segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Carta à diocese e à cidade de Roma sobre a tarefa urgente de formação das novas gerações

CARTA DO PAPA BENTO XVI
À DIOCESE E À CIDADE DE ROMA
SOBRE A TAREFA URGENTE
DA FORMAÇÃO DAS NOVAS GERAÇÕES



Queridos fiéis de Roma!

Pensei dirigir-me a vós com esta carta para vos falar de um problema que vós próprios sentis e sobre o qual as várias componentes da nossa Igreja se estão a comprometer: o problema da educação. Todos temos a preocupação pelo bem das pessoas que amamos, sobretudo das nossas crianças, adolescentes e jovens. De facto, sabemos que depende deles o futuro desta nossa cidade. Portanto, não podemos deixar de ser solícitos pela formação das novas gerações, pela sua capacidade de se orientar na vida e discernir o bem do mal, pela sua saúde não só física mas também moral.

Mas educar nunca foi fácil, e hoje parece tornar-se sempre mais difícil. Sabem-no bem os pais, os professores, os sacerdotes e todos os que desempenham responsabilidades educativas directas. Fala-se por isso de uma grande "emergência educativa", confirmada pelos insucessos com os quais com muita frequência se confrontam os nossos esforços para formar pessoas sólidas, capazes de colaborar com os outros e dar um sentido à própria vida. É espontâneo, então, dar a culpa às novas gerações, como se as crianças que nascem hoje fossem diversas das que nasciam no passado. Além disso, fala-se de uma "ruptura entre as gerações", que certamente existe e pesa, mas que é o efeito, e não a causa, da malograda transmissão de certezas e valores.

Devemos portanto dar a culpa aos adultos de hoje, que talvez já não sejam capazes de educar? É forte certamente, quer entre os pais quer entre os professores e em geral entre os educadores, a tentação a renunciar, e ainda antes o risco de não compreender nem sequer qual seja o seu papel, ou melhor a missão que lhes foi confiada. Na realidade, estão em questão não só as responsabilidades pessoais dos adultos ou dos jovens, que contudo existem e não devem ser escondidas, mas também uma atmosfera difundida, uma mentalidade e uma forma de cultura que fazem duvidar do valor da pessoa humana, do próprio significado da verdade e do bem, em síntese, da bondade da vida. Então, torna-se difícil transmitir de uma geração a outra algo de válido e de certo, regras de comportamento, objectivos credíveis com base nos quais construir a própria vida.

Queridos irmãos e irmãs de Roma, a este ponto gostaria de vos dizer uma palavra muito simples: não temais! Todas estas dificuldades, de facto, não são insuperáveis. São antes, por assim dizer, a outra face da moeda daquele dom grande e precioso que é a nossa liberdade, com a responsabilidade que justamente a acompanha. Contrariamente a quanto acontece em campo técnico ou económico, onde os progressos de hoje se podem somar aos do passado, no âmbito da formação e do crescimento moral das pessoas não existe uma semelhante possibilidade de acumulação, porque a liberdade do homem é sempre nova e portanto cada pessoa e cada geração deve tomar de novo, e directamente, as suas decisões. Também os maiores valores do passado não podem simplesmente ser herdados, devem ser feitos nossos e renovados através de uma, muitas vezes difícil, escolha pessoal.

Mas quando as bases são abaladas e faltam as certezas fundamentais, a necessidade daqueles valores volta a fazer-se sentir de modo urgente: assim, em concreto, aumenta hoje o pedido de uma educação que o seja verdadeiramente. Pedem-na os pais, preocupados e muitas vezes angustiados com o futuro dos próprios filhos; pedem-na muitos professores, que vivem a triste experiência da degradação das suas escolas; pede-a a sociedade no seu conjunto, que vê postas em dúvida as próprias bases da convivência; pedem-na no seu íntimo os próprios jovens, que não querem ser deixados sozinhos perante os desafios da vida. Quem crê em Jesus Cristo tem depois um ulterior e mais forte motivo para não ter receio: de facto, sabe que Deus não nos abandona, que o seu amor nos alcança onde estamos e como somos, com as nossas misérias e debilidades, para nos oferecer uma nova possibilidade de bem.

