sábado, 28 de fevereiro de 2009

Número de católicos desce no continente americano mas sobe no resto do mundo

Público on-line 28.02.2009 - 15h37 Lusa
O número de católicos no continente americano desceu 0,1 por cento, enquanto no resto do mundo os fiéis aumentaram 1,4 por cento, segundo dados de 2007 recolhidos no Anuário Pontifício, hoje apresentado pelo Papa Bento XVI.

O Anuário Pontifício de 2009, que recolhe os dados da igreja de 2007, revela que os católicos representam 17,20 por cento da população mundial. Em 2007, o aumento dos católicos foi de 1,4 por cento, em comparação com o crescimento demográfico mundial de 1,1 por cento, o que deixa praticamente sem variações o número de fiéis católicos no mundo.

Segundo o documento, os católicos passaram de 1131 milhões em 2006, para 1147 milhões em 2007. A grande surpresa nas estatísticas é a descida de católicos no continente americano, não tendo o Vaticano divido os dados entre América do Norte e do Sul.


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fonte original:

www.vatican.va 2009.02.28
PRESENTAZIONE DELL’ANNUARIO PONTIFICIO 2009

Questa mattina, 28 febbraio 2009, è stato presentato al Santo Padre l’Annuario Pontificio 2009 da S.E.R. il Signor Cardinale Tarcisio Bertone, Segretario di Stato, e da S.E.R. Mons. Fernando Filoni, Sostituto alla Segreteria di Stato per gli Affari Generali. La redazione del nuovo Annuario è stata curata da Mons. Vittorio Formenti, incaricato dell’Ufficio Centrale di Statistica della Chiesa, dal Prof. Enrico Nenna e dagli altri collaboratori del medesimo Ufficio. Il complesso lavoro di stampa è stato invece curato dal Rev. don Pietro Migliasso S.D.B., dal Comm. Antonio Maggiotto e dal Comm. Giuseppe Canesso, rispettivamente Direttore Generale, Direttore Commerciale e Direttore Tecnico della Tipografia Vaticana. Il volume sarà prossimamente in vendita nelle librerie.

Il Santo Padre ha mostrato vivo interesse per i dati illustrati e ha ringraziato per l’omaggio tutti coloro che hanno collaborato alla nuova edizione dell’Annuario, dalla cui lettura si possono desumere alcune novità relative alla vita della Chiesa cattolica nel mondo. Nel 2008 sono state erette dal Santo Padre 1 Sede Metropolitana e 11 nuove Sedi Vescovili; sono state elevate 4 Sedi Metropolitane, 2 Sedi Vescovili e 1 Vicariato Apostolico. In tutto sono stati nominati 169 nuovi Vescovi.

I dati statistici riferiti all’anno 2007 forniscono un’analisi sintetica delle principali dinamiche riguardanti la Chiesa Cattolica nelle 2.936 circoscrizioni ecclesiastiche del pianeta. Nel corso degli ultimi due anni, la presenza dei fedeli battezzati nel mondo rimane stabile attorno al 17,3%, quale risultato dell’espansione del numero di cattolici (1,4%) a ritmo sostanzialmente assimilabile a quello della popolazione mondiale nello stesso periodo (1,1%). Nel 2007, si contano poco meno di 1.147 milioni di cattolici, a fronte dei 1.131 milioni circa nel 2006.

Il numero dei vescovi nel mondo è passato, dal 2006 al 2007, da 4.898 a 4.946, con un aumento dell’1%. Il continente con maggiore incremento è quello dell’Oceania (+ 4,7%), seguito da Africa (+ 3,0%) e da Asia (+ 1,7%), mentre al di sotto della media complessiva risulta l’Europa (+ 0,8%). Nello stesso periodo l’America registra un tasso di variazione di – 0,1%, mentre il peso delle varie aree geografiche è rimasto sostanzialmente invariato nel tempo, con Europa ed America che, da sole, continuano ad aggirarsi attorno al 70% del totale.

Il numero dei sacerdoti si mantiene sul trend di crescita moderata inaugurato nel 2000, dopo oltre un ventennio di performance piuttosto deludente. I sacerdoti, infatti, sono aumentati nel corso degli ultimi otto anni, passando da 405.178 nel 2000 a 407.262 nel 2006 e a 408.024 nel 2007. Il contributo delle varie aree geografiche al dato complessivo appare diversificato. Se Africa e Asia mostrano nel periodo 2000-2007 una dinamica assai sostenuta (+ 27,6% e 21,2%) e l’America si mantiene pressoché stazionaria, Europa e Oceania registrano, invece, nello stesso periodo, tassi di crescita negativi, del 6,8% e del 5,5%.

Il numero dei diaconi permanenti continua a mostrare una significativa dinamica evolutiva. Aumentano, al 2007, di oltre il 4,1%, rispetto al 2006, passando da 34.520 a 35.942. La consistenza dei diaconi migliora a ritmi sostenuti sia in Africa, Asia e Oceania, dove essi non raggiungono ancora il 2% del totale, sia in aree dove la loro presenza è quantitativamente più rilevante. In America ed in Europa, dove al 2007 risiede circa il 98% della popolazione complessiva, i diaconi sono aumentati, dal 2006 al 2007, del 4,0%.

