quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Livros recomendados

  1. Ameal, Theresa. Nossa Senhora na História de Portugal. Lucerna
  2. Andersen, Sofia de Mello Breyner. Contos Exemplares. Figueirinhas
  3. Azevedo, Hugo de. Missão cumprida. Biografia de Álvaro del Portillo. Diel
  4. Carvalho, José. D. Nuno Álvares Pereira - O Santo Condestável. Planeta
  5. Chesterton, G. K. A argúcia de Padre Brown. Publicações Europa-América
  6. Chesterton, G. K. A inocência do Padre Brown. Publicações Europa América
  7. Chesterton, G. K. Disparates do mundo. Diel
  8. Chesterton, G. K. O homem que era quinta-feira. Publicações Europa-América
  9. Chesterton, G. K. O olho de Apolo. Editorial Presença
  10. Chesterton, G. K. Ortodoxia. Aletheia
  11. Clemente, M. Portugal e os Portugueses. Assírio e Alvim
  12. Decaux, Alain. O Aborto de Deus. Quetzal
  13. Eliot, T. S. Assassínio na Catedral. Cotovia
  14. Etty Hillesum. Diário 1941-1943. Colecção Teofanias. Assírio e Alvim
  15. Garcia, José Manuel. As origens históricas do Cristianismo. Tenacitas
  16. George, Robert P. Choque de ortodoxias. Tenacitas
  17. Giussani, Luigi. É possível viver assim? Tenacitas
  18. Giussani, Luigi. Educar é um risco. Diel
  19. Guareschi, Giovanni. O camarada don Camillo. Publicações Europa-América
  20. Guareschi, Giovanni. Don Camillo e o seu rebanho. Publicações Europa-América
  21. Guareschi, Giovanni. Don Camillo e o seu pequeno mundo. Publicações Europa-América
  22. Huysmans, J. K. A Catedral. Civilização Editora
  23. Lamet, Pedro Miguel. Franciso de Borja. Os enigmas do duque jesuíta. Tenacitas (impressões)
  24. Madre Teresa de Calcutá. Vem, sê a minha luz. Aletheia
  25. Mattei, Roberto di. A ditadura do relativismo. Civilização Editora
  26. McGrath, Allistair. O Deus de Dawkins. Aletheia
  27. Neves, João César das Neves. Deixem-me falar-vos do impossível. Lucerna
  28. Ratzinger, Joseph. Jesus de Nazaré. A esfera dos livros
  29. Richiotti, G. A vida de Cristo. Casa do Castelo
  30. Rops, Daniel. São Paulo. Conquistador de Cristo. Livraria Civilização Editora.
  31. Ruas, Henrique Barrilaro. Vida do Santo Condestável. Tenacitas.
  32. Sanceau, Elaine. Afonso de Albuquerque. Tenacitas
  33. Seabra, João. Directo ao Assunto. Lucerna
  34. Stark, Rodney. A vitória da razão. Tribuna da História
  35. Weigel, George. O cubo e a catedral. Aletheia

O ano das más notícias

31.12.2008, Rui Ramos

A única coisa de que podemos estar certos acerca de 2008 é que a sua história foi muito mal contada

O fim do ano é sempre paradoxal. Ainda sem termos percebido bem o que aconteceu no ano que está a acabar, eis-nos tentados a adivinhar o que poderá acontecer no ano que vai começar. Como 2008 parece querer terminar numa nota ácida, a aposta mais segura para 2009 é prever uma época sinistra. Em Novembro, Angela Merkel propôs-se logo baptizar 2009 como o "ano das más notícias". Será assim?
A única coisa de que podemos estar certos acerca de 2008 é que a sua história foi muito mal contada. Foi mal contada até meio do ano, quando todos tínhamos já aprendido que a "globalização" fizera subir os preços e que era preciso apertar o crédito para evitar a inflação. E talvez esteja ainda a ser mal contada agora, depois da "crise", quando governos e bancos centrais deitam dinheiro à rua, para prevenir a deflação. Se os nossos profetas não acertaram acerca do que se estava a passar em 2008, mesmo em frente deles, por que razão deveríamos acreditar na sua capacidade para adivinhar o que se há-de passar em 2009?
Ao princípio, convenceram-nos de que o mal estava todo em meia dúzia de banqueiros "criminosos". Agora, com a indústria automóvel de mão estendida aos subsídios, torna-se claro que a chamada "economia real" nunca esteve inocente. Um dia haveremos de ver as coisas ainda mais nitidamente. Talvez cheguemos então a compreender como o esforço dos governos, durante a última década, para adiar a adaptação das sociedades ocidentais à "globalização", nos arrastou até às presentes dificuldades. Entretanto, veremos em 2009 se o endividamento público é mais eficaz do que o privado para manter uma prosperidade que queremos merecer sem ter de trabalhar.
Outra história mal contada foi a da eleição presidencial americana. Ao princípio, esquerda e direita uniram-se para nos apresentarem Obama como o Presidente que ia virar o mundo do avesso, rendendo-se a Ahmadinejad e importando para a América o "modelo social" europeu. Obama foi eleito, mas sem dinheiro para revoluções sociais e com o secretário da Defesa de Bush. Entretanto, o unilateralismo da Rússia no Cáucaso, a ofensiva dos jihadistas em Bombaim e a guerra reeditada na Faixa de Gaza começam a sugerir que, afinal, Bush não era o único problema do mundo. A opção de Obama, até agora, tem sido a de permanecer insondável. Clinton II continua a perspectiva mais plausível. É muito provável que já estejam feitos os sapatos que lhe hão-de atirar.
Em Portugal, também tivemos uma história mal contada: a do "fim de Sócrates", esmagado entre as tenazes da oposição. Uma das tenazes era a acção dos órgãos sindicais do PCP, conhecida no mundo jornalístico pelo pseudónimo de "contestação social". A outra tenaz foi, ao princípio, o irresistível "populismo" de Menezes, depois substituído pela não menos invencível "seriedade" de Ferreira Leite. O PCP cumpriu o seu papel, alugando os necessários autocarros para trazer a função pública a marchar em Lisboa; mas o PSD não funcionou, nem quando pressupôs que o povo era irresponsável (com Menezes), nem quando decidiu fazer de conta que o povo era responsável (com Leite). Talvez a oposição precise de mudar de povo para mudar de governo.
Nas previsões mais pessimistas para 2009, há uma espécie de optimismo ao contrário: a de que o ano novo nos trará, a bem ou a mal, um mundo novo. Queremos notícias sensacionais, mesmo que más: a crise no seu auge, uma grande decisão dramática de Obama, uma convulsão política em Portugal. Desde 2001 que andamos preparados para um apocalipse. O Iraque prometia uma catástrofe vietnamita: tudo acabou, no entanto, com um acordo de retirada. Al Gore, com o seu aquecimento global, também gerou esperanças - mas afinal, continua a chover e a fazer frio. Muito provavelmente, 2009 irá decepcionar-nos. Continuaremos à espera do "pior da crise", Obama conservará o seu mistério, e as sondagens recusar-se-ão a alegrar a oposição portuguesa. A pior notícia talvez venha a ser a falta de grandes notícias.
A evolução pós-constitucional da república portuguesa. 29 de Dezembro de 2008, com a promulgação do Estatuto Político-Administrativo dos Açores pelo Presidente da República, ficará como uma das datas fundamentais da democracia portuguesa. Foi o momento em que, libertando-se dos últimos vestígios de pudor, a classe política assumiu que em Portugal os mais pequenos interesses eleitorais dos partidos estão acima da lei e do respeito pela lei. Há Estados de direito, e há Estados de partidos. O nosso é manifestamente desta segunda espécie. O Presidente da República avisou o país. Mas haverá um país para o ouvir?

Historiador

31 de Dezembro - S. Silvestre

O milagre do Papa S. Silvestre (detalhe)
c. 1340
MASO DI BANCO
Fresco (534cm)
Cappella di Bardi di Vernio, Santa Croce
Florença

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Natal e a esperança

O Natal e a esperança

Por Julián Carrón

la Repubblica, 23.12.2008


Caro Director,

As leituras que a Liturgia ambrosiana propõe para a segunda-feira da terceira semana do Advento impressionaram-me. Como se devem ter desconcertado os membros do antigo povo de Israel diante destas palavras do profeta Jeremias: «Devorará as tuas searas e o teu pão; os teus filhos e as tuas filhas; os teus rebanhos e o teu gado; destruirá as tuas cidades fortificadas, nas quais depositas a tua confiança» (Jer 5,17). Estava a anunciar-lhes que uma outra nação estava para derrotar o reino em que tinham posto a sua confiança.» Então, perguntar-se-ão "Porque é que o Senhor Nosso Deus nos tratou desta maneira?" e tu responderás: "Assim como Me abandonaste e servistes os deuses estrangeiros, na vossa própria terra, assim também servireis os estrangeiros numa terra que não é vossa» (Jer 5,19).

É como se isto fosse dito para nós. Hoje vemos sinais que preocupam todos, como se aquilo que sustentou a nossa história não pudesse resistir ao safanão dos tempos. Um dia é a economia, as finanças e o trabalho, no outro a política e a justiça, no outro ainda é a família, o início da vida e o seu fim natural. E assim, tal como o antigo povo de Israel diante de uma situação preocupante, também nós nos perguntamos: «Porque é que acontece tudo isto?». Porque também nós fomos de tal modo presunçosos que pensamos que nos conseguiríamos desembaraçar depois de termos cortado a raiz que sustentava o edifício da nossa civilização. Na verdade, nos últimos séculos, a nossa cultura pensou que podia construir o futuro por si só, abandonando Deus. Agora vemos aonde é que nos está a levar esta pretensão.

Diante de tudo isto que aprontámos, o que é que o Senhor faz? Indica-o o profeta Zacarias, falando ao seu povo Israel: «Eis que mandarei», atenção ao nome, «o Meu servo Rebento» (Zc 3,8). É como se diante da crise de um mundo, o nosso – os profetas usassem para a descrever uma imagem que lhes era muito querida a do tronco seco –, despontasse um sinal de esperança. Toda a enormidade do tronco seco não pode evitar que no meio do povo, humilde e frágil, desponte um rebento, no qual está posta a esperança do futuro.

