básico.
Os mesmos que sabem como é difícil aprender a coordenar os movimentos para nadar ou como se estragam muitos joelhos ao aprender-se a arte do equilíbrio em cima de uma bicicleta, acham desnecessário que se perca tempo a aprender a tabuada ou a verificar se uma conta está certa aplicando a prova dos nove. Afinal, não é muito mais simples utilizar uma simples calculadora?
Não, não é. A calculadora facilita a vida, como um computador nos permite fazer inúmeros cálculos que, manualmente, exigiriam dias. Mas a calculadora não é capaz de nos dizer se introduzimos correctamente os dados. Pior: a calculadora, sobretudo se utilizada pelos mais novos, impede--os de desenvolver competências que servem não apenas para realizar operações aritméticas simples, mas também para treinar o seu cálculo mental e ter uma ideia mais precisa da ordem de grandeza relativa dos grandes números.

Aqui há uns anos, num debate que teve lugar na Livraria Almedina em Lisboa, o professor Alexandre Castro Caldas, professor de Neurologia, recordou aos desmemoriados (o termo é apropriado) que o cálculo mental, tal como a memorização, tanto de como se escreve uma palavra ou de como se trauteia a tabuada, permite o desenvolvimento de partes do cérebro que, sem esse treino, ficam atrofiadas. Como essas regiões do cérebro são necessárias para outras actividades, evitar a "chatice" da tabuada, as regras da soma de parcelas ou a utilização correcta de números decimais inferiores à unidade tem inúmeras consequências perversas. A primeira, imediata, é tornar-nos numericamente iletrados, incapazes de relacionar números uns com os outros, compreender o significado de uma percentagem e, por isso, não perceber o sentido e o impacto de uma taxa de juro. A segunda, menos imediata, é tornar-nos menos aptos a raciocinar. Da mesma forma que, se deixarmos de utilizar este ou aquele músculos, andaremos mancos ou curvados, deixar de utilizar partes do cérebro diminui as nossas capacidades gerais.
Claro que dizer isto não implica atirar com as máquinas de calcular borda fora. Elas são e serão sempre muito úteis, sobretudo em graus de ensino mais adiantados do que as primeiras fases do básico, onde agora se advoga a sua reintrodução. Só que só utilizaremos bem esses instrumentos se soubermos introduzir correctamente os algarismos, se olharmos para o resultado final e percebermos, mesmo sem sabermos se está correcto até às milésimas, se faz sentido. Não vale a pena perder tempo, por exemplo, a fazer contas com muitas casas decimais onde, por exemplo, tenhamos de utilizar senos e co-senos. Mas de nada nos serve a máquina de calcular se não soubermos o que é um seno ou um co-seno, algo que se terá mais dificuldade em entender se, logo nos primeiros anos, não continuarmos a exercitar o cálculo mental e a saber resolver uma operação tão simples como dividir quatro por sete. Ou respondermos sem hesitar que 75 por cento é mais do que dois terços e menos do que quatro quintos.
Alguns dirão: mas quem é que não sabe isso num país onde concluir o 9.º ano é obrigatório? Pois, para não me estender nos exemplos, boa parte dos finalistas de muitos cursos universitários.
Contudo, a ideia de recomendar a utilização da calculadora nos primeiros anos do ensino básico está de regresso. Não se sabe bem em nome de quê, pois já devíamos ter aprendido que treinar a memorização e saber a tabuada não é torturar as criancinhas: é até menos complexo do que ensiná-las a nadar ou a andar de bicicleta...


domingo, 15 de julho de 2007

Ma educacao, VPV, Publico 070715

Má educação
15.07..2007, Vasco Pulido Valente

Não sei como a minha geração, que viveu em permanente perigo de morte, conseguiu chegar à idade adulta. A bolas-de-berlim, por exemplo. Quando, em 1940 ou 50, comecei a ir à praia, comia bolas-de-berlim, com a criminosa colaboração da minha família. Aparecia a D. Aida com a sua lata e, em dez minutos, lá iam duas bolas a escorrer de creme, sem qualquer investigação ou autorização do Estado. O Estado nessa altura não se interessava pela minha saúde. Fazia mal, fazia muito mal. Agora felizmente existe uma Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, a ASAE, que vigia este delicado comércio. As bolas têm hoje de estar em malas térmicas com uma temperatura de, pelo menos, 7 graus, têm de ser servidas com pinças (suponho que para evitar o pernicioso contacto da mão humana) e os vendedores têm, como é natural, de tirar um curso especial de "manuseamento". As multas vão até aos 3740 euros; coisa que se percebe muito bem quando se trata de combater a bactéria e a toxina e, sobretudo, de proteger a infância.
Mas não se julgue que a ASAE fica por aqui. Sendo uma polícia cumpridora, não esquece esse outro foco de infecção, que tanto envergonha Portugal: a festa popular. O povo, manifestamente, precisa de quem o defenda de si mesmo. E a ASAE não hesita. Na festa de Odivelas, fechou 16 barracas que vendiam "alimentos", por "falta de higiene" e "deficientes condições técnico-funcionais", e aprendeu 25 quilos de produtos "fora das regras". Quantas vidas não salvou com esta intervenção paternal? E que exemplo não deu a dezenas de loucas localidades, que preparam festas sem o escrúpulo e a assepsia que o nosso querido corpo exige.

