terça-feira, 30 de setembro de 2008

O caso 'Lisboagate' e a cultura da cunha

Diário de Notícias, 20080930

João Miguel Tavares
Jornalista - jmtavares@dn.pt

A cunha tem muito que se lhe diga. Toda a gente está disposta a condená-la e a apontá-la como uma das causas do atraso de Portugal, mas poucos, na prática, passam sem ela. Se Jesus, em vez de frequentar as terras de Israel, tivesse pregado nas margens do Tejo, teria dito à multidão em fúria: "Quem nunca meteu uma cunha que atire a primeira pedra." E aí todos baixariam a cabeça, começando pelos mais velhos, e iriam apedrejar para outra freguesia. É que a cunha não é um acto de corrupção, como enfiar notas na mão de um autarca. É, de forma bem mais cândida, driblar a máquina burocrática, pedir pequenos favores para o primo que é óptimo rapaz, tentar muitas vezes ajudar quem efectivamente precisa ou, como se diz na minha terra, ter um simples "olhamento".

Mas, claro, de cunhas bem-intencionadas está o inferno cheio. Veja-se o caso "Lisboagate". As primeiras notícias divulgadas pelo DN ainda vinham acompanhadas de um halo de santidade. Os abusos na atribuição de casas pela autarquia eram, afinal, justificados pelas melhores razões: do Presidente da República à esposa do primeiro-ministro, todos metiam cunhas e pediam casas, mas sempre a favor do pobrezinho desamparado. A cunha, boa parte das vezes, não beneficia directamente o próprio e é feita com o argumento de reparar uma injustiça. O problema é que, sem a existência de regras claras e justas, passa a haver uma espécie de fotogenia da pobreza: beneficiam aqueles que melhor comoverem os poderosos. Claro que atrás do pobre vem o motorista do Presidente que mora longe, coitado, e atrás do motorista vem a funcionária que se divorciou e não tem para onde ir, e atrás da funcionária vem o filho da funcionária, que também é filho de Deus.

A partir daí, nessa avalanche de cunhas e favores cabe tudo, e tudo se mistura. Quando o caso "Lisboagate" atinge um nome como o de Baptista-Bastos, é porque algo está podre no reino da Dinamarca. Numa breve troca de mails, Baptista-Bastos negou-me ter tido qualquer comportamento "reprovável" e eu não tenho qualquer razão para pôr em causa a sua verticalidade. Mas também não tenho dúvidas de que ele jamais deveria ter recorrido à câmara para conseguir uma casa. O escritor Baptista-Bastos, que já tanto deu a Lisboa, podia ter direito a ser ajudado numa altura de dificuldade, como parece ter sido o caso. O jornalista Baptista-Bastos, não. Porque pediu um favor ao poder autárquico. Porque auferiu de um privilégio vedado ao cidadão comum. Que alguém que sempre foi tão moralmente exigente nos seus artigos de imprensa não perceba isto faz-me confusão. Quem, como ele, acredita na nobreza do jornalismo, tem de reconhecer uma cunha quando a vê.
E, sobretudo, deve reconhecê-la quando a mete.

30 de Setembro - S. Jerónimo

CARAVAGGIO
S. Jerónimo
1605-06
Óleo sobre tela,
118 x 81 cm
Mosteiro, Montserrat

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Arrojo de Leão

O Inimputável
20080929, Pedro Afonso
Na sequência das alterações da Lei do divórcio e da introdução do projecto legislativo do casamento dos homossexuais, tenho lido e escutado que muitos daqueles que se identificam com o modelo de “família conservador” entendem com resignação de que a causa que defendem está perdida. Ou seja, na actual sociedade, mais cedo ou mais tarde o tecido familiar romper-se-á definitivamente, não havendo nada a fazer para contrariar este fenómeno. É somente uma questão de tempo.
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Pactos de silêncio

Jornal de Notícias, 29.09.2008
Mário Crespo

No Outono de 1989 conduzi na RTP os debates entre os candidatos a Lisboa. O grande confronto foi PS/PSD. Duas candidaturas notáveis. Jorge Sampaio, secretário-geral, elevou a política autárquica em Portugal a um nível de importância sem precedentes ao declarar-se candidato quando os socialistas viviam um dos seus cíclicos períodos de lutas intestinas. O PSD escolheu Marcelo Rebelo de Sousa.
No debate da RTP confrontei-os com a fotocópia de documentos dos arquivos do executivo camarário do CDS de Nuno Abecassis. Um era o acordo entre os promotores de um enorme complexo habitacional na zona da Quinta do Lambert e a Câmara. Estipulava que a Câmara receberia como contrapartida pela cedência dos terrenos um dos prédios com os apartamentos completamento equipados. Era um edifício muito grande, seguramente vinte ou trinta apartamentos, numa zona que aos preços do mercado era (e é) valiosíssima. Outro documento tinha o rol das pessoas a quem a Câmara tinha entregue os apartamentos. Havia advogados, arquitectos, engenheiros, médicos, muitos políticos e jornalistas. Aqui aparecia o nome de personagem proeminente na altura que era chefe de redacção na RTP.
A lista discriminava os montantes irrisórios que pagavam pelo arrendamento dos apartamentos topo de gama na Quinta do Lambert. Confrontados com esta prova de ilicitude, os candidatos às autárquicas de 1989 prometeram, todos, pôr fim ao abuso. O desaparecido semanário Tal e Qual foi o único órgão de comunicação que deu seguimento à notícia. Identificou moradores, fotografou o prédio e referiu outras situações de cedência questionável de património camarário a indivíduos que não configuravam nenhum perfil de carência especial. E durante vinte anos não houve consequência desta denúncia pública.
O facto de haver jornalistas entre os beneficiários destas dádivas do poder político explica muito do apagamento da notícia nos órgãos de comunicação social, muitos deles na altura colonizados por pessoas cuja primeira credencial era um cartão de filiação partidária. Assim, o bodo aos ricos continuou pelas câmaras de Jorge Sampaio e de João Soares e, pelo que sabemos agora, pelas câmaras de outras forças partidárias. Quem tem estas casas gratuitas (é isso que elas são) é gente poderosa. Há assessores dispersos por várias forças políticas e a vários níveis do Estado, capazes de com uma palavra no momento certo construir ou destruir carreiras. Há jornalistas que com palavras adequadas favoreceram ou omitiram situações de gravidade porque isso era (é) parte da renda cobrada nos apartamentos da Quinta do Lambert e noutros lados. O silêncio foi quebrado agora que os media se multiplicaram e não é possível esconder por mais vinte anos a infâmia das sinecuras. Os prejuízos directos de décadas de venalidade política atingem muitos milhões.
Não se pode aceitar que esta comunidade de pedintes influentes se continue a acoitar no argumento de que habita as fracções de património público "legalmente". Em essência nada distingue os extorsionistas profissionais dos bairros sociais das Quintas da Fonte dos oportunistas políticos que de suplicância em suplicância chegaram às Quintas do Lambert. São a mesma gente. Só moram em quintas diferentes. Por esse país fora.
MÁRIO CRESPO, JORNALISTA
publicado a 2008-09-29 às 00:30


As pensoes e a bolsa

PÚBLICO, 29.09.2008, António Bagão Félix

O secretário-geral do PS lança um anátema sobre os mercados e abusa da ignorância geral sobre estas matérias

