quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um bom ano de 2010

A passagem de ano é uma celebração do tempo que passa.

É isto que caracteriza o tempo: o movimento; é esta a sua natureza.

O tempo a que chamamos agora, já foi, rapidamente é passado, já não existe. O agora, o presente, é substituído pelo que há-de vir, o futuro. O futuro também não existe, é apenas provável.

O nosso mundo vive no espaço e no tempo, mas o tempo parece ser aquilo que constantemente nos foge, que constantemente nos falta, que constantemente determina o sucesso ou o fracasso.

A própria noção de crescimento, o modo como avaliamos, a riqueza, a saúde das crianças e até a nossa maturidade intelectual e espiritual implica um intervalo de tempo e duas medições.

O nosso maior drama actual é a dificuldade em lidar com o tempo.

A propósito conto uma pequena história que ouvi a um padre jesuíta:

- "Conta-se que o Pe. António Vieira, nas suas viagens no interior do Brasil era acompanhado por um conjunto de escravos índios que carregavam os mantimentos e tudo o mais que era necessário ao desempenho da missão. Numa dessas viagens e ao fim de pouco tempo de caminho, os índios pararam, pousaram a carga no chão e sentaram-se. Quando lhes perguntaram o que se passava, responderam:

- Os nossos corpos estão a ir tão depressa que perderam as nossas almas. Estamos aqui parados, à espera que as nossas almas nos apanhem".

Se pensarmos nas nossas vidas, é fácil identificarmo-nos com esses índios do século XVII.

Quantas vezes a velocidade que imprimimos àquilo que temos que fazer é inadequada àquilo que devemos ser.

A questão do significado do tempo, do nosso tempo, do modo como usamos o tempo, perpassa todas as actividades que compõem a nossa vida e, portanto, têm a ver com tudo: economia, política, divertimento, família, trabalho, comunidade, etc.

Contudo, o significado do tempo, é encontrável num instante de tempo há dois mil anos, em que Deus decidiu fazer-se um de nós, elevando a dignidade do homem ao nível da divindade. É encontrável hoje, na Igreja, pelo testemunho do Papa e dos seus bispos que nos recordam, num mundo esquecido de Deus, que é Ele o Senhor do tempo.

O que fazer então com o "nosso tempo", com o tempo que Deus nos oferece como circunstância para O conhecermos melhor?

Há uma resposta para cada um de nós, mas esta pequena história pode ser inspiradora:

"-Passeava pela rua, quando encontrei uma loja com o letreiro"Loja de Deus".

Entrei. Estava um anjo ao balcão. Maravilhado, perguntei:

- Santo Anjo do Senhor, o que vendes?

Ele respondeu:

- Todos os dons de Deus...

- E os preços são caros?

- Não! É tudo de graça!...

Dei uma volta pela loja e vi jarros, frascos, pacotes de esperança, caixas e caixinhas de salvação e de sabedoria...

Então, pensei um pouco e pedi:

- Por favor, quero muito amor de Deus, todo o Seu perdão, um grande pacote de fé, bastante felicidade e a salvação eterna para mim e para toda a minha família e amigos.

Com surpresa minha, o anjo preparou apenas um pequeno embrulho que cabia na minha mão. Sem perceber, perguntei:

- Como é possível meter tantas coisas num embrulho tão pequeno?

O anjo respondeu a sorrir:

- Meu querido irmão: na loja de Deus, não oferecemos os frutos, mas apenas as sementes...

Que este início de 2010 seja um momento de devolvermos o tempo ao Senhor do tempo para que saibamos, no ano que começa, ser co-criadores com Ele das sementes que continuamente nos dá.

Patriarca de Lisboa: «Não» ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é questão civilizacional (in Ecclesia)

Agência Ecclesia, 20091231

«Não» ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é questão civilizacional

A oportunidade de um referendo sobre o assunto, a actual legislatura e a igreja de Troufa Real entre os acontecimentos de 2009 analisados por D. José Policarpo

Em entrevista ao Programa ECCLESIA, com transmissão no dia 31 de Dezembro, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, comenta alguns acontecimentos que marcaram a vida da sociedade e da Igreja Católica durante o ano de 2009.

O Patriarca de Lisboa comenta o debate em torno do casamento entre pessoas do mesmo sexo, certo de que "há matérias que não são referendáveis". "O referendo é um instituto político, que não compete sequer à Igreja pedi-lo, a meu ver". Mas se houver referendo, "pela nossa palavra e pelo nosso diálogo, esclareceremos os cristãos e toda a gente que quiser ouvir-nos das nossas razões. No caso, de um voto não".

Nesta entrevista à ECCLESIA, D. José Policarpo comenta também o actual momento da democracia portuguesa, a "minoria do Governo" que "dá ao Parlamento uma intervenção e um poder que não tinha na maioria absoluta", desafiando os representantes do povo a "uma responsabilidade acrescida de porem sempre o bem de Portugal acima dos interesses partidários".

A resposta da Igreja Católica, nomeadamente na diocese de Lisboa, à crise económica e social, através do projecto "Igreja Solidária", a necessidade de um estudo sócio-pastoral do patriarcado e a visita do Papa Bento XVI a Portugal são temas também abordados por D. José Policarpo.

Exercício da democracia

Ecclesia - 2009 foi um ano com três actos eleitorais. Eles contribuíram para fortalecer Portugal?

D. José da Cruz Policarpo – Os actos democráticos são, em si mesmos, uma expressão importante da convivência democrática. Penso que decorreram com boa participação, com debates de ideias.

Pessoalmente sou sempre sensível ao lugar que se dá a uma certa agressividade no discurso durante as campanhas eleitorais, em desfavor de um debate muito mais sereno de ideias. Apesar de tudo ele existiu e os portugueses votaram em liberdade e com uma participação maior.

A consequência mais difícil e mais exigente dos actos eleitorais é a coerência com as exigências da vida democrática, tanto dos que votaram como dos votados. Todos sabemos que o contexto actual é exigente. A minoria do Governo dá ao Parlamento uma intervenção e um poder que não tinha na maioria absoluta, o que traz aos representantes do povo no na Assembleia da República uma responsabilidade acrescida de porem sempre o bem de Portugal acima dos interesses partidários.

E – Percebe-se no horizonte da acção dos políticos a construção do bem comum?

CP – Não podemos dizer que não! O problema é a definição do que é o bem comum para uma comunidade, a portuguesa, no momento concreto da sua história. E aí tenho sentido que não há acordos, nomeadamente na consciência do que é o melhor para Portugal. E era possível dar passos maiores nesse diálogo.

O instrumento principal da democracia é o diálogo: a negociação, o debate de ideias, o compromisso, o saber arriscar, o saber ceder em nome exactamente do bem comum e definir o que ele é. Não dar passos nesse diálogo é uma fragilidade da nossa democracia, que espero que o futuro corrija. O povo português, na riqueza das suas diferenças, merece mais!

