domingo, 31 de maio de 2009

Inquérito DN: Concorda com a legalização dos casamentos gay

Concorda com a legalização dos casamentos 'gay'?

Sim: 94 votos

42%

Não: 130 votos

58%

às 22:30 do dia 31 de Maio de 2008

Votar aqui: http://dn.sapo.pt/inicio/
8à direita abaixo do Editorial e últimas noticias

Hoje há Banco!

PÚBLICO, 31.05.2009, António Barreto
Retrato da Semana

Quando estes bancos não existirem, é sinal de que não são necessários. Feliz dia! Para já, são indispensáveis

Todos os anos, por esta altura, depois dos jacarandás, antes do Verão: a campanha do Banco Alimentar está na rua. Ou antes, nos supermercados e centros comerciais. Umas dezenas de milhares de pessoas, todas voluntárias, preparam-se para recolher toneladas de alimentos que serão depois distribuídos por centenas de organizações de solidariedade. Estas, por sua vez, entregarão os alimentos a centenas de milhares de pessoas.Os voluntários são, em grande parte, jovens, que trazem um ar de festa à operação que, pelas causas, poderia ser circunspecta. Mas também há adultos e mais idosos. São, em maioria, católicos. Mas também há ateus, agnósticos e crentes de outros deuses. Não há a menor influência política ou partidária. A classe média parece ser predominante, mas podem ver-se, tanto nos supermercados como na enorme retaguarda de armazéns, gestores, universitários, trabalhadores, donas de casa, ex-delinquentes, gente obrigada a serviço à comunidade, desempregados e até pobres tão necessitados quanto as pessoas que receberão aqueles alimentos. Os voluntários são a absoluta maioria deste pequeno exército, primorosamente organizado e eficiente.
Toda a gente fica impressionada com a quantidade de alimentos recolhidos nestas campanhas, mais de 3 mil toneladas. Verdade é que tudo isto é pouco mais de 10 por cento do que o Banco distribui por ano! Muito mais tem de ser obtido por outras vias, junto dos industriais, das organizações de produtores, dos comerciantes e dos distribuidores: perto de 20 mil toneladas por ano. Estas quantidades brutais de comida têm de chegar todos os dias, ser arrumadas, distribuídas e entregues a mais de 250 mil pessoas. Líquidos e sólidos, secos e molhados, frescos ou enlatados, com ou sem prazo de validade. Todos os dias! Por voluntários, essencialmente. Couves frescas, maçãs e iogurtes que chegam de manhã cedo, depois de dezenas de quilómetros de viagem, serão distribuídos, 24 horas depois, nas ruas das cidades, aos sem-abrigo, ou nas instituições de idosos, de mendigos, de desempregados e de crianças sem família. Todos os dias! Por voluntários. Surgem agora os Bancos não alimentares. Tudo lá vai parar: sempre os excedentes gerados por esta estranha sociedade. Computadores, móveis, latas de tinta, detergentes, roupa, sapatos, colchões, livros, canetas e brinquedos, toneladas de brinquedos! Com excepção dos computadores, não se trata de objectos em segunda mão: tudo novo e ainda embrulhado de origem. O destino é o mesmo: a separação, o arrumo, a classificação e a distribuição. São já quase vinte os Bancos espalhados pelo país. O mais antigo, de Lisboa, ajuda a organizar os outros, apoia na gestão e na organização.Se estes bancos não existissem, ou quando não existirem, é sinal de que não são necessários. Feliz dia! Para já, são indispensáveis. Recebem a caridade e a solidariedade. Recolhem as sobras desta sociedade perdida em consumo, em produção exagerada e em promoções tolas. Aproveitam os desperdícios das políticas agrícolas e alimentares da Europa. Os excedentes da produção alimentar, retirados do mercado e subsidiados pela União Europeia, constituem uma parte importante dos fornecimentos. São assim reciclados, em vez de serem destruídos. Em certos anos. Mas, noutros, quando os ministérios se esquecem de tratar da papelada, não. O que nunca deveria acontecer.
Globalmente, o Estado não prejudica. Mas também não ajuda muito. Poderia, pelo menos, remover obstáculos. Há inúmeros procedimentos fiscais e sanitários que deveriam ser revistos e adaptados a este caso particular. Há serviços, como consultas médicas, que deveriam ser considerados na colecta fiscal, como o dinheiro ou as mercadorias, mas actualmente não são. Há linhas de apoio, como refeições preparadas, que não podem ser desenvolvidas, porque uma legislação aberrante penaliza quem dá ou ameaça quem cozinha. O Estado moderno consagrou os direitos sociais e o Estado-providência universal. Há mérito nisso. O sistema retira um pouco da humilhação ou da indignidade do pedido de esmola e da mendicidade. Mas esse mesmo Estado é burocrático e desumanizado. Não consegue acudir em situações de emergência. Não é rápido na resposta. Não mobiliza pessoas solidárias e decentes. Não traz uma palavra de reconforto a acompanhar a sopa. Com estas organizações, é o contrário. A proximidade faz a diferença. A humanidade é imediata. A flexibilidade é total. Muitas delas têm anos de experiência e a sua isenção é à prova de bala. Algumas, como este Banco, dariam lições de eficiência e organização a repartições públicas e mesmo a empresas privadas. Por isso os recursos oficiais deveriam ser em grande parte orientados para estas organizações. Muito do dinheiro canalizado para instituições e repartições públicas, a ser repartido por processos morosos e complicados, deveria simplesmente ser entregue às organizações de voluntários que, nos hospitais, nas ruas e a domicílio, fazem o que o Estado dificilmente pode fazer. Aliás, sabe-se, uma parte do dinheiro oficial, distribuído directamente pelo Estado, não chega a quem deveria.
Éverdade que os números são impressionantes. Os milhares de toneladas de alimentos. Os milhões de objectos. A rapidez da distribuição. A prontidão quotidiana. As centenas de milhares de beneficiados. As centenas de instituições. A organização e a eficiência. Mas o que realmente impressiona é o número de voluntários. E o espírito que os anima. Religioso ou não. Em missão ou em festa. É fácil estar umas horas num supermercado a receber dádivas. Mas é preciso ir. É divertido passar uma noite a separar latas e embrulhar pacotes. Mas é preciso fazê-lo. Mais ainda, passar um ano, todos os dias, a fazer e distribuir embrulhos! Um ano, quase todos os dias, a entregar alimentos a doentes, velhos, pobres e sem-abrigo! Os homens são capazes de tudo. Até de fazer o bem. Sociólogo