Em Inglaterra, até já se criou uma ASAE que se ocupa do espírito e que proibiu (por racismo) um álbum de Tintim, o Tintim no Congo. Esperemos que o eng. Sócrates nos dote rapidamente com uma instituição semelhante. Na minha adolescência, era permitido ver filmes em que os cowboys matavam índios do princípio ao fim: um espectáculo deletério e deformador, que fica para sempre. Às vezes penso que, sem as bolas-de-berlim da D. Aida, sem as feiras populares por onde inconscientemente andei e sem cowboys, seria com certeza uma pessoa muito melhor. Mas, por má sorte, o Estado do dr. Salazar não me educou, nem educou o povo, como o Estado benemérito e providencial da "Europa" e do eng. Sócrates. Não se imagina o que sofri com isso. E o que ainda sofro.
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sábado, 14 de julho de 2007

Zita Seabra, JCEspada, Expresso, 070714

Zita Seabra

jcespada@netcabo.pt

A alegria de viver de Zita Seabra é a melhor celebração da liberdade e a mais profunda ruptura com o universo soturno do comunismo

‘Foi Assim’ é o título do livro de Zita Seabra que foi apresentado na semana passada, no Quartel do Carmo perante vasta assistência, por Mário Soares, José Pacheco Pereira e Carlos Gaspar. Foi uma celebração da liberdade.

Zita Seabra conta as suas memórias desde que, aos 15 anos, aderiu ao partido comunista (em 1965) até que deixou a ideologia comunista, em 1989 (tendo sido expulsa em Maio de 1988). A principal mensagem que insiste em transmitir é que, para romper com o comunismo, é preciso compreender que não foi a (má) prática comunista que distorceu os (bons) ideais comunistas. A má prática foi apenas a consequência dos maus ideais.

Qual é a natureza do mal comunista? Vários grandes autores do século XX deram contributos para o definir. Raymond Aron pôs a nu o ópio dos intelectuais, uma ideologia totalizante que recusa ser confrontada com os factos. Karl Popper denunciou o dogmatismo historicista, gerador de um profundo relativismo moral. Friedrich Hayek mostrou como marxismo e nacional-socialismo eram duas expressões de uma mesma atitude intelectual, hostil a uma ordem livre e descentralizada.

Todos eles enfatizaram a hostilidade do comunismo contra os modos de vida espontâneos das pessoas comuns, enraizadas em instituições livres nas quais se sentem confortáveis: a casa própria, a família, a realização profissional, os hóbis, a religião. Estas esferas plurais constituem uma reserva de liberdade contra a vontade política sem entrave. Mas, acima de tudo, elas constituem reservas de felicidade e realização pessoal, independentes da manipulação política.

Em meu entender, foi Michael Oakeshott, o filósofo conservador inglês, quem melhor captou este núcleo central da resistência ao totalitarismo comunista ou nacional-socialista: a disposição para usufruir, para desfrutar, para celebrar um modo de vida que é o nosso e não foi centralmente desenhado. Oakeshott disse residir aqui o segredo da liberdade ocidental.

Não sei se Zita Seabra concordará com Oakeshott. Mas atrevo-me a dizer que ela é o melhor exemplo da tese Oakeshotteana. Ao abandonar o PCP, Zita Seabra teve a audácia de refazer inteiramente a sua vida. Lançou-se na actividade editorial privada, de rara qualidade; preservou a sua vida familiar intacta, longe dos holofotes colectivistas da praça pública (o que, aliás, muito bem faz também no seu livro); refez e ampliou amizades; retomou a acção política no PSD, a tempo parcial; finalmente, fez um percurso privado de aproximação à religião cristã.

Esta alegria de viver e apreciar de Zita Seabra é, em meu entender, a melhor celebração da liberdade e a mais profunda ruptura com o universo soturno do comunismo.