sábado, 31 de julho de 2010

Onde as leis da natureza se embrenham na confusão

Público, 20100731 José Pacheco Pereira
Na semana passada soube-se aquilo que já se sabia, que o caso Freeport acabou em nada, como os rios comidos pela areia

Nos filmes de Richard Attenborough ou na série da BBC sobre o Planeta Terra, a natureza é maravilhosamente simples. O animal A procura o sítio onde há mais comida e compete com os outros para a comer. Nalguns casos, a melhor forma de competir é cooperar, e o animal A coopera com outros animais A para conseguir comer melhor, ou com animais B que partilham do comum interesse em chegar à comida com eficácia. O animal C persegue o animal A ou o animal B, porque eles são, neste caso, a comida. Cada um usa as armas que tem ou os truques que conhece, seja camuflagem, cornos, espinhas, cheiros, encostar-se a outros que são maiores e são inimigos do animal C, meter-se em buracos, etc., etc., para se defender. O animal C e D e E e F usam as suas vantagens, ou porque correm mais, ou são mais fortes, ou tecem fios pegajosos, ou envenenam, ou se disfarçam melhor, etc., etc., para comerem os outros e sobreviverem e alimentarem os seus. Nalguns casos, o animal A ou B ou C protege acima de tudo as suas crias, noutros garantem a sobrevivência da espécie tendo tantos descendentes que, mesmo dando um festim ao animal D e E e F, sobram os bastantes. No meio disto tudo andam à pancada uns com os outros para procriarem, tendo as fêmeas o cuidado de escolher os mais fortes para acasalarem. Ocasionalmente, as fêmeas comem os machos após a procriação, um verdadeiro orgasmo sado-maso. Usam os machos de todas as armas, plumagens brilhantes, cornos retorcidos, gritos e canções, danças quase sempre mais ridículas do que de guerra, espectáculos vários em terra, mar, ar e gelo. Os caminhos são sempre os mesmos, em direcção à água e vegetação, que por sua vez faz excelentes carnes, que servem de talho a carnívoros e a insectos. Uns comem excrementos, outros água açucarada, uns cactos espinhosos, outros bife do lombo. E sejam os mosquitos ou sejam os bois-almiscarados, sejam os pinguins ou sejam os salmões, sejam as larvas ou sejam as baleias, a coisa vai sempre dar ou à comida ou ao sexo. À porta deste maravilhoso mundo do Planeta Terra, o sábio dr. Darwin serve de guia, mas recusa-se a entrar na parte mais ocidental da Península Ibérica, depois dos relatos que Richard Attenborough, entretanto Sir, lhe trouxe do tempo em que cá vinha disfarçado de Herman José.

Não é que também por cá a coisa não vá dar à comida e ao sexo, como no conjunto do Planeta Terra, só que os portugueses são senhores, ou servos, não se sabe bem, de uma infinita capacidade de confusão e complicação que estarreceria o mais complexo dos animais. Acresce que têm pouca comida e os seus escritores são notórios na incapacidade de relatarem cenas de sexo. Na gula, há muita, no sexo, ficam-se pela obscenidade, onde sempre têm as anedotas do Bocage.

Veja-se alguns estudos de caso, relativos à comida. Na semana passada soube-se aquilo que já se sabia - uma peculiaridade portuguesa é o saber-se de novo o que já se sabia, perceberam bem, ó animais superiores? - que o caso Freeport acabou em nada, como os rios comidos pela areia. Durou um dia saber-se o que já se sabia, porque no dia seguinte veio a saber-se o que também já se sabia, ou seja, que tudo ficou por esclarecer. O motivo é que foi novidade: "Falta de tempo." Felizmente que temos entre nós gente que pensa o tempo em termos cosmológicos e para quem seis anos é nada. Seis anos de Freeport, um arranque, uma operação de aprendizes de feiticeiros (uns imberbes, comparados com os de hoje no gabinete do primeiro-ministro), depois uma hibernação ainda não explicada e que teria sido objecto de inquérito cujos resultados foram para o mesmo rio arenoso, depois um rearranque com uma nova leva de personagens, o sr. Smith, os tios e os primos do engenheiro, logo à cabeça separados por uma declaração de inocência do primeiro-ministro feita pelo procurador-geral da República e pela procuradora encarregada do processo, que logo separaram a arraia-miúda da graúda. Mais uma proclamação do primeiro-ministro sobre a declaração do procurador-geral. Em seguida, uma autoridade vinda do Olimpo bruxelense veio ameaçar os investigadores a não serem muito inquisitivos com "os de cima" e acabou também a ser processada. Depois novas promessas de celeridade e silêncio. De vez em quando aparecia a notícia de que já estava tudo feito e que o primeiro-ministro estaria de fora de tudo. Mais meses, até agora aparecer um fim que durou um dia. No dia seguinte já temos tudo outra vez em cima da mesa. Não se sabe do dinheiro, não se sabe do Pinóquio, não se sabe se o engenheiro era "caro" a Manuel Pedro, não se sabe nada. Estamos pois prontos para outra.

