sexta-feira, 31 de julho de 2009

O vírus da gripe A é anticlerical

Por Pe. Gonçalo Portocarrero Almada

In: Ubi Caritas, 20090731

A nota pastoral relativa aos cuidados a ter nas celebrações litúrgicas, por causa do vírus da gripe A, deu-me que pensar. Não sendo um documento de natureza científica, nunca supus que pudesse revelar a natureza do terrível vírus H1N1, mas a verdade é que esse texto esclarece definitivamente a sua maléfica estirpe.
É significativo que não se desaconselham determinados comportamentos em geral, mas apenas nas celebrações litúrgicas. Tendo em conta que a moderna concepção da caridade cristã pugna sobretudo pela imunidade pessoal e, só depois, pelo amor ao próximo, era de esperar que os pais católicos fossem impedidos de beijar os seus filhos, mas nenhum zeloso pastor veio ainda proibir que os imprudentes progenitores osculem a sua extremosa prole, a não ser que o façam na Missa.

Também seria de supor que os noivos fossem impedidos de se beijarem, mas também não consta que nenhum pároco tenha, até à data, imposto este higiénico impedimento matrimonial, excepto durante a Eucaristia. Mesmo em lugares muito frequentados, como pode ser o caso das estâncias balneares, das discotecas ou dos centros comerciais, os católicos, ao que parece, não correm qualquer perigo de contágio pois, em caso contrário, tais ambientes teriam sido desaconselhados pela sua ASAE confessional.
Estes exemplos bastam para que se possa retirar uma importante conclusão científica: o vírus da gripe A só exerce a sua perniciosa acção nas igrejas. Ou seja, é um vírus tipicamente anticlerical: daí o A que o distingue de todas as outras gripes, que são menos beatas, na medida em que também frequentam ambientes laicais; mais ecuménicas, porque também atacam fiéis de outras crenças; e até mesmo mais politicamente correctas porque, contagiando também ateus e agnósticos, provam que não discriminam as suas vítimas por razões religiosas.
Assim sendo, temo que o vírus H1N1 não seja apenas anticlerical, mas demoníaco, talvez até a expressão viral do Anticristo (que, por estranha coincidência, também tem por inicial a primeira letra do alfabeto…). De facto, este vírus não incomoda os cristãos que não se benzem com água benta, nem os que não dão o abraço da paz aos seus irmãos, nem comungam, mas apenas aqueles que, por serem mais piedosos e caridosos, humedecem os dedos com que fazem o sinal da Cruz, expressam com o ósculo a autenticidade da sua caridade e, porque estão na graça de Deus, estão aptos para receberem a sagrada comunhão. Portanto, não só é um vírus que age nas igrejas como preferencialmente atinge os fiéis que mais rezam e frequentam os sacramentos! Se isto não é diabólico, confesso que não sei o que é!
Sendo esta a natureza do nefando vírus, há que concluir que o princípio activo susceptível de o debelar não é nenhum Tamiflu farmacêutico, mas um exorcismo, que é a resposta eclesial contra as investidas do maligno. Sendo pastoral a nota que o anatematiza, era de esperar que se recomendassem meios espirituais e não apenas medidas da mais prosaica higiene, em que a Igreja Católica não parece particularmente competente, visto que já o seu Mestre não só foi acusado pelos seus contemporâneos de omitir as abluções rituais que os fariseus, pelo contrário, não dispensavam, como também tocava em leprosos e outros doentes, sem depois proceder à conveniente desinfecção.
Importa ainda expressar a mais profunda indignação pelo facto do Papa Bento XVI, não satisfeito com a sua gritante insensibilidade na questão do preservativo, insistir em promover comportamentos de risco, pois, como é sabido, só dá a comunhão aos fiéis que, ajoelhados, a recebam na boca. É caso para lamentar que a Santa Sé não esteja sujeita à pastoral da saúde da nossa terrinha. Mentes mais afoitas na teoria da conspiração, talvez não desdenhem a hipótese de algum acordo secreto entre o Vaticano e as funerárias, pois só assim se explicaria a inconsciência de um tão criminoso procedimento litúrgico que, como é óbvio, atenta contra a vida e a saúde de milhões de fiéis.
Gonçalo Portocarrero de Almada

Férias

  • · O Povo vai de férias durante o mês de Agosto.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Sé Velha de Coimbra


Alarme

João César das Neves

Destak 30 | 07 | 2009 08.04H

O papel da comunicação social é decisivo na sociedade mediática e nem sempre é bem compreendido. Sendo o espelho da comunidade, os meios informativos acabam frequentemente acusados dos males que apenas revelam. Ao mesmo tempo é preciso dizer que a forma alvoroçada e sensacionalista com que em geral relatam as questões desvirtua a sua nobre função.

Se não for grave não merece atenção e por isso tudo deve ser relatado da maneira mais assustadora possível. Muitas vezes os repórteres parecem abutres à espera do deslize, da crise, do agoiro. O que corre bem não lhes interessa e tudo o que é mau aparece empolado, repetido, escalpelizado.

O argumento usado é que o público merece ser informado. Mas o mesmo facto é relatável de formas muito diferentes, e os repórteres não têm de escolher sempre a mais alarmista. Um bom exemplo passa-se agora com a "pandemia da gripe". Os sucessivos jornais, escritos ou falados, insistem em acumular as vítimas registadas em Portugal desde o princípio, celebrando com gulosa atenção cada vez que se ultrapassa nova barreira numérica. A esmagadora maioria dessas pessoas estão curadas há muito e seguem a sua vida normal. Mas continuam a figurar numa estatística que se torna cada vez mais apavorante.

Apesar de tudo, a histeria da comunicação social é bastante melhor que o pessimismo negro e a desilusão amarga dos comentadores nacionais, nos bancos de café ou nas páginas dos periódicos. Uma pessoa alarmada tem pensamento positivo, enquanto o derrotismo nacional, por muito fundamentado que seja, só destrói.