A livello globale, il numero dei candidati al sacerdozio è aumentato, passando da 115.480 nel 2006 a 115.919 nel 2007, con un incremento dello 0,4%, e un’evoluzione differente nei vari continenti. Mentre, infatti, Africa e Asia hanno mostrato una sensibile crescita, nello stesso periodo l’Europa e l’America hanno registrato una contrazione, rispettivamente, del 2,1 e dell’1 per cento.

[00348-01.01]

União de vida entre pessoas do mesmo sexo

António Pinto Leite

Expresso, 28.02.2009

A questão da consagração legal da união de vida entre pessoas do mesmo sexo toca em sentimentos profundos.

De um lado, o sentimento dos homossexuais. A sociedade impressiona-se com a sua arrogância, com o seu excesso, com a sua intolerância, até, mas é preciso perceber o contexto de onde tudo isso emerge: uma longa história de desconsideração social, proscritos, discriminados, ridicularizados, 'desamados'.

Há 40 anos, desde que cresci, que me comove a solidão abandonada e secreta da generalidade dos meus amigos e amigas homossexuais. Revolta-me a sentença social de uma vida irreconhecida, a condenação à vergonha, deles e dos pais.

Como crente, não acredito que Deus, que é Amor ou não é, queira uma condenação social de vida assim. Cabe-me, enquanto ser humano, calcular e integrar um plano de Deus em que, aceitando a diferença, acolho o outro até onde se joga a sua dignidade e a minha se não perde.

De outro lado, o sentimento profundo de todos os que entendem que o instituto secular do casamento, como união de amor entre homem e mulher, expressa o sentido de referência do natural, o ideal de família e define nuclearmente a nossa matriz civilizacional. Tal como está no Código Civil: "Contrato entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida".

Nem pessoas do mesmo sexo, nem mais de duas pessoas.

Separando a ordem espiritual da ordem temporal, a questão está em saber o que deve ser feito, na ordem civil, para acolher a dignidade dos homossexuais que pretendem unir as suas vidas.

Subverter o contrato nuclear da nossa ordem social, o casamento, é mexer com realidades e sentimentos profundos, demasiado profundos.

Se esse fosse um passo coerente e necessário para respeitar a dignidade dos homossexuais, a sociedade devia ponderar dá-lo. Mas não é.

Reclamam alguns homossexuais que se trata de ocupar, plenamente, o espaço do simbólico. Se os heterossexuais têm o direito de casar, é o direito de casar que os homossexuais deverão também ter.

Os símbolos valeriam se fossem realidades idênticas, mas não são. São idênticas na união de afectos humanos, na partilha de intimidade, no propósito de comunhão de vida.

Mas são decisivamente diferentes no projecto de família que encerram, no enquadramento para o desenvolvimento da personalidade das crianças, na tendência natural geradora de vida e na própria diferença entre sexos, diferença que, em si mesma, faz toda a diferença.

Regular a união de vida entre homossexuais através do regime da união de facto, como alguns defendem, acho insuficiente, legal e simbólico.

Há, assim, que criar um contrato novo. Chamar-lhe-ia união civil. A união civil entre pessoas do mesmo sexo, com normas próprias. O Direito é uma ciência especializada em distinguir o que é próximo.

No plano eleitoral, parece-me que o principal partido da oposição não deveria fugir a este debate e deveria propor a criação na ordem jurídica de um novo contrato, que acolhesse a diferença e disciplinasse, reflectindo essa mesma diferença, a união de vida entre pessoas do mesmo sexo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quaresma

RR on-line, 20090227
Aura Miguel

Nos dias difíceis que correm, a Quaresma é uma oportunidade para prestar uma ajuda silenciosa, discreta, de pessoa a pessoa, de vizinho a vizinho…

No arranque da Quaresma, o Cardeal Patriarca deixou-nos esta provocação: Renunciar para distribuir tem de ser a regra do nosso jejum, mas “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a mão direita”!

Ora, que o jejum implica renúncia e partilha com os que mais precisam, é mais ou menos evidente para quem leva a vida a sério, agora, fazê-lo sem dar nas vistas, é muito mais difícil!

Como disse o Patriarca de Lisboa, começa a ser constante “a exuberância no anúncio de medidas financeiras, económicas, sociais, para responder à crise”.

Às vezes, isso até pode ser bom quando as medidas são correctas, mas o alerta do Patriarca é mais profundo.

Uma vez que não está ao nosso alcance resolver os grandes problemas, é sempre mais fácil apontar o dedo aos outros, chamá-los à responsabilidade, reinvidicar soluções que os outros têm de tomar… E nós?

O momento presente exige da nossa parte uma ajuda silenciosa, discreta, de pessoa a pessoa, de vizinho a vizinho…

Discretos mas vigilantes. E se ajudarmos, à nossa volta, em tudo o que pudermos, disse D. José Policarpo, manifestamos assim a nossa esperança de conversão.