No comício de Guimarães, o secretário-geral do PS, José Sócrates, disse, no agora estilo venezuelano, que, ao contrário da direita, não permitirá que as pensões sejam "jogadas na Bolsa".
Sei que em ambiente de comício devemos dar algum desconto ao que se diz. Mas, tratando-se do líder socialista que é também chefe do Governo, é desejável esperar algum cuidado, sobretudo quando são abordados temas tão sensíveis como são as pensões dos portugueses e o mercado de capitais.
Ora, a afirmação produzida, no meio do deslumbramento mediático de que tanto gosta, é perigosa, primária e politicamente pouco honesta.
Ninguém até hoje propôs um regime de pensões baseado na pura capitalização, nem mesmo na dita direita política tratada, aliás, pelo SG do PS como um todo monolítico. O que sempre se propôs, embora com cambiantes, é que uma parte complementar das pensões pudesse ser gerada fora do sistema público. A Lei de Bases da SS de 2003, entretanto revogada pelo executivo, estipulava tão-só a possibilidade (que não a obrigatoriedade) de, acima de um determinado salário, se poder descontar para um regime privado. Há dois anos, o PSD falava na possibilidade de parte dos descontos poder ser encaminhada para um regime de capitalização e o CDS retomou a proposta de opting-out parcial e complementar. O próprio PS, através do Governo Guterres no qual Sócrates era ministro, legislou prevendo essa opção depois de acolher a proposta do Livro Branco da Segurança Social de Correia de Campos. Aliás, os regimes complementares de capitalização existem em quase todos os países da União Europeia, em particular no Reino Unido e, desde há anos, na tão socialista Suécia, sem que se ouvisse um dislate destes e sem que as pensões nestes países estejam em causa.
Por outro lado, José Sócrates finge ignorar as sérias vulnerabilidades económicas e demográficas do actual modo de financiamento das pensões através da chamada repartição, o que, aliás, tem conduzido a uma diminuição real das prestações sociais. Nenhum método de financiamento é imune a riscos (mercado, demografia, economia) e daí as vantagens da sua conjugação.
E - pior - ignora ou finge ignorar que, para o cálculo e segurança do valor das pensões, se tem que considerar longos períodos de 30 ou 40 anos e não analisar apenas um instante ou mesmo um ciclo económico. É tão irresponsável dizer que a capitalização é um logro porque se está num período de crise, como igualmente é dizer o contrário, isto é enaltecer em excesso este regime, porque se está num dado momento de euforia bolsista.
Demagógica e perigosamente, procurou lançar a ideia da total perversão do mercado de capitais, deixando-se inebriar pelo fascínio mediático de tomar a nuvem por Juno e de, consequentemente, dar a entender ao comum dos mortais que no mercado financeiro tudo é maldito e semelhante ao jogo de roleta de casino.
Foi incoerente porque assim como fala tão criticamente do "jogo da bolsa" tem lançado OPV e privatizações na mesmíssima bolsa que agora diaboliza, fazendo entusiasticamente a apologia do sucesso e do futuro promissor das "aventureiras" empresas.
Foi ainda incoerente porque "esquece" que no nosso regime público de pensões há - e bem - o Fundo de Estabilização Financeira que lhe serve de almofada de segurança a médio e longo prazos e que, funcionando em regime de capitalização, "joga na Bolsa", para utilizar a expressão de Sócrates. Este fundo atingia em Dezembro do ano passado 7,560 mil milhões de euros, dos quais 1,5 mil milhões investidos nos EUA e Japão, além do investido em offshore (!) como, há meses, o Governo reconheceu custosamente. Curiosa ironia: a de ser um fundo de capitalização (pelos vistos, odiosa para o PM) a garantir alguma segurança no pagamento das futuras pensões do Estado!
Mais: gostaria de saber por que razão o Governo institui os chamados PPR públicos (para descontos entre 2 a 6% dos salários) que também investem em títulos de bolsa? E por que razão estes certificados de reforma não têm as regras de solvência e supervisão que se exigem no mercado? E por que razão previu o Governo a contratualização da sua gestão com entidades do sector privado? E por que se voltaram a dar incentivos para a compra de PPR dos bancos e seguradoras que também jogam na maldita bolsa? E por que diminuíram (até retroactivamente) as condições de remuneração dos tão conservadores certificados de aforro empurrando os aforradores para outras alternativas, incluindo a "roleta bolsista"?
O secretário-geral do PS quis fazer surf na perigosa onda da crise que assola os mercados monetários e financeiros. De leitura apressada e análise precipitada, lança um anátema geral sobre os mercados, atira-se não à doença e suas causas mas ao mercado em si, ignora a sua obrigação de não contribuir para minar a confiança, tem o mau gosto de fazer politiquice interna à custa do que se passa lá fora, abusa da ignorância geral sobre estas matérias. Corre o risco da prancha lhe cair em cima.
Economista. Ministro da Segurança Social e do Trabalho do XV Governo e ministro das Finanças do XVI Governo

A NORMALIDADE DO PÂNICO

Diário de Notícias, 20080929

João César das Neves
Professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Apalavra mais usada na economia mundial é "pânico". O termo é adequado, mas a circunstância não é anormal. A presente crise nada tem de extraordinário. Como os furacões que assolam regularmente a costa americana, o susto da catástrofe é duro mas não deve gerar previsões drásticas ou medidas radicais. Enfrentado o tufão, reconstrói-se e regressa-se ao normal.A moeda é uma entidade única, de valor artificial. Simplesmente acreditamos que aquele papel vale o que diz. Já Aristóteles afirmava: "A moeda tornou-se, em virtude de uma convenção, um meio de troca para tudo o que nos faz falta... Ela é uma instituição, não natural, mas legal" (Ética a Nicómaco V, 5, 1133a.28-31). O dinheiro só vale enquanto dissermos que vale. Todos os bens ganham valor a partir da sua utilidade, mas a moeda, que não satisfaz directamente nenhum desejo humano, depende apenas da confiança que temos nela.Hoje quase toda a circulação monetária é bancária. Consideramos equivalente o dinheiro no bolso e o que movimentamos com cartões e cheques. Mas este, que em Portugal é 90% do total, depende da solidez do banco que o emite. Assim como a moeda, um banco apenas se aguenta enquanto os clientes acreditarem nele.A conclusão destes dois factos é que toda a actividade monetária e financeira depende essencialmente de um factor, a confiança. A divisa mais forte e o banco mais sólido desaparecem em minutos se deixarmos de acreditar neles. Ora a confiança é um bem muito volátil. Por maior que seja a sofisticação técnica e a análise económica, uma dúvida forte constitui vírus fatal para qualquer sistema financeiro.Esta é a razão das catástrofes que de tempos a tempos devastam a paisagem económica e, como os fogos na savana, ajudam a limpar o terreno. Eles nascem sempre de erros, imprudências, tolices. Mas é inevitável que por vezes tais deslizes aconteçam. E à medida que se alargam os mercados e aprofunda a inovação os riscos aumentam, a par das oportunidade e vantagens para o desenvolvimento.Infelizmente existe um fatal desequilíbrio na apreciação popular do sector. Quando os negócios prosperam, todos condenam os lucros astronómicos da banca, e ninguém diz que eles advêm da grande utilidade do crédito para a vida dos cidadãos. Chegada a crise, com perdas astronómicas (que os ganhos anteriores compensam), ninguém lamenta as vítimas bancárias, aliás acusadas da derrocada. Assim, corra bem ou mal, os financeiros saem mal. Afinal o devedor gosta do crédito, mas detesta pagá--lo. As finanças viverão sempre debaixo do desprezo da sociedade, que tanto ganha com a sua sofisticação.A presente crise, embora das mais fortes da história, é paralela a milhares de outras. A dimensão dos mercados envolvidos é impressionante, mas a situação até é benigna, comparada, por exemplo, com os desastres no Leste da Europa há 20 anos. Além disso, enfrentada pelas autoridades monetárias, têm-se evitado danos reais sérios. Aliás, a economia produtiva continua a crescer.A estratégia é difícil de aplicar mas fácil de definir: as instituições imprudentes são castigadas, acautelando sempre a sustentação do sistema. O banco central tem todos os instrumentos necessários para o garantir. Essas armas vão até à nacionalização temporária, aqui sem as implicações ideológicas do resto da economia. O Governo não está a dominar Wall Street. Apenas acalma os espíritos. É essencial evitar que dúvidas sobre bancos particulares passem para a moeda que todos usamos. Isso exige traçar uma linha controversa entre as instituições que podem falir e as que, por criarem contágio global, são consideradas grandes demais para morrer. Em ambos os casos, porém, os gestores e accionistas envolvidos devem perder. Entretanto, no mercado, quem mantiver a cabeça fria fica rico.A Bíblia, Alcorão, até Shakespeare avisam que devemos "nem credor nem devedor ser" (Hamlet, acto I, cena III). A sociedade do progresso e consumo eliminou o estigma negativo do crédito, mas estes episódios manifestam a sabedoria pragmática dos antigos.

domingo, 28 de setembro de 2008

Inverno Demográfico

Pedro Vaz Patto
O Inimputável, 20080928
Inverno Demográfico: o problema. Que repostas? Um colóquio com este título, organizado pela Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, decorreu ontem no auditório do edifício novo da Assembleia da República.Políticos e sindicalistas de vários quadrantes, e também pessoas com responsabilidades no Governo e noutros órgãos de soberania, parecem conscientes da gravidade do problema que representa uma queda de natalidade sem paralelo na História, estão de acordo quanto ao diagnóstico e quanto à urgência de tomar medidas para o contrariar. Uma consciência e um consenso que não existiam ainda há não muito tempo. E também quanto a algumas medidas nesse sentido, parece haver algum consenso.
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A promiscuidade entre jornalismo e publicidade

O Inimputável, 20080928

O jornal Expresso na edição desta semana apresenta, a ocupar quase metade da primeira página, uma fotografia com uma notícia (?) de que em breve “Os Gatos Fedorentos” irão estrear um novo programa. A passagem subliminar de publicidade − neste caso de auto-publicidade visto que a SIC faz parte do grupo Impresa, ao qual também pertence o Expresso − por notícia é uma situação que considero ofensiva para os leitores. A razão é simples: o jornal é pago, e quem o compra parte do pressuposto de que está a adquirir um jornal sério, isento, informativo, e não manipulativo.
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sábado, 27 de setembro de 2008