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

As pedras preciosas no tesouro da Colegiada de Santiago do Cacém

quarta-feira, 29 de julho de 2009

G. K. Chesterton, beato?

Zenit, 20090715
Paolo Gulisano explica as virtudes do escritor britânico
Por Antonio Gaspari
ROMA, quarta-feira, 15 de julho de 2009 (ZENIT.org).- Gilbert Keith Chesterton, o escritor inglês inventor da figura do célebre padre-investigador Pe. Brown, e e autor de numerosos textos de narrativa e ensaios apologéticos, poderá ser beato.
Após a apresentação desta proposta às autoridades eclesiásticas, ZENIT entrevistou Paolo Gulisano, vice-presidente da Sociedade Chestertoniana Italiana e autor da primeira biografia em italiano do grande escritor: “Chesterton e Belloc – Apologia e profecia” (Chesterton & Belloc – apologia e profezia, Editora Ancora).
– Quem promove o pedido de beatificação?
– Gulisano: Quem propôs a beatificação de Gilbert Keith Chesterton foi a Associação cultural a ele dedicada, a Chesterton Society, fundada na Inglaterra em 1974 (por ocasião do centenário do nascimento do grande escritor) com o fim de difundir o conhecimento da obra, o pensamento e a figura deste extraordinário personagem. Há anos, se fala de uma possível causa de beatificação, e há poucos dias, durante um congresso internacional, organizado em Oxford, sobre o tema “A santidade de G. K. Chesterton”, no qual participaram os maiores expoentes no campo dos estudos chestertonianos, se decidiu sustentar esta proposta.
– Por que é beato?
– Gulisano: Muitos consideram que há uma clara evidência da santidade de Chesterton: os testemunhos sobre ele falam de uma pessoa de grande bondade e humildade, um homem sem inimigos, que propunha a fé sem rebaixar-se mas também sem confrontos, defensor da Verdade e da Caridade. Sua grandeza está também no fato de que soube apresentar o cristianismo a um público muito amplo, de cristãos e de leigos. Seus livros, desde Ortodoxia a São Francisco de Assis, desde Padre Brown a A esfera e a cruz, são brilhantes apresentações da fé cristã, testemunhada com claridade e valor frente ao mundo.
Segundo as antigas categorias da Igreja, poderíamos definir Chesterton como um “confessor da fé”. Não foi só um apologista, mas também uma espécie de profeta que percebeu com grande antecipação o caráter dramático de questões da modernidade como a eugenia. O dominicano inglês Aidan Nichols sustenta que se deve olhar para Chesterton nada menos que como possível “padre da Igreja” do século XX.
– Quais são as virtudes heróicas?
– Gulisano: Fé, esperança e caridade: estas foram as virtudes fundamentais de Chesterton. Também era inocente, simples, profundamente humilde. Ainda tendo experimentado pessoalmente a dor, era um cantor da alegria cristã. A obra de Chesterton é uma espécie de remédio para a alma, mais precisamente, pode ser definida como um antídoto. O próprio escritor havia usado a metáfora do antídoto para definir o efeito da santidade sobre o mundo: o santo tem o objetivo de ser sinal de contradição e de restituir sanidade mental a um mundo enloquecido.
– Qual é a contribuição cultural, literária, moral e de fé que Chesterton deixou à sociedade britânica e à cristã?
– Gulisano: Quando soube a notícia da morte do grande escritor, o Papa Pio XI mandou, por meio do secretário de Estado, cardeal Eugenio Pacelli, um telegrama de pêsames, no qual lamentava a perda de “um devoto filho da Santa Igreja, defensor rico de dons da fé católica”. Era a segunda vez na história que um pontífice atribuía a um inglês a qualificação de “defensor da fé”. Talvez a Secretaria de Estado não se deu conta do irônico paralelismo, que teria feito Gilbert estourar em suas gargalhadas proverbiais, pois o outro inglês havia sido Enrique VIII, o homem que inferiu à Igreja da Inglaterra a mais grave e profunda ferida. Chesterton aproximou a Inglaterra e também o mundo de Deus, da fé e da razão.
– Qual é sua avaliação sobre todo assunto?
– Gulisano: A leitura de Chesterton, seja das novelas ou dos ensaios, deixa sempre no leitor uma grande serenidade e um sentimento de esperança que deriva não certamente de uma visão da vida imatura e mundanamente otimista (que é na realidade o mais distante do pensamento de Chesterton, que denuncia detalhadamente todas as aberrações da modernidade) mas da concepção cristã, viril fortaleza da experiência religiosa.
A proposta de Chesterton é a de levar a sério a realidade em sua integridade, começando pela realidade interior do homem e de dispor confiadamente o intelecto – ou seja, o sentido comum – em sua original sanidade, purificado de toda incrustação ideológica.
Raramente se lêem páginas nas quais se fala de fé, de conversão, de doutrina, tão claras e incisivas quanto privadas de todo excesso sentimentalista ou moralista. Isto deriva da atenta leitura da realidade de Chesterton, que sabe que a consequência mais mortífera da descristianização não foi o gravíssimo extravio ético, mas o extravio da razão, sintetizado neste juízo seu: “O mundo moderno sofreu uma queda mental muito mais consciente que a queda moral”.
Frente a este cenário, Chesterton elege o catolicismo, e afirma que existem ao menos dez mil razões para justificar esta eleição, todas válidas e muito fundadas mas relegadas a uma única razão: que o catolicismo é verdadeiro, a responsabilidade e a tarefa da Igreja consistem portanto nisto: no valor de crer, em primeiro lugar, e portanto denunciar as vias que conduzem ao nada ou à destruição, a um muro cego ou a um preconceito. Uma obra indubitavelmente santa, e a santidade de Gilbert Chesterton, que espero a Igreja possa reconhecer, brilha e resplandece ante o mundo.

