sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Noite das bruxas

Aura Miguel
RR on-line, 2008.11.01

Portugal - tradicionalmente católico - importou um ritual pagão. Apesar de ser uma festa (e as crianças gostarem de festas independentemente da sua origem), fará isto algum sentido?
Abóboras, roupas negras, disfarces de bruxa, dentes caninos afiados e perucas com teias de aranha… Há cada vez mais gente a comprar isto, apesar da crise.São as compras para o “Halloween”, a chamada noite das bruxas que o calendário pagão anglo-saxónico assinala para esta noite.Gostaria muito mais que a minha opinião de hoje fosse inspirada no calendário cristão, mas infelizmente não é esse o calendário que nos guia… Não estou a pensar tanto nas crianças, que vão para a escola vestidas de bruxas e fantasmas, porque adoram festas e arranjam todos os pretextos para pedir coisas aos pais. O problema está nos adultos – os da escola e os de casa - que também alinham nisto. Esta noite em Lisboa, Porto e Braga haverá desfiles de “mortos-vivos” e paradas “zombie” para “aterrorizar quem passa”, porque – dizem eles – “esta é a noite em que as bruxas se reúnem numa festa dada pelo diabo”.Que tristeza, este Portugal!
Aura Miguel

O Halloween

Significado do Halloween Fonte: http://www.acidigital.com/controversia/halloween.htm

Halloween significa "All hallow's eve", palavra que provém do inglês antigo, e que significa "véspera de todos os santos", já que se refere à noite de 31 de outubro, véspera da Festa de Todos os Santos.

Entretanto, um antigo costume anglo-saxão roubou-lhe o seu estrito sentido religioso para celebrar em seu lugar a noite do terror, das bruxas e dos fantasmas. Halloween marca um regresso ao antigo paganismo.

Festa de todos os Santos

Entretanto, para os crentes é a festa de todos os Santos a que verdadeiramente tem relevância e reflecte a fé no futuro para quem espera e vive segundo o Evangelho pregado por Jesus. O respeito aos restos mortais de quem morreu na fé e a sua lembrança, inscreve-se na veneração de quem foi "templos do Espírito Santo".

A festa de Todos os Fiéis Defuntos foi instituída por São Odilon, monge beneditino e quinto Abade de Cluny na França em 31 de outubro do ano 998. Ao cumprir o milenário desta festividade, o Papa João Paulo II recordou que "São Odilon desejou exortar a seus monges a rezar de modo especial pelos defuntos. A partir do Abade de Cluny começou a estender-se o costume de interceder solenemente pelos defuntos, e chegou a converter-se no que São Odilon chamou de Festa dos Mortos, prática ainda hoje em vigor na Igreja universal".

Renovando o significado do 'pão por Deus'

A. Sílvio Couto

Agência Ecclesia, 20081023

.
De manhã bem cedo, no dia de Todos os Santos, as crianças saem pelas ruas em busca do ‘pão por Deus’. Esta tradição, que tem estado um pouco esquecida, não morreu ainda, embora possa estar ritmada mais pela configuração do americanizado ‘dia das bruxas’ do que pela simbologia correcta do cristianismo.
- Ó tia, não nos dá o ‘pão por Deus’?
- Para quem é isso, então?
- Não se recorda que hoje é o dia do ‘pão por Deus. Hoje é dia de ‘Santos’?
- Mas vocês andam com uns sacos diferentes, que não percebi para quem era que andam a pedir?
- Não tenha medo: isto é da Igreja. Não vê este símbolo?
- Com tanta malandragem que por aí vemos todo o cuidado é pouco... mesmo que vocês pareçam ser bons meninos e meninas e de famílias conhecidas... Nunca se sabe!
Este breve diálogo entre Miguel e a vizinha ‘tia’ Amélia revela-nos uma certa desconfiança com que alguns mais velhos encaravam a correria da pequenada, batendo de porta em porta, cada qual tentando recolher o maior número de pequenas ofertas, que, não se sabe lá muito bem, para o que servem: se para brincar, se para gerar partilha... ou mesmo para servir de sufrágio pelos ‘seus’ defuntos.
Entretanto, Rita insiste, pela enésima vez, com o pai:
- Pai, deixa-me ir com as minhas colegas pedir o ‘pão por Deus’... Eu gostava de ir!
Agastado com aquele pedido, o pai retorquiu:
- Já te disse que não e não!
- Mas porquê?
- Quando digo não é não... E não tenho de te dar razões!
Acabado de forma ríspida este diálogo, logo Teresa – mãe da Rita – tenta explicar a decisão do marido, na função de pai:
- Sabes, o teu pai, quando era criança, porque, ao que parece, era pobre, teve de ir pedir o ‘pão por Deus’ e isso ficou-lhe na lembrança!... Por isso, agora ele não quer que tu sejas vista como uma pobre e nem te deixa ir com os teus companheiros da escola ou da catequese... Tens de compreender as razões dele!
Noutro ponto da vila, pela mesma hora, um diálogo diferente – mais ríspido e um tanto azedo – se estava a verificar.
- Eh, ó. Isso aí é para complementar as compras? – perguntava um homem mais atrevido à porta do café, já de copo de cerveja na mão, a meio da manhã.
- Não isto é o ‘pão por Deus’ – respondeu Francisco – um tanto mais velho e que, tendo já percorrido as casas a pedir na manhã do dia de Santos de outros anos, este ano foi dos que mais incentivou a revitalização da tradição de forma melhor organizada, a partir da Igreja e com as crianças e adolescentes da catequese.
Do alto do seu esclarecimento saiu em defesa daquela provocação, que já estava a gerar risota nos comparsas do velho pescador à porta do café.
- Mesmo que estejamos em dificuldade de dinheiro, esta tradição do ‘pão por Deus’ não serve para ocupar engraçadinhos e muito menos para alimentar preguiçosos!
O homem, que não contava com aquela resposta tão seca e decidida, lá foi dizendo, por entre dentes:
- Eu também andei a fazer isso, quando era da vossa idade. Nós até recebíamos farinha torrada e mesmo castanhas, que eram um gozo, pois, nessa época, a crise era muito maior do que a de hoje...

Esta breve estória – inventada na forma, mas minimamente real no conteúdo – pretende referir uma tentativa de revitalizar a tradição do ‘pão por Deus’, com que, este ano, a catequese da Paróquia de Santiago – Sesimbra quer contribuir com alguns breves subsídios. Segundo o modo de organizar o ‘pão por Deus’, este ano, as coisas recebidas (rebuçados e guloseimas, castanhas ou nozes, pequenas quantias de dinheiro ou chocolates, etc.) pelas crianças da catequese durante uma parte do dia 1 de Novembro vão ser postas em comum, gerando uma partilha maior, quando todos os participantes se encontrarem ao final da manhã na Igreja e colocarem os sacos em jeito de oferta junto do altar, na missa, proporcionando, posteriormente, uma repartição das coisas recebidas... Até os sacos com o símbolo estampado poderão ser adquiridos para servirem para as compras... futuras.
Há, no contexto popular (mais ou menos) tradicional, certas manifestações com profundo significado cristão. Esta tradição do ‘pão por Deus’ não pode ser entendida como mais um acto folclórico em situação de crise financeira, mas antes um sinal de profunda vivência da caridade testemunhada na convivência exteriorizada na partilha, na solidariedade e na comunhão com aqueles que nos precederam na fé.
.
Opinião A. Silvio Couto 23/10/2008 09:48 4342 Caracteres

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Madonna luta contra nova lei do Divorcio

ISABEL STILWELL

DESTAK

30 10 2008 07.56H

Madonna e Guy Richy não leram a nossa nova lei do Divórcio. Ou então foram contratados para fazer campanha contra, fazendo ouvidos moucos aos apelos de que os casais ponham os filhos à frente dos seus diferendos pessoais, privilegiem um regime de guarda conjunta, não se esqueçam que se separam do marido/mulher e não das crianças, não encarem o divórcio como uma forma de enriquecimento pessoal, etc e tal.

Desconfio que há para aí muita gente a esfregar as mãos de contente: se esta gente cheia de conselheiros, managers e advogados não consegue respeitar-se mutuamente, como há de a gentinha (nós, portanto), fazer melhor.

Se afinal, apesar do «guito» e de serem «pessoas famosas», ela grita que vai levar as crianças para Nova Iorque, enquanto ele jura que usará de todas as armas para que fiquem consigo em Londres, bramindo notas para comprar ao outro o poder paternal sobre os miúdos, como há de o casal ali de Gaia ou da Reboleira ser capaz de gerir um poder paternal conjunto?

Quanto à questão da culpa, não está na cara que o divórcio é sempre um lavar de roupa suja, dizem a esta hora os que votaram contra. Basta ler as parangonas dos jornais para ficar a saber que enquanto Madonna queima os presentes do marido, o dito anuncia que o símbolo sexual do século afinal não presta na cama, e há 18 meses que não cumpre com o débito conjugal, declarando sempre que é o outro o responsável pela rotura. Dão a impressão de que só um juiz terá o poder de declarar quem é o verdadeiro responsável, sossegando assim as consciências.

Num tempo em que todos os estudos indicam que o exemplo das celebridades exerce uma enorme influência, para o bem e para o mal, nas pessoas, mete raiva a irresponsabilidade destas criaturas. Potenciadas pelo «efeito Holla- revistas cor-de-rosa», que até a OCDE considerou capaz de distorcer a percepção que as pessoas têm da realidade, estas cenas só podem reforçar a ideia de que um divórcio obriga a tudo isto. E é mentira.

O que torna tudo ainda mais triste.

