sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Trabalho e emprego

Maria José Nogueira Pinto

DN 20100128

Nada mais politicamente incorrecto do que a convicção de que falar de desemprego nem sempre é falar de falta de trabalho. A título de exemplo cito o caso de uma empresa de grande dimensão que recrutou, no ano de 2009, nove mil e oitocentos trabalhadores dos quais oito mil e duzentos se foram embora durante o mesmo ano, após faltas sucessivas, abandono do lugar e, até, comportamentos ilícitos. Imagino que muitos deles se tornaram automaticamente beneficiários de algum subsídio pago pelos nossos impostos.
O que nos devia preocupar é este país dual, dividido entre os que têm trabalho e os que, querendo trabalhar, o não encontram; entre os que mantêm os seus rendimentos de trabalho, o que, nas actuais circunstâncias, significa um aumento do respectivo poder de compra, e os que se viram bruscamente privados de qualquer rendimento e não podem fazer face às necessidades básicas do seu agregado familiar; entre os que prosseguem habitualmente a sua vida e os que se sentem humilhados e perdidos. Questão diferente é a de considerar todos os que não têm emprego como uma categoria homogénea, tal como é um erro pensar que mais pacotes de medidas governamentais ou injectar mais umas quantas dezenas de milhões de euros nos permite ficar com a consciência tranquila.
As políticas públicas concebidas e aplicadas desta forma implicam riscos de fracasso quer ao nível dos conceitos quer ao nível das práticas. O primeiro é o de sedimentar uma cultura de dependência e inércia; o segundo é prescindir de uma avaliação política e técnica das medidas governamentais; o terceiro é não questionar a eficiência da máquina administrativa que as vai implementar; o quarto é não proceder a uma caracterização destes desempregados antes de produzir mais e mais medidas.
Todos se recordam da baixíssima taxa de execução do pacote anticrise de 2009. Se bem que a esquerda queira ver nisso uma espécie de "poupança" mal intencionada do que se trata é de incompetência: o anterior Governo revelou-se incapaz. A actual ministra, questionada sobre o assunto deixou escapar que algumas das medidas estavam mal formatadas. Parece que as deste ano, já da sua lavra, não padecem dos mesmos erros. Será assim? Quem nos garante que em 2011 não ouviremos uma explicação semelhante? E quem presta contas dessa má formatação? Onde está a avaliação que se impõe ao plano de 2009?
Quem está no terreno testemunha com frequência a incapacidade da máquina quando obrigada a sair das suas rotinas habituais. Os centros de emprego, cuja dinâmica é decisiva, parecem incapazes do mais elementar: conjugar com celeridade a procura e a oferta, o que decerto desencoraja o recurso a estes serviços por parte dos empregadores. Mas, ainda mais grave é o facto, igualmente comprovado, de os chamados períodos de carência terem aumentado, não em função de qualquer imposição legal mas por um inexplicável engarrafamento na triagem e encaminhamento das situações no âmbito da Segurança Social.
Finalmente, uma análise mesmo empírica permite perceber que o perfil de muitos destes desempregados aconselharia, por exemplo, medidas específicas para a promoção do auto-emprego. Muitos são pessoas que sempre trabalharam, com iniciativa própria, avessas a pendurarem-se no sistema e que se beneficiassem de medidas concretas resolveriam eles próprios a sua vida como se viu, no âmbito da campanha "Portugal Solidário" no distrito de Setúbal.
O esforço de coesão social só se justifica se os desempregados sentirem que têm de ser parte da solução e não apenas do problema, activos na busca de soluções e não agentes passivos, destinatários de medidas abstractas. E a equidade, nesta matéria, passa também por separar o trigo do joio.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Manifestação pela família e pelo casamento

Delírio

DESTAK | 28 | 01 | 2010 08.18H

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

O Conselho Económico e Social, composto pelos parceiros sociais, afirmou no seu parecer sobre as Grandes Opções do Plano 2010-2013, aprovado a 20 de Janeiro: «a listagem que é feita das intenções e das medidas, pela sua extensão e ambição, antes parece apropriada a uma situação de um país em forte crescimento económico e em que os recursos públicos aumentam também de forma rápida, o que está muito longe de configurar a previsível evolução da economia portuguesa nos próximos anos» (n.º 14). Dada a grave crise que o país atravessa, é difícil fazer crítica mais demolidora.

Também nas negociações entre a oposição e o Governo para viabilizar o Orçamento de Estado surgiu o mesmo delírio. Era necessário e urgente que os partidos se concertassem para propor as medidas duras que a situação exige e são indispensáveis ao equilíbrio nacional.

Em vez disso assistiu-se ao espectáculo deprimente do desfiar do rol de pedidos para satisfazer clientelas particulares, impondo gastos a troco do votos. Para se desculparem, diziam que as tais propostas seriam neutras na despesa. Isso é o mesmo que um homem com a casa a arder não fazer nada mas garantir que, ao menos, não deita combustível ao fogo.

O Orçamento entregue estes dias será analisado com cuidado. Mas mesmo antes de se conhecerem as contas podemos dizer que, face à grave situação financeira nacional, o debate preparatório não se centrou em medidas dolorosas e distribuição de custos.