E – Será necessário rever o equilíbrio e a distribuição dos poderes pelos órgãos de soberania?

JCP – A essência dos regimes democráticos é a autonomia dos poderes: legislativo, executivo e judicial. A autonomia não significa, no entanto, que não haja convergência, diálogo e debate. As formas constitucionais de equilibrar estes três poderes são variadas e estão relacionadas com a fisionomia dos povos, com o momento histórico de um quadro democrático da sociedade. E os modelos são mais parlamentaristas ou mais presidenciais.

Entre nós, esse é um debate que vem desde 1975. E se tenho uma opinião sobre esta matéria, acho que a não devo dizer porque não é meu papel intervir a esse nível.

E - O nosso sistema é "semi-presidencialista"…

JCP – Não sei se se pode verdadeiramente designar assim. É evidente que o nosso Presidente da República tem mais poderes do que os de outros chefes de Estado de países da União Europeia. Daí a chamar "semi-presidencialista" parece-me que é forçado.

Ele tem um grande poder: o de criar opinião, consensos e dinamismos com a presença e o exercício da sua magistratura (um chefe de Estado é um chefe de Estado!). Na realidade, os poderes do nosso Presidente da República, constitucionalmente, são muito limitados. E quem aceita esse cargo sabe isso!

Não creio, no entanto, que essa seja a questão essencial. A questão crucial do progresso democrático está na capacidade de definir o bem comum, na capacidade de diálogo, de serviço à Nação e de compreender o país que se governa, num debate que tenha mais profundidade cultural.

E – Contrariamente a esse objectivo, o debate político entre nós vai acontecendo num ambiente de crispação…

JCP – Tem períodos… A crispação faz parte do sistema! É humana. Mas o ambiente inter-pessoal dos políticos não é necessariamente o que salta na crispação de uma discussão pública.

Apesar de tudo isso se poder mitigar, não é daí que vem o mal ao país. O problema sério é o do diálogo com qualidade, da lucidez para ver o caminho que Portugal precisa e as prioridades que é preciso estabelecer…

Pessoalmente, não compreendo como, em momentos de grande dificuldade para Portugal, não sejam possíveis consensos maioritários sobre duas ou três questões, a concretizar independentemente dos governos serem de centro-direita ou centro-esquerda.

E – Que questões?

JCP – Em cada momento são variadas…

Agora está muito em causa o endividamento público: merecia um consenso. Ou a questão da regionalização, que da primeira vez foi mal resolvida…

E – Existem condições de diálogo para levar esta legislatura até ao fim?

JCP – Responder que não a isso significaria dizer que deixo de acreditar na democracia. E não é verdade! Eu acredito no sistema democrático, com todos os limites humanos. Acredito até no esforço e na sinceridade da maior parte daqueles senhores, alguns deles com uma vida muito sacrificada (outros menos…). Acredito na generosidade dos principais fazedores da política.

Casamento entre pessoas do mesmo sexo

E – Sobre o casamento das pessoas com o mesmo sexo, a opinião do Patriarca de Lisboa foi confirmada numa Carta às Comunidades Cristãs, onde afirma que a Igreja "usará os meios e os modos consentâneos com a sua missão" para travar leis que "ferem gravemente a compreensão cristã do homem e da sociedade". Que meios são esses?

JCP – A grande arma da Igreja é a convicção através da palavra. O segundo meio é o diálogo, paciente, para o qual eu estou sempre disponível, como digo na Carta.

Diante de questões muito "quentes", éticas, que tocam a consciência, os católicos que são muito contra correm o risco de ficar na plataforma política, de reagir só politicamente. O que é legítimo, no exercício da democracia. Mas o meio clássico de a Igreja estar na sociedade é o testemunho dos cristãos, a diferença marcada pela atitude que se tem diante das realidades e o diálogo com toda a gente.

E – O referendo não é um desses meios?

JCP – Não me compete decidir isso. O referendo é um instituto político, que não compete sequer à Igreja pedi-lo, a meu ver. Os cristãos têm direito a pedi-lo, sendo ele sempre decidido pelo Parlamento.

Outra coisa é se houver referendo: pela nossa palavra e pelo nosso diálogo esclareceremos os cristãos e toda a gente que quiser ouvir as nossas razões. No caso destes, num voto "não"!

Ainda não esclareci muito bem para mim, mas tenho dificuldade em aceitar referendos sobre questões de consciência. Recordo-me que após o Concílio [o segundo Concílio do Vaticano, 1962-1965, ndr], no contexto do conselho da revista "Concilium", pôs-se a hipótese de votar as questões mais delicadas no campo da teologia. E passava aquela que ganhasse. Fiquei aterrado! E comentei que se chegasse ao momento em que referendássemos a existência de Deus, se o não" ganhasse, Deus continuava a existir…

Há questões que não são referendáveis, sobretudo se somos nós a optar pelo referendo. Ele é uma arma legítima dos cidadãos para evitar uma lei que consideram injusta. Por isso, na nossa posição enquanto hierarquia, faço uma distinção entre um movimento que pede o referendo e a nossa decisão se houver referendo.

E – Aí é clara?

JCP – Se houver referendo, não tenho dúvidas nenhumas a esse respeito.

Neste momento a responsabilidade é do Parlamento. A iniciativa de pedir o referendo é dos cidadãos. Sei que muitos deles são católicos. E têm todo o direito. Mas dei orientações para que a campanha de recolha de assinaturas não fosse proclamada do "alto da igreja".

Permanece como pano de fundo a dúvida se esta é uma matéria referendável. Porque o referendo tem este inconveniente: para muita gente, a hipótese que ganha passa a ser a verdade. E pode não ser. No campo da verdade, um pode ter razão contra um milhão!

E – Que comentário lhe merece o facto de esta iniciativa aparecer em contexto natalício? É infeliz?

JCP – Vejo mais a pressa em resolver isto rapidamente…

Esta questão tem uma pressão internacional muito grande. Há um lobby muito forte, que se faz sentir no quadro da União Europeia.

O problema que está em questão não é a homossexualidade. Se a discutirmos, o discurso tem outros parâmetros. Neste momento está em causa a natureza do casamento. Que não é uma questão religiosa, antes cultural. As culturas milenares consideram o casamento um contracto entre um homem e uma mulher, que dá lugar a uma instituição, a família. Mudar esta compreensão milenar do que é a família na humanidade pode ter consequências gravíssimas no futuro.

Em conversa particular, considerei que se os homossexuais tivessem direito ao casamento eu seria o primeiro a defendê-lo… Mas creio que não têm direito ao casamento. Chamem-lhe outra coisa!

A natureza está feita assim. E ainda bem!

E – Há que encontrar outra formulação jurídica?