Queridos irmãos e irmãs, para tornar mais concretas estas minhas reflexões, pode ser útil determinar algumas exigências comuns de uma autêntica educação. Ela tem necessidade antes de tudo daquela proximidade e confiança que nascem do amor: penso na primeira e fundamental experiência do amor que as crianças fazem, ou pelo menos deveriam fazer, com os seus pais. Mas cada verdadeiro educador sabe que para educar deve doar algo de si mesmo e que só assim pode ajudar os seus alunos a superar egoísmos e a tornar-se por sua vez capazes de amor autêntico.
Há já numa criança um grande desejo de saber e de compreender, que se manifesta nas suas contínuas perguntas e pedidos de explicações. Portanto a educação seria muito pobre se se limitasse a dar noções e informações, e deixasse de lado a grande pergunta em relação à verdade, sobretudo àquela verdade que pode servir de orientação na vida.

Também o sofrimento faz parte da verdade da nossa vida. Por isso, procurando proteger os mais jovens de qualquer dificuldade e experiência do sofrimento, arriscamos de fazer crescer, apesar das nossas boas intenções, pessoas frágeis e pouco generosas: a capacidade de amar corresponde de facto à capacidade de sofrer, e de sofrer juntos.

Chegamos assim, queridos amigos de Roma, talvez ao ponto mais delicado da obra educativa: encontrar um justo equilíbrio entre a liberdade e a disciplina. Sem regras de comportamento e de vida, feitas valer dia após dia também nas pequenas coisas, não se forma o carácter e não se está preparado para enfrentar as provas que não faltarão no futuro. Mas a relação educativa é antes de tudo o encontro de duas liberdades e a educação com sucesso é formação para o recto uso da liberdade. Mas à medida que a criança cresce, torna-se um adolescente e depois um jovem; portanto devemos aceitar o risco da liberdade, permanecendo sempre atentos a ajudá-lo a corrigir ideias e opções erradas. O que nunca devemos fazer é favorecê-lo nos erros, fingir que não os vemos, ou pior partilhá-los, como se fossem as novas fronteiras do progresso humano.

Portanto, a educação nunca pode prescindir daquela respeitabilidade que torna credível a prática da autoridade. De facto, ela é fruto de experiência e competência, mas adquire-se sobretudo com a coerência da própria vida e com o comprometimento pessoal, expressão do amor verdadeiro. Portanto, o educador é uma testemunha da verdade e do bem: sem dúvida, também ele é frágil e pode falhar, mas procurará sempre de novo pôr-se em sintonia com a sua missão.

Caríssimos irmãos de Roma, destas simples considerações sobressai como é decisivo na educação o sentido de responsabilidade: responsabilidade do educador, certamente, mas também, e na medida em que cresce com a idade, responsabilidade do filho, do aluno, do jovem que entra no mundo do trabalho. É responsável quem sabe responder a si mesmo e aos outros. Além disso, quem crê procura responder a Deus que o amou primeiro.

A responsabilidade é em primeiro lugar pessoal, mas existe também uma responsabilidade que partilhamos juntos, como cidadãos de uma mesma cidade e de uma nação, como membros da família humana e, se somos crentes, como filhos de um único Deus e membros da Igreja. De facto as ideias, os estilos de vida, as leis, as orientações gerais da sociedade em que vivemos, e a imagem que ela dá de si mesma através dos meios de comunicação, exercem uma grande influência sobre a formação das novas gerações, para o bem mas muitas vezes também para o mal. Contudo a sociedade não é uma abstracção; no final somos nós próprios, todos juntos, com as orientações, as regras e os representantes que elegemos, mesmo sendo diversos os papéis e as responsabilidades de cada um. Portanto, há necessidade da contribuição de cada um de nós, de cada pessoa, família ou grupo social, para que a sociedade, começando pela nossa cidade de Roma, se torne um ambiente mais favorável à educação.