Uma esperança maior do que muitas medidas por aí apregoadas.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Se alguém quiser seguir-Me, tome a sua cruz e siga-Me (Lc 9, 23)



"Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-Me"
(do Evangelho do dia de hoje)

Século XXI

DESTAK|26 | 02 | 2009 08.26H

João César das Neves |

Quem quer ser Bilionário é o primeiro filme do século XXI. O que o torna um marco da época não é a qualidade que tem, mas não excepcional, nem a história, divertida e engenhosa mas banal, mas o tema. Slumdog Millionaire (2008) do britânico Danny Boyle e indiana Loveleen Tandan tem enredo do britânico Simon Beaufoy baseado na novela Q and A (2005) do diplomata indiano Vikas Swarup.
Começa por ser notável um filme nomeado para 10 óscares e vencedor de 8 (incluindo os de melhor filme, realizador e enredo) ser baseado na história de um dalit, um intocável dos bairros miseráveis de Mumbai. Isto, impossível há poucos anos, mostra a era da globalização.
O principal valor do filme é mostrar, nos 20 anos do enredo, o espantoso desenvolvimento daquela sociedade, precisamente o elemento mais decisivo da nossa era. Quem olhar este filme na sua realidade, que ultrapassa os aspectos cruéis e amorosos, percebe mais do mundo do que lendo jornais e comentadores. Ele mostra algo que ninguém entendeu bem, o nascimento do futuro.
Essa globalização vive do poder quase divino da televisão. Mas nela não se vislumbram a agricultura e indústria. Todas as actividades, legais ou ilegais, de todas as figuras da película são serviços.
Revelador é a inspiração do filme ser o destino: «está escrito» é o mote da vida das personagens. Que, no entanto, desprezam as religiões organizadas, pois são vítimas da sua violência. Esta é a atitude espiritual deste tempo desorientado, simultaneamente devota e céptica, rejeitando cultos estruturados, ateísmo e agnosticismo.


O país do faz de conta


pÚBLICO, 26.02.2009, Helena Matos

A transparência agrada pouco. É mais tranquilo fazermos todos de conta que os duendes nos pagam o SNS


Pão com Ómega-3.
Infelizmente já não posso garantir que o Pão São de Cereais com Ómega-3 faz bem ao coração e o outro que tinha já não sei se Alfa ou Beta faz bem às pernas. O que sei é que o acto de comprar pão se tornou numa espécie de ida à farmácia. Adeus pães saloios, mafras e alentejanos. Agora temos o Ómega-3, mais o Prokorn, o pão são e um pão qualquer que leva Alfa Amilase. Esta evolução do alimento para o alimento-medicamento estava mais ou menos anunciada e digamos que se enquadra numa tendência global para vivermos de esguelha. Ou seja, ninguém faz aquilo que é expectável que faça porque entende que deve fazer uma outra coisa qualquer. Logo os padeiros falam como os farmacêuticos, os pais fazem de conta que são os melhores amigos dos filhos, as escolas empenham-se em educar sexualmente as mesmas crianças às quais desistiram de ensinar a tabuada, as autarquias descobrem em si uma vocação de organização de eventos... e tudo isto traz meio país a fazer de conta que é outra coisa qualquer menos aquilo que é suposto ser. O resultado seria apenas anedótico caso não nos infernizasse a existência, como o provam os casos seguintes.

O director que é director mas faz de conta que não é director.
Pode parecer complicado mas tal pessoa não só existe como esta contradição insanável entre os termos foi apresentada no PÚBLICO como uma revolução na educação. Por outras e mais directas palavras: as escolas públicas vão voltar a ter directores. Para mostrar os "riscos e as vantagens" desta mudança, o jornal entrevistou o director da Escola Secundária de Paredes. Este encontra-se em exercício há um mês mas a placa na porta do seu gabinete indica Conselho Executivo e não Director. E segundo o director tal não acontece por acaso: "A palavra 'director' tem um peso histórico que perturba as pessoas". As mudanças que estão a ser efectuadas na gestão das escolas são demasiado importantes para que se faça de conta que não estão a acontecer. Há quem se oponha a estas mudanças. Há quem as defenda. O que não há é o direito de fazer de conta que essas mudanças não estão a acontecer.
Muito menos se entende como é que alguém se candidata a um cargo que depois receia ou tem vergonha de assumir, tanto mais que essa ambivalência é meio caminho andado para o desastre. Parafraseando Ferreira Fernandes, que ao assunto dedicou uma crónica no Diário de Notícias, este director quer mandar mas não quer que digam que ele manda. Ou talvez queira fazer de conta que manda mas na realidade não manda. Enfim pode brincar aos directores que fazem de conta que são conselhos executivos ou vice-versa. Escusava era de fazer disso uma actividade profissional.

