terça-feira, 31 de março de 2009

A música no mundo da infância

Ciclo Mensal de Conferências sobre o Desenvolvimento da Criança

(entrada livre)

5ª Feira, dia 2 de Abril, pelas 17h30, realiza-se

a conferência com o tema: « A música no mundo da Infância»

por Ana Ferrão

na sede da Fundação Maria Ulrich

(Rua Silva Carvalho, 240 R/C).

Próximos encontros:

7 de Maio: "Espíritualidade, Religiosidade e Fé" - Teresa Jardim.

21.388.21.10; 96.6969620

Frase do dia

Quem está de pé cuide de não cair

1 Cor 10, 12

segunda-feira, 30 de março de 2009

O blog do Povo faz 1 ano

O blog Povo fez 1 ano. No dia 30 de Março de 2008 o Povo foi estreado com esta mensagem.

Neste ano o Povo recebeu 81173 visitas que consultaram 193873 páginas

Big Brother

RR on-line, 30Mar2009
Raquel Abecasis

A verdade é que esta sociedade dita moderna está transformada num “Big Brother is watching you”, que destrói vidas sem que ninguém se importe com isso. Pelo contrário: com o aplauso geral.

Meio mundo viveu suspenso nos últimos meses da evolução e desfecho dramáticos de uma inglesa, ex-concorrente do “Big Brother”, que resolveu dar o exclusivo da cobertura da evolução da doença, morte e funeral a uma revista e a um canal de televisão.
O mais espantoso é que tal facto não chocou ninguém. Foi, aliás, louvado e considerado um supremo acto de coragem, inclusivamente, pelo Primeiro-ministro britânico.
A doença e a morte são o momento mais dramático e sério da nossa vida e das pessoas que nos rodeiam, o que nos faz viver esses tempos com recato e uma certa tensão para que a vida se cumpra com dignidade junto dos que nos são queridos.
Não terá sido diferente com Jade Goody. Por isso, dá que pensar: que mundo é este que leva uma pessoa a expor-se desta maneira nos momentos finais da vida para, segundo disse, assegurar o futuro dos filhos?
A verdade é que esta sociedade dita moderna está transformada num “Big Brother is watching you”, que destrói vidas sem que ninguém se importe com isso. Pelo contrário: com o aplauso geral.
As sociedades ocidentais, que sempre se consideraram campeãs da liberdade, transformam-se agora nos seus maiores carrascos, porque preferem ceder em todos os valores, em nome da sacrossanta “sociedade sem tabus”, que não verga nem diante da morte

As bandeiras do povo

Pedro Afonso

Numa altura difícil como esta, mais do que nunca é preciso reflectir sobre o modelo de sociedade que se tem construído. O endividamento das famílias, a ilusão do consumo, a falta de ética por parte de gestores e administradores do sistema financeiro e de muitas empresas foram algumas das razões que conduziram ao estado actual. Neste contexto de provação qual é o primeiro apoio que tem uma pessoa em situação de dificuldade? A resposta é simples: a família. É na família que o indivíduo vai buscar apoio emocional, financeiro, consolo, ânimo e forças para recomeçar. E o que é que a classe política tem feito para proteger a família? Diria que quase nada. Utiliza-se com frequência uma retórica política abstracta, referindo que temos que ajudar as "pessoas", omitindo, porém, que quando não se ajudam as famílias também não se ajudam as pessoas.

Os ataques ao modelo tradicional de família só podem ser explicados por ignorância. Aqueles que têm procurado fragilizá-la, provavelmente nunca a conheceram verdadeiramente ou tiveram dela uma má experiência. É difícil encontrar outra explicação para as tentativas que temos assistido de desmantelamento desta estrutura elementar de qualquer sociedade. Constata-se, portanto, que o Homem inventa novos ideais organizativos da sociedade, não porque eles sejam melhores, mas porque verdadeiramente nunca alcançou a plenitude dos antigos. O aguilhão extremista que pica o legislador "progressista", e que se apresenta ardilosamente como liberdade, não é mais do que um experimentalismo anárquico. Foi o que aconteceu no passado: sempre que se fragilizou a família, destabilizou-se a sociedade.

Neste tempo confuso, o Homem deseja solidariedade, segurança e estabilidade. A família é onde a vida nasce, se desenvolve, até à plenitude da realização dos seus membros. Tudo ocorre estruturado numa lógica de solidariedade em oposição a uma lógica individualista. Mas as relações familiares vão mais longe, verificando-se um sentimento mais profundo entre os seus membros: a comunhão. A infelicidade de um dos membros é a infelicidade dos restantes, e o mesmo acontece para o sentimento inverso. Não têm pois razão, aqueles que elegem como prioridades políticas outras necessidades. Torna-se quase ultrajante para o indivíduo em dificuldades verificar que existe uma classe política que defende bandeiras políticas "progressistas", em lugar de garantir necessidades elementares e simples, reforçando o núcleo estrutural de uma sociedade (a família) uma vez que é aí que elas são garantidas.

Centrar o discurso político nas causas fracturantes acaba por ser quase cómico. Não se trata, na verdade, de uma comédia uma vez que a sua concretização adquire contornos de tragédia. Quando o momento deveria ser de compaixão, cai-se no delírio. Nada mais inoportuno. De resto, as verdadeiras bandeiras do povo estão identificadas há muito tempo e não são aquelas que agora se propagam. Estas "novas bandeiras" podem significar a sobrevivência política de alguns, mas não entusiasmam a maioria, nem sequer são as bandeiras que o mundo precisa. As duas instituições fundamentais da humanidade são a Família e o Estado. Será um erro e uma enorme injustiça fortalecer o Estado deixando enfraquecer a Família. A sociedade carece de uma intervenção política em defesa da família − liberta do individualismo subjectivista − centrada no pensamento pelo bem comum. Mais do que nunca é importante proteger, quer ao nível jurídico, quer ao nível assistencial e económico, todas as famílias que necessitem de especial apoio. O Estado deverá, por todos os meios ao seu alcance, impedir situações de exclusão, de pobreza e solidão, exigindo, porém, como contrapartida um autêntico esforço de empenho pessoal na concretização de um recomeço; o recomeço de uma nova vida. Este seria um bom ponto de partida para se combater a actual crise e uma "verdadeira bandeira do povo" a que a maioria provavelmente estaria disposta a aderir.