Pentecostes

Pentecostes
1308-11
Duccio di Buoninsegna
Tempera sobre madeira, 37,5 x 42,5 cm
Museo dell'Opera del Duomo, Siena

sábado, 30 de maio de 2009

sexta-feira, 29 de maio de 2009

"Do tempo de Salazar"

PÚBLICO, 28.05.2009, Helena Matos

Um pedido ao primeiro-ministro: não saia mais pela porta das traseiras. Ao menos isso. Não envergonhe a democracia

Esta é uma das mais eficazes muletas de conversa em Portugal: "do tempo de Salazar". Não sei se está suposto que, após o 25 de Abril de 1974, tivéssemos entrado em grau zero legislativo e imitado o período do Terror da Revolução Francesa, em que, para evitarem qualquer reminiscência do passado, os revolucionários mudaram até os nomes aos dias da semana e aos meses do ano, mas a verdade é que muita da legislação e regulamentação que nos tem regido remonta ao Estado Novo ou até a muito antes dele. Por exemplo, o Código Comercial, cujo início rezava assim "Dom Luís, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves. Fazem saber a todos os nossos súbditos, que as cortes gerais decretaram e nós queremos a lei seguinte", não só passou da monarquia para a I República, como desta para o Estado Novo e deste para o PREC e ainda para a democracia. Mas não acaba aqui a vida deste código, pois no distante e independente Moçambique até há bem pouco tempo vigorou o Código Comercial do tempo de "Dom Luís, por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves". E bem mais material que a introdução do dito Código Comercial é o Inatel, que mais não é que a antiga FNAT criada por Salazar com uma mudança de nome e uma modernização das instalações. Logo o critério da indignação com o que ficou "do tempo de Salazar" é não só muito selectivo, como até há quem nunca tenha saído desse tempo:

I "Governo fascista é a morte do artista." Do episódio da António Arroio tiram-se várias conclusões. A primeira e mais óbvia é que as aulas de História devem andar pelas ruas da amargura e não apenas em Espinho. É preciso saber poucochinho do passado e também do presente para considerar Sócrates fascista. E é sobretudo necessário ignorar o papel desempenhado por aqueles que se designavam vanguardas artísticas na implementação dos totalitarismos, para gritar que "Governo fascista é a morte do artista". Os subsídios aos artistas, os apoios à criação e a ideia de que os governos devem ter uma política cultural própria, tudo isso tão do agrado dos meninos da António Arroio, faz parte da ideologia fascista. Li que os responsáveis da António Arroio se propõem fazer uma espécie de conferência com os alunos para esclarecer alguns equívocos. Seria muito útil se lhes explicassem o papel desempenhado pelos artistas de vanguarda no Secretariado da Propaganda Nacional dos anos 30 e durante o PREC, em 1975. O país pouparia dinheiro e os artistas ganhariam independência e, consequentemente, qualidade.
Para o fim um pedido ao primeiro-ministro: não saia mais pela porta das traseiras. Quando for apenas um cidadão, saia como quiser e por onde quiser. Enquanto for primeiro-ministro, coisa que eu espero ansiosamente que finde, saia pela porta da frente. Ao menos isso. Não envergonhe a democracia. Como assinala o blogger Nuno Nogueira Santos, o último primeiro-ministro da ditadura, Marcelo Caetano, quando, no Quartel do Carmo, lhe foi proposto que saísse pelas traseiras respondeu: "Não! Só saio daqui pela porta por onde entrei. A porta da frente." Salgueiro Maia percebeu como sair pela porta da frente era importante para a dignidade de Marcelo Caetano, dos militares que o depunham e do regime que dali nasceria. Com poucos homens e muita coragem Salgueiro Maia levou Marcelo Caetano pela porta da frente. É nestas coisas que as pessoas se distinguem.

II A nova Moral e Religião. Falo naturalmente da Educação Sexual. A discussão sobre a imposição pelo Governo da frequência obrigatória de tempos lectivos para temáticas da esfera do comportamento e da privacidade não começou em Portugal com a disciplina de Educação Sexual. Nos anos 30, ou seja, no tempo de Salazar, tornou-se obrigatória a frequência da disciplina de Moral e Religião e a colocação do crucifixo nas salas de aula das então escolas do ensino primário. Nos anos 70, Marcelo Caetano deu por terminada a obrigatoriedade da frequência da disciplina de Moral e Religião. Como é óbvio, a medida foi mais teórica que prática, mas mesmo assim admitia-se a dispensa, possibilidade não considerada, em 2009, para a Educação Sexual. Não deixa de ser sintomático que, tal como no "tempo de Salazar", se defenda como sinal de progresso que o governo pode transformar em matéria lectiva assuntos que cabem à esfera das famílias e à privacidade de cada um. Enfim, cada tempo tem os seus proselitismos e os países de vocação paternalista não mudam assim tão depressa. Para adiantarmos caminho e fazermos qualquer coisa de útil podemos aproveitar a ocasião recuperando os gabinetes médicos escolares do tempo da I República, do tempo de Salazar e do tempo de Marcelo e que estupidamente desapareceram algures na democracia e que tanta falta fazem. Para falar de sexo e do que for preciso.