Permaneceram os antigos debates ociosos entre procuradores de interesses instalados num delírio de um mundo a fingir.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

65º anivesário da libertação do campo de Auschwitz-Birkenau

No 65º aniversário da libertação do campo de Auschwitz-Birkenau (fotografia da autoria do deputado José Ribeiro e Castro que integrou a delegação portuguesa) vale a pena recordar o discurso do papa Bento XVI quando da sua visita ao campo durante a sua viagem apostólica à Polónia em Maio de 2006

Frase do dia

O amigo que consegue estar calado connosco num momento de confusão ou desespero, que pode ficar ao pé de nós numa hora de desgosto e pesar, que tolera não saber… não curar…é este o amigo que verdadeiramente quer saber de nós

Henri Nouwen

(1932-1996)

Padre e escritor

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Frase do dia

Ser derrotado é, na maior parte das vezes, uma condição temporária; desistir é o que a torna permanente

Marilyn vos Savant
Jornalista americana
(1946-…)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

25 de Janeiro - Conversão de S. Paulo

A conversão de S. Paulo c.1545
Jacopo Tintoretto (1518-1594)
Óleo sobre tela 152x236cm
Samuel H. Kress collection
National Gallery of Art
Washington USA

O fim do princípio

DN 20100125 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

A Assembleia da República aprovou a lei do casamento no mesmo sexo. Isso arrumou a questão? Claro que não. O confronto ainda vai ser longo e incerto. Aliás, é bastante provável que este tema venha a revelar-se o momento de inversão deste grande ataque contra a família que começou há décadas e tem tido muitas batalhas, da pornografia ao aborto. Fazendo o paralelo com o anterior combate cultural, esta mudança do conceito de casamento pode ser a "Primavera de Praga" dos movimentos antifamília.

A razão disto não vem da gravidade da questão, que é menor e abstrusa, nem resulta dos disparates, arrogâncias e atropelos democráticos que, sendo evidentes, não passam de pormenores. O motivo que poderá fazer desta escaramuça um ponto axial do embate está, não nos detalhes mas na sua lógica mais profunda, na essência da questão. Em particular em dois aspectos.

Sabemos que uma campanha mediática bem orquestrada consegue convencer o público de qualquer coisa durante algum tempo. Esta foi especialmente maciça e esmagadora, para nos impor como normal e razoável aquilo que quase nenhum outro país do mundo fez, como urgente e indispensável algo de que nunca ninguém se lembrou em milénios de civilização. Mas isso implicou uma supina distorção da verdade para nos convencer de que uma relação homossexual é equivalente ao casamento. A ditadura intelectual não se aguenta muito tempo e a realidade acaba por se impor. Basta comparar as paradas do orgulho gay com as noivas de Santo António para entender a diferença.

Aliás, a distinção decisiva, não só em termos pessoais e morais mas políticos, sociais, culturais, civilizacionais, e até fiscais, é entre a família perene e fecunda que se propaga nas gerações, baseada num compromisso para a vida, no amor como na dor, e todas as outras alternativas, da promiscuidade às uniões de facto, passando pela depravação e precariedade conjugal que o Estado tem vindo a promover em várias leis. Todos os governantes ao longo de séculos sempre compreenderam que o equilíbrio nacional depende crucialmente de famílias sadias, coisa que as ciências sociais modernas apenas confirmam. É preciso uma enorme dose de embriaguez ideológica e oportunismo tacanho para ignorar este elemento. Este não é um confronto entre duas linhas de futuro, pela simples razão de que a segunda alternativa não tem futuro.

Isto leva-nos ao segundo elemento da questão. É que aquilo que os discursos e argumentos desta discussão mais desprezaram é precisamente aquilo de que o País mais necessita: procriação. A brutal queda da natalidade, que coloca Portugal entre as maiores catástrofes demográficas mundiais, é o que está por detrás de grande parte dos nossos problemas socioeconómicos, da segurança social ao orçamento, passando pela educação, construção e desenvolvimento.

Portugal é o país da Europa ocidental com menor taxa de fertilidade. Nos últimos dados disponíveis, para 2007, o nosso valor de 1,33 filhos por mulher é dos mais baixos dos 27, apenas ultrapassado pela Hungria, Polónia, Roménia e Eslováquia, zonas de emigração. Pelo contrário, se por cá descontarmos os filhos dos imigrantes ainda caímos mais. Somos um povo em vias de extinção.

Temas como fertilidade e família são muito vastos e complexos, implicando múltiplos aspectos da realidade pessoal e cultural. Mas a maior parte dos nossos parceiros próximos, que registaram descidas importantes de fertilidade nos anos 1970 e 80, perceberam o problema e inverteram a situação na década seguinte. Hoje encontram--se numa trajectória claramente ascendente. Os nossos responsáveis, não só não repararam mas estão do lado oposto. Por isso continuamos alegremente a descer e em breve ultrapassaremos os mínimos mundiais. O futuro terá dificuldade em compreender tal imbecilidade.

Passaram mais de 20 anos da Primavera de Praga à queda do Muro de Berlim. Como disse Churchill depois da batalha de El Alamein: "Isto não é o fim; nem sequer o princípio do fim; é talvez o fim do princípio" (Discurso de 10 de Novembro de 1942).

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 24 de janeiro de 2010

24 de Janeiro - S. Francisco de Sales

S. Francisco de Sales

Foi Bispo de Genebra, na Suíça, tendo vivido entre 1567 e 1622. Viu-se logo cercado pelos calvinistas que, naquele tempo, eram tomados por uma grande aversão contra tudo o que fosse católico. Ao invés de brigar e de se entregar à oposição, S. Francisco de Sales preferiu seguir o caminho de um humanismo suave. Fez valer esta máxima: "Mais moscas se caçam com um pingo de mel do que com um barril de vinagre".

Mas não é só isso que nos ensina o santo que lembramos nesta data. Ele passou a vida escrevendo. É por isso, o patrono dos jornalistas. Seus dois livros - "Tratado do Amor de Deus" e "Introdução à Vida Devota" lêem-se em nossos dias com a mesma facilidade e interesse como no tempo em que foram escritos.

Fundou a Ordem da Visitação com Santa Joana de Chantal.
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No início de novembro de 1622, São Francisco de Sales, Bispo-Príncipe de Genebra, acompanhava o Duque da Sabóia na comitiva que ia de Chambéry a Avignon encontrar-se com o Rei Cristianíssimo, que era então o soberano francês Luís XIII. O Prelado aproveitou a ocasião para visitar os mosteiros da Visitação existentes no percurso, como cofundador que era dessa Congregação. Assim, chegou no dia 11 ao de Belley.