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Frase do dia

Justiça na vida e na condução do Estado só é possível se primeiro reside na alma e coração dos cidadãos

Platão

terça-feira, 28 de julho de 2009

Frase do dia

Excelência é uma arte que se domina com treino e habituação. Não agimos correctamente porque temos a virtude da excelência, mas podemos possuí-la porque agimos correctamente. Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, portanto, não é um acto, mas um hábito

Aristóteles

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A ética da estética

João César das Neves

DN20090727

Magritte é um grande génio, dos maiores de sempre. Os seus quados interpelam-nos de uma forma inesperada

Qual o valor ético da arte? A pergunta hoje surge aberrante. A arte é a arte, e está acima das questões humanas. Os autores sentem-se com a função eminente de criar coisas novas e por isso superiores aos demais. Num tempo que recusa o sublime e o transcendente, os valores estéticos ocupam o lugar do divino. Não parece fazer sentido sujeitar a arte a coisas como a ética.

O papel dos trabalhos artísticos mudou muito através dos séculos. Na origem é provável que música e pintura das cavernas tivessem propósitos mágicos ou encantatórios. Com a chegada da civilização, mudou a função mas não o tema. A maioria dos artistas da Antiguidade trabalhava representando o divino, nos templos dos deuses e nos palácios do faraó ou imperador, deuses visíveis. A situação manteve- -se na Cristandade com a arte sacra dominante. Deste modo, se os artistas perderam os poderes espirituais da pré-história, recebiam dignidade ética directamente do Céu.

Com a prosperidade da "revolução comercial", ganhou força uma nova forma de expressão ligada ao conforto dos ricos. Artes decorativas, retratos de família e música de câmara era algo que a Antiguidade vira apenas em surtos fugazes, nos períodos de florescência, mas que se popularizou na Europa da Baixa Idade Média.

Este confronto entre as duas formas de arte, sacra e profana, foi-se travando ao longo dos séculos. Se em Giotto (1267-1337) e Dante (1265-1321) dominava a expressão do sublime, Petrarca (1304-1374) e Van Eyck (1395-1441) também tratavam temas familiares e comuns. No Renascimento, mitologia e Bíblia eram ainda a inspiração de Miguel Ângelo (1475-1564) e Rafael (1483-1520), mas a pintura mais famosa acabou por ser um simples retrato de uma burguesa, a jovem Lisa del Giocondo (1479-1542) pintada aos 20 anos por Leonardo (1452-1519) em 1503.

A Idade Moderna, com as guerras de religião seguidas por revoluções, foi a pouco e pouco transformando a arte, de uma forma de oração ou adereço de conforto, em arma de intervenção. Murillo (1617-1682) e Bach (1685-1750) são devotos e Rembrandt (1606-1669) e Mozart (1756-1791) pretendem agradar aos patronos; mas David (1748-1825) e Beethoven (1770-1827) querem transformar a sociedade. Nessa altura, como disse Marx em 1845, não se tratava de interpretar o mundo, mas de o mudar (Theses on Feuerbach, 11).

Curiosamente, nesse tempo em que a humanidade se assumia como divina, o Romantismo de homens como Byron (1788-1824), Manet (1832-1883) ou Chopin (1810-1849) combinava o dramatismo insurrecto com a mais prosaica emotividade burguesa. Foi o período em que a arte se pretendeu mais próxima da moral positiva, na construção da justiça social ou da relação amorosa. Mas esta aproximação entre ética e estética acabou na ruptura.

A geração seguinte recusou a instrumentalização política ou doméstica da sua actividade e procurou afirmar algo totalmente novo na história do mundo: a arte pela arte. A estética era a ética. Depois de ferramenta de feitiçaria, expressão do divino, forma de bem-estar ou arma de revolução, a obra hoje julga-se a sua própria medida e finalidade. As pessoas são meros objectos da arte, não sujeitos ou observadores.

Símbolo disso são os retratos de Edward James (1907-1984), poeta britânico e mecenas do surrealismo. Grato pelo apoio recebido, o pintor belga René Magritte (1898-1967) fez nada menos do que duas representações do seu patrono. Mas no primeiro, La reproduction interdite de 1937, o jovem aparece de costas diante de um espelho. Só que o espelho, segundo as regras excêntricas da escola, mostra-nos a imagem também de costas. Talvez arrependido da brincadeira genial, o artista voltou ao tema no mesmo ano, com Le principe du plaisir. Aí o amigo está de frente para nós. Mas a sua cabeça é substituída por uma explosão de luz.

Magritte é um grande génio, dos maiores de sempre. Os seus quadros interpelam-nos de uma forma inesperada e desconcertante. Mas, apesar dos dois retratos, a imagem da sua Gioconda do surrealismo não conseguiu ficar para a posteridade.

João César das Neves


domingo, 26 de julho de 2009

Abriu uma fábrica


PÚBLICO, 26.07.2009, Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem

A primeira vez que me chamou a atenção foi quando comprei o fac-símile do manuscrito de The Waste Land e fui procurar aos dicionários o que queria dizer a dedicatória de Eliot ao poeta que o editou no bom sentido que o verbo também tem: "For Ezra Pound: il miglior fabbro."