Mas há um inconveniente: também nós, quando vemos aparecer este rebento – como aqueles que estavam diante daquela criança em Nazaré –, podemos dizer escandalizados: «Como é possível que uma coisa assim tão efémera possa ser a resposta à nossa espera de libertação?». De uma realidade assim pequenina como a fé em Jesus pode vir a salvação? Parece-nos impossível que toda a nossa esperança se possa apoiar na pertença a este frágil sinal, e a promessa que só a partir dele se possa reconstruir tudo é motivo de escândalo. No entanto, homens como S. Bento e S. Francisco fizeram exactamente assim: começaram a viver pertencendo àquele rebento que tinha entrado no tempo e no espaço, na Igreja. E tornaram-se protagonistas do povo e da história. Bento não enfrentou zangado o fim do império, não protestou porque o mundo não era cristão, nem se lamentou porque tudo ruía, acusando a imoralidade dos seus contemporâneos. Em vez disso testemunhou à gente do seu tempo uma realização na vida, uma satisfação e uma plenitude que se tornou atraente para muita gente. E foi a aurora de um mundo novo, por mais pequeno que seja – quase nada comparando com o todo, um todo que no entanto desabava por todos os lados –, mas real. Aquele novo início foi de tal modo concreto que a obra de Bento e de Francisco durou nos séculos e transformou a Europa, humanizando-a.

«Ele mostrou-se. Ele pessoalmente», disse Bento XVI falando do Deus connosco. E don Giussani: «Aquele homem de há dois mil anos, esconde-se, torna-se presente, sob a capa, sob o aspecto duma humanidade diferente», num sinal real que desperta o pressentimento daquela vida que todos esperamos para não sucumbir ao nosso mal e aos sinais do nada que avança. É a esperança que nos anuncia o Natal, pela qual gritamos: «Vinde, Senhor Jesus!».

Obrigado

Quando se esquecem os princípios, esquece-se tudo

Público, 30.12.2008, José Manuel Fernandes

Nenhum jogo político autoriza que se esqueçam princípios básicos da vida em sociedade. Isso é verdade tanto em Portugal como no Médio Oriente

1.O Presidente da República reafirmou ontem os princípios fundamentais que o levaram a vetar politicamente o Estatuto dos Açores, princípios de fidelidade à Constituição que o levaram ontem a aceitar o novo voto do Parlamento e a mandar promulgar um diploma de que discorda profundamente. Já aqui escrevemos e repetimos: o Estatuto dos Açores possui normas absurdas, que violam o equilíbrio de poderes, e só foram aprovadas por puro oportunismo político de todos os partidos. Todos, repito. As razões do Presidente são claras e só num país analfabeto politicamente se compreende que se tenha perdido mais tempo nas últimas semanas a discutir o método que escolheu do que a substância do que estava em causa. Triunfou a politiquice, perdeu-se mais uma oportunidade de explicar aos portugueses a importância de cumprir as regras no jogo democrático. E como se tudo isso já não fosse suficientemente mau, viu-se o primeiro-ministro a procurar explorar politicamente um conflito que ele contribuiu para criar, se é que não foi mesmo o principal responsável ao determinar que o PS não alteraria uma vírgula na norma em causa do Estatuto dos Açores. No fundo ficou provado que em Portugal são raros os que se mantêm fiéis aos seus princípios e numerosos os que preferem adaptar-se aos tempos que correm, gracejando ou desculpando-se, conforme for mais conveniente. Vivemos os anos que vivemos num regime autoritário, e vivemos esses anos todos com uma oposição bem mais anémica do que seria natural, porque já éramos assim. E porque muitos acham que ter princípios é ser dogmático e sectário, quando é exactamente o contrário: quem tem princípios sabe guiar-se em terrenos pantanosos sem sacrificar o essencial, quem não os tem apenas sabe ser autoritário ou servil em função das conveniências do momento.2. Mais uma vez a comunidade internacional reage em "ordem" desordenada ao reacender do conflito no Médio Oriente. E a União Europeia também. É mais difícil exigir aos Estados que sigam princípios, e mais difícil ainda querer que essa Babilónia que dá pelo nome de Nações Unidas se ponha de acordo sobre algumas questões essenciais. Mas é extraordinária a confusão que reina mesmo nalgumas cabeças que tinham a obrigação de mostrar mais clarividência.Um dos princípios que todos deviam recordar é que um dos objectivos primeiros de qualquer Estado é proteger os seus cidadãos, pelo que o facto de Israel estar sistematicamente a ser visado por mísseis disparados pelo Hamas obriga as suas forças de defesa a actuar. A Alemanha veio recordá-lo ontem, como já o haviam feito os Estados Unidos e o Reino Unido. Na linha do que afirmara Barack Obama durante a sua campanha eleitoral, quando visitou uma das cidades, Sderot, visada quase diariamente pelos Qassam do Hamas. Sem começar por aqui não se pode discutir o resto, e o resto é saber se Israel está a actuar da forma mais correcta para conseguir os melhores objectivos de segurança para si e para os seus vizinhos no médio e longo prazo.Outro princípio que convinha nunca esquecer é que não se pode colocar no mesmo plano actos de visam única e exclusivamente espalhar a morte e intimidar pelo terror populações civis e acções militares dirigidas contra objectivos militares. Por definição, o terror é cego e nem sempre faz muitas vítimas, ao mesmo tempo que a acção militar procura ser precisa e, se for eficaz, provoca muitas baixas entre as forças inimigas. Os princípios do mundo em que vivemos não aceitam o terror dirigido contra populações civis mas admitem que a acção militar é legítima quando os outros meios se esgotaram. O Hamas é uma organização terrorista, Israel é um Estado democrático onde se toleram manifestações contra a guerra. Quem pretende colocá-los no mesmo plano utiliza a mistificação e utiliza os mesmos métodos relativistas de propaganda que foram desenvolvidos por Estaline e Hitler. Se tivermos bem presentes estes princípios não teremos dificuldade em responder à questão central no conflito israelo-palestiniano: devem ou não aqueles dois povos viver em dois Estados separados como foi definido pelas Nações Unidas em 1947? Se respondermos sim, há que apoiar Israel e o Presidente da Autoridade Palestiniana. Se acharmos antes que Israel deve ser varrido do mapa e os judeus lançados ao mar, então estaremos com o Hamas e o Presidente do Irão. Não podemos é querer a primeira solução e, depois, desculpar com o indiscutível sofrimento dos palestinianos (muito dele auto-infligido) a actuação do Hamas. Da mesma forma que não toleramos que quem foi maltratado na infância ou tem razões de queixa da sociedade possa andar por aí a matar pessoas...

A necessidade de confiança

Confianca by papinto

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sem ética não há confiança

Público, 29.12.2008, Francisco Sarsfield Cabral

O capitalismo baseia-se na confiança. O mercado precisa de leis: contra o que pensavam alguns ultraliberais, não há mercado sem Estado. Mas não basta. Para o sistema funcionar tem de haver uma cultura de confiança, acreditar nas pessoas e nas instituições com quem se faz uma qualquer transacção.
Nas economias colectivistas tudo é (ou era) regulado, controlado, dependente de autorizações estatais. Em menor grau, o mesmo acontece em países, como Portugal, onde é enorme o peso da burocracia do Estado na vida das pessoas e das empresas. Por isso essas economias são pouco eficientes, ao contrário daquelas onde é elevado o grau de confiança, dispensando burocracias.
O problema actual é ter-se evaporado a confiança. Os bancos não confiam nos outros bancos. Não confiam, até, em si próprios - por isso receiam dar crédito, não vá acontecer terem dificuldade em captar fundos (depósitos e sobretudo créditos estrangeiros) a custo razoável. Entre nós já aconteceu com a CGD, apesar do aval do Estado, que assim teve de a financiar. O negócio dos bancos é emprestar dinheiro. Se o não fazem, não é por ganância, é por medo.
Nada pior poderia ter acontecido nesta conjuntura de desconfiança geral do que o caso Madoff, uma burla tipo D. Branca à escala mundial, envolvendo cerca de 50 mil milhões de dólares. O drama não é existirem burlões, que os haverá sempre, embora Madoff fosse "especial": muito respeitado em Wall Street, antigo presidente do Nasdaq, filantropo, há décadas dono de uma empresa familiar onde só por convite se podia investir dinheiro e receber as altas remunerações que Madoff oferecia.
O pior deste caso é tanta gente supostamente séria e competente ter durante tanto tempo acreditado em Madoff, que utilizava o clássico e nada sofisticado esquema da pirâmide (remunerar os capitais investidos com a entrada de novos capitais). Isto lança uma terrível dúvida sobre a idoneidade e a competência dos gestores das instituições financeiras.
Não há confiança sem um grau razoável de vigência de princípios éticos, porque as leis e os reguladores dos mercados não podem evitar todas as fraudes. Sobretudo desde o colapso do comunismo, ficando o capitalismo como único sistema viável, a ética começou a ser marginalizada no mundo dos negócios. Muitos agentes económicos e financeiros deslumbraram-se e deixaram de admitir limites.As aldrabices que levaram à falência de grandes empresas como a WorldCom ou a Enron (esta provocando o desaparecimento da auditora multinacional Arthur Andersen) foram um sinal de que alastrava o vale-tudo para ganhar dinheiro. O mesmo se diga das obscenas remunerações auferidas por muitos gestores, frequentemente sem relação com a performance a longo prazo das empresas. Entre nós, tivemos o (mau) exemplo do BCP, além de outros.
Pouco ética foi, também, a irresponsabilidade com que gestores financeiros, recebendo chorudos bónus e comissões, aplicaram o dinheiro que lhes era confiado. Nos EUA a remuneração média dos operadores no sector de investimentos, títulos e contratos de matérias-primas foi em 2007 quatro vezes superior à remuneração média do resto da economia. No entanto, essa gente andou muitas vezes a vender ilusões ou meros ganhos imediatos que depois se esfumariam.
A visão imediatista que se instalou nos mercados financeiros é consequência de uma imoral avidez pelo lucro fácil e rápido. Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz (1 de Janeiro), Combater a pobreza, construir a paz, Bento XVI diz que "uma actividade financeira confinada ao breve e brevíssimo prazo torna-se perigosa para todos, inclusivamente para quem consegue beneficiar dela durante as fases de euforia financeira". E essa lógica "reduz a capacidade de o mercado financeiro realizar a sua função de ponte entre o presente e o futuro: apoio à criação de novas oportunidades de produção e de trabalho a longo prazo".
Julgo que o fundamento da moral não está na sua utilidade social. Mas não há dúvida de que, sem princípios éticos aceites e praticados pela sociedade, a actividade económica emperra. Por isso não é moralismo fácil concluir que a presente crise evidenciou a importância da ética na economia e nas finanças. É mero realismo. Se não são decentes por virtude, ao menos que o sejam pelo seu próprio interesse bem compreendido.
Jornalista
(franciscosarsfieldcabral@gmail.com)