JCP - Sobre isso, já não me pronuncio. Penso que ninguém, num quadro democrático, mesmo não estando de acordo, vai contestar o direito dessas pessoas viverem em conjunto. Se hão-de ter ou não algum reconhecimento por parte do Estado, também é outra questão. Agora, que não misturem no mesmo saco a família, já tão fragilizada, com outras questões!

E – Falou nesse lobby internacional. As questões éticas, de fronteira, vão-se sucedendo e constituindo-se em Direito. Até onde?

JCP – Não sei… Hoje um dos problemas da sociedade é que deixou de reagir a longo prazo. O que só se consegue apanhando a onda de profundidade, não de superfície.

No mundo moderno, pelo ritmo que adquiriu e pela comparação inevitável entre civilizações que a globalização nos traz, as pessoas vêem-se confrontadas com a mudança rápida. Aonde isso nos leva não sei. Mas acredito que haverá reacções de fundo e de profundidade. E acredito que o intercâmbio de civilizações terá influência.

AA nossa sociedade está assente em ciência, tecnologia e defesa dos direitos, por vezes concebidos numa compreensão da liberdade sem responsabilidade. Tudo isto precisa de uma reflexão, do debate político alargado ao debate cultural, onde todos temos o direito e o dever de participar.

Se isto será a degenerescência completa da sociedade, não sei. Espero que não, porque acredito nas ondas de fundo!

Infelizmente, a história mostra-nos que as grandes mudanças de correcção vieram com grandes crises de sofrimento, guerras ou outras. Que Deus nos dê a sabedoria de as fazer sem ser à força, provocadas por um grande sofrimento colectivo.

Projectos da Igreja Católica no Patriarcado

E - Em tempos de crise, o projecto "Igreja solidária" atingiu os seus objectivos?

JCP – Sim e não!

Criou um espírito, uma vaga de fundo, que levou as instituições sociais a responderem mais imediatamente. Sem querermos trazer soluções para a economia, propomo-nos estar atentos aos nossos irmãos que, a um dado momento, se viram com dificuldades inesperadas. O sentido de proximidade, de vizinhança é essencial. Não conhecemos o novo sector da população que se viu com dificuldades inesperadas, nem ele se dá facilmente a conhecer. E tem o direito disso!

Na micro-realidade, as instituições têm estado mais preparadas para responder ao que podem. Em macro dimensão, numa diocese com 2,5 milhões de habitantes, o êxito não é muito grande. Os próprios mecanismos postos à disposição, um formulário na internet, não ajudam...

E – Que radiografia socioreligiosa da diocese é preciso fazer-se?

JCP – A minha intuição é esta: a organização pastoral da Igreja, nomeadamente no Ocidente, tem tradicionalmente em conta o território enquanto espaço onde as pessoas habitam. Mas a mobilidade e multi-pertença baralham esses dados: a que comunidade é que uma pessoa pertence? Onde chega à noite para dormir? Onde trabalha? A um clube onde tem os amigos?

Por isso, a organização pastoral tem de estar atenta às mudanças que o tempo realiza.

Ultimamente, nas minhas deslocações pela diocese tenho tido a sensação de uma mudança enorme. A nossa diocese está diferente. Urbanisticamente, há populações que vivem a 30 km de Lisboa e vêm trabalhar à capital. Na aldeia onde nasci, íamos só à igreja paroquial; hoje as pessoas têm carro e vão tanto à igreja da sua paróquia como à da povoação vizinha ou à da cidade...

Na nossa organização pastoral tivemos minimamente em conta estas mudanças. Mas chegou o momento de olhar para a realidade humana da diocese, o que só se consegue com a ajuda de quem sabe fazê-lo, para a partir daí e com as forças que tenho – clero e leigos comprometidos com a missão da Igreja – perceber como estruturar a vida pastoral.

E – As várias igrejas, que recentemente inaugurou, são também uma resposta a essas mudanças?

JCP – As igrejas que têm vindo a ser inauguradas pecaram por tardias: estão em grandes realidades urbanísticas onde não existia templo, que é muito importante como ponto de referência para a fé dos cristãos, nomeadamente para quem chega a Lisboa de outros pontos do país.

O nosso cálculo, feito já no tempo do Sr. D. Manuel Falcão [bispo auxiliar de Lisboa entre 1967 e 1974, ndr], era de uma igreja para uma média de 10 mil habitantes. Não o atingimos, até porque houve urbanizações muito rápidas.

Um estudo como o que estou anunciar pode porventura dar orientações para o reequacionar destes centros de convergência e dos novos critérios para os construir.

Projecto de Troufa Real

E – Aí se inscreve a igreja do Restelo. Qual a sua opinião sobre o projecto de Troufa Real?

JCP – Para uma pessoa como eu, que fui entusiasta do movimento da renovação da arte religiosa em Portugal e que tive a sorte de ter próximo de mim grandes arquitectos que marcaram o que de melhor se fez na nossa diocese (Diogo Pimentel, que ainda trabalha connosco, Nuno Teotónio Pereira, Formosinho Sanches, António Freitas Leal, João Almeida, entre outros), e para os nossos parâmetros (nessa altura também muito discutidos e muito contestados), olho para um projecto de S. Francisco Xavier e... Falta-lhe a gramática que eu aprendi: a inspiração do Mistério em cada pedra que se põe, em cada parede que se faz.

O projecto de S. Francisco Xavier tem uma simbólica escolhida pelo arquitecto, de acordo com a paróquia: as missões, ir mar além e daí a ideia de uma caravela.

O que acho curioso que na contestação, que se deu quando está tudo irremediavelmente decidido, é que este projecto é conhecido há 15 anos. Eu fui lançar a primeira pedra há mais de 10 anos e o projecto estava exposto nessa altura. E existia um entusiasmo generalizado pela pela sua beleza… Na exposição por ocasião dos V Centenário do Nascimento de S. Francisco Xavier, na Cordoaria Nacional, estava exposta esta igreja e ninguém se referiu a ela.

Penso que há muita coisa que, em diálogo com arquitecto Troufa Real – ainda não me encontrei com ele recentemente – pode ser melhorada. Sobretudo percebendo a igreja como casa de família, de uma comunidade cristã que ali se vai reunir.

É um projecto pelo qual não morro de amores, mas que percorreu todos os passos normais da aprovação: foi aprovado pelo nosso Departamento das Novas Igrejas e pela Câmara Municipal de Lisboa. Houve um vasto diálogo com a comunidade e com o pároco... E eu não posso dar o dito por não dito.

De repente, talvez por ser uma caravela, entrou em tempestade...

E – Far-se-ão alterações...

JCP – Vi nos jornais que ele já tinha aceite rever aquele mastro enorme da caravela (a que já começaram a chamar minarete). Na concepção arquitectónica, o mastro da caravela é a torre da igreja. É talvez alta de mais... Não sei se uma caravela com um mastro daqueles consegue navegar...

