domingo, 30 de novembro de 2008

Reflexões para cada dia do Advento - livrinho da Assoc. de Pais do Col. S. João de Brito

Mais uma vez a Associação de Pais dos Alunos do Colégio de São João de
Brito vos propõe um itinerário para o Natal, com pequenas reflexões para cada
dia do Advento.
A generosidade de mais um grupo de Pais do nosso Colégio permitiu que este
livrinho viesse ter às vossas mãos. Não podemos, por isso, deixar de agradecer -lhes...
Que este pequeno contributo, feito pelas nossas famílias, possa ajudar todas
as outras a caminhar em direcção ao Presépio de Jesus.
Lisboa, Advento de 2008
Associação de Pais dos Alunos do Colégio de São João de Brito
Advento 2008 Final A




30 de Novembro - Santo André

CARAVAGGIO
A crucifixão de Santo André
c. 1607
óleo sobre tela,
202,5 x 152,7 cm
Museum of Art, Cleveland

sábado, 29 de novembro de 2008

O que é e o que não é "deixar morrer"

Assinado por Aceprensa Data: 22 Novembro 2008

A expressão "morte digna" serve hoje para englobar realidades que não têm nada a ver umas com as outras. Foi isso que aconteceu recentemente com dois casos que atraíram a atenção da opinião pública: o da jovem britânica Hannah Jones e o da italiana Eluana Englaro, em coma há 16 anos.

Hannah Jones, a jovem britânica de 13 anos que renunciou submeter-se a um transplante de coração, sofre de leucemia desde os cinco anos . Para parar o avanço do cancro, foi submetida a um tratamento que lhe provocou graves lesões no coração. Os médicos queriam submetê-la a um transplante, coisa que ela rejeitou, dado que a intervenção lhe não garante continuar a viver. Além disso, os remédios que deveria tomar para evitar uma rejeição do novo órgão poderiam reactivar a leucemia. Para Alicia Latorre, presidente da Federação Espanhola das Associações Pela Vida, "Hannah tem duas opções, ambas moralmente lícitas: assumir os riscos de um transplante e o tratamento subsequente e assim viver mais alguns anos, ou recusar o transplante e esperar o momento da morte natural."

É por este motivo que Alicia Latorre considera "sem sentido que alguns falem de ‘ morte digna' ao relacionarem este caso, que não envolve qualquer problema ético, com outros bastante mais discutíveis, apenas com o fito de angariarem adeptos para as suas campanhas de legalização da eutanásia."

A decisão de Hannah Jones é perfeitamente compreensível e merece o nosso respeito. Esta rapariga recusou um tratamento ao qual não está moralmente obrigada e irá morrer quando o coração deixar de bater ou quando, de maneira natural, o organismo disser "é agora!" mas ninguém lhe vai administrar substâncias para a matar, nem se lhe vai negar nenhum meio que a impeça de receber os cuidados básicos, proporcionados e necessários que são ser alimentada e hidratada."

Omissão de cuidados básicos

Muito diferente é o caso de Eluana Anglaro, a italiana de 37 anos, em coma desde que, a 18 de Janeiro de 1992, sofreu um acidente de viação. O Supremo Tribunal italiano deu a sentença que permitirá, a pedido do pai, desligar a sonda que a alimenta há já 16 anos.
Segundo Carlo Alberto Defanti, o neurologista que já por duas vezes confirmou o estado vegetativo de Eluana, "ao tirar-lhe o alimento, ela poderá ainda viver algumas semanas, mas será decisivo retirar-lhe a água; dentro de 10 ou 15 dias morrerá por desidratação."


No ABC de 14 de Outubro de 2008, José Miguel Serrano Ruiz Calderón, professor de Filosofia do Direito, chama a atenção para o facto de que "hidratar e alimentar uma pessoa de modo inteiramente regular não se pode considerar obstinação terapêutica. O facto é que Eluana não morre e talvez nós devamos aprender a conviver com o facto de que existem coisas que não conseguimos controlar."

"Não queremos julgar - acrescenta ele - o desespero do pai, mas podemos julgar uma sociedade e uns juízes que tomam a decisão irreversível (...) de deixar morrer de inanição uma pessoa que, sem nenhum outro meio extraordinário, muito simplesmente com cuidados mínimos que não podemos negar a ninguém, continuará a viver, apesar do estado em que se encontra. Não podem basear a sua decisão no sofrimento de Eluana, pois ela não está a sofrer, mas apenas na incapacidade social de atender quem não está em condições de agradecer."

A posição da Igreja Católica em relação a estes casos encontra-se exposta numa resposta da Congregação para a Doutrina da Fé, na qual se dizia que proporcionar aos pacientes em coma alimentação e água é um princípio moralmente obrigatório (cf. Aceprensa 100/07, na versão impressa).

Regressão

Pedro Vaz Patto, O inimputável, 20081129

Em Itália, continua a grande mobilização que pretende evitar a morte de Eluana Englaro, a jovem em estado vegetativo persistente que o tribunal autorizou que deixasse de ser alimentada e hidratada: tomadas de posição, vigílias de oração, apelos à consciência de quem possa colaborar nessa morte, recusa de instituição hospitalares públicas e privadas em fazê-lo, recurso ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem por parte de associações de familiares de doentes em situações análogas.
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Retiro de Advento, 7 Dez, 10:00-19:00




Ter casa ou ter filhos

Expresso, 081129
Fernando Santo

Bastonário dos Engenheiros quer mais mercado de arrendamento

ILUSTRAÇÃO FILIPE ABRANCHES Esta crise financeira mostrou a irracionalidade de um sistema que conduziu milhões de pessoas, sem rendimentos compatíveis, à categoria de ‘proprietários’ da sua habitação.
Em 1970, metade dos fogos construídos em Portugal destinava-se ao mercado de arrendamento, tendo-se construído, nessa década, cerca de 500.000 residências permanentes. Após 1974, o mercado de arrendamento desapareceu, com a obrigação do congelamento das rendas, apesar da inflação e das taxas de juro na casa dos 30%. Quem vivia numa casa arrendada não sofreu o aumento dos custos, mas os restantes tiveram como única solução a compra de habitação, com juro elevadíssimo. Entre 1980 e 1990, o número de fogos construídos para habitação permanente baixou para 275.000.
A partir de 90, o juro foi descendo até se situar abaixo dos 4%, em 2000, o que permitiu aos portugueses a aquisição de habitação com recurso a crédito, a 25 anos. Esse mercado transformou-se numa enorme oportunidade em que todos pareciam ganhar. Os bancos ganham com o crédito e as famílias com a valorização das habitações. Já não se compravam apartamentos mas apenas rendas mensais. A banca é o novo senhorio, sem as regras do mercado de arrendamento.
Para os Governos não podia ser melhor, pois a maioria das famílias tinha resolvido os seus problemas e para as de menores rendimentos concederam-se bonificações e benefícios fiscais. Diminuiu-se assim a pressão para se construírem habitações sociais.
O arrendamento não foi incentivado e os cidadãos continuaram a ser conduzidos para a compra de habitação, apesar do aumento da mobilidade e da precariedade do emprego.
De 1991 a 2002 construíram-se 800.000 fogos para habitação permanente, ultrapassando o total nas duas décadas anteriores.
Quando o juro começou a subir e a criar dificuldades nas famílias, aumentaram-se os prazos dos empréstimos para 40 anos, mantendo a mesma ‘renda’ mensal. Mas quando os preços no mercado imobiliário começam a descer pelo excesso de oferta e as famílias a ter dificuldades em pagar as prestações, começou o verdadeiro problema. Um problema que o Orçamento do Estado de 2009 procura solucionar com um fundo que ajuda a transformar os ‘proprietários’ em novos inquilinos. E assim ressurge o arrendamento como a velha solução.
Apesar das famílias portuguesas terem dos menores rendimentos da UE, Portugal ocupa o 3º lugar na percentagem das famílias que são ‘proprietárias’ da sua residência, sendo um dos países com menor taxa de natalidade. É fácil perceber que o esforço financeiro para comprar casa não deixou dinheiro disponível para muitas outras coisas, nomeadamente para ter filhos.
E continuamos a ter milhares de fogos devolutos, muitos dos quais degradados, à espera de um regime de arrendamento que conduza a uma renda justa, que dê confiança aos senhorios e que torne esse mercado eficiente.
Se os Governos tivessem dado ao mercado de arrendamento uma pequena parte do apoio concedido recentemente ao sistema financeiro, por causa do mercado imobiliário, teríamos mais famílias com casas arrendadas, com menos dívidas, com mais filhos, e cidades com prédios menos degradados.
Espero que esta crise obrigue à racionalização do que temos e à inversão de algumas políticas no sector da habitação.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Criancas, familias e riscos

Diário de Notícias, 20081127
Maria José Nogueira Pinto
Jurista

Lembro-me de três irmãos, institucionalizados, que tinham sido retirados à mãe por esta ser débil mental. As crianças julgavam que o motivo da institucionalização se devia às péssimas condições da habitação onde viviam e quando souberam que a câmara tinha dado uma casa à mãe pensaram que já não havia razão para a família se manter separada. O mais velho, talvez com dez anos de idade ou pouco mais, tinha mesmo concebido todo um plano que me expôs com grande razoabilidade: eles ajudariam a mãe e não faltariam à escola e só era preciso que a "senhora assistente social" acompanhasse a situação e arranjasse aquele subsídio a que a mãe tinha direito. E talvez porque esta solução desafiava o mais rigoroso by the book, tornando-se inadmissível, não foi assim.