Entre as freiras que, pressurosas, correram-lhe ao encontro, encontrava-se uma que ele muito estimava por sua inocência, virtude e simplicidade, e a quem por isso dera o nome de Clara Simpliciana. Esta, iluminada por luzes sobrenaturais, chorava desoladamente: "Oh, excelentíssimo Senhor!" disse-lhe sem subterfúgios, "vós morrereis neste ano! Eu vos suplico que peçais a Nosso Senhor e à Sua Santíssima Mãe que isso não ocorra".

-- "Como, minha filha?!", respondeu surpreso o Prelado. "Não, não o farei. Não vos alegrais pelo fato de eu ir descansar? Veja: estou tão cansado, com tanto peso, que já não posso comigo. Que falta vos farei? Tendes a Constituição e deixar-vos-ei Madre Chantal, que vos bastará . Ademais, não devemos pôr nossas esperanças nos homens, que são mortais, mas só em Deus, que vive eternamente".

Tais palavras como que resumem a vida e a obra de São Francisco de Sales, cuja festa comemoramos no dia 24 de janeiro. Embora ele contasse então com apenas 55 anos de idade e aparentemente não estivesse doente, entregou sua grande alma a Deus três dias antes que o ano terminasse, conforme predissera Irmã Simpliciana... (1)

A grande provação

Francisco de Sales, primogênito entre os 13 filhos dos Barões de Boisy, nasceu no castelo de Sales, na Sabóia, em 21 de agosto de 1567. Por devoção dos pais ao Poverello de Assis, recebeu seu nome e, chegado ao uso da razão, o menino escolheu-o por patrono e guia.

A virtuosa baronesa dedicou-se ela mesma, com a ajuda de bons preceptores, à educação de sua numerosa prole. Para seu primeiro filho escolheu, por sua piedade e ciência, o Pe. Déage, o qual, até sua morte, foi para Francisco um pai espiritual e guia. Acompanhava-o sempre, mesmo a Paris, onde o jovem barão radicou-se durante seus estudos universitários no Colégio de Clermont, dos jesuítas.

Com um precoce senso de responsabilidade e intuito de fazer sempre tudo que fosse da maior glória de Deus, Francisco estudou retórica, filosofia e teologia com um empenho que lhe permitiu ser depois o grande teólogo, pregador, polemista e diretor de consciências que caracterizaram seu trabalho apostólico.

Francisco, como primogênito, era herdeiro do nome de família e continuador de sua tradição. Por isso, recebeu também lições de esgrima, dança e equitação. Convencia-se porém, cada vez mais, que Deus o chamava inteiramente a Seu serviço. Fez voto de castidade perfeita e colocou-se sob a proteção da Virgem das virgens.

Aos 18 anos, o jovem enfrentou a mais terrível provação de sua vida: uma tão violenta tentação de desespero, que lhe causava a impressão de ter perdido a graça divina e estar destinado a odiar eternamente a Deus com os réprobos. Tal obsessão diabólica perseguia-o noite e dia, abalando-lhe até a saúde.

Ora, para alguém que, como ele, desde o início do uso da razão não procurava senão amar ardentemente a Deus, tal provação era o que havia de mais terrível.

Seria necessário um ato heróico para dela livrá-lo e ele o praticou: não se revoltava contra Deus, mesmo se Ele lhe fechasse as portas do Céu, e pedia, nesse caso, para amá-Lo ao menos nesta Terra.

"Senhor!" -- exclamou certo dia na igreja de Saint Etienne des Grés, no auge de sua angústia --, "fazei com que eu jamais blasfeme contra Vós, mesmo que não esteja predestinado a ver-Vos no Céu. E se eu não hei de amar-Vos no outro mundo, concedei-me pelo menos que, nesta vida, eu Vos ame com todas as minhas forças!".

Rezando depois humildemente o "Lembrai-Vos", aos pés de Nossa Senhora, invadiu-lhe a alma uma tão completa paz e confiança, que a provação esvaiu-se como fumaça (2).

Calcando o mundo aos pés

Aos 24 anos, Francisco, com os estudos brilhantemente concluídos e já doutor em leis, voltou para junto da família. O pai escolhera para ele a jovem herdeira de uma das mais nobres famílias do lugar. Apesar de sua pouca idade, ofereceram ao jovem doutor o cargo de membro do Senado saboiano. Humanamente falando, não se podia desejar mais.

Para espanto do pai, seu primogênito recusou tanto um quanto outro oferecimento. Só à mãe, que sabia de sua entrega a Deus, e a um tio, cônego da catedral de Genebra, explicou Francisco o motivo desse ato tido por insensato.

Faleceu nesse tempo o deão da catedral de Chambéry. O cônego Luís de Sales imediatamente obteve do Papa que nomeasse seu sobrinho para o posto vacante. Com muita dificuldade o Barão de Boisy consentiu enfim que aquele, no qual depositava suas maiores esperanças de triunfo neste mundo, se dedicasse inteiramente ao serviço de Deus. Não podia ele prever que Francisco estava destinado à maior glória que um mortal pode atingir, que é a de ser elevado à honra dos altares; e, por acréscimo, como Doutor da Igreja!...

Zelo anticalvinista

Os cinco primeiros anos após sua ordenação, o Pe. Francisco consagrou-os à evangelização do Chablais, cidade situada na margem sul do lago de Genebra, convertendo, com o risco da própria vida, empedernidos calvinistas. Para isso, divulgava folhetos nos quais refutava suas heresias, contrapondo-lhes as lídimas verdades católicas. O missionário precisou fugir muitas vezes e esconder-se de enfurecidos hereges, e em algumas ocasiões só se salvou por verdadeiro milagre (3).

Assim, reconduziu ao seio da verdadeira Igreja milhares de almas seduzidas pela heresia de Calvino. Ao mesmo tempo dava assistência religiosa aos soldados do castelo de Allinges, os quais, apesar de católicos de nome, eram ignorantes em religião e dissolutos. Seu renome começava já a repercutir como grande confessor e diretor de consciências.