III Lei do tempo de Salazar revogada. O caso mais recente da lei revogada "do tempo de Salazar" versa os bairros sociais. Para provar da perfídia da lei agora revogada detalha-se que a mesma permitia, nos bairros sociais, o despejo por comportamentos morais e civis "indignos", como se nos arrendamentos das casas não sociais os senhorios não accionassem despejos, até para se protegerem de eventuais acusações de cumplicidade, quando descobrem que na casa ou loja que arrendaram funciona um casino, um bordel, se trafica droga ou fabrica moeda falsa.
A nova legislação sobre habitação social surgiu envolta no banho lustral da bondade por já não ser do tempo de Salazar. Aliás, a legislação foi imediatamente anunciada como provisória, pois anuncia-se legislação de fundo sobre a matéria, mas havia que acabar com a lei do tempo de Salazar. E aí tem o país, provisoriamente é certo, uma lei tão ou mais autoritária que a lei de 1945. Por exemplo, como é possível que, na nova legislação, se aceite que seja motivo para despejo receber uma pessoa durante mais de dois meses em casa? Aliás, não percebo como é que, numa democracia, uma autarquia sabe que num determinado andar de um determinado prédio alguém tem outra pessoa em casa há mais de dois meses. No salazarismo sabemos como é que isto se sabia. Na democracia não vislumbro o procedimento. Por outro lado, com a nova legislação os residentes nos bairros sociais não só passam a viver em constante devassa fiscal, como são claramente convidados, na velha tradição dos tempos do salazarismo, ou a ludibriar as autoridades ou a manterem-se pobrezinhos. Pois é preciso não esquecer que a nova legislação prevê que a alteração da condição económica que determinou a atribuição da casa social pode levar a que esta seja retirada. Não é preciso ter muita imaginação para perceber o que vai resultar daqui.
A actual legislação é tão ou mais autoritária do que a anterior. E dificilmente pode ser doutro modo, porque os bairros sociais comportam em si mesmos uma visão paternalista e autoritária sobre aqueles que para lá vão residir. Se os governos e as autarquias querem apoiar determinadas pessoas a ter uma casa, devem fazê-lo mas não criando condomínios de assistencializados, cuja vida se propõem controlar daí em diante. Paguem nos mais diversos bairros e ruas a renda ou as prestações da casa àqueles que os serviços sociais entenderem e deixem de criar reservas de tutelados. jornalista



- Em menos de 24 horas tivemos, em primeiro lugar, Vital Moreira propondo um imposto europeu. Horas depois já íamos num imposto mundial sugerido por Almeida Santos. Entretanto, na Assembleia da República, o PCP propõe alterações extraordinárias ao sistema fiscal que permitam aumentar as taxas sobre os bens de luxo, transacções bolsistas e aquilo que o PCP designa como "lucros milionários das empresas". Amanhã, certamente, outras propostas do mesmo teor surgirão. Na falta de dinheiro para sustentar um Estado que gasta cada vez mais com a sua própria máquina, a nomenklatura desdobra-se em argumentos para retirar esse dinheiro do único lugar onde ele existe: o bolso dos contribuintes.
A este ritmo de criação de impostos creio que só temos duas hipóteses: ou declaramos insolvência, ou pedimos à Assembleia da República que nacionalize o país. A Constituição até o permite e era um sossego. Caso contrário, acabamos como o cavalo do inglês. Ele desabituou-se de comer. Nós vamos habituar-nos a entregar tudo ao Estado.
Ele morreu. Nós ainda não sabemos o que nos vai acontecer, mas tal como Cristo e Marx também não devemos ficar lá muito bem.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Perseguição

João César das Neves

DESTAK | 28 | 05 | 2009 08.26H

Existe uma regra simples que se deve sempre usar na busca pela justiça social: quando se ouve alguém denunciar violentamente uma perseguição é bom ver quem ele, com isso, pretende perseguir. Este princípio resulta de dois factos simples. Primeiro, os verdadeiros perseguidos raramente têm voz; por isso não são eles que estão a falar.

Segundo, a maior parte dos ataques foram sempre justificados como retribuição por anteriores agravos. As coisas raramente são simples, separadas em bom e mau e todos têm culpas. A denúncia brutal de alguém costuma ser uma mera preparação para o agredir.

Foram os alegados atentados a alemães nos Sudetas e Danzig que justificaram a intervenção de Hitler na Checoslováquia e a invasão da Polónia. Quando os historiadores positivistas começaram a escrever a história da Inquisição e das Cruzadas, a finalidade não era reparar esses antigos crimes, mas preparar a mais terrível perseguição de sempre à Igreja Católica.

Hoje fala-se muito de terroristas e fundamentalistas islâmicos, mas é o Afeganistão e o Iraque que estão a ser bombardeados. Foi em nome da dignidade das mulheres supostamente presas que se justificou a promoção do aborto, o maior genocídio da actualidade. A defesa dos homossexuais discriminados acaba em ataques à família e à religião e muitos esforços na protecção do ambiente não passam de formas de extorsão a empresas.

É sempre boa ideia ver quem são aqueles que a opinião pública do momento denuncia como agressores e perseguidores. Esses serão, em contraposição, aqueles a que a sociedade se prepara para atacar.

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Frase do dia

Em questões de estilo, nadar com a corrente; em questões de princípio, firme como uma rocha
Thomas Jefferson (1743-1826)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O nosso mal


O nosso mal é sono. Chega-se a casa tarde; tarde se janta; tarde se arruma a cozinha; tarde se acende a televisão; tarde se resmunga sobre os assuntos de família; tarde se acorda no sofá; tarde se deita… E cedo se levanta. Que vida é esta? Um disparate pegado.

Com sono tudo se faz, excepto pensar. Excepto sorrir. Excepto ouvir. Excepto prever. Excepto planear. Excepto ter gosto no trabalho, na família e no convívio com os colegas; e muito menos com os chefes. Excepto sonhar acordado, sobretudo com o fim de semana… em que novamente a gente se deitará tarde.

É verdade que, mesmo assim, somos capazes de meter-nos no trabalho até às orelhas, até porque, se não, despedem-nos, ou desclassificam-nos, ou falimos. Mas que não nos incomodem com mais nada! Estamos fartos!

Depois, não há quem entenda esta mulher, quem ature este marido; quem compreenda estas crianças; quem suporte estes sogros; quem tenha pachorra para os eternos problemas daquele irmão, ou do sócio…

E ainda por cima, esta crise! Mais os engarrafamentos…

Não é o nosso único mal, o sono, mas é um dos mais insidiosos e que nos passa mais despercebido.

Pe. Hugo de Azevedo


fonte: Boletim da Capelania, Junho de 2009

via: "É o Carteiro"

Conferência Prevenção de Consumos na Adolescência

CONFERÊNCIA

ASSOCIAÇÃO DE PAIS DO COLÉGIO DE SÃO JOÃO DE BRITO

(com o apoio da Direcção do Colégio)

«Função da família

na prevenção de consumos

na adolescência»

Todos nos preocupamos com o crescimento

saudável dos nossos filhos,

livre de qualquer tipo de dependências....

Mas todos sabemos

que os perigos estão à nossa volta

e nem sempre sabemos como os prevenir....