Não há talentos grátis

Expresso, 20080927
António Pinto Leite

Cada empresa portuguesa, assim como Portugal como país, deve perguntar-se: onde estaremos daqui a dez anos com a gestão do talento que hoje fazemos?
As comunicações atenuaram as distâncias de tal modo que a geografia deixou de ser o factor competitivo que antes foi.
O capital é relevante, mas em campeonatos homogéneos não faz a diferença.
As máquinas ainda são importantes em muitos sectores, mas a boa gestão pode compensar a diferenciação competitiva que daí resultaria.
A geografia, o capital e a máquina foram substituídos por outro activo diferenciador, pelo talento. O factor competitivo que faz a diferença na economia de hoje é o talento.
O talento sempre fez diferença, hoje faz toda a diferença.
O talento é um bem escasso, o talento é um bem por desenvolver.
O talento é um bem escasso, como uma matéria-prima essencial. Consegui-lo, mantê-lo e desenvolvê-lo é o desafio mais importante das organizações modernas de alto desempenho.
Mesmo ao nível de uma nação, reter os seus próprios talentos e atrair talentos estrangeiros é uma estratégia crítica para a sua afirmação e para o seu sucesso.
A justiça social depende da produção de riqueza, a produção de riqueza depende de empresas competitivas, as empresas competitivas dependem do talento e a atracção do talento depende de uma cultura de mérito. Assim, uma política de atracção de talentos e de promoção de uma cultura de mérito é, em si mesma, uma política de justiça social.
Os estudos demonstram que as organizações com fraca gestão do talento apresentam resultados significativamente inferiores àquelas que gerem estrategicamente o talento.
Ao nível de um país é igual: um país sem mentalidade de mérito e sem gestão do talento - do sistema educativo básico à exigência universitária, do ambiente familiar ao discurso político - perderá os seus próprios talentos.
O talento alimenta-se de desafios e um país sem desafios estimulantes desinteressa os talentos. Não há talentos grátis.
O talento é um bem que se desenvolve. É um dom, uma característica inata, mas é sempre um diamante por lapidar.
O desenvolvimento competitivo do talento depende de toda a organização estar entranhada e envolvida nesse desafio.
Nas organizações fortes, a gestão do talento é uma responsabilidade assumida por todos; nas organizações em perda, a gestão do talento é uma tarefa dos Recursos Humanos. Nas organizações fortes, os sistemas de avaliação identificam e premeiam o talento, mas também quem melhor gere o talento; nas organizações em perda, os sistemas de avaliação não enfrentam esta questão e são frágeis a promover distinções.
Nas organizações em perda, a liderança das pessoas segue rotinas, vê o que acontece em vez de fazer acontecer, administra e organiza mais do que lidera e atrai. Nas organizações fortes, a liderança das pessoas é atribuída a pessoas inspiradoras, com sentido estratégico, com mente forte e capazes de ser saudavelmente incómodas. Numa interessante expressão inglesa, pessoas «impact-oriented».
Cada empresa portuguesa, assim como Portugal como país, deve perguntar-se: onde estaremos daqui a dez anos com a gestão do talento que hoje fazemos?

Eles e nós

Expresso, 080930
João CarlosEspada
jcespada@netcabo.pt

A crise terá os seus responsáveis. Mas é uma crise do nosso, sublinho nosso, sistema de mercado
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É com alguma surpresa que venho observando o novo desporto nacional de alguma opinião publicada: o ataque puro e duro, muitas vezes em simples regozijo, ao chamado “capitalismo financeiro americano”, que é taxativamente tratado como “eles”. E “eles” seriam responsáveis pela crise que estão a produzir sobre “nós”.
Não sei se é um atavismo herdado de 48 anos da superior liderança do dr. Salazar, em que se falou do “orgulhosamente sós”, ou se uma nostalgia do “Povo Unido com o MFA”, em que se falava do “caminho português para o socialismo”. Francamente, não sei. Mas é um bocado aborrecido. E ligeiramente preocupante.
A crise terá os seus responsáveis e já lá iremos. Mas é uma crise do nosso, sublinho nosso, sistema de mercado. Este é o melhor sistema que até agora conhecemos para colocar a economia ao serviço dos consumidores, isto é, das pessoas comuns, e não ao serviço dos produtores ou fornecedores. Este é o nosso sistema, sobretudo característico do Ocidente, e devemos sentir-nos orgulhosos dele. É ele que basicamente gerou o nível de vida, indiscutivelmente o mais elevado, do Ocidente. É esse sistema que os imigrantes procuram quando vêm para cá. E, na Ásia, é a introdução de mecanismos de mercado que explica o enorme crescimento económico que está a ocorrer.
Perante a grave crise financeira que está em curso, parece que a reacção normal seria de preocupação, não de regozijo. Quando o nosso navio encalha, a primeira preocupação é salvá-lo, não é culpar o comandante. A seguir, naturalmente, vamos analisar as responsabilidades.
Elas são muito complexas, como tem sido observado pelos conhecedores dos mercados financeiros. Houve falhas graves de regulação, é bem patente, sobretudo no que respeita aos chamados “produtos tóxicos”. Também tem sido dito que alguns dos sectores mais afectados, como os grupos Fannie Mae e Freddy Mac, estavam artificialmente protegidos da concorrência. Por outro lado, a expectativa de protecção governamental terá levado alguns bancos em colapso a não quererem vender as suas acções severamente desvalorizadas.
Um sistema de mercado funda-se na liberdade e na correspondente responsabilidade. A utilização de dinheiros públicos para salvar empresas privadas é uma medida absolutamente excepcional. É justificável, devido à imensa dimensão da crise. Mas talvez tivesse sido melhor usá-los para proteger exclusivamente os depositantes e os segurados, não os accionistas e gestores. Em qualquer caso, o importante agora é restaurar liquidez e a confiança dos mercados.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Escola de Oracao: mudança de local e recomeço

Escola de Oração

Mudança de local:

de S. Nicolau para o auditório das

Irmãs Vicentinas do Campo Grande

Av. Marechal Craveiro Lopes, 10

(Entrada do Campo Grande para a Segunda Circular, sentido sul/norte: tomar bifurcação à direita. Em frente, pode-se entrar com o carro no portão: dentro, há espaço para estacionar.

Metro: Campo Grande; Autocarros: todos os que passem na zona norte do Campo Grande)

Recomeça a 6 de Outubro 2008

Primeiras e terceiras segundas-feiras de cada mês

das 21.15 às 22.30

O Programa 2008/2009 será brevemente divulgado na íntegra

Título Geral

Um mergulho no Evangelho

As duas primeiras sessões:

I – 06.10.2008 – O mais alto nível de existência: a utopia cristã

P. Luís Rocha e Melo

«Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai do céu» (Mt 5, 48). «Aos homens é impossível; mas a Deus tudo é possível» (Mt 19, 26).

II – 20.10.2008 – Santidade e simplicidade: «sê tu próprio»

P. Luís Rocha e Melo

«Deus fez-se homem para que o homem seja divinizado» (Santo Ireneu). Importância e relatividade do presente

(1 Cor 7, 29-31).

Crónica sem tema

PÚBLICO 26.09.2008, Graça Franco

A ERC existe apenas para atazanar o juízo de empresas e jornalistas ou serve também para defender o cidadão indefeso?