As taxas que não são moderadoras mas que se têm de chamar assim.
12,43 euros foi quanto pagámos no meu agregado familiar por uma operação de urgência, em Santa Maria, a uma apendicite. Além da operação propriamente dita, foram ainda dois dias de internamento com tudo o que tal implica de alimentação e cuidados de saúde. Os 12,43 euros também pagaram as consultas de pós-operatório. 12,43 euros é menos do que um carregamento de telemóvel. E claro que há uma lista imensa de pessoas que nem os 12,43 euros pagam por estarem isentas.
Dirão o PSD, o CDS e alguns deputados do PS que ninguém modera o acesso a uma cirurgia de urgência como era o caso desta. Pois não, mas isso não quer dizer que não se deva pagar nada. Faria aliás muito mais sentido que o CDS e o PSD, em vez de proporem a extinção das taxas moderadoras para as cirurgias e de embarcarem na cantilena do totalmente gratuito com o PCP e o BE, apresentassem propostas mais realistas e ousassem dizer que temos de nos deixar dos artifícios de linguagem que têm mantido intocável uma das mais profundas crenças do nosso legislador: a do gratuito.
Para o legislador português, algures do outro lado do mundo ou quiçá numa extremidade do arco-íris, existe uma fábrica de dinheiro que envia o dito sob a forma de moedas de ouro para Portugal. Uma vez aqui chegadas, as bolsinhas das moedas são depositadas ao cuidado do legislador, que, assim provido de tais fundos, legisla sempre garantindo o gratuito. De cada vez que promete algo gratuito, o legislador olha-se ao espelho e sente-se uma boa pessoa. Assim temos o ensino gratuito, em que, por sinal, cada aluno custa em média 5 mil euros por ano, e assistimos presentemente a uma discussão bizantina sobre as taxas moderadoras na saúde.
Nesta matéria, o legislador brincou aos aprendizes de feiticeiro e se hoje já quase ninguém recorda que há pouco mais de trinta anos em Portugal se defendia o fim da medicina privada sobra-nos ainda o dogma do serviço nacional de saúde gratuito inscrito na Constituição. Como até agora os contribuintes foram as únicas almas que se apresentaram para pagar tudo o que o legislador diz ser gratuito conviria um bocadinho menos de demagogia. De caminho seria também muito útil que os diversos serviços públicos que, como as escolas e os hospitais, prestam serviços oficialmente gratuitos informassem os utilizadores do seu custo real. Por exemplo quanto custou realmente aquela operação ao apêndice em Santa Maria?
É claro que tanta transparência agrada pouco. É mais tranquilo fazermos todos de conta que os duendes nos pagam o SNS e que, como somos um povo tolinho, tipo criancinhas que não param de comer gomas, quem nos governa tem de criar umas taxas pedagógicas para nos moderar nas idas aos hospitais.

Os autarcas que nacionalizaram o Carnaval.
Um dos momentos mais sérios e representativos da esquizofrenia em que caímos aconteceu no recente Carnaval: um autarca devidamente ladeado por um homem seriíssimo mascarado de mulher, denunciava um acto de censura no corso carnavalesco da sua cidade. Todo o país falou do dislate do Ministério Público, que, na verdade, temos grande dificuldade em perceber o que investiga e como investiga, seja nos casos de corrupção seja nos adereços dos carros alegóricos.
Mas para lá desse óbvio ululante sobre o Ministério Público, cabe perguntar o que fazia ali o autarca? É o presidente da câmara o responsável pelo cortejo? Não é o Carnaval uma festa popular? O Carnaval foi sem dúvida uma festa popular e talvez ainda o seja em alguns locais. Mas uma breve consulta ao portal que disponibiliza informação sobre os ajustes directos estatais permite concluir que de festa popular o Carnaval passou a evento pago pelos contribuintes. Esta estatização do Carnaval agigantou os orçamentos destes festejos, trouxe do Brasil escolas de samba com bailarinas que tiritam de frio e, paradoxo dos paradoxos, pôs as autarquias a dirigir uma festa que entre outras coisas funcionava como um momento de transgressão e sátira ao poder.
Mas enfim alinhemos meia dúzia de argumentos, do género investimento para atrair turistas, para justificar que um munícipio invista 218 mil euros em carros alegóricos como aconteceu este ano em Torres ou 79 mil euros em "Desfile de Pais Natal 2008" como fez a autarquia de Albufeira no último Natal. Tudo isto se sofreria com mais alegria caso os autarcas não demonstrassem um profundo e insuperável fastio pelas tarefas para as quais são eleitos. O estado do piso, as sarjetas partidas, os prédios - tantas vezes municipais! - entaipados, a legislação sobre as rendas... nada disso suscitou até hoje uma intervenção tão séria a um autarca quanto a denúncia de uma tentativa de censura no corso carnavalesco. E sobretudo, aquela marafona, ao lado do senhor presidente, tão séria no desconchavo da situação é o melhor retrato de Portugal 2009.

Frase do dia

Não podemos pretender que as coisas mudem, se continuamos a fazer sempre o mesmo

Albert Einstein

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Homilia de Quarta-feira de Cinzas