Cavaco Silva promulgou Estatuto dos Açores mas denuncia abertura de "precedente muito grave"

Impressiona-me sobretudo que o Presidente tenha considerado ter havido "uma quebra de lealdade" e que a "qualidade da democracia tenha ficado irremediavelmente afectada" aqui

Missa reúne centenas de milhar em Madrid pelos valores da família

Público, 29.12.2008
Centenas de milhar de pessoas participaram ontem em Madrid numa missa ao ar livre para promover os valores tradicionais da família. A cerimónia, na Plaza de Colón, contou com seis arcebispos, 22 bispos e 300 padres e tinha sido convocada com a intenção de juntar um milhão de fiéis. O Governo socialista tem irritado a Igreja Católica espanhola com a legalização dos casamentos homossexuais, com medidas de facilitação do divórcio e com a criação de uma disciplina nas escolas públicas onde as crianças ficam a saber o que é a homossexualidade e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e com a intenção de suavizar a lei do aborto.A cerimónia começou com a leitura de uma mensagem do Papa Bento XVI, que desafiou os católicos a manterem as famílias fortes: "Caras famílias, não deixem o amor, a abertura para a vida e os incomparáveis laços que unem as vossas casas enfraquecerem." O arcebispo de Madrid, Antonio Maria Rouco Varela, aproveitou para acrescentar que "o futuro da humanidade depende da família, da família cristã". "É possível conceber, organizar e viver o matrimónio e a família de maneira bem diferente da que é agora moda", sublinhou. A polícia não quis avançar com uma estimativa, mas um olhar pela multidão mostrava que deveriam estar centenas de milhares de pessoas na Plaza de Colón, que se foram espalhando pelas quatro ruas circundante. Mas não um milhão. Lusa

Esta é a notícia do Público.
A notícia também aparece na edição on-line do Jornal de Notícias (aqui)
Pedro Afonso n'OImputável (aqui) dirige-nos para um texto de opinião no jornal ABC. O El País também comenta a Missa pelas famílias salientando a menor participação do que no ano anterior.

Fui procurar no hazteoir.org mas aqui o comentário era diferente...
A propósito vale a pena guardar este link nos favoritos: http://www.hazteoir.org/
A imagem é da Plaza Colón na Missa pelas Famílias do dia da Sagrada Família (Domingo passado)

29 de Dezembro - S. Tomás Beckett

O martírio de S. Tomás
Altar de S. Tomás
encomendado a Meister Francke
em 1424,
pela Guilda de Mercadores Ingleses de Hamburgo
Hamburger Kunsthalle, Hamburgo

Verdade e esperança

RR on-line, 20091229
Raquel Abecasis

Depois de terem assistido em 2008 ao desmoronar de muitas mentiras, falsas fortunas e de uma economia construída em cima de castelos de areia, os portugueses serão em 2009 mais exigentes com o seu voto.
Nem tudo é mau em tempo de crise. Uma das coisas boas, é que diminui a margem de tolerância para a demagogia. A outra, é que as crises são sempre boas oportunidades para dar valor ao que é essencial e dispensar os excessos ou mesmo o lixo a que damos tanta importância em épocas de abundância.Aproxima-se, ao que tudo indica, um ano cheio de dificuldades e que é, em Portugal, simultaneamente, o ano de todas as eleições. As pessoas vão estar pouco disponíveis para a habitual discussão de argumentos entre rivais políticos, onde conta mais a forma do que o conteúdo.Depois de terem assistido em 2008 ao desmoronar de muitas mentiras, falsas fortunas e de uma economia construída em cima de castelos de areia, os portugueses serão em 2009 mais exigentes com o seu voto.
Ganhará quem mais rapidamente for capaz de se adaptar à nova realidade e conseguir convencer os portugueses de que a crise é também uma oportunidade de dar um passo em frente. No fundo, trata-se de saber fazer a mistura certa entre verdade e esperança. Uma sem a outra de nada servem a quem vive em dificuldades. As duas juntas são a luz ao fundo do túnel que todos esperamos poder ver daqui a um ano.
Feliz 2009.
Raquel Abecasis

Portugal e a tragédia grega

Diário de Notícias, 2008-12-29
João César das Neves
Professor universitário naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Nas últimas semanas a Grécia tem sido palco de graves distúrbios, resultado do profundo descontentamento social, sobretudo dos jovens. Será que algo parecido pode acontecer em Portugal? Não faltam os que fazem tais previsões, mas a resposta deve ser claramente negativa.

Em momentos de crise é difícil manter o sentido das perspectivas, mas é precisamente nessas alturas que isso é mais importante. Um furacão parece-se muito com um dia de tempestade, mas quem confundir os dois vai alarmar-se sem razão.

Existe sem dúvida grande descontentamento em Portugal. Jovens licenciados sem emprego ou na precariedade, funcionários públicos com perda de benefícios, empresas perto da falência, imigrantes, desempregados confessam intensa desilusão e chegam a manifestar-se nas ruas. Pior ainda, o nosso país está endividado e a entrar em recessão. Estes são os principais motivos das tais conjecturas sobre futuros protestos lusos. Mas é um erro relacionar explosões sociais com problemas económicos.

A Grécia está a crescer a 3,3%, o dobro da Zona Euro (1,6%) e mais do triplo de Portugal. O desemprego, ao nível do nosso, desceu acentuadamente nos últimos quatro anos. Apesar da desaceleração, a Comissão não prevê uma recessão grega em 2009. Esta relativa prosperidade é causa dos desacatos. Já em Maio de 1968, a França crescia acima dos 5%, nível que nunca voltou a atingir. Pelo contrário, quem vive dificuldades tem mais que fazer do que manifestar-se.

Os atentados brutais e criminosos da Grécia não podem ser uma reacção às condições económicas. Queimar automóveis, partir montras, saquear lojas e agredir polícias é muito pior para a crise que qualquer derrocada financeira internacional. O problema não se coloca a esse nível.

Para acontecerem os tumultos gregos, mais que descontentamento ocasional, são necessários dois elementos principais. O primeiro é uma desilusão profunda e recalcada, desconfiança latente e generalizada, raiva surda e intensa. Se ouvirmos as conversas de café e comentários de blogs parece que tal estado de espírito já domina em Portugal. Muito disso é a tradicional resmunguice nacional. Mas algo começa a despontar. O início foi o sonho guterrista de uma prosperidade sem custos. Lançou-se então o endividamento nacional e a bola de neve orçamental que já fez fugir dois primeiros-ministros, cair um terceiro e oprime o actual. Os protestos de professores e os medos dos jovens, bem como as esperanças de PCP e BE, clivagens no PS, crise do PSD e oportunismo do PP nascem daqui.

Mas é crucial notar as diferenças entre a tempestade lusitana e o furacão helénico. Na Grécia a desilusão, desconfiança e raiva são muito mais antigas e profundas, num país muito mais difícil de governar. Teríamos de descer alguns degraus de decadência para chegar a esse estado, que atingimos em 1580, 1839, 1908 e 1925.

O segundo elemento, indispensável para passar dos sentimentos e palavras aos actos, é uma liderança clara. O que começa espontaneamente só permanece se for planeado. Tal orientação, conseguida na Grécia pelo antigo e poderoso movimento anarquista, ainda falta por cá. Em Portugal até os extremistas são boas pessoas.

Tudo somado, as diferenças são muitas. Mas, apesar das distâncias, podemos seguir pelo caminho que conduz ao caos grego. Isso depende de uma decisão crucial para o nosso futuro comum: que atitude tomar perante as dificuldades.