Ecologia e visita do Papa

E – Na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa introduz o tema da criação no debate ecológico. Estará aí o segredo do sucesso para o debate que tem marcado a actualidade?

JCP – O conceito teológico de criação é difícil. O da natureza é espontâneo e penso que a maior parte dos habitantes do mundo actual ainda acredita nele. Mas há muita gente que não acredita.

A verdade profunda da natureza tem as suas leis. Para nós, cristãos, o planeta Terra foi-nos dado para o habitarmos e para o melhorarmos!

Neste debate não sei se há um acordo do ponto de vista científico: sim ou não o planeta está ameaçado? Eu estou confuso! Tenho ouvido opiniões contrastantes... Será que as teses radicais ecológicas são as únicas? É preciso um grande debate científico para saber se o planeta está ou não ameaçado. Que vai sofrendo as suas tropelias, isso sempre sofreu!

Esta é a primeira questão, que pesou sobre Copenhaga.

Partindo do princípio de que o planeta está ameaçado, voltamos a ter uma questão de civilização, onde a o problema crucial é global. Ele tem na base valores fundamentais, que implicam saber a que é preciso renunciar e o que é necessário transformar para termos uma convivência de forma a salvarmos o planeta. E estamos longe ainda deste consenso!

Eu compreendo: como é que se muda de repente uma economia dos Estados Unidos da América ou de um gigante como a China, deixando de utilizar o petróleo como energia?

É uma estrada que não está fechada: é preciso aprofundar a questão científica e chegar a acordos. Depois, criemos um dinamismo, um ideal de organização de vida, de forma a não estragar a casa onde habitamos. Para nós não há grandes perigos: vamos ter mais umas cheias, uns vendavais e um calor no Verão... O problema são os nossos vindouros!

E – Que oportunidade constituirá a visita de Bento XVI a Portugal, em Maio próximo?

JCP – A visita do Papa é sempre um grande acontecimento.

Portugal, desde a sua nacionalidade, tem uma relação congénita com a sede de Pedro, o que considero um dos baluartes mais significativos da nossa cultura católica. Com altos e baixos, mas sem nunca romper uma componente fundamental da fé dos portugueses: uma ligação muito forte à figura do Papa como sucessor de Pedro, seja ele quem for.

Para nós, esta visita de Bento XVI é uma óptima oportunidade de, ele e nós, aproveitarmos o melhor possível a afirmação da Igreja nesta sociedade, que ainda não se esqueceu dela mas não lhe tem o amor que já teve!

Ano de 2010: o que tem de ser

DN, 20091231

Maria José Nogueira Pinto

Este ano inicia-se com uma espécie de chek list: a lista de todas as coisas que têm de acontecer.

O Governo vai ter de governar. Isto significa uma ideia de Portugal, uma perspectiva do futuro e uma mão-cheia de escolhas. Obriga a valores, imaginação, capacidade de decisão. O Governo não poderá governar no confronto histórico ou na nostalgia ideológica, tão-pouco o poderá fazer na colisão de um realismo imprescindível com profissões de fé assentes mais no preconceito do que na convicção.

A ser assim, ao Partido Socialista, de que saiu o Governo, competirá resolver algumas contradições internas geradas sobretudo pela óbvia discordância entre os guardiães do templo, a consciência histórica da resistência e as feridas ainda abertas com aqueles que, pela sua postura e discurso convenceram a maioria dos portugueses de que a esquerda ainda tinha soluções para os novíssimos problemas.

A oposição não poderá comportar- -se como uma força de bloqueio primário ou, menos ainda, como um punhado de desmancha-prazeres, entre a birra e a traquinice. Pelo contrário a oposição tem, este ano, o dever de impedir que os portugueses tomem como inevitabilidades históricas aquilo que são apenas ideias, projectos ou metodologias discutíveis. Tem de combater aquilo que constitui hoje a pior ditadura que cresce no seio da nossa democracia: o totalitarismo das ideias feitas, a apropriação monopolista das consciências e dos sentimentos, escorada no défice de cidadania, no politicamente correcto e nalgum sensacionalismo mediático.

Assim sendo, todos em 2010 têm de cumprir uma agenda que não escamoteie ou maltrate as grandes questões nacionais. E, aqui, distinguir aquilo que sendo próprio está ainda no nosso livre arbítrio, daquilo que sendo alheio nos condiciona ou nos obriga, nos salva ou nos destrói neste mundo globalizado.

É preciso discutir se vamos condenar à regressão a nossa classe média; se vamos travar o processo de incapacitação e iliteracia dos portugueses; se vamos reconstruir uma solidariedade assente em direitos e deveres num quadro de responsabilização geral, arrumando de vez o logro da igualdade; se vamos deixar de confundir instrumentos com desígnios e a força com a violência.

É preciso encontrar um ponto de coexistência combativa com o desemprego, com a corrupção, com as novas formas de pobreza, com a diminuição dos rendimentos, com a falta de horizontes, eventualmente com o desespero de muitos. Com mais resultados e menos retórica, com mais eficácia e menos leis.

É urgente descobrir o essencial da nossa coesão ética, cultural e social e defendê-la num imperativo de colaboração geral e nacional.

É urgente estabelecer com clareza as nossas diferenças, fazer a síntese histórica, descobrir o futuro, olhar para o mundo exterior e escolher os modelos certos e reformistas. E não desperdiçar o tempo que já quase não temos.

Neste ponto suponho que deveria dar exemplos concretos. Simplesmente, hoje, os factos, duros, duríssimos, que pautam o quotidiano de um número crescente de portugueses tornam redundante a sua própria exemplificação. Todos sabemos o que não está feito ou está mal feito, o que deve ser prosseguido e o que pode ser melhorado, o que é urgente e o que pode esperar

Não é possível disfarçar mais. Não em 2010. Não é possível passar ao lado das coisas, estando nelas histórica e responsavelmente.

Portugal precisa de um projecto e um desígnio. Se para isso não tivermos imaginação, tenhamos ao menos a coragem de reconhecer que assim é. E mudar já. Este ano.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Tempos difíceis

Raquel Abecasis

RR on-line 28-12-2009 10:10

Na despedida de 2009, resta esperar que o próximo ano traga, pelo menos, mais bom senso e juízo à classe política portuguesa que, bem ou mal, tem por função governar o país.

Espera-se que o Primeiro-ministro pare para pensar e desista de encenar uma crise política que ninguém quer.

Espera-se que o Presidente se assuma como tal, imponha respeito ao Primeiro-ministro e lhe diga que foi para governar que lhe deu posse.

Finalmente, espera-se que o principal partido da oposição acabe com um longo processo de auto-destruição em praça pública e possa, no próximo ano, começar um caminho que lhe permita estar presente de corpo inteiro em próximos actos eleitorais.

O que todos desejamos em 2010 é que os nossos políticos demonstrem o que valem, porque é nas horas difíceis que se distinguem os estadistas dos outros.