Recordo também o caso de uma mulher que escassas horas após o parto desapareceu da maternidade, deixando o recém-nascido. Alertada para o facto e instada a participá-lo à polícia, decidi esperar umas horas. A mulher regressou ao fim da tarde e explicou-me com a maior naturalidade que tinha ido trabalhar. Era empregada numa peixaria, o seu contrato era precário e não podia ser despedida agora que tinha um bebé. Esta supermãe, devidamente apoiada, conseguiu guardar o emprego e criar o seu filho.

De tudo isto e muito mais me lembrei a propósito do recente Congresso sobre Adopção. É difícil tratar este tema desligado do que é ou deveria ser o Sistema de Protecção de Crianças e Jovens e também da dimensão sofrida de um assunto que toca o mais íntimo da condição humana: abandono e desamor, sobrevivência e destino.

É a velha questão da lei e da praxis: é mais fácil legislar do que criar uma verdadeira linha de produção capaz de garantir a articulação permanente de todos os intervenientes, com vista a um resultado: o justo e adequado projecto de vida de cada criança em risco.

Esta linha começa na família biológica, passa por uma instituição e, na melhor das hipóteses, acaba numa reintegração familiar ou numa adopção. Na pior, as crianças crescem num lar. Como o princípio é o da transitoriedade do internamento, muitos lares não investem em tornar-se espaços preparados, em qualidade afectiva e técnica, para um transitório definitivo.

O trabalho com a família biológica nem sempre pode ser preventivo e, a posteriori, é difícil, de lento retorno, colidindo frequentemente com o tempo útil da criança que rapidamente se esgota, deixando-a sem horizonte nem futuro. Alguns candidatos à adopção procuram uma criança em função de uma circunstância - crise conjugal, solidão, frustrações várias ou compaixão - dando origem a duplos abandonos quando verificam que, afinal, não era isso o que queriam. Os magistrados nem sempre têm uma sensibilidade e familiaridade com os casos (todos únicos...) nem com o sistema a jusante e a montante, como se viu pela sorte da Esmeralda.

Todos este processo é marcado por expectativas, percepções contraditórias e interesses conflituantes e, ainda, pela mediatização das emoções. A triste história da Casa Pia criou na opinião pública a ideia de que as instituições ou são tiradas de Dickens ou são antros onde os menores estão sujeitos a todo o tipo de aberrações. A violência doméstica, o álcool e a droga tornam, para muitos, a família biológica um perigo que há que eliminar precocemente. A adopção é vista, sempre, como um happy end quando é com essa refiliação, esse segundo nascimento para os afectos, que tudo realmente começa.

A crueza dos números de crianças em risco na sua família biológica, de crianças institucionalizadas e de crianças que em período de pré-adopção são devolvidas à procedência, mostra o mundo real onde trabalhamos e vivemos. E que aquilo que se exige, todos os dias, ao sistema é desmesurado: refazer o destino de cada uma delas, depressa e sem erros.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Carris

João César das Neves

DESTAK, 27 11 2008 08.49H

Apareceram em várias carreiras da Carris dísticos junto do condutor do autocarro indicando que é proibida a entrada de malas de grande dimensão. A sinalética do boneco mostra que os passageiros só podem transportar pequenos sacos.

Porquê a imposição? Percebe-se que nas horas de ponta, com muita gente apertada, uma bagagem volumosa crie enormes transtornos. Mas, apesar de tudo, esses períodos são excepção. No caso normal, mesmo com os assentos ocupados, a passagem de alguém carregado não gera incómodo. Por outro lado, proibir a entrada de pessoas com malas é severa limitação, sobretudo para os pobres. Os táxis ficam contentes, mas são os únicos beneficiários.

A Carris é um serviço público. O seu dever é assistir aos cidadãos que pagam impostos. Servir todos os cidadãos que precisam de transporte, não apenas os que viajam de mãos a abanar ou com pequenos saquinhos. É isso que faz dele um serviço público. Cada vez que se autolimita, mesmo com boas intenções, desvirtua a sua missão e identidade. Esta proibição mostra que a empresa esqueceu que a sua natureza e razão de ser é servir. Servir significa ser útil aos utentes, não cumprir regras ideais determinadas por especialistas.

Na origem desta atitude está o vício fatal do burocrata: tomar como finalidade, não a assistência à população, mas a própria execução da tarefa. Nesse caso os serviços funcionam muito bem, mas deixam de ser úteis. Os hospitais seriam excelentes sem doentes e as escolas sem alunos. Agora os autocarros pretendem ser aprazíveis recusando passageiros incómodos.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Caso Eluana: Caridade ou Violencia?

Caso Eluana Caridade ou Violência?

Comunhão e Libertação

Novembro 2008

«A coisa da vida suprema é perceber as razões da fadiga, porque a maior objecção à vida é a morte e a maior objecção à vida é a sua fadiga; a maior objecção à alegria é o sacrifício… O maior sacrifício é a morte» (don Giussani).

Que sociedade é esta que chama à vida "um inferno" e à morte "uma libertação"?

Onde está o ponto de origem de uma razão enlouquecida, capaz de virar ao contrário o bem e o mal e, portanto, incapaz de dar o verdadeiro nome às coisas?

A já anunciada suspensão da alimentação a Eluana é um homicídio. É ainda mais grave por impedir o exercício da caridade, porque existe quem tenha tomado conta dela e queira continuar a fazê-lo.

Durante a sua longa história, o desenvolvimento da medicina tornou-se mais fecundo quando, em época cristã, começou a assistência exactamente aos "incuráveis", que anteriormente eram expulsos da comunidade dos homens "sãos", eram deixados a morrer fora dos muros da cidade ou eram eliminados. Quem deles se ocupasse colocaria a própria vida em risco. Assim, quem começou a tomar conta dos incuráveis fê-lo por uma razão mais potente que a própria vida: uma paixão pelo destino do outro homem, pelo valor infinito do outro porque é imagem de Deus criador.

O caso Eluana põe-nos diante da primeira evidência que emerge na nossa vida: não nos fazemos sozinhos. Somos queridos por Outro. Somos arrancados do nada por Alguém que nos ama e que disse: «Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados». Recusar esta evidência coincide com recusar a realidade, mais cedo ou mais tarde. Até quando esta realidade tem o rosto das pessoas que amamos.

Eis a razão pela qual chegar ao ponto de reconhecer Quem nos dá a presença de Eluana não é uma adição "espiritual" de quem tem fé. É uma necessidade de todos os que, por possuírem a razão, procuram um significado. Sem este reconhecimento torna-se impossível abraçar a Eluana e viver o sacrifício de acompanhá-la; aliás, torna-se possível matá-la e fazer passar este gesto, com boa vontade, por amor.

O cristianismo nasceu precisamente como paixão pelo homem: Deus fez-se homem para responder à exigência dramática – que todos acusam, crentes ou não crentes – de um significado para viver e para morrer; Cristo teve piedade do nosso nada ao ponto de dar a vida para afirmar o valor infinito de cada um de nós, em qualquer condição estejamos.

Precisamos d'Ele para sermos nós próprios. E precisamos de ser educados no Seu reconhecimento, para viver.

Foi voce que pediu uma alternativa?

Público, 26.11.2008, Rui Ramos

Estamos confrontados com a estagnação, que se traduz na provável necessidade de renunciar a expectativas e ambições

Nunca um governo, antes deste, viu passar tantas manifestações e tantos líderes da oposição. Segundo o PÚBLICO, das quatro maiores enchentes de rua desde o 25 de Abril, três tiveram José Sócrates como alvo. O PSD, entretanto, fez avançar quatro presidentes em três anos (Santana, Mendes, Menezes e Ferreira Leite), esgotando todas as receitas possíveis: houve-os de Lisboa e da província, quase liberais (Mendes) e quase populistas (Menezes), a falar muito (Menezes) e a falar pouco (Ferreira Leite), e por aí fora. Mas enquanto a CGTP aluga autocarros para vir a Lisboa e o PSD muda de presidente como quem muda de camisa, as sondagens de opinião não fazem mais do que manter a especulação sobre se Sócrates vai ou não repetir a maioria absoluta no Outono de 2009.
Noutros países, nos últimos quatro anos, não foi assim. Nos EUA, republicanos e democratas inverteram completamente as posições e as expectativas. Em Itália, a esquerda saiu, Berlusconi regressou, e agora a esquerda, renovada, parece querer voltar outra vez. Em Inglaterra, conservadores e trabalhistas trocaram várias vezes de lugar na corrida para as próximas eleições. Em Espanha, a rotação já está no mapa dos próximos anos. Em Portugal, porém, o padrão eleitoral de 2005 tem-se repetido sondagem após sondagem, como se o relógio eleitoral tivesse parado então. Nem a crise financeira, que pelo mundo fez girar a roda de tantas fortunas, conseguiu empurrar o carrossel político português.
As boas maneiras de pensar mandam que se culpe a oposição, sobretudo a que está à direita do PS. As direitas, diz-se, não teriam "alternativa", justificando assim a relutância dos portugueses em inflamar as sondagens. O problema é que, embalados pela queixa, nos habituámos a falar da tal "alternativa" como se fosse uma coisa à mão de semear, daquelas que se compram nos supermercados, já prontas a usar. Infelizmente, não é bem assim. Uma "alternativa" não se improvisa com inspirações avulsas - é o resultado de muito trabalho. Pior: uma "alternativa" não se faz apenas com "ideias", mas com pessoas, com os protagonistas mais apropriados. Mais grave ainda: uma alternativa depende também de circunstâncias, daquele momento em que o público, cansado do que existe ou desperto para outras opções, resolve experimentar, arriscar - porque uma alternativa é sempre um risco (se fosse uma certeza, nunca chegaria a ser uma "alternativa": seria imediatamente realizada).
Uma alternativa não surge necessariamente quando nos convém, mas quando é possível: quando os protagonistas existem e estão no seu lugar, os projectos foram elaborados e fazem sentido, e a sociedade está disposta a tentar algo de novo. A questão, portanto, não é saber se Portugal precisa de uma alternativa, mas saber se pode ter uma alternativa.