Fiquei sem crónica. Há dias assim. Foi quarta de manhã. Limite dos limites para conseguir um bom tema, devidamente "virgem" no panorama "cronístico" nacional, estruturado q.b. e susceptível de ser tratado em seis mil caracteres e naquelas quatro a cinco horas que se prolongam entre as dez da noite e as três da madrugada de quinta-feira (dia D do envio deste texto para publicação neste jornal). Andava eu, como sempre, coligindo material criteriosamente, dia após dia, exemplo atrás de exemplo, na esperança de conseguir arrasar o regulador com a minha argumentação, forçando-o a lançar-se numa cruzada cívica pela limpeza do nosso espaço audiovisual, e eis senão quando, zás! Fiquei sem tema.
Tinha até já a preciosa opinião de um universitário insuspeito de qualquer conservadorismo (o professor Manuel Pinto da Universidade do Minho) que, num notável texto do digital Página 1 de terça-feira, já analisava a questão e a cuja argumentação pensava recorrer para tornar mais sólida a minha tese, expurgando-a de qualquer animosidade em relação à acção reguladora, por mim criticada, de forma quiçá excessiva, desde a peregrina ideia da sua criação, ainda nos te=mpos de desvario do governo do dr. Morais Sarmento.
O prof. Pinto goza do prestígio académico reservado às figuras que conseguem um precioso mix entre natural sabedoria/cultura e bom senso, tornando-o dificilmente atacável. Isso garantia um pluralismo de pontos de vista sempre útil nestas coisas que mexem com senso comum, interpretação do quadro legal disponível e função da regulação.
Para cúmulo tinha até discretamente corrido o risco de utilizar o Meo colectivo, cá de casa, para gravar às escondidas (e ver à socapa e a desoras...) o programa. Evitava desta forma o embaraço de ser apanhada por uma das crianças a ver, em pleno horário nobre, um "concurso" onde ao concorrente, e estando presente a respectiva família (pais, sogros, filhos, amigos e rancho folclórico lá da freguesia), em vez de se perguntar "qual é o preço daquela máquina de lavar?" ou "quantas sílabas tem a palavra a-nal-fa-be-to?" ou ainda "quantos rios cruzam a cordilheira dos Andes?" ou, nas versões mais cultas tipo RTP2, "quais os rios do hemisfério Norte, em que as águas fluem, nos dias de intenso calor, no sentido este-noroeste?" se perguntam coisas muito mais excitantes do estilo "por 250 mil euros seria capaz de manter relações homossexuais?" ou "já traiu o seu marido?" (sentado... a vê-la, contorcendo-se na esperança de que com um "sim!" você acabe de conseguir "sacar" mais uns euros...) ou "já teve vergonha dos seus pais?" (veremos se, com a sua resposta, sobrevivem a um ataque cardíaco, ideal para aumentar ainda mais a audiência...) ou ainda, aquela pérola, "já bateu na sua mulher?" (a ver se é desta que alguém sai do estúdio directamente para os calabouços da PJ devidamente enquadrado por dois polícias de bigode retorcido, por ter confessado, "no ar", um crime público). Azar! Neste caso o homem foi salvo pelo gongo de uma filha em clímax de angústia.
Pois, dizia eu, tinha até já gravado discretamente o programinha para não ter de explicar a ninguém que aquele telelixo estava gravado com estritos fins de realização de um trabalho científico sobre o estado a que isto chegou... andava por isso eu neste afã e... zás. Abro o JN e que vejo eu? Um textinho glosando o mesmo tema, exibindo grosso modo o mesmo argumentário, espelhando o mesmo nojo miudinho pela coisa, a mesma visceral repulsa, o mesmo asco pela exploração escandalosa dos mais frágeis.
Pior. O dito poderia ser assinado por alguém que a contragosto eu pudesse citar, ao jeito magnânimo de quem, embora utilizando uma ou outra bengalinha intelectual originária dos neurónios de outro, não está disposto a abdicar da produção intelectual própria sobre o tema.
Mas quem assinava o dito? Nada mais, nada menos, que o dr. Azeredo Lopes. Ele mesmo. O presidente do órgão regulador. Última instância de apelo nestas matérias.
E aqui está o dilema: ainda que a minha argumentação pudesse ser brilhante, o texto ficou automaticamente sem fim. Como é sabido, um texto com começo e sem fim é simplesmente impublicável e, ainda que o não fosse, sem um belo e suculento fim, qualquer prosa é simplesmente um fracasso.
O dr. Manuel Pinto pode terminar o seu artigo de forma clara e brilhante: "O limiar do bom senso e do bom gosto não pode ser diverso conforme se trate de figurões ou de zés-ninguéns. Mas é mais grave quando a ambição da fama ou da riqueza leva algumas pessoas a passar por cima da sua própria dignidade e da dignidade dos seus. Aí é ao canal que cabe intervir. E, se o não faz - e está à vista que o não faz -, é à audiência e a quem cabe o poder regulador. Calar é consentir."
Eu imaginava um fim mais modesto, no estilo positivo do "resta-nos uma esperança... que a ERC não cale! E mostre finalmente que existe, não apenas para atazanar o juízo de empresas e jornalistas, mas para defender o cidadão indefeso dos abusos de poder de quem não tem outra referência ética para além de uma sórdida política de audiências e que, sem olhar aos fins, abusa dos meios que são propriedade de todos nós" (o espaço audiovisual é público e cedido pelo Estado em simples concessão!).
Mas eis que até esta modéstia se torna tonta perante a prévia declaração de impotência do visado. Afirma Azeredo Lopes para que fique registado: "É minha convicção, pelo menos numa análise inicial, que o programa O Momento da Verdade não viola a lei. É também minha convicção que a lei não deve proibir este ou programas congéneres [os tais que o autor considerava linhas antes que se dedicavam a "uma forma simbólica de prostituição"!]. Mas não estou menos convicto de que isso não me impede de dizer o que penso, até com veemência, sobre aquela coisa."
Ou seja, garante o regulador, enquanto "regulado", estar convicto não dever coarctar a sua própria liberdade de expressão. Menos mal, nos tempos de hoje a dúvida é a tal ponto legítima que o próprio teve necessidade de a esclarecer com os seus próprios botões.
Sinto-me assim livre para fazer meus os seus argumentos: "O que me incomoda profundamente no programa (...) é a circunstância de ali se assistir à exploração da parte mais fraca e até indefesa."
"A defesa dos direitos fundamentais de outrem não é moralista nem deixa de ser, não é de esquerda ou de direita. Não é sequer, em sentido lato, ideológica. Radica antes na convicção de que, numa sociedade democrática, plural e aberta, a defesa da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e, como no caso, da liberdade de programação da SIC não impõe o silêncio." Nem mais.
E o texto segue num lamento (assumindo-se o autor como "certamente antiquado" e pedindo por isso desculpa aos seus leitores). Quase apetece consolá-lo. Quem sabe, talvez enquanto intelectual (despida a veste de regulador) possa o professor juntar a sua voz a outras (entre os quais modestamente me incluo), e sejamos capazes de pressionar os seus colegas de conselho para que sugiram ao legislador a alteração da lei. E, quem sabe, se consegue, no futuro, que um outro regulador, sucedendo-lhe no cargo, possa efectivamente regular este mercado selvático onde programas como este vão minando a solidez do tecido social, desprezando a dignidade humana, rebaixando o clima sociocultural do estado a que isto cada dia, mais e mais, já chegou!
Jornalista

Cristofobia

RR on-line, 20080926

Esta onda de ódio contra os cristãos – agora dada a conhecer na Índia – verifica-se também noutros países, nomeadamente no Paquistão, Iraque e Vietname.
Finalmente, depois do Papa, o Parlamento Europeu quebrou o silêncio da comunidade internacional:Está em curso uma onda de Cristofobia em vários Estados da Índia e ninguém faz nada em defesa dos cristãos. Só no Estado de Orissa, foram já assassinados 37 cristãos. Dezenas de Igrejas foram profanadas, mais de quatro mil casas destruídas e 50 mil fiéis fugiram para campos de refugiados ou estão escondidos na floresta.Esta onda de ódio contra os cristãos – agora dada a conhecer na Índia – verifica-se também noutros países, nomeadamente no Paquistão, Iraque e Vietname. A opinião pública ocidental, os políticos e intelectuais têm andado entretidos com outros assuntos… “Mais depressa se preocupam com o futuro dos ursos polares do que com a vida ameaçada de milhares de cristãos”, disse, a este propósito, o Cardeal Cafarra, Arcebispo de Bolonha. “E porquê? É que os mártires não cedem e, por isso, incomodam os que acham que tudo na vida se pode negociar – explica o cardeal – os mártires desmascaram o relativismo. Por isso há tanta gente que prefere censurar o assunto”.
Aura Miguel

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

So uma escola exigente é democrática

Só uma escola exigente é democrática
PÙBLICO, 25.09.2008

Pedro Picoito

Condenar todos os alunos à mediocridade é o melhor que a democracia portuguesa tem para lhes oferecer?

Por estes dias, milhão e meio de alunos portugueses voltam às aulas. Vão encontrar um sistema de ensino burocratizado, centralista e ineficiente. Irão para a escola que o Estado impõe aos seus pais, de acordo com a área de residência ou de trabalho. Talvez não tenham ainda todos os professores nos primeiros dias, porque a colocação de contratados é um processo nacional de tentativa e erro. Alguns acabarão o ano sem dar todo o programa de Português ou de Matemática por causa da indisciplina dos colegas ou da desmotivação dos professores. Vão encontrar, sobretudo, um sistema que, ao fim de um século de ensino obrigatório, ainda não ultrapassou o maior desafio da escola pública: conciliar a igualdade de oportunidades e a procura da excelência. É o mesmo dilema entre a paixão da igualdade e a paixão da liberdade que Tocqueville via no coração da democracia moderna. Na França jacobina, a igualdade do Terror venceu a liberdade da Revolução. Com as devidas distâncias de uma analogia histórica, algo de semelhante se passa hoje no ensino português.
Vejamos um exemplo: os exames nacionais. O Governo socialista anunciou há dias, com retumbante publicidade, que a taxa de retenções (ou "chumbos") no ensino básico e secundário do ano passado foi a mais baixa da década. No entanto, segundo a Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação de Professores de Português, isso aconteceu porque os exames foram deliberadamente facilitados. Nivelaram-se as notas para embelezar as estatísticas. O Ministério da Educação esquece que este admirável mundo novo da igualdade acaba também com o incentivo à excelência. Para quê estudar, se Maria de Lurdes Rodrigues dará a todos os alunos, no fim do ano, outro milagre das rosas?
Mas será isso verdadeiramente democrático? Condenar todos os alunos à mediocridade, mesmo aqueles que pelo seu esforço chegariam mais longe, é o melhor que a democracia portuguesa tem para lhes oferecer?
Acredito que não. Só uma escola exigente é democrática. O ensino formal que os mais pobres não receberem na escola dificilmente virão a receber em contextos informais como a família ou a comunidade local. E, sem um ensino de qualidade, entrarão na vida activa em desvantagem - se conseguirem entrar na vida activa.
Só um sistema que permite a real liberdade de escolha dos pais é socialmente justo. Se as famílias estão descontentes com uma escola, devem ter o direito de optar por outra dentro do sistema público. Não há real liberdade de escolha, se o Estado limita a opção à ditadura do número da porta. Ou à largueza da bolsa doméstica.
Essa exigência e essa liberdade só serão possíveis com a avaliação das escolas. Não basta avaliar os professores para melhorar o ensino. Um professor não trabalha isolado - e, se o faz, algo vai mal. Há que avaliar os resultados de cada escola, responsabilizando as direcções e dando-lhes a maior autonomia pedagógica e administrativa para criar um projecto educativo próprio.
É urgente reforçar o peso científico dos programas. Os alunos não têm que passar mais tempo nas aulas: basta diminuir a carga, de resto muito ideológica, das áreas curriculares não-disciplinares. A disciplina de Português não tem que ensinar tolerância e multiculturalismo, mas gramática e ortografia. A disciplina de Matemática não tem que ensinar a respeitar a opinião dos outros, mas que 1+1=2 (independentemente das opiniões). Só uma escola onde se ensina que 1+1=2 pode ensinar o respeito pelos outros. Porque respeita o conhecimento, respeita os alunos, respeita as famílias e respeita os contribuintes que a pagam.
O país pode fazer mais e melhor para vencer o desafio da educação.