Isabel Stilwell editorial@destak.pt

VIRTUDES ENLOUQUECIDAS

Maria José Nogueira Pinto
Jurista
Diário de Notícias, 20081030

O imbróglio gerado com o Estatuto dos Açores vai ter desenvolvimentos muito para além das interpretações constitucionais. Por ser uma questão de Estado que tem a ver com o cerne das regras do edifício democrático, com órgãos de soberania, a separação de poderes, os equilíbrios fundamentais e perigosos e desnecessários precedentes. É certo que a questão é do foro parlamentar, mas depois de o primeiro-ministro ter calado a sua bancada no projecto de lei do casamento entre homossexuais não há dúvida que o voto socialista, no caso dos Açores, foi concertado por Sócrates.O que é que justificou criar uma situação destas num momento em que a crise aconselha uma boa relação institucional? Provavelmente a maioria absoluta do PS nos Açores - conseguida por apenas 300 votos de diferença do PSD -, que Sócrates quis transformar no sinal da sua própria dinâmica eleitoral em 2009. Porque nas Regiões Autónomas, diz-se, só tem maioria absoluta quem tiver uma questão com o poder central. E enquanto Jardim sempre afrontou os governos do seu partido, a César só restava o confronto com o Presidente. Estes raciocínios eleitoralistas não me chocariam se não estivesse em causa algo bem mais importante. O Presidente da República salvaguardou-se quando, ao não vetar pela segunda vez a Lei do Divórcio, estabeleceu uma clara diferença entre uma divergência política e uma questão de regime, sobrepondo, e bem, a segunda à primeira, com grande sentido de Estado. Sócrates, ao usar uma questão de Esta- do para fins eleitorais e abrindo uma crise institucional, cometeu um gra- ve erro político e revelou muito da sua maneira de ser.É que apesar de aspectos simpáticos como o seu optimismo e determinação - o que num país tendencialmente bisonho e conformado não deixa de ser assinalável - o primeiro-ministro já mal disfarça a sua propensão para um autoritarismo crescente, uma intolerância relativamente a tudo o que o contraria. A sua impaciência por não percebermos essa ideia de Portugal e dos portugueses, que ele criou e o norteia, esse desígnio, uma espécie de Escandinávia sulista, de não vermos o nosso próprio interesse, do qual ele se assume como principal representante, transmitindo a ideia da dispensabilidade das outras instâncias: os partidos são irresponsáveis uns, requentados outros; os corpos intermédios e as corporações, interesseiras; os críticos, pessimistas e mesquinhos.Este voluntarismo visionário, aliado à progressiva ocupação do espaço político, vai assumindo os contornos de um perigoso atestado de menoridade à sociedade no seu conjunto e de uma desvalorização das formas e fórmulas de qualquer democracia para a legítima manifestação das diferenças. E abusos de autoridade, como o recente caso da devassa mandada fazer pela Inspecção-Geral das Finanças a milhares de e-mails, ou as atitudes persecutórias a funcionários públicos, ou ainda os "lapsos" como o da alteração da Lei do Financiamento dos Partidos pela enviesada via da Lei do Orçamento, numa crescente impunidade.Dá que pensar ser este o mesmo primeiro-ministro que capitulou frente aos camionistas que ocuparam um eixo rodoviário estratégico e confessou que "... sentiu o Estado vulnerável..." não percebendo que o Estado nunca é vulnerável; ele, Sócrates, é que o foi. O mesmo que teve medo da rua aquando da megamanifestação dos professores. O mesmo que remodelou o Governo depressa e mal para pôr termo à mediatização do descontentamento.É nesta contradição - entre um discurso exclusivo e sem princípio do contraditório, e a hesitação nos momentos de verdadeiro confronto organizado - demonstrada ao longo da sua governação, que se revela muito da personalidade de Sócrates. A que se soma agora o preocupante sinal da instrumentalização leviana de uma questão de Estado e de regime com meros fins eleitoralistas. E a previsão do que nos espera se lhe derem outra maioria...

Boa desculpa

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DESTAK
30 10 2008 07.54H
O Orçamento de Estado para 2009 não será cumprido. Uma das poucas certezas na discussão política destes dias é que o próximo ano terá, pelo menos, um Orçamento Rectificativo. Não só o cenário macroeconómico é largamente optimista, para lá do habitual, mas as rubricas orçamentais exageram muito acima das possibilidades. O desemprego não se manterá para o ano, o investimento não vai crescer, as receitas fiscais não aumentarão, as despesas com pessoal não vão cair acentuadamente.
Curiosamente, isto não criará grandes dificuldades ao Governo, porque o futuro falhanço será sempre atribuído à crise internacional. Por maior que seja a diferença entre o previsto e realizado, o executivo dirá que está inocente, porque tal provém de imponderáveis fora de contrôle, das hipotecas americanas à recessão europeia.
Aliás a mesma resposta justificará a ausência daquele grande processo de crescimento que nos vem sendo prometido há anos. Os ministros tinham tudo preparadinho para a prosperidade mas, infelizmente, lá veio a maldita crise e tudo se evaporou. A explicação tem plausibilidade porque, no meio do furacão, é impossível determinar quem tinha a casa arrumada.
O truque funciona ainda no grande sucesso da legislatura. O Governo orgulha-se de ter reduzido o défice orçamental para quase um terço em quatro anos. Fê-lo sobretudo à custa de medidas temporárias, aumentando impostos e congelando salários. Quando o remendo rompesse, o desequilíbrio regressaria. Mas agora todos sabemos que, quando o défice voltar, o Governo terá uma boa desculpa.
João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

O HOMEM POPULISTA

Diário de Notícias, 20081030
Pedro Lomba

Jurista - pedro.lomba@eui.eu

Se Barack Obama ganhar na próxima semana na América, não será apenas por causa de Barack Obama. Ou de Bush. Ou porque o mundo pede mudança. A ascensão de Obama, a acontecer, precisará de ser explicada por outro motivo. Nunca um político terá sido tão pressuroso e eficiente a usar a linguagem do homem deste tempo: o homem populista.Em todas as épocas da história recente, para ficarmos só por aqui, apareceu um tipo humano reconhecível, uma espécie de molde mental a que o homem comum e as suas características se podiam ajustar. Primeiro, Tocqueville descreveu o homem democrático, a figura mediana que nasceu com o advento da democracia, o homem que em nome da igualdade repelia qualquer noção de virtude aristocrática, o insatisfeito que implorava sempre por mais direitos e progresso.Este homem democrático de Tocqueville nunca nos deixou. Com menos ou mais democracia, anda por aí com a mesma ansiedade e ambição igualitarista. Mas no século XX, é certo, transformou-se num género ainda mais indistinto: o homem de massas. Foi Ortega y Gasset quem melhor retratou a criatura massificada que aspira em permanência ao impossível e não possui, palavras do próprio, "nenhuma qualidade de excelência". O homem de massas é o homem que avançou com assustadora obediência para os totalitarismos do século passado; é também, perto de nós, o consumidor crédulo e apático que os críticos da imprensa predadora dizem querer salvar.Qualquer sociólogo competente pode explicar o que aconteceu a seguir. A complexidade da vida moderna significa que ninguém é dono da sua própria vida. A nossa vida pertence ao Estado, à empresa, ao partido, a inúmeras famílias e organizações por onde a nossa individualidade se distribui. O homem moderno sofre fatalmente de personalidade múltipla. Eleitor, militante, trabalhador, contribuinte, membro disto e daquilo, a sua natureza profunda consiste em representar vários papéis sociais e em ir cumprindo o que lhe pedem. Quando se rebela contra tanta obediência e representação, é para readquirir uma liberdade que admite ter perdido. Passa então a vestir uma identidade diferente: o homem revoltado que Albert Camus retratou num livro precioso, o contestatário que não pretende seguir nada nem ninguém a não ser a sua consciência, o agitador que julga, acusa e, ainda insatisfeito, pede mais justiça. Agora, neste tempo de crise e desconfiança, chegou a vez do homem populista. Milhões de pessoas não pretendem saber se são ou não responsáveis pelo que quer que seja. Rejeitam à partida qualquer verdade incómoda e estão dispostas a acreditar somente no político exótico que, como eles, dividir o mundo entre quem tem e não tem poder. O homem populista quer acreditar, mas acima disso quer ver sangue correr.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vamos apoiar o bom senso.....

Por amável e construtiva sugestão de uma assídua leitora do Povo, quero acrescentar uma sugestão ao e-mail anterior:

Do mesmo modo que aos apoiantes da Animal se sugere que enviem uma manifestação do seu repúdio, peço a todos os humanos que se reconhecem ontologicamente diferentes dos outros animais, que também se manifestem, enviando um e-mail de apoio ao bom senso de Paulo Rangel para os seguintes endereços de e-mail: psd@psd.pt; gp_psd@psd.parlamento.pt

Sugiro, para tornar a tarefa mais simples, este curto texto de apoio (que pode copiar , colar e adaptar):

Tendo tido conhecimento que a Associação Animal sugeriu que os seus apoiantes manifestassem o seu repúdio pelas declarações do Presidente do Grupo Parlamentar do PSD, Paulo Rangel, numa entrevista ao “Sol”, considerando-as arcaicas e mostrando a sua perplexidade sobre a forma de pensar manifesta nesta entrevista, quero manifestar o meu apoio ao bom senso revelado por Paulo Rangel e dizer que é assim que eu também penso: A dignidade humana é um valor superior ao da dignidade dos animais. O Homem é ontologicamente diferente dos restantes animais.

Associaçao Animal repudia declarações de Paulo Rangel sobre direitos dos animais

A Associação Animal ficou escandalizada com as declarações de Paulo Rangel numa entrevista ao Sol, onde PR apenas fez comentários que qualquer pessoa de bom senso subscreve. Porém, para a Associação Animal estas declarações revelam um “lado negro”, um trogloditismo pré-científico (o que quer que isto queira dizer) e uma visão medieval. A Associação Animal sugere aos seus apoiantes no blog ANIMAL http://blogdaanimal.blogspot.com/ que subscrevam uma carta dirigente à presidente do PSD em que elencam as citações mais infelizes e preconceituosas daquela entrevista:

- “Não faz sentido haver um Dia do Cão.”
- “Também não [faz sentido haver um Dia dos Animais]”.
- “Um cão nunca deixa de ser um cão. Trocaria a vida do meu cão pela vida de qualquer pessoa em qualquer lado do mundo, mesmo não a conhecendo. Uma pessoa vale sempre mais do que um animal.”
- “Os animais merecem protecção mas não são titulares de direitos.”
- “Não são eles que têm esse direito [de ser bem tratados e protegidos]. Nós é que temos essa obrigação.”
- “Para mim essa é uma concepção errada [a de que os animais devem ter direitos]. Acho que só as pessoas devem ser titulares de direitos.”
- “Os animais [também sofrem], mas não sofrem como nós.”
- “A caça ou as touradas, enquanto tradições com determinadas características e determinados limites, são toleráveis. Fazem parte da Cultura.”
- “Muitas tradições não acabaram e estas [caça e touradas] são daquelas que para mim não devem acabar.”
- “Faço uma separação ontológica entre as pessoas e os animais.”
- “Num contexto cultural devidamente integrado, certas tradições [como a caça e as touradas] – ainda que possam chocar algumas pessoas – são admissíveis. É a minha posição.”
- “Não sou contra [a exibição de touradas na RTP].”
- “Desde que devidamente contextualizado [a transmissão de touradas pela RTP, televisão do Estado, expondo as crianças à violência contra os animais], não vejo nisso qualquer problema.”
- “A menos que esteja em causa a extinção de espécies, não acho mal [utilização de peles para confecção de vestuário].”
- “A dignidade humana é um valor superior ao da dignidade dos animais. O Homem é ontologicamente diferente dos restantes animais.”