São duas línguas estrangeiras - o inglês e o itálico -, mas vão no mesmo italiano. Segundo percebi, fabbro era fazedor; artesão; técnico; jeitoso; profissional da coisa; acabador de acabamentos. Logo (o que Eliot queria dizer), melhor (mas não maior; isso não) escritor.
Passam-se mais de vinte anos e eu venho viver para Colares, longe do qual; não sei como; estive sempre vivo, mas triste.
Não saber o que se está a perder é capaz de ser a ignorância mais daninha desta vida. Parece que ganhamos com isso (ignorance is bliss, blá blá blá), mas o que acontece é acumular-se uma dívida acerba de prazer que nenhum tempo, por muito abençoado e bem gozado, nos pode pagar. E que amaruja.
Até que comecei a falar com os agricultores de Almoçageme e de Fontanelas, a quem comprava as edições de fruta e de hortaliça que faziam. E me disseram: "Este feijão verde fui eu que o fabriquei."
O feijão verde; a uva Ramisco; o pêssego rosa: dêem-me licença enquanto levito. Fabricaram-no; fizeram-no; trabalharam para isso; escreveram aquilo. Vem tudo de Deus mas tudo precisa do Homem ou da Mulher. É isso o fabrico: é um trabalho conjunto; é uma co-laboração.

sábado, 25 de julho de 2009

25 de Julho - S. Tiago

S. Filipe e S. Tiago, apóstolos
Jacques Callot
1630
216x125mm
Mackelvie Trust Collection.
Auckland Art Gallery
Nova Zelândia

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Frase do dia

Uma das penalizações por nos recusarmos a participar na política é que acabamos por ser governados por outros piores do que nós

Platão

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Servi Portugal e servi Coimbra - despedida do Parlamento de Matilde Sousa Franco

INTERVENÇAO

Deputada Matilde Sousa Franco

23 de Julho de 2009


Senhor Presidente
Senhoras Deputadas e Senhores Deputados

Nos quatro anos e meio da Legislatura, esta é a segunda vez e a última em que intervenho no Plenário.

Sempre fui interessada por Política e defensora do socialismo democrático, nalguns países considerado social-democracia, seguindo os princípios do meu Mestre António Sérgio.

Foi enorme honra o convite que o Senhor Secretário-Geral do PS me fez para eu ser cabeça de lista (a única mulher nesta situação), independente, dos Deputados por Coimbra, nas últimas Legislativas.

Aquando do convite fui reler a Constituição; o Artigo 155º “Os deputados exercem livremente o seu mandato”, e o facto de eu ser independente tranquilizaram-me, assim como o Programa do Governo. Antes de aceitar este imenso desafio, com a maior lealdade, pus algumas condições: estando no Programa Eleitoral o referendo à IVG e defendendo o Partido a liberalização do aborto, anunciei ser radicalmente contra e querer, em transparência, dizê-lo antes das eleições (o que fiz), esclareci ir fazer campanha contra, não ter feitio apenas para me abster, não poder jamais votar contra a minha consciência e ser católica.

Tendo sido acordadas estas questões, aceitei o convite com imenso gosto e entusiasmo para servir Portugal, servir Coimbra.

Tenho profunda ligação a Coimbra: fiz questão de celebrar aí o meu casamento (em 1983, com o também lisboeta Prof. Doutor António de Sousa Franco) e só deixei de viver e trabalhar nessa cidade devido ao casamento. Em 1982 fui tornada estudante de Coimbra honorária, a única pessoa a ter essa prerrogativa, como ainda há semanas foi recordado aquando da Queima das Fitas. A “Lusa Atenas” sempre fez parte do meu percurso.

Dos momentos mais impressivos que guardo da campanha eleitoral foi o entusiasmo suscitado pelo meu discurso sobre o Amor em sentido lato e como este pode transformar o Mundo, de acordo com o que sempre defendi.

Outro objectivo que naturalmente me norteia é a valorização nacional e internacional de Coimbra.

O PS no difícil distrito de Coimbra obteve nas Legislativas de 2005 45,43%, a 3ª melhor votação desde o 25 de Abril, superando em 13,50% o PSD, os dois únicos partidos com Deputados.

Quanto à valorização do distrito sobretudo a nível internacional, ando nessa luta desde há quase três décadas. Em 17 de Março de 1982 fiz oficialmente o pedido para a inscrição do Centro Histórico de Coimbra na lista do património mundial da Unesco, o que, em 7 de Junho desse ano, obteve parecer favorável do Secretário de Estado da Cultura Lucas Pires. Teria sido a primeira e bem merecida classificação mundial em Portugal,  e ter-se-ia entretanto melhorado imensamente toda a região.

De 1980 a 1984 fui directora do Museu Nacional de Machado de Castro nessa cidade e descrevi na publicação “O Programa” Coimbra Antiga e a Vivificação dos Centros Históricos” promovido pelo Museu Nacional de Machado de Castro em 1981/1983” um vasto conjunto de iniciativas pioneiras, entre as quais esse pedido de classificação. Com base no parecer do técnico da Unesco Prof. Arquitecto Donald Insall, que consegui levar então a Coimbra, a minha ideia era considerar no Centro Histórico a Alta, a Baixa e a Baixinha, os principais monumentos da outra margem do Mondego e outros monumentos dispersos.

Durante estes quase 28 anos, sempre tenho acompanhado o processo de classificação e, evidentemente, insisti nele na campanha eleitoral e ao longo da Legislatura, mas desde há anos não poderá ser um projecto tão abrangente, devido a ocorrências diversas. O pedido de classificação restringiu-se, agora, apenas à Universidade, o que retira mais de mil anos de História, e dezenas de monumentos, diminuindo imenso a importância de Coimbra, com o que discordo.

Em 2008, escrevi no Parecer para a aprovação da “Convenção-Quadro do Conselho da Europa relativa ao Património Cultural para a Sociedade” que “a filosofia geral desta Convenção… está completamente de acordo com o que venho defendendo e praticando há décadas…”, como se pode confrontar quanto a Coimbra, mas ainda antes e depois.

No Parecer para a aprovação da “Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial “da Unesco avancei logo com os pedidos de classificação de alguns bens, em que privilegiei o meu distrito, tendo sido aprovado por unanimidade não só na Comissão, mas no Plenário da Assembleia da República: o Fado de Coimbra (também o Fado de Lisboa), as Festas do Espírito Santo (identitárias de comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo e realizadas também no Distrito de Coimbra). Acrescentei depois o pedido de igual classificação para a história/lenda de Inês de Castro.