Em 1599, o deão de Chambéry foi nomeado Bispo-coadjutor de Genebra; e, três anos depois, com o falecimento do titular, assumiu a direção dessa diocese.

Apóstolo entre os nobres

Esse fato ampliou muito o âmbito de ação de D. Francisco de Sales. Fundou escolas, ensinou catecismo às crianças e adultos, dirigiu e conduziu à santidade grandes almas da nobreza, que desempenharam papel preponderante na reforma religiosa empreendida na época, como Madame Acarie (depois uma das primeiras religiosas carmelitas na França, morta em odor de santidade), Santa Joana de Chantal, com quem fundou a Visitação. Inúmeras donzelas da mais alta nobreza abandonaram o mundo, entrando nos mosteiros dessa nova congregação, na qual brilharam pelo esplendor de sua virtude.

Todos queriam ouvir o santo Bispo. Convidado a pregar em toda parte, era sempre rodeado de grande veneração, tornando-se necessário escolta militar para protegê-lo das manifestações do entusiasmo popular.

A família real da Sabóia não resistia à atração do Bispo-Príncipe de Genebra, convidando-o constantemente para pregar também na Corte. E não era a mais alta nobreza menos ávida que o povinho de ouvir aquele que já consideravam santo em vida.

Em 1608, ordenou e publicou as notas e conselhos que dera a uma sua prima por afinidade, a Sra. de Chamoisy, num livro que se tornaria imortal: Introdução à vida devota. Essa obra foi ocasião de várias conversões e carreou muitas vocações para os conventos da Visitação.

São Francisco de Sales desenvolveu seu lema no extraordinário livro que escreveu para suas filhas da Visitação, a pedido de Santa Joana de Chantal, o célebre Tratado do Amor de Deus: "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida".

Glorificado na Terra e no Céu

Os contemporâneos do Bispo-Príncipe de Genebra não tinham dúvidas a respeito de sua santidade. Santa Joana de Chantal, sua dirigida e cooperadora que o conheceu tão intimamente, escreveu: "Oh! meu Deus! Atrever-me-ei a dizê-lo? Sim, di-lo-ei: parece-me que nosso bem-aventurado pai era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia desta santa alma era toda sobrenatural e divina. Muitas pessoas me disseram que, quando viam este bem-aventurado, parecia-lhes ver a Nosso Senhor na terra" (4). E São Vicente de Paulo, sempre que saia de algum encontro mantido com São Francisco de Sales, exclamava: "Ah! quão bom deve ser Deus quando o excelentíssimo Bispo de Genebra é tão bondoso! (5)

Em seu leito de morte, o resplendor de seu rosto, que já era visível em seus últimos anos de vida, aumentava por vezes muito mais, arrebatando de admiração os que o contemplavam.

Assim que faleceu, verdadeira multidão invadiu o convento das Visitandinas, em Lyon, na França, para oscular-lhe os pés, tocar-lhe tecidos em seu corpo, encostar-lhe rosários. Ao abrirem seu corpo, os médicos constataram que o fígado do Santo se petrificara com o esforço que fizera sempre para dominar seu temperamento sangüíneo, e conservar constantemente aquela suavidade e doçura, aparentemente tão naturais nele, que conquistavam os corações mais empedernidos.

O culto ao santo começou no próprio momento de sua morte. E foi sempre recompensado, algumas vezes com estupendos milagres.

Durante a peste em Lyon, as irmãs visitandinas não bastavam para distribuir ao povo pedaços de tecido tocados no corpo do santo. Em Orleans, a Madre de la Roche mergulhava uma relíquia do venerado Prelado em água, a qual era distribuida à multidão enquanto durou a peste: um tonel por dia em média. Em Crest e em Cremieux, os representantes da cidade foram à igreja da Visitação fazer, em nome da cidade, voto solene de ir em peregrinação ao sepulcro do Bispo, caso cessasse a peste. E todos foram ouvidos.

Foi Santa Joana de Chantal quem iniciou as gestões para o processo de canonização de seu pai espiritual. Recolheu seus escritos privados, cartas, mesmo rascunhos não terminados, e trabalhou com afinco nesse sentido. Escreveu a autoridades civis e eclesiásticas e mesmo a Roma, pedindo que urgissem o início do processo de beatificação.

Mas a alegria de vê-lo elevado à honra dos altares ela só a teria no Céu, pois a celeridade dos processos humanos ficavam muito aquém dos desejos de seu ardente coração.

São Francisco de Sales faleceu em 28 de dezembro de 1622, tendo sido canonizado em 19 de abril de 1665.

O Papa Pio IX declarou-o Doutor da Igreja em 7 de julho de 1877. E Pio XI, na encíclica Rerum omnium, de 1923, atribuiu-lhe o glorioso título de Patrono dos jornalistas e escritores católicos.

Notas:
1 - Mons. Bougaud, Juana Francisca Fremyot, Tipografia Católica, Madrid, 1924, vol. II, pp. 95/96.
2 - Cfr. Butler Vida de los Santos, edição em espanhol, México, D.F., 1968, vol. I., p. 199.
3 - Cfr. Joh J. Delaney, Dictionary of Saints, Doubleday, New York, 1980, p. 236.
4- Carta ao Pe. Juan de San Francisco, apud Mons. Bougaud, op.cit., vol. I p. 145.
5 - Apud Mons. Bougaud, id., pp. 142, 145.




sábado, 23 de janeiro de 2010

Diferente

Público, 20100122 Luís Campos e Cunha

Um dia também seremos diferentes mas é tarde. Nessa altura as nossas empresas serão propriedade de alemães ou americanos

Todos os dias pensamos que o mundo poderia ser diferente. Em particular, desejamos que o nosso mundo seja diferente, seja o nosso país ou apenas o nosso círculo de relações. O interessante é que há sinais de que o mundo é diferente (e melhor) em vários locais da Terra.