Perante si, os portugueses têm uma oposição de esquerda encerrada numa espécie de parque jurássico mental (veja-se o seu actual "regresso" a Marx), e uma oposição de direita que, depois de muitas voltas, ainda não conseguiu perceber o que lhe aconteceu da última vez que passou pelo governo, em 2002-2005. As esquerdas da oposição animam as ruas, e as direitas fazem a devida marcação parlamentar aos ministros. Nada mais. Mas é só isso que nos limita?
Os portugueses vivem num país parado desde 2001, quando rebentou a grande bolha do Estado. Para equilibrar as contas, o Governo passou a gastar uma parte cada vez maior dos nossos rendimentos. Durante algum tempo, vigorou a esperança de que as dificuldades seriam temporárias, como várias vezes acontecera nos últimos trinta anos, e que em breve o país voltaria a "arrancar". Não arrancou. Perdemos aquela que foi uma das grandes épocas de crescimento da economia mundial. E agora que a locomotiva externa parou, não se vê como vamos andar.
As actuais gerações portuguesas estão assim confrontadas com um horizonte absolutamente inédito neste país desde há mais de sessenta anos: a estagnação, isto é, a provável necessidade de renunciar a expectativas e ambições. É possível que a frustração, como acontece nestes casos, provoque algum movimento. Mas há algo de mais sério: os portugueses de hoje não são como os de ontem. Somos uma população envelhecida, a diminuir, desabituada de sacrifícios e de esforços, mais atomizada do que nunca, e portanto mais frágil e insegura. Que alternativa está à altura e ao alcance destes portugueses? Enquanto esta pergunta não tiver resposta, a "alternativa" continuará a ser uma daquelas banalidades que servem para atormentar os políticos nas entrevistas, mas para mais nada.
Historiador

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Concertos Messiaen: Integral da Obra para Órgão - Sé Patriarcal de Lisboa




VELADAS PELA VIDA - 25 de Novembro de 2008


Hoje Portugal volta a rezar pela Vida. De norte a sul do país, nas «Veladas pela Vida» pediremos a Misericórdia do Senhor da Vida, por intercessão de Maria, para todas as Vítimas do Aborto. Teremos presentes nos nossos corações as recentes palavras dos Senhores Bispos da Conferência Episcopal Portuguesa; palavras de apreço pela “acção de tantos homens e mulheres, de grupos e associações que, com a sua intervenção e testemunho, são motivo de esperança para todos, especialmente quanto às causas fundamentais da vida e da família”.

Hoje, de um modo muito especial, queremos ter presentes as seguintes ameaças à Vida e à Família em Portugal:

  • A «Lei do aborto» responsável directa por 12.000 bebés abortados, cuja discussão e revisão se pede na petição a entregar brevemente no Parlamento, a qual permite os abortos múltiplos;
  • A nova lei do divórcio recentemente homologada pelo Presidente da República;
  • Os ataques à liberdade de educação, aos direitos e responsabilidade dos pais na educação dos seus filhos;
  • O «Inverno Demográfico» resultante de uma mentalidade e legislação que enfraquece a Família e subverte Valores;

O Senhor disse:"Tudo o que pedires ao Pai em meu Nome, Ele vos concederá". É porque acreditamos profundamente nesta Promessa do Senhor que hoje voltamos a pedir ao Pai, em nome de Jesus, que nos conceda a Graça de ver respeitado, por toda a parte, o Dom sagrado da Vida.

Num só coração e numa só Alma, diante de clínicas e hospitais onde o estado português pratica o aborto com a colaboração forçada de todos nós (via impostos), estaremos presentes em Lisboa, Guimarães, Braga, Leiria, Penafiel, Porto, Vila Real, Famalicão, Póvoa de Varzim, Viseu e outras cidades.

E saudaremos de modo especial a cidade mais alta, a Guarda, que pela primeira vez se junta a nós.

A carta recebida da parte do Sucessor de Pedro com votos das «melhores prosperidades com as bençãos de Deus» para os trabalhos que – juntos - empreendemos a favor da causa da Vida, além de um estímulo para a perseverança são um convite a uma cada vez maior união e colaboração entre todos os cristãos: leigos, sacerdotes e bispos.


para obter o guião de Novembro clicar aqui



Banco Alimentar contra a Fome

O dia do Portugal possível

Público, 25.11.2008, Helena Matos

A 25 de Novembro de 1975, os protagonistas do poder assumiram a necessidade de passarmos a viver no país possível