“Convertei-vos a Mim de todo o coração”, clamou-nos Deus pela boca do profeta Joel. “Reconciliai-vos com Deus”, pediu-nos Paulo, em nome de Cristo. E, sobre a esmola, a oração e o jejum, disse-nos o próprio Cristo que tudo se há-de passar discretamente, entre nós e Deus, “que vê o que está oculto e dará a recompensa”.
Será este, irmãos e irmãs, o próprio cerne da Quaresma, como da religião autêntica, nunca por demais retomada. Aquela que Jesus Cristo nos abre com a sua mesma Quaresma, repudiando o ter, o parecer e o poder, para simplesmente ser: ser Filho de Deus humanado, ser humanidade restaurada na filiação divina.
Jesus coloca-nos os corações e as vidas, ou seja, as vidas no seu coração e essência, na única realidade consistente, que é o próprio Deus Pai, em que tudo se sustenta.
Aí colocados os corações, como o de Jesus no Pai, estaremos finalmente pacificados e livres, proporcionando ao mundo que integramos segurança certa e liberdade também, ecologia integral, se quisermos dizer assim.
Sabemo-lo por experiência, como também o aprendemos por contraste. Contrasta, irmãos e irmãs, contrasta com isto um coração fechado em si mesmo, no encurvamento do desejo e no egocentrismo da vida. Quanto mais no ter, quanto menos no ser, é bom repeti-lo. Descentramento de si, desejos convertidos e vidas realmente oferecidas, isso sim, garante-nos na caridade “que nunca acabará”, proporciona-nos uma comunhão que é outro nome de Deus, pois “Deus é amor”, vida partilhada e oferecida, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, como dizemos e nos benzemos, até que tais palavras inteiramente nos repassem.
Temos hoje Quaresma, porque no princípio tivemos Páscoa. Sabemo-lo bem, antecedendo esta àquela, na história da Igreja celebrante. É também verdade conhecida, mas, no sentido espiritual da Quaresma, nunca por demais relembrada e proposta, como nestas Cinzas de 2009.
Cinzas, irmãos e irmãs, é o que fica de quanto se queimou e ardeu. Sobram dos grandes incêndios e dos pequenos também. Sobram de restos mortais e de terras destruídas. Mas não são estas as que recebemos hoje, para começar a Quaresma. Ou sê-lo-ão apenas como lembrança da efemeridade das coisas e das vidas, se deixadas ou fechadas em si próprias. As que receberemos de seguida são lembranças transformadas pelo Espírito em outras tantas sementes de vida, na conversão a Deus, servindo o próximo.
Porque essa é a novidade do “fogo” que Cristo trouxe à terra, querendo ateá-lo ao universo inteiro. É a do Espírito divino que não destrói, antes reconstrói; e dos escombros faz caboucos e alicerces duma existência imortal: tornada a própria morte em vida entregue, da morte renascemos na caridade divina. E para que assim aconteça nos “corpos”, em restauração universal, antecipemo-lo nas “almas”, em caminho quaresmal.

Mas três artigos tem esta Quaresma cheia de Páscoa, tão certos como concretíssimos: 1º) Renasce e vive quem convive e partilha, ligando unidade e alteridade. 2º) Isto mesmo “define” Deus, definindo-nos depois como seu Povo, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo. 3º) Igualmente no mundo e para a salvação do mundo, é esta a lei e a tarefa.
De “Deus” não faltam ideias nem congeminações, desde que, como humanidade consciente, nos pusemos a pensá-lo. Mas não é difícil concluir que muita ideia de Deus que por aí circula é mera projecção de nós mesmos e nem sempre do melhor que temos… Em nome de um “Deus” à nossa medida ou apetite, fizemos e ainda se pode fazer muito mal. Tenhamos cuidado redobrado, nas actuais circunstâncias, para não fabricarmos ídolos nem invocarmos o santo nome de Deus em vão.
Com Cristo aprendemos que Deus é em si mesmo “amor”, isto é, vida no outro e para o outro, em plena circularidade: do Pai para o Filho e do Filho para o Pai, no eterno movimento do Espírito. “Um só Deus em três pessoas”, na formulação tradicional: Cristo a rejubilar no Pai, no ímpeto do Espírito, como indica o Evangelho.
Assim – e muitíssimo mais – é o nosso Deus, só apreensível na experiência da partilha: religião é convivência, religião é caridade. E a própria aritmética se altera, porque 1 é igual a 3 e a alteridade coexiste com s unidade, sendo o seu próprio movimento interno e expansivo.
Por consequência necessária e conversão conseguida, a vida eclesial salva-nos comunitariamente, porque o Pai nos faz seus incorporando-nos em Cristo, habitados e vivificados por um só Espírito. O caminho quaresmal tem, por isso mesmo, uma indispensável dimensão comunitária. Penitência e conversão a Deus é redescobri-lo como Pai comum, que nos quer verdadeiramente irmãos no Espírito de Cristo.
Não há reconciliação com Deus sem reaproximação daqueles que partilham connosco a única condição de baptizados. Por isso a Quaresma é tempo especial de reconciliação com Deus através da Igreja e especial oportunidade para a celebração da Penitência, incluindo a imprescindível confissão individual. Repetem-se assim em cada um de nós aqueles pessoalíssimos encontros evangélicos de Jesus com os penitentes, um a um, com nome e figura. O caminho para a comunidade é sempre pessoa a pessoa. E assim mesmo trabalha a graça, quer entre o penitente e o ministro da Reconciliação, quer entre nós todos, na aproximação concreta de irmão a irmão.
Unidade complementar em Deus, unidade complementar na Igreja, unidade complementar no mundo. A aplicação deste último item ganha mais urgência nas actuais circunstâncias do país e da vida internacional, começando aqui mesmo, família a família, lugar a lugar, escola a escola, empresa a empresa… Se ainda restassem dúvidas teóricas sobre a necessária complementaridade de todos, coexistindo alteridade e unidade em cada patamar da sociabilidade humana, certamente desapareceriam diante do tristíssimo resultado do seu contrário, como agora o verificamos e sofremos, por nós e pelos outros.