Docente do Instituto Superior de Educação e Ciências

Egoísmo

João César das Neves
DESTAK
25 09 2008 09.06H

Se uma pessoa rouba um banco é corrupto ou bate num amigo é considerado um bandido, um canalha, um miserável. Mas abandonar cônjuge e filhos não é minimamente criticável.
Actualmente já ninguém diz que um homem sério e digno nunca largará a sua família por piores que sejam as dificuldades. Já ninguém pensa que uma mulher que se preze não deixa marido e filhos quaisquer que sejam as circunstâncias. Estas certezas, que guiaram a nossa sociedade durante séculos, são relíquias antiquadas e obsoletas.
Dizer a alguém que saiu de casa que ele é um devasso, um crápula, é algo que nem sequer nos passa pela cabeça. E se passasse, seria imediatamente criticado como inaceitável violação da liberdade e privacidade. Se essa pessoa fumar em locais fechados ou contribuir para o aquecimento global será severamente censurado. Mas faltar aos deveres conjugais e paternais é algo normal, comum, desculpável. Agora até a lei, tão asfixiante noutros assuntos, criou os casamentos descartáveis e os divórcios «simplex».
Casar e ter filhos é hoje igualzinho ao que sempre foi. As juras de amor continuam eternas e a infidelidade permanece a suprema traição. Repudiar estas promessas e largar estes compromissos mantém-se uma infâmia inqualificável. Que alguns displicentemente classificam como modernidade progressiva.
Hoje somos severos com os tempos antigos e ridicularizamos marialvas pedantes e românticas vitorianas. Um dia os nossos descendentes olharão com muita estranheza e repúdio este tempo incrível em que o egoísmo e a luxúria tentaram atingir a respeitabilidade.

As démarches do poder

PÚBLICO,

25.09.2008,
Constança Cunha e Sá

Neste momento, só nos ocorre perguntar como é que tudo isto se tornou possível
Há uns anos, o actual líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, decidiu comemorar o 25 de Abril brindando a Assembleia da República com um discurso sobre a "claustrofobia democrática" que contaminava o país. Vivia-se ainda sob o signo das grandes reformas, onde um governo, empreendedor e decidido, se lançava com particular zelo contra os inúmeros grupos de privilegiados que batiam o pé à modernidade, entupindo o desenvolvimento da pátria e os grandiosos objectivos que guiavam o primeiro-ministro. Num dos cantos da oposição, o dr. Marques Mendes, desprovido do discurso e das causas do PSD, sem "jeito" para liderar um partido, como assegurava o dr. Júdice, do alto da sua sabedoria, limitava-se a confirmar a ausência de qualquer alternativa "credível" à maioria absoluta dos socialistas. Apesar de tudo, durante algum tempo, a "claustrofobia" vingou: transformou-se num tema de análise obrigatório e passou a fazer parte do vocabulário político.Este mês, nos Açores, a dra. Ferreira Leite, invocando o bom andamento dos "negócios", resolveu dizer que não havia democracia em Portugal. Os comentários não se fizeram esperar: fugindo ao essencial, ridicularizou-se o diagnóstico, falou-se das más práticas do PSD e, em vésperas de eleições regionais, puxou-se pelo exemplo da Madeira e pelos excessos do dr. Jardim. Sobre a actuação do Governo ou sobre a promiscuidade entre o poder político e os interesses económicos, nem uma palavra se ouviu. Dá ideia de que a "claustrofobia" denunciada pelo dr. Paulo Rangel, no meio dos maiores elogios, desapareceu, sem deixar marcas, numa democracia "fortalecida" pelos sucessivos abusos de qualquer partido que seja chamado a formar governo. As culpas de uns justificam os erros de outros num regime que se distingue pelos atropelos à liberdade e pelas imposições do poder.Perante este aprazível estado de coisas, é natural que os inquéritos feitos pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social sobre as interferências do poder político nos vários órgãos de informação dêem invariavelmente em nada. Nunca, em nenhum dos casos analisados, os conselheiros detectaram qualquer tipo de pressão sobre os jornalistas. Em última análise, porque a dita Entidade, conforme é explicado na sua deliberação sobre o processo da licenciatura do eng. Sócrates, se recusa a usar a palavra "pressão" alegando que esse termo "adquire uma conotação negativa" que supostamente não se coaduna com a natureza das suas investigações. Tendo em conta esta engenhosa metodologia, que exclui dos seus inquéritos qualquer facto desagradável (ou qualquer expressão com uma "conotação negativa") a ERC nunca poderá encontrar indícios ou provas daquilo que ela própria exclui à partida. Traduzindo por miúdos, e indo ao caso em apreço, como é que ERC poderia alguma vez detectar a existência de pressões por parte do eng. Sócrates ou dos seus assessores, se estas são, desde logo, higienicamente substituídas por démarches inofensivas? Os jornalistas bem podem assegurar que foram vítimas de pressões inadmissíveis; no pequeno universo da ERC essas pressões não existem - já que a sua própria enunciação tem "conotações negativas".No dossier sobre o processo de licenciatura do eng. Sócrates, a que o Expresso teve acesso, José Manuel Fernandes classificou como uma "pressão ilegítima a tentativa de evitar que as notícias saíssem". O director do PÚBLICO chegou a relatar, a título de exemplo, parte de uma conversa que teve, nessa altura, com o primeiro-ministro, citando, entre aspas, este significativo "aviso": "Fiquei com uma boa relação com o seu accionista [Paulo Azevedo] e vamos ver se isso não se altera." Para a ERC, que se recusa a utilizar termos com uma "conotação negativa", isto está longe de ser uma ameaça inaceitável por parte de um primeiro-ministro que é capaz de utilizar, junto do director de um jornal, a "boa relação" que tem com o seu accionista, jogando com as tais oportunidades de negócios de que a dra. Ferreira Leite falava. Em qualquer país civilizado uma situação como esta seria rigorosamente investigada e, caso se confirmasse, levaria inevitavelmente à demissão do primeiro-ministro. Em Portugal é uma démarche considerada "normal" que se encaixa serenamente "num certo grau de tensão" que existe nas "relações entre o poder político e os jornalistas".O facto de o Expresso só ter tido acesso ao dossier nove meses depois de a Comissão de Acesso aos Dados Administrativos ter ordenado à Entidade Reguladora para a Comunicação Social para divulgar o conteúdo do "processo Sócrates", levando uma especialista em Direito da Comunicação Social a afirmar que a entidade criada para assegurar "o livre exercício do direito à informação e à liberdade de imprensa" agiu, neste caso, "como instrumento de impedimento da liberdade de informar e de ser informado" é a gota de água num processo que desacredita, de forma irremediável, a qualidade da nossa democracia. E quando um dos conselheiros, favorável à audição do primeiro-ministro, garante que foi alvo de "insultos, ameaças e intimidações" nas reuniões da ERC, só nos ocorre perguntar como é que tudo isto se tornou possível.

25 de Setembro - S. Firmino

S. Firmino
Cateral de Amiens
(séc. XIII)

São Firmino foi o primeiro bispo de Amiens e sofreu o martírio no século IV. Era natural de Pamplona, Espanha, e filho de Firmo. Foi convertido por São Saturnino, e teve como mestre o sacerdote Honesto. Segundo a tradição, São Firmino tornou-se bispo aos 24 anos. A sua pregação alcançou a França, a Aquitânia, a Alvérnia, Agenais, Amiens. Como a sua pregação fosse coroada de numerosas conversões, os governantes tramaram secretamente sua morte. Os factos principais de sua vida estão narrados na fachada da Catedral de Amiens.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Eles eram assim