São sem dúvida insondáveis os critérios que levam à escolha dos dias feriados. Mas se a importância histórica das datas fosse determinante na atribuição desse estatuto então hoje seria feriado nacional, pois a sociedade portuguesa é muito mais o resultado do 25 de Novembro de 1975 do que do 25 de Abril de 1974.
Das bravatas castrenses de Spínola tal como das divagações de Vasco Gonçalves ou até do nacional-porreirismo de Otelo pouco nos sobrou para lá dumas recordações tão pitorescas quanto anacrónicas. O que somos nasceu muito mais dos compromissos estabelecidos a 25 de Novembro de 1975 do que de qualquer outro processo, revolucionário ou não. Ou talvez o mais verdadeiro seja o facto de o 25 de Novembro de 1975 ser a mais portuguesa das datas da nossa História recente.
Para o melhor e para o pior, lá estão o nosso horror ao conflito, os compromissos e as camaradagens entre vencedores e vencidos e sobretudo a necessidade de encontrarmos uma narrativa suficientemente reconfortante para todos.
A 25 de Novembro de 1975, os protagonistas do poder assumiram oficialmente a necessidade de passarmos a viver habitualmente no país que era o possível. Para trás ficara aproximadamente um ano do qual, consoante as sensibilidades, ora se diz que o país esteve à beira duma ditadura comunista ou em processo revolucionário. Digamos que estas são as versões convenientes dos factos. Ou seja, nada disto é necessariamente mentira, mas corresponde apenas a uma parte da verdade. Os portugueses acreditaram (e acreditam) que não seria mau que o Estado tomasse conta das empresas, pois um estado tutelar era algo a que estavam habituados mas sendo ferozmente individualistas jamais aceitariam que a colectivização passasse para o seu quotidiano.
O diálogo sobre a posse da enxada que "é minha não é da cooperativa" no documentário Torre Bela ilustra esse povo sequioso por ter - não por dividir e muito menos por usufruir em comum o que quer que fosse. Passados os primeiros entusiasmos com a liberdade, os portugueses pareciam mais interessados em usufruir o prazer de consumir novos electrodomésticos, fossem eles televisões ou panelas eléctricas, ir de férias, vestir-se descomprometidamente ou encomendar marisco - gestos banais mas até aí tidos como 'coisa dos outros' - do que em actividades de militância política.
A sua libertação era a do quotidiano e a dos costumes, por isso esgotavam as sessões dos filmes que lhes parecessem pornográficos e mostravam-se arredios às películas que intelectuais, anteriormente da oposição e agora "ao serviço da cultura", não só lhes traziam da Bulgária e da URSS, como asseveravam ser imprescindíveis à sua formação. Este desacerto entre o gosto das massas e os objectivos das suas autodenominadas vanguardas intelectuais é uma fonte permanente de azedume para estas últimas porque, como infelizmente bem sabemos, dependem dos dinheiros públicos mas não conseguem ter público.
É certo que em 1974 não se pensava sequer em questionar o supremo acerto do dirigismo estatal subjacente a este tipo de "política cultural". Mas a disparidade entre aquilo que o povo queria ver e aquilo que os teóricos da revolução pretendiam que o povo visse gerou medidas fantásticas como a "ofensiva anti-sexy" do governo e das empresas cinematográficas que, logo em Novembro de 1974, escassos meses após a censura ter sido oficialmente abolida, determinaram que fitas que como Amor entre Mulheres ou Sofia e a Educação Sexual eram "ideológica ou moralmente agressivas" e deveriam ser substituídas por filmes de "temática política" ou de "características diferentes". Rapidamente o Governo de então teve outras ofensivas com que se ocupar e, em Abril de 1975, até na Marinha Grande a ofensiva anti-sexy parecia perdida, pelo menos a fazer fé nos comunicados emitidos pelo PCP a propósito dum espectáculo de strip-tease que o "reaccionário" Vasco Morgado pretendia levar à cena na terra do "soviete" português.
Bem podia o PCP denunciar que se estava perante um espectáculo que reflectia "as mais degradantes concepções e vícios de um capitalismo moribundo e desesperado que recorre a todos os meios da depravação com vista, por um lado, à conquista do lucro fácil e, por outro, a estimular instintos inferiores" e avisar que o objectivo do dito show era "desviar a atenção das massas trabalhadoras dos seus reais problemas e interesses, pelos caminhos da alienação".
E por mais que o Sindicato dos Vidreiros assinasse também este comunicado, a verdade é que a classe operária não se fazia rogada para encher as salas e os bolsos de Vasco Morgado ou ir ao Vox, ao Politeama e ao Pathé atraída pelas tais películas "ideológica ou moralmente agressivas".
Com mais ou menos folclore, campanhas de dinamização e ocupações, não creio que o PCP tenha mantido muitas ilusões acerca da sua real capacidade para impor uma ditadura comunista em Portugal. Nem o tempo - estava-se nos anos 70 - nem o espaço - o país mais ocidental da Europa - permitiam acalentar esse tipo de desígnios. A via legalista revelou-se muito mais eficaz e ditadura alguma que o PCP tivesse instituído teria resistido ou sequer moldado a nossa vida tanto como a Constituição de 1976 e suas diversas declinações legais em que o PCP se especializou. Por outro lado convém que sejamos modestos nestas nossas ânsias de destinos singulares que tanto nos levam ao Quinto Império quanto ao imaginário da Cuba da Europa. Portugal, que sempre se achou tão importante que tem preferido pensar que foi uma tolice a decisão dos ministros de D. João VI de transferirem a capital do reino para o Brasil, também lhe custa muito aceitar que em 1974 provavelmente havia menos interessados, na cena internacional, em controlar Lisboa do que em controlar Luanda. Mas por mais mossa que isso nos faça no orgulho, a verdade é que a nossa revolução acabou 14 dias após a independência de Angola, pois não só o frenesim revolucionário já não fazia falta alguma, como se estava a tornar num verdadeiro embaraço e todos os protagonistas não só queriam viver habitualmente como, à excepção da extrema-esquerda, o podiam fazer sem perder a face: o PCP apostava na defesa legal das "conquistas de Abril", garantia a sobrevivência e a dignidade institucional graças à sua omnipresença no aparelho de Estado e mantinha inabalável a superioridade moral que o leva a dividir os portugueses em particular e o mundo em geral em bons e maus, cultos e incultos, de esquerda ou de direita. Os militares vitoriosos do golpe eram os heróis possíveis por terem salvado o país do comunismo, sendo esta redenção tão mais retoricamente avantajada e celebrada quanto se subestimava o facto de os mesmos militares tão anticomunistas em Portugal terem chamado libertação à implantação de regimes comunistas em Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé.
O CDS e o PPD ganharam direito a existir sem terem de fazer profissão de fé antifascista diária.
Mário Soares confirmava-se como o primeiro grande líder político do pós-25 de Abril. Melhor ou mais português era de facto impossível. Em pouco mais de um ano tínhamos passado da exaltação da pátria pluricontinental com quinhentos anos à revolução socialista. E de repente, nesse dia 25 de Novembro de 1975, à semelhança de viajantes dum carrossel cuja música se extinguisse, tudo terminou e nós descobrimo-nos sozinhos no que até há pouco era um animado arraial. Nunca percebemos exactamente o que aconteceu a 25 de Novembro de 1975, mas foi a partir daí que nos começámos a render à evidência que não existiam mais golpes mágicos susceptíveis de nos mudar o destino. Nesse dia ficámos sem fantasmas da História nem promissores amanhãs das ideologias. Ficámos sós, subitamente sérios e adultos, no Portugal possível.

25 de Novembro - Santa Catarina de Alexandria

Santa Catarina de Alexandria
atribuído a Garofalo
1476-1559
óleo sobre madeira
45.1 x 38.7 cm.
The National Gallery
Trafalgar Sq. London

VENDA DE NATAL Fundação Maria Ulrich

VENDA DE NATAL


A Fundação Maria Ulrich, convida V.Exa. para a sua venda de Natal,


na sua sede, na Rua Silva Carvalho, 240,


no dia 28 de Novembro, das 10H às 19H.



21.388.21.10


http://www.fmu.org.pt/


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Vida e Obra de Maria Ulrich

MARIA ULRICH

Uma Educadora no Séc. XXI

A Fundação Maria Ulrich, convida V.Exa. para a assistir ao painel sobre a vida e obra de Maria Ulrich, que terá lugar, na sua sede, na Rua Silva Carvalho, 240,

no dia 25 de Novembro, às 17:30H.

21.388.21.10

www.fmu.org.pt

A secura dos interesses

Diário de Notícias, 20081124
João César das Neves
Professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Vivemos o período mais longo sem eleições nacionais da democracia. Passaram mais de mil dias desde as presidenciais de 22 de Janeiro de 2006, acima do máximo anterior de 916 dias entre as legislativas de 10 de Junho de 1991 e autárquicas de 12 de Dezembro de 1993. Em maioria absoluta, está na altura de balanço desta inaudita estabilidade. O sr. primeiro-ministro declarou há pouco não pensar nas consequências eleitorais da sua política (Rádio Renascença, dia 14, às 13.12), sinal de que não pensa noutra coisa e a campanha já começou.

Na Saúde, a atitude da primeira metade da legislatura foi invertida na segunda parte. Trocando de ministro para acalmar a contestação, o Governo alterou totalmente a orientação. Se alguém perguntar qual o modelo de sistema que o executivo propõe, a resposta é simples: todos.

Na Educação a luta continua. Mas pergunta-se se os confrontos têm como finalidade a melhoria da formação dos jovens. Num sistema que avalia professores mas não reprova alunos, a questão centra-se não nos objectivos sociais mas nos conflitos laborais. Com cada vez menos estudantes por razões demográficas, o excedente de docentes obceca todos os envolvidos, esquecendo o propósito da educação. Entretanto, contestação pública e violência escolar degradam a imagem dos antes prestigiados mestres-escola.

O sector com maior decadência no período é também o que menos depende do Governo, mostrando que os nossos problemas são mais fundos que a política. A Justiça, gozando da maior autonomia pela independência de tribunais e magistratura, encontra-se em estado lastimoso. É incrível como o sector conseguiu falhar todos os processos mediáticos em que se envolveu. Uns atrás dos outros, sucederam-se os crimes graves sem real condenação de culpados. Generalizou-se a ideia de que as gradas figuras sociais são impunes e a Justiça, vagarosa, trapalhona e incapaz, acaba sempre enganada ou talvez cúmplice.

Na Administração Pública, iniciada a reforma só no fim da legislatura, tudo fica na mesma.

A Economia começou mal para acabar pior. O ciclo económico pouco depende da actividade governamental, mas o Executivo sempre preferiu medidas mediáticas à verdadeira reforma económica. A razão profunda é a falta de confiança nos agentes e mercados, únicos capazes da transformação estrutural que gerará o próximo surto de crescimento.

Mas a prioridade assumida do Governo era orçamental, e aí os resultados parecem excelentes. Só que a redução do défice foi feita não com economia de gastos mas por tributação das poupanças privadas. Assim, o endividamento total do País não só não desceu mas subiu na conta-corrente e capitais dos 6,2% do PIB em 2004, para os 8,9% previstos para 2008.

Entretanto, a evolução decisiva desenrolou-se perante o alheamento distraído do Governo. Em 2007, pela primeira vez na História de Portugal, a taxa de mortalidade sem catástrofes subiu acima da de natalidade. A última vez que tal sucedera foi em 1918 devido à pneumónica. Apesar da ajuda dos imigrantes, o País encontra-se em vias de extinção. O Governo, que sofre as consequências na Saúde e na Educação, apenas trata aspectos laterais, na reforma da Segurança Social, talvez o feito mais importante da legislatura. No problema básico, os políticos pioraram a dinâmica com leis do aborto e do divórcio.

A atitude comum aos vários sectores é evidente. O Governo mostrou-se activo e reformador, disponível para enfrentar dificuldades e inaugurar uma nova fase no País. Este dinamismo reformista foi apoiado pelas populações, assustadas pela crise e ansiosas de novidade. Mas a ânsia reformadora não provinha de convicção profunda e facilmente cedia na contestação. Após declarações bombásticas seguiam-se adiamentos, compromissos, deslizes.