Depois, na mesma semana, outro caso relativo à comida, com a mesma capacidade de confusão e engano que deixaria um camaleão ou uma raposa perplexos. Havia, há um mês, um negócio de muitos milhões que era desejado pela maioria dos acionistas da nossa empresa-bandeira, a PT. Implicava vender a parte da PT na Vivo brasileira, negócio primeiro negado, porque o preço oferecido era baixo, e depois, à última hora, aceite por uma larga maioria dos acionistas, porque o preço lhe pareceria bom ou então porque temiam consequências. A Telefónica vale dez vezes mais do que a PT, e ambas a competirem pela Vivo poderia dar uma daquela cenas do Planeta Terra de sangue por todo o lado no gelo. Mas veio o Possante, para usar o nome brasileiro, o nosso Mighty Mouse nacional, sob a forma do punho duro do nosso primeiro-ministro brandindo uma golden share, um amuleto moderno que infunde respeito e poder. Nem pensar em vender, porque a posse da Vivo é "estratégica para a PT". O comum dos mortais pensou que o que era "estratégico para a PT" era a própria Vivo e nada mais, a grande companhia de telefonia móvel do Brasil, com um potencial de crescimento anual superior a todos os assinantes da TMN, e que oferecia aos acionistas da PT abundantes dividendos. Pois se pensou assim, enganou-se e foi levada como as incautas moscas para o brilho de seda da teia da aranha.

É que um mês depois, num outro golpe de génio do nosso Possante, e sob a sua benevolente orientação, vendeu-se o "activo estratégico" da Vivo, por um preço que é quase igual ao de há um mês (onde não era o preço que contava mas o "potencial estratégico" da Vivo...), e, para disfarçar que o negócio não era o mesmo e que a mão do Possante não era afinal fraca, comprou-se uma pequena participação numa empresa brasileira (Lula veio logo lembrá-lo a quem se esquecera) que não tem nenhuma das qualidades "estratégicas" da Vivo. Passou-se de comer foie-gras do Périgord para paté em lata, mas tenho a certeza que alguém para além da Telefónica vai continuar na boa comida, nem que seja para manter a encenação de que foi o nosso poderoso Governo e a sua golden share que permitiram este "grande negócio".

Do dr. Darwin, que estudou tudo, ao dr. E. O. Wilson, que estuda as formigas, este canto da Península Ibérica é tido como um verdadeiro caldeirão da decadência das espécies. Há também quem nos classifique nos extremófilos, a viver no ácido sulfúrico. Um povo que come esta comida degradada, que lhe é atirada de cima com desprezo, como se fosse maná, não vai longe. Até um dia, se ainda houver força, mas ainda vai durar muito tempo. Historiador

Cavaco, tão perto e tão longe?