Rui Ramos – PÚBLICO, 20080924

O historiador do futuro entenderá uma sociedade onde era mais fácil desligar-se do marido do que de um empregado?No PÚBLICO de sábado passado, o padre Gonçalo Portocarrero de Almada observou que em Portugal se tornara mais fácil aos cidadãos, pela lei e segundo os procedimentos nela previstos, desligarem-se do marido ou da mulher, do que de um empregado. Talvez nem todos aceitem esta comparação entre as leis do casamento e do trabalho. Mas vamos admitir que um dia, daqui a muitas gerações, algum historiador futuro faça o mesmo para tirar conclusões sobre como nós, portugueses de 2008, pensávamos e vivíamos. Como dirá que nós éramos?
Talvez contraditórios, se aceitar a interpretação que das leis fizeram os seus proponentes. Porque a lei do casamento convencê-lo-á de que, em 2008, concebíamos as relações entre as pessoas como fundamentalmente contingentes, sem demasiadas consequências; e as leis do trabalho, como fundamentalmente estáveis, e com sérias consequências. Ao princípio, ocorrer-lhe-ão duas hipóteses para explicar a inconsistência. Uma é a de que dávamos mais valor ao trabalho do que ao afecto: um povo de formigas, disponíveis para mudar de família, mas não de emprego. A outra, que constituíamos uma sociedade plural, onde se chocavam duas correntes opostas: uma que gostaria de reduzir as relações a encontros efémeros, unicamente dependentes do interesse e vontade de cada um, e outra que pretenderia consagrá-los como uniões firmes, condicionadas por um interesse geral. A primeira corrente teria ganho o debate do casamento, mas perdido, por qualquer razão, o do trabalho.
Se prosseguir a pesquisa, rapidamente o historiador do futuro descobrirá os limites desta hipótese. Porque as duas leis, aparentemente contraditórias, foram promovidas pelo mesmo partido, no governo em 2008. Usando as categorias de esquerda e direita, o historiador concluirá, a partir dos debates, que à esquerda se desejava, em geral, leis que facilitassem a dissolução dos contratos no casamento, mas não no trabalho; e à direita, também em termos gerais, o contrário. Nem à esquerda nem à direita, se usavam argumentos de carácter religioso. Todos reclamavam defender a suposta "parte fraca" das relações (mulher e filhos num caso, empregados no outro), e todos acreditavam no poder das leis para gerar situações sociais. Mas à direita, aparentemente, favorecia-se como modelo uma sociedade civil forte com uma economia dinâmica, o que pressupunha unidades familiares consolidadas e agentes económicos livres para recorrer ao trabalho de um modo flexível; e à esquerda, havia mais disponibilidade para aceitar a tutela do Estado, e portanto não incomodava a ideia de uma sociedade atomizada e de uma economia limitada.
Mais uma vez, porém, o nosso historiador será forçado a renunciar à explicação. Para começar, porque adoptou um ponto de vista parcial: à direita, em 2008, defendia-se o modelo que lhe foi atribuído, mas à esquerda, sobretudo na esquerda governamental, não se advogava um Estado forte numa sociedade e numa economia fracas. Neste ponto, o historiador do futuro terá duas alternativas. Uma é atender às necessidades eleitorais da esquerda governamental, confrontada em 2008 com previsões de voto demasiado altas a favor das esquerdas da oposição. Ora, as esquerdas da oposição ensinavam que ser de "esquerda" era golpear a "religião" e a "burguesia", e que fomentar a precariedade no casamento (sacralizado pela igreja) e combatê-la no trabalho seriam outros tantos golpes. Para roubar audiência às esquerdas da oposição, dava jeito à esquerda governamental passar o mesmo programa (de sentido contestado no caso do trabalho).
Mas talvez ao historiador do futuro custe a admitir que em Portugal, em 2008, coisas fundamentais estivessem sujeitas a cálculos eleitorais. Por isso, será quase de certeza tentado finalmente pela tese de que as leis satisfaziam, de facto, expectativas geralmente partilhadas - o que explicaria, aliás, o facto de até o maior partido à direita ter fornecido alguns votos à lei do casamento.
Que prometiam as leis? Com relações de trabalho condicionadas pelo Estado, o emprego representaria, na prática, uma renda, que o empregador só poderia cortar passando através do buraco da agulha burocrática; com casamentos descartáveis sem culpa, seria possível recorrer ao registo civil para justificar festas e luas-de-mel e depois repudiar o contrato sem comprometer o património.
Eis o que os portugueses, em 2008, aparentemente desejavam: "trabalho" assegurado pelo Estado, e "afecto" sem responsabilidades. E posto isto, o historiador dirá: "eles eram assim". Não somos assim?
Historiador

Paraíso ou Inferno? Comunicado da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas

Ontem, mais um crime terrível na Finlândia, feito por um "jovem simpático", "acima de qualquer suspeita", no paraíso da Escandinávia.
Há anos que acontecem coisas destas, em todo o "mundo civilizado": jovens simpáticos, acima de qualquer suspeita, entram na escola a matar e suicidam-se (ou são mortos no tiroteio).

Em Portugal isso ainda não aconteceu. Por enquanto, "apenas" roubos, volência, agressão a professores, transpote de armas (coisa pouca...) mas ainda não houve mortos.

Este "fenómeno" está estudadíssimo "lá fora". Cá dentro, não é politicamente correcto dizer-se: a crescente dissolução conjugal aumenta dez a vinte vezes a incidência de delinquência e criminalidade juvenis, insucesso escolar, gravidez adolescente. A falta do pai em casa é a causa principal.

A Escandinávia, como modelo social, é paraíso ou inferno (título de um filme dos anos 70)?

Infelizmente, os portugueses estão a obter a resposta ao "vivo e a cores", enquanto Parlamento e Governo aceleram a fundo nessa direcção, liberalizando ainda mais o divórcio, e o Estado português adopta os ecológicos princípios da pesca desportiva na Justiça: apanha-se o "peixe", pesa-se e tira-se fotografia para a posteridade, e liberta-se de novo, para manter a "espécie" e continuar a ser possível pescar... (garantem-se, assim, os postos de trabalho de todos).

Na cada vez menor população activa, há uma cada vez maior percentagem de população ocupada como polícia ou ladrão. Os outros, são alvo dos ladrões e têm que pagar aos polícias. Vai sobrar alguma coisa para "relançar a economia" e pagar pensões de reforma?

Entretanto, o Parlamento está preocupado com outras coisas, no género "bué da fixe", e bate palmas.

A APFN espera que, mais tarde ou mais cedo (quanto mais tarde, pior), Governo e Parlamento prestem atenção à direcção em que Portugal está a ir. Não é, ao contrário do que propangandeiam, na direcção do Paraíso.

24 de Setembro de 2008

APFN - Associação Portuguesa de Famílias Numerosas
Rua José Calheiros,15
1400-229 Lisboa
Tel: 217 552 603 - 919 259 666 - 917 219 197
Fax: 217 552 604

O terror voltou antes do Pai Natal

PÚBLICO
Nuno Pacheco - 20080924

O país apontado às crianças como a terra onde vive o Pai Natal voltou a ser abalado, como há dez meses, por novo massacre numa escola. Por causa do excesso de armas ou por algo mais profundo?A três meses de Dezembro, quando a Finlândia passa de país da Nokia a país do Pai Natal, o terror voltou a apossar-se da sociedade finlandesa. Sem uma explicação plausível, como da outra vez. No dia 7 de Novembro de 2007, um jovem de 18 anos chamado Pekka-Eric entrou no seu liceu e matou sete colegas e uma professora. Em seguida tentou pôr termo à vida com a mesma arma que usara no morticínio, uma Sig Sauer de calibre 22. Era tido como um jovem simpático, "muito sorridente". Ninguém percebeu o que se passou.Agora, um jovem chamado Matti Saari, este com 22 anos, quase copiou o seu antecessor. Entrou numa escola que frequentara e disparou em seu redor. Matou dez colegas, feriu três e tentou matar-se em seguida. Acabou por morrer no hospital, vítima dos ferimentos auto-infligidos. Matti também era tido por um jovem alegre e sociável. Vivia sozinho com um gato e autodescrevia-se como "misantropo".Mas Eric e Matti tinham um lado negro, assumido no mundo virtual. Eric publicou um vídeo no YouTube, anterior ao massacre, em que dizia estar cheio de ódio e em que prometia actuar como "juiz e executor". Sem piedade para com as suas vítimas. Matti também pôs um vídeo no YouTube. Filmou-se a si próprio a treinar num campo de tiro e a apontar uma pistola à câmara, dizendo: "Vocês serão os próximos a morrer." A polícia viu o vídeo, interrogou-o, mas não o levou a sério. Nem lhe apreendeu a arma, uma Walther 22, do mesmo calibre da de Eric. Isto sucedeu anteontem, dia 22. Ontem, dia 23, Matti cumpriu o prometido. Saiu das trevas virtuais, matou e matou-se. Não reconheceram nele o jovem simpático, tal como não viram o jovem sorridente no Eric que prometia matar sem misericórdia "a escória da sociedade". O luto finlandês revestiu-se, de novo, de sombrias interrogações. Como foi isto possível, num país que é apresentado como modelo para muitos outros? Com pôde repetir-se o pesadelo?Parte da resposta está na própria Finlândia. A Nokia, o Pai Natal, o sistema educativo, o alto nível de vida, fazem parte do seu lado luminoso e dado como exemplar. Mas há um lado mais negro que inclui tendências suicidas entre os jovens, um nível elevado de homicídios (a quase totalidade entre conhecidos ou familiares), uma separação quase total entre a juventude e as gerações dos pais e avós. A tendência para o isolamento leva muitos jovens a voltarem-se para a televisão e a Internet, criando mundos virtuais onde desenvolvem outras personalidades. Eric e Matti eram, aí, assassinos confessos. Na vida real eram afáveis e sorriam. Até que um mundo invadiu o outro, violentamente.