Mas a crise nacional é acima de tudo um problema de referências. Enquanto se evapora o prestígio de ministros, médicos, professores, juízes, polícias e funcionários, avoluma-se a sensação de perda de valores, sentido de serviço público, ética e dedicação.
Portugal definha na secura dos interesses.

domingo, 23 de novembro de 2008

23 de Novembro, Domingo, Festa de Cristo-Rei

Cristo Pan-Creator
c. 1131
Catedral de Cefalú (Duomo)
Mosaico
Sicília
_____________________________________________


1.CRISTO
(Do gr. = Ungido; em hebr. diz-se *Messias). Não sendo nome pessoal, a sua aplicação a Jesus (560 vezes no NT) justifica-se pela convicção, entre os seus discípulos, de que Ele era por ­excelência o Ungido de Deus, co­mo sa­cer­dote, profeta e rei (as categorias de pessoas às quais, pelo rito da unção ou equi­valente, eram confiadas missões importantes de ordem religiosa e social). (V. Jesus).
2. Cristo-Rei, fes­ta de.
A li­tur­gia reserva (actualmente) o último do­mingo do ano litúrgico à so­lenidade de “Nosso Senhor Jesus Cris­to Rei do Uni­verso”. Instituída esta fes­ta por Pio XI (Enc. Quas primas de 11.12.1925) num contexto de promo­ção do “Reinado So­cial de Cristo”, de­pois da reforma conciliar ela foi reinterpretada num sentido mais universal, espiritual e escatológico, como se de­preende do novo título (…Rei do Uni­ver­so), da nova oração colecta, das no­vas leituras e do facto de encerrar o ano litúrgico (34.º Domingo do Tempo Co­mum).
3. Monumento a Cristo-Rei.
Erguido em Almada, frente a Lisboa, por voto do Episcopado (1940) se o país fos­se poupado à guerra de 1939-45, foi inau­gurado a 17.5.1959, com a consa­gra­­­ção de Portugal aos Cora­ções de Jesus e Maria. Sobre um plinto de 76 m, ergue-se a estátua de C. de bra­ços abertos, com 28 m de alto e 16 de envergadura. Nele se gastaram 20000 m3 de betão armado com um peso de 40000 toneladas. Ini­cial­mente propriedade do Patriarcado de Lisboa, foi cedido à diocese de Setúbal a 26.7.1999. Hoje, é o núcleo de San­tuário Nacional.


in Enciclopédia Católica Popular de D. Manuel Franco Falcão

JULGAR MAL UMA OBRA

Mensagem Semanal do P. António Vieira SJ

JULGAR MAL UMA OBRA Semana 48: 24 a 30.11.08

“Julgar mal uma obra boa, grande maldade é: mas julgar, ou bem, ou mal um pensamento, que não pode ser conhecido, ainda é maior tirania. Se não conheces, nem podes conhecer o pensamento, como te atreves homem a julgá-lo? É tão reservado a só Deus o juízo dos pensamentos, que nem de toda a Igreja católica fiou Deus o julgar um pensamento: Ecclesia non judicat de interno. E o que Deus não fia dos Pontífices, o que não fia dos Concílios, o que não fia de toda a Igreja, que é julgar meus pensamentos, isso faz o juízo de qualquer homem. Parece-vos muito isto? Parece-vos muito, que os homens julguem pensamentos, e condenem só por pensamentos? Ora aguardai, que ainda não disse nada. E quantas vezes vos julgaram, e condenaram os homens pelo que nunca vos passou pelo pensamento? Eis aqui outra maior diferença dos dois juízos: Deus julga, e condena por pensamentos, os homens julgam, e condenam pelo que nunca passou pelo pensamento. (...) Com este rigor nenhuma comparação tem o juízo de Deus. Para Deus condenar por pensamento é necessário, que haja pensamento, que seja mau, e que se consinta: para o homem condenar do mesmo modo, não é necessário, que se consinta, nem que seja mau, nem que haja pensamento. Pode-se imaginar maior rigor, maior injustiça, maior crueldade, que esta? Eu cuidava, que não; mas ainda passa adiante a sutileza, e a crueldade do juízo dos homens. Não só vos condenam os homens pelo que não vos passou pelo pensamento a vós, mas condenam-vos pelo que nem lhes passou pelo pensamento a eles. Mais claro. Não só vos condenam os homens pelo que vós nunca imaginastes, mas condenam-vos pelo que nem eles imaginam de vós”. (Sermão da 2ª Dominga de Advento)

Um grande e amigo “Bem haja”, meu e de todos, ao Dr. Fernando Magalhães que mandou mais este pequeno texto vieirino, para dele podermos “sacar provecho”.
Segue também toda a amizade do P. Amadeu

Petição Internacional pelos Direitos e pela Dignidade da Pessoa Humana e da Família

Está em curso uma petição promovida pelo C-FAM (Catholic Family and Human Rights Institute) cujo conteúdo reproduzo aqui. Esta mesma petição é objecto de um apelo à mobilização feito pela Conferência Episcopal Brasileira. Para assinar a petição é preciso fornecer alguns dados simples aqui. (Neste momento, 23Nov, 12:00, há 21034 respostas em português)

Nós, cidadãos dos Estados membros da Organização das Nações Unidas, neste ano do 60.° aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948,

Recordando que:
A Declaração Universal é um estandarte comum para todas as pessoas e todas as nações,

Tendo em conta que:
Os direitos humanos, a dignidade, a liberdade, a igualdade, a solidariedade e a justiça, constituem o patrimônio espiritual e moral sobre o qual se baseia a união das Nações,

Indicamos que:
Deve-se dar a devida consideração a:
1. O direito à vida de cada ser humano, da concepção até a morte natural, tendo cada criança o direito de ser concebida, nascida e educada no seio de uma família, baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher, sendo a família o grupo de unidade natural e fundamental da sociedade,

2. O direito de cada criança de ser educada por seus pais, que têm a prioridade e o direito fundamental de escolher o tipo de educação que deve ser dada a seus filhos.

Por isso solicitamos a todos os governos interpretar de maneira apropriada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, dado que:
- Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. (Artigo 3)
- Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. (Artigo 16)
- A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e têm o direito à proteção da sociedade e do Estado. (Artigo 16)
- A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. (Artigo 25)
- Os pais têm o prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos. (Artigo 26)

O último auto-retrato

Auto-retrato como Zeuxis
Rembrandt
c. 166
282.5 x 65 cm.
Wallraf-Richartz-Museum
Collogne

in Público de 23 de Novembro de 2008




Por exemplo

Público, 23.11.2008, António Barreto

O ministério não tem qualquer intervenção directa na escola, mas os seus inspectores visitam-na duas vezes por ano
Aescola Adriano Zenão, pública, tem cerca de 500 alunos do ensino básico e secundário. Pertence à autarquia. O director da escola, dr. Fabrício, é gestor, especialista em administração escolar e principal responsável pela escola. Foi nomeado pelo Conselho Escolar, sendo este composto por um terço de professores, um terço de pais de alunos e um terço de membros da comunidade (autarcas, empresários e outros). O contrato do director tem a duração de cinco anos e pode ser renovado. A sua nomeação ocorreu após um processo de selecção iniciado um ano antes. A aprovação do seu contrato teve de obter pelo menos dois terços dos votos do Conselho Escolar. O director é assessorado pelo Conselho de Gestão, formado por ele, um técnico e dois professores. Estes três membros do Conselho de Gestão foram nomeados, sob proposta sua, pelo Conselho Escolar. O Conselho Pedagógico, formado por cinco professores, ocupa-se das matérias exclusivamente desse foro. Há vários planos, muito flexíveis, de organização dos docentes por turma, ano ou disciplina, de modo a permitir a boa informação e a coordenação de certos assuntos. O Conselho Disciplinar é formado pelo director, um professor e um membro da Associação de Pais. O Regulamento disciplinar é elaborado pelo director da escola e aprovado pelo Conselho Escolar. Este último, presidido pelo dr. Julião Bruno, representante da Associação de Pais, nomeia o director e aprova os orçamentos e relatórios anuais, o plano estratégico de desenvolvimento e os regulamentos, mas não interfere no dia-a-dia da escola, nem nos processos de avaliação ou de recrutamento. Este foi o modelo próprio, construído pela escola. É diferente do de outras e parecido com o de umas tantas. O Ministério da Educação não tem qualquer intervenção directa na escola. Mas os seus inspectores visitam-na duas vezes por ano e elaboram relatórios que entregam ao ministério e à autarquia. Além disso, o ministério estabelece o currículo nacional que ocupa cerca de 75 cento das matérias disciplinares. Os restantes 25 por cento são decididos pelo Conselho Escolar, sob proposta do Conselho Pedagógico. Para as disciplinas do currículo nacional, a escola organiza os exames de acordo com as regras gerais em vigor para todo o país. Mas a avaliação permanente dos alunos, com ou sem exames, depende exclusivamente da escola, que aplica os métodos que julga mais convenientes. O Ministério da Educação tem ainda a responsabilidade de estabelecer anualmente os rankings das escolas. Por outro lado, pode intervir, com poderes excepcionais, cada vez que se verifique, na escola e na autarquia, uma crise irremediável de que os alunos são as primeiras vítimas. O financiamento público é garantido pelo ministério, através da autarquia, no quadro de um plano trienal. A escola recebe um orçamento anual, que tem de gerir livremente, não podendo jamais ultrapassar as verbas atribuídas, pois o ministério está proibido de acrescentar o que quer que seja. A autarquia tem a seu cargo as despesas extraordinárias e imprevistas. A comunidade, sobretudo as empresas, contribui igualmente. Os empregadores da região fazem sugestões sobre cursos e especialidades que a escola pode criar e que têm utilidade para as actividades locais. As despesas de carácter social (bolsas de estudo, apoios alimentares e outros subsídios) dependem da autarquia, que recorre a fundos próprios e a dotações do Instituto de Acção Social. Os professores, várias dezenas, pertencem aos quadros da escola. A quase totalidade exerce lá a sua profissão há mais de três anos. Muitos fazem-no há mais de quinze. Os novos professores são recrutados anualmente pela escola, seja através de concursos específicos, seja, em certos casos, directa e pessoalmente. Os novos contratos, com duração nunca inferior a três anos (a não ser a pedido do professor e em caso de emergência), são aprovados pelo Conselho de Gestão, sob proposta do director. Após os primeiros contratos cumpridos, os professores podem obter a nomeação definitiva, tendo para isso que prestar provas. A avaliação dos professores é feita regularmente e ao longo de todo o ano pelo Conselho Pedagógico, pelo Conselho de Gestão e pelo Director. Do processo de cada professor podem constar elementos com origem diversa, incluindo apreciações do Conselho Escolar e dos inspectores do ministério, assim como os resultados das provas prestadas e o registo de assiduidade. Esta avaliação, permanente, exclui as "grelhas", os "projectos individuais" e outros formulários abstrusos. Cada professor redige um relatório anual das suas actividades e dos seus resultados, a que acrescenta uns parágrafos com sugestões de melhoramento e opiniões sobre o funcionamento da escola. A decisão última relativa à avaliação depende do director da escola. Há várias modalidades de participação dos pais, seja através dos órgãos representativos, com funções e poderes reais, seja por intermédio das reuniões com os professores, regulares mas relativamente informais, durante as quais se tratam dos múltiplos problemas da vida quotidiana da escola e dos alunos. Os professores dedicam umas horas por mês a receber individualmente os pais. Os representantes dos pais participam necessariamente na organização de vários aspectos da vida da escola relativos à saúde, ao desporto, à alimentação, à cultura e a outras actividades culturais. A escola fica aberta todos os dias até às 19h00, por vezes 20h00 horas, mantendo em funcionamento, até essa altura, a biblioteca, as oficinas tecnológicas, as salas de estudo, as instalações desportivas e as salas destinadas à música e ao teatro. Por vezes, para certas actividades extracurriculares, a escola fica aberta até às 22h00.Parece difícil, não parece? Mas não é.
Sociólogo