Tudo na vida reclama proximidade, companhia e entreajuda, complementando-se uns e outros em alteridade convergente, fecunda e perdurável. Homem e mulher “como um só”; pais e mães de filhos e filhas; famílias solidárias nas gerações que se sucedem, cuidando-se mutuamente em todo o arco da existência humana, protegida no seio materno e acompanhada na extrema velhice ou dependência, sempre com igual dignidade.
Da família à sociedade, inscrevemo-nos pela presença e pela actividade, sempre por aquela e, quanto se possa, também por esta última. É a verdade de nós todos que, alargando a matriz familiar, nos faz viver socialmente, em unidade complementar, em alteridade prestante de capacidades e cuidados.
Quando, pelo contrário, cedemos à tentação individualista, pretendendo viver sem os outros, ou até contra os outros, esquecendo a nossa índole comunitária e o destino universal dos bens, a responsabilidade social das empresas e a subsidiariedade de cada grupo no conjunto geral dum país, arriscamos a perda colectiva em egoísmos desencontrados.
Em cada sector da sociedade e da cultura encontramos facilmente quer as possibilidades quer os entraves. Possibilidades que advêm sempre da conjugação da liberdade e da criatividade pessoais com a convivência activa e mutuamente interessada. Entraves que subsistem ou se levantam, provindos duma pior consideração da liberdade individual, sobre si mesma encurvada e reduzida a mero sentimento ou apetite, sem respeito pela natureza das coisas, ainda que evolutiva, nem pelas necessidades dos outros, que afinal desafiam e aumentam a nossa capacidade de ser, isto é, de conviver partilhando.
Avancemos então, irmãos e irmãs, por este caminho aberto de liberdade e serviço, que a Quaresma nos oferece. No Espírito de Cristo, podemos e devemos crescer como filhos de Deus e irmãos universais. Tornemos prioritária a comunhão com Deus e com os outros a partir de Deus, progredindo na unidade e na entreajuda. Ouvidos os apelos da Liturgia de hoje, coloquemos o coração e o desejo na divina caridade. Ofereçamos às famílias, às escolas, às empresas e à sociedade em geral o Evangelho vivo na vida dos crentes. Atraia-nos já, como sempre, o clarão da Páscoa. Irradiemo-lo também, por vidas autenticamente evangélicas.
Convertamo-nos a Deus, servindo o próximo.

Sé do Porto, Quarta-Feira de Cinzas, 25 de Fevereiro de 2009

+ Manuel Clemente

Curso de Aprofundamento da Mensagem de Fátima - 2.º módulo


Hino ao relativismo

Correio da Manhã, 20090225
Carlos Abreu Amorim
A ministra inglesa das Crianças, Beverley Hughes, elaborou um panfleto que visa orientar as conversas sobre sexo entre pais e filhos. Trata-se de mais um marco na ingerência do Estado na função educacional das famílias.

O documento exorta os pais a não imprimirem nos filhos a distinção entre o bem e o mal no plano sexual. Os menores deverão formar os seus juízos sem intervenção parental: o contexto social e, sobretudo, o Estado encarregar-se-ão disso. Os pais poderão ter conversas ‘light’ sobre o tema mas nada de quererem transmitir valores e virtudes ou de traçar cenários incómodos face a opções que se sabem erradas.
Ou seja, o Governo trabalhista inglês quer que os pais deixem de o ser – só geram os filhos que, depois, ficam ao ‘Estado dará’.

Corar de vergonha

RR on-line, 20090225
Graça Franco


Metade da comida que actualmente se produz no mundo é desperdiçada. Não fosse assim e não só chegaria para alimentar a totalidade da população mundial como aquela que se prevê venha a existir em 2050.


Para os católicos de todo o mundo, começa hoje a Quaresma. Um tempo especial de preparação para a Páscoa. A grande festa do Cristianismo.
Para estes mais de mil e cem milhões, esta Quarta-feira ficará marcada pela prática do jejum. Mas, se para a maior parte dos cerca de 280 milhões que habita na Europa, um dia de privação voluntária de alimentos será, sobretudo, razão para dar graças pela sua abundância, nos restantes dias do ano, para a quase totalidade dos 150 milhões que habita em África, o mais provável é que este seja apenas um dia com a mesma fome de outro qualquer…

Apesar de trinta anos de progressos - segundo o Banco Mundial - há ainda hoje mais de mil e 400 milhões de pobres que vivem com pouco mais de um dólar por dia.
Um estudo da ONU revelou-nos, esta semana, um dado ainda mais chocante: metade da comida que actualmente se produz no mundo é desperdiçada. Não fosse assim e não só chegaria para alimentar a totalidade da população mundial como aquela que se prevê venha a existir em 2050. Para isso, bastava que se aumentasse a eficiência na cadeia alimentar e se combatesse o desperdício.
Um terço do leite produzido nunca é bebido. Um quarto da produção americana de frutos e vegetais apodrece na distribuição. Metade do lixo dos aterros australianos é constituída por restos alimentares. Um terço dos alimentos comprados na Grã-Bretanha nunca é ingerido.

Em tempos de crise, um mundo assim devia fazer-nos corar de vergonha. Basta querer para mudar.

Graça Franco

Sermão de Quarta-feira de Cinzas - Padre António Vieira


PADRE ANTÓNIO VIEIRA

Em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, Ano de 1670.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (1).
(1) Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
I. O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.
Uma é presente, outra futura, mas a futura vêemna os olhos, a presente não a alcança o entendimento.
E que duas coisas enigmáticas são estas?
Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter.
— Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.
O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêemno os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança.
Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer.
Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó.
Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, respondervosão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.
De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista.
Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es?
Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário?
É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?
Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo.
A Igreja dizme, e supõe que sou homem: logo não sou pó.
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional.
O pó vive? Não.
Pois como é pó o vivente?
O pó sente? Não.
Pois como é pó o sensitivo?
O pó entende e discorre? Não.
Pois como é pó o racional?
Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es?
Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. [ ...]
[...]
Em que cuidamos, e em que não cuidamos?
Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.
Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz.
E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora.
De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?
(23) Disse: Agora começo (Sl 76,11). Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma.
Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixandovos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.
Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?
Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!
Ver o sermão completo aqui

Mensagem de Quaresma do bispo do Porto

Mensagem do Cardeal Patriarca de Lisboa para a Quaresma

1. O Santo Padre Bento XVI, na sua Mensagem para a Quaresma, convida-nos a redescobrir o sentido e o valor do jejum, tendo-nos recordado primeiro que o jejum faz parte de um conjunto de práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã: a oração, a esmola e o jejum.