Aqui estão quatro mais valias de alcance mundial para Coimbra, as quais podem inclusivamente atrair abundante turismo.

Noutro Parecer que fiz também para a Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas sugeri a colocação na Estónia, em Tallin, de uma escultura de Dona Berengária, filha de D. Sancho I que, quando rainha da Dinamarca, contribuiu, cavalgando ao lado do marido, na fundação dessa capital. O Embaixador da Estónia e outras entidades ficaram entusiasmados com esta proposta.

A Economia da Cultura é mais rentável do que, por exemplo, o imobiliário. Para o meu distrito, apresento mais sugestões, como roteiros de criptopórticos romanos, centros moçárabes, primeiras “capitais” de países europeus, universidades medievais, etc.. Já na campanha eleitoral e há cerca de dois anos numa conferência na Associação Comercial e Industrial de Coimbra (ACIC) defendi as pequenas e médias empresas e a revitalização de multisseculares tradições regionais, como a cerâmica, a escultura, os artefactos em metal, os trabalhos ligados à recuperação do património cultural.

Procurei diversas formas de destacar Coimbra na Europa e no Mundo, desenvolvendo economicamente a região.

Senhor Presidente,
Senhores Deputados

Refiro agora aspectos mais genéricos do meu trabalho enquanto Deputada, pois gostava que houvesse melhor Democracia: considero essencial que haja maior aproximação dos Deputados aos eleitores, que a qualidade do processo legislativo melhore, que os Deputados tenham mais autonomia e que os independentes o possam ser facilmente.

Para minha completa surpresa, quando cheguei à Assembleia da República foi-me de imediato imposta a disciplina de voto em tudo e, ainda por cima, inesperadamente, começaram a surgir uma série de diplomas com os chamados temas fracturantes e outros, não incluídos no Programa Eleitoral, além de o Código do Trabalho ter sido alterado. Assim, tem sido naturalmente muitíssimo difícil o meu exercício de Deputada a que nada me prende a não ser o compromisso moral de desempenhar esta comissão de serviço da Legislatura, o que me levou muitas vezes a desejar sair. Conforme o previamente combinado com o Senhor Secretário-geral, e com a minha coerência de toda a vida, fui apoiando propostas oriundas da esquerda e da direita, ou simplesmente da minha consciência, numa posição complexa e a qual me deu profundas angústias.
Refiro agora apenas que perante a unanimidade de todo o Hemiciclo a favor da Lei do Financiamento dos Partidos Políticos, da qual soube em cima da hora, só não votei contra porque já tinha anunciado (na sequência de posições anteriores) ir votar nesse dia contra o PS em cinco diplomas relativos ao Código do Trabalho, o que fiz. Assim, na Lei do Financiamento houve em todos os partidos apenas duas vozes discordantes, uma contra, e a minha abstenção.

Creio que entre os Deputados me sucedem aspectos “sui generis”: tendo sido longos anos professora universitária, só me fora antes permitido falar no Plenário uma única vez e durante cerca de três minutos, pelo que resolvi “falar” através de dezenas e longas Declarações de Voto escritas. Dizem que sou a única Deputada que já foi funcionária da Assembleia da República; fui museóloga do Parlamento durante cerca de cinco anos, até Maio de 1995, tendo tido à saída um Louvor dado por unanimidade de todos os partidos políticos.

Deputados e Funcionários estamos irmanados a servir o Parlamento e aqui deixo amigas despedidas a todos, assim como ao Senhor Presidente, Membros da Mesa, Lideres Parlamentares, Jornalistas, pois há meses anunciei não estar disponível para outro mandato.

Senhor Presidente,
Senhores Deputados

Com a liberdade que combinara com o Senhor Secretário-Geral, como Deputada, ao longo de quatro anos e meio, lutei por uma sociedade mais igualitária e solidária, onde, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, “a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito á protecção desta e do Estado”.  Bati-me pela verdade e pela vida, que implica sobretudo os mais fracos: moribundos, idosos, doentes, deficientes, crianças, trabalhadores, desempregados, pobres, etc.
Constantemente insisti, supliquei, para que Portugal dê exemplos mundiais, em várias áreas de Humanismo, para que o Século  XXI seja, finalmente, o Século dos Direitos Humanos.

A área em que mais tenho insistido é a do Humanismo na Pedagogia, com a sugestão inovadora que faço desde 2005 (na Assembleia da República desde 2007) da criação do 1º ao 12º ano de escolaridade de uma cadeira obrigatória a que dei o apelativo nome de Educação para a Felicidade e a qual terá por base a moderna ciência da inteligência emocional e social, que nos ensina a gerir bem as nossas emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos. Está provado que o nosso êxito depende 80% do Quociente Emocional (Q.E.) e 20% do Quociente de Inteligência (Q.I.). A cadeira deve ter diversas componentes como: ética, saúde, primeiros socorros, nutrição, sexualidade, modo de gerir o quotidiano, alegrias, frustrações, desgostos (entre os quais a morte), educação contra a violência, educação para a preservação do meio ambiente e do património cultural, normas de segurança, educação para a cidadania em moldes também mais actuais, fazendo com que haja maior tolerância, mais diálogo inclusivamente intercultural, mais Paz.

Se eu, modesta Deputada independente, com 66 anos cheios de desgostos e faltas de saúde (mas de espírito jovem que me levou a experimentar andar de moto eléctrica), conseguir apoios para que Portugal seja agora vanguardista dos Direitos Humanos, designadamente com a criação da cadeira de Educação para a Felicidade, sentir-me-ei mais feliz. Nunca fiz viagens pagas pelo Parlamento, mas farei assim a única que me interessa: ao Portugal do futuro como referência mundial dos Direitos Humanos, da Paz e do Amor.