A Associação Animal acrescenta Como é possível alguém poder pensar desta maneira nos dias de hoje?

Pergunto eu como é que se pode pensar que o Homem é ontologicamente do mesmo nível dos animais? Implica negar a nossa própria experiência.

Um abraço amigo

Pedro Aguiar Pinto

Do mesmo modo que aos apoiantes da Animal se sugere que enviem uma manifestação do seu repúdio, peço a todos os humanos que se reconhecem ontologicamente diferentes dos outros animais, que também se manifestem, enviando um e-mail de apoio ao bom senso de Paulo Rangel para os seguintes endereços de e-mail: psd@psd.pt; gp_psd@psd.parlamento.pt

Reacção a entrevista publicada sábado no semanário “Sol”

Associação repudia declarações de Paulo Rangel sobre direitos dos animais http://ultimahora.publico.clix.pt/includes/img/vazio.gif

27.10.2008 - 19h48 PÚBLICO

A Associação Animal repudiou hoje a visão do líder parlamentar do PSD sobre os direitos dos animais. Em comunicado, dizem que o social-democrata mostrou “um assustador trogloditismo pré-científico, racionalmente oco, socialmente atávico e politicamente irresponsável” na entrevista que deu este fim-de-semana ao semanário “Sol”.

Paulo Rangel defendeu, entre outras coisas, que não faz sentido haver um Dia do Cão ou um Dia dos Animais, argumentando que “um cão nunca deixa de ser um cão”. “Trocaria a vida do meu cão pela vida de qualquer pessoa em qualquer lado do mundo, mesmo não a conhecendo. Uma pessoa vale sempre mais do que um animal”, lê-se na entrevista.

Por outro lado, o líder parlamentar explica que considera que “os animais merecem protecção mas não são titulares de direitos” pois quem tem obrigação de os tratar bem é o ser humano. “Para mim essa é uma concepção errada [a de que os animais devem ter direitos]. Acho que só as pessoas devem ser titulares de direitos”. “Os animais [também sofrem], mas não sofrem como nós”, acrescentou.

O deputado afirmou, ainda, que algumas tradições como a caça ou as touradas “com determinadas características e determinados limites” são toleráveis por fazerem parte da cultura, bem como o uso de animais no fabrico de vestuário, desde que não estejam em perigo de extinção.

“Lado negro”

Na sequência destas declarações, a Animal considera que Paulo Rangel revelou um “desconcertante lado negro” e que “é absolutamente inacreditável, nos dias de hoje, que o líder parlamentar do segundo maior partido político português possa apresentar, da forma mais despudorada possível, uma visão tão medieval”.

Ainda de acordo com o comunicado emitido hoje, assinado pelo presidente da Animal, Miguel Moutinho, estas frases vêm “retirar ao líder parlamentar do PSD qualquer credibilidade que este pretendesse ter ou manter enquanto político ajustado aos tempos modernos. Com estas declarações, Paulo Rangel revelou-se uma espécie de Sarah Palin de Portugal”, assegura.

A Animal vai por isso promover um protesto online “massivo, nacional e internacional” que será, posteriormente, dirigido à líder do partido, Manuela Ferreira Leite e a Paulo Rangel “para que fique claro que declarações destas não são aceitáveis em instância alguma nem passam sem consequências, menos ainda quando são produzidas por responsáveis políticos que, antes de fazerem declarações públicas acerca de problemas eticamente relevantes, devem medir muito bem o que dizem, ainda que, e especialmente quando, padeçam de confusões morais graves”.

Com este protesto, a associação pretende mostrar que, a um ano de três importantes eleições (legislativas, autárquicas e europeias), a opinião dos políticos sobre os animais também conta na hora de votar, pelo que “ a presidente do PSD deve perceber isto e reflectir sobre quem tem a dirigir o seu grupo parlamentar”, afirma Miguel Moutinho.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

28 de Outubro - S. Simão e S. Judas Tadeu

S. Simão
c.1600
(discípulo de Caravaggio)
---------------------------------------------------------------------


S. Judas Tadeu
Georges de La Tour c. 1615-1620.
Óleo sobre tela.
Musée Toulouse-Lautrec: Albi, France.

Ate que a casa caia

Público, 28.10.2008, Helena Matos

Entrou-se numa espécie de loucura pedagógica e as disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância

Os humoristas são regra geral umas almas soturnas. A graça, quando a têm, extingue-se-lhes mal acabam os espectáculos. E desistam aqueles que esperam que, no meio dum jantar de amigos, eles façam de animadores, pois habitualmente são os menos divertidos dos convivas. Para desconsolo geral, declaram que nem sabem contar anedotas e passam rapidamente aos assuntos que os interessam como a poesia, a política internacional ou o futebol. Mas sempre num registo de grande preocupação. Talvez por causa dessa apreensiva quando não angustiada forma de estar devamos a José Pedro Gomes, precisamente o da Conversa da Treta, uma das mais sérias chamadas de atenção para a situação do ensino em Portugal. Talvez pela obrigação do ofício lhe tenha parecido estranho ouvir o bastonário da Ordem dos Engenheiros declarar que "Apenas quatro politécnicos exigem Matemática como disciplina específica para acesso aos cursos [de Engenharia]. Os restantes alunos podem entrar com negativa, sem Matemática, porque não é exigido". Infelizmente, e ao contrário do que aparentemente parecia, o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fernando Santo, não estava a contar anedotas. Estava, sim, a dar conta da degradação real do ensino em Portugal. E foi sobre isso que José Pedro Gomes escreveu num artigo de opinião para um jornal.
Creio, contudo, que José Pedro Gomes teria sido mais bem sucedido se tivesse resolvido encenar anedotas sobre engenheiros que não estudam Matemática. Pelo menos toda a gente se ria do desconchavo e elogiavam a imaginação do artista. Naturalmente todos se achavam muito sagazes, pois os portugueses, como todos os povos que exercem mal os seus direitos, sempre gostaram de fazer de conta que a eles ninguém os engana nem censura porque interpretam melhor que ninguém as entrelinhas das anedotas. Assim, sem anedota, apenas com factos, nem se riram nem se preocuparam. Olharam para o lado. Um lado com bom ângulo que os poupe a ver aonde nos tem conduzido essa conversa da treta a que temos chamado reforma da educação, paixão pela educação, pedagogia do sucesso...
Nos últimos anos, nos ensinos básicos e secundário, institucionalizou-se uma espécie de loucura pedagógica. As disciplinas onde se transmitem saberes foram perdendo importância. Se eram difíceis, tornavam-se fáceis ou dispensáveis, como agora se viu com a Matemática. Simultaneamente todos os dias se repetia (e repete!) que os conteúdos têm de ser apelativos, pois supostamente o ensino deve ser lúdico e os alunos devem aprender sem esforço. À conta desta política de promoção do sucesso, entra-se em Engenharia sem ter estudado Matemática e a disciplina de Química corre o risco de desaparecer no ensino secundário porque os alunos não a escolhem. Idem para o Latim e para a Filosofia. Adeus equações, declinações e pensamento racional. Estuda-se um bocadinho de Psicologia e o resultado é o mesmo. Uma vez na faculdade, logo se vê. E se os engenheiros ainda vão estudando Matemática durante o curso - embora não a suficiente, porque mais de metade dos licenciados pelos 316 cursos de Engenharia existentes em Portugal chumbam no exame que a Ordem dos Engenheiros exige para o exercício da profissão - no caso dos antigos cursos de Letras, transformados cada vez mais numa versão literária das antropologias e sociologias, corre-se o risco de ver desaparecer os departamentos de Estudos Clássicos.
Noutras disciplinas, como a Física, baixou-se o nível de exigência nos exames nacionais de modo a que as estatísticas melhorassem. Mesmo nas línguas estrangeiras a opção pelo que se acha mais fácil pode levar a que se troque o francês pelo espanhol. A memorização tornou-se uma expressão maldita e arreigou-se a convicção de que o saber nasce das entranhas das crianças num fenómeno equivalente à intervenção do Espírito Santo que fez dos Apóstolos poliglotas. Os desaparecidos Trabalhos Manuais e Oficinais deram lugar às doutas tecnologias e áreas disto e daquilo, sendo que nestas disciplinas os alunos tanto podem levar o ano a fazer caixinhas de papel tipo pasteleiro, pintar cartazes para salvar a água, estudar, com detalhe, nas etiquetas da roupa a simbologia do torcer e lavar a seco, confeccionar bolos com pouco açúcar ou usar abundantemente as teclas "seleccionar-copiar-colar" da sala dos computadores. E para quê queimar as pestanas a estudar Química? Não existe, em alternativa, uma panóplia de disciplinas muito mais fáceis que, diz o "pedagoguês", desenvolvem "novas competências e dinâmicas de interactividade"? Quanto aos professores, sobretudo com o actual modelo de avaliação, é sem dúvida bem mais fácil e propiciador de sucesso na carreira ser "ensinante" de Área de Projecto, nas quais os alunos invariavelmente obtêm melhores resultados, do que meter mãos à tarefa de dar aulas de Física ou Matemática.
A degradação do ensino não começou com este Governo. O que este Governo trouxe de novo foi a capacidade de transformar essa degradação, que os anteriores procuravam negar, num sinal de modernidade e progresso. Entrar em Engenharia sem ter feito exame a Matemática deixa de ser uma aberração e passa a "inovação". Os conteúdos não contam, o que conta é o embrulho tecnológico com que chegam às mãos dos alunos. O Ministério da Educação há muito que vive num universo de ficção. O que Maria de Lurdes Rodrigues conseguiu foi que assumíssemos que essa ficção é do domínio do grotesco e que já não nos indignemos com isso. Só o humorista, honra lhe seja feita, deu pelo sério da questão. E tratou de nos avisar que um dia a casa vem abaixo.