Expresso, 20100731,  José Ribeiro e Castro

Para a direita, o centro-direita, e o centro não capturado pela esquerda, estes meses surgiram diferentes do que se previa: um futuro sem Cavaco, ou com Cavaco cativo do eleitorado PS. Não é famoso. Se Cavaco Silva tivesse vetado a lei do casamento homossexual, a questão provavelmente não teria surgido. Mas, após 17 de Maio, tudo ficou mais incerto: não porque se apresentasse outro candidato, mas porque Cavaco Silva deslocou-se de sítio, de referência e de eleitorado.
Em 2006, Cavaco ganhou à primeira volta por 35 mil votos. Não foi grande folga. E alguns inquéritos mostram duas coisas: um declínio do apelo eleitoral e a deslocação para a esquerda do seu eleitorado, tornando-o mais dependente de votos PS para uma reeleição.  Os inquéritos Aximage/Correio da Manhã ilustram-no: Cavaco vencia com 60 por cento em Janeiro, com 56 em Março, só com 53 em Junho; e o voto socialista em Cavaco fez-se indispensável, havendo mais eleitores PS a votar Cavaco (36,6%) do que Alegre (34,2%).
Muitos repetem que, numa 2ª volta, Cavaco perde. Isso demonstra uma confrangedora falta de confiança. E assenta em premissas totalmente falsas. Nestes sistemas eleitorais, pode dizer-se quase de ciência certa que quem não ganha uma segunda volta, não é eleito certamente à primeira – e quem ganha logo à primeira, ganharia seguramente a segunda. A questão verdadeira é, portanto, outra: se, pelos seus actos, Cavaco Silva enfraqueceu ou alienou a possibilidade de ser reeleito à primeira volta, o que é melhor para fortalecer as hipóteses de eleição à segunda? Mais candidatos nesse espaço? Ou o monopólio cavaquista? A resposta temo-la na dinâmica natural destes sistemas, incluindo no único caso ocorrido em Portugal: a pluralidade de candidaturas representativas num dado espaço eleitoral favorece a sua mobilização e competitividade; e potencia a sua vitória à segunda volta. Em 1986, Freitas do Amaral não teve mais ninguém no seu espaço de captação eleitoral: liderou folgado à primeira volta; mas perdeu à segunda. Em 1986, só houve segunda volta à esquerda – resultado: a esquerda ganhou.
Ou seja, se o centro e a direita querem vencer as próximas presidenciais e, depois, terem um Presidente do seu espaço e não do outro, podem ter mais hipóteses com diferentes candidatos do que com a suave espera cavaquista. Pode ser mais seguro ser da maioria presidencial à segunda do que à primeira.
O caso simbólico do não-veto não foi apenas isso, mas o despertador de mais desapontamentos adormecidos: a forma como visitou a Madeira, recebendo a oposição regional numa sala de hotel; o modo como se desenvolveu o diferendo no Estatuto dos Açores; o caso das escutas em Belém e o seu estrondo em cima da campanha do PSD, nas últimas legislativas; a não exigência do referendo ao Tratado Europeu, ao arrepio de todas as promessas eleitorais de 2005; o consentimento do governo minoritário de Sócrates. E, quando Marcelo Rebelo de Sousa, conselheiro de Estado designado por Cavaco, comentava, a propósito do funeral de Saramago, que "é mais importante ser-se Presidente do que os netinhos" – isso ilustra outra fraqueza: a quebra de autoridade externa.
Os desapontamentos feriram os sectores que mais acreditavam em Cavaco e que mais se bateriam quando as coisas apertassem. Agora, as coisas ficaram mais dependentes do cinismo dirigente e do calculismo de ocasião. Isto é mais fraco do que uma candidatura enraizada em convicções, sinceridade, identificação e esperança. Sobretudo é mais vulnerável e incerto. E, por isso, ficou mais complicado. E mais em aberto.
A seis meses de vista, num país em crise, confundido e descrente, estamos perto, mas tudo parece ainda tão longe. Falta entusiasmo, esperança, energia. E falta verdade.