Verdade

DESTAK |23 | 07 | 2009 08.15H

João César das Neves

O Papa Bento XVI publicou há pouco a sua terceira encíclica. O tema não é espiritual, como compete a líder religioso, mas económico. Este facto é chocante. A economia é a coisa mais negativa, maldosa, suja do nosso tempo. Aí estão todos os escândalos, misérias e crises da actualidade. O passado temia bárbaros, pestes, feiticeiros; hoje o mal é financeiro, político, empresarial. Sobre isto, que tem a dizer um homem de Deus, um guia espiritual?

"O amor -«caritas»- é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz."(1).

Falar de caridade no meio da globalização e euforia bolsista, dos casos Madoff e BPN parece sarcasmo amargo. O Papa tem consciência do problema: "Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade não cessa de enfrentar (...) Nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e económico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade (...) A verdade há-de ser procurada, encontrada e expressa na «economia» da caridade, mas esta por sua vez há-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade"(2).

A encíclica do Papa é uma visão nova e refrescante sobre os estafados debates do quotidiano. A solução que apresenta é simples: ser santo todos os dias: "Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente"(1).

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Os artistas desunidos

Helena Matos

Público, 20090723

No ano da graça de 2009 um espectáculo gera polémica e terá mesmo estado para ser suspenso, em Portugal, porque o texto critica, pasme-se!, um encenador. Mais precisamente um grupo de actores pegou no texto do manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros e adaptou-o ao século XXI. No lugar de Júlio Dantas está agora Ricardo Pais. Vai daí nasce não um escândalo, coisa que precisa de público, mas na falta dele uma sucessão de declarações e contradeclarações que não sei porquê me lembra as sessões protocolares de cumprimentos no Palácio da Ajuda: o director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Diogo Infante, afirma que já manifestou a sua solidariedade a Ricardo Pais e declara-se consternado. Os responsáveis do Opart, entidade que gere o São Carlos, também estão "consternados", pois na sua opinião "Ricardo Pais é uma referência na cultura portuguesa" e declaram ainda no PÚBLICO de ontem que "era demasiado tarde para alterar a programação".
Para ser sincera tenho de dizer que não me interessam muito as razões que levaram estes actores a estabelecer esse paralelo entre Júlio Dantas e Ricardo Pais. O que eu queria mesmo era um pretexto para falar do Dantas e sobretudo desmanchar aquele sorrisinho consensual, género "tão moderninho que eu sou!", que nasce quando o nome do dito Dantas é pronunciado.
Durante anos o que conheci de Júlio Dantas foi o que dele escreveu Almada Negreiros. Um trabalho sobre o primeiro filme sonoro português, A Severa, fez-me interessar pela figura do tão ridicularizado Dantas.
Não foram as excelentes letras dos fados que me levaram a considerar que talvez o Dantas não fosse apenas o boneco que dele fizera Almada. Foram sim umas cartas. Mais propriamente as cartas que escreveu a um preso de seu nome José Carlos Amador Rebelo. Até ao dia 6 de Fevereiro de 1931, Amador Rebelo era uma figura conhecida nesse meio cultural que anunciava ir revolucionar e organizar o cinema português em moldes modernos. O que o levara a esse mundo foi o seu talento não para o cinema mas sim para arranjar dinheiro. Quando Leitão de Barros avança para a realização do primeiro filme sonoro português, a Sociedade Universal de Super Filmes, produtora da fita, procura Amador Rebelo, que garante boa parte do capital de A Severa. Acontece que desgraçadamente o dinheiro não era de Amador Rebelo mas sim do BNU, onde Amador Rebelo tinha o invejado cargo de inspector-geral e de onde desviara o dinheiro para financiar A Severa. Às onze da noite do dia 6 de Fevereiro de 1931, João Ulrich, então director do BNU, entrou no Torel para apresentar queixa por desfalque contra Amador Rebelo. Desde esse momento a grande preocupação da gente moderna da cultura e do cinema foi desvincular-se desse homem a quem até há uns dias enviavam telegramas pedindo dinheiro para fazerem a sua obra: "A escola Alves Reis, em cuja árvore genealógica entronca José Amador Rebelo, seu jovem e aproveitado discípulo deve ser expropriada e arrasada" - lê-se na revista Cinéfilo escassos dias depois da denúncia do BNU.
Amador Rebelo seria preso e julgado. E é aí, na cadeia, que entra o nome de Júlio Dantas, pois, ao contrário de outros, fossem eles cineastas, escritores ou artistas muito mais modernos, revolucionários e tidos como menos oficiosos, Júlio Dantas não se esquece de Amador Rebelo e escreve-lhe para a cadeia procurando encorajá-lo.
Certamente efeminado e postiço como lhe chamou Almada, vaidoso e egocêntrico como o descreveu pitorescamente Marcelo Caetano, a verdade é que Júlio Dantas é também o intelectual que desempenhou com qualidade os cargos que teve e o homem que não fez de conta que não conhecia um amigo e que, nos anos 20, se opôs ao grupo moderníssimo de radicais que pretendia retirar duma livraria do Chiado exemplares das Canções de António Botto.
Júlio Dantas tem representado convenientemente o papel do intelectual em que literal e historicamente falando é moderno malhar mas a vida (e no caso de Júlio Dantas a própria morte) e a sua teia de compromissos, fraquezas, glórias e princípios é sempre bem mais complexa do que as certezas inscritas nas frases dramaticamente sonoras e frequentemente belas dos manifestos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Tempo é uma coisa tramada

José Pacheco Pereira, Visão, 20090722

“Seria uma grande irresponsabilidade construir estes estádios que depois não fossem utilizados” (José Sócrates, 1999)

Na Internet, com origem no You Tube e continuação nos blogues, circula uma entrevista dada ao programa Hermann99 por José Sócrates, então jovem governante em vésperas de chegar a Ministro. Toda a entrevista é interessante, mas esta parte é ainda mais interessante porque se percebe muita coisa sobre as características políticas de José Sócrates, então já com mais de quinze anos de política na JSD e no PS e dois anos de experiência governativa.