Para conversar connosco sobre esta temática convidámos a Dra. Isabel Marques de Abreu,

psicóloga/terapeuta familiar

e o Dr. Manuel Vilhena,

antigo aluno do Colégio, psicólogo

ambos terapeutas da Associação Vale de Acór/Projecto Homem

dia 28 de Maio, quinta-feira, às 21h15

(AUDITÓRIO PRINCIPAL DO COLÉGIO SÃO JOÃO DE BRITO)

Que S. Nuno de Santa Maria nos perdoe a todos.

J. Filipe Lamelas
(26.04.2009 - Almada)
Infovitae, 20090527
Será que é demasiada ousadia dizer que não seríamos este rectângulo se ele não existisse? Não seríamos uma outra coisa qualquer que não Portugal? Orgulhosamente nós!? Seu génio de militar estratega, liderança unanimemente aceite e desejada, levou esta lusitana gente às vitórias mais impensáveis na peleja das armas, aliadas à diplomacia sábia e carismática. Um homem de missão, vivendo tudo em cada coisa em que a sua vida se fazia. Uma vida em que tudo tinha de ter sentido e coerência. A paz tinha que ter sentido como a guerra tinha de ser um mal absolutamente menor. Nada o demovia das causas justas. E quando uma dessas enormes causas sua foi Portugal, ei-lo cerrando fileiras com a bandeira das quinas, montando as mais sofisticadas estratégias e tácticas belicosas da altura (aliando seu génio militar, a uma fé inquebrantável num Deus que lhe seria justo por a suas batalhas sempre nascerem de causas justas). Fazia com a máxima devoção tudo o que fazia. Por isso vencia. E havia tempo para tudo, não dispensando o tudo em cada coisa. Ouvia os que o rodeavam e que com ele ousavam, mas nunca, em circunstância alguma, dispensava os silêncios conselheiros que ouvia misticamente na sua cela (cela de que nunca prescindiu mesmo que no meio da balbúrdia ensurdecedora das espadas cortantes e dos gemidos agonizantes dos que caíam, de cá ou de lá) implorando o caminho certo ao Deus das cinco chagas.
Este homem que com a sua espada e um punhado de companheiros valorosos desenharam definitivamente as linhas de terra que nos sobrou de uma diáspora em que o sol nunca se punha. E, depois de tamanha obra levantada (com sangue suor, lágrimas e aparições celestiais) optou pelo quase nada de uma cela de ermitão do carmelo dizendo NÃO ao império dos sentidos que os grandes do reino justicimamente lhe quiseram ofertar. Às honras de títulos disse: NÃO. À imensidão de terras conquistadas disse: NÃO. Terminada a sua missão na terra portuguesa foi continuar a sua missão entre os sem-terra e coisa nenhuma…que até o soberano do poder temporal se envergonhou (e impediu) que andasse nas ruas de Lisboa pedindo pão por Deus! Podendo ter tudo aqui na terra, tudo deixou para os que ficaram famintos da cobiça humana e foi atrás do pão do céu e a sede matando-a de infinito.
Eis o Santo Condestável, que o povo cedo logo apregoou por todas as terras de Portugal. E aí o temos nos altares de Roma e mundo fora (que nem sei se isso queria, tal a humildade nazarena do seu ideal de homem peregrino rumo à cidade de Deus). Roma decidiu, finalmente, e Portugal tem nos altares o herói que muito cedo na escola aprendi a admirar, mas que, receio bem que as gerações que agora pisam o chão das nossas escolas, tenham alguma ideia da enormidade desta multifacetada personagem da nossa história e, agora subido á adoração dos altares do mundo cristão.
É simplesmente confrangedor que, o homem que nos devolveu a independência, quase a saque de Castela, não tenha sido lembrado pelo povo por que tanto lutou! Temos esse defeito de não amarmos o que é nosso! De não cuidarmos de tantas coisas boas que temos e fizemos ao longo de tantos séculos de história por que Portugal se fez.
Que se passa com os portugueses? Que cultura queremos? Que heróis queremos? Que ideais queremos deixar aos nossos filhos? Se S. Nuno de Santa Maria fosse francês, americano, ou inglês, quantos livros escolares e outros, quantos filmes empolgantes, peças teatrais, debates, homenagens parlamentares, e estátuas nas praças públicas? Não conheço tema tão empolgante de nobreza de humanidade como este homem santo e bem português!
Quantas escolas de Portugal aproveitaram a canonização do nosso herói e santo, para ensinarem aos alunos estes referenciais de homem pleno dos mais nobres valores? Que fez o Ministério da Educação, Cultura e outros legítimos responsáveis, aproveitando o momento da visibilidade interna e externa desta canonização? Era tão fácil pôr as crianças e jovens a fazerem trabalhos (ao nível de cada um e de cada circunstância em que estivessem) sobre este magnífico personagem. Na história portuguesa, que é singularmente longa, contam-se pelos dedos de uma mão as figuras públicas que, tendo servido a causa pública (mais ou menos empolgantemente) se afastou de cena definitivamente…e sem delapidar Portugal?! O último santo português fez isso, e de tal forma que nem conheço algo que se aproxime sequer de tamanho despojamento da vã glória das luzes da ribalta! Em Roma apenas se ouviam a chilreada de uns quantos bravos escuteiros e muito pouco mais…
A ingratidão dos homens tem destas coisas. Empanturraram-nos com as habituais e fastidiosas cerimónias do 25 de Abril, recordando, merecidamente, os que nos proporcionaram um bocadinho mais de liberdade (não de democracia, pois essa só existe se houver justiça social…e essa não existe agora, como dantes não existia). No dia seguinte, o dia da consagração eclesiástica do maior herói nacional (que nos deu a liberdade de sermos orgulhosamente portugueses, a nação que ele salvou da pilhagem gentia) ninguém foi capaz de sair á rua engalanado por tão simbólico momento histórico. Finada está a nação que não conhece ou reconhece e homenageia os seus ícones à altura da sua grandeza!
Em momentos tão difíceis como os que o mundo, e particularmente nós portugueses, está a viver, são os marcos desta memória colectiva de nobreza de ideais, que devem ser trazidos e enaltecidos para o nosso quotidiano triste, enfadonho e vazios, a fim de todos encontrarmos algum sentido para as nossas vidas. São os homens e santos com a fibra destes que nos fazem acreditar que o sonho é sempre possível, por mais espinhoso que possa ser o caminho presente. Como eles venceram, e nas dificuldades em que mantiveram a bandeira da esperança no ar, também nós podemos vencer. Os nossos heróis e santos conseguiram, por isso, também nós podemos conseguir. Yes we can! São estas oportunidades, de retirarmos lições lindas e fortes da nossa história, que constantemente desperdiçamos, e desta vez de uma forma absolutamente cretina e ingrata.
Que S. Nuno de Santa Maria nos perdoe a todos e ilumine os homens e mulheres da nação em que tão convictamente acreditou e por que heroicamente combateu.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Deseducação sexual