O que quer que aconteça, vêm aí tempos dolorosos. Como povo, como lidaremos com eles? Vamos chorar, recriminar as autoridades, exigir e protestar? Ou enfrentar com seriedade e força o que vier, aceitando o sofrimento como algo que nos compete, vencendo os obstáculos? O mundo e a história não nos devem direitos e regalias. As promessas dos políticos são diversão de feira. O nosso destino não depende deles, mas do que fizermos com os nossos braços, as nossas cabeças, a nossa unidade. É fácil e cobarde queimar automóveis, partir montras, saquear lojas. O que é difícil é construir o futuro. Ter carácter diante dos desafios.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Gostaria

Público, 28.12.2008, António Barreto Retrato da semana

Não vale a pena ter esperanças desmedidas para 2009. Mas podem formular-se votos modestos
Não vale a pena ter esperanças desmedidas para 2009. O ano não é bissexto, o que é bem. Mas tem três eleições, o que é mau. As crises internacionais vão prosseguir, o que tem más consequências. Toda a gente anda de bengala de Estado, incluindo bancos e empresas industriais, financeiros e aforradores, o que obriga a pensar que não há bengalas que cheguem. Já sabemos que o crescimento será negativo ou ridículo; que o défice público aumentará; que o défice externo também; que o emprego diminuirá; e que a pobreza se agravará. São certezas. Esperar o contrário é enganar-se a si próprio. Há, todavia, votos que se podem formular. Os meus são modestos. Não são excessivos, nem irrealistas. Custam pouco dinheiro ou nenhum. Gostaria que terminassem, de uma vez para sempre, os processos em tribunal que envenenaram o último ano. O da Casa Pia, à cabeça. A Operação Furacão também. Os do futebol, que já ninguém percebe. O da pequena Esmeralda, que afligiu muita gente, mas que tornou todos insensíveis, menos a menina. Os dos bancos, do BCP, do BPP e do BPN, cuja opacidade tem criado as mais sérias suspeitas na opinião pública. E, da economia à corrupção, dezenas de outros que se arrastam e alimentam a impunidade.Gostaria que o Parlamento, quanto mais não fosse para reabilitar a sua imagem em ano de eleições, se interessasse genuinamente pela justiça, pelas leis processuais e pelo sistema judiciário, dedicasse a esse tema o melhor dos seus esforços, reflectisse seriamente no melhor modo de acelerar as respectivas reformas, criasse um clima de cooperação entre magistrados judiciais, magistrados do ministério público, advogados, órgãos de investigação e oficiais de justiça, a fim de iniciar um processo de melhoramento do mais degradado e mais ineficiente sistema público do país.Gostaria que o Governo, num sobressalto de consciência e de preocupação com as liberdades públicas e os direitos fundamentais do cidadão, reconsiderasse todas as medidas e procedimentos em curso que consolidam um clima de intrusão, de violação da privacidade, de despotismo e de controlo dos cidadãos, incluindo, evidentemente, o bilhete de identidade múltiplo, o chip dos automóveis, a legislação sobre escutas telefónicas, a actuação da ASAE e a delação fiscal e económica.Gostaria que se adiassem, por muitos anos, os projectos megalómanos do aeroporto, do comboio de alta velocidade e das auto-estradas inúteis, para os quais não há dinheiro, mas que, pela teimosia dos governantes e interesse dos construtores, correm o risco de se transformar em enorme buracos financeiros e em sorvedouro de recursos públicos tão escassos.Gostaria que os esforços das autoridades, no Governo e nas autarquias, se dirigissem para milhares de projectos com influência na vida real, sejam as pequenas e médias empresas industriais; sejam as obras de interesse público manifesto, como os metros do Porto e de Lisboa, os transportes públicos das áreas metropolitanas, os jardins e espaços verdes das cidades, o arranjo e a limpeza das ruas urbanas, a rede de comboios, as escolas degradadas, os lares de idosos decadentes, a drenagem e o escoamento das águas nas cidades, a recuperação do património construído, a reabilitação dos centros das cidades históricas e o alojamento de estudantes universitários; sejam, finalmente, os incentivos à exploração dos recursos naturais mais desprezados das últimas décadas, a agricultura, a floresta e os mares.Gostaria que o Governo explicasse, honesta e seriamente, o que está a fazer com os dinheiros públicos, a pretexto de salvar a imagem do sistema bancário português e de garantir investimentos, aplicações e depósitos. Há cada vez mais dúvidas quanto ao bom uso desses recursos. Aumenta o número de pessoas que pensa que o esforço público se concentra no apoio aos fortes, na ajuda aos mais ricos e na sustentação das empresas e pessoas que mais directamente se empenharam na especulação e nos sistemas internacionais de lucro fácil. Está generalizada a convicção de que o Governo dá o ouro aos bandidos. E que está a recompensar os que correram riscos excessivos e os que julgavam que passariam impunes.Gostaria que, entre o Governo, os sindicatos e os movimentos de professores se estabelecesse, pelo menos até às eleições, uma trégua ou uma moratória honrosa, que permitisse reflectir, estudar e imaginar novas soluções para as questões da avaliação e da carreira de docentes. Toda a gente ficava a ganhar, sobretudo os estudantes e os pais. As eleições, com os debates indispensáveis, poderiam ajudar muito a esclarecer os problemas e a resolvê-los gradualmente, com tentativas e experiências sucessivas, fora do clima de guerra que se criou e que nada oferece de bom.Gostaria que a RTP examinasse seriamente o seu papel, a sua função cultural e a sua missão informativa, sacudindo a dependência estreita do Governo em que se colocou voluntariamente, pensando na nobreza do serviço que poderia prestar ao país, produzindo programas que não nos envergonhem e cultivando aquelas que poderiam ser as suas mais relevantes qualidades, a independência e a seriedade.Gostaria que o Governo, depois de ter exigido sacrifícios e de ter conduzido uma política dura de austeridade e de ter obtido alguns ganhos importantes, nomeadamente no que diz respeito ao défice público e à eficiência fiscal, não se deixasse tentar, como já dá sinais inequívocos, pela demagogia e pelo dinheiro fácil, armas tradicionais em ano de eleições.Gostaria que alguém explicasse ao primeiro-ministro, ou que ele percebesse por si mesmo, que o excesso de propaganda, de demagogia e de publicidade enganosa pode ter efeitos contraproducentes, parecidos com os verificados durante a revolução de 1975, que se traduzem no facto de os governantes acreditarem no que eles próprios mandam dizer. De caminho, poderia também compreender que a crispação autoritária não se pode confundir com determinação. Mudasse ele esses atributos, trouxesse ele à vida pública um novo estilo, mais adequado às dificuldades dos tempos, e até talvez voltasse a ganhar as eleições. Não é pedir muito, pois não?

28 de Dezembro - Santos Inocentes

Massacre dos Inocentes
Fra Angelico
c. 1450
Têmpera sobre madeira, 38,5 x 37 cm
Museo di San Marco
Florença

Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José - Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Sagrada Família
BADALOCCHIO, Sisto
c. 1610
Óleo sobre tela,
81.3 x 57 cm
Wadsworth Atheneum, Hartford

sábado, 27 de dezembro de 2008

O QUE NÃO SE VÊ

Diário de Notícias, 20081227
João Miranda
Investigador em biotecnologia - jmirandadn@gmail.com

A demonização da classe política faz parte dos rituais democráticos. De acordo com a voz popular, os políticos são incompetentes, demagogos, mentirosos e corruptos. E, no entanto, o eleitorado tem grandes expectativas sobre o papel do Estado na sociedade. O eleitor espera que, perante uma crise, o Governo faça alguma coisa. Espera que o Governo apresente soluções. Paradoxalmente, a crise fez baixar o nível de exigência e reduziu os níveis de cepticismo em relação aos políticos. Como que por magia, a classe política é vista como uma fonte de esperança no futuro, apesar de ser responsável pela crise e de ser considerada incompetente e demagoga.A obra de Frédéric Bastiat, um economista francês do século XIX, pode ajudar a esclarecer este paradoxo. Bastiat observou que as medidas políticas de carácter económico têm consequências visíveis e consequências invisíveis. Por exemplo, os subsídios à actividade económica têm como efeito visível a criação de emprego pelas empresas receptoras. Têm, no entanto, um efeito invisível que é imperceptível para a maior parte dos eleitores. O Estado só pode pagar subsídios às empresas se cobrar os correspondentes impostos. Logo, o emprego criado pelos subsídios é compensado pelo desemprego criado pelos impostos.Os políticos centram-se nas medidas com efeitos visíveis positivos, mesmo que os respectivos efeitos negativos invisíveis excedam os positivos. O eleitor comum, que não leu Bastiat, avalia as propostas políticas de acordo com os seus efeitos visíveis. Estará sempre predisposto a acreditar em propostas concretas com efeitos visíveis positivos. O mesmo eleitor poderá estar insatisfeito com o estado geral do País e com a classe política em geral, embora não entenda muito bem porquê. Como o eleitor não se apercebe da contribuição dos efeitos invisíveis para a deterioração do estado geral do País, mantém uma relação esquizofrénica com a política. O eleitor está sempre entusiasmado com as novas medidas e sempre insatisfeito com o resultado global das medidas que o entusiasmaram no passado.

Isaiah Berlin em 2009

Expresso, 20081227
João Carlos Espada

Na última crónica de cada ano, é costume fazer previsões para o ano seguinte. Sendo esta também a minha última crónica no Expresso, onde comecei a colaborar em 1981, dedico-a a uma das poucas previsões seguras para 2009: o centenário do nascimento de Isaiah Berlin, que o mundo civilizado se prepara para comemorar.
Berlin nasceu em Riga, na Letónia, em 1909. Mas os pais mudaram-se para Petrogrado e ele tinha oito anos quando assistiu ao golpe de Estado bolchevique, em 1917. O fanatismo revolucionário horrorizou-o para sempre.
Em Oxford - onde na prática se exilou desde 1927 até morrer, em 1997 - procurou absorver os ingredientes da liberdade ordeira inglesa. Concluiu que residiam no pluralismo e no entendimento negativo da liberdade, como ausência de coerção por terceiros. Foi um admirador de Winston Churchill.
No continente europeu, sob influência de versões dogmáticas do Iluminismo, a liberdade fora interpretada de outra maneira. Não apenas pelo marxismo, mas por várias correntes 'progressistas', foi entendida como conformidade com um determinado comportamento, alegadamente ditado pela 'Razão'. Esta fé ilimitada na razão humana assenta na crença de que a razão é capaz de explicar tudo a partir de premissas racionalmente demonstráveis. E consequentemente aconselha a destruir tudo o que não possa ser racionalmente demonstrado.
No continente europeu, sucessivas modas filosóficas intoxicaram os intelectuais e a opinião publicada, dizendo-lhes que esta arrogância intelectual era prova de abertura e progressismo. E instalou-se a superstição segundo a qual quem duvidasse disso seria partidário do irracionalismo, da tradição dogmática, ou, pior um pouco, da religião. Daqui emergiu a trágica dicotomia continental entre mudança e tradição, abertura e fechamento, tolerância e intolerância.
Mas essa dicotomia assenta num equívoco monumental: alguns dos piores promotores da intolerância estão entre aqueles que se apresentam como campeões da Razão. Porque a versão de racionalismo que preconizam - e a que Berlin e Popper chamaram racionalismo dogmático - é simplesmente impossível. A razão não consegue dar premissas isentas de premissas. Ela apenas opera criticamente - fazendo perguntas, conjecturando muito falíveis respostas - aos ombros das gerações anteriores, do que elas descobriram, acreditaram ou simplesmente apreciaram.
Limpar a tela e começar de novo - o colossal sonho de Platão, Voltaire, Rousseau, Marx e Nietzsche - é um sonho insensato e adolescente. Gera um pesadelo com custos políticos elevados: a eterna oscilação entre revolução e contra-revolução, entre o abuso e a servidão.
João Carlos Espada

A ameaça demográfica

Expresso, 20081227
Valentim Xavier Pintado

Portugal confronta-se com uma ameaça que não podemos ignorar: a ameaça demográfica. No ano passado tivemos mais óbitos que nascimentos. A população só não se reduziu porque os imigrantes compensam o défice demográfico, mas em breve começará a declinar.