Pedro Afonso

BELLA/COLABORE COM A VIDA VENDO ESTE FILME 19 de ABRIL AMOREIRAS

O FILME “BELLA” MUDOU A VIDA DE CENTOS DE PESSOAS NOS ESTADOS UNIDOS.AGORA PODE FAZÊ-LO TAMBEM EM PORTUGAL. “BELLA” É O MELHOR FILME PROVIDA DE SEMPRE.

TRANSMITE UMA MENSAGEM INEQUIVOCAMENTE PROVIDA E EM CONTRA DO ABORTO.

Como nos cinemas Lusomundo esteve muito pouco tempo em cartaz em Lisboa e em muito poucas salas, um grupo de famílias pedimos à Lusomundo que contactasse a distribuidora

a fim de fazer nova exibição do filme. Reservámos uma sala de cinema com capacidade

Para 150 pessoas no dia 19 DE ABRIL DOMINGO, ÀS 11HORAS NO CINEMA DAS AMOREIRAS.

Além de estarmos a dar oportunidade a muitas pessoas de verem o filme, se enchermos a sala a Lusomundo provavelmente terá todo o interesse em voltar a trazer o filme às salas, desta vez dando-lhe a publicidade adequada.

Pedimos que difundam esta ideia a famílias vossas conhecidas e/ou grupos de amigos , e que venham ter connosco dia 19 de Abril às 11 da manhã.

Bilhetes:4,5 euros

RESERVAS até 15 de Abril:

Paula Pimentel Calderón:917728789

Inês Forero:918737207

II Seminário Nacional Espiritualidade no Hospital




Saudações cordiais!

Em tempo de "crise", ousar a Esperança.

Peço a máxima divulgação e participação neste evento que visa tornar cada Hospital um Lugar mais à medida das pessoas que o fazem e, principalmente, daqueles que são a sua razão de ser - quem sofre porque está doente.

Grato

Pe. J. Nuno
(capelão HSJ)

http://www.lugardeesperanca.com/


Preservação do bom senso

João César das Neves

DN 20090330

Nas críticas ao Papa fica-se em geral com a dúvida se, sem querer ofender, quem as faz não pensa antes de falar. Isso vê-se bem no recente surto de insultos acerca das declarações feitas numa entrevista.

Basta ler o trecho, o que poucos fizeram, para compreender que o Papa nunca disse que o preservativo dá sida (tema da maior parte das críticas), mas que usar apenas a distribuição do preservativo aumenta o problema. Especialistas sensatos e estudos desapaixonados, como o de Edward C. Green, director do AIDS Prevention Research Project no Harvard Center for Population and Development Studies (http://article.nationalreview.com/, 19 de Março), concordam com Bento XVI que uma exclusiva distribuição de preservativos agrava o drama da sida.

Esta posição é do mais elementar bom senso. É fácil compreender, por exemplo, que a obrigação de usar cinto de segurança nos automóveis aumenta o risco de acidente, porque os condutores, sentindo-se mais seguros, aceleram. Por isso é que nenhum governo do mundo se limita a exigir o cinto, complementando com limites de velocidade.

A maior parte dessas críticas nasce de uma confusão infantil. Existe uma polémica antiga contra a Igreja por ela recusar o uso do preservativo na contracepção familiar. Isto estabeleceu a ideia de que a moral cristã é sempre contra o preservativo, o que é falso. Para perceber isto é preciso pensar um bocadinho, o que nestas coisas costuma ser difícil.

Se alguém comete adultério, acto homossexual ou visita um prostíbulo, a moral cristã diz que isso é mau. Se fizer, use o preservativo. Primeiro porque essas situações nada têm a ver com um casal a decidir o método contraceptivo. Mas sobretudo porque o pecado que se comete é tão grave que a questão do preservativo se torna irrelevante. É o mesmo que perguntar se, quando se rouba um banco, é permitido levar pistolas sem licença de porte de arma. A resposta de um juiz sensato seria positiva, mas a pergunta é muito estúpida. Quem viola aberta e gravemente um princípio fundamental não se preocupa com o cumprimento de uma regra menor, para mais fora do contexto.

Por isso é que dizer, como se ouve muito, que a atitude da Igreja condena os africanos à sida não faz o menor sentido. Se as pessoas cumprirem os preceitos da Igreja, vivendo a sua sexualidade na castidade e fidelidade conjugal, eliminam totalmente o risco de contágio. Se violam os preceitos da Igreja na sua vida sexual, caem fora dos limites da moral cristã. Nesse caso porquê ligar a esse detalhe secundário? O elementar bom senso recomenda o preservativo.

O Papa disse em seguida: "A solução só pode ser dupla: a primeira, uma humanização da sexualidade, ou seja um renovamento espiritual e humano que traga consigo um novo modo de se comportar um com o outro; a segunda, uma verdadeira amizade, ainda e sobretudo com as pessoas que sofrem; a disponibilidade, até com sacrifícios, com renúncias pessoais, a estar com os que sofrem."

Isto contrasta com a atitude habitual dos especialistas da sida, porque o Papa trata os africanos como pessoas com dignidade, e não como brutos lascivos, incapazes de resistir aos instintos.

Nas campanhas contra a sida deve-se começar por promover uma vida sexual sem promiscuidade. Se falhar, então use-se o preservativo. A medicina em todas as doenças tem sempre esta atitude profiláctica e formativa. Pelo contrário, as organizações internacionais de combate à sida limitam-se a métodos mecânicos e simplistas, dizendo o equivalente a: "Ponha o cinto e acelere à vontade." Porquê esta atitude irresponsável? Será fascínio com o sexo ou desprezo pelos negros?

Professor universitário, naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Frase do dia

Que Deus nos dê a graça de aceitar com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as coisas que podem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras



Reinhold Niebuhr
teólogo protestante
1892-1971

domingo, 29 de março de 2009

A corrupção, sempre!

PÚBLICO, 29.03.2009, António Barreto Retrato da semana

Parece que os níveis morais da vida pública se dissolvem diante dos nossos olhos. Será exagero da opinião pública?