João César das Neves

DN20090525

Aeducação sexual é indispensável na formação de todos. Por isso, as escolas devem interessar-se pelo tema e dar aulas sérias e formativas. Há anos que a questão é discutida nos meios didácticos e políticos e o Parlamento tem analisado sucessivos projectos de lei. Apesar disso, a educação sexual não melhorou nem se prevê que melhore nas próximas décadas em Portugal. Os responsáveis só complicam um assunto que não precisa de ajuda para ser difícil.

A educação política também é essencial e as escolas devem incluí-la. Mas que pensaria se esses programas lectivos fossem baseados nos projectos de um partido minoritário e extremista, por exemplo o Bloco de Esquerda? Que acharia se na escola as crianças e jovens aprendessem que "a energia deve ser pública" (porque não o pão?), que no meio da crise se deve adoptar a semana de 35 horas e palermices semelhantes? Para não falar na ditadura do proletariado e revolução permanente, escondidas nas suas raízes maoístas e trotskistas. Seria um terrível abuso do sistema educativo.

É exactamente essa infâmia que tem sido cometida nos últimos anos no campo da educação sexual escolar. Um grupo de iluminados, defendendo fanaticamente posições extremistas que assumem como únicas razoáveis, tem capturado o ensino impondo essas ideias como "educação sexual". Ideias que, por acaso, são opostas às da maioria das famílias portuguesas, que esses especialistas desprezam como conservadora e tacanha, pretendendo iluminá-la do alto da sua ciência.

De forma sub-reptícia nos corredores do ministério ou abertamente nos debates políticos, tem-se assistido a intensa campanha para coagir a sociedade a seguir alguns princípios, autodenominados de progressistas, justos e livres. Esses princípios são aqueles a que a sociedade até há pouco chamava "porcalhões". As aulas devem mostrar órgãos sexuais às crianças e explicar os detalhes de carícias, coito e contracepção. A masturbação é natural, o impulso sexual deve ser promovido, se praticado com segurança, e há perfeita equivalência entre todas as opções sexuais. Pudor, castidade e matrimónio são disparates.

Já deve ter reparado que no nosso tempo existe uma intensa controvérsia acerca das questões da família e do sexo. Aspectos consensuais há milénios são momentaneamente polémicos e vivemos enorme confusão de valores e critérios. Isso não nos deve escandalizar, porque todas as gerações têm os seus debates fundamentais. Se vivêssemos há uns séculos, ver-nos-íamos envolvidos em discussões, hoje abstrusas, acerca do sistema político, empresarial ou religioso. Aliás são os mesmos activistas revolucionários que, órfãos dessas antigas lutas político-económicas, vêm agora atacar a instituição familiar com a fúria dos velhos combates laborais. A alcova substituiu a empresa e o direito à greve foi trocado pelo direito ao deboche. Os esquerdistas andam agora paradoxalmente aliados a marialvas e proxenetas.

Em consequência, o Governo, incapaz de resolver desemprego e falências, preocupa- -se com a facilitação do divórcio dos casais e a promoção do casamento de homossexuais. Os ministros, que fizeram explodir o défice, subsidiam abortos e querem distribuir preservativos gratuitos nas escolas. O mais incrível é não se darem conta do ridículo. As gerações futuras vão rir à grande com a tolice dos nossos políticos que pateticamente se encarniçam a regular o baixo-ventre.

Devemos terçar armas nas lutas do momento mas sem temer pelos valores vitais. Em breve, as posições extremistas contra o matrimónio e a castidade, hoje julgadas indiscutíveis e gritadas com fúria, serão tão cómicas e obsoletas como são as ideias económicas do Bloco de Esquerda, tão respeitadas há 50 anos (altura em que também o PS as defendia). As tolices acabam sempre vencidas. O mal são as vítimas que criam entretanto.

Felizmente, não são os partidos, deputados e especialistas em educação que dão aulas, mas os professores. Professores que em geral têm filhos e amam a família. O mundo é sempre melhor que a caricatura legal.

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

domingo, 24 de maio de 2009

A ascensão do Senhor

Homilia da Ascensão do Senhor, Alverca, 20090524

Giovanni Musazzi

A festa que hoje celebramos é a festa do humano: na casa de Deus a Ascenção é a festa do humano porque Deus permite que através de Jesus, com Jesus, o homem entre pela primeira vez no domínio profundo no qual o Pai do Céu cria todas as coisas, instante a instante, conhecendo-as melhor do que uma mãe conhece o seu filho. Ascenção aos Céus significa que Cristo desceu à raiz de todas as coisas: à raiz de cada rosto, à raiz de cada flor, estrela, de cada coisa.

Precisamente por isso podemos chamá-la festa do milagre. O que é o milagre? O milagre é um acontecimento que pela sua própria natureza, pela sua própria força pode, imediatamente, chamar atenção para algo que está fora do meu horizonte, algo misterioso, algo que chama a atenção para o Mistério de Deus.

Reconhecer o milagre não é uma coisa de crianças: as crianças são naturalmente positivas, estão naturalmente dispostas a ver a positividade das coisas e, normalmente, não são capazes de perceber a diferenca própria do milagre. A sua compreensão é própria do homem adulto, do velho: a palavra milagre explica todos os caminhos da nossa vida, explica todas as estradas da nossa existência, a realidade como um universo de coisas. Que do nada emerja a minha pessoa, a tua pessoa, tudo o que há no mundo, porque nenhuma coisa se faz sozinha. A maravilha da criança diante do que sucede, no homem adulto torna-se reflexão: nada se faz, existe por si, mas apela a Deus.