A lei do divórcio

CARTAS AO DIRECTOR
Público - 20080924 A lei do divórcio

Sobre o projecto lei do partido socialista, agora aprovado, pela segunda vez, gostaria de centrar a atenção nos motivos que levaram à redacção desta proposta. O preâmbulo deste projecto-lei assenta a justificação da revisão da lei do divórcio, facilitando-o, em três factores: a secularização, a sentimentalização e a individualização. (.A lei do divórcioSobre o projecto lei do partido socialista, agora aprovado, pela segunda vez, gostaria de centrar a atenção nos motivos que levaram à redacção desta proposta. O preâmbulo deste projecto-lei assenta a justificação da revisão da lei do divórcio, facilitando-o, em três factores: a secularização, a sentimentalização e a individualização. (...)Por sua vez, estas novas transacções afectivas estão assentes unicamente no bem-estar individual, na felicidade individual, valores afectivos supremos das sociedades modernas. Deixando de existir estes supremos valores afectivos, as relações rompem-se.Não querendo descredibilizar a sabedoria dos deputados socialistas, proponho lembrar dois antigos sábios que conheciam bem o perigo destes raciocíonios.Há evidentemente em toda esta discussão uma confusão axiológica tremenda. Na sua luta contra, precisamente, o sentimentalismo, Platão procurou mostrar como a equação que estabelecemos naturalmente, prazer igual a bem e sofrimento igual a mal, associando um termo a outro, está profundamente errada.Por sua vez séculos depois, Kant, na sua luta intensa pela pax perpetua, procurou destruir aquele pensamento nocivo de felicidade privada, que associa a felicidade ao prazer, uma felicidade patológica incapaz de contribuir para o bem comum, de modo a constituir um quadro de valores morais universais expurgado de interesses pessoais.Qualquer destas mundivisões criaram para a humanidade, juntamente com a herança judaico- -cristã, um fundamento duradouro para as relações humanas. O pensamento e as práticas pós-modernas alteraram este quadro civilizacional. Esta mentalidade individualista, interesseira, sentimental adequou-se perfeitamente ao egoísmo primário dos afectos. Há uns anos um livro confirmava este tremendo erro, com os recordes de vendas. Chamava se Vai onde Te Diz o Coração. Não se chamava "faz o que deves", "faz o que te dita a consciência". Assim, como lembrava Alexandra Tete neste jornal, as relações liquefizeram-se e com elas o valor da pessoa humana, que passou a ser um objecto de fruição da minha felicidade individual, que troco, se deixa de me dar prazer. Isto evidentemente não tem nada que ver com o amor, que é uma doacção integral de si mesmo que porporciona uma autêntica felicidade.Justamente, não se percebe como é que, como diz a exposição de motivos, o valor supremo familiar há-de ser o bem-estar individual de cada um dos seus membros. Porque é isto, justamente, que provoca a dificuldade das relações. E assim, para justificar novos tipos de relações afectivas, coloca-se o maior obstáculo à sua existência e promove-se o divórcio abertamente. Com uma situação de facto, cria-se uma situação de jure.
Luís FernandesFigueira da Foz

“Propagandês”

Diário Económico, 20080924
Paulo Marcelo

Uma das características do “propagandês” é a utilização do Estado como instrumento partidário.

Já conhecíamos o “politiquês” como caricatura do discurso político. Com este Governo ficámos a conhecer o “propagandês”, um novo estilo que consiste em governar em função da mensagem que se quer passar à opinião pública. Veja-se o que se passa com a Educação. Sendo uma das áreas de maior fragilidade do Governo, com a contestação generalizada de pais e professores, foi natural a escolha das escolas como palco privilegiado de propaganda. Com o pretexto do arranque do ano lectivo, montaram-se várias acções de campanha em escolas públicas, com a presença de membros do Governo a distribuir computadores, incluindo o inevitável Magalhães.Quando se anunciou que a taxa de retenções (ou “chumbos”) no ensino básico e secundário foi a mais baixa da última década, uma estranha suspeita pairava no ar. Ainda se ouviam as acusações das Sociedade Portuguesa de Matemática (e da de química, entre outras) sobre a diminuição do nível de exigência nas provas nacionais do ano passado. Mas como uma das promessas eleitorais tinha sido reduzir para metade o insucesso escolar, não se hesitou em nivelar por baixo para embelezar as estatísticas. Uma das características do “propagandês” é a utilização do Estado como instrumento político. Aproveita recursos públicos para fins partidários. Não se inibe sequer de utilizar quem não pode responder à letra, como as crianças do ensino básico. Neste caso foi o ministério da educação, mas outros exemplos podem ser apontados, como as operações policiais montadas para os directos televisivos ou as recentes campanhas do ministério da economia de apoio às PME. É estranho que só tenham sido publicitadas (TV, rádios e jornais) depois do discurso de ‘reentré’ da líder do PSD que propôs a aposta nas PME para recuperar a economia.Outro ponto é a manipulação dos números. Lembram-se da promessa dos 150.000 novos empregos? O primeiro-ministro veio agora dizer que falava de “emprego líquido”, ou seja, “descontados os empregos que se perderam”. Segundo as novas “contas” o saldo seria (afinal) 133 mil postos de trabalho. Soube-se logo depois que 27% (36.000) destes “novos empregos” de que falava o líder do governo foi criado no estrangeiro, onde duplicou, em três anos, o número portugueses a trabalhar. Tudo isto quer dizer que a meta dos 150 mil empregos está ainda longe. Chega a ser de mau gosto apresentar estes números quando o desemprego atinge 7,3% da população.O estilo “propagandês” assenta numa gestão centralizada e rígida da informação. Com o apoio de agências de comunicação especializadas, as mesmas que prestam serviços a empresas do sector empresarial do Estado, montou-se uma poderosa máquina comunicacional para gerir a agenda política, que não se inibe de tentar “pressionar” a comunicação social. Este Sábado, o jornal Expresso publicou excertos do processo aberto pela ERC sobre as alegadas pressões do primeiro-ministro para travar as notícias sobre a sua licenciatura na Universidade Independente. Vários jornalistas, o director de informação da RR e o director do jornal Público falam de “pressões ilegítimas”. Refere-se mesmo o “tom violento” de um dos telefonemas de José Sócrates. José Manuel Fernandes relata, perante a ERC, a seguinte frase do primeiro-ministro: “Fiquei com uma boa relação com o seu accionista (Paulo Azevedo) e vamos ver se isso não se altera”.Estas acusações, agora publicadas, não foram desmentidas. A confirmarem-se significam uma tentativa de chantagem do primeiro-ministro sobre um director de jornal. Não se compreende a omissão da ERC e o silêncio que se abateu sobre este tema, de enorme gravidade numa sociedade que se pretende de homens livres.Nota. O Parlamento vai agora discutir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Há uma tentativa clara de marcar a agenda política com temas que interessam apenas a certas margens da população. Enquanto o país “político” discute estes temas fracturantes não se fala de desemprego, pobreza, depressão económica, inflação. O “propagandês” também passa por aqui, distrair as pessoas do essencial com o acessório.
paulopesmarcelo@gmail.com

24 de Setembro - Nossa Senhora das Mercês


Museu de Arte Sacra
Universidade Federal da Bahia
Séc. XVIII
0,76m X 0,58m
Óleo sobre tela
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Nossa Senhora das MercêsEm 621, os visigodos tornaram-se senhores de toda a Espanha. Em 711, vieram os árabes que os repeliram para as montanhas das Astúrias e conquistaram quase toda a Península. Foram precisos seis séculos para os expulsar. Durante este período foram levados para África grande número de cristãos. Os que abraçavam o islamismo eram tratados como homens livres; os outros eram vendidos como escravos. Para os libertar era necessário pagar o resgate. Como nem todas as famílias tinham posses para libertar seus familiares, S. Pedro Nolasco fundou, em 1218, a Ordem das Mercês ou da Redenção dos Cativos. A própria Virgem, numa aparição, incitou a isso. Pedro contou a sua visão a S. Raimundo de Penhaforte e ao rei Jaime I, de Aragão. Os três conseguiram pôr em prática o projecto. Graças ao seu heroísmo e à generosidade dos cristãos, a obra foi fecunda em resultados e só terminou com o desaparecimento da pirataria. Dizia o Breviário Romano que "foi com o fim de agradecer a Deus e à Santíssima Virgem os benefício de tal Instituição que se estabeleceu a festa de Nossa Senhora das Mercês". O nome feminino, Mercedes, vem deste título especial da Virgem Maria.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

27 de Setembro - Noite de fados "Ou protagonistas ou ninguém"




Ciclo de encontros - Reformas educativas de sucesso

Tertúlia de Homens

TERTÚLIA DE HOMENS

A Fundação Maria Ulrich convida V.Exa a participar na Tertúlia de Homens dia 3 de Outubro, pelas 21:30H.

O orador é o Senhor Conselheiro Souto Moura e o tema é “A Justiça, O Magistrado, O Procurador-Geral".