Há qualquer coisa no ar! Existe um mal-estar evidente. Não há dia que um novo facto, revelando comportamentos ilícitos de toda a espécie, não se acrescente a uma longa lista de casos aparentemente impunes ou não resolvidos. As leis parecem impotentes. Pensa-se que a justiça está paralisada. Julga-se que os investigadores nada descobrem. Nunca se consegue provar qualquer coisa. Os processos duram anos, até serem arquivados ou prescreverem. Quando há certezas, faltam as provas. Quando há provas, há circunstâncias atenuantes. Parece que os níveis morais da vida pública baixaram ou se dissolvem diante dos nossos olhos. Será exagero da opinião pública? Rumores urbanos em tempos de dificuldades? Sequelas de um ano eleitoral particularmente intenso? Consequências da crise financeira, que revelou habilidades consideradas normais em ciclo de êxito dos negócios? Voracidade dos jornalistas em renhida competição? Campanhas de partidos, de agências de comunicação e de associações de interesses? Ou, simplesmente, a verdade? Que se passa realmente? De tudo um pouco.

Portugal e os portugueses têm um problema com a corrupção. Ou antes: têm muitos problemas. A começar pela definição. Engloba-se no conceito muito que o não é, apesar de ilegal ou imoral.
As cunhas, os favores e a preferência familiar ou partidária podem não ser verdadeira corrupção, mas pertencem às mesmas categorias de comportamentos ilícitos.
Nem todas as irregularidades administrativas, adjudicações directas, nomeações e promoções integram necessariamente uma definição precisa de corrupção, mas não deixam de constituir comportamentos igualmente condenáveis.
Licenças concedidas em condições especiais, alvarás obtidos mais rapidamente, derrogações efectuadas em planos legais e autorizações conseguidas em circunstâncias extraordinárias podem não ser sempre obtidos contra pagamento, mas são vizinhos da corrupção.
Decisões discricionárias, subsídios individualizados e contratos selectivos podem ter várias causas, não automaticamente "luvas", mas são parentes próximos da corrupção.
Perdões fiscais ou de multas e olhos fechados perante certos gestos não são sempre actos corruptos, mas andam por lá perto.
Finalmente, o tráfico de influências e a promiscuidade, que caracterizam a passagem da política ao negócio, do público ao privado, do partido à administração e vice-versa, não são tidos tecnicamente por corrupção, mas são, nesta família de comportamentos, os membros mais predadores e devastadores de uma vida pública decente.

Estes gestos, de difícil definição rigorosa, implicam vários conceitos essenciais. Acto ilícito; obtenção, contra pagamento, de favores e vantagens em detrimento de outrem; não cumprimento das regras legais e constitucionais (incluindo a da igualdade de oportunidades); e intervenção, em interesse próprio, junto de alguém com poder ou capacidade de interferir num processo de decisão.
O problema é que muitos gestos não respondem necessariamente a todos estes critérios. Pode não haver pagamento, mas favor ou nomeação; pode não ser em interesse próprio, mas no de partido ou empresa; pode não ser explicitamente ilegal; pode não ser em detrimento de outrem; pode não estar previsto na lei. Mais ainda, pode ser atenuado e normalizado pela lei. Neste último caso, encontram-se, por exemplo, as situações de promiscuidade e tráfico de influências, para os quais as normas legais são particularmente brandas.
Pertencer simultânea ou sucessivamente a uma empresa, uma associação de interesses, um grupo parlamentar e um governo, tratando dos mesmos assuntos, é possível em muitas circunstâncias. Já se viu entre nós muitas vezes.
Negociar com uma empresa, primeiro em nome de um governo, depois, com o governo, em nome da mesma empresa é possível, desde que se cumpram uns vagos e suaves períodos de branqueamento.
Ganhar poder no governo e enriquecer rapidamente, logo a seguir, nas empresas é possível e frequente, é mesmo considerado um exemplo de iniciativa.
Ganhar e distribuir dinheiros de modo irregular, desde que se faça obra, de preferência social e a favor das populações, pode ser considerado um gesto de gestão virtuosa e popular.
O favor partidário, sob a designação de confiança política, está devidamente consagrado na lei. Tem-se a impressão de que, em Portugal, há a boa e a má corrupção. A boa e a má promiscuidade. As boas são louvadas. As más são esquecidas.

Se a corrupção for de esquerda, só a direita reage. E vice-versa. Se for autárquica, só o poder central se insurge. E reciprocamente. Se for pública, só os privados protestam. E ao contrário. Se for de um partido, aos outros de contrariar. E assim por diante.
Quer isto dizer que não existe qualquer espécie de tradição ou de "cultura" contra a corrupção, a promiscuidade e a "cunha". Na verdade, os beneficiários são muitos: municípios, populações locais, associações desportivas, partidos políticos, empresários, proprietários, construtores, promotores imobiliários, funcionários públicos, políticos, banqueiros e comerciantes. Neste nosso pobre país, a corrupção é democrática. Herdámos a corrupção da ditadura, à qual acrescentámos a liberal. Recebemos a corporativa, enriquecendo-a com a socialista e a capitalista.
Sem regulação à altura, o mercado gera corrupção, fraude e promiscuidade. Quando aparece o Estado, corrupção, fraude e promiscuidade são geradas. Do atraso económico e cultural, recebemos a cunha e o favoritismo; mas do crescimento fácil chegou-nos o casino. Da ditadura, tínhamos a corrupção escondida; da democracia, temos a corrupção exposta.
Que fazer? Creio que ninguém é capaz de responder. Só uma coisa se sabe: tudo começa na justiça. Mas, saber isso, com a justiça que temos, é o mesmo que nada.

Nun'Álvares Pereira, Ventura e Aventura

CCLPHmailanuncio2abril2009

Exposição "Da terra aos povos". Vila Real

FolhetoVilaReal

sábado, 28 de março de 2009

S. FREI NUNO DE SANTA MARIA - UMA HISTÓRIA DE PORTUGAL

Expresso, 28 Mar 2009
por Jaime Nogueira Pinto

D. Nuno Álvares Pereira vai ser canonizado no próximo dia 26 de Abril pelo Papa Bento XVI. Foi outro Papa Bento, Bento XV, quem beatificou Nun’Álvares, em 1918, no último ano da Grande Guerra, essa imensa carnificina entre as nações da Europa cristã.

A Igreja Católica, portadora do Evangelho das bem aventuranças e do ideal da exaltação dos pacíficos, mas vivendo no mundo real, tinha que dar uma resposta à desolação da Europa das trincheiras. Não podendo acabar com o conflito, procurava humanizá-lo.