Assim é o primeiro milagre: a minha existência: ser; ter a vida; que eu seja. Pensemos um momento nas nossas vidas: é um milagre poder viver, poder estar aqui, com o nosso carácter e as nossas pessoas, com as coisas que temos, com as nossas histórias. Não sei quantos de nós, tendo acordado esta manhã pensaram que podiam não estar vivos, que podiam não ter o que têm. Então é um milagre: um facto positivo, normalmente não merecido, que sucede nas nossas vidas.

Mas também é um milagre o facto de estar aqui: um povo que se reúne e que me obriga a estar mais atento, a ser mais coerente, que me ajuda a rezar melhor, me faz mais capaz de reparar no que sucede; um povo que ajuda a minha vida a ser mais vida.

Sim, tudo é milagre.

Esta palavra encontra o seu complemento quando se liga à palavra Jesus. Temos que imaginar os primeiros discípulos: Jesus agrupa-os, absorve-os um por um, como parte da sua própria humanidade. “Já não existe judeu ou grego, mas todos são um em Cristo”: é a força do Baptismo que nos cria de novo.

Todo o nosso estar juntos é para realizar isso. E, curiosamente, só disso nasce a moral; não se trata de realizar uma perfeição impossível; trata-se de uma devoção a Ele, à sua presença no mundo. Quando recebemos a comunhão, quando rezamos, quando vamos trabalhar, a nossa principal preocupação é ser, em primeiro lugar, fiéis a este milagre.

A vida é um milagre.

A festa da Ascenção ensina-nos a história desse Homem, Jesus, que se fez o nosso companheiro de caminho, irmão e redentor, que desceu até a profundidade última das coisas; através d’ Ele, aprendemos como Deus faz as coisas; entramos na paciência e ternura de Deus.

O milagre dos milagres é o mesmo Cristo: nesta missa pedimos-Lhe para nos abandonarmos a Ele, para o seguirmos fielmente, como uma criança segue a sua mãe, apesar dos seus erros, apesar das nossas traições. Que possamos voltar todas as manhãs com a mesma humildade e o mesmo desejo de O seguir.

Peçamos que a alegria que dá a Sua presença possa ser para todos.

É escolinha, de facto

DN 20090524 Alberto Gonçalves

Quem ouvir acerca da professora de História gravada em flagrante delito verbal e suspensa em consequência? Os alunos que a consideram "espectacular"? As crianças acham "espectacular" qualquer criatura que não as mace com instrução ortodoxa. Os alunos que colaboraram na cilada? Os petizes treinados na denúncia e os pais que os treinam não merecem grande apreço. Os legalistas que se concentram na ilicitude da gravação? Como se notou, ou devia ter-se notado, em trapalhada judicial recente, a invalidez da prova não anula, ou não devia anular, os indícios presentes na mesma. Os furiosos que querem linchar, figurativa ou literalmente, a senhora? A tal trapalhada judicial recente ensinou a todos a beleza da inocência presumida. Os castos que aproveitaram para invocar os perigos da educação sexual? A franqueza lúbrica da senhora não será norma. A senhora propriamente dita? É difícil levar a sério uma pessoa que agita um portentoso mestrado e ameaça os discentes com um "No que te metestes!" (sic). A directora regional de Educação? A sra. Margarida Moreira não comenta o caso, decerto por andar ocupada a enviar às escolas "e-mails" (repletos de erros) de louvor aos seus quatro anos de mandato na DREN. A sra. ministra? Para quê?

O melhor é esquecer o episódio, daqueles que excitam multidões durante uns dias e, no fim, não ensina nada a ninguém. No fundo, trata-se de uma perfeita metáfora do nosso ensino, tão perfeita que arrisca deixar de ser metáfora para se confundir com o ensino que temos, essa aberração que habita o fundo do poço e que, de longe a longe, uma gravação clandestina traz à superfície. Traz ou, diz o ministério do ramo no site dedicado à "e-escolinha", "trás".

Aplicadores

PÚBLICO, 24.05.2009, António Barreto Retrato da semana

Todos sentem que o ano foi em grande parte perdido. Pior: todos sabem que a escola está, hoje, pior do que há um ano


A publicação, pelo Ministério da Educação, do Manual de Aplicadores não passou despercebida. Vários comentadores se referiram já a essa tão insigne peça de gestão escolar e de fino sentido pedagógico. Trata-se de um compêndio de regras que os professores devem aplicar nas salas onde se desenrolam as provas de aferição de Português e Matemática. Mais precisos e pormenorizados do que o manual de instruções de uma máquina de lavar a roupa. Mais rígidos do que o regimento de disciplina militar, estes manuais não são novidade. Podem consultar-se os dos últimos quatro anos. São essencialmente iguais e revelam a mesma paranóia controladora: a pretensão de regulamentar minuciosamente o que se diz e faz na sala durante as provas.

Alguns exemplos denotam a qualidade deste manual: "Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual." "Continue a leitura em voz alta: Passo agora a ler os cuidados a terem ao longo da prova. (...) Estou a ser claro(a)? Querem fazer alguma pergunta?" "Leia em voz alta: Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo, até que eu diga que as voltem." "Leia em voz alta: A primeira parte da prova termina quando encontrarem uma página a dizer PÁRA AQUI! Quando chegarem a esta página, não podem voltar a folha; durante a segunda parte, não podem responder a perguntas a que não responderam na primeira parte. Querem perguntar alguma coisa? Fui claro(a)?" Além destas preciosas recomendações, há dezenas de observações repetidas sobre os apara-lápis, as canetas, o papel de rascunho, as janelas e as portas da sala. Tal como um GPS ("Saia na saída"), o manual do aplicador não se esquece de recomendar ao professor que leia em voz alta: "Escrevam o vosso nome no espaço dedicado ao nome." Finalmente: "Mande sair os alunos, lendo em voz alta: Podem sair. Obrigado(a) pela vossa colaboração"!
A leitura destes manuais não deixa espaço para muitas conclusões. Talvez só duas. A primeira: os professores são atrasados mentais e incompetentes. Por isso deve o esclarecido ministério prever todos os passos, escrever o guião do que se diz, reduzir a zero quaisquer iniciativas dos professores, normalizar os procedimentos e evitar que profissionais tão incapazes tenham ideias. A segunda: a linha geral do ministério, a sua política e a sua estratégia estão inteiras e explícitas nestes manuais. Trata os professores como se fossem imaturos e aldrabões. Pretende reduzi-los a agentes automáticos. Não admite a autonomia. Abomina a iniciativa e a responsabilidade. Cria um clima de suspeição. Obriga os professores a comportarem-se como robôs.
A ser verdadeira a primeira hipótese, não se percebe por que razão aquelas pessoas são professores. Deveriam exercer outras profissões. Mesmo com cinco, dez ou 20 anos de experiência, estes professores são pessoas de baixa moral, de reduzidas capacidades intelectuais e de nula aptidão profissional. O ministério, que os contratou, é responsável por uma selecção desastrada. Não tem desculpa.
Se a segunda for verdade, o ministério revela a sua real natureza. Tem uma concepção centralizadora e dirigista da educação e da sociedade. Entende sem hesitação gerir directamente milhares de escolas. Considera os professores imbecis e simulados. Pretende que os professores sejam funcionários obedientes e destituídos de personalidade. Está disposto a tudo para estabelecer uma norma burocrática, mais ou menos "taylorista", mais ou menos militarizada, que dite os comportamentos dos docentes.