Duas notícias bem diversas, bem distantes geograficamente e até algo afastadas no tempo dão-nos uma pálida ideia do que pode ser diferente.

Há uns dois meses - primeira notícia - na Alemanha, a associação de industriais - BDI business association - estava muito preocupada com a possibilidade de o novo governo baixar impostos. A Sra. Ângela Merkel tinha-o prometido na campanha eleitoral e presumo que, ideologicamente, será próxima da maioria dos homens de negócios alemães. No entanto, eles tornaram claro que a coligação centro-direita, baixando impostos, estava a pôr em causa a reputação da Alemanha de rigor e de prudência orçamental.

Quão longe estamos de uma Alemanha deste calibre! Quão distantes estão a maioria dos nossos empresários dos empresários alemães.

Esta notícia lembra-me uma das poucas coisas que aprendi com os marxistas. De facto, aprendi pouco com eles, porque tenho um coração empedernido ou uma mente demasiado alerta e nunca fui um deles. Mas aprendi que o último dos capitalistas venderia a corda com que os revolucionários enforcariam o penúltimo dos capitalistas. Os empresários alemães provaram que já não se lhes aplica tal lenga-lenga marxista. Mas os empresários portugueses, na sua maioria, pedem ajudas ao Estado todos os dias; e ajudas significam ou isenções de impostos ou subsídios, que não são mais do que impostos negativos. Todos os dias ouvimos empresários da construção civil (grandes em volume de negócios) e até (alguns) banqueiros a incentivarem o Governo a avançar com os grandes projectos; ou seja, para estes ainda o ditame marxista se aplica como uma luva. Os seus interesses mais imediatos e mais pessoais estão à frente da saúde económica e financeira do país. Mas um dia, muito mais tarde, vai ser diferente.

Uma segunda notícia, que ocupa as páginas dos jornais internacionais, mostra, igualmente, que há um mundo diferente. Estou a falar da recente guerra entre a conhecida Google e o Governo da China. A Google ameaçou sair da China se as autoridades continuassem a querer impor censura nas informações disponíveis na Internet e de acesso via Google.

Os chineses, melhor as autoridades ditatoriais da China, querem que notícias sobre o que aconteceu no Tibete ou o massacre na Praça de Tiananmen não estejam acessíveis aos cidadãos chineses. Tentaram, mais ainda, entrar nos sistemas da Google e detectar conversas politicamente pouco adequadas. A Google reagiu violentamente e ameaça sair daquele mercado.

Este problema tem sido tão grave que se tornou numa questão muito embaraçante para as relações entre a administração americana e as autoridades chinesas. Apesar de tudo, o Presidente Obama e a sra. Clinton não deixaram de apoiar a empresa.

Mais uma vez temos comportamentos na área dos negócios, por parte da Google, e da política, no que diz respeito aos americanos, que mostram quão diferente o mundo é do nosso mundo. Aconteça algo de equivalente em Angola e veremos qual a reacção, tanto da empresa portuguesa como dos políticos nacionais, ao problema.

Tudo isto nos faz sentir diferentes e piores que as melhores práticas na área dos negócios, da política e do comportamento da sociedade face aos graves problemas nacionais. Um dia também seremos diferentes mas é tarde. Nessa altura as nossas empresas serão propriedade de alemães ou de americanos.

Dirão que há quem seja pior do que nós, mesmo na Europa; admito que seja verdade mas não me satisfaz. Gostaria de fazer inveja aos outros por as nossos atitudes serem, tanto nos negócios como na política, mais responsáveis e socialmente mais ambiciosas. Tudo começa e acaba em nós próprios e nas nossa exigência face aos outros.

Professor universitário

23 de Janeiro - Santo Ildefonso

Santo Ildefonso
Masetro de Bonastre
(1445-1460)
Museo de la Catedral de Valencia

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Igreja "nunca aceitará" o casamento entre homossexuais

22.01.2010 – 20:34 Público on-line

O cardeal patriarca de Lisboa afirmou hoje que a Igreja “nunca aceitará” o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, argumentando que a família se baseia no “contrato entre um homem e uma mulher”, “onde acontece a procriação”.

D. José Policarpo escolheu o dia de São Vicente, principal padroeiro de Lisboa, para, numa homilia na Sé Patriarcal, declarar que “não se salvará a cidade se não se salvar a família”.
Esta é a primeira intervenção pública do cardeal patriarca de Lisboa após a polémica em torno da inclusão de casamentos entre homossexuais nos casamentos de Santo António, admitida pelos serviços camarários e depois recusada pelo presidente da Câmara de Lisboa, António Costa (PS).
“Ajudar a família é, antes de mais, respeitá-la na sua dignidade e na sua natureza antropológica de instituição baseada no contrato entre um homem e uma mulher, que origine uma comunidade específica, onde acontece a procriação e a caminhada em conjunto na descoberta da vida”, declarou D. José Policarpo.
Este é um dos “pontos concretos que desafiam o compromisso cooperante de todos os intervenientes na construção da cidade” referidos pelo patriarca, que afirmou que “a participação da Igreja na construção da cidade tem de processar-se em convergência cooperante com outras instituições com responsabilidade, os poderes políticos, de modo particular o poder autárquico, a Santa Casa da Misericórdia, outras instituições da sociedade civil”.
“Nessa participação no bem-comum da cidade, a Igreja está com os seus valores próprios”, recordou, depois de sublinhar que “o princípio da cooperação entre Igreja e os poderes públicos inspira a nova Concordata”.
Para o cardeal patriarca, “o projecto de lei, recentemente votado na Assembleia da República, em ordem a reconhecer que uniões entre pessoas do mesmo sexo são casamento e fundam uma família, altera a dignidade da família natural, levará ao enfraquecimento da sua auto-estima e contribuirá para o enfraquecimento da comunidade familiar”.
“A Igreja nunca aceitará a equivalência ao casamento das uniões entre pessoas do mesmo sexo, seja qual for o enquadramento legal que, porventura, lhe venha a ser dado”, declarou.
D. José Policarpo afirmou também que a Igreja nunca permitirá, em nenhuma expressão da sua acção com famílias, “que as uniões de pessoas do mesmo sexo toldem a beleza e a verdade dos autênticos casamentos”.
Com a aprovação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o patriarca prometeu um “empenhamento renovado no apoio aos casais, valorizando a complementaridade e a estabilidade dos esposos”.
Segundo o cardeal patriarca, a “fidelidade” e “harmonia” dos casais são “ameaçadas pela cultura ambiente, que veicula a provisoriedade de tudo e a dimensão consumista do próprio amor”.
“A comunhão entre os esposos é bela, mas não é fácil. Os católicos sabem que a fidelidade e a profundidade do seu amor só é possível com a força de Deus, garantida no sacramento do matrimónio”, sustentou.