E é de estadistas que precisamos agora.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Frase do dia

O optimismo do meu tempo era, todo ele, falso e desencorajador, porque se esforçava por demonstrar que nós nos adaptamos a este mundo. Ora, o optimismo cristão assenta no facto de que nós não nos adaptamos a este mundo

G. K. Chesterton


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Portugal é dos países que menos investem na família

por Inês Cardoso e Kátia Catulo, i-online,28 de Dezembro de 2009

O Labour de Gordon Brown defende que a prioridade são os pais, e não as crianças, e prepara medidas para contrariar a dissolução das famílias
Portugal debate de forma acalorada o casamento gay, entre anúncios sobre a crise da família, enquanto no Reino Unido o Partido Trabalhista acaba de assumir o elogio ao casamento e à estabilidade das relações. Um pacote de propostas a apresentar em Janeiro pelo governo de Gordon Brown parte deste princípio: as crianças estão melhor quando os pais permanecem juntos. É um discurso que, vindo da esquerda britânica, apanha de surpresa políticos e sociólogos portugueses - nem sempre pelas mesmas razões.

Investimento em serviços de mediação e aconselhamento familiar, introdução de aulas sobre sexualidade e estabilidade nas relações, além da criação de medidas que previnam as separações no período pós-natal são algumas das sugestões referidas pelo ministro britânico da Educação, Ed Balls, em declarações ao jornal "The Sunday Times". Pela primeira vez desde que há estatísticas oficiais, este ano as uniões oficializadas através do casamento tornaram-se minoritárias no Reino Unido. Ed Balls, casado com a ministra do Trabalho, assegura que o governo quer fazer mais no apoio às relações familiares. E considera um erro centrar as políticas de família na natalidade e nas crianças.

Todas as políticas de apoio à família são bem vindas, desde que não pretendam "impor determinados modelos", diz o deputado socialista e activista do movimento LGBT, Miguel Vale de Almeida. "O Estado não deve intervir nos modelos. O máximo que deve fazer é providenciar meios, nomeadamente de mediação ou terapia familiar, para as pessoas recorrerem se quiserem."

A estabilidade não é, para Vale de Almeida, um valor absoluto ou essencial para as crianças. Porque o amor parental é "indissolúvel" e perdura para além da ruptura dos pais. "O discurso de que os pais vão ficar juntos para sempre é um pouco fantasioso e cria expectativas nas crianças, que depois se sentem defraudadas", alerta. Além de que família rima com diversidade e deve ler-se no plural. O discurso sobre a família é, na sua opinião, ainda "muito conservador e aflito".

O problema, contrapõe Maria José Nogueira Pinto, independente eleita nas listas do PSD, é quando a pluralidade não resulta de uma escolha livre. "Nós, burgueses, em nossa casa podemos fazer laudes à diversidade. Mas as pessoas que são objecto da diversidade, estão felizes e assim por opção?", questiona, lembrando que às famílias monoparentais estão associados maiores índices de pobreza. "Não é uma questão ideológica, sequer. São estatísticas."

As estatísticas, também elas, mostram que Portugal ocupa, na Europa a 15, o penúltimo lugar na transferência de verbas para as famílias em percentagem de Produto Interno Bruto (PIB) - 1,2%, quando a média europeia é de 2,1%. E a falta de verbas limita a oferta de novos serviços, lamenta Maria Saldanha Ribeiro, presidente do Instituto Português de Mediação Familiar. A experiência mostra que "as causas sociológicas são mais importantes do que as psicológicas" num divórcio. Embora "levianas na forma como destroem uma relação", as pessoas continuam a valorizar e perseguir a estabilidade, assegura a mediadora e psicóloga. Faltam, contudo, apoios e redes de suporte que as ajudem a ultrapassar as crises e conflitos.

Sendo a Inglaterra um país com "estruturas muito fortes de pensamento", a socialista Maria de Belém considera natural que esteja a abrir caminho na reflexão sobre a família. Mas não é necessariamente verdade que Portugal esteja sempre atrás, avisa a socióloga Vanessa Cunha. Enquanto as políticas sociais dos ingleses tendem a valorizar a figura da mãe, as políticas portuguesas atribuem maior importância à parentalidade: "Essa tendência passa por fomentar a igualdade entre o casal e favorecer o papel do pai na família."

Um fenómeno que se tornou mais visível a partir da década de 90, quando a guarda parental em caso de divórcio passou a poder ser exercida por ambos os pais, desde que o casal esteja de acordo: "Em termos de políticas de parentalidade estamos à frente da maioria dos países europeus", diz Vanessa Cunha, adiantando que essa tendência surgiu mais por necessidade do que por uma visão estratégica. "Tanto a guerra colonial como a emigração masculina deixaram muitos postos de trabalhos entregues às mulheres e é por isso que, culturalmente, continuamos a preservar o direito das mulheres a trabalhar fora de casa", explica a socióloga do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

Olhar para o que se faz lá fora e importar políticas, sem as devidas adaptações, nem sempre dá bons resultados, alerta Carlos Marques de Almeida, professor no St. Antony's College, em Oxford. "O que nós fazemos muitas vezes, diria quase sempre, é introduzir e adaptar conceitos que não são pensados para a sociedade portuguesa", afirma, acrescentando que a "ausência de pensamento crítico em Portugal" se traduz em "políticas públicas que não são adequadas à realidade nacional".

A próxima guerra

DN20091228 João César das Neves

No seu esforço para promover consenso na cimeira de Copenhaga sobre as alterações climáticas, o primeiro ministro britânico Gordon Brown afirmou que, no caso de falhar o acordo, haveria uma «catástrofe económica sem precedentes ... equivalente a duas guerras mundiais e a grande depressão» (Telegraph.co.uk; 7:30am 16/Dez/2009). Ninguém duvida das boas intenções da frase mas, mesmo assim, o que ele disse é um enorme disparate.

O mais significativo na declaração é o grau de banalização do horror inconcebível de uma guerra mundial que manifesta. Agora uma simples questão de temperaturas é considerada semelhante aos maiores morticínios da história. Mas esta não é uma afirmação estranha e até se pode considerar bastante representativa nos dias que correm. A cada momento se ouvem paralelos com as guerras mundiais. No ano passado por esta altura todos falavam de grande depressão como algo próximo. E ainda ninguém se lembrou de notar que, afinal, as semelhanças da crise acabaram por ser mínimas.

O problema de afirmações como estas não é o seu exagero e implausibilidade. Pelo contrário, elas são irresponsáveis precisamente porque podem ter razão. Este é o modo como, passado pouco mais de meio-século, vamos descendo devagar a escada que conduz a grandes catástrofes. Depois de 1945 toda a gente dizia "Nunca mais!". Hoje começa a dizer-se que "Talvez amanhã!". Não se deve ter dúvidas que banalizar algo é promovê-lo, como acontece com a corrupção, divórcio, aborto, etc.