Ao acentuar uma delas, não esquece que são indesligáveis entre si, citando São Pedro Crisólogo: “O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum. Portanto quem reza jejue; quem jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto, em seu benefício, o coração de Deus, não feche o seu a quem lhe suplica”.

A Mensagem do Santo Padre é proposta para toda a Igreja e, portanto, também para a Igreja de Lisboa. Não teria sentido contrapor-lhe uma mensagem minha. Quero apenas ajudar a concretizar, no contexto da nossa diocese, o que pode significar valorizar o jejum. À partida, penso que devemos acentuar a íntima relação que há entre jejuar, procurar o rosto do Senhor na oração e abrir o nosso coração ao amor dos irmãos, no fundo descobrir que se jejua para amar e que dificilmente o nosso amor atinge a pureza da caridade se não procurarmos, com gestos concretos de desapego das coisas materiais, a pureza e a transcendência de Deus.

Jejuarão quando o Esposo lhes for tirado

2. Gostaria de partir de um texto do Evangelho, que sempre me tocou, porque nele Jesus anuncia o sentido profundo do jejum:

“Estando os discípulos de João e os fariseus a jejuar, vieram dizer-lhe: porque é que os discípulos de João e os fariseus guardam jejum, e os teus discípulos não jejuam? Jesus respondeu: poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o Esposo está com eles? Enquanto têm consigo o Esposo, não podem jejuar. Dias virão em que o Esposo lhes será tirado e então, nesses dias, hão-de jejuar” (Mc. 2,18-20)

O Esposo é Ele, a intimidade com Ele tem a alegria das núpcias. Para quem experimentou e deseja esse convívio, a Sua ausência pode revestir-se de grande sofrimento espiritual. O “vem Senhor Jesus” foi sempre oração da Igreja que exprime esse anseio doloroso. Jesus dá uma dimensão mística ao jejum. Se se refere, em primeiro plano, aos dias da Sua paixão, abarca nas Suas palavras toda a densidade de quem o procura, a dureza da oração, a obscuridade da fé, a intensidade dolorosa de um desejo, que nenhuma fruição de bens materiais satisfaz, uma fome que nenhum alimento deste mundo sacia. Jejuar, como renunciar e partilhar os seus bens, torna-se sinal de que pomos o nosso coração nessa sede de Deus, nesse anseio de intimidade com o Senhor.

O Esposo foi-nos tirado e prometido. O caminho do encontro é o caminho da fé, na oração, na ascese, na caridade vivida. Sabemos que Ele está connosco; mas a Sua presença não anula a ausência. Buscar o Seu rosto convida-nos a não pormos o nosso coração nas coisas deste mundo.

Como esta mensagem de Jesus pode ser iluminadora para quem hesita em responder às inquietações do coração, para quem sofre o desgaste da dúvida, para aqueles que não aguentam a persistência num caminho de oração, o único que pode proporcionar, quando Ele nos deu esse dom, a alegria da presença e da intimidade. A vida cristã é um caminho exigente e austero, na atitude corajosa e generosa de quem espera a vinda do Esposo.

O Esposo ausente torna-se presente naqueles que o mundo não convida para o banquete

3. “O que fizestes ao mais pequenino dos meus irmãos, foi a Mim que o fizestes” (Mt. 25,40). A esses que o mundo não convida para o banquete, só a nossa caridade os pode introduzir no festim e fazê-los participar das alegrias das núpcias. O jejum toma então a forma da renúncia e da partilha. O Santo Padre abre-nos para essa concretização do jejum: “O jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação em que vivem tantos irmãos nossos. Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre. Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente”.

A nossa Diocese tem já uma longa experiência de jejum sob a forma de renúncia quaresmal, cujo fruto canalizamos para ajudar os que mais precisam. Nos últimos anos temos constituído um “Fundo de Ajuda Inter-Eclesial”, através do qual ajudamos Igrejas mais pobres de todo o mundo que batem à nossa porta. Em anexo damos notícia das ajudas distribuídas durante o ano de 2008 e do saldo ainda disponível para essa inter-ajuda, pois são já muitos os pedidos que temos em análise.

Mas este ano quero propor-vos um outro destino para a nossa renúncia quaresmal: a ajuda às crianças em risco, de modo particular através da Casa do Gaiato de Santo Antão do Tojal que a diocese assumiu, numa circunstância em que a Obra da Rua já não a podia manter. Uma informação complementar sobre a Casa do Gaiato será também anexada a esta Mensagem.