Fizera-o na Idade Média, ao criar as tréguas de Deus e ao cristianizar a Cavalaria, com o modelo do cavaleiro cristão. Bento XV reconhecera em Nun’Álvares esse modelo vivo do soldado cristão.

Nascido a 24 de Junho de 1360, em Cernache do Bonjardim, Nun’Álvares morreria frei Nuno de Santa Maria no convento do Carmo em Lisboa, a 1 de Abril de 1431. Quisera ser simples donato no convento que mandara construir, despojando-se de tudo e dedicando-se à oração e aos pobres da cidade.

Fora um grande estratega, mas também um combatente no terreno. Aplicara na guerra peninsular os ensinamentos tácticos da batalha de pé em terra: cavalaria desmontada, archeiros e besteiros nas alas, formação cerrada ao modo da falange antiga, numa carapaça móvel – e impenetrável – de escudos e lanças. Seguro nas convicções da sua luta, cuidava bem da parte técnica - informação, comando e controlo, escolha do terreno, ordem de batalha. E assim vencera os Atoleiros, Aljubarrota e Valverde nos anos decisivos para a independência de 1383-85.

Tive a sorte de o meu pai me ter dado a Vida de Nun’Álvares, de Oliveira Martins, quando fiz nove anos. Li-o nessa idade, no tempo do «mundo encantado», como o era a Idade Média de Nun’Álvares. À semelhança do jovem David do Livro dos Reis e de olhos postos em Galaaz, Nun’Álvares era alegre e livre e não tinha medo de nada porque Deus estava com ele.

Filho – com mais trinta e um rapazes e raparigas – do prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Pereira, Nuno fora pajem de Leonor Teles e casara aos 16 anos com D. Leonor de Alvim, uma dama nobre, rica, formosa, viúva e virgem de Entre-Douro e Minho. De D. Leonor teve uma filha sobreviva – D. Beatriz –, por quem é antepassado da casa de Bragança e de metade da realeza europeia.

A independência de Portugal levara-o a juntar-se ao Mestre de Aviz. Era uma guerra justa – canonicamente e cristãmente – de defesa da terra e do povo contra os castelhanos, estrangeiros, invasores e predadores. Justa era a causa, mas também, com ele, os meios: ao contrário dos usos do tempo, Nun’Álvares fazia a guerra sem ódio ao inimigo, não permitia o saque selvagem, tratava bem os seus soldados e os prisioneiros, respeitava os não combatentes. E comandava falando, comunicando, explicando. E encomendando-se a Deus antes e até durante as batalhas, como em Valverde.

Foi o soldado da independência, como D. João I foi o chefe e Álvaro Pais e João das Regras foram os políticos. E as gentes das cidades de Lisboa e do Porto, mais a arraia miúda alentejana, os militantes da primeira hora.

Se somos hoje independentes, se há Portugal e há portugueses, é porque estes homens – príncipes, nobres, burgueses, clérigos, povo miúdo – estiveram ali, da revolução de Lisboa de 1383 até à tarde de 14 de Agosto de 1385 em Aljubarrota, com a sua coragem e o seu medo, a sua esperança e a sua cólera, a sua fé e a sua raiva. E com as bandeiras, as espadas, as lanças, os arcos, os escudos.

Nun’Álvares – agora S. Frei Nuno de Santa Maria – esteve com eles, ao seu lado e à sua frente. Como está hoje connosco e com Portugal.

(in EXPRESSO, 28-03-09)

O Papa e o preservativo

Sol, 28 de Março de 2008
José António Saraiva

A POSIÇÃO da Igreja Católica relativamente ao preservativo tem dado pano para mangas. Quem não se lembra do cartoon de António representando o Papa João Paulo II com um preservativo enfiado no nariz? Os católicos protestaram, houve uma petição à Assembleia, durante anos a polémica arrastou-se.

Quis o destino que, como director do jornal à data da publicação do cartoon, eu tenha sido o último responsável pela sua divulgação. O que não significa necessariamente que concordasse com a mensagem nele expressa. Os jornais publicam muitas opiniões com as quais os directores não concordam. Um jornal é um espaço plural, que tem evidentemente os seus limites, como tudo na vida – mas esses limites devem ser muito latos para que no jornal possam caber a diversidade, a controvérsia e o debate. É isso que faz a energia de um meio de comunicação.

O PROBLEMA de muitas opiniões que se exprimem sobre a Igreja Católica – e sobre o Papa, como seu máximo representante – é que algumas pessoas que não são católicas nem sequer cristãs queriam que o Papa dissesse o que elas pensam. No fundo, para essas pessoas, a Igreja deveria abdicar da sua doutrina e das suas convicções – para defender as posições dos não-_-católicos, daqueles que professam outras ideologias ou partilham outras ideias. Ora isto é obviamente um absurdo.

À Igreja compete defender as suas posições e a sua doutrina – e não as dos seus inimigos. E não pode transigir constantemente, sob o risco de se descaracterizar. Não pode seguir a moda. Não pode estar sempre de acordo com o ar do tempo. Por vezes, o seu papel é mesmo o contrário: é combater as ideias em voga.

E NISTO a Igreja distingue-se claramente do Estado. O Estado – os vários Estados nacionais – tem muitas vezes de se adaptar às circunstâncias, de transigir, de pôr em prática políticas duvidosas do ponto de vista dos princípios.

É o caso do aborto, da distribuição de seringas ou das salas de chuto. Ninguém pode dizer que abortar é bom; ou que é bom as pessoas drogarem-se. Os Governos fazem estas concessões em nome do pragmatismo. Embora discordando naturalmente do aborto ou do consumo de drogas, acham que, não conseguindo evitá-los, é preferível criar condições para que se façam da melhor forma possível. É aquilo a que tenho chamado as ‘políticas de capitulação’. Ou seja, a abdicação dos princípios em nome do ‘mal menor’.

ORA é evidente que a Igreja não pode seguir este caminho. Não pode enveredar pelo caminho do pragmatismo sem princípios. Não pode dizer: façam abortos com segurança, ou droguem-se com segurança. A Igreja tem de dizer: não façam abortos, não se droguem.

E o mesmo vale para os preservativos. A Igreja não pode dizer: tenham relações sexuais à vontade, mas façam-no com preservativo para não contraírem doenças. A Igreja tem de dizer: a relação sexual deve ser responsável, deve ter lugar no casamento, a promiscuidade sexual é má – e, por isso, tudo o que facilite essa promiscuidade é condenável.