A ligeireza destes discursos começa por manifestar alheamento. É evidente que quem fala assim não conhece aquilo de que fala. Se tivesse presente o que realmente implicaram duas guerras mundiais e a depressão nunca as invocaria sem tremer. Paradoxalmente, enquanto as afirma próximas, a própria maneira de falar mostra como estão remotas.

Por outro lado este tipo de conversa esquece a terrível probabilidade do horror. Uma situação como a que levou às desgraças de 1805, 1914 e 1939 pode repetir-se a qualquer momento. Por isso é que estas coisas não devem ser ditas de forma tão frívola. Hoje pode parece alarmismo dizer que é mesmo possível o mundo encontrar-se dentro de anos envolvido num conflito maciço. Mas é bom lembrar que em 1800, 1910 e 1930 também ninguém acreditava nisso.

A probabilidade nasce do facto que em última análise estas coisas não se devem a homens horríveis, como Napoleão ou Hitler, mas a pessoas normais como nós que, levadas ao desespero, dão poder a homens horríveis como eles. Sempre existem personalidades sádicas, sinistras e demoníacas. Felizmente só raramente levam a uma época sádica e demoníaca.

As pessoas também esquecem que o fanatismo com que os franceses seguiram Imperador e os alemães o Fuhrer se deve aos enormes sucessos que eles conseguiram. Não foi o mal que seduziu a França de oitocentos e Alemanha dos anos 30. O caminho que conduz à calamidade global é bem conhecido. Primeiro o desespero. Depois o medo. Finalmente e definitivo, o orgulho.

É evidente que o aquecimento global, mesmo que seja tão terrível como alguns prevêem, nunca terá as consequências invocadas. Mas as crises atómicas do Irão e Coreia do Norte podem abrir a porta, como uma crise político-económica na Rússia ou China. Oportunidades de calamidade existem em todos os tempos.

Felizmente a história raramente se repete. Apesar de tolices como as referidas, o fantasma de 1939-45 ainda assombra suficientemente toda a gente para ninguém o tomar levianamente. Aliás, o mais provável é que a próxima guerra global venha de um lado inesperado, precisamente como as anteriores. Foi por não haver Napoleão que as potências entraram em conflito em 1914 e foi para evitar uma nova Grande Guerra que se apaziguou Hitler. Mas em todos os casos foi a fúria e ganância que dominaram todos os outros interesses.

O progresso e a sofisticação tecnológica não nos protegem da nossa própria crueldade. Mas ao menos garantem duas características da próxima guerra: será curta e os mais infelizes serão os sobreviventes.

Papa Bento XVI apela à defesa do casamento 'tradicional'

Papa Bento XVI apela à defesa do casamento 'tradicional'

por PATRÍCIA JESUS

DN, 20091228

As palavras do Papa são desvalorizadas pela associação ILGA, que considera que a Igreja não tem nada de interessante a dizer sobre o casamento civil. Homossexuais católicos dizem ser urgente repensar posição da Igreja.

O Papa Bento XVI saiu ontem em defesa da família "fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher", num vídeo difundido no encontro das famílias que decorreu em Madrid e onde estiveram dezenas de portugueses. Uma mensagem que insiste num tema que alguns bispos portugueses abordaram recentemente, a propósito da aprovação do casamento gay. Mas, para os católicos homossexuais portugueses, a Igreja tem de repensar urgentemente as relações afectivas entre pessoas do mesmo sexo.

No Domingo da Sagrada Família, foi em castelhano que o Sumo Pontífice se dirigiu aos milhares de cristãos de toda a Europa reunidos em Madrid para o terceiro encontro das famílias, uma iniciativa criada dois anos depois da aprovação do casamento gay em Espanha. Bento XVI enviou uma mensagem por videoconferência, apelando à defesa e promoção da família "baseada no casamento entre um homem e uma mulher". O Papa afirmou que Deus veio ao mundo "no seio de uma família", e que esta instituição é o caminho mais seguro para encontrar e conhecer" Deus.

O cardeal arcebispo de Madrid, António Rouco Valera, foi mais longe na sua recusa do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que afirmou ser "contra a natureza". Rouco Valera advertiu que o discurso actualmente utilizado sobre os diversos modelos de família "é avassalador e não responde à verdade natural da família". O bispo espanhol desenhou um panorama desolador para "os valores cristãos da família", devido à aceitação social do divórcio, do aborto e dos "diversos modelos", distintos do que considera ser o "verdadeiro matrimónio entre um homem e uma mulher".

O Grupo Homossexual Católico Rumos Novos, por sua vez, diz ser "urgente, por parte da Igreja, uma nova visão sobre a sexualidade humana e sobre as relações afectivas estáveis entre pessoas do mesmo sexo".

Num comunicado sobre as alterações propostas pelo executivo português ao casamento civil, o grupo Novos Rumos considera que "defender o Amor e as relações afectivas estáveis entre pessoas do mesmo sexo é também a tradução prática" do cristianismo, "porque Jesus Cristo pregou um Deus inclusivo e do Amor e não um Deus do medo e da exclusão, ao contrário do que defendem alguns sectores da própria Igreja".

Já para Paulo Côrte-Real, da Associação ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), este discurso não surpreende. "Nós sabemos à partida que a Igreja tem dificuldade em aceitar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo", lembra.

Mas para o activista, o Vaticano perdeu toda a credibilidade como interlocutor "a partir do momento em que se recusou a apoiar, nas Nações Unidas, uma declaração em favor da despenalização universal da homossexualidade, porque temia que servisse para promover o casamento homossexual". Paulo Côrte-Real lembra que há dezenas de países que ainda têm leis que criminalizam o sexo consensual entre adultos do mesmo sexo .

Assim, considera que a Santa Sé "não tem qualquer contributo interessante para a discussão sobre o fim da discriminação dos homossexuais" - "porque é isso que está em causa quando se discute o casamento entre pessoas do mesmo sexo", conclui.

domingo, 27 de dezembro de 2009

E a seguir?...