Oano lectivo chega ao fim. Ouvem-se gritos e suspiros. Do lado, do ministério, festeja-se a "vitória". Parece que, segundo Walter Lemos, 75 por cento dos professores cumpriram as directivas sobre a avaliação. Outras fontes oficiais dizem que foram 57. Ainda pelas bandas da 5 de Outubro, comemora-se o grande "êxito": as notas em Matemática e Português nunca foram tão boas. Do lado dos professores, celebra-se também a "vitória". Nunca se viram manifestações tão grandes. Nunca a mobilização dos professores foi tão impressionante como este ano. Cá fora, na vida e na sociedade, perguntamo-nos: "vitória" de quem? Sobre quê? Contra quem? Esta ideia de que a educação está em guerra e há lugar para vitórias entristece e desmoraliza. Chegou-se a um ponto em que já quase não interessa saber quem tem razão. Todos têm uma parte e todos têm falta de alguma. A situação criada é a de um desastre ecológico. Serão precisos anos ou décadas para reparar os estragos. Só uma nova geração poderá sentir-se em paz consigo, com os outros e com as escolas.

Olhemos para as imagens na televisão e nos jornais. Visitemos algumas escolas. Ouçamos os professores. Conversemos com os pais. Falemos com os estudantes. Toda a gente está cansada. A ministra e os dirigentes do ministério também. Os responsáveis governamentais já só têm uma ideia em mente: persistir, mesmo que seja no erro, e esperar sofridamente pelas eleições. Os professores procuram soluções para a desmoralização. Uns pedem a reforma ou tentam mudar de profissão. Outros solicitam transferência para novas escolas, na esperança de que uma mudança qualquer engane a angústia. Há muitos professores para quem o início de um dia de aulas é um momento de pura ansiedade. Foram milhares de horas perdidas em reuniões. Quilómetros de caminho para as manifestações. Dias passados a preencher formulários absurdos. Foram semanas ocupadas a ler directivas e despachos redigidos por déspotas loucos. Pais inquietos, mas sem meios de intervenção, lêem todos os dias notícias sobre as escolas transformadas em terrenos de batalha. Há alunos que ameaçam ou agridem os professores. E há docentes que batem em alunos. Como existem estudantes que gravam ou fotografam as aulas para poderem denunciar o que lá se passa. O ministério fez tudo o que podia para virar a opinião pública contra os professores. Os administradores regionais de Educação não distinguem as suas funções das dos informadores. As autarquias deixaram de se preocupar com as escolas dos seus munícipes porque são impotentes: não sabem e não têm meios. Todos estão exaustos. Todos sentem que o ano foi em grande parte perdido. Pior: todos sabem que a escola está, hoje, pior do que há um ano.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Eu gravo-te, tu gravas-me, ele grava-o...

PÚBLICO, 21.05.2009, Helena Matos

De cada vez pensamos que já vimos tudo o que tínhamos para ver. Umas semanas depois descobre-se algo de muito pior