4. Façamos da nossa Quaresma uma caminhada ao encontro do Senhor Ressuscitado, sabendo que o caminho é árduo e exigente, porque exige a conversão e a coragem da esperança, sabendo que as renúncias escolhidas são mais libertadoras do que as que nos são impostas e não esquecendo que o jejum, isto é, a privação e a renúncia, são uma pedagogia para Deus, um caminho para aprender a amar.

Lisboa, 2 de Fevereiro de 2009, Festa da Apresentação do Senhor

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

Mensagem de Quaresma 2009

MensagemQuaresma2009

Frase do dia

Este é o tempo favorável; hoje é o dia da salvação

2 Cor 6, 3
da liturgia do dia (2.ª Carta de S. Paulo aos Coríntios)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Concerto na Igreja Matriz do Alvito - 28 de Fevereiro 21:30



No próximo dia 28 de Fevereiro, pelas 21 H 30, na igreja matriz de Alvito, vai ter lugar um novo concerto da 5.ª edição do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra, um projecto do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e da Arte das Musas.

Ao atingir a “maioridade”, esta iniciativa constitui uma referência no panorama cultural do país e marca a temporada musical em terras do Sul. É de salientar, à semelhança dos anos precedentes, a ligação entre um repertório criteriosamente escolhido (de forma a constituir uma pequena “história da Música”, desta vez no âmbito do Barroco Português), uma aposta em jovens intérpretes nacionais de excelência, com carreiras internacionais já bem fundamentadas, e a fruição de espaços arquitectónicos notáveis, que brilham não só pela qualidade acústica mas também pela atmosfera ímpar.

Tomamos a liberdade de enviar, em anexo, uma nota de imprensa sobre este concerto, acompanhada por um conjunto de fotografias devidamente legendadas.

Ficaremos muito gratos pela divulgação que esse prestigiado meio de comunicação social possa fazer da iniciativa.

Para mais informações sobre o Festival, por favor consultar o site www.terrassemsombra.com.

É possível aceder a registos musicais do Festival em formato mp3 no endereço http://terrassemsombra.com/materiais2009/, onde se encontram as seguintes faixas:

In die Tribulationis (in CD "Diaspora.pt" (MU0103 2008) do Sete Lágrimas. Autor: Damião de Gois, séc. XVI)
O Misericordissime Jesu (in CD "Kleine Musik" (MU0102 2008) do Sete Lágrimas. Autor: Ivan Moody, séc. XVI)
Adoramus Te Christe (in CD "Lachrimae #1" (MU0101 2007) do Sete Lágrimas. Autor: G. B. Martini, séc. XVI)
Na Fomte Está Lianor ((in CD "Diaspora.pt" (MU0103 2008) do Sete Lágrimas. Autor: Anónimo, séc. XVI)

Disponíveis para quaisquer indicações complementares que possam ser úteis, apresentamos os melhores cumprimentos,

José António Falcão

Director

Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja

Largo dos Prazeres, 4

7800-420 Beja

PORTUGAL

Tel: +351 284320918

Fax: +351 284824500

dphadb@sapo.pt

Catequeses quaresmais - Sé Patriarcal de Lisboa

Conferência: Peregrinos com S. Paulo - Caminhos de fé

Giussani: Cristo e a Cultura

Alejandro Llano

ABC, 19-2-2009 02:44:22

Uma fé que não se faça cultura – dizia João Paulo II – é uma fé truncada: débilmente vivida, insuficientemente pensada, não cabalmente operativa. A fé não é cultura, certamente, não se esgota em oferecer costumes e valores numa época determinada. O cristianismo é algo mais fundo, permanente e pessoal. Mas, precisamente por isso, inclui em si mesmo uma decisiva potencialidade cultural, que se plasmou de maneiras muito ricas e diversas ao longo da história. Reduzir a religião católica à sua dimensão devocional e privada, com medo de se enfrentar com formas de pensamento alheias a ela, equivale a convertê-la numa caricatura de si mesma.

don Luigi Giussani, fundador de Comunhão e Libertação, encontra-se nos antípodas de tais reducionismos empobrecedores. Ao acercar-se o dia 22 de Fevereiro, quarto aniversário do seu falecimento, recordamos o núcleo da sua mensagem que se fez vida numa multidão de pessoas. Giussani viu que o objecto da fé é, em si mesmo, um acontecimento, é o dom radical do mesmo Cristo, Deus feito homem, que nos saiu ao encontró e que está muito perto, dentro de nós mesmos.

Cristo não traz uma nova cultura. Traz a salvação. Mas, ao fazê-lo, salva a razão e a cultura inteira. Recordava Giussani que católico quer dizer «segundo a totalidade». Não há, portanto, nada que fique de fora desse impulso vivificador que os cristãos recebem do Salvador. O qual, por sua vez, não tem nada que ver com o confessionalismo fechado ou com o clericalimso rançoso. Pelo contrário: Cristo, como inspiração da existência, é Libertação. E a abertura libertadora conduz à Comunhão.

Fecundo escritor, os seus livros encontraram eco em universidades e noutros ambientes nem sempre propícios à recepção da mensagem cristã. Muitos jovens, e outros que não o são tanto, aprenderam dele que, no terreno da cultura, a presença é mais fecunda que a utopia, e que não é necessário ser conservador para não se encolher ante fáceis proclamações de progressismo. Giussani ensinou com o seu exemplo que o diálogo – longe de ser um método ou uma estratégia – constitui um estilo de vida

Catedrático de Filosofia na Universidade de Navarra