“OPENING OUR EYES WIDER” - Concurso fotográfico




Um concurso fotográfico organizado pelo Centro de Ética Económica e Empresarial da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica Portuguesa.

O Centro de Ética Económica e Empresarial organiza o primeiro concurso fotográfico intitulado: ”Opening our Eyes Wider.” Esta iniciativa visa premiar fotografias que descrevam problemáticas de ética empresarial e social em Portugal.

As fotografias deverão ser passíveis de transmitir uma mensagem associada a uma problemática de cariz ético no mundo das empresas ou na sociedade em geral, focando temáticas tais como (in)segurança no local de trabalho, fraude nos negócios, danos ambientais causados pela actividade humana, etc.

Prémios: 1º Lugar: 500 €, 2ºLugar: 300 €, 3º Lugar: 200 €
Data limite para envio das fotografias: 15 de Maio de 2009

Informações mais detalhadas sobre o regulamento do concurso estão disponíveis no website do concurso

Antonino Vaccaro
Director Executivo
Centro de Ética Económica e Empresarial
Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais
Universidade Católica Portuguesa


Assumir-se cristãmente... fora da lei!

A. Sílvio Couto
Agência Ecclesia, 20081028


Em questões como aborto, casamentos gay, divórcio e outros

Em questões como aborto, casamentos gay, divórcio e outrosNos tempos mais recentes, certas forças político/ideológicas foram trazendo para a liça pública/política questões onde os cristãos não podem embarcar nem se devem confundir-se e tão pouco submeterem-se ao meramente legal, pois alguns desses aspectos estão em confronto profundo com os valores do Evangelho. Referimo-nos, concretamente, ao estafado (isto é, que quase foi ganho devido ao esgotamento dos contrários) tema do aborto, à circunstância do (pretenso) casamento entre homossexuais e ao alargamento do divórcio... ‘à la carte’!Como nota prévia consideramos que temos todo o direito de opinar sobre estes assuntos, lendo-os pela perspectiva cristã, sem pretendermos aferi-la à dimensão eclesiástica, antes tornando esta leitura um espaço de consonância, sobretudo, católica. Também para quem discorde desta nossa opinião vai todo o respeito, na medida em que a inteligência cristã sabe aceitar os outros, mesmo que por eles nem sempre seja tolerada nem tão pouco minimamente aceite.* Sob a tutela do tirano ‘pai’ EstadoHá quem considere que os portugueses têm dificuldade em conviver com a liberdade, necessitando, em muitas situações, de um ‘pai’, que conduza, decida e tenha autoridade. Por isso, alguns se escondem sob a aba da capa da Lei – dita por uns tantos como sendo a ‘ética da República’ – de modo a obedecerem (quase) religiosamente às ordens dos mais fortes e/ou poderosos. Há, mesmo, quem se escude com a decisão democrática – desde que seja preferencialmente da sua cor e/ou tendência – para obrigar os derrotados a serem seus servos, ao menos por alguns segundos... de poder. Subjugados pela inoperância de quem obriga, vemos surgir a exaltação dos mais votados – sociológica e numericamente – a exigirem concordância... pelo menos tácita.* Discordar das maioriasNas questões supra referidas foi notório que alguns sectores sociais e políticos foram empurrando as decisões – mesmo através do referendo e da (dita) opinião pública, esse ente sem rosto mas com grande panegírico! – até conseguirem a sua vitória. Houve casos – como o do número de abortos clandestinos! – em que alguns argumentos se tornam tão falaciosos que, agora, envergonham quem os usou. Noutras situações tem havido necessidade de esconder certas práticas – como a da violência entres parceiros homossexuais – para que o problema do (dito) casamento entre eles não seja ofuscado. Até mesmo no que se refere ao divórcio os dados servem para o que servem e valem para o que valem!...Só há um pequeno pormenor, da parte da Igreja, sobretudo católica, que gostaríamos de abordar. Os responsáveis da Igreja deveriam ter mais cuidado em fazerem crer que a mais recente ‘abertura’ de recurso ao divórcio facilita, pelo menos entre os que celebram o matrimónio, o mesmo divórcio, antes deve fazer com que os matrimónios realizados sejam de maior exigência – desde a preparação até à celebração e posterior acompanhamento – para que sejam sérios, credíveis e estáveis... em Deus pela Igreja e na família. - Para além da objecção de consciência – que alguns profissionais da saúde aduziram no caso do aborto – os cristãos têm de apostar mais na formação da consciência e do comportamento digno da sua identidade cristã, pois não serão as leis que os obrigarão a estar contra os valores do Evangelho.- Para além das facilitações do Estado, os cristãos precisam, urgentemente, de ter razões para viverem em conformidade com as suas convicções, unindo-se em razão das causas que são questionadas e uma delas é, indiscutivelmente, a família fundada na relação estável de um homem e de uma mulher.- Por certo as gerações futuras agradecerão o nosso empenho, a nossa luta e até a prossecução de uma cultura cristã... com maior coerência entre o que se pensa e o que se vive.
Opinião A. Silvio Couto 27/10/2008 11:25 3882 Caracteres

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Brecha na muralha da civilização

Diário de Notícias, 2081027

João César das Neves
Professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

O casamento é uma coisa impossível. A simples descrição chega para o constatar. Duas pessoas unidas para toda a vida e dedicadas às mais difíceis tarefas da humanidade - educar crianças, aturar jovens, assistir a idosos - é uma clara impossibilidade. Quem tentar a experiência imediatamente confirma os enormes obstáculos que se levantam ao que inicialmente parecia um doce romance. Não existem casais sem problemas. Há os que os ultrapassam e os que não os ultrapassam. Todo o verdadeiro amor passa pela cruz.

Essa impossibilidade, no entanto, tornou-se há séculos comum e habitual graças a uma das mais extraordinárias forças do planeta, a civilização. Controlando e elevando os instintos básicos do ser humano, a civilização consegue maravilhas, realizando até impossibilidades práticas, como o casamento, democracia, matemática, ópera ou doçaria regional.

Infelizmente de vez em quando aparecem uns políticos que, descobrindo com surpresa aquilo que toda a gente sempre soube, decidem usar a lei para atacar a civilização. Aconteceu recentemente entre nós com as iniciativas legislativas sobre o divórcio.

Argumentando que a vida conjugal é difícil e por isso falha com frequência, deduzem a necessidade de enfraquecer o laço legal que a consagra. Assim as instituições e regulamentos deixam de apoiar e suportar a cultura para passar irresponsavelmente a promover a barbárie.

Esta atitude não é rara. Pelo contrário, repete-se sucessivamente ao longo das épocas. Por exemplo, no tempo dos nossos avós verificou-se um processo semelhante com o tratamento do diálogo intercultural. Pode dizer-se que as relações harmónicas entre povos e costumes diferentes são uma impossibilidade social. A atitude normal seria o desentendimento, como mostram séculos de guerras e conflitos. Também aí a civilização conseguiu avanços importantes e muitos lugares sempre viveram episódios pacíficos de sociedades plurirraciais. Mas há 80 anos alguns políticos europeus, constatando as evidentes dificuldades na relação entre os povos, decidiram eliminar as leis que a promoviam e publicar legislação racista e nacionalista. O resultado foi a infâmia nazi e o holocausto judeu.

Temos também exemplos inversos, com a política a fazer esforços monumentais para nos levar a praticar algo que pode ser considerado uma impossibilidade. Proteger o ambiente, salvaguardar a paisagem e defender as espécies vivas não está nos instintos naturais do ser humano. Só a civilização o pode concretizar. Precisamente por isso os nossos governantes estão intensamente dedicados a criar leis e instituições que nos orientem nesse sentido. Pena que tomem atitude inversa na família.

A civilização é uma construção vasta e complexa, continuamente sob fogo de ataques da barbárie. Por isso em todas as gerações existe sempre algum cantinho que ameaça ruína. Uma vez rompida a muralha defensiva, a selvajaria penetra na sociedade e pratica terríveis devastações. As consequências desastrosas são depois corrigidas a custo pelos descendentes, que censuram amargamente os progenitores. Os nossos avós foram racistas, os nossos pais, poluidores. Nós, repudiando fortemente esses erros, fazemos todos os esforços para reforçar as respectivas zonas da fortificação, com leis e campanhas que defendam a cultura. Só que ao fazê-lo deixamos desprotegidas outras áreas, onde se travarão as batalhas futuras.

Esta mistura ambígua de civilização e brutalidade é visível hoje como sempre. Perante os problemas, cada época saltita entre uma posição de combate ou tolerância. A sociedade ocidental luta com ardor pela justiça social e consciência ambiental, ética empresarial e diálogo intercultural, onde os seus antepassados cederam. É inflexível em tantos aspectos, que pode parecer estranho que ceda à crueza mais boçal nas leis familiares. Ninguém nos ganha em sofisticação científica e artística, mas as nossas atitudes perante divórcio e promiscuidade, aborto e eutanásia, pornografia e prostituição horrorizariam até a tribo mais primitiva.

Vamos referendar a morte?