Desde 1982 o índice de fecundidade desceu abaixo dos 2,1 necessários para assegurar a renovação das gerações. Com a esperança de vida a aumentar, o número de idosos cresce enquanto desce o dos que provêem ao seu sustento. Prevê-se em meados do século 3 idosos por cada habitante activo.

Quais as consequências? Uma das mais sérias é a crise da Segurança Social gerada pelo crescimento do número de aposentados e queda do número de activos.

De acordo com o Nobel da Economia Gary Becker, a queda do capital humano reduz o crescimento das economias levando a um alargamento do fosso que separa dos países mais desenvolvidos, como já sucede por cá.

Outro fenómeno relacionado é a desertificação. O Conselho de Alcoutim, com 14 nascimentos/ano para 70/80 óbitos, não é caso único. Várias escolas têm encerrado por falta de alunos enquanto os lares de idosos estão a abarrotar!

Esta situação é susceptível de modificação?

Muitos países têm-no conseguido com políticas promotoras da família e natalidade, respeitando a dignidade do ser humano desde a concepção à morte natural.

Ter filhos tem custos, por vezes elevados. Precisamos de políticas que os reduzam ou os compensem, especialmente para as famílias numerosas.

Precisamos de medidas de conciliação do trabalho com a vida familiar, equipamentos sociais como creches e jardins de infância a baixo custo, abonos de família mais elevados ou reduções tributárias a partir do 3º filho.

Algumas destas medidas já existem entre nós, mas são na maioria insuficientes e inconsistentes com as políticas antifamília adoptadas.

Valentim Xavier Pintado, professor da FCEE-Católica

27 de Dezembro - S. João Evangelista

Apóstolo S. João Evangelista
1610-14
Óleo sobre tela, 97 x 77 cm
Museo de El Greco
Toledo



sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Ainda vamos a tempo!

Aura Miguel
Opinião RR - RR on-line
26-12-2008 9:57


Não são muitos os que desejam encontrar-se com Cristo, nem os que desejam a salvação, recordou-nos D. José Policarpo. Por isso, a esperança que nasce nestes dias nunca será anúncio de alegria definitiva.
Celebramos o Natal 2000 anos depois, porque acreditamos na actualidade de Jesus Cristo e na urgência da salvação, disse ontem o Cardeal Patriarca de Lisboa. Mas celebramo-lo numa sociedade em que as marcas do cristianismo se diluem. Vivemos rodeados de injustiças e desigualdades, de violência e corrupção cada vez mais chocantes. E, por isso, queixamo-nos. Mas o que torna mais difícil celebrar o Natal não é nada disto. Mas sim o que se passa no interior do nosso coração.É que, de facto, não são muitos os que desejam encontrar-se com Cristo, nem os que desejam a salvação, recordou-nos D. José Policarpo. E sem esse desejo, a esperança que nasce nestes dias nunca será anúncio de alegria definitiva, porque nós não deixamos.Ainda vamos a tempo!

26 de Dezembro - Sto. Estevão

Santo Estevão, mártir
Têmpera sobre madeira, 89 x 34 cm
Vincenzo Foppa (c. 1430 – c. 1515)
The Hermitage
St. Petersburg

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

25 de Dezembro - Nascimento de Jesus

Caravaggio
Adoração dos Pastores
1609
Óleo sobre tela, 314 x 211 cm
Museo Nazionale, Messina



quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A Boa Nova

Graça Franco
Opinião RR

RR on-line
24-12-2008 9:24


O poeta enganou-se, porque não é verdade que seja Ele que vai nascer.
O que os cristãos têm hoje para gritar ao mundo é que Ele já nasceu.
Com David Mourão Ferreira apetece anunciar:
“Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Num sótão, num porão, numa cave inundada(…)
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Numa casa (qualquer) ontem bombardeada”
Mas, enganou-se o poeta. Não é verdade que seja Ele que vai nascer.
E essa não é sequer uma má notícia. O que os cristãos têm hoje para gritar ao mundo é que Ele já nasceu. Em concreto, em carne e osso, há mais de dois mil anos.
Não, para lançar em nós a “suspeita que existe” mas como garantia máxima dessa certeza. E esta é a boa notícia. Tão boa que chegou a toda a terra em forma de Boa Nova.
Fora hoje e o presépio provavelmente não teria reis. Onde estariam, de Oriente a Ocidente, os três poderosos capazes de correr a dobrar os joelhos reconhecendo a existência de Deus num cúmulo de atenções ao mais pobre dos pobres?
Mas num ponto contudo tem razão o poeta:
Virá para nos pedir contas do nosso tempo.
Do nosso olhar ao Outro.
Àquele onde se fará nascer de novo… esta noite, à meia-noite em ponto!

O que o Banco Alimentar faz que mais ninguém faz

Público, 24.12.2008, José Manuel Fernandes

É tempo de recuperar a ideia de Fraternidade que nos envolve e responsabiliza em lugar de nos ficarmos pela Solidariedade que delegamos no Estado para mais tarde a ela termos também direito

Hoje é certo e sabido que se realizarão, um pouco por todo o país, "ceias de Natal" para os pobres, para os sem-abrigo, para muitos idosos que vivem sozinhos. Aqui e além aparecerá uma autoridade pública que sublinhará a importância de não nos esquecermos dos mais fracos e desvalidos. É assim há muitos anos e até custa imaginar como poderiam as televisões encher os seus intermináveis serviços noticiários de uma hora sem um "directo" para uma destas "ceias". A maioria destes encontros é proporcionada por instituições de solidariedade social. E grande parte dessas instituições está, de uma forma ou outra, ligada à Igreja Católica. Por regra, também não servem apenas aquela refeição especial: todos os dias do ano apoiam os mais desfavorecidos, como sucede com a Comunidade Vida e Paz, que já ofereceu, nos dias 19, 20 e 21, as suas refeições de Natal na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa. Já no Porto, só para hoje, há iniciativas dos Albergues Nocturnos, uma instituição fundada em 1881, do Coração da Cidade, da Paróquia da Campanhã e da Missão de Caridade dos Samaritanos. Mas se estas iniciativas têm a cobertura quase rotineira da comunicação social, é mais raro tomar contacto com o trabalho de formiga dos voluntários que, todos os dias, todas as noites, percorrem as ruas de muitas das nossas cidades a dar apoio aos sem-abrigo. Só a Comunidade Vida e Paz distribui, na zona de Lisboa, 800 sanduíches por dia. E muitas são para dar a pessoas que até trabalham, têm emprego mas vivem na rua, ou acolhem-se de forma precária em abrigos como o que AMI mantém em Lisboa, como se relatava este domingo no PÚBLICO. Esta rede invisível - e muitas vezes apenas invisível porque viramos os olhos para não sermos confrontados com a realidade - existe porque existem voluntários de todas as horas, não apenas os que pelo Natal se lembram dos mais pobres. E esta rede invisível funciona porque todos os que a integram não esqueceram o valor da terceira valência da Revolução Francesa: a Fraternidade. Num tempo em que todas as palavras têm um significado, não deixa de ser significativo como a ideia de "fraternidade" quase desapareceu do nosso léxico, sendo substituída por uma dualidade: a "caridade" que facilmente se critica por ser "cristã" e a "solidariedade" que se está sempre a exigir a essa entidade abstracta que é o Estado. Ora a verdade é que esta última, por ser remetida para outrem, por ser mais depressa entregue a quem vive melhor com a burocracia do que com os seres humanos, é sempre, será sempre incompleta. Já a ideia de "fraternidade", por nos envolver mais directamente, por não distinguir entre a "caridade" praticada pelos indivíduos ou a "solidariedade social" delegada no Estado, devia regressar ao nosso léxico político e cultural.Na verdade, o assumir pela sociedade civil - isto é, pelos cidadãos de corpo inteiro da nossa comunidade - de tarefas de pura e desinteressada Fraternidade é mais do que aliviar a consciência ou agir isoladamente. É ir até onde instituições como o Banco Alimentar contra a Fome foram capazes de chegar e mais ninguém, sobretudo o Estado, alguma vez chegaria.O segredo do Banco Alimentar é ser a rede ainda mais invisível da tal rede invisível de que falámos atrás. O segredo do Banco Alimentar não está nas recolhas regulares de alimentos, que sensibilizam a população e que este ano, apesar da crise, ou por ser de crise, renderam mais do que em anos anteriores. O segredo está na rede de recolha de alimentos que seriam destruídos pelas grandes redes de distribuição e ser capaz de os colocar onde são necessários, onde fazem falta. Não em qualquer guichet onde se tira senha, mas nas creches, nos lares, nos abrigos, em todas as instituições onde servir uma refeição melhor faz toda a diferença. Muitos que são ajudados pelo Banco Alimentar nem suspeitam que o são. As empresas que contribuem com o grosso dos alimentos que distribui também não reclamam publicidade ou qualquer abatimento nos impostos. Pelo contrário.Nesta época do ano, onde é fácil pregar a generosidade, é importante lembrar o que há para além das simpáticas, acolhedores mas pouco mais do que simbólicas "ceias de Natal" mais ou menos mediatizadas. E perceber como uma Fraternidade que implica a nossa co-responsabilização é inseparável da Liberdade e da Igualdade, valores que preservamos e pelos quais também não podemos deixar de, com o sempre presente sentido de responsabilidade individual, lutar em cada dia que passa.Até porque estas redes invisíveis são mais importantes para aumentar o capital social de um país do que outras redes gongoricamente anunciadas e alegremente subutilizadas. Porque umas são feitas de pessoas para servir pessoas, e as outras por vezes não se sabem de onde vêm nem para onde vão. Nada como dias de crise para tornar ainda mais visível o contraste entre a importância crucial do invisível, mas recompensador, e o que é tantas vezes apenas muito fogo-de-artifício.