Leia a homilia completa aqui

A Igreja na cidade sob o patrocínio de S. Vicente

HomiliaSVicente

Apresentação do livro "É possível viver assim. vol 3. Caridade"

Epossivelcaridade

Frase do dia

Deus segreda-nos nos nossos prazeres, fala connosco na nossa consciência, mas grita-nos nas nossas dores: são o Seu megafone para acordar um mundo surdo

C. S. Lewis

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Haiti - Apoio às vítimas


Haiti - Catástrofe Humanitária


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TGV

DESTAK | 21 | 01 | 2010 08.24H

João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Vamos levar com o TGV em cima. É já claro que a aposta na construção do comboio de alta velocidade está imparável. É verdade que essa decisão, que hoje parece definitiva, é um enorme disparate. Mas que interessa isso?

O TGV é uma tolice. Claro que o projecto tem vantagens (era o que faltava se não tivesse!) mas são muito inferiores aos custos esmagadores, não apenas financeiros, mas também ambientais, urbanos, políticos, entre tantos outros. As estimativas mostram já um valor astronómico do investimento, e todos sabem que acabará por derrapar para muito mais.

Mas as empresas construtoras precisam muito de grandes obras e os políticos anseiam por traficar dinheiros, conceder benesses e fazer inaugurações. A pressão é insuportável. Os governos no poder, ganhando esses dividendos, são sempre a favor e são contra na oposição. Dado que o resultado é inevitável, debates e atrasos só aumentam os custos.

Daqui a muitos anos vai-se ver que os comboios andam às moscas, têm de ser subsidiados de forma ruinosa e prejudicam outras formas de transporte. Já foi assim com o complexo de Sines, está a ser com os estádios do Euro 2004, será com o Alqueva. Mas que interessa isso agora? Uma coisa é o processo político, outra, muito diferente, a realidade económica e social.

Mas se neste momento é claro que vamos levar com o TGV, devemos no mínimo pedir uma coisa ao Governo: por favor, ao menos não tentem mais justificar o projecto! É que os disparates são tantos que, quanto mais inventam explicações, mais se enterram.

21 de Janeiro - Santa Inês

O martírio de Santa Inês
Juan Vicente Masip (1475-1550)
óleo em painel
Museo del Prado
Madrid

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Imagens e imaginação

por Paulo Tunhas, i-online 20 de Janeiro de 2010

O problema das televisões, em casos como a catástrofe do Haiti, é que as imagens, perversamente, limitam a imaginação do sofrimento alheio


Às vezes a televisão mostra o seu lado perverso. Ao ponto de convir, de facto, evitá-la. Agora foi com o terramoto do Haiti. Se calhar a perversão aqui era fatal, mas isso não a torna menos perversão.

Ver repetidamente pessoas que sofrem, aqui ou ali inquiridas por jornalistas sobre a natureza dos seus sofrimentos, suscita, estranhamente, uma espécie de indiferença à dor alheia, acompanhada, ou não, da respectiva má consciência. Sobretudo quando, tratando-se de uma catástrofe natural, a coisa não é susceptível, num plano imediato, de muita elaboração. Aconteceu. É um puro facto. É assim. Note-se que, se se tratasse de uma violência exercida por seres humanos sobre outros seres humanos, a reacção seria, em todo o caso, diferente. Seria necessário tomar posição. Aqui não. Culpar o vago Estado haitiano pela miserável situação da vida por aquelas bandas, que levou à extravagante escala da mortandade, ou então culpar ex- -potências coloniais, ou, por uma ou outra razão (encontra-se sempre uma), os Estados Unidos, é, no contexto, ligeiramente obsceno. Aconteceu. É um puro facto. É assim.

A imprensa escrita, pela sua própria natureza, não corre o risco da televisão. Não dá a ver. Melhor ou pior, informa. E, de um modo só aparentemente paradoxal, a simples informação é capaz de provocar emoções humanas mais poderosas, e de nos fazer pensar mais, do que a repetição em massa das imagens. Por isso passei para os jornais. Ainda gostava de conseguir continuar a experimentar a comoção da piedade quando vejo alguém ser retirado, com um sopro de vida, dos escombros. E tenho a certeza que as muitas pessoas que partiram voluntariamente para o Haiti para tentar salvar vidas não foram por causa das imagens: foram por causa da informação.

O problema da televisão não é, como se repete ritualmente nestas circunstâncias, o "voyeurismo". Supor prazer (mesmo disfarçadíssimo) na produção, ou na contemplação, daquelas imagens parece declaradamente excessivo. O verdadeiro problema, a origem da perversão, reside em o excesso de imagens inibir precisamente a imaginação. Ora acontece que o sentimento de continuidade que temos em relação aos outros, e que nos permite a simpatia e a comoção, vem da imaginação. As imagens, repetidas vezes sem conta, alheiam-nos dos outros, fazem- -nos objectos. O próprio choro da criança se transforma num objecto.