Público, 20081027
Daniel Serrão


O que está em causa não é o médico promover a morte dos doentes terminais - é tratar as dores que tenham Ciclicamente, os políticos, ou quem serve os objectivos dos políticos no poder, ressuscitam a "questão" da eutanásia como uma grande questão nacional, a carecer, pasme-se, de ser referendada pelo povo português.É preciso perguntar aos portugueses, em referendo, se eles querem ser mortos pelos médicos!A possibilidade de um médico matar um doente que lhe pede para ser morto é, exclusivamente, uma questão da prática clínica dos médicos. Não é uma questão social, nem política, nem religiosa.Se os médicos acharem que, além de tratarem as pessoas doentes, também as podem matar, então, sim, há uma questão política e jurídica, pois é preciso impedir que o façam e puni-los se o fizerem.Invoca-se um argumento inteiramente falso: o de que quase metade dos médicos oncologistas portugueses estariam dispostos a matar os seus doentes incuráveis, se estes lhes pedirem.Para honra dos oncologistas portugueses, e pelo respeito que todos me merecem, afirmo aqui, sem receio de contestação, que este número e esta percentagem são falsos e foram extraídos de uma publicação sem o mínimo rigor metodológico e científico e, portanto, sem qualquer valor ou credibilidade.Matar um doente é uma decisão da maior gravidade. E é de máxima gravidade se este homicídio for praticado por um Médico. O que está, verdadeiramente, em causa não é o médico promover a morte dos doentes terminais; é tratar de forma correcta as dores que eles tenham ou o sofrimento que apresentem. E não fazer sofrer os doentes com tratamentos desproporcionados e inúteis, obstinando-se em intervenções que para nada servem e tiram ao doente o bem-estar possível e o acesso a uma morte digna.É conseguir dar a todos os portugueses - e não apenas aos que os podem pagar - cuidados médicos personalizados e tecnicamente adequados até ao momento da morte. Em vez de os abandonar ou de insistir em tratamentos que são já inúteis. E isto, sim, é que é um problema político nacional a carecer de resposta urgente.Se querem fazer um referendo coloquem aos portugueses esta pergunta: "É a favor de que todos os doentes, em fase terminal, tenham cuidados paliativos de qualidade, pagos pelo Serviço Nacional de Saúde?"Antecipo a resposta: 100 por cento a favor.E a dita "questão nacional" da eutanásia fica esvaziada e sem qualquer sentido.
Membro do Conselho Consultivo do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa

sábado, 25 de outubro de 2008

A crise e a cultura do instantâneo

Expresso, 20081028
Henrique Monteiro
hmonteiro@expresso.pt

Ser imediato, responder no momento, obter tudo em pouco tempo, comprar primeiro e pagar depois são hoje lugares-comuns. Mas o caminho que fizemos até aqui negou uma das bases da nossa cultura: o deferimento da recompensa
Na tentativa habitual de encontrar culpados para a actual crise, esquecemos muitas vezes as causas remotas, ou quase indetectáveis, do autêntico circo financeiro que lhe deu origem.
Ora, é bom compreender o fenómeno como um modo de tentar evitar erros semelhantes.
A causa da crise assenta, sob muitos aspectos, em razões sociológicas. Não só por aquilo que Raymond Plant recentemente escreveu (afastámo-nos da virtude, disse ele, e o nosso afastamento das religiões ou filosofias que a pregavam também é causa da crise), mas porque a própria vida actual nos empurrou - a todos ou quase - para uma ideia que, vista hoje, é preocupante: a convicção de que a poupança, ou que amealhar para o futuro não faz qualquer sentido.
Para tal não contribuiu apenas uma razão, mas dezenas delas. E, desde logo, ideias generosas e que fazem sentido - refira-se a da garantia das reformas pelo Estado - assim como ideias duvidosas, «vide» as do crédito imediato concedido pelo telefone.
A enorme diferença é que há uns anos, não mais do que duas gerações, as famílias aforravam para a velhice, porque sabiam que não haveria outros apoios senão os familiares. E, quando se era novo, trabalhava-se para atingir um objectivo, fosse ele casar, comprar casa, ter um carro ou fazer férias especiais.
Hoje confia-se no Estado para assegurar reformas (ainda que a confiança nos últimos anos tenha baixado). Quando não é no Estado é num PPR, que por sua vez entrou, na maioria dos casos, no mesmo circo financeiro que os bancos. Já quanto aos bens, como automóveis, casas ou férias, o sistema desde há 50 anos que nos aconselha a comprá-los primeiro e pagá-los depois. Tudo junto, é todo um programa contra a poupança.
O contrário do aforro é o endividamento. E quando todo o sistema assenta na dívida podemos ter colapsos destes.
Mas há causas para a ideia ser tão popular. O afastamento das filosofias e das religiões que pregam a virtude leva ao afastamento da ideia do deferimento da recompensa. Este conceito assenta na necessidade de trabalho, ou de sacrifício, antes de se alcançar o bem (ou o paraíso).
Hoje a recompensa tem de ser imediata e anteceder o trabalho ou sacrifício necessários à sua obtenção. Por isso, os créditos são imediatos, como o são as recompensas. Tudo se pode ter já, a cultura do instantâneo domina. O tempo das maturações, próprio das sociedades agrícolas, passou.
É por isso que é tão redutor culpar um sistema ou uma teoria. Quase tudo na nossa vida contribuiu para a actual crise.

25 de Outubro - S. Crispim e S. Crispiano

Martírio de S. Crispim e S. Crispiano
Aert van den Bossche
1494
óleo em madeira,
98x190 cm,
Museum Palace at Wilanów,
Warsaw, Poland

25 de Outubro - Dedicação da Sé Catedral de Lisboa

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Carta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil


Convocação para o abaixo-assinado pela vida
e contra o aborto na ONU

Grupos pró-aborto estão promovendo um abaixo-assinado para que a ONU reconheça o aborto como um suposto direito universal, aproveitando a festa dos 60 anos da promulgação da Declaração Universal dos Diretos Humanos, no dia 10 de dezembro.
Nós, Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB, entidades e movimentos em defesa da vida, estamos promovendo outro abaixo-assinado, ou seja, em favor da vida e contra o aborto. Precisamos de 50.000 assinaturas. Convocamos a todos para que divulguem esta nossa campanha a fim de neutralizar um flagrante desrespeito aos direitos humanos.
Faça sua assinatura, defenda a maternidade e a vida inocente votando a favor da dignidade do embrião, do feto e da criança no útero materno. Para isso, acesse:
http://www.c-fam.org/publications/id.101/default.asp
Repasse esta mensagem à sua família, seus amigos, enfim, a todas as pessoas . “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).
Brasília, 24 de outubro de 2008.


Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário-Geral da CNBB



Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina e Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e Família


Mimados

RR on-line, 20081024
Aura Miguel

Testemunhos reflectem a tragédia de muitas famílias, religiosos e religiosas, sacerdotes e até bispos que sofrem por causa de Cristo.
É impressionante o relato de cristãos cuja vida corre perigo. Durante os trabalhos do Sínodo dos Bispos, os testemunhos do Iraque e da Índia reflectem a tragédia de muitas famílias, religiosos e religiosas, sacerdotes e até bispos que sofrem por causa de Cristo. Mas, apesar das ameaças, do medo e da violência – mesmo arriscando-se a morrer – permanecem fortes na fé e no amor à Palavra de Deus.Comovente, também, o relato de um bispo da ex-URSS, proveniente de uma República Báltica, onde a polícia ordenou numa paróquia que todas as Bíblias fossem deitadas ao chão e espezinhadas pelo padre. E o Padre, em vez de as pisar, ajoelhou-se para as beijar e, por causa disso, foi condenado para a Sibéria.E nós, por cá, ou andamos distraídos ou ainda nos queixamos…Somos mesmo mimados!
Aura Miguel

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O divórcio de Cavaco

RR on-line, 20081023
Ângela Silva

A promulgação da nova lei do divórcio é um excelente exemplo de como a política se torna absurda para o comum dos mortais.
Cada vez admira menos que as pessoas estejam fartas de políticos. Casos desoladores não faltam e a promulgação da nova lei do divórcio é um excelente exemplo de como a política se torna absurda para o comum dos mortais. Vejamos: Cavaco Silva é Presidente da República e tem, entre os seus poderes, o de vetar leis que ache más para o país. Cavaco discordou da nova lei proposta pelos socialistas por ser facilitadora do divórcio. Porquê? Porque ao eliminar o conceito de culpa permite que um dos cônjuges desfaça de 'motu proprio' um contrato celebrado a dois. Com vantagens vastíssimas: quem quer romper só tem que repartir os bens adquiridos, mesmo que tenha casado em comunhão de bens. O divórcio fica mais convidativo e mais fácil. Cavaco é absolutamente contra.O que diz o Presidente? Que a lei ‘’conduzirá a situações de profunda injustiça, sobretudo para ‘’as mulheres de mais fracos recursos e os filhos menores, que ‘’assenta numa realidade social ficcionada’’, que ‘’padece de graves deficiências técnico-jurídicas’’ e que vai ‘’aprofundar situações de tensão e conflito na sociedade portuguesa’’, penalizando sobretudo os que ‘’tendo cumprido os deveres conjugais ficarão numa situação mais fragilizada’’.E o que fez o Presidente? Vetou-a, como seria de esperar? Não, promulgou-a, apesar dos horrores que diz dela.

Cuidados

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

DESTAK

23 10 2008 09.39H

Notícia recente: «Só três em cada dez portugueses sabem o que são cuidados paliativos» O que significa isto? Que o jornalista é parvo!

Toda a gente sabe o que é cuidar de uma pessoa a morrer. O que muitos portugueses desconhecem é o termo técnico que um punhado de especialistas deu a algo que se faz desde que o mundo é mundo.

Os jornais hoje acham que devemos saber estas coisas. O nosso tempo tem uma confiança cega nas possibilidades científicas de regulação da nossa existência. A vida tem de ser vivida dentro de um espartilho de teorias e modelos, técnicas e diagnósticos, regulamentos e sondagens, rigor científico e solidez epistemológica.

Tudo muito bem intencionado, só querendo melhorar a nossa existência. Que vida tão boa eles querem que nós vivamos! A verdade é que já nem temos poder sobre o nosso almoço. Amontoam-se os especialistas que sabem tudo o que deveríamos comer.

Directivas comunitárias já se arrogaram o direito de eliminar alguns dos nossos petiscos favoritos. Agora, pelos vistos, até querem ensinar-nos a morrer. Peço desculpa, mas até fico contente por tanta gente em Portugal não ligar à moda cultural do momento.