Os espíritos deste Natal

Público, 24.12.2008, Rui Ramos
Ao longo de 2008 recebemos a visita de vários espíritos, mas as suas mensagens não foram coerentes
Scrooge era, segundo reza a história, um misantropo mesquinho. Num certo Natal, recebeu a visita de três espíritos: o do passado, do presente e do futuro. Teve sorte: embora separadamente, deixaram-lhe todos, muito claramente, a mesma mensagem. Scrooge percebeu o que tinha a fazer, emendou-se e talvez tenha sido feliz. Nós, em 2008, não tivemos tanta sorte. Também recebemos vários espíritos, não nesta noite de Natal, mas ao longo do ano. As suas mensagens, porém, não foram exactamente coerentes.
O primeiro espírito de 2008 esteve connosco até ao fim do Verão. Deu-nos a entender que precisávamos de ser mais austeros, "verdes" e competitivos. Estávamos a gastar demais, andávamos a dar cabo do planeta e não éramos suficientemente produtivos. O espírito mostrou-nos os preços a subir e prometeu-nos que o petróleo passaria para sempre dos 200 dólares dentro de um par de meses. Vimos então o documentário de Al Gore com o antigo tremor dos fiéis perante o risco do inferno. Teríamos de mudar rapidamente de estilo de vida. Os Estados continham despesas, os bancos centrais subiam as taxas de juro e todos lamentavam o crédito laxista proporcionado pela banca comercial.
Estávamos nós a pensar em emendar-nos, quando o Outono trouxe um segundo espírito, muito diferente do primeiro. Este explicou-nos que, em vez de subir, os preços iam descer (o que, entretanto, aprendemos também não ser coisa boa) e antecipou que o petróleo chegaria a menos de 40 dólares. Pediu-nos para continuarmos a gastar dinheiro, dispensou-nos (moderadamente) de sermos "verdes" e premiou, com dinheiro dos contribuintes, as empresas comprometidas por erros de gestão, negócios irregulares ou falta de competitividade. Os bancos centrais baixaram as taxas de juros e os governos atribuíram-se a si próprios a deliciosa "obrigação" de aumentar as suas despesas. A preocupação de aumentar os gastos fez até alguns sábios discordarem de cortes fiscais, não porque pudessem desequilibrar os orçamentos, mas por temerem que os contribuintes poupassem o dinheiro que o Estado lhes viesse a deixar no bolso. A banca passou a ser censurada pela relutância em emprestar.Entre a "crise do petróleo" no Verão e a "crise financeira" no Outono, nunca terá havido um ano tão esquizofrénico como 2008. Estivemos obcecados com a inflação num momento, apenas para agonizarmos sobre a deflação no seguinte. Culparam-nos por esbanjarmos, para logo depois nos acusarem de sermos prudentes. Dir-me-ão: mas faz todo o sentido. A moral em tempo de vacas gordas não pode ser a mesma que em tempo de vacas magras. E esta é, no fundo, a questão: faz algum sentido perguntar qual é, em princípio, a melhor forma de vida ou o melhor modelo social - ou basta-nos comportarmo-nos e organizarmo-nos como permite ou exige a conjuntura? Deveremos ser sempre responsáveis, ambientalistas e competitivos, ou depende do sentido do vento?
O conto de Dickens, muito lembrado nesta época do ano, sugere uma resposta talvez eticamente ambígua. Devidamente flagelado pelos sucessivos espíritos de Natal, o somítico misantropo acaba por aderir ao clube da simpatia e generosidade. No entanto, Scrooge não se corrigiu por ter finalmente compreendido o que era justo em princípio, mas depois de descobrir, de fonte mais ou menos segura, que o caminho da mesquinhez o levaria a um fim triste e desconfortável. No fundo, fez um cálculo: passou a ser bom, apenas porque os espíritos lhe garantiram que a bondade era um investimento vantajoso. Scrooge simboliza uma época: aquela em que a moral passou a depender, não da diferença entre o certo e o errado, mas de um simples cálculo de deve e haver.
Hoje, do ponto de vista moral e de opções de vida, tendemos todos a ser investidores astutos, como Scrooge. Estamos talvez dispostos a mudar, não porque a vida que levamos seja necessariamente errada ou a que podemos levar possa ser mais certa, mas desde que nos dêem a certeza de que uma vida diferente nos trará mais conforto e felicidade. Por isso, quase que admitimos tudo, desde que com as devidas provas e demonstrações de rentabilidade. Seremos "bons" ou "maus", de acordo com o que render mais no momento. A nossa moral é a do catavento.Para termos tantas visitas espirituais como Scrooge, falta-nos ainda uma terceira. Virá em 2009? E que nos dirá o terceiro espírito? Talvez nos pergunte simplesmente: como pensam que devem viver? Eis a questão mais difícil. Provavelmente, continuaremos a esperar pelos acontecimentos para saber o que fazer.
Boas Festas para todos.
Historiador

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O espanto do Natal

Agência Ecclesia, 081223

João César das Neves

O espanto do Natal


Nós que todos os anos vivemos o Natal perdemos o espanto perante o Natal. Essa é uma das piores coisas que pode acontecer a quem vive todos os anos o Natal. De facto, aqueles que participam com fervor na celebração anual do Natal sentem muitas emoções acerca dele, desde a elevação espiritual à indignação perante o consumismo e o desinteresse da sociedade. Mas raramente sentem aquilo que é o mais adequado perante o mistério natalício: o espanto.
O espanto principal vem, naturalmente, do próprio acontecimento que se celebra: que Deus omnipotente, que não cabe nos Céus, tenha decidido descer até nós e nascer como um menino, é algo de inaudito, inconcebível, quase inacreditável. Este é o mistério central da nossa fé cristã, mas dificilmente o conseguimos entender, quanto mais descrever, de tal forma ele ultrapassa tudo o que podemos imaginar. Vivemos todos os dias com ele, mas não somos capazes de compreender aquilo em que baseamos a nossa própria vida. O nosso Deus é, sem dúvida, espantoso!
Mas, mesmo se olharmos o Natal de fora, ele é uma festa absolutamente assombrosa. Se virmos o Natal como alguém que nada sabe sobre ele, se o considerarmos sem referência ao seu significado espiritual, temos de admitir que se trata de um fenómeno impressionante.
Ele é a única festa verdadeiramente global que o mundo alguma vez viu. O Natal atravessa todas as fronteiras e culturas. Existem, sem dúvida, muitas pessoas a quem o Natal nada diz, mas é difícil encontrar alguém que não saiba que ele existe.
Por outro lado, todos falam do "espírito natalício" mesmo quando ignoram o tal significado espiritual. De múltiplas maneiras e formas, os meios agnósticos, pagãos e até ateus se sentem tocados por uma mística que não sabem de onde vem. "Festa da família", "tradição popular", "quadra da solidariedade", "reino do Pai Natal" são maneiras comuns de descrever aquilo que ninguém consegue explicar, mas que todos sentem palpavelmente nesta quadra.
Os fenómenos espantosos que rodeiam o Natal são muitos mais. Por exemplo, trata-se da única celebração de aniversário que se verifica há mais de 2000 anos. Mas vale a pena pensar um pouco de onde vem esta surpreendente realidade. Se aquele que nada sabe sobre o Natal quiser entender a origem daquilo que tanto o surpreende, onde deve ele procurar a resposta? Que lhe podemos dizer nós, aqueles que todos os anos vivemos o Natal e participamos com fervor na sua celebração?
Bem, esta questão levar-nos-ia muito longe. Alguns refeririam dados sociológicos, históricos e etnográficos. Falariam da influência planetária da civilização ocidental, do gosto das culturas pelos presentes e pelas festas e de muitas outras coisas. Mas não existem muitas dúvidas que a razão última do fenómeno vem, simplesmente, do facto indiscutível que o nosso Deus é espantoso. O Deus que fez as girafas e os cometas, que concebeu a aurora e as trovoadas, que imaginou as galáxias e os seres humanos, só Ele poderia inventar uma coisa como o Natal.
João César das Neves
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Dossier João César das Neves 23/12/2008 11:07 3010 Caracteres

Natal na poesia portuguesa

Um olhar sobre oito séculos de literatura pela pena de José Tolentino Mendonça

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Há mais de oito séculos que o Natal se celebra na poesia portuguesa. As belíssimas composições de Afonso X, do Mestre André Dias e do maior teólogo da nossa literatura que é Gil Vicente (bastaria, para qualquer natal futuro, o seu «Breve sumário da História de Deus»:

«Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.
Adorai, desertos
e serras floridas, o Deus dos secretos,
o Senhor das vidas.
Ribeiras crescidas,
louvai nas alturas
o Deus das criaturas…»)

Representam uma espécie de pórtico para uma viagem que, em cada época, encontrou os seus cantores. No século XVI, há um trecho anónimo, talvez cantado numas dessas romarias como ainda hoje se vêem

«Non tendes cama bom Jesus não
non tendes cama senão no chão»,

Mas também sonetos de Camões «Dos Céus à Terra desce a mor Beleza» e de Frei Agostinho da Cruz.