Não sei, repito, se as televisões podiam fazer diferentemente. São feitas para mostrar a exterioridade, para a impor. E a exterioridade bruta não revela o sofrimento. Mostra uma aparência que, finalmente, nos distrai da coisa em si.

Professor do Departamento de
Filosofia da Universidade do Porto

20 de Janeiro - S. Sebastião

S. Sebastião
El Greco
1576-79

Óleo sobre tela
191 x 152 cm
Sacristia da Catedral de Palencia

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A grande birra

Público, 20100119 Pedro Afonso

Há mais de trinta anos que o conteúdo do discurso político fala quase exclusivamente em direitos, olvidando os deveres


Em breve iremos assistir, no nosso país, a um conflito explosivo entre o Governo e uma parte da sociedade. De um lado a necessidade do Governo aprovar um orçamento de austeridade que contrarie o crescente défice público - aumentando provavelmente os impostos e reduzindo a despesa pública -, o que irá obrigar a novos sacrifícios. Do outro lado temos uma parte da população que, nos últimos anos, se habituou a consumir facilmente, vivendo na ilusão de que a riqueza não provém do esforço e do trabalho. Este conflito não surge por acaso, uma vez que se criou a fantasia de que o bem-estar e a felicidade, em lugar de serem procurados pelo indivíduo, deveriam ser reivindicados ao Estado; tratando-se de um direito. Dito de outro modo, a sociedade infantilizou-se e o Estado assumiu um papel paternalista de quem tudo se espera.

Há mais de trinta anos que o conteúdo do discurso político fala quase exclusivamente em direitos, olvidando os deveres. Ao longo do tempo criou-se, no inconsciente colectivo, a ideia errada de que qualquer frustração do indivíduo se devia a um direito que ainda não estava conquistado, e a solução libertadora residia em reivindicá-lo. Confunde-se, pois, direitos com aspirações. E, mesmo que sejam dadas todas as oportunidades, se porventura houver alguém que não alcança uma aspiração, isso raramente é atribuído a um fracasso pessoal, mas a uma discriminação, mesmo que muitas vezes nem sequer tenha havido qualquer esforço para se obter sucesso.

O profundo desequilíbrio que se criou entre direitos e deveres é uma das causas do nosso atraso e da falta de competitividade. Porém, raramente se ouve no discurso político o elogio do dever: o dever de valorizar o trabalho, ser justo, solidário, cumpridor, honesto, responsável, etc. Estas são virtudes associadas a uma visão do mundo antiquada, ultrapassada e opressora do homem. Mas, ao contrário do que se pensa, estes são os alicerces de uma sociedade madura, responsável e que se projecta não apenas no presente, mas também no futuro.

O paternalismo patológico, por parte do Estado, é inimigo da solidariedade, tornando as pessoas excessivamente autocentradas, preocupando-se mais em exigir o que merecem do que com o que podem oferecer aos outros. Somos confrontados com uma camada social cada vez mais infantilizada, dependente de subsídios do Estado, incapaz de se bastar a si própria e de criar riqueza que possa ser partilhada com os outros. Em vez de se incitar a ambição positiva e autonomia, fomenta-se a miséria e a regressão a um estado de dependência.

A nossa sociedade não tem vindo a ser preparada para os sacrifícios que a presente crise económica irá obrigar. Pelo contrário, foi iludida com um consumismo desenfreado, sustentado por um crédito abundante que agora acabou. Com isto disseminou-se uma síndrome de baixa tolerância à frustração, surgindo a percepção de que tudo se poderia alcançar de forma fácil e instantânea.

Diante da nossa actual realidade económica e social, é fundamental que haja coragem política para se explicar ao povo que a riqueza, a justiça e o progresso não podem ser alcançados apenas com o esforço de alguns. Todos devem participar nesse projecto; todos temos a obrigação e o dever de lutar para que Portugal se torne num país mais rico e desenvolvido. Não obstante este facto, alguém terá de reverter esta hipnose colectiva. Alguém terá de explicar que tudo foi uma fantasia; tudo foi um engano. Chegou a altura de abandonar o discurso, alicerçado na esperança pueril, de que tudo irá melhorar. É tempo de fazer sacrifícios. Mas, se a sociedade foi infantilizada, isso não se aceita facilmente sem que haja uma grande birra. Médico psiquiatra

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Outra vez não

2010-01-18 JN

Mário Crespo

A compra da TVI e agora o caso de Marcelo Rebelo de Sousa mostram que afinal Manuela Ferreira tinha toda a razão. Quando a líder do PSD o denunciou, estávamos de facto a viver um processo de "asfixia democrática" com este socialismo que José Sócrates reinventa constantemente. Hoje o garrote apertou-se muito mais. Ridicularizámos Ferreira Leite pelos avisos desconfortáveis e inconvenientes. No estado de torpor em que caímos provavelmente reagiríamos com idêntica abulia ao discurso da Cortina de Ferro de Winston Churchill quando o mundo foi alertado para a ameaça do totalitarismo soviético que ninguém queria ver. Hoje, quando se compram estações para silenciar noticiários e se afastam comentadores influentes e incómodos da TV do Estado, chegou a altura de constatar que isto já nem sequer é o princípio do fim da liberdade. É mesmo o fim da liberdade que foi desfigurada e exige que se lute por ela. O regime já não sente necessidade de ter tacto nas suas práticas censórias. Não se preocupa sequer em assegurar uma margem de recuo nos absurdos que pratica com a sua gestão directa de conteúdos mediáticos. Actua com a brutalidade de qualquer Pavlovitch Beria, Joseff Goebbels ou António Ferro. Se este regime não tem o SNI ou o Secretariado Nacional de Propaganda, criou a ERC e continua com a RTP, dominadas por pessoas capazes de ler os mais subtis desejos do poder e a aplicá-los do modo mais servil. Sejam eles deixar que as delongas processuais nas investigações dos comportamentos da TVI e da ONGOING se espraiem pelos oceanos sufocantes do torpor burocrático, seja a lavrar doutrina pioneira sobre a significância semiótica do "gestalt" de jornalistas de televisão que se atrevam a ser críticos do regime, seja a criar todas as condições para a prática de censura no comentário político, como é o caso Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez, foi muito mais grave do que o que lhe aconteceu na TVI com Pais do Amaral. Na altura o Professor Marcelo saiu pelo seu pé quando achou intolerável um reparo sobre os conteúdos dos seus comentários. Agora, com o característico voluntarismo do regime de Sócrates, foi despedido pelo conteúdo desses comentários. Nesta fase já não é exagerado falar-se da "deriva totalitária" que Manuela Ferreira Leite detectou. É um dever denunciá-la e lutar contra ela. O regime de Sócrates, incapaz de lidar com as realidades que criou, vai continuar a tentar manipulá-las com as suas "novilínguas" e esmagando todo o "duplipensar" como Orwell descreve no "1984". Está já entre nós a asfixia democrática e a deriva totalitária. Na DREN, na RTP, na ERC, na TVI e noutros sítios. Como disse Sir Winston no discurso da Cortina de Ferro: "We surely, ladies and gentlemen, I put it to you, surely, we must not let it happen again", o que quer apenas dizer: outra vez não. .