A Igreja Católica não pode abandonar esta trincheira. Se o fizesse, se começasse a recuar na doutrina, arriscava-se qualquer dia a não ter razão de existir.

AQUELES que atacam o Papa tentando menorizá-lo, como se estivessem num plano superior, não percebem o ridículo em que caem. O Papa – nenhum Papa – diz o que diz por desconhecimento da realidade ou por descuido. Ou, ainda menos, por maldade ou indiferença perante os dramas humanos. Poucas organizações como a Igreja são tão sábias, têm tanta experiência acumulada.

A Igreja não diz o que diz por ignorância ou por lapso – mas porque lhe compete defender uma doutrina. Uma doutrina que não é de hoje nem de ontem, que tem dois mil anos, e que os católicos pretendem que dure para sempre.

E NÃO DEIXA de ser verdade que a sida, como outras doenças que têm flagelado a Humanidade, só pode combater-se com uma mudança de hábitos, com uma mudança de práticas, com alterações culturais. Com uma reforma de mentalidades. Com uma atitude mais responsável em relação à vida, menos hedonista, em que o prazer e o dever se articulem de uma forma mais equilibrada.

Não é preciso ter relações sexuais só para procriar; mas também não é preciso comportarmo-nos como animais, deixando que o instinto prevaleça sobre todos os outros valores.

O preservativo pode ser hoje um paliativo, uma solução de recurso – mas não é ‘a solução’. A Humanidade não o pode ver como a solução para a sida. Ora, ao falar do preservativo como fala, a Igreja chama a atenção para isso: recusa-se a aceitar a promiscuidade e o facilitismo, põe a tónica nos valores e na responsabilidade do ser humano.

Só não percebe isto quem não quer.

OS COMUNISTAS gostariam que a Igreja defendesse as suas ideias. Os socialistas gostariam que a Igreja defendesse as suas ideias. Os libertários gostariam que a Igreja defendesse as suas ideias. Mas o que a Igreja tem de defender é a sua doutrina – e não as ideias dos outros. Se não constituísse uma voz diferente, para que serviria a Igreja? Se não fosse um contraponto, um referencial de certos valores e princípios, para que serviria a Igreja?

E se a doutrina da Igreja é contra a promiscuidade sexual, se é favorável a outro conceito de relação sexual associada ao amor e à fidelidade, não pode defender o preservativo ou as seringas – que têm que ver com outras práticas e com outra visão do mundo e das relações humanas.

A Igreja não pode dizer: usem o preservativo, porque essa é a forma de poderem ter relações sexuais sem risco. Como não pode dizer: usem seringas novas, porque essa é a forma de poderem injectar-se sem se infectarem.

OS ESTADOS, os Governos, aos quais compete gerir o quotidiano, podem defender tapa-buracos, soluções transitórias, de recurso. Mas esse não pode ser o papel da Igreja. A Igreja tem de olhar para mais longe. Tem de defender e preservar uma doutrina assente em ideais e comportamentos que não valem só para hoje ou para ontem. Ideais e comportamentos que não podem mudar, como as leis, ao sabor das circunstâncias.

Depois logo se vê

JN, 2009-03-28

Alice Vieira

Vivemos no país do logo-se-vê. Do pode-ser-que. Do em-princípio. Do se-tudo-correr-bem. A dificuldade que temos em tomar decisões já quase se tornou característica nacional. É qualquer coisa que deve estar nos genes.

Diante de qualquer problema dizer "é assim, é assim, pronto, vamos a isso" - é frase que os portugueses nem sabem como se pronuncia.

E essa capacidade de ser rápido e eficaz - tipo "o que tem de se fazer que se faça depressa"- reflecte--se nas coisas (aparentemente) banais do dia-a-dia. Por exemplo: já repararam na dificuldade que as pessoas têm em pôr fim a uma simples conversa telefónica?

"Adeus, adeus, beijinhos, sim, eu depois ligo, tá bem, adeus, sim, não me esqueço, sim, em princípio eu vou, beijinhos, então vá, pronto, tudo bem, adeus, adeus, beijinhos, vá, tá bem, sim..…" - são capazes de ficar naquilo horas seguidas! Será tão difícil tomar a decisão de desligar depois de um honesto "então, adeus" ou qualquer outra variante do mesmo género? Uma amiga esteve quase um mês zangada comigo porque, segundo ela, eu lhe tinha desligado o telefone na cara, coisa que evidentemente ela não admitia a ninguém. Tudo porque eu pensava que receber três doses de "beijinhos, beijinhos" era mais do que suficiente para uma despedida calorosa q.b. Pelos vistos, não era. Nunca é.

Ontem, fui embalada ao telemóvel pelas palavras de despedida de uma vizinha o tempo todo que durou a viagem de metro da Baixa-Chiado a S. Sebastião. Sempre que eu me preparava para clicar, lá voltava ela "adeus, até um dia destes, se puder ligo, sim, adeusinho, boa tarde, adeus, adeus, obrigada, adeus".

Tomar decisões, nem que seja a banalidade de desligar um telefone, é trabalho demasiado hercúleo para os nossos pobres ombros. Por essas e por outras é que eu venho desde há muito tempo a divulgar por todos os meios ao meu alcance aquela extraordinária canção dos "Deolinda", chamada "Movimento Perpétuo Associativo" em que, depois de um incitamento revolucionário às massas para que tome uma atitude ("agora sim, temos a força toda/ agora sim, há pernas para andar") lá vem, em contraponto, o desfiar de todos os habituais impedimentos desta terra do logo-se-vê: "agora não, que é hora do almoço", "agora não, que me dói a barriga", "agora não, porque joga o Benfica", "agora não, porque falta um impresso", "agora não, que há engarrafamento", etc., etc., etc.… Há sempre uma justificação para prolongar todos os "agora, não" do nosso fado.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Frase do dia

Porque é que queres excluir da tua vida todo o desconforto, miséria, ou depressão? Ao fim e ao cabo não sabes a obra que estas condições estão a fazer dentro de ti!