Isto não significa desprezo pelo valor daquilo que as ciências, técnicas e políticas têm para nos dar. Quando eu morrer espero ter por perto um especialista em cuidados paliativos.

Mas, muito mais importante, espero estar rodeado da minha família e amigos, num clima de amor e elevação. Não afogado em peritos que andaram anos na universidade para aprenderem a maneira como eu devia “bater a bota”.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

A família volátil e a imaturidade

Público, 23.10.2008, Pedro Afonso

Há pessoas que consideram que a concepção de uma família estável e duradoura é um pensamento retrógrado

Na nossa sociedade, há quem defenda que o progresso e a felicidade dos portugueses obrigam a uma mudança nas formas de organização das relações humanas, incluindo a vida em família e a família como instituição. O debate torna-se importante, uma vez que é na família que o indivíduo recebe o suporte económico, emocional e as mais eficazes e permanentes normas de sociabilização.Há pessoas em cujo espírito subsiste a ideia de que defender a concepção de uma família estável e duradoura, como alicerce para a saúde mental do indivíduo e para o bem da sociedade, corresponde a um pensamento retrógrado. Pressente-se, assim, que a estabilidade na família é vista com um cepticismo mordaz e como uma grilheta à liberdade individual.Embora careça de melhor explicação quais os modelos alternativos de família que defendem os vários partidos políticos, "a concepção de família alternativa" mais popular é aquela que fomenta as experiências individuais e rejeita um estilo de vida padronizado. Ou seja: viver bem e ser feliz não depende de uma forma-padrão. Nesta configuração, a família transforma-se numa união de pessoas que coabitam numa proximidade física e emocional, na qual a "paixão por viverem juntas" é o único compromisso de coexistência. Mas este é um conceito de família vago, permissivo e volátil, uma vez que, ora existe, ora deixa de existir. Trata-se de uma concepção de família que não deixa espaço para a estabilidade e que tem asco à responsabilidade, dado que, ao mínimo sinal de inconveniência, fracasso ou de risco, facilita a impulsividade e aponta inequivocamente a fuga como a melhor saída.Sabendo que a família é a instituição que deve garantir a dignidade humana e permitir a realização do indivíduo, é difícil vislumbrar qualquer vantagem para a sociedade na promoção da sua desestabilização.Cada vida humana é uma trajectória singular que deve ser percorrida em absoluta liberdade. Não devemos, por isso, cair em tentações moralistas, julgando o sucesso ou o insucesso desse percurso. Mas, em todo o caso, é preciso não perder a noção que o relativismo moral que prolifera na nossa sociedade também tem os seus perigos. As relações entre homem e mulher têm que ter um mínimo de exigência, não podem ser deixadas à deriva, sem que haja alguma ordem e regras. Promover a volatilidade absoluta nas relações familiares, sem direitos e obrigações prescritas, é promover a imaturidade. Por conseguinte, não posso concordar que defender uma concepção de família na qual a responsabilidade acaba por ser omissa seja o caminho para o progresso. Já há muito tempo que a Psiquiatria reconhece a importância da família no desenvolvimento do indivíduo e a sua ligação à psicopatologia. Qualquer alteração legislativa radical \u2212 democraticamente legítima \u2212 no regime jurídico do casamento tem fortes implicações individuais, familiares e sociais, cujas consequências são imprevisíveis. Porém, não se tem observado, por parte do legislador, a necessária prudência e o espírito dialogante que deveria acompanhar uma matéria tão sensível como esta. Resta esperar que a nova concepção de família não seja uma obsessão política invencível e que haja tolerância e responsabilidade democrática suficiente para se continuar a discutir este importante tema. Médico psiquiatra

A rasteira que estava escondida no Orçamento

Público, 23.10.2008, José Manuel Fernandes

O Governo tentou fazer aprovar, à boleia do OE, uma "oportuna" alteração à lei de financiamento dos partidos (2009 é ano de eleições) que fazia regressar a opacidade onde, apesar de tudo, a lei em vigor impunha alguma transparência
O Ministério das Finanças produziu ontem de manhã um extraordinário comunicado. Apanhado "com a boca na botija" pelo Diário Económico, que revelava o modo como, sub-reptícia, traiçoeira e manhosamente, a Lei do Orçamento do Estado para 2009 alterava a lei do financiamento dos partidos (em ano eleitoral...), a assessoria de imprensa, noutras ocasiões muda e queda (como na véspera, em que não respondeu às perguntas daquele jornal), precipitou-se. E atirou-se a uma piscina sem água. E que disse ela, em nome do ministro Teixeira dos Santos? Primeiro, que "o que se pretende alterar com o artigo 133º da Proposta de Lei do OE/2009 é o referencial de fixação dos montantes legalmente previstos para o financiamento público ou privado dos partidos políticos, que deixa de ser o salário mínimo nacional e passará a ser o indexante de apoios sociais (IAS)", ou seja, algo absolutamente inócuo.Depois, que "relativamente aos donativos de natureza pecuniária feitos por pessoas singulares, estes continuam a ser obrigatoriamente depositados em contas bancárias, exclusivamente destinadas para esse efeito, e nas quais só podem ser efectuados depósitos que tenham esta origem". Por outras palavras: o ministério começou por mentir sobre o alcance da alteração legal e, depois, eventualmente na esperança de que todos fôssemos tolos, fingiu que tudo continuava na mesma, quando tudo ficava diferente. Hoje, na página 4, reproduzimos o texto da lei em vigor sobre financiamento partidário e o que nela seria alterado pela proposta de Orçamento. Não é preciso ser jurista, basta saber ler português, para perceber que desaparecia um dos elementos nucleares da lei de 2003 (a tal época negra que o Governo se esforça por apagar e destruir): a proibição de os partidos receberem donativos em dinheiro. Este ponto é absolutamente central. De acordo com a lei de 2003, e que entrou em vigor em 2005, todas as contribuições para os partidos, para além de estarem limitadas no seu montante máximo, têm de ser realizadas por cheque ou por transferência bancária. Porquê? Porque assim sabe-se quem doou e quem recebeu. Tanto o cheque como a transferência bancária deixam rasto - as doações em dinheiro vivo não. O facto de serem depositadas numa conta especial nada muda, pois é sabido que qualquer pessoa pode depositar dinheiro de um terceiro na conta que entender. Com esta alteração legislativa, feita à socapa, sem frontalidade e embrulhada nas mentiras do comunicado matinal do Ministério das Finanças, deixava-se de poder traçar o rasto do dinheiro, ou seja, de poder um dia saber se um doador generoso teria ou não sido beneficiado por uma decisão do partido que financiara. Goste-se ou não, a verdade é que a corrupção grassa onde há falta de transparência e mirra onde esta existe. A corrupção vive da opacidade, e era a opacidade que regressava de forma ínvia com a proposta incluída no Orçamento do Estado.E, garante-vos, sei do que falo: como réu num processo movido ao PÚBLICO por ter denunciado o que se passava na Câmara de Felgueiras, acompanhei, no tribunal local, o testemunho de alguns protagonistas que, sem corarem ou darem sinais de arrependimento, reconheceram ter sido naquela terra prática habitual passar maços de notas embrulhadas em jornais no átrio dos Paços do Concelho. Foi um dos dias mais deprimentes mas também mais reveladores da minha vida, pelo que não posso ter qualquer dúvida sobre o significado de voltar a autorizar, mesmo que de forma disfarçada, as doações em dinheiro vivo, o que não tem cheiro nem deixa rasto. Felizmente que, em Portugal, ainda há jornais e jornalistas que não desistiram de ser vigilantes, e a marosca veio a público. O que espanta é, depois dos pareceres categóricos recolhidos pelo Diário Económico junto de pessoas como o fiscalista Saldanha Sanches ou Mouraz Lopes, do Grupo de Estudos contra a Corrupção, o ministro e o ministério tenham insistido no logro e tentado fazer crer que era, apenas, uma questiúncula do PSD. Infelizmente, para eles, o socialista João Cravinho - o que se cansou de tentar fazer aprovar pelo seu partido uma lei decente de prevenção e combate à corrupção - também não teve dúvidas. Pelo que acabou por surgir o inevitável recuo, que ainda estamos para saber como se irá realmente processar. P.S. Da mesma forma que o Diário Económico cumpriu o seu papel, ou que António José Teixeira foi à SIC explicar o que estava em causa, a RTP produziu, sobre a matéria, uma peça que, sob o diáfano véu do pluralismo e do princípio de dar voz às duas partes, nada permitia perceber, pois em nenhum momento disse o que estabelece a lei e o que se propunha no Orçamento. Terá cumprido os critérios da ERC, mas não fez mais do que contribuir para a mistificação que, desde a manhã, o acossado Ministério das Finanças tentava manter de pé.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Nao se riam dos islandeses para eles não se rirem de nos

Público, 22.10.2008, Rui Ramos

A economia mundial, nos últimos dez anos, cresceu como nunca. Nós não. Não pudemos