Por fim, gostaria de vos propor um pensamento que desenvolvi na recente Carta Encíclica Spe salvi sobre a esperança cristã: a alma da educação, como da toda a vida, só pode ser uma esperança certa. Hoje a nossa esperança está insidiada de muitas partes e corremos o risco de nos tornarmos, também nós, como os antigos pagãos, homens "sem esperança e sem Deus neste mundo" como escrevia o apóstolo Paulo aos cristãos de Éfeso (Ef 2, 12). Precisamente daqui nasce a dificuldade talvez mais profunda para uma verdadeira obra educativa: na raiz da crise da educação está de facto uma crise de confiança na vida.

Portanto, não posso terminar esta carta sem um caloroso convite a ter Deus como nossa esperança. Só Ele é a esperança que resiste a todas as desilusões; só o seu amor não pode ser destruído pela morte; só a sua justiça e a sua misericórdia podem sanear as injustiças e recompensar os sofrimentos suportados. A esperança que se dirige a Deus nunca é esperança só para mim, é sempre também esperança para os outros: não nos isola, mas torna-nos solidários no bem, estimula-nos a educar-nos reciprocamente para a verdade e para o amor.

Saúdo-vos com afecto e garanto-vos uma especial recordação na oração, enquanto envio a todos a minha Bênção.

Vaticano, 21 de Janeiro de 2008.

BENEDICTUS PP. XVI


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sábado, 19 de janeiro de 2008

O Governo dos burocratas, Joao Miranda, DN080119

O GOVERNO DOS BUROCRATAS

João Miranda
investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com

Nos últimos anos, dezenas de países aprovaram leis contra o consumo de tabaco em locais abertos ao público. À primeira vista é estranho que países com culturas e costumes tão diversos tenham adoptado quase em simultâneo leis semelhantes. No caso português, a lei resulta de uma imposição do legislador e de parte da sociedade contra a outra parte. A lei foi apresentada aos portugueses como um facto consumado e irreversível, não foi discutida na campanha eleitoral e é muitas vezes justificada pela aprovação de leis similares em países considerados mais desenvolvidos. A verdade é que as leis aprovadas nesses países resultam de uma convenção da Organização Mundial de Saúde (OMS). Foram impostas pelos tecnocratas da OMS, burocratas não eleitos que conseguem ter mais influência nas nossas vidas que os políticos legitimamente eleitos. Aquilo que parecia um movimento mundial contra o tabaco não passa afinal de uma decisão tomada por um conjunto muito restrito de técnicos. O governo dos burocratas despreza as particularidades locais, é opaco e não representativo.

Como a nova lei do tabaco não resulta de um consenso social, existem muitas dúvidas sobre como deve ser aplicada. Os empresários com casas abertas ao público não sabem exactamente o que fazer. Por este motivo, a maior parte dos empresários optou por proibir o fumo nos seus estabelecimentos. A lei é fiscalizada por autoridades administrativas que funcionam simultaneamente como agentes policiais e como juízes. O alegado prevaricador é imediatamente punido sem que seja realizado qualquer julgamento. Os empresários podem, é claro, recorrer para os tribunais, mas, como a justiça em Portugal é lenta, eles preferem agir pelo seguro e proibir o fumo nos seus estabelecimentos. O governo pelos burocratas tira partido do mau funcionamento do sistema de justiça.

A Direcção-Geral da Saúde (DGS) emergiu como a autoridade responsável por interpretar não apenas os aspectos técnicos da lei mas também os aspectos legais que deveriam ser da competência dos tribunais. Os deputados chegaram a pedir ao director da DGS para explicar o que diz a lei, apesar de ela ter sido aprovada pelo Parlamento. A DGS comporta-se como juiz, mas não é imparcial. Tem uma agenda. Pretende proteger os portugueses deles próprios. Por este motivo tem vindo a abusar do seu papel de intérprete da lei. Isso foi evidente quando a DGS pediu à ASAE para fiscalizar preferencialmente os raros locais que permitem o fumo. Este pedido, feito em público, teve o claro objectivo de intimidar os poucos empresários que criaram espaços para fumadores. Para a DGS, a lei deve ser especialmente severa para aqueles que permitem o fumo. O governo pelos burocratas é um governo paternalista, parcial e arbitrário.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Discurso do Santo Padre, Bento XVI, preparado para a visita à Universidade "la Sapienza"


Discurso Bento XVI La Sapienza by papinto

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

PM ou personal trainer?