Rainer Maria Rilke

Do português em Olivença à canonização de Nun'Álvares

GeneralLoureirodosSantos GeneralLoureirodosSantos papinto A elevação do Condestável à dignidade dos altares da Igreja católica pelo Vaticano não pode ser ignorada por Portugal

Concerto do Coro Gulbenkian no encerramento do Festival Terras sem Sombra

No próximo dia 28 de Março, pelas 21 H 30, na igreja de Santa Maria da Feira, em Beja, vai ter lugar o concerto de encerramento da 5.ª edição do Festival Terras sem Sombra de Música Sacra, uma iniciativa do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e da Arte das Musas que conta com o apoio da Câmara Municipal de Beja.

Trata-se de um concerto a cargo do Coro Gulbenkian, sob a direcção do Maestro Jorge Matta, intitulado “O Esplendor Luso-Brasileiro nos Finais do Século XVIII e Princípios do XIX”.

Ao atingir a “maioridade”, o Festival Terras sem Sombra constitui uma referência no panorama cultural do país e marca a temporada musical em terras do Sul. É de salientar, à semelhança dos anos precedentes, a ligação entre um repertório criteriosamente escolhido (de forma a constituir uma pequena “história da Música”, desta vez no âmbito do Barroco Português), uma aposta em intérpretes nacionais de excelência, com carreiras internacionais já bem fundamentadas, e a fruição de espaços arquitectónicos notáveis, que brilham não só pela qualidade acústica mas também pela atmosfera ímpar.
Tomamos a liberdade de enviar, em anexo, uma nota de imprensa sobre este concerto, acompanhada por um conjunto de fotografias devidamente legendadas.
Ficaremos muito gratos pela divulgação que esse prestigiado meio de comunicação social possa fazer da iniciativa.
Para mais informações sobre o Festival, incluindo fotografias e programação detalhada, por favor consultar o site www.terrassemsombra.com.
É possível aceder a registos musicais do Festival em formato mp3 no endereço http://terrassemsombra.com/materiais2009 , onde se encontram as seguintes faixas:

In die Tribulationis (in CD "Diaspora.pt" (MU0103 2008) do Sete Lágrimas. Autor: Damião de Gois, séc. XVI)
O Misericordissime Jesu (in CD "Kleine Musik" (MU0102 2008) do Sete Lágrimas. Autor: Ivan Moody, séc. XVI)
Adoramus Te Christe (in CD "Lachrimae #1" (MU0101 2007) do Sete Lágrimas. Autor: G. B. Martini, séc. XVI)
Na Fomte Está Lianor ((in CD "Diaspora.pt" (MU0103 2008) do Sete Lágrimas. Autor: Anónimo, séc. XVI)

Disponíveis para quaisquer indicações complementares que possam ser úteis, apresentamos os melhores cumprimentos,

José António Falcão
Director

quinta-feira, 26 de março de 2009

No, he can't

Poderemos não concordar todos, ainda anestesiados pela avalanche maciça de hossanas a Barack Obama; porém, o primeiro parágrafo deste artigo de Bartle Bull na revista inglesa Prospect (http://www.prospect-magazine.co.uk/) é uma verdade que é demonstrável na experiência de todos nós.
Comece a ler...:

Barack Obama iria sempre desapontar.
Quando se promete quase tudo a quase toda a gente - Vou acabar com a guerra no Iraque mas continuarei a perseguir a Al Qaeda lá; farei crescer a economia, mas espalharei a riqueza por todo o lado, e etc. - inevitavelmente deixaremos gente insatisfeita.
Os seres humanos, mesmo aqueles que lêem fluentemente o teleponto, simplesmente não conseguem caminhar sobre a água.

e se quiser continuar pode fazê-lo em inglês, aqui

Assembleia Municipal de Lisboa aprovou moção de homenagem ao Santo Condestável

A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou uma moção de homenagem ao Santo Condestável, que será canonizado por Bento XVI no próximo dia 26 de Abril.

Na reunião do passado dia 24, ficou ainda determinado que se solicite à Câmara Municipal de Lisboa que promova a colocação de um monumento a D. Nuno Álvares Pereira, no local para esse efeito preparado, no cimo do Parque Eduardo VII.

A moção que segue foi apresentada pelo deputado municipal Luís Brito Correia do PSD (foi também subscrita pelo Presidente da Junta de Freguesia do Santo Condestável) e cujos dois pontos foram votados em separado e aprovados, por maioria (PSD e CDS), sem votos contra (!) e com abstenções do PS, PCP, BE e PEV. O PCP (Modesto Navarro) apresentou um voto de vencido, invocando a separação da Igreja do Estado.

Texto da Moção

O Papa Bento XVI decidiu canonizar, em 26 de Abril de 2009, D. Nuno Álvares Pereira, beatificado pelo Papa Bento XV, em 23.1.1918, e a quem o povo português chama, há séculos, o Santo Condestável.

Armado cavaleiro aos 13 anos, foi treinado no culto dos grandes valores da vida; e tornou-se defensor da justiça, dos oprimidos, das viúvas e dos órfãos.

Nuno Álvares Pereira contribuiu decisivamente para a independência nacional, quer como chefe militar (Fronteiro-Mor do Alentejo e, depois, Condestável do Reino), quer como líder político, sobretudo, nas Cortes de Coimbra, de 1385. À sua coragem e determinação se devem as vitórias nas batalhas de Atoleiros (6.4.1384), Aljubarrota (12.8.1385) e Valverde (17 e 18.10.1385).

Como intérprete eminente dos sentimentos do povo português, e, especialmente, do então chamado "povo miúdo" de Lisboa, contribuiu de modo muito relevante para a consciência da nossa identidade nacional.

Com 55 anos, participou na expedição a Ceuta, com que se iniciou a expansão portuguesa pelo mundo, nos primórdios da globalização.

Promoveu a construção do Convento do Carmo, em Lisboa, um monumento nacional, que, ainda hoje, é admirável, apesar de arruinado pelo terramoto de 1755.

Depois de negociar a paz com Castela (em 31.10.1411), começou a orientar a sua vida para o convento. Tendo-lhe pertencido metade do Reino, repartiu as terras pelos netos; distribuiu todo o dinheiro, jóias, armas e roupas a cavaleiros e escudeiros e a pobres; e, desde 1423, viveu como humilde donato carmelita os últimos oito anos da sua vida, repartindo diariamente a tença real pelos pobres, à porta do convento. Ele, que fora, abaixo do Rei, o fidalgo mais poderoso do Reino (Condestável, Conde de Ourém, Conde Arraiolos, Conde de Barcelos, etc.), passou a viver numa "cela minguada, escura e solitária", não consentindo que lhe chamassem senão Nuno, por humildade - depois, Nuno de Santa Maria.