sábado, 22 de novembro de 2008

Tempos sombrios

Público, 22.11.2008, José Pacheco Pereira

Em tempos de crise, mais do que nunca, é preciso não desistir de olhar as coisas com um olhar crítico

Ter opinião nestes tempos de miséria não é fácil. Apetece não ter ou calá-la. A opinião é um irritante a mais em tempos em que o que não faltam são irritantes. Se é "pessimista" é depressiva. Se não é uma espécie de raio de sol por entre as nuvens, ou seja "construtiva", uma coisa que tenho muita dificuldade em saber o que é, encastra-se num ambiente já de si sombrio. Tudo é ou parece um beco sem saída, ou sem saída nos nossos tempos. Que outra coisa se pode fazer a não ser mais um artigo gloomy, sempre que se começa um "ano", ou seja, quando a rotina do trabalho já está implantada e as férias são um longínquo desejo ou uma memória que não passa das fotografias digitais, que nem servem para mostrar no emprego?
Como há-de ser de outra maneira quando o país está a empobrecer mais depressa que o costume, já estava antes da "crise", e acelerou com a "crise"? O empobrecimento nas suas várias formas, desde as mais drásticas como o desemprego até às menos visíveis como a dívida, corrói a qualidade de vida e dissolve toda a esperança. E pior ainda, para quem discute no espaço público, com o empobrecimento vai muita da independência e da liberdade, já tão escassas antes, agora ainda mais débeis. Escrever para uma sociedade que está essencialmente a ver se não perde o pouco que tem, que está virada para a sobrevivência aos seus vários níveis e que está disposta a trocar independência e complacência pelo emprego, pelas benesses que ainda tem, torna muita crítica incómoda. E, no fundo, quem pode julgar moralmente de alto este retorno sobre si mesmo, de quem tem pouco e não quer ficar com nada? Não, não são tempos fáceis estes em que o espaço público se encolhe e por isso fica mais miasmático, menos saudável, mais claustrofóbico, mais conflituoso nas minudências e menos atento às grandes questões vistas com impotência, menos sensível aos valores da liberdade e do espírito crítico. São bons tempos para os governos autoritários e para o populismo e maus para a liberdade, a independência e autonomia do espírito.
O nível de vociferação cresce, mas o do espírito crítico esmorece. As pessoas implodem, protestam, dizem coisas apocalípticas sobre "eles" e retornam a um quotidiano cansativo, pouco feliz e aborrecido. Como podia ser de outra maneira, se a maioria das pessoas vivem "vidas de merda", tão longe dos seus sonhos e dos seus desejos? Imagino uma repartição pública às cinco da tarde, coada pelo néon e cheia de papéis, já quase de noite, com trinta pessoas aborrecidas até ao limite a pensarem só na hora de irem para casa, sabendo, as mulheres mais do que os homens, que vão trocar uma repartição por outra. Sabendo que, antes de chegarem a casa, têm um longo caminho de transportes públicos, maus, lentos, sujos, nalguns casos perigosos, ou uma fila de carros que não anda e uma rádio que repete ao infinito as mesmas notícias. Imagino uma escola em que uma professora de meia idade entra na aula e olha para trinta bárbaros vestidos de igual, dizendo grosserias e obscenidades, entre telemóveis ainda vivos e fios dos MP3, entre roupa "de marca" comprada na feira do Relógio e cabelos em bico com gel, os rapazes a pensarem no wrestling e no skate e as raparigas vestidas para matar a pensarem nas fotos que vão colocar em trajes menores no Hi5. Que olhar pode ter a professora, já com várias aulas em cima, para uma audiência desatenta que a última coisa que quer saber é o que é uma raiz quadrada ou um soneto, numa sala húmida e pouco iluminada, perdida num subúrbio policiado? Imagino o que seja o desespero das contas feitas ao fim da tarde do velho comerciante na Baixa, numa loja perdida numa rua secundária, que vive do seu trabalho e de um seu "empregado", com meia dúzia de artigos comprados já nos supermercados e centros comerciais, que revende aos vizinhos que "há muitos anos" lhe compram umas coisas, mas cada vez menos. Ele olha para as cartas das Finanças que de repente começam a chegar em Novembro, com a urgência do fisco em arrancar todos os centavos em dívida, a pedir mais dinheiro, todas a ameaçar de penhoras e confiscos, e não sabe o que fazer. Não chega, o "negócio" não chega e oculta da sua velha esposa a situação da "loja" que vai ter que fechar, o cataclismo da sua vida, o atestado da sua inutilidade. Imagino o que seja chegar às seis ou sete da manhã às obras numa carrinha que andou a recolher trabalhadores nas esquinas ou nos postos da gasolina, casacos grossos contra o frio, entre um ucraniano sorumbático e violento, meio a dormir, e outro trabalhador com gripe que mesmo assim tem que vir trabalhar, esperando um dia miserável às ordens de um capataz, de um subempreiteiro de outro subempreiteiro, para, ao fim da tarde, após discussões sobre o pagamento a que falta sempre qualquer coisa combinada, se ir para o café beber cerveja e ver futebol e chegar-se a casa embrutecido e rude.
Ao crepúsculo tudo se ensimesma, à chuva tudo se complica, milhões de pessoas perderam a esperança de viver melhor, têm medo de viver pior, e acantonam-se sobre si próprias. Olhem com atenção para o friso de faces num autocarro, com as janelas embaciadas, e procurem um traço sequer de felicidade. Nem Diógenes com um holofote da II Guerra Mundial seria capaz de encontrar um sorriso.

Por sobre tudo isto há um murmúrio de vozes a que ninguém liga quase nada. São as vozes dos jornais, da política, as nossas vozes, que contam muito menos do que imaginamos. São pouco mais do que um murmúrio, visto de baixo como alheio e hostil - no fundo somos "nós" que governamos - e visto de cima como decisivo e importante. Vale muito pouco para a vida comum da maioria das pessoas e valerá muito menos se se afundar em irrelevâncias, se engolir tudo o que o Governo quer que engula, se se tornar numa patrulha política do pensamento - será que fui racista ao falar do ucraniano? Será que posso descrever os "jovens" assim? Será que estou a favor da evasão fiscal das pequenas e médias empresas? Será que tenho que fazer a rábula da "esperança"? Há de facto muito pouca paciência para estas patrulhas do pensamento que proliferam em tempos de crise.
Vale a pena? A resposta podia ser a pessoana do lugar-comum, mas mesmo assim vale. Em tempos de crise, mais do que nunca é preciso não desistir de olhar as coisas com um olhar crítico, até porque proliferam nesta altura as piores das "soluções", os piores dos aproveitamentos, e cresce a mediocridade. E nós estamos a ser governados tão mediocremente que todo o pessimismo é pouco. Os tempos estão difíceis, mas os que nos vêm outra vez com o Marx deles, e com o Estado e com o "diálogo", estão-nos a vender produtos tão tóxicos como o subprime. Parece uma Alemanha de Weimar cansada e ainda mais triste.