Público, 20091227, Vasco Pulido Valente


Recebi do meu banco a seguinte carta: "Exmo. Sr., De acordo com o determinado pelo aviso do Banco de Portugal nº (...) os titulares de todas as contas bancárias, seus representantes e/ou autorizados deverão proceder à actualização dos respectivos elementos de identificação e à entrega dos documentos comprovativos. Assim solicitamos que nos (...) entregue os documentos (abaixo) assinalados: bilhete de identidade, cartão de contribuinte, comprovativo de morada, comprovativo de profissão e entidade patronal." Só falta, como eles dizem, um comprovativo da propriedade pessoal, um comprovativo do estado civil, um atestado de saúde e, não tarda muito, uma coleira no pé, para o Banco de Portugal saber exactamente por onde anda cada um de nós, não vá a gente frequentar sítios de que ele não gosta.A primeira dúvida que esta carta suscita é de saber se o Banco de Portugal tem autoridade para invadir a privacidade de qualquer cidadão por um mero "aviso", sem prévio consentimento da Assembleia da República. Pôr dinheiro no banco não passa em princípio de um acto particular e confidencial entre um indivíduo e uma instituição financeira, em que o Estado não se pode, ou deve, ingerir. É até certo ponto compreensível que um banco exija a identidade do depositante e o número de contribuinte, para não ser envolvido em negócios de natureza criminosa ou ilícita. Mas nada justifica que, sobre isso, o Banco de Portugal queira também saber a morada, a profissão e o emprego de quem usa um serviço fora da esfera pública - uma devassa manifestamente incompatível com a liberdade que a Constituição garante.

Se alguma coisa o Banco de Portugal não merece é a nossa confiança. Seja pelo que for, sob a gerência do dr. Vítor Constâncio, permitiu o desastre nacional do BPN e do PPP, que já custaram, ou vão custar, ao contribuinte centenas de milhões. Não há motivo algum para lhe revelar a nossa vida, sem necessidade aparente ou explicação bastante. Excepto, claro, a força bruta. O Governo socialista de José Sócrates nunca hesitou em restringir a autonomia dos portugueses. A informação que o Estado acumulou - e concentrou - sobre qualquer pessoa que por aí anda é, pura e simplesmente, intolerável e perigosa. Na América, em Inglaterra, em Itália ou mesmo em França ninguém o consentiria. Infelizmente, Portugal está habituado a que mandem nele como um cão vadio. Deixem fazer e depois não se queixem.

Papa sai em defesa do casamento entre homem e mulher




Fotografia do El Pais

Bento XVI saiu este Domingo em defesa da família “fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher”, considerando que a mesma é de “suma importância para o presente e o futuro da humanidade”.


Lusa

O Papa saudava desde o Vaticano centenas de milhares de cristãos reunidos em Madrid para rezar pela família, uma inicitiva iniciada há dois anos e que tem lugar no Domingo depois do Natal - Domingo da Sagrada Família. Este ano o encontro teve dimensão europeia e vários autocarros partiram de Portugal para participar na Missa presidida pelo Cardeal Rouco Varela, Arcebispo da capital espanhola.

Numa intervenção via satélite, antes da recitação do Angelus, Bento XVI afirmou que a família “é caminho seguro para o encontrar e conhecer, assim como um apelo permanente a trabalhar pela unidade de todos á volta do amor”.

“Daí que um dos maiores serviços que nós cristãos podemos prestar aos nossos semelhantes – salientou o Papa - é oferecer-lhes o nosso testemunho sereno e firme da família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, salvaguardando-a e promovendo-a pois ela é de suma importância para o presente e o futuro da humanidade”.

“Efectivamente a família é melhor escola onde se aprende a viver aqueles valores que dignificam a pessoa e fazem grandes os povos”, acrescentou.

Aos fiéis reunidos no Vaticano e em Madrid, Bento XVI pediu que “nos vossos lares se respire sempre o amor de total entrega e fidelidade que Jesus trouxe ao mundo com o seu nascimento, alimentando-o e fortalecendo-o com a oração diária, a pratica constante das virtudes, a compreensão recíproca e o mutuo respeito”.

Na sua catequese, o Papa afirmou que “o homem e a mulher, criados à imagem de Deus, tornam-se uma única carne no matrimónio, isto é uma comunhão de amor que gera nova vida. A família humana é portanto ícone da Trindade tanto pelo amor interpessoal, como pela fecundidade do amor”.

Bento XVI falou também da importância da educação cristã, salientando que a família cristã está consciente de que os filhos são “dom e projecto de Deus”.

Em Madrid estiveram seis Cardeais e oito Bispos da França, Alemanha, Holanda, Itália, Polónia, Áustria e Portugal, para além de 39 Bispos espanhóis. Num ambiente festivo, defenderam o modelo tradicional de família, manifestando a sua recusa do casamento entre pessoas do mesmo sexo, que afirmam ser “contra a natureza”.

Ecclesia, 20091227


Festa da Sagrada Famíla, Domingo, 27 de Dezembro de 2009

Sagrada Família (pormenor)
Rembrandt
Óleo sobre madeira (41 x 34cm)
Musée du Louvre, Paris

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sartre e o Natal de Jesus

Sartre

Jean-Paul Sartre e o Natal

«A Virgem está pálida e olha para o Menino. Seria preciso pintar no seu rosto aquela admiração ansiosa que se viu apenas uma vez num rosto humano.

Porque Cristo é o seu filho, a carne da sua carne e fruto do seu ventre. Ela teve-O em si própria durante nove meses e dar-Lhe-á o seio e o seu leite tornar-se-á sangue de Deus.

Nalguns momentos a tentação é tão forte que esquece que Ele é Filho de Deus.

Aperta-O nos braços e sussurra-lhe: “Meu pequerrucho”.

Mas noutros momentos fica perplexa e pensa: “Deus está ali” e é invadida por um religioso temor por este Deus mudo, por esta criança que num certo sentido incute medo.

Todas as mães ficam perplexas, por um momento, diante daquele fragmento da sua carne que é a sua criança, e sentem-se exiladas perante esta nova vida feita da sua vida, habitada por pensamentos alheios. Mas nenhum filho foi arrancado à sua mãe de forma tão cruel e radical, porque Ele é Deus e ultrapassa completamente tudo o que ela poderia imaginar… Mas penso que houve também outros momentos, rápidos e fugazes em que ela sente que Cristo é o seu Filho, o seu menino, e que é Deus.

Olha-O e pensa: “Este Deus é meu menino. Esta carne é a minha carne, é feito de mim, tem os meus olhos e a forma da sua boca é semelhante à minha, assemelha-Se a mim. É Deus e assemelha-Se também a mim”.

E nenhum homem recebeu da sorte o seu Deus só para si, um Deus tão pequenino para apertar nos braços e cobrir de beijos, um Deus quentinho que sorri e respira, um Deus que se pode tocar e que ri.

E é nesses momentos que eu, se fosse pintor, pintaria Maria».

Jean-Paul Sartre

(Trecho teatral escrito por ocasião do Natal, enquanto prisioneiro dos alemães na segunda guerra mundial: J. P. Sartre, Bariona ou le Fils du tonnerre)

A estranheza perante a beleza do texto e o curriculum de Jean-Paul Sartre é motivo deste artigo na revista 30 Giorni (versão inglesa: 30 Days) aqui: Sartre e o Natal de Jesus

Não ser cristão no Natal, os minaretes e a placa de Auschwitz

Público, 20091226, José Manuel Fernandes

Quando uma cultura maleável e relativista choca com outra firme nas suas doutrinas, por regra é a primeira que cede


Sajda Khan é uma britânica de fé muçulmana. Escrevia esta semana no Times Online: "Quando era criança, nunca percebi realmente o que era o Natal, apenas sabia que se celebrava o nascimento de Jesus." Só muito mais tarde aprendeu que Jesus também era um dos Messias citados no Corão - citado, mais exactamente, 25 vezes. Foi nessa altura que também percebeu que o cristianismo e o islamismo "partilham as mesmas raízes teológicas".