A Crónica do Condestável diz dele que "Deus por sua mercê fez e faz muitos milagres naquele lugar em que seu corpo jaz que são denotados e manifestos".

Foi considerado pelo historiador Oliveira Martins como "a mais nobre, a mais bela figura que a Idade Média portuguesa nos deixou".

A Assembleia Municipal de Lisboa, reunida em 24 de Março de 2009, delibera:

1. Aprovar um voto de congratulação pela anunciada canonização do Santo Condestável.

2. Solicitar à Câmara Municipal de Lisboa que promova a colocação de um monumento a D. Nuno Álvares Pereira, no local para esse efeito preparado, no cimo do Parque Eduardo VII.

Dama de ferro

DESTAK 26 03 2009 08.04H

João César das Neves

Olhando para a evolução económica dos últimos anos, vemos um facto central para a escolha nas próximas eleições que tem passado despercebido. A principal fragilidade de Portugal no actual contexto de crise mundial vem do enorme endividamento. O total da nossa dívida ao estrangeiro (posição de investimento internacional) é de 100% do produto nacional, tendo explodido dos 8% que tinha em 1996. O acréscimo este ano (balança corrente e de capitais) será de 7,9% segundo a previsão do Banco de Portugal.

O caminho que nos trouxe aqui é curioso. A balança estava equilibrada quando Guterres tomou o poder em 1995 (défice de 0,7% do PIB). A enorme degradação que se seguiu atingiu 9% do PIB em 2000, um desequilíbrio pior que o causado pelo 25 de Abril. Esse fiasco fez cair o Governo. O novo executivo, com Manuela Ferreira Leite nas Finanças, entrou em Abril de 2002, recebendo o défice de 2001 de 8,6%.

A política da «dama de ferro», como foi chamada, conseguiu reduzir para metade esse buraco (4,2%) em 2003. Mas a linha não teve continuidade. O Governo saiu em Julho de 2004 e no fim do ano o défice externo já subira para 6,1%. Desde que Sócrates está no poder tem flutuado entre os 8% e os 10%.

A única pessoa que nos últimos 15 anos enfrentou este grave problema foi Manuela Ferreira Leite. Ela é o rosto da austeridade, dureza, solidez. Assim nas próximas eleições, para lá da escolha entre partidos, há uma questão psicológica nacional interessante. Será curioso ver a escolha que os portugueses farão, porque indica o caminho que querem seguir na crise.

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Ainda a propósito do preservativo

DN, 26.03.2009
Maria José Nogueira Pinto

O Papa é um chefe religioso. Quando fala para os milhões de católicos que, por todo o mundo, acorrem a escutar a sua palavra, estes não esperam que fale como um funcionário da Organização Mundial de Saúde ou como um qualquer ministro. Nem tão-pouco como um demagogo ou um profeta. Sucessor de Pedro, que foi mandatado por Cristo para fazer a Sua Igreja, o Papa quando vai itinerante pelo mundo, evangeliza na mais pura tradição do que foi e é essa Igreja. O que significa o testemunho da verdade, do caminho e da luz, sem qualquer embuste fácil de correcção política. Foi o que Cristo fez, irritando os poderes políticos, económicos e sociais do seu tempo, que o julgaram, açoitaram e crucificaram.
Este incidente tão mediatizado revelou dois interessantes aspectos da forma mentis deste tempo em que vivemos. A primeira tem a ver com o comportamento dos que não têm fé, e por isso não acreditam em nada do que estou aqui a escrever. Dúvida que me surge: se não acreditam porque é que se incomodam tanto com o que o Papa diz? Será porque, como alguns vaticinam, as religiões poderão substituir, no século XXI, as ideologias? E isso é, só por si, ameaçador? E quem deu cabo das ideologias? Foram as religiões? Não me parece. A segunda tem a ver com a religião à la carte, adoptada pelos que acreditam mas não concordam, e querem uma religião à medida das concessões que foram fazendo ao longo da sua vida e, de acordo com cada circunstância concreta, uma ementa de interpretações onde caiba tudo e eles próprios.
Em todos os discursos proferidos pelo Papa na sua visita aos Camarões, não há qualquer referência ao preservativo. Na resposta a um jornalista sobre esta questão, Bento XVI responde nos seguintes termos "(…) não se pode solucionar este flagelo apenas com a distribuição de profilácticos: pelo contrário, existe o risco de aumentar o problema." Quem lide de perto com a sida sabe que é mesmo assim (veja-se o caso português em que apesar da distribuição gratuita de preservativos e da troca de seringas não melhora os seus indicadores). O combate a este flagelo passa hoje, graças ao progresso científico, por outras coisas, mais complexas, mais difíceis e mais caras e às quais os doentes africanos não têm acesso (nem muitos portugueses…). Tão-pouco o Papa foi aos Camarões recomendar a abstinência sexual como solução para a sida. Exortou sim à humanização das relações interpessoais em geral, e da sexualidade em particular.
Para além disto - um ínfimo episódio no contexto da digressão africana - o Papa falou de tudo o que realmente interessa: a corrupção, o desperdício de recursos, o tribalismo, a lei do mais forte, a particular situação das mulheres, a fome, a doença, o imperativo da paz. Os milhões de africanos que caminharam ao encontro do Papa fizeram-no com o espírito de confiança que a Igreja cimentou nesses países onde está, não apenas na liturgia dos templos, mas no terreno, junto das populações, cuidando, tratando, acolhendo, provendo, como pode, à satisfação das suas necessidades mais básicas. Neste Continente que tantos dão de barato como "perdido", a Igreja desenvolve diariamente mil e uma acções junto daqueles que a geografia privou de toda a dignidade.
Pode-se não acreditar, não ter fé, acreditar e discordar mas não se pode inventar uma outra religião mais conforme aos ditames intelectuais que hoje nos regem, com outra lógica, com outros fundamento. A Igreja que foi a África foi de visita aos seus filhos mais abandonados. Não foi cobrar impostos nem pedir votos, nem fazer campanha mediática. Foi levar a esperança e dizer a verdade. Por isso mesmo é que os africanos a receberam de coração aberto.