É. O tempo é uma coisa tramada. E uma das coisas em que a trama do tempo nos trama é quando percebemos que nada mudou no que dizemos, mesmo quando nada do que dizemos tem (teve) alguma coisa a ver com a realidade. O que impressiona nesta entrevista é ouvir Sócrates falar exactamente na mesma, usando as mesmas expressões, o mesmo tom enfático, as mesmas palavras, os mesmos argumentos, o mesmo apelo à que o nosso desejo corresponda ao dele, a que o acompanhemos, a mesma tensão discursiva, com que fala hoje.
Na altura falava dos estádios do Euro 2004, hoje fala do TGV ou do novo aeroporto ou das novas auto-estradas. E diz exactamente o mesmo, sem tirar nem por. Pode-se retirar-lhe a palavra “estádios” do discurso e colocar TGV, que tudo o resto podia ser hoje. A única gigantesca diferença é que nós sabemos que tudo aquilo que ele disse dos estádios não se verificou, nem de perto nem de longe. Pelo contrário: o programa dos estádios criou uma série de abortos vazios, que não servem para ninguém e no qual se enterraram milhões de euros que ainda hoje pesam muito significativamente nos orçamentos autárquicos e na despesa pública. E pior ainda: nada do que ele disse sobre as vantagens do projecto dos estádios se verificou pelas mesmas razões que os críticos então apontaram, desperdício, gigantismo, despesismo, confusão de prioridades, obsessão do betão, e que é o mesmo que hoje é dito pelos críticos do megalomano projecto de grandes obras públicas do governo. Ou seja, Sócrates foi um dos responsáveis de um desastre económico (e não só ele, também muita gente do PSD) que já estava anunciado em 1999 e que ele recusou reconhecer e preparava-se hoje, se não fosse travado pelo Presidente da República e pela derrota eleitoral nas europeias, para fazer o mesmo.

É. O tempo é uma coisa tramada. Aquilo que parecia em 1999 uma ode ao desenvolvimento baseado no futebol - em Aveiro a “maior zona de requalificação” do país, os estádios “muito sofisticados” “com três estúdios para televisão pelo menos“, “criar novas centralidades”, “novas oportunidades” etc., etc. - e que se repetiu a propósito de muita coisa, dos gadgets como o “Magalhães” a falhanços como as Cidades Digitais e a Via CTT, nos anos da maioria absoluta até desfalecer em Junho de 2009, hoje parece muito frágil. Quando o ouviamos em 2005, 2006, 2007, 2008, a falar da “revolução” que os seus projectos de desenvolvimento iriam trazer ao país, deveriamos ter tido mais memória do passado deste governante, mas falhamos no escrutínio do que já então era possível ter e que se devia ter. Sócrates vai falar do mesmo modo na sua campanha eleitoral porque ele não sabe fazer de outra maneira. É por isso que é bom voltar a estes videos com dez anos para o perceber melhor.

É. O tempo é uma coisa tramada.

Frase do dia

A mudança não tem nada de mal, se for na direcção certa!

Sir Winston Churchill

22 de Julho - Santa Maria Madalena

Santa Maria Madalena penitente
Guy François
1620 - 1630
H. : 1,05 m. ; L. : 0,83 m.
Musée du Louvre

terça-feira, 21 de julho de 2009

Encíclica social num mundo em crise

João César das Neves

20090630 Agencia Ecclesia

O mundo está em forte crise e muita gente sofre muito por causa dela. Este é o momento para o Papa dirigir uma palavra de conforto e orientação ao povo católico. Está anunciado para breve um texto longamente amadurecido, Caritas in veritate, primeira encíclica social de Bento XVI. Para além da evidente oportunidade, ela tem um significado histórico assinalável. Vale a pena ver brevemente o seu enquadramento.

Há quase 120 anos, um Papa prudente e devoto teve um gesto espantoso. Ao tratar da «condição dos operários» na sua encíclica Rerum Novarum, Leão XIII estava consciente que se ia envolver na «sede de coisas novas, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril» (Rerum Novaram 1), como afirma a expressão inicial que lhe deu o título. Nascia assim em 1891 a Doutrina Social da Igreja, reflexão católica contemporânea sobre as questões sócio-económicas.

Leão XIII era um tomista profundo e sabedor e foi em S. Tomás de Aquino que inspirou os princípios da sua encíclica fundadora. Das catorze citações não bíblicas do texto, nove são directamente do Doutor Angélico, além de muitas alusões e paráfrases. A escolha foi judiciosa, porque o teólogo dominicano foi o primeiro grande pensador que lidou com o capitalismo nascente nos empreendimentos comerciais italianos do século XIII.

Além de S. Tomás, e também através de S. Tomás, a encíclica usou toda a tradição dos 1891 anos de Igreja e 4 mil anos de revelação, que assim ressoaram neste tratamento das questões contemporâneas. Porque a verdadeira Doutrina Social da Igreja vem do Alto, começou no Evangelho e foi sucessivamente desenvolvida e aplicada ao longo de séculos pelos Padres, Doutores, Bispos e fiéis, inspirados pelo Espírito. A proclamação de Leão XIII, momento especialmente marcante dessa actividade, integra-se e partilha assim dessa incomparável linhagem.