RSFF até 30 de Setembro 213.882.110

Rua Silva Carvalho, 240

Lisboa


O poder do link

Paulo Rocha
Agência Ecclesia, 080923


O desenvolvimento da informática, da electrónica e das telecomunicações estão na origem das revoluções mediáticas constantes a que as últimas décadas do séc. XX deram origem. Da convergência das tecnologias de cada um desses mundos resultou uma nova matriz onde se processa a comunicação: a matriz digital. Que oferece sempre novas ferramentas à transmissão de conteúdos, que os torna progressivamente mais céleres e cada vez mais acessíveis.Trata-se de uma realidade sempre nova, que foge a estereótipos comunicacionais de outros tempos. Resulta antes do contributo de um conjunto vasto de actores, todos os cidadãos mesmo, e emerge em qualquer recanto da vida pessoal, familiar ou social: porque são muitos os emissores ao nosso alcance e ainda mais os receptores desses pixéis, a nova sebenta onde se inscrevem mensagens em circulação constante pelas redes de comunicação.Claro que todos os conteúdos têm de passar por esta comunicação, porque é também aí que acontecem, hoje, as relações humanas e a construção social. O que exige saber, arte de comunicar. Retórica, oratória e não só: também a capacidade de explorar o poder do link.Se o bom discurso ou o bom sermão é avaliado imediatamente por reacções espontâneas do auditório, a audiência das mensagens que se colocam nas redes virtuais é uma constante incógnita: quem "agarra" um texto, imagem ou som? Até que recanto do mundo pode chegar o que eu coloco num blog, num portal da internet ou no anexo de um mail? Quantos "cliques" passam por um título e quantos reencaminhamentos "sofrem" as mensagens?Num qualquer recanto, eu posso partilhar conteúdos para o grande universo da rede, aguardando que sejam visitados. Mas o desejo de qualquer autor é vê-los linkados. É esse o maior desafio da comunicação em rede: encontrar ligações noutro espaço, noutra página da internet, num mail ou sms e, dessa forma, fazer aumentar exponencial-mente os "caminhos" para uma foto, um vídeo ou um texto colocado num qualquer "quintal digital". Depois de linkado, fica ao alcance de um "clique", em qualquer parte do mundo.O poder da comunicação, em sociedades digitalizadas, é cada vez mais o poder do link.
Editorial Paulo Rocha 23/09/2008 10:54 2165 Caracteres

A net: uma nova «ecclesia»?

Pedro Aguiar Pinto, Agência Ecclesia, 080923

Entre riscos e potencialiades, Pedro Aguiar Pinto recorda experiência na web com «inúmeras ligações virtuais entre pessoas»

A internet é antes de mais, uma possibilidade de ligar, de pôr em comunicação lugares e pessoas. É um instrumento, tal como o é a imprensa escrita, tal como o é o edifício de uma igreja, no sentido em que torna possível a reunião daqueles que foram convocados (o sentido literal da palavra grega ekklesia).
O papa João Paulo II, na sua mensagem para a celebração do 36.º dia mundial das comunicações sociais, em 2002, afirma que a Internet "é um meio e não um fim em si mesmo, … pode oferecer magníficas oportunidades de evangelização se for usada com competência e uma clara consciência das suas forças e debilidades".
João Paulo II reconhece na Internet "um novo 'foro' no sentido romano do lugar público, capaz não só de propiciar as condições de encontro, tal como uma praça pública, mas também de poder oferecer a continuidade requerida pela evangelização”.
É claro que, como todos os instrumentos, a Internet tem limitações, não podendo obviamente substituir "aquela profunda experiência de Deus, que só a vida concreta, litúrgica e sacramental da Igreja pode oferecer".
João Paulo II chama ainda a atenção para os riscos do uso da Internet:
- a Internet é também usada para divulgar informação degradante e prejudicial
- a característica efémera da informação que a Internet veicula acentua a prioridade dos factos sobre os valores já que a Internet não ensina valores, disponibilizando miríades de factos, sem fornecer critérios de discernimento.
- a Internet redefine a relação psicológica da pessoa com o tempo e o espaço, opondo-se ao pensamento e reflexão mais profundos.
- apesar de multiplicar as possibilidades de contactos entre as pessoas, estas relações mantidas electronicamente jamais podem substituir o contacto humano directo.
Mais do que uma opinião em abstracto sobre o potencial da Internet na construção da Igreja, posso relatar o que tem sido a minha experiência ao longo de 7 anos como editor do Povo.
O Povo é uma "mailing list" actualmente com cerca de 4000 membros, para quem envio quase diariamente artigos seleccionados de jornais (em papel e digitais) e avisos de eventos que promovem a cultura cristã. Desde Março deste ano todos os artigos enviados para o Povo residem no blog O Povo http://o-povo.blogspot.com/ onde se podem consultar artigos em arquivo e onde são disponibilizadas outras funcionalidades (calendário, imagens, vídeo, som, etc.)
O critério de selecção pode-se intuir do cabeçalho do blog Povo que desde o primeiro dia foi uma espécie de estatuto editorial: "Artigos, comentários e notícias que correm o risco de não ser notícia na comunicação social que nos rodeia, apesar de incidirem sobre o que mais interessa à vida e a um juízo sobre o que se passa à nossa volta".
Assim, o "Povo" preocupa-se com o que mais interessa à vida e não com o que mais interessa ao mundo, propondo um critério de discernimento da realidade. É claro que este critério resulta também da minha busca pessoal de um critério para a vida, pelo que é uma presunção propor mais do que a minha busca de critério. Sou ajudado nisso pela Igreja, que me ensina e que me sustem na vida sacramental.
Ao longo deste tempo, a minha experiência é construída de inúmeras reacções de gratidão pela ajuda que o Povo representa para quem está só no estrangeiro longe das notícias portuguesas, pela ajuda que a selecção de artigos do Povo constitui para a formação da opinião dos seus leitores, pelo sucesso de algumas iniciativas que o Povo divulga, etc. Há também algumas reacções negativas, discordantes das opiniões que o Povo veicula, mas em muito menor número.
Procurando avaliar o modo como o Povo se posiciona face às preocupações de João Paulo II na mensagem referida acima, devo concluir que o Povo tenta propor um critério, eventualmente nem sempre evidente; que as mensagens do Povo têm ajudado muita gente a reflectir mais profundamente o que não resulta como consequência óbvia da sua natureza virtual (muita gente imprime as mensagens que mais lhe despertam o interesse, para posterior leitura).
Finalmente, o Povo criou inúmeras ligações virtuais entre pessoas e ao mesmo tempo tem facilitado a possibilidade de elas se encontrarem, nas múltiplas actividades que o Povo divulga; deste modo cumpre o papel de praça pública onde os que "foram convocados" se reúnem.
Na minha experiência o Povo pode ser um instrumento de construção da Igreja na medida em que for capaz de afirmar a presença de Cristo na Internet e, portanto, no mundo.
Nacional Pedro Aguiar Pinto 23/09/2008 11:09 4482 Caracteres
281 Comunicações Sociais

Seminario "Inverno demográfico. O problema. Que respostas?" - 27 de Setembro - Convite

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Exmo Senhor



A APFN tem a honra de convidar V. Exa para o Seminário "Inverno demográfico: o problema. Que respostas?", no próximo dia 27 de Setembro, no auditório do edifício novo da Assembleia da República, com o programa abaixo indicado.

Neste Seminário, será efectuada a estreia em Portugal do documentário "Inverno demográfico: o declínio da família humana", legendado em português, em que especialistas mundiais debatem esta questão nas diversas vertentes, quer quanto às causas, quer quanto às consequências, muitas vezes menosprezadas.

Sem se conhecer bem as consequências nem as distintas causas, nunca se poderá encontrar as soluções para minorar os efeitos.

Serão ainda apresentadas as projecções para a população residente em Portugal nos próximos anos, contemplando já os valores observados até 2007.

Pelo importante conjunto de individualidades que aceitaram participar neste Seminário, de vários quadrantes políticos e sociais, a APFN espera que esta sua iniciativa contribua decisivamente para que, também em Portugal, este assunto passe a ter a importância na agenda política e social que merece, como acontece na esmagadora maioria dos países europeus e tem sido cada vez mais insistido pela União Europeia, quer Comissão, quer Parlamento.



As diversas individualidades participantes intervirão a título pessoal, não vinculando partidos políticos nem associações a que pertencem, a não ser que expressamente o refiram.



A entrada é livre, não sendo necessário efectuar-se inscrição.



O documentário "Inverno demográfico: o declínio da família humana" estará, em breve, disponível para venda ao público através da internet, podendo a sua apresentação ser visualizada em http://www.invernodemografico.org. Estará, ainda, disponível para venda, em todos os próximos eventos promovidos pela APFN.



Lisboa, 16 de Setembro de 2008



APFN - Associação Portuguesa de Famílias Numerosas


Rua José Calheiros,15

1400-229 Lisboa

Tel: 217 552 603 - 919 259 666 - 917 219 197

Fax: 217 552 604



Inverno Demográfico: o problema.

Que respostas?

Auditório do Edifício Novo da Assembleia da República

10:00 - 11:30 Abertura

  • Presidida por Guilherme Silva, em representação do Presidente da Assembleia da República

  • Secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação, em representação do Primeiro-Ministro

  • Eduardo Hertfelder (IPF) - Projecção do documentário “Inverno demográfico: o declínio da família humana"

11:30 - 11:45 Intervalo



11:45 - 13:00 Desafio demográfico na Europa


  • Edite Estrela

  • José Ribeiro e Castro

  • José Silva Peneda

  • Raul Sanchez (ELFAC)

Debate moderado por Augusto Madureira


13:00 - 14:30 Intervalo para Almoço






14:30 - 15:45 Desafio demográfico em Portugal

  • Assunção Cristas

  • Eduardo Brito Henriques

  • Maria Rosário Carneiro

  • Zita Seabra

Debate moderado por Manuela Silva


15:45 - 17:00 Desafio demográfico e sustentabilidade económica e social

  • Isabel Jonett

  • Manuel Carvalho da Silva

  • Paula Bernardo

Debate moderado por Pedro Carvalhas


17:00 - 17:15 - Intervalo

17:15 Encerramento


  • Guilherme Oliveira Martins - “Inverno demográfico: o desafio do século XXI”

  • Conclusões