Mesmo assim Sajda Khan não festeja o Natal. Nunca festejou, recordando até que, quando estagiou num hospital, se oferecia para trabalhar nestes dias para os seus colegas poderem tirar folga. Ora esta opção - insignificante, diríamos - diz muito. Porque Sajda podia fazer como tantos outros nas sociedades descristianizadas do Ocidente: adoptar o Natal como uma festa familiar e, sem lhe associar qualquer prática religiosa, juntar-se aos seus, melhorar a ceia e trocar presentes. Só que, apesar de o seu texto ser todo ele sobre os pontos de convergência entre o islamismo e o cristianismo, e de até criticar a pouca atenção que a imprensa dá, por estes dias, à mensagem de "nobreza, generosidade, compaixão e justiça" de Jesus, Sajda é muçulmana. Ponto.

Ao ler o seu testemunho é possível perceber melhor um problema com que a Europa vive e não quer entender: o da integração das suas comunidades muçulmanas. Comunidades que, ao contrário do que asnaticamente se escreveu aquando do "não" suíço à construção de minaretes, não podem ser comparadas com as comunidades judaicas que durante séculos sem conta constituíram a principal minoria religiosa da Europa. Não por estes comemorarem o Natal - os judeus têm outra festa em Dezembro, o Hanukkah, onde recordam a vitória dos Macabeus e a reconquista do Templo de Jerusalém - mas por os judeus, apesar de todas as perseguições, serem parte da cultura europeia e, talvez com excepção do mundo rural iídiche da Polónia e da Ucrânia, se terem integrado por completo no tecido social.

A situação das minorias muçulmanas é diferente, por motivos que derivam quer das características das modernas sociedades europeias, quer da forma como muitos muçulmanos as olham. E os problemas começam por não querermos reconhecer sequer a existência de problemas, como sublinhou Christopher Caldwel, autor de Reflections on the Revolution in Europe, em entrevista à Spiegel. A diferença entre as sondagens e o resultado do referendo na Suíça provam que "há uma discussão oficial sobre o islão e uma discussão subterrânea". A discussão "oficial" é a politicamente correcta; a "subterrânea" é a que preferimos desconhecer. Ora isto é preocupante.

O que é necessário compreender é que, nos seus diferentes modelos, uns mais inclusivos, outros multiculturalistas, nenhum país europeu está a conseguir integrar os muçulmanos no sentido de estes se sentirem europeus como, por exemplo, os muçulmanos americanos se sentem, na sua esmagadora maioria, americanos. Mais: os europeus esperam que os imigrantes muçulmanos absorvam, gradualmente, os valores europeus, ao mesmo tempo que a Europa se procura acomodar às suas necessidades. Só que é muito diferente permitir a construção de mesquitas (com ou sem minaretes) e, como já aconteceu em Lille, um tribunal aceitar dissolver um casamento por a noiva não estar virgem.

Caldwel defende no livro, e reafirma na entrevista à Spiegel, que o mal-estar europeu não pode deixar de estar relacionado com muitos sentirem que são os muçulmanos quem começa a ditar certas regras: "A Europa vive hoje um ambiente cultural inseguro, maleável, relativista, um ambiente cultural que, quando entra em choque com uma cultura cheia de confiança, ancorada e fortalecida por doutrinas comuns, facilmente se modifica para a acomodar." Mas deixando cicatrizes. Os "laicos", sentindo-se herdeiros de uma cultura iluminada, desprezam o islão religioso a que estão a ceder espaço. Os que se mantêm fiéis às suas identidades religiosas receiam as consequências do que vêem como uma "invasão".

O potencial de conflito agrava-se por vivermos tempos em que a circulação da informação é global e, facilmente, um conjunto de cartoons publicado num pequeno jornal dinamarquês provoca cenas de violência religiosa no outro lado do planeta. Ora a percepção desta porosidade das fronteiras, o receio de "ofender" o Outro e algum complexo de culpa dos países mais ricos têm levado a cedências inesperadas, algumas das quais põem em causa a natureza das nossas sociedades. Exemplo disso foi a aprovação, a 18 de Dezembro, pela Assembleia Geral das Nações Unidas, de uma resolução que, na linha já assumida do direito à "não difamação das religiões", estabelece princípios que podem, com facilidade, ser interpretados como limites à liberdade de criticar o extremismo religioso.

Sabemos que não é necessário ser extremista para incorrer no preconceito. E como do preconceito é muito fácil saltar para a exclusão, e da exclusão para a perseguição. Timothy Garton Ash chamou precisamente a atenção para este encadeamento no seu texto de quinta-feira no The Guardian. A propósito do roubo da infame placa que marcava a entrada do campo de extermínio de Auschwitz, lembrava que ainda por estes dias ouvira nas televisões alemãs noticiar que o nazi John Demjanjuk que está a ser julgado actuara no "campo de extermínio polaco de Sobibor". Polaco? É verdade que esse campo foi construído no território da Polónia, mas como é possível que, hoje por hoje, os principais canais de televisão germânicos se lhe refiram não como um campo nazi, mas como um campo "polaco"?

Porque, explicava Garton Ash, o preconceito sobrevive: a Polónia continua a ser associada a catolicismo e a anti-semitismo, quase a Holocausto. No entanto, na Polónia houve de tudo, como em qualquer comunidade humana há de tudo. O historiador recorda o caso de Jedwabne, uma aldeia onde os polacos se anteciparam aos nazis e massacraram todos os judeus. Mas não longe de Jedwabne, noutras aldeias, outros polacos ou seguiram com indiferença o destino dos judeus, ou arriscaram a vida para protegê-los. E ninguém sabe explicar por que é que uma comunidade se tornou genocida e, a poucos quilómetros, outra se comportou heroicamente.

Como ninguém sabe, no limite, o que é e não é capaz de fazer. Timothy Garton Ash recomenda uma peça em cena em Londres, Our Class, onde, a partir da história de Jedwabne, se percorrem as contradições da natureza humana. E lembra, a finalizar "que não existem apenas alguns povos que são vilões e outros que são heróis: a verdade é que o mesmo homem ou mulher pode comportar-se terrivelmente num dado momento, magnificamente no momento seguinte". Ou seja - e que apropriada é esta reflexão por estes dias: "Somos fracos e somos fortes; carregamos o peso da culpa e temos direito a pedir clemência; e por fim crescemos, adoecemos e morremos."

Jornalista