Ésempre assim: há crise no mundo, e logo os portugueses se declaram em situação de "oásis". Com os centros comerciais ainda abertos e o Governo entretido com as casas decimais de uma estagnação subitamente lisonjeira, a tribo inteira tem-se juntado à volta dos seus velhos ídolos para gozar a versão ao contrário da fábula da cigarra e da formiga. Onde estão agora as Irlandas aplicadinhas e trabalhadoras que nos diziam para imitarmos? Esses países que andavam no topo de todas as boas tabelas onde nós aparecíamos em baixo - onde estão eles, esses "modelos", essas formigas, que durante tanto tempo nos fizeram sentir cigarras no Inverno? Estamos vingados.
Imagino que no Chade ou no Burkina Faso sintam o mesmo. Porque também eles, na crise actual, são "oásis". Mas não são oásis só agora, nos maus tempos. Também já eram oásis antes, nos bons tempos. Como nós. Se a recessão vier, será certamente menor em Portugal do que na Islândia, na Irlanda ou na Espanha, pela simples razão de que a prosperidade também foi. A economia mundial, nos últimos dez anos, cresceu como nunca. Houve países que apanharam o comboio - talvez de mais. Nós não. Por virtude e sabedoria? Não: porque não pudemos. A nossa pobre bolha estourou muito antes da dos outros, em 2001, e só o euro nos poupou um transe argentino. Não temos bancos em colapso. Mas também nunca tivemos bancos capazes de atrair poupanças de outros países.
É verdade que um país pequeno não depende apenas de si próprio. É improvável prosperarmos quando todos estão em dificuldades. Mas o grande facto, nesta última década, foi este: empobrecemos relativamente quando tantos outros enriqueciam. Por isso, não se riam dos islandeses: é que eles, com mais razão, podem rir-se de nós.
Já na "crise mundial" de 1929-1931, como disse Salazar e confirmam os historiadores, fizemos de oásis - um dos países menos castigados na Europa. Porquê? Porque éramos dos mais pobres e dos mais desligados da circulação de bens e de capitais que fazia crescer a riqueza no mundo. E quem queria viver na casinha portuguesa, com o pão e vinho sobre a mesa? Os portugueses, não. Mal puderam, depois da II Guerra Mundial, emigraram às centenas de milhares.
A nossa última golpada foi a do euro. Aproveitámos para nos endividar até aos nossos limites - infelizmente muito mais baixos, como se viu, do que os dos islandeses. Os islandeses e os irlandeses podem estar agora em sarilhos. Mas desenvolveram hábitos, competências e contactos que os habilitaram para explorar os recursos da economia global - e que lhes hão-de servir para o fazer outra vez, quando a ocasião se proporcionar. Um dos nossos problemas é este: criarmos neste país o ambiente e os recursos necessários para detectarmos e tirarmos partido de oportunidades, como os islandeses. Podemos tentar ser mais prudentes ou esperar ter mais sorte, mas não nos podemos imaginar dispensados de esforços - e de riscos.
Perguntar-me-ão: não seria possível optarmos por guardar rebanhos, numa arcádia pobre, mas decente? Sim, na condição de aceitarmos o nível de vida e de protecção social correspondentes a uma nação de guardadores de rebanhos. Mas, considerando o nosso endividamento e os "direitos sociais" que por lei nos atribuímos a nós próprios, não me parece que Alberto Caeiro represente exactamente as aspirações dos seus compatriotas.
Em 2005, os actuais ministros explicaram-nos que a solução para a nossa "crise" era o "crescimento". O que é que tem crescido em Portugal? Além do desemprego, o Estado. Bem sei que pelo mundo, durante as últimas semanas, muita gente voltou ao altar do Estado. Em Portugal, foi crença que nunca nenhum missionário liberal nos fez perder. Mantemos um dos Estados que, na Europa, mais gastam em relação à riqueza nacional e mais cobram atendendo ao nível de desenvolvimento do país. É talvez um óptimo mecanismo para tentarmos viver à custa uns dos outros, como dizia Frédéric Bastiat. Mas não se deveria ter notado já, se fosse também bom para criar ou ajudar a criar riqueza?
A tragédia seria deixarmos o espectáculo da "crise financeira global" distrair-nos da nossa crise local - a crise de um país onde, nos últimos trinta anos, as pretensões reflectidas no "modelo social" aumentaram, mas as taxas médias de crescimento económico diminuíram. O contraste, como alguns já perceberam e todos já começaram a sentir, é insustentável. Há escolha, claro: ou renunciamos aos "direitos", ou temos de deixar de ser este oásis que só consegue acompanhar os outros a descer.
Historiador

Gatos Fedorentos ridicularizam católicos

Pedro Afonso
O Inimputável, 20081022

Chegou ao nosso conhecimento que no programa “Zé Carlos” dos Gatos Fedorentos, a propósito do computador Magalhães, foi realizada uma sátira de mau gosto de contornos claramente ofensivos para os católicos, achincalhando símbolos religiosos e satirizando despudoradamente a Eucaristia. Ou seja, neste caso foram ultrapassados claramente os limites do tolerável em democracia. Deste modo, apresentamos o vídeo para que possam visionar e fazer a vossa avaliação.
ver o resto da notícia

A data de emissão do programa (necessária para o preenchimento do formulário on-line de protesto junto da ERC) é 19 de Outubro de 2008.

22 de Outubro - S. Martinho de Dume

Representaçãode S. Martinho de Dume no Códice Albeldensis,
c. 976
(Biblioteca doMosteiro de San Lorenzode El Escorial, Madrid)
Sabemos pelo próprio testemunho de Martinho (Epitáfio), confirmado por Venâncio Fortunato (Carminum libri, 5, 2) e Gregório de Tours (Historia Francorum, 5, 37), que era oriundo da Panónia (actual Hungria), ou descendente de panónios. Presume-se que seria de origem romana.
Feitas as contas a partir de outras datas prováveis, chega-se à conclusão que o ano do seu nascimento se situa próximo de 520.
Como aconteceu com muitas outras personagens do seu tempo, foi seduzido pela necessidade interior de se familiarizar com os Lugares Santos, como afirmam Gregório de Tours (Historia Francorum, 5, 37) e Isidoro de Sevilha (De viris illustribus, 35, 45). A estadia no Oriente enriqueceu-o pela oportunidade de contacto com personagens cultas que demandavam estas paragens e pelo conhecimento da vida monástica ao estilo dos Padres do Deserto, muito desenvolvida. Foi também ocasião para crescer no conhecimento das Escrituras e, provavelmente, da língua grega e da cultura oriental, como testemunham os mesmos Venâncio Fortunato, Gregório de Tours e ainda Isidoro de Sevilha (Historia de Regibus Gothorum, Wandalorum et Suevorum, 91).
S. Martinho de Dume veio por mar e desembarcou num porto da Galécia, ao tempo que as relíquias do seu homónimo S. Martinho, ou em época próxima. São várias as conjecturas para a localização deste porto, mas nenhuma dispõe de suporte suficiente para se impor.
A data deste acontecimento, que marcará um rumo novo na vida das populações da Galécia, deve situar-se próxima do ano 550. Tudo leva a crer que Martinho já era monge e presbítero. O metropolita de Braga era então Lucrécio.
Entretanto, o rei Carrarico, em cumprimento da promessa que tinha feito para alcançar a cura do seu filho, construiu em Dume, nos arredores de Braga, uma igreja em honra de S. Martinho de Tours e abandonou o arianismo.
Martinho, por sua vez, contando com o patrocínio do rei, edificou junto à igreja um mosteiro, de que foi o primeiro abade. Este mosteiro acabará por se converter num importante centro de formação e difusão de vida cristã e de cultura.
Por razões expressas que se desconhecem, mas que se prendem certamente com a sua invulgar estatura de homem culto e cristão convicto, com a sua proximidade à corte e com o determinante papel desempenhado na conversão dos suevos, foi criada para ele a diocese de Dume, mantendo a sua condição de abade. De acordo com o Breviário de Soeiro (Lectio IX), a sagração episcopal de Martinho teve lugar a 5 de Abril de 556. A sagração da igreja de Dume como sé celebrou-se no ano 558. Como bispo de Dume participou no I Concílio de Braga (561).
A diocese de Dume restringia-se ao seu mosteiro, suas terras, seus servos e famílias, numa extensão territorial igual ou ligeiramente superior aos actuais limites da paróquia do mesmo nome. Este tipo de diocese foi, até então, um facto inédito no Ocidente. Manteve-se até 866, altura em que o seu bispo, Sabarico, se retirou para Mondoñedo, devido às graves dificuldades criadas pelas invasões árabes. Durante este tempo os seus bispos ora eram somente abades e bispos de Dume, ora acumulavam com a Igreja de Braga. Quando em 1070 se procedeu à restauração da diocese de Braga, foi ordenado que nela se incorporasse a diocese de Dume. O então bispo de Mondoñedo protelou o cumprimento desta determinação, que só veio a cumprir-se em tempos do arcebispo de Braga S. Geraldo (1101).
Antes do ano 569, morreu o bispo e metropolita de Braga, Lucrécio. Sucedeu-lhe Martinho, sem deixar de ser bispo de Dume e abade do seu mosteiro.
No ano 572 presidiu ao II Concílio de Braga. Na introdução à Actas do Concílio, pode ler-se a interpelação de Martinho aos outros bispos para que se examinem questões de disciplina que possam existir "por ignorância ou por negligência2, já que "pela graça de Cristo, nesta Província, nada é duvidoso acerca da unidade e da rectidão da fé". Com a sua cooperação, era já longo o caminho percorrido na consolidação da fé desde a sua chegada à Galécia.
Como metropolita, promoveu a reorganização paroquial, criou novos bispados e dividiu a metrópole bracarense em dois concílios ou sínodos, Lugo e Braga, continuando esta a ser a cabeça. Braga, sede da corte do Reino Suevo, ficou com as dioceses a Sul e a Norte do rio Douro. Há quem vislumbre neste seccionamento uma contribuição para a futura separação entre o Norte e o Sul da Galécia e, mais tarde, o nascimento de Portugal.
De acordo com a informação de Isidoro de Sevilha (De viris illustribus, 35, 45-46), Martinho fundou outros mosteiros. As tentativas para a sua identificação variam, em número e lugar, de autor para autor, sem ser possível chegar a conclusões seguras.
Segundo o Breviário de Soeiro, Martinho, o último dos escritores do Reino Suevo, morreu a 20 de Março de 579.
Foi sepultado na igreja do mosteiro de Dume. Aí se mantiveram o s seus restos mortais até meados do século IX, altura em que, pelo risco que corriam por causa da presença árabe, foram trasladados para Mondoñedo. Sabe-se que no século XV estavam de novo em Dume, na capela-mor da igreja. Em 1545 o arcebispo de Braga, D. Manuel de Sousa, tentou trasladar as relíquias para a catedral. Ante a enérgica oposição do povo de Dume, optou por, temporariamente, escondê-las aí, debaixo do altar-mor. Com a sua morte perdeu-se-lhes o rasto, até que, em 1591, são de novo descobertas pelo arcebispo D. Fr. Agostinho de Jesus que decide, uma vez mais, levá-las para Braga. Enquanto se faziam as obras necessárias para as receber, foram trasladadas para a igreja do mosteiro de S. Frutuoso. Finalmente, a 22 de Outubro de 1606, foram levadas para a sé, onde, depois de várias mudanças, podem ser veneradas na Capela das Relíquias. O túmulo que guardava os seus restos mortais, em Dume, encontra-se no Museu D. Diogo de Sousa (Braga).
O X Concílio de Toledo (656), em sintonia com o que era o sentir popular, já desde os contemporâneos de Martinho, tratou-o como santo. Depois, até à restauração da diocese de Braga, em 1070, perdeu-se o rasto do que terá sido o culto a S. Martinho. Parece claro, contudo, que se lhe sobrepôs o culto do seu homónimo S. Martinho de Tours. A partir de finais do século XI o seu nome começa a aparecer, ininterruptamente, nos calendários e livros litúrgicos bracarenses. No breviário bracarense do século XIV, que está na origem do Breviário de Soeiro (séc. XV), S. Martinho aparece como padroeiro da Igreja de Braga. Este título acabará, entretanto, por se perder. Foi retomado oficialmente em 1984. A sua festa litúrgica foi fixada em 22 de Outubro, na diocese de Braga, e em 5 de Dezembro, para Portugal, juntamente com S. Frutuoso e S. Geraldo.
O breviário bracarense de 1588 dá-lhe o título de doutor, que se manteve até tempos recentes. Honra justificada, se considerarmos que, como escreve Madoz, estamos diante de "uma das figuras mais destacadas e eficientes que o olhar do historiador descobre na Igreja ocidental do século VI". A ele se deve o renascimento literário e científico da Galécia do seu tempo. Como sintetiza Aires Nascimento, Martinho de Dume "não só introduziu um modelo de vida cenobítica como, promovendo a conversão do povo suevo, conseguiu ambiente de paz suficiente para reorganizar a sua Igreja, doutriná-la e transmitir aos seus clérigos normas de vida exemplares; preocupou-se em dotar a sua Igreja com textos fundamentais, nomeadamente com os textos conciliares da Igreja Oriental, mas cuidou sobretudo de uma pastoral directa, atenta às situações, interveniente e benevolente". Trata-se, enfim, de uma personagem quem antes e depois da sua chegada à Galécia, soube enriquecer-se num mundo de relações que conferem á sua figura e à sua acção sócio-religiosa uma surpreendente dimensão cosmopolita.
Pio Alves de Sousa
in Patrologia Galaico-Lusitana, Universidade Católica Editora
© SNPC - Publicado em 22.10.2007