Ao século XVII bastariam os vilancicos de Sóror Violante do Céu

«Todos dizem, meu Menino,
Que vindes libertar almas,
Mas eu digo, vida minha,
Que vindes a cativá-las
Porque é tal a formosura…»,

Como ao século XVIII, do Abade de Jazente, de Correia Garção e outros, bastaria a composição piedosa do satírico Bocage, cotejando com elegância o texto profético de Isaías

«A Virgem será mãe; vós dareis flores,
Brenhas intonsas, em remotos dias;
Porás fim, torva guerra, a teus horrores».

O século XIX é de Garrett, com um poema delirante e “incorrecto”, onde faz valer o natal folgado e guloso da sua «católica Lisboa» sobre o «natal sem graça» dos protestantes londrinos. Mas, a seu lado, Feliciano de Castilho, canta «O Natal do pobrezinho» e João de Lemos e João de Deus descrevem sobretudo a experiência mística da contemplação. O século XX desdobra, seculariza, interroga, e, por fim, talvez adense o escondido significado do Mistério da Encarnação de Deus. Há o Natal devoto de Gomes Leal; há o Natal distanciado de Pessoa (o seu grande poema de natal é evidentemente o Poema VIII de O Guardador de rebanhos, mas isso dava outra conversa); o Natal dilacerado pela procura de Deus em José Régio

«Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais»

E em Torga; o evangélico Natal de Sophia e de Nemésio (como esquecer aquele «Natal chique», onde «Só [um] pobre me pareceu Cristo»?); o Natal asperamente profético de Jorge de Sena («Natal de quê? De quem?/ Daqueles que o não têm?») ou de David Mourão Ferreira

«Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada».

Declinações diferentes de um único Natal.

José Tolentino Mendonça, Director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (www.snpcultura.org)

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Dossier Tolentino Mendonça 23/12/2008 11:04 2706 Caracteres

The Nativity - Bach Sinfonia from Christmas Oratorio

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Iluminações e impunidade

RR on-line 22-12-2008 9:00
Raquel Abecasis

Não há necessidade de vender a cidade aos bocadinhos a empresas que não têm o bom gosto de perceber que não se decoram praças com logótipos, muito menos no Natal.

Lembra-se do espanto e admiração que sentia quando desde criança se habituou a dar uma volta pela cidade para ver as iluminações de Natal?Se vive em Lisboa, bem pode dizer adeus aos “bons velhos tempos”. Este Natal, Lisboa transformou-se num espectáculo deprimente. As praças mais emblemáticas da cidade, como o Marquês de Pombal, os Restauradores ou o Terreiro do Paço, estão transformadas em cenários de publicidade barata de empresas que, supostamente, receberam este presente da Câmara Municipal em troca do financiamento da iluminação pindérica que decora o resto da cidade.É sabido que o município não tem dinheiro para pagar os luxos de outros tempos, mas, francamente… Não há necessidade de vender a cidade aos bocadinhos a empresas que não têm o bom gosto de perceber que não se decoram praças com logótipos, muito menos no Natal.Se fosse noutros tempos, com presidentes de câmara menos politicamente correctos, o que já se teria dito e escrito, e quantos intelectuais urbanos não teriam já vindo a terreiro rasgar as vestes com o ultraje feito à cidade. É mais uma vez a prova de que ao Partido Socialista, que nos governa no país e na cidade, tudo é permitido. Vá-se lá saber porquê, os socialistas conquistaram uma espécie de lugar cativo no coração da comunicação social e dos intelectuais de esquerda que dominam a nossa sociedade apática.
Raquel Abecasis

Conto de Natal

Diário de Notícias, 20081222
João César das Neves
Professor universitário - naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Lá vai ser Natal outra vez! Este ano onde é que vocês celebram as festas? - Vai ser em casa da tia Maria, como de costume. - Como sabes? Já falaste com ela?

- Não, mas é sempre assim. Nem é preciso dizer.

- Pobre tia Maria! Como é tão boa, como está sempre disponível e pronta para todos, já nem se dão ao trabalho de lhe perguntar, de lhe pedir, de a envolver na decisão. Ela, precisamente porque é tão boa, é tomada como garantida, automática, com quem não é preciso perder tempo. Tu vais gastar mais esforços a convencer o primo Augusto a ir à Consoada, porque ele é um resmungão e gosta de se fazer caro, do que com a tia Maria, de quem realmente tudo depende, mas a quem ninguém liga, só porque é excelente.

- Tens razão. Mas é natural, não?

- Natural? Talvez. Mas é uma vergonha.

- Sabes, estava aqui a pensar que isso é exactamente o que nós fazemos com Deus. Nós contamos com o Natal todos os anos. Faz parte do calendário. Nem sequer nos damos ao trabalho de Lhe perguntar se este ano vai haver Natal. Nunca nos damos ao trabalho de inquirir se o Deus todo-poderoso, Senhor do Céu e da Terra, quer este ano voltar a nascer na nossa vida. Como Deus é tão bom, as pessoas tendem a dá-lO como garantido. Nem se lembram de Lhe perguntar, de Lhe pedir, de O envolver na decisão. Isso, tens razão, é uma coisa horrível.

- É verdade! A nossa falta de atenção nasce precisamente de o amor atento e disponível se tornar invisível. Invisível porque sempre presente. Está lá sempre e já não o vemos. Mas a nossa falta de atenção magoa imenso a tia Maria, que se esfalfa a trabalhar para nos ser agradável, e vê os seus esforços considerados como normais, banais, exigíveis. É um grande pecado esquecer--se de agradecer aquilo que é um dom tão indispensável que nem sequer damos por ele.

- Sim. Não há nada pior do que tratar Deus como se trata o sol ou a chuva. Deus faz "nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos" (cf. Mt 5, 45). Mas Ele não é como o sol ou a chuva. Tratar Deus como se fosse um relógio sempre certo, como o sol, ou uma força caprichosa e incontrolável, como a chuva, é o pior dos pecados. Deus, que é amor, supremo amor, não quer ser tomado, não pode ser tomado como o sol ou a chuva.

- Deus, porque nos ama infinitamente, dá-nos sempre o Natal, como nos dá o sol e a chuva. Mas não quer ser tratado como se fosse uma força da natureza ou um mecanismo cego e automático. Deus não pode ser tratado como um engenho que se repete sucessivamente. Porque tudo o que faz é por amor. Ele é amor perfeito, e por isso podemos contar sempre com Ele. Mas, por isso mesmo, nunca o devemos dar por adquirido, nunca o podemos assumir como garantido. Não o podemos desprezar precisamente porque é perfeito.

- Se ao menos nós O víssemos! Com Deus é ainda pior do que com a tia Maria, porque a ela a gente vê. Mas no caso de Deus só vemos o sol e a chuva. Por isso tantos O esquecem.

- Mas não é isso o Natal? Deus, o Deus sublime e transcendente acima da nossa capacidade de compreensão, faz-se um de nós. Desce ao nosso nível para se fazer visível. Tinha anunciado pacientemente, através de uma longa linha de profetas e preparado o momento. Depois, quando veio, fez milagres espantosos, curou, ressuscitou, multiplicou os pães, andou nas águas. Que mais poderia Ele fazer para ser visto?

- E que resposta terrível lhe deram aqueles que tinham sido preparados para a vinda d'Ele!

- Vês que afinal o problema não é que não O possamos ver, porque quando O vimos ainda fizemos pior. Mas, depois de condenado, crucificado, morto, Ele continua visível. Visível na Igreja, na caridade com os pobres, na oração, na Eucaristia. A dedicação atenta, o carinho silencioso, a suprema delicadeza não querem ser mais visíveis do que são.

- Tens razão. O problema não é que não O vemos. O problema, como com a tia Maria, é que não O queremos ver.

- No entanto, como a tia Maria, Deus nunca é tão visível como no Natal. Porque é aí que se vê plenamente a dedicação atenta, o carinho silencioso, a suprema delicadeza.

Discurso do Papa Bento XVI à cúria romana por ocasião dos votos de Feliz Natal (2008)

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Santo Natal

domingo, 21 de dezembro de 2008

É Natal!

Público, 21.12.2008, Faranaz Keshavjee

Que bondade pode existir na abundância por um dia e na experiência da miséria e solidão nos restantes 364 dias do ano?