Historiador (jppereira@gmail.com)

O grande milagre de Nossa Senhora do Pilar

No dia 3 de agosto de 1637, um empregado agrícola, Miguel Juan Pellicer (1617-1647), nascido em Calanda, numa família de sete irmãos, caiu de um reboque, em Castellon de la Plana.
Uma roda atingiu-lhe a perna direita, esmagando "o centro da tíbia" (artigo 7 do Processo, citado por Deroo, 1977, 24). Ele foi acolhido no hospital de Valência.
Sentindo dores insuportáveis, decidiu viajar até Saragossa para se colocar sob a proteção da Virgem do Pilar. A viagem durou cinqüenta dias "de carona em carona".
Era preciso percorrer 300 quilômetros sob um sol violento. Em inícios de outubro, finalmente, o jovem chegou a Saragossa. Estava extenuado, sentia-se morrer e, arrastando-se, de joelhos, até o santuário, entregou-se à Virgem do Pilar: "Salva-me pois estou morrendo!"
Apesar de ter sido internado no Hospital de Saragossa e de ter recebido tantos e diferentes remédios, não foi curado. No final do mês, sua perna foi amputada "quatro dedos acima do joelho", única solução para salvar-lhe a vida. Só obteve alta um ano após, na primavera de 1638, tendo recebido muletas, perna artificial e uma carteirinha que lhe permitia exercer a actividade de mendicância.
Reduzido à mendicidade, pedia esmolas em frente ao santuário, mas foi reconhecido por alguns peregrinos, habitantes de Calanda, que o incentivaram a retornar à casa dos pais. Na quinta-feira, 29 de março de 1640, entre as 22 e as 23 horas, Miguel Juan Pellicer jantou com os progenitores, dois vizinhos e um soldado da cavalaria, que estava de passagem, a quem a família ofereceu hospedagem, justamente, o quarto do filho. Sem o seu catre, Miguel adormeceu, então, no quarto dos pais. Pouco depois, a mãe do jovem entrou no quarto e sentiu intenso perfume "como de Paraíso" e percebeu que dois pés se mostravam, fora da coberta. Chamou, então, o pai e os ambos pensaram que se tratava do soldado que teria errado de quarto, mas, ao levantarem a coberta, descobriram que era o próprio filho e que a perna amputada reaparecera, com as mesmas características e cicatrizes e um círculo vermelho no local onde fora amputada!
Um processo canônico teve início em 5 de junho de 1640. No dia 22 de abril de 1641, a Câmara Municipal de Calanda elegeu Nossa Senhora do Pilar como padroeira da cidade. Em seguida, no dia 27 do mesmo mês, Monsenhor Apaolaza, arcebispo de Saragossa, anunciou: "Nós dizemos, pronunciamos e declaramos que Miguel Juan Pellicer (...) recuperou, milagrosamente, a perna direita que havia sido amputada; esta restituição não foi obra da natureza, mas foi operada de maneira admirável e milagrosa e deve ser registrada como um milagre" (AASS, julho, t. VI, 120 e Copia literal y auténtica del Proceso y sentencia de calificacio´n, Saragossa, 1940, 28, citado em sua tradução francesa por Deroo, 79). A medalha comemorativa do milagre foi cunhada em 1671. Algumas pessoas associam este milagre a uma aparição da Virgem Santíssima.
Na realidade, nada garante tal classificação. Miguel Juan invocara Nossa Senhora do Pilar antes de adormecer e "ele se viu, em sonho, na capela de Saragossa, untando, com os óleos das lâmpadas que estavam acesas diante da Virgem Maria, o coto dolorido da perna amputada".

Relatado no Dicionário das Aparições do Pe. René Laurentin, Fayard, 2007

Tradição anglo-americana

Expresso, 081125
João Carlos Espada
jcespada@netcabo.pt

As diferenças entre a cultura política de língua inglesa e a continental são mais fundas do que as diferenças entre esquerda e direita, ou entre socialismo, liberalismo e conservadorismo
Apoiantes europeus de Obama mostram-se indignados quando lhes é dito que o Presidente eleito não poderá corresponder às expectativas que muitos europeus nele projectam. Julgam que se trata de pura guerrilha politiqueira. E respondem dizendo que esse é um argumento dos que não apoiaram Obama. É bem provável, no entanto, que estejam enganados.
As razões para a dissonância de expectativas são muito mais fundas do que esta ou aquela eleição presidencial. Elas decorrem de diferenças profundas entre a cultura política anglo-americana e a cultura política da Europa continental. Estas diferenças são mais importantes do que as diferenças entre esquerda e direita, ou entre socialismo, liberalismo e conservadorismo. É mesmo possível dizer que a esquerda está mais perto da direita no interior de cada uma dessas culturas políticas do que a esquerda está da esquerda e a direita está da direita em diferentes culturas políticas.
Por outras palavras, as diferenças entre a tradição política anglo-americana e a tradição continental, sobretudo de inspiração francesa, devem-se menos a características peculiares da esquerda ou da direita em cada uma dessas tradições e muito mais a características comuns da esquerda e da direita em cada tradição.
Não é simples caracterizar essas diferenças entre culturas ou tradições políticas. No entanto, elas são conhecidas e discutidas há vários séculos, sobretudo entre os que admiravam o regime constitucional inglês, por contraste com o absolutismo continental, sobretudo francês e castelhano. Depois da revolução francesa de 1789, essas interrogações permaneceram, com ligeiras alterações: porque é que a Inglaterra mantinha um regime constitucional ordeiro, enquanto na Europa passáramos a ter a paixão pelo absolutismo popular e republicano, no lugar antes ocupado pelo absolutismo real?
Anthony Quinton, antigo reitor do Trinity College, em Oxford, exprimiu estas diferenças numa fórmula memorável. Disse ele que as ideias liberais de John Locke tinham produzido em Inglaterra, em 1688, uma revolução conservadora contra a inovação absolutista, e, na América em 1776, uma revolução relutante e moderada. Mas, quando essas ideias atravessaram o Canal da Mancha (a que eles chamam Canal Inglês), elas produziram na França de 1789 o ‘efeito do álcool em estômago vazio’.
Referindo-se ao mesmo tema, o historiador francês Élie Halévy, falou do “milagre da Inglaterra moderna”. E disse que esse milagre não residia em a Inglaterra ter sido poupada à revolução, mas em ter assimilado tantas revoluções - industrial, económica, social, política cultural - sem recorrer à Revolução. Nas próximas semanas, voltarei a estas diferenças de fundo entre a cultura política de língua inglesa e a continental.

22 de Novembro - Santa Cecília

Santa Cecília com um anjo
Orazio Gentileschi and Giovanni Lanfranco
c. 1617/1618
Samuel H. Kress Collection
National Gallery of Art, Washington, DC

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

50000 visitas

Esta mensagem tem o único propósito de assinalar a quinquagésima milésima visita ao blog Povo desde o seu início no fim de Março de 2008.
Obrigado a todos os que contribuem para que o Povo continue a crescer

Conferência de D. Manuel Clemente nas II Jornadas de Pedagogia «Escola, Sucesso e Excelência»

«Cristianismo na Escola: uma contribuição cultural»

1. A temática que brevemente desenvolverei convosco - “Cristianismo na escola: uma contribuição cultural” – tanto pode apresentar-se em coincidência como em contraste com o tema destas Jornadas: “Escola, Sucesso e Excelência”.Na verdade, não faltariam coincidências. O Cristianismo é também ensinamento, assim iniciado por um mestre (rabi) da Galileia, dois mil anos atrás. Nessa “escola dos discípulos” se transmitiu a sabedoria daquele que de si mesmo dizia ser “maior do que Salomão”, sendo este, para os judeus, o maior expoente da sabedoria antiga. Sabedoria respeitante a todos os aspectos fundamentais da vida e da convivência, quer concretizadas na terra, quer abertas à última dimensão das coisas.Dos primeiros discípulos, em Jerusalém ainda, diz São Lucas que eram “assíduos ao ensino dos Apóstolos”. E a subsequente expansão cristã teve também feição “escolar”, de Jerusalém a Antioquia, de Alexandria a Roma. Desta última restam-nos significativos ecos, como os de S. Justino, professor e mártir, em meados do século II.Podemos também dizer que estas escolas cristãs, de cunho catecumenal e catequético, foram o embrião da escolaridade europeia, como esta se concretizaria depois da queda do Império Romano do Ocidente.Na verdade, as escolas episcopais e monásticas – em especial as dos beneditinos, desde o século VI – continuaram a ter por base e objectivo a Palavra de Deus, estudada e cantada, pois de “obra divina” se tratava. Mas se esta matriz bíblica e litúrgica da escola medieval se manteve até ao advento das Universidades (século XII), também é certo que incluía e transmitia muita cultura clássica, propedêutica ou auxiliar do que a “sacra página” trazia.Uma história de sucesso, então, onde não faltara a excelência. De Justino e os apologistas antigos a Agostinho e outros mestres seus coevos; de Gregório, Isidoro ou Beda, que passaram à Alta Idade Média – de romanos, visigodos e ingleses - o melhor da sabedoria clássica cristã, aos grandes vultos da escolástica, que, sobretudo no século XIII, conseguiram notáveis “sumas” dos saberes gerais, é sempre duma história de sucesso que se trata.