O flanelógrafo, o acetato e o Magalhães

PÚBLICO 26.03.2009
Helena Matos

Para quem não se lembrar, o dito flanelógrafo consistia numa prosaica flanela onde as professoras colavam umas árvores, cães, casas, etc., tudo devidamente recortado em flanelas coloridas. Ao mesmo tempo que iam colocando, graças a uns velcros, todo este universo de flanela diante dos nossos olhos, repetiam a respectiva designação em francês ou inglês.
Jamais percebi porque entendiam aquelas esforçadas almas que nós fixaríamos melhor os vocabulários e pronúncias, caso as víssemos passadas a flanela, mas tenho de reconhecer que tudo aquilo lhes dava um trabalho monumental, sobretudo porque as flanelas rapidamente deixavam de se comportar como deviam.
Entusiasmo maior foi contudo o gerado pelo acetato. Aula que se prezasse tinha dúzias de acetatos. Garantiam os mais dados a estas técnicas que noutros países mais avançados até se faziam doutoramentos sobre o uso dos acetatos. Hoje os acetatos devem estar a fazer companhia aos flanelógrafos. Desconheço se em alguma aula, em alguma escola, alguma criança aprendeu melhor alguma coisa por causa dos flanelógrafos e dos acetatos. Mas tenho fortes dúvidas que tal tenha acontecido.
O mesmo se passa com o Magalhães. Ao contrário das flanelas e dos acetatos, a informática tem possibilidades quase infinitas de utilização. Mas meter computadores em aulas onde não se domina o português e não se conseguem fazer contas é uma tolice que vai deixar marcas muito mais negativas do que as flanelas coloridas.

Contas de somar e contos de encantar

PÚBLICO, 26.03.2009, Helena Matos

Há a ideia de que os governos não só dão, como vão dar cada vez mais. A perfeição seria um governo que desse tudo

"Voltam, de novo entre nós, a 'politizar-se' as questões: do Metropolitano à Bolsa, do trânsito lisboeta à construção da rede de auto-estradas. (...) Cada vez mais o nosso destino pessoal e de nossos filhos (é quase retórico mas é verdade) estão na dependência do Estado. (...)
Mais: enquanto antes os contactos com a organização estadual se resumiam ao pagamento de impostos e ao cumprimento do serviço militar, agora a 'omnipresença' estadual revela-se em múltiplos agentes e um sem-número de licenças, de autorizações, de condicionamentos.
"Este texto tem mais de 30 anos. Mais precisamente foi publicado no primeiro número do semanário Expresso que saiu para a rua a 6 de Janeiro de 1973. Assinava-o um homem da então designada "ala liberal", Magalhães Mota.
Infelizmente os seus avisos sobre a perda de liberdade como consequência do aumento do poder do Estado não tiveram qualquer eco na sociedade portuguesa. Da direita à esquerda acreditou-se que a liberdade chegaria com o fim da PIDE. Tal como nesse tempo, os portugueses vivem hoje na convicção de que o Estado, via governos, dá pensões, aumentos, subsídios e que só por maldade ou "insensibilidade social", como diz o ministro Silva Pereira, alguém questiona esta perspectiva da dádiva governamental. Durante décadas arreigou-se a ideia de que os governos não só dão, como vão dar cada vez mais. A perfeição aliás seria em última análise um governo que desse tudo. Jamais se questionou donde viriam as verbas para sustentar tanta dádiva e tanto direito a tanto serviço gratuito. Muito menos pareceu pertinente analisar o que implicaria para cada um de nós em termos de liberdade passarmos para um modelo social em que os cidadãos se dividem em contribuintes e assistencializados.
Não é por acaso que José Sócrates é indiscutivelmente o mais poderoso de todos os primeiros-ministros portugueses da democracia. É certo que é também o menos tecnicamente preparado e aquele que tem uma visão mais instrumental dos cargos que ocupa, mas essas são circunstâncias pessoais que apenas põem em evidência o desmesurado poder do Estado. Nunca em Portugal um governo teve tanta participação em negócio, tanto cidadão dependente de licenças, subsídios e apoios, tanta legislação sobre o que se pode fazer, comer, ensinar...
Quando o primeiro-ministro promete criar milhares de empregos, não está apenas a fazer demagogia. Ele revela uma concepção do poder que, aliás, não é contrariada pela oposição. A questão não é quantos empregos criou o Governo, mas sim como podem os governos criar empregos a não ser na função pública? Ou, como hoje infelizmente se percebeu, ao serem conhecidos os novos números do INE, quantas das 7093 empresas que faliram em Portugal no primeiro semestre do ano passado não viram o seu fim ditado pela carga fiscal e por todo o enredo legislativo através do qual o Estado português condiciona, complica e encarece a vida das empresas - sobretudo daquelas que não têm a ventura de serem eleitas como parceiras pela equipa governamental?
No meio da inauguração dum museu municipal, o Presidente da República resolveu explicar detalhadamente a diferença entre custo e benefício. Mais, explicou tal diferença como se estivesse a falar para pessoas muito burras, muito distraídas ou que não têm de se preocupar com a factura: "Em Portugal ainda se confunde custos com benefícios. Uma estrada é toda ela custos. O benefício é o trânsito que passará nela. Se não houver trânsito, não há benefício, é zero. O investimento de um empresário é custo, o benefício é a sua produção. Se não produzir nada, não ganha.
"Para quem falava Cavaco? A tentação de qualquer comentador é dizer que falava para José Sócrates. Provavelmente sim, mas na verdade não é apenas nem sobretudo o Governo quem precisa destes esclarecimentos. Os portugueses que há décadas e décadas se embalam na ladainha dos "governos que dão" talvez precisem não apenas de aprender a distinguir o custo do benefício, mas também a interrogar-se sobre como poderão continuar a manter um Estado que consome na sua própria máquina grande parte dos recursos nacionais e que como consequência e razão de ser do seu gigantismo nos está a tirar liberdade. Como já escrevia em 1973 Magalhães Mota, "por tudo e por nada se apela para o Estado". E seguidamente lá vinha o exemplo: "As finanças de determinado clube desportivo ameaçam falência: apela-se para um subsídio 'das autoridades'."
O resto sabemos como acaba. O pior é que tudo isto podia ser escrito hoje mesmo.
Jornalista