terça-feira, 21 de outubro de 2008

"Volta, companheiro Vasco, que estás perdoado!"


PÚBLICO, 21.10.2008, Helena Matos

O Eixo Norte-Sul cria uma catarata em dias de chuva que inunda em segundos os prédios que ficam por baixo

É tempo de fazermos justiça ao general Vasco Gonçalves. Ele foi provavelmente o único homem que, sentado na cadeira de primeiro-ministro em Portugal, acreditou que, quando dizia que o país ia ser socialista, tal propósito era mesmo para ser levado à letra. Nacionalizou quanto pôde, defendeu ao limite o colectivismo e por essa via teria entusiasticamente prosseguido, não fosse ele e o seu fervor comicieiro terem-se tornado obviamente dispensáveis em Setembro de 1975, quando o país já podia arrumar a revolução e as violas no saco. Em África, já estava repartido o que havia a repartir e, por cá, os verdadeiros protagonistas preparavam-se para outros jogos de poder, onde Vasco Gonçalves não só já não era necessário como muito menos tinham lugar o misto de candura e destravamento que o caracterizavam. Talvez por nunca lhe terem perdoado os embaraços que tal ingenuidade lhes criara, quando o general e antigo primeiro-ministro morreu nem o Governo de então nem a classe política se fizeram representar condignamente no seu funeral. Mas nunca é tarde para se reparar uma injustiça. E nós ainda vamos a tempo de remendar o muito que asneámos quando dissemos mal de Vasco Gonçalves e da sua revolução socialista. Essa revolução tinha o bendito mérito de ser socialista os 365 dias do ano, sem esquecer a excepção dos bissextos. Ora, o que nos tem vindo a acontecer desde que, em Setembro de 1975, virámos as costas à muralha de aço de Vasco Gonçalves, é que, como empregados ou empresários, trabalhamos cada vez mais para sustentar um Estado que gasta como se fosse socialista, cresce como se fosse socialista e, por isso, precisa cada vez mais que alguns milhões de portugueses façam figura de parvos, trabalhando como se o país fosse capitalista e o enriquecimento resultante do trabalho não fosse cada vez mais uma impossibilidade técnica. Afinal, o que Vasco Gonçalves nunca percebeu é que sem o sonho capitalista de enriquecer não existe dinheiro para fazer socialismo e muito menos para fazer medrar dirigentes socialistas. Logo, ao contrário do que o general acreditava, acabar com a iniciativa privada seria um erro crasso. (Quem o percebeu notavelmente foram alguns militantes destacados do PCP que se transferiram de tácticas e estratégias para o PS.)
Nesta versão local das teses chinesas "de um país, dois sistemas", os cidadãos, ao contrário do que acontecia nos países socialistas, não esperam nada do Estado e muito menos o confrontam com os seus erros e responsabilidades, como supostamente acontece no capitalismo. Por exemplo, se as opções de Vasco Gonçalves tivessem saído vitoriosas, hoje muitos portugueses estariam indignados porque uma obra pública, o Eixo Norte-Sul, foi projectado de forma que, ao passar em viaduto, num lugar chamado Sete Rios, cria uma catarata em dias de chuva, inundando em segundos os prédios que ficam por baixo. Talvez alguns dos hóspedes do Jardim Zoológico se sintam mais em casa ao ver aquela Niagara lusitana, mas feita essa zoológica excepção não se percebe como pode aquilo acontecer. Infelizmente, Portugal não se tornou um país socialista segundo o modelo Vasco Gonçalves. Logo neste país em que, dos dois sistemas, nos sai sempre o pior de cada um, ninguém vai querer ouvir falar deste assunto, embora por diversas razões. Os contribuintes já sabem que, caso a obra seja corrigida, isso lhes vai custar dinheiro. Acrescenta-se a este facto que empresa privada alguma que tenha estado envolvida nesta ou noutra obra pública jamais abrirá a boca para explicar o que quer que seja. Tal como não deixam que o seu nome saia na lista dos credores do Estado ou na daqueles que patrocinaram o estudo do novo aeroporto, não vá o Governo irritar-se com a ousadia, as empresas também contam que o Governo feche os olhos a muita coisa, seja essa muita coisa o crescimento exponencial dos orçamentos das obras ou os erros de que estas enfermam. De igual modo, os inundados também não pedem responsabilidades porque temem que tal lhes prejudique o seu objectivo de alterarem a sua relação com o estado socialista, trocando, graças à aquífera circunstância, o seu estatuto de contribuintes pelo de protegidos ou assistencializados: uma casinha da câmara, mais um apoio da junta, quiçá uma permuta de terreno para mudar o local do negócio... Acima de tudo isto, paira a nomenklatura. Nuns dias o Governo declara-se direcção comercial de luxo, noutros aprova projectos PIN ou mega-obras públicas. Às vezes, a nomenklatura protagoniza o salvamento do país de catástrofes mundiais, sendo que, nos últimos anos, já perdi o conto a tanto salvamento: foi a gripe das aves, as alterações de clima, a falta de combustíveis, a falta de alimentos, a praga da obesidade, os lucros obscenos dos bancos e a falência dos mesmos. Nos dias em que a nomenklatura desce à terrinha, anuncia que o "Governo dá" computadores, subsídios e vai provocar choques tecnológicos ou culturais. Tudo isto, já de si, é irritante, mas o pior é que é muito caro.

Até meados de Junho de 2008, os portugueses trabalharam apenas para pagar impostos. A cada ano que passa, trabalham mais dias para sustentar o seu Estado. Em 2009, a despesa estatal vai continuar a aumentar e muito provavelmente o dia 16 de Junho já não será aquele em que finalmente os portugueses podem dizer de si para si que já deram tudo o que tinham a dar ao Estado nesse ano. Com o socialismo a tornar-se-nos cada vez mais pesado, o sonho de cada português é tornar-se mais um protegido ou, enquanto tal não acontece, que o deixem em paz, uma vez cumpridos todos os requisitos da máquina estatal. Se não fosse a morte ter tornado esse pedido impossível acho que terminava esta crónica escrevendo: "Volta, companheiro Vasco, que estás perdoado!". O socialista que ele foi fazia de nós opositores. Os actuais transformam-nos em contribuintes faltosos ou, caso tenhamos conseguido o milagre de ter tudo pago, licenciado e devidamente aprovado, em cidadãos pouco solidários. Jornalista (helenafmatos@hotmail.com)

- Quando José Sócrates resolveu reenquadrar a relação do Governo com os sindicatos, foram revelados alguns dados, não muitos, mas os suficientes, para que a opinião pública percebesse que os sindicatos e respectivos dirigentes são uma extensão da administração pública e por ela devidamente sustentada. "Os 450 professores que estão destacados nos sindicatos representam uma despesa anual superior a oito milhões de euros. No ano lectivo passado, estavam destacados 1327 docentes (...), que custavam por ano 20 milhões de euros, segundo estimativas do Governo", informava, em 2006, a agência Lusa. As coisas são como são e a verdade é que os sindicatos não só dependem das verbas estatais como ainda a sua agenda está longe de coincidir com a defesa da qualidade e da transparência dos serviços prestados por esses trabalhadores. Isto não tira nem acrescenta razão às reivindicações dos sindicatos em matéria de contagens de tempo de serviço, avaliações de desempenho... mas, em determinados momentos, o seu silêncio sobre assuntos não corporativos torna-se assombroso. Por exemplo, os sindicatos dos professores não deviam ter sido os primeiros a condenar as patéticas figuras a que os professores são sujeitos nas acções de formação do Magalhães? Tal como no passado nunca se ouviu sindicato algum denunciar os crimes cometidos na Casa Pia, tal como foi difícil que os sindicatos apoiassem os professores e os funcionários vítimas de violência nas escolas - porque isso implicava admitir a existência de problemas muito sérios nesse microcosmos da ideologia estatizante tão cara aos sindicatos que são as escolas públicas - também agora não foi por eles que a denúncia e a indignação chegaram. É pena.