Quando o Profeta Muhammad começou a partilhar o Alcorão, foi desafiado a fazer um milagre para confirmar a divindade das suas palavras. Muhammad respondeu: não sou milagreiro. Se procuram milagres, olhem à vossa volta, na natureza e no cosmos, e olhem para dentro de vós mesmos e nas transformações humanas, e neles verão ayats (sinais) de Deus. Esses são milagres!
No Natal observo vários milagres: a generosidade social; os abraços fraternos que damos; o sorriso sentido às crianças, idosos, pobres e ricos desejando o melhor da vida; e as mais belas experiências de amor, de fé, de ternura, independentemente das nossas crenças. Políticos, cientistas, académicos, comerciantes, judeus, muçulmanos, hindus, budistas, ninguém escapa a estas expressões humanas. É que, mais do que acreditar em Deus, acreditamos em nós mesmos, nas pessoas, no bem que podemos fazer uns aos outros, e na grande diferença que sabemos que podemos fazer, às vezes com gestos muito pequenos.
Acima de tudo, é o ser humano que importa, na sua unidade e fraternidade. Foi este o Simurgh - o Grande Pássaro - que Farid ud-Din Attar nos mostrou na sua magnífica obra A Conferência dos Pássaros. Quando milhões de pássaros partiram à procura do Grande Pássaro, o líder dos líderes, aquele que os iria orientar e levá-los à vida da abundância e da prosperidade, e sabedoria, eis que chegados apenas 30, todos rotos, partidos, de rastos mesmo, Simurgh não lhes aparece, nem quer saber que estão à Sua espera... Olhando uns para os outros, recordando as duras experiências dessa longa e penosa viagem até ao lugar do Simurgh, os 30 pássaros percebem, finalmente, que Seh são 30, e murgh significa pássaros. Afinal, o Simurgh era a unidade dos pássaros.
O Natal é uma época em que estes valores ressurgem. Pena que aconteça só uma vez por ano. Porque passados estes dias, celebrados finalmente em folias de revéillon, todos se esquecem de todos e regressam ao seu individualismo e egocentrismo, não há tempo para nada nem para ninguém.
A caridade não devia reduzir-se a uns dias do ano. A caridade, no conceito muçulmano, e creio que também no mundo cristão, é para se praticar todos os dias, e sobretudo numa lógica de não apenas "dar o peixe, mas de ensinar a pescar". Pois senão, que bondade e generosidade pode existir na prova da abundância por um dia, e na experiência da miséria e solidão nos restantes 364 dias do ano? Que fizemos de facto para mudar as coisas? Quanto do nosso tempo e saber oferecemos para que o Natal dos pobres e desprovidos possa melhorar de ano para ano?
Ahmad ibn Hanbal (m. 855) contava num dos seus hádices uma bonita história de Jesus que faz parte do evangelho de Mateus. Um homem pergunta a Jesus: "Mestre da bondade, ensina-me algo que saibas e que eu não saiba, que me beneficie a mim e que não te faça mal a ti. Ensina-me como posso ser um servo verdadeiramente devoto a Deus?" Jesus responde: "Isso é fácil. Deves realmente amar Deus no teu coração e trabalhar para O Servir, empenhando-te com todo o esforço, e ser misericordioso para com o povo da tua raça, assim como és misericordioso para contigo próprio". "Mas Mestre da Bondade, quem é o Povo da minha raça?". Jesus responde: "Todas os filhos de Adão. E tudo o que não desejas que te façam a ti, não o faças aos outros. Assim, serás verdadeiramente devoto a Deus".
No Alcorão, mensagens semelhantes a esta apelam ao amor a Deus através das boas obras para com a humanidade. Ao contrário do que vai sendo erradamente difundido, o pluralismo de fés é algo aceite dentro do islão como desejável e é justamente nessa pluralidade de crenças que se espera que possamos competir e excedermo-nos uns aos outros nas boas obras. Diz o Alcorão: "Para cada um apontámos uma lei divina e traçámos um caminho. Se Deus tivesse querido, ter-vos-ia feito uma só comunidade. Mas Ele quis antes testar-vos pelo que vos deu, e fez-vos naquilo que sois. Então, excedei-vos uns aos outros nas boas obras" (5: 48). Noutro lugar, o Alcorão diz: "Oh Humanidade! Nós vos criámos homens e mulheres e fizemo-vos em grupos e sociedades, para que pudessem conhecer-se uns aos outros. O mais nobre de entre vós é aquele que for melhor na conduta" (49;13). A palavra conduta é "Taqwa" e aparece umas 200 vezes no Alcorão. Ela refere-se a uma base moral que subjaz a acção humana e a consciência ética das responsabilidades perante Deus e a sociedade.
É Natal porque Jesus nasceu. Mas é porque Jesus nasceu que todos os dias são dias de fazer Natal, de nos excedermos nas boas obras, seja qual for o caminho de cada um.
Estudiosa de temas islâmicos
(Faranazk@sapo.pt)

Mensagem de Natal de D. Manuel Clemente, bispo do Porto

Tudo como dantes, nada como dantes

Público, 21.12.2008, António Barreto
Retrato da semana

O critério de vida é vencer, o que significa derrotar e liquidar os outros. Quem vence tem razão porque vence

Aturbulência financeira que atravessou o mundo e está longe de se dissipar já provocou a mais completa série de verdades definitivas e sobretudo contraditórias. Têm de comum o disparate e a inabalável certeza dos seus autores. "Marx tinha razão"; "É o fim do capitalismo"; "Acabou a hegemonia americana"; "Nada será como dantes"; "O Estado tem de tomar conta da economia"; "Vão mudar os padrões de consumo"... Em sentido contrário, também temos: "O capitalismo vai recuperar"; "A iniciativa privada vai ultrapassar a crise"; "Vamos refundar o capitalismo"; "A crise gera novas oportunidades de negócio"; "A União Europeia vai liderar a recuperação das economias"... Sem comentários.Mais uma vez, anuncia-se um "novo paradigma". Não se sabe o que quer dizer, mas é "chique". E misterioso. Mais poder político? Mais supervisão e regulação? Mais justiça? Mais ética? Novos padrões de consumo? Mais Estado? As únicas certezas são o menor crescimento, o desemprego e a redução do conforto. O resto é uma incógnita. Até porque as mudanças de comportamentos demoram décadas. E as mudanças de leis e de instituições exigem políticos e legisladores à altura, com autoridade e legitimidade - o que também é uma incógnita.A regulação falhou. É o que todos dizem, menos os reguladores. Convinha saber por que falhou a regulação. Os vigaristas têm meios mais sofisticados. Os reguladores, a justiça e as polícias estão atrasados. Estas são as razões superficiais. Mas há outras. Os reguladores e os políticos conhecem intimamente os especuladores e os predadores. Não só se conhecem, como se estimam e convivem. Têm mesmo, simultânea ou sucessivamente, interesses comuns. O triângulo formado pelos políticos, os reguladores e os especuladores constitui um percurso pessoal que muitos fazem airosamente nas suas carreiras. Muitos políticos e muitos reguladores consideram que os predadores e os especuladores têm o direito de se entregar às suas actividades, de operar no mercado livre, de ter sucesso e de vencer nos negócios. Se é verdade que houve Estado a menos, também é certo que Estado a mais não é a resposta. Pois o Estado é... os políticos! Por uma vez, os políticos deste mundo não parecem ser os principais responsáveis. Mas não estão isentos. Falharam na regulação, na fiscalização e na inspecção. Falharam na justiça, na investigação e na penalização. São, frequentemente, parceiros, cúmplices e amigos dos bilionários e dos predadores. Os governos, a começar pelo português, têm dado lições inesquecíveis que todos os manipuladores do mercado usam como inspiração. Mentira, leis retroactivas, mudança inesperada de regras, intrusão na vida privada dos cidadãos, instabilidade fiscal, falta de cumprimento de cláusulas contratuais, adjudicações de favor, licenças sem concurso público, favoritismo e nomeações de altos dirigentes por confiança partidária, tudo tem justificação, tudo se explica pela necessidade de vencer, de crescer e de ganhar eleições. Os políticos, tanto de esquerda como de direita, contribuíram decisivamente para a criação deste clima doutrinário e espiritual. O poder político, entre nós como no resto do mundo, não revelou ter padrões morais superiores aos dos predadores. Não mostrou ser mais digno de confiança. Não garantiu que impede a promiscuidade e o livre enriquecimento dos políticos. Não tornou evidente seguir uma regra ética superior à que tem guiado os especuladores e seus amigos.As doutrinas da força, do líder, da vitória, do condicionamento da informação e da propaganda impuseram a "visão positiva" do mundo e das coisas, consagraram o "optimismo" como dogma de atitude. Os que duvidam foram definitivamente arrumados na categoria de pessimistas e frustrados. A ideologia do sucesso, a qualquer preço, com qualquer lei, domina a cena pública há anos. As ideias, os valores e as normas que regem a vida dos capitalistas e dos gestores responsáveis pelas crises e pelas fraudes são o resultado de uma consolidação doutrinária e moral com meia dúzia de décadas. Por isso não é realista esperar pela "mudança de paradigma". Alguém pensa que é possível as famílias decidirem por si próprias diminuir o consumo? Renunciar às segundas casas? Deixar de passar férias no Brasil ou no México? Abdicar de ter um ou dois carros, dois ou três computadores, três ou quatro televisões? Desligar o aquecimento e o ar condicionado? Reduzir o consumo de máquinas de lavar, de frigoríficos e de Bimbys? Abandonar o carro particular e utilizar os transportes públicos? Ninguém o fará. A não ser que a isso sejam forçados pelo desemprego, pelo corte de crédito, pelos aumentos de preços e pela diminuição de rendimentos.As pessoas mudam por consciência e esforço voluntário, quando têm real interesse nisso. Interesse material ou espiritual. Mas não mudam voluntariamente para diminuir o seu conforto e as suas aspirações. Mudam quando não têm alternativas. Por necessidade. Ou por imposição. Quem vai fazer mudar os comportamentos? As forças do mercado? Será doloroso. A necessidade? Ainda mais. Os políticos? Não têm vontade, nem legitimidade para o fazer. Eles aplicam à política os mesmos valores que os especuladores, as mesmas regras que os predadores, os mesmos critérios que os aldrabões aplicam às finanças internacionais.Há 30 ou 40 anos que as populações aspiram às delícias da vida moderna. Os que já lá chegaram querem mais e não renunciam. Os que ainda não chegaram consideram uma suprema injustiça serem agora travados. Foram condicionados pelos mais poderosos aparelhos de publicidade e informação que a humanidade jamais conheceu. A propaganda política deu uma ajuda poderosa. Há décadas que os governos, as televisões, a imprensa e os grandes grupos económicos comungam um punhado de ideais que presidiram à nossa vida colectiva. Para usar o lugar-comum conhecido, o ter substituiu o ser. O critério de vida é vencer. Sempre, a qualquer preço. Vencer significa derrotar e liquidar os outros. Quem vence tem razão. E tem razão porque vence. É a democracia no seu pior. Maior. Mais alto. Mais depressa. Mais pesado. Mais forte. Mais rápido. Já não se trata de jogos olímpicos, eles próprios transformados em feira de animais. Trata-se da vida quotidiana. Para se chegar lá, ao "topo", para se ser "líder", tudo o que se pode fazer deve ser feito. Incluindo aldrabices, ilegalidades, golpes, mentira, publicidade enganosa e corrupção. Tudo o que justifique ganhar votos, vender mercadoria e eliminar os rivais não só pode ser feito, como deve ser feito. Sob pena de ser designado na praça pública por perdedor, incapaz ou parvo. E ninguém quer ser parvo!
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