...E assim sucessivamente nos andamos a gravar uns aos outros.
- Se quiseres eu mostro-te as provas.
- Ai tem? E quer que lhe faça também um desenho?
Estas são algumas das frases trocadas entre a professora da escola de Espinho e uma das alunas que se ouve na gravação. Nada disto tem o mínimo de razoabilidade ou é sequer moralmente aceitável. Mas, se virmos bem, é assim que o país está, entre o demente e o acanalhado, com uns a dizerem "Se quiseres eu mostro-te as provas" e os visados a responderem "Ai tem? E quer que lhe faça também um desenho?"
Já tínhamos tido as imagens captadas por um telemóvel que mostravam uma professora a ser agredida dentro da sala de aula. Já tivemos também as gravações de gangs a dispararem e agredirem quem lhes apeteceu. E, claro, temos o folhetim das gravações do senhor Smith. De cada vez que uma destas gravações é revelada supõe-se que já se viu tudo o que se tinha para ver. Umas semanas depois descobre-se que temos para visionar algo de muito pior e assim vamos embalados em play nesta estranha forma de vida em que uns gravam, outros são gravados e o povo visiona.
Honestamente temos de admitir que as gravações clandestinas são o que de mais relevante a nossa memória guarda dos últimos anos em Portugal. Já não nos lembramos dos factos em si mesmos, mas não esquecemos o momento em que aquelas imagens, captadas às escondidas, passaram pela primeira vez diante dos nossos olhos. Tal como os voyeurs que só obtêm prazer observando o sexo dos outros, também os portugueses se satisfazem vendo imagens captadas clandestinamente e que na verdade não revelam nada que já não saibamos. Que existem professores que não têm condições para o ser é um dado incontornável. Que a indisciplina se instalou nas escolas é um facto. Que os gangs impõem as suas regras nuns bairros por ironia chamados sociais é óbvio. E quanto aos mecanismos para obter licenciamentos explicados ao vivo pelo senhor Smith também sabemos que pouco têm de original. Muito mais sofisticado e danoso para o país do que o Freeport foi o processo da Cova da Beira e dúvidas muito mais sérias se colocam nesse caso em relação ao procedimento de José Sócrates. Mas como não existem gravações clandestinas na Cova da Beira mas sim factos, o assunto não suscita interesse ao visionador a que está reduzido cada português. Digamos que não se perde grande coisa com o facto de não existirem gravações secretas do caso Cova da Beira. Ou seja, apenas se perde espectáculo, pois tal como os voyeurs não têm actividade sexual propriamente dita, satisfazendo-se em espreitar os outros, também os cidadãos-visionadores se esgotam na reacção de indignação aquando do visionamento. Em seguida, já satisfeitos, caem numa abulia da qual só serão brevemente despertos por uma gravação ainda mais alarve.
O que é grave nestas gravações não é portanto o que elas mostram acerca dos desgraçados que nelas surgem, mas sim o que elas mostram sobre nós. Sobre a nossa demissão em relação ao país. Por exemplo, o que é que já fizemos para flexibilizar a escolha das escolas pelas famílias? Recordo que as escolas têm tido de manter em funções professores não apenas perturbados como a senhora da gravação da escola de Espinho, mas também gente acusada de crimes graves, como a pedofilia, ou até condenada por eles. Se, no ensino público, os pais pudessem mudar os seus filhos de escola ou de turma, os professores problemáticos não desapareciam mas certamente que não se arrastariam anos e anos pelas escolas até que resolvessem concorrer para outro lado. O estranhíssimo universo revelado pelas gravações efectuadas nas salas de aula é o resultado inevitável daquilo que não temos tido coragem nem paciência para mudar na educação.
Em 2009, o país vive sob a perversão do voyeur, aquele que trocou o fazer pelo ver: o povo tornou--se não na razão de ser do regime mas sim no seu visionador. Não por acaso vemos os movimentos radicais interrogando-se todos os dias sobre o momento em que também em Portugal se verão essas imagens de pneus a arder, gente de cara tapada apedrejando sedes de empresas e gestores sequestrados. Isso não resolve nada e contribui para uma mais acelerada deslocalização das empresas. Obviamente quem anseia por esses acontecimentos sabe-o muitíssimo bem. Mas sabe também que essas imagens refrescariam o imaginário do cidadão--visionador. Infelizmente não é apenas a insolente gaiata da gravação que anda para aí a perguntar : "E quer que lhe faça também um desenho, s'tora?" Tanto quanto sei, estão dez milhões à espera para ver. (helenafmatos@hotmail.com)


A polémica. "Para travar a polémica e procurar um consenso, o deputado Pedro Nuno Santos, secretário-geral da Juventude Socialista (JS), explica que a maioria socialista quer envolver as unidades de saúde nessa distribuição de contraceptivos" - elucidava a TSF num daqueles dias em que a voz de quem lê os noticiários tremelica na antecipação de mais uma questão fracturante que divida o país em progressistas inteligentes e reaccionários estúpidos. Cabe perguntar a que polémica se refere o secretário-geral da Juventude Socialista. Na verdade não existe polémica alguma, nem pode existir. Há décadas que as unidades de saúde distribuem gratuitamente em Portugal contraceptivos aos jovens. Convém que se recorde que nas cidades de Aveiro, Beja, Braga, Bragança, Castelo Branco, Coimbra, Figueira da Foz, Évora, Faro, Leiria, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal, Viana do Castelo, Viseu, Vila Real, Caldas da Rainha e Pombal existem gabinetes específicos para esta questão. Regra geral são designados como Gabinetes de Apoio à Saúde e Sexualidade Juvenil e, segundo informação oficial disponível a qualquer um de nós, deputado ou não, 29 enfermeiros, 27 médicos, 26 psicólogos, cinco nutricionistas, dois assistentes sociais, um dietista e um psiquiatra atendem nos mais variados horários os jovens que aí os procuram. Se destes gabinetes citadinos passarmos para as unidades de saúde que cobrem todo o país, perceberemos que já há muitos anos foram criadas consultas de planeamento familiar às quais os jovens podem ter acesso independentemente do centro de saúde em causa estar ou não na sua área de residência (infelizmente, o mesmo princípio não se adapta aos adultos!) Esta possibilidade é muitíssimo importante sobretudo nos meios mais pequenos onde é mais difícil assegurar a privacidade dos utentes. Está estabelecido até que não é necessário fazer marcação prévia para ir a uma dessas consultas. E também em Portugal, devidamente apoiados pelo Ministério da Saúde, existem escolas onde funcionam gabinetes de promoção da saúde - cuja experiência e número deveriam ser muito mais alargados -, onde os alunos não só recebem contraceptivos como informação dada por técnicos qualificados sobre planeamento familiar, doenças sexualmente transmissíveis, alimentação, alcoolismo, etc.
Donde não conseguir perceber o que pretende o deputado Pedro Nuno Santos, secretário-geral da Juventude Socialista, quando afirma que a maioria socialista quer envolver as unidades de saúde nessa distribuição de contraceptivos. Isso e muito mais e melhor já é feito há muito tempo, e o resto é conversa. Ou procura dela.


A ética republicana. A ética republicana é como o Espírito Santo: não se consegue explicar exactamente o que é, nunca se avista, mas acredita-se que opera milagres. Lembrei-me muito da ética republicana ao ver as imagens da demissão de Michael Martin, o speaker da Câmara dos Comuns. Tal como nos anos 70 era difícil explicar, em Portugal, as razões da demissão de Nixon, pois usar as polícias para espiar as campanhas dos partidos da oposição era então um direito adquirido do Governo, também hoje surge como bizarro que este homem se tenha demitido não porque ele mas sim alguns deputados tenham utilizado dinheiros públicos, ainda por cima em quantias irrisórias, em benefício próprio ou mais propriamente em benefício dos seus jardins e casas. Isto é o que acontece nos países onde a ética é simplesmente ética e não uma basófia do regime.


A tralha. A propósito ainda do pedido de demissão de Michael Martin, é interessante ver como o Parlamento inglês apresenta uma pobreza tecnológica e até uma falta de conforto constrangedores quando comparados, por exemplo, com o Parlamento português. Nenhum daqueles parlamentares britânicos exibe computadores durante as sessões, até porque, à excepção dos joelhos, não teria onde colocá-lo. Mas questionam e discutem como compete a quem tem História e presta contas ao povo. Por cá exibem computadores, sempre ligados para dar um ar de ocupação, como os funcionários das repartições.