07.01.2008, Público, Helena Matos
Durante o ano de 2007 foram várias as reportagens que nos prometeram mostrar "Sócrates por detrás do pano" ou dar "um olhar diferente" sobre o nosso primeiro-ministro. Sempre anunciadas como o "retrato do homem", tendo como objectivo a revelação do lado mais privado do primeiro-ministro, estas reportagens não revelam nada. Criam sim o portfólio de imagens e clichés que os líderes e demais protagonistas destas reportagens querem, gostam e precisam que os outros retenham deles.
No caso de Sócrates o nó da gravata, a caneta, os livros, a namorada... fazem parte dos tópicos obrigatórios destas viagens ao seu "lado humano". Estas encenações do privado e a capacidade de fazer os cidadãos acreditar que há sempre algo para descobrir é uma capacidade que alguns políticos têm e que todos desejam ter. Em abono da verdade acrescente-se até que Sócrates nem sequer é o líder nacional que mais ou melhor vantagem tem tirado desta velha técnica de propaganda.
Mas das imagens que Sócrates quer que fixemos dele há uma - a da corrida - que merece ser destacada, porque, para lá das referências óbvias a um perfil jovem, saudável, dinâmico e por vezes solitário que o primeiro-ministro quer transmitir de si mesmo, essa imagem de Sócrates enquanto corredor traduz muito daquilo que é a sua concepção do povo, do país e do poder.
Sócrates faz parte duma geração de políticos que não tem nem cultura nem experiência de vida: não foi exilado, não foi à guerra, não foi pobre, não perdeu tudo nem ganhou muito, não contestou nem arriscou. Faz parte duma geração que já não temeu pela vida, nem jurou dá-la. O saber não foi para ele um risco, uma paixão ou uma escolha. Sócrates já é do tempo em que o ensino deixou de ser um privilégio para se tornar obrigatório e por isso desvaloriza os diplomas. Dir-se-á que era tempo desta geração chegar ao poder. Claro que sim. Mas o que nos sobrou não foi um líder com convicções políticas ou um homem temperado pelos factos. Foi sim um produto da máquina partidária. E por isso Sócrates governa como corre: começou por correr 20 minutos, agora faz meia maratona. A própria concepção que tem do poder é a dum personal trainer. E o seu objectivo é transformar o país numa espécie de spa. Sócrates trocou o socialismo pela saúde. As polícias políticas pela ASAE e pelas balanças. Transformou os fumadores numa espécie de inimigo público. Os gordos virão a seguir. A cereja no topo do bolo foi o abaixamento do IVA para os ginásios, enquanto o custo de vida sobe e a carga fiscal atinge níveis sufocantes.
Na verdade, o país da rua, dos transportes, das pessoas comuns irrita e enoja o nosso primeiro-ministro. No país-spa de Sócrates o desemprego é um problema de velhos. As urgências hospitalares uma questão que apenas atrai mulheres de bata traçada desconhecedoras das vantagens da alimentação saudável. A única salvação que o primeiro-ministro parece entrever para os portugueses é o ginásio - e por isso os trata com desvelo fiscal - e os campos de golfe, resorts e projectos turísticos de luxo aos quais atribui o selo PIN para que sejam rapidamente aprovados e assim apaguem aquelas nódoas populares da paisagem. O projecto político de Sócrates não existe. Ele tem sim um método: estilizar-nos e através dos ditames do estilo governar.
E sobretudo Sócrates tem de correr, correr cada vez mais. Porque acredita que o impulso de cada uma dessas passadas se pode tornar no movimento perpétuo que o manterá no poder.

Um texto azedo: estaremos enganados ao defender a liberdade?