Em seguida, durante o primeiro século após a genial intervenção do Papa Pecci, sucederam-se os pronunciamentos do magistério, todos com alta qualidade e oportunidade, e todos invocando a Rerum Novarum como referência original. A Quadragesimo Anno de Pio XI, os discursos de Pio XII, as constituções do Concílio e os textos de João XXIII, Paulo VI e João Paulo II foram renovando e interpretando este extraordinário tesouro espiritual e intelectual para as circunstâncias do momento.

Naturalmente que no centenário da Rerum Novarum, a encíclica Centesimus Annus de João Paulo II, de 1 de Maio de 1991, foi um texto marcante. Mas, poucos anos após a queda do «muro de Berlim» e no ano da derrocada da União Soviética, a oportunidade que se vivia contribuiu para gerar um texto capital. A doutrina exposta alimentou a reflexão económica católica durante 18 anos.

Todo o trabalho desse majestoso primeiro século acabou depois compilado e organizado no Compêndio de Doutrina Social da Igreja, publicado pelo Conselho Pontifício «Justiça e Paz» a 2 de Abril de 2004. Este livro notável, cheio de referências e índices detalhados, assinala só por si a maturidade da Doutrina. A partir de então os católicos passaram a dispor de uma orientação clara, coerente e completa sobre a reflexão sócio-económica.

Nunca pode ser subestimado o valor espantoso deste corpo conceptual. Nenhuma outra instituição ou agrupamento humanos tem algo de semelhante. Nenhuma entidade, com esta abrangência e dimensão, alguma vez definiu princípios tão nítidos, vastos e operacionais como a Igreja. Os católicos possuem assim, como guia para a sua vida concreta, de um conjunto de linhas de orientação claras, elaboradas e fundamentadas. Infelizmente nem sempre as usam.

A encíclica agora anunciada será a primeira do segundo século da Doutrina Social da Igreja. A primeira depois do Compêndio, a primeira depois da grande crise de 2008-2009. Embora siga certamente o caminho traçado e aplique o Espírito, os textos e orientações de sempre à situação actual, como fizeram todos os casos anteriores, ela trará simultaneamente a abordagem original do seu autor e o sabor da conjuntura em que nasce.

Não compete ao Papa fazer análises económicas ou sequer apresentar soluções políticas. Mas é importante compreender a necessidade e urgência desta intervenção. Como explicou Leão XIII na encíclica inaugural, «é com toda a confiança que Nós abordamos este assunto, e em toda a plenitude do Nosso direito; porque a questão de que se trata é de tal natureza, que, se não apelamos para a religião e para a Igreja, é impossível encontrar-lhe uma solução eficaz.» (Rerum Novarum 8).

João César das Neves

EU ASSUMO! O drama da diferença e da repressão de uma singularidade genética

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 20090621

1. Peço que me desculpem os leitores mais conservadores, a quem esta minha confissão pública possa chocar.

Peço que se acolha esta minha declaração com tolerância, que é a virtude cívica que se define como indiferença ante o bem e o mal, e que, por isso, proíbe terminantemente qualquer imposição ou condenação em termos morais.

Peço para mim e para todos os que sentem na pele o estigma de uma excepção que nos foi imposta pela natureza, à revelia da nossa vontade, uma plena integração social, pondo assim termo à injusta discriminação a que fomos expostos e que continuamos a padecer.

Peço e exijo que, em nome da igualdade, se nos aceite como somos: iguais na diferença e diferentes na igualdade.

2. Desde que tive consciência desta minha particularidade de género, experimentei a segregação a que todos os que partilhamos esta condição somos, por regra, expostos. Com efeito, qualquer tímida manifestação desta nossa anormalidade – que o é, convenhamos, em termos estatísticos – é logo censurada por severos olhares que, não obstante a sua mudez, nos gritam o drama da nossa reprimida singularidade genética.

Mas hoje, finalmente, graças à abertura e compreensão dos nossos governantes, que parecem não ter outra preocupação que não seja a de pôr termo a estas injustiças atávicas, tomei a decisão de me assumir publicamente: sim, sou canhoto! Afirmo-o pela primeira vez sem complexos, diria que com orgulho até, disposto mesmo a desfilar numa triunfal canhotos’ pride parade!

3. Cônscio de que a democracia está incompleta enquanto não nos forem dados os mesmos direitos que já usufruem os dextros, não posso deixar de fazer algumas reivindicações. A saber:

Exijo que o Estado financie as operações de mudanças de braços e mãos, pernas e pés, de todos os canhotos que queiram mudar de género!

Exijo que todas as cadeiras dos anfiteatros tenham igualmente amplos os apoios dos dois braços, e não apenas o direito, como pretende a maioria fascizante dos dextros!

Exijo que nós, os canhotos, tenhamos direito a carros com o travão de mão à esquerda e os pedais invertidos (com perdão!), pondo assim termo à imposição, por parte da indústria automóvel, de um único modelo comportamental!

Exijo que as autarquias reconheçam o nosso inalienável direito a circular pela esquerda, criando um itinerário alternativo canhoto (IAC)!

Exijo que seja despenalizada, para os canhotos, a condução em contra-mão e que sejam imediatamente amnistiados todos os esquerdinos que, por este motivo, já foram hipocritamente condenados por tribunais dominados pelos dextros!

Exijo que o trecho bíblico que coloca à esquerda de Deus os condenados e à sua direita os bem-aventurados, seja alterado, de modo que se não possa associar aos esquerdinos nenhuma humilhante inferioridade de género.

Exijo que a expressão «cruzes, canhoto!» e outras análogas sejam criminalizadas, pelo seu evidente cunho canhotofóbico.

E, claro, exijo também o direito à adopção de crianças dextras por casais esquerdinos!

4. Graças ao carácter fracturante desta minha proposta, que suponho também assumida por todos os outros cidadãos da mesma condição, quero crer que será acolhida favoravelmente por todos os partidos políticos que têm pugnado pela igualdade de género. Afinal de contas nós, os canhotos, também somos de esquerda, não é?