2. À primeira vista, algo diferente se passa da Idade Moderna para cá. Alguns conflitos, assim ditos, “ciência – fé”, que melhor se tomarão como debates internos do próprio Cristianismo, para uma epistemologia mais destrinçada e conforme com as novas observações da altura; a maior autonomia da investigação e do ensino em relação aos antigos centros eclesiásticos; uma nova capacidade de auto-afirmação individual nestes campos, a par da discrepância de autores e hipóteses, aqui e ali menos tutelados e, sobretudo, muito mais difundidos, graças à imprensa… Tudo isto parece contrastar com o sucesso anterior do Cristianismo, na escola e como escola.Ainda mais quando o Iluminismo setecentista, ou o racionalismo e o positivismo que se seguiram, quiseram desmentir o que até aí se tivera como certo, a saber, a fundamentação bíblica do mundo e a essencialidade religiosa da existência. Mais do que dispensáveis, elas tornaram-se para muitos objecto de crítica e refutação, mesmo e especialmente na escola. É ainda neste espírito que se reeditam hoje algumas polémicas, mesmo em matérias que já não as deviam suscitar, tão elucidadas foram.Mas, vistas melhor as coisas, por via direita ou esquiva, é ainda de sucessos que tratamos, ao falar da contribuição cultural do Cristianismo na escola. Em primeiro lugar, porque essas mesmas polémicas de saberes opostos estimularam muitos cristãos no sentido dos aprofundamentos temáticos e das revisões epistemológicas. Surgiram novas escolas e metodologias no campo da Igreja, numa sucessão de factos e figuras que preenchem os últimos séculos. Basta lembrar as inúmeras escolas católicas, da infância às Universidades, e o sucesso que costumam obter nos resultados dos alunos…

3. Mas também podemos falar de sucessos geralmente pouco advertidos, neste ponto preciso da contribuição cultural do Cristianismo na escola. Efectivamente, não é difícil constatar que o progresso científico-tecnológico dos últimos séculos coincide geralmente com populações e territórios tocados pelo Cristianismo, mesmo que já não o assumam nem se retratem nele. Não é esta a altura para voltarmos ao tema das “raízes cristãs da Europa”, que tão versado foi no final do pontificado de João Paulo II. Mas algo se deve lembrar, ainda assim. Resumo-o em dois pontos: a geografia europeia coincide com a difusão do Cristianismo do século V ao século X (do Mediterrâneo ao Mar do Norte e do Atlântico aos Urais); e esta geografia foi preenchida com uma cultura cristã que, além do mais, distingue Criador e criaturas, Deus e César, consciência e mundo, sendo estas as condições básicas do desenvolvimento científico.Na verdade, a alteridade Deus – mundo e a entrega deste ao homem, como campo de responsabilidade criativa, legitimou o seu estudo, sem risco de profanação imediata. Isto quanto à natureza e também quanto à cidade, com a qual o Fundador do Cristianismo não se confundiu, ainda que a quisesse “salvar”, categoria religiosa que atende ao fim último, sem dissolver as responsabilidades intermédias, antes estimulando-as para serem cabais e activas, como caridade social. E a insistência com que o Evangelho apela para a decisão pessoal, como ponto imprescindível de liberdade responsável, recresceu ao nível em que hoje nos reconhecemos e reivindicamos.É nesta sequência que repito: a contribuição do Cristianismo para a sociedade e a escola salda-se como sucesso cultural, mesmo nalguns casos que à primeira vista parecem desmenti-lo: geralmente, são “filhos pródigos”…

4. Há, no entanto, que acrescentar logo que o sucesso do Cristianismo é final e só se consegue à custa do seu “insucesso” imediato. Não é um jogo de palavras. Trata-se, isso sim, da essência dramática e mesmo trágica do Cristianismo, do seu carácter propriamente pascal. Imediatamente, Cristo “fracassou”. A “Primavera da Galileia” terminou nas trevas do Gólgota; o Reino acabou escarnecido na tabuleta da cruz e a pedra rodada tapou o túmulo de tantas promessas aparentemente desmentidas… Mas, dois milénios depois, os cristãos sabem que vivem dum “terceiro dia” que, entretanto, aconteceu. Sabem que a vida se ganha quando se dá; sabem que viver e morrer têm um novíssimo significado a essa luz; sabem que viver é conviver, não no sentido meramente recreativo do termo, mas como dedicação constante ao que é comum, pessoa a pessoa; sabem, muito religiosamente aliás, que se começa sempre pelo mais próximo, pequeno, gratuito e inultrapassável na dignidade de cada existência, qual alicerce da sociedade de todos.Os cristãos sabem-no. E sabem também – com dois milénios de comprovações – que este sucesso definitivo de que vivem contrasta sempre com os sucessos e excelências imediatamente alcançados e tão fugazmente adquiridos, quer na existência individual quer na social e pública.Sabem-no. E por isso mesmo a melhor contribuição cultural que hão-de dar em qualquer processo formativo terá esta marca irredutivelmente personalista e pascal.

5. Traduzamo-la agora nalguns pontos concretos da Doutrina Social da Igreja para o campo educativo e escolar, particularmente actuais e oportunos:Primeiramente em relação à verdade, àquela real consistência das pessoas e das coisas em que nos podemos encontrar individualmente e uns com os outros, preenchendo a consciência e consolidando as relações. É sabido como a atmosfera pós-moderna é muito rarefeita quanto a isto, preferindo dissolver a verdade em “verdades” ocasionais, geralmente tomadas como sensibilidade, espontaneidade ou gratificação. Mas, se o processo educativo visa a definição de alguém, mesmo como projecto de vida, não pode iludir uma plataforma comum em que se encontre com os outros, nem a consistência pessoal em que se realize.Vale aqui a seguinte advertência doutrinal: “O nosso tempo exige uma intensa actividade educativa e um correspondente empenho por parte de todos, para que a investigação da verdade, não redutível ao conjunto ou a alguma das diversas opiniões, seja promovida em todos os âmbitos, e prevaleça sobre qualquer tentativa de lhe relativizar as exigências ou de lhe causar qualquer tipo de ofensa” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 198). É, como sempre, a questão do porquê e do para quê, do sentido, assim formulado. Neste ponto, a contribuição cultural do Cristianismo resume-se bem na interpelação que o próprio Cristo nos lança: “ - De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se a si mesmo (ou a perder a sua alma)?”.Interpelação que ultrapassa os limites da confessionalidade estrita, para se repercutir no universo das consciências. Mas que deve estar presente como fio condutor em toda a escola, rumo a um sucesso que seja antes de mais o das próprias vidas e a uma excelência que se aproxime da totalidade.É certo que nunca foi tão difícil garantir este desiderato, desde que deixámos a subsistência pura e simples. Hoje, apesar do muito que falta mundo além, dispomos do que nunca dispusemos em meios como o nosso. Daí que o maior desafio da escola e da educação seja precisamente a coexistência do mercado e da dispersão. As sondagens mostram que um dos maiores passatempos dos jovens é ver montras, em que mais são olhados e atraídos, como consumidores, do que se olham a si mesmos como indagadores e criadores.Inevitável, digamos. Mas que deve traduzir qualquer sucesso educativo na maior capacidade de discernir e escolher bem, sábia e responsavelmente. O melindre é grande, neste ponto, pedindo de raiz uma consideração humanista da economia: “A economia é apenas um aspecto e uma dimensão da complexa actividade humana. Se ela for absolutizada, se a produção e o consumo das coisas acabar por ocupar o centro da vida social tornando-se o único valor verdadeiro da sociedade não subordinado a nenhum outro, a causa terá de ser procurada não tanto no próprio sistema económico quanto no facto de que todo o sistema sócio-cultural, ignorando a dimensão ética e religiosa, ficou debilitado, limitando-se apenas à produção dos bens e dos serviços. A vida do homem, a par da vida social da colectividade, não pode ser reduzida a uma dimensão materialística…” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 375).Todos o sabemos, em especial quando reparamos nos efeitos desestruturantes que uma economia não humanista tem na vida das famílias e no processo educativo em geral. E o melindre é grande, nas actuais disfunções ecológicas e financeiras, que tanto contradizem alegados sucessos e efémeras excelências: “O sistema económico, em si mesmo, não possui critérios que permitam distinguir correctamente as formas novas e mais elevadas de satisfação das necessidades humanas, das necessidades artificialmente criadas que se opõem à formação de uma personalidade madura. Torna-se por isso necessária e urgente uma grande obra educativa e cultural, que abranja a educação dos consumidores para um uso responsável do seu poder de escolha…” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 376).Creio residir neste preciso ponto, alargável a todo o tipo de bens, o critério mais seguro de sucesso e de excelência, para uma escola imbuída de humanismo – e humanismo cristão.
Braga, 21 de Novembro de 2008