José Manuel Fernandes
07.01.2008, PÚBLICO
António Barreto esteve exilado. Vasco Pulido Valente conheceu por dentro, no ambiente familiar, o que implicava, e custava, discordar de Salazar. Francisco Pinto Balsemão lutou pela liberdade de imprensa num Parlamento onde a ideia de liberdade não morava. Miguel Sousa Tavares é filho do homem que, no Largo do Carmo, foi decisivo no 25 de Abril e da mulher do poema Não podemos ignorar.
Este fim-de-semana, no PÚBLICO e no Expresso, e também na SIC, todos se pronunciaram contra o ímpeto normativo - e impositivo - do actual Governo. Barreto foi ao ponto de se questionar sobre se José Sócrates não seria fascista, Balsemão chamou fascista à lei anti-tabagista e até vimos Vasco Pulido Valente a defender a liberdade de crítica da Igreja Católica e a interrogar-se sobre se o Bento XVI não teria razão quando disse que o catolicismo poderia ter de resistir quase clandestinamente.
Nenhum destes opinion makers possui razões especiais para se opor a Sócrates, se pensarmos apenas no que é a superfície da ideologia e da economia. Mas todos eles têm muito mais mundo, leram muito mais livros, passaram por experiências políticas muito mais intensas do que a "fatalidade" do défice ou a co-incineração. O que os leva então a este extremismo?

Há uma explicação simplista: são fumadores (nem sei se todos serão). Admito que, nalguns casos, isso possa ter tido alguma influência, apesar de ser mais o que os separa pessoalmente do que aquilo que os une. Mas se querem utilizar o argumento do fumo, então deixem-me juntar-me ao grupo, porque não sou nem alguma vez fui fumador. O tema, para mim, é secundário: o que me incomoda é o essencial do que escrevem, o núcleo do que está em causa. E esse essencial gira em torno do que o Estado pode e deve regular, de até onde o Estado pode ir.
O Estado, como deveria ser assumido por todos, vai até onde o deixamos ir. Como instrumento do poder político, segue a tendência de todos os poderes: tornarem-se irrestritos. Não é por acaso que o que distingue as democracias liberais das iliberais não é o império da lei (Salazar até o respeitava, só que as leis eram dele...), mas o princípio do governo limitado. Sem este princípio, as democracias tornam-se facilmente na imposição da vontade da maioria sobre a minoria. Ou, como escreveu Stuart Mill, por vezes nem é necessário que um governo queira impor a sua vontade: a própria sociedade pode castrar a diferença, logo a liberdade. A censura social chega a ser mais opressiva do que a perseguição de uma polícia.
Um exemplo protagoniozado pelo PÚBLICO: a forma como noticiou, distorcendo, a penalização a José Diogo Quintela por conduzir com álcool a mais no sangue. Não estando em causa a falta, empolar as consequências tornou-se tentador. Assim, o facto de ter preenchido os documentos no interior de uma carrinha da PSP transformou-se em detenção e, para quem só visse a fotografia, editada fora de contexto, em prisão.
Um erro transformou-se em muito mais do que isso, porque se gerou uma reacção de opróbrio social da qual o PÚBLICO tinha obrigação de se distanciar, ao contrário do que sucedeu. Uma reacção tão forte que acabou por interferir no princípio de secura e rigor do próprio noticiário.

Daí que tenhamos de condenar todas as leis ou movimentos sociais de que possa resultar a condenação sumária, e correspondente punição, de ideias, mas também de comportamentos, que mesmo podendo estar errados têm direito a existir.
Mas, se ninguém é senhor da verdade, a liberdade irrestrita não é, em nenhuma circunstância, boa conselheira. Daí que Stuart Mill tenha temperado algumas das suas opiniões por influência de Samuel Taylor Coleridge (um poeta e filósofo sobre o qual escreveu um longo ensaio) e integrado elementos conservadores que o distanciaram claramente do ideal jacobino de criar um "homem novo", ou uma "ordem social nova", ao reconhecer que os sistemas sociais tinham virtudes que asseguravam a sua longevidade. Daí que nesse ensaio On Coleridge tenha escrito que "um Estado nunca poderá, nem deve esperar poder, pelo menos enquanto não ocorrer uma profunda mudança na humanidade, livrar-se por muito tempo da dissensão interna".
Claro que se pode tentar mudar esta situação mudando o homem, como fizeram os totalitarismos do século XX, ou considerar que esta dissensão é, em si mesma, um princípio de liberdade e progresso, colocando então o pluralismo de opiniões entre as virtudes sociais, como fez Isaiah Berlin.
Ora, e disso estou certo, se estivermos com Isaiah Berlin, não estaremos enganados a defender a liberdade.