Ça ira!, manifesto da revolução matrimonial portuguesa

Público, 20100118 Gonçalo Portocarrero de Almada
Por que razão se há-de impor dogmaticamente que o casamento se estabelece entre duas pessoas?!
Por que não entre três?


O país comoveu-se quando a menina Jéssica declarou publicamente amar a menina Nádia e, por isso, com ela querer casar. E indignou-se quando um qualquer mangas-de-alpaca se opôs a tão nobre propósito, com o retrógrado pretexto de que o Código Civil não apadrinha um tão extremoso ajuntamento. Vai daí as duas meninas, em nome da sua arrebatadora paixão, decidem recorrer para os tribunais, que, em última instância, negam o direito ao pretendido casamento. O que lhes valeu foi o Governo, que, comovido com o enternecedor folhetim e zangado com os malvados juízes, se apressou a fazer justiça pelas suas próprias mãos, autorizando o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a que se seguiu a posterior aprovação parlamentar. Alegre-se o país com o happy end que pôs termo a este emocionante folhetim, digno de Bollywood, mas ninguém se iluda, porque o feliz desfecho deste rocambolesco episódio mediático mais não é do que o preâmbulo de um novo regime do casamento civil em Portugal.

A verdade é que as duas heroínas do amor, protomártires do casamento dito homossexual, são um bocado antiquadas, pois a sociedade pós-moderna deste sorridente século XXI conhece mais arrojadas expressões de acasalamento. Por exemplo, essa "cena" de que o casamento é a dois já deu o que tinha a dar e, mesmo que se admita como relíquia de outras eras, não pode ser tida, numa sociedade multicultural e globalizada, como a única modalidade matrimonial reconhecida pela lei civil. Com efeito, por que razão se há-de impor dogmaticamente que o casamento se estabelece sempre entre duas pessoas?! Porque não entre três, por exemplo, que é a conta que Deus fez?!

Se a menina Nádia e a menina Jéssica têm direito a que o seu romântico amor seja juridicamente considerado matrimonial, porque razão o menino Ibrahim, magrebino que joga no Futebol Clube da Reboleira, não pode casar simultaneamente com as suas amadas Sheila e Cynthia? Afinal, onde é que está escrito que o casamento é monogâmico? No Código Civil, é certo, mas não era também nesse vetusto pergaminho que se prescrevia a não menos odiosa exigência da disparidade de sexo, que tanto afligiu as meninas Jéssica e Nádia?!

Se já se admite a união "matrimonial" de duas mulheres ou de dois homens, admita-se também o casamento de vários cônjuges! Se não se aceita apenas o matrimónio monogâmico e heterossexual, reconheça-se então, pela mesma razão, o casamento poligâmico e homossexual! Se se deu às meninas Nádia e Jéssica o direito ao seu recíproco casamento, não se negue ao menino Ibrahim o direito ao seu harém, a bem da liberdade de nós todos, dele e também das suas muito queridas Cynthia e Sheila que, em tempo de crise, estão pelos ajustes de partilhar o mesmo marido.
Diga-se ainda, por último, que a exigência legal de que o matrimónio se estabeleça entre duas pessoas é contrária aos mais elementares direitos dos animais não-humanos. A definição do casamento como união de um homem com uma mulher é tão arcaica quanto o matrimónio para a procriação: o casamento moderno não tem nada que ver com a família ou com a geração, porque foi elevado à sublime condição do mais libérrimo amor. Ora o amor não se afirma apenas entre os humanos, como muito bem sabem quantos estimam os animais mais do que os seus semelhantes que, salvo melhor opinião, não são as ditas bestas.

Assim sendo, espera-se agora que a D. Arlete, que, desde que faleceu o marido e os filhos abalaram para parte incerta, se entregou de alma e coração à sua gata Britney, exija que o Estado português lhe permita institucionalizar esta sua amantíssima relação com o seu bichano, bem mais fiel do que o seu defunto ente querido, e muito mais carinhoso do que a sua ingrata prole. É provável que o zeloso funcionário de turno não queira abençoar esta revolucionária união e que, mais uma vez, os tribunais confirmem a recusa, em nome de um qualquer alfarrábio ultramontano. Mas se a D. Arlete, à imagem e semelhança do amoroso casalinho das meninas Jéssica e Nádia, perseverar no seu revolucionário empenho, é certo e sabido que tem garantida a vitória nos corações de todos os portugueses, sejam eles gatos ou não. E, mesmo que os tribunais não lhe dêem a razão, terá decerto direito ao prime time dos noticiários de todas as televisões e, depois, à bênção nupcial do Governo e do Parlamento.
(Nota: todos os nomes são fictícios, menos o da gata, à qual se pede desculpa pela inconfidência).
Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)