'Ó PORTUGAL HOJE ÉS NEVOEIRO...'

João Luís César das Neves, DN 080107
São já evidentes os sinais que o consulado Sócrates deixará na vida nacional. O País está diferente, muito diferente. Mais sombrio, mais confuso, mais medroso. Deve ser dito em seu abono que isto não vem dos propósitos do Governo. Os ministros ficam confusos com o escorregar insensível do sistema, empurrado não por políticas, mas por danos colaterais.
José Sócrates, edição revista e corrigida de António Guterres, eliminou o aspecto bonacheirão e incompetente e introduziu um ar mais dinâmico e cuidadoso. Sob a obsessiva maquilhagem mediática tem tomado medidas importantes e obtido resultados significativos. Mas sempre perplexo com a teimosa paralisia da economia, causada por três elementos que corroem o tecido nacional.
Primeiro, a austeridade atabalhoada. A derrapagem de Guterres e sucessores impunha o rigor financeiro, que o Governo abraçou com coragem e sem convicção. Foram conseguidos resultados no Orçamento, mas tratando os sintomas, não a doença. Cortou-se onde se podia, não onde se devia. Enfrentaram-se os interesses instalados, sem os deslocar. O buraco está só oculto. Ressurgirá. Entretanto sacrificam-se instituições, quebram-se equilíbrios, mina-se a moral dos serviços. A administração ficou mais rude, a solidariedade mais burocrática, a sociedade mais desigual.
O sinal está nos números. Declarações firmes, cortes arrojados e protestos ruidosos apregoam que vivemos em abstinência. Mas em quatro anos (de 2005 ao previsto para 2008) a despesa global da administração pública aumentou um total acumulado de 15%, a despesa corrente primária 21%, as receitas fiscais 26%. O défice desceu espremendo a economia.
Segundo elemento, a tentação totalitária. Com a maioria absoluta e os resultados das sondagens o atávico apetite dirigista dos socialistas tornou-se irresistível. Os objectivos são meritórios, da luta contra a evasão fiscal, aquecimento global e tabagismo à protecção da cultura, sociedade laica e segurança nas estradas. O resultado é uma intolerável intromissão regulamentar, maníaca inspecção e generalizada desconfiança. Repetem-se as provocações patetas à Igreja e tradição. O Governo sacrifica a liberdade no altar da esterilização. Está abafado viver em Portugal.
O símbolo aqui é a homérica entrevista do director da ASAE ao semanário Sol (29/12/2007). Julga-se funcionário zeloso mas é caricatura alimentícia da Gestapo. Embriagado de estatísticas e regulamentação europeia, ignorante da realidade económica e insensível às consequências sociais, ergue-se como bloqueio fundamentalista e arrogante ao progresso e iniciativa empresarial. Num país vivo seria preso. Neste paroxismo boçal já se vê condecorado.
Terceiro elemento, a deriva corporativa. Fala-se de compadrios e corrupções, acusa-se a influência surda da Maçonaria. Acima de tudo é palpável o crescente senhorio de uma nomenklatura pós-moderna instalada nos corredores do poder.
A saga do BCP manifesta este traço. O Governo é inocente na calamidade daquela que permanece uma empresa por acções. Mas o efeito final, qualquer que seja, significa a captura de um centro de decisão nacional por quadros do PS ou PSD. Um dos poucos poderes independentes da sociedade civil caiu na rede da actual nobreza suburbana.
Discursos e estatísticas animam Portugal, mas os êxitos e perspectivas são tão artificiais quanto os sonhos do plano tecnológico e a charada do novo aeroporto. Só existem lucros sob o halogéneo dos centros comerciais, porque a ilusão da austeridade, a tentação totalitária e a deriva corporativa afundam a economia no marasmo sorridente.
Como símbolo global da legislatura ficará o Tratado de Lisboa. Um diploma incompreensível e sem significado que embrulha a realidade intrincada num consenso aparente. A presidência portuguesa, sem nenhuma agenda fora do circo diplomático, ainda está convencida que aquela grotesca palhaçada foi um sucesso. O sorriso tolo da foto de família consagra a mediocridade europeia. Atrás vê-se "este fulgor baço da terra que é Portugal a entristecer".