Constituição e a liberdade do presente e do futuro

DE, 31/07/10 00:01 | José Ribeiro e Castro 
Com uma Constituição que, a caminho de 2011, afirma, no Preâmbulo, a “decisão” (sic) de “abrir caminho para uma sociedade socialista”, só podemos sorrir com a fingida indignação de José Sócrates contra a “ameaça ultraliberal” na revisão constitucional de Passos Coelho. A frase, aliás, é de gargalhada.
O PS perdeu a noção das proporções. Pratica o superlativo no gargarejo , como cosmética do seu Governo negativo. Flagela todos os dias o Estado Social, mas aprecia pretextar-se seu único paladino.
O PSD não foi feliz no tempo de entrada. Falhou nas propostas para o sistema político, contraditórias e desnecessárias ou negativas. E também quanto à Constituição económica e social, ao confundir planos. Mas daí até favorecer o discurso do PS vai a distância entre a esclerose do passado e a esperança de um futuro melhor. Passos Coelho tem a coragem de enfrentar o problema.
O discurso do PS exibe-se entre o Neandertal e o Cro-Magnon do pensamento constitucional. Eu não sou liberal, mas tomara Portugal ter uma Constituição liberal, como muitas democracias do mundo - incluindo as mais antigas e estáveis. E prósperas. Há boas razões históricas para isso: no Estado moderno, liberalismo e constitucionalismo são irmãos gémeos, contemporâneos. Com uma Constituição liberal, podem governar sem problemas não só liberais, mas também conservadores, democratas-cristãos, socialistas, sociais-democratas, até comunistas. Ao passo que, com uma Constituição socialista, só socialistas e comunistas estão no seu ambiente - todos os outros ficam amputados na sua acção política.
Uma Constituição liberal é a mais aberta e inclusiva que existe. Aquela que reserva o essencial das decisões políticas programáticas para o povo - em vez de para os juízes.
Em 2002, o Tribunal Constitucional chumbou a reforma do Rendimento Mínimo Garantido para não ser atribuível aos 18 anos de idade, mas apenas aos 25. Fê-lo em nome de um tal "princípio de não-retrocesso social", a fatiota jurídica das "conquistas da Revolução". Concorde-se, ou não, com aquela ideia, um país em que um Governo legítimo e uma maioria parlamentar não podem regular o rendimento mínimo respira democracia? Não! É de sentido único. Tem o destino traçado.
Uma Constituição liberal não impõe o liberalismo - e esse foi o estrabismo de certas propostas PSD. A questão não é substituir termos ditos "socializantes" por "liberalizantes". Não é trocar uma cartilha por outra. É não ser cartilha. Exemplo: é absurdo substituir por "razão atendível" o conceito consagrado de "justa causa" - um princípio geral de Direito, mesmo se não escrito na Constituição. Mas já faz sentido discutir se o Direito do Trabalho deve estar fixado na Constituição e, portanto, se essas matérias devem continuar lá ou serem desconstitucionalizadas. Essas e outras.
Uma Constituição liberal é uma Constituição que percebe isto: quanto mais escrever, mais serão os juízes a decidir e menos os cidadãos. Opta pela cidadania, pelo povo. Acredita nas eleições. Liberta o presente e o futuro. Abre a política para a política, em vez de a encerrar no Direito. Não impede o devir democrático da História.
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José Ribeiro e Castro, Deputado pelo CDS

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Como se continuam a destruir as escolas portuguesas

Público, 20100730 José Manuel Fernandes
Os alegados defensores da escola pública são os seus maiores inimigos. Porque não respeitam alunos e famílias
Estamos na última semana de Julho e há pais a receber em casa cartas a dizerem-lhes que os seus filhos vão mudar de escola. A darem-lhes - teoricamente - a oportunidade de se manifestarem contra essa mudança. E cartas que são assinadas por entidades cuja designação faz lembrar o gonçalvismo: "comissões administrativas" nomeadas para os novos mega-agrupamentos. Comissões que, formalmente, só entram em funções a 1 de Agosto - mas que já estão a assinar cartas.

Isto que se está a passar um pouco por todo o país - desde as aldeias remotas do interior a concelhos das duas grandes áreas metropolitanas - não é incompetência e, muito menos, voluntarismo para "fazer andar as coisas mais depressa". Isto que se está a passar e está a desorganizar a vida de centenas, talvez milhares de escolas e de um número incalculável de famílias é apenas a mais recente manifestação de autoritarismo e centralismo do monstro da 5 de Outubro. Tudo porque no nosso sistema educativo os cidadãos valem pouco e os funcionários - sobretudo os funcionários mais papistas do que o papa - valem muito.

Tudo começou com duas ideias aparentemente boas: uma, a de que seria importante encerrar todas as escolas com menos de 21 alunos, pois, nestas, o grau de aprendizagem é pior e as crianças não socializam; outra, a de que se poderia gerir de forma integrada a rede de ensino, associando sob a mesma direcção os vários níveis de escolaridade.

É certo que qualquer destas ideias tem problemas. O principal óbice ao puro e simples encerramento de muitas microescolas é que estas são dos últimos sinais de vida em regiões do país totalmente desertificadas e envelhecidas. Perdendo a escola, não perdem apenas a companhia dos miúdos durante o dia, por vezes também perdem os seus pais. Por lá vive-se um definhamento que pagamos caro - que pagamos, por exemplo, nas vagas de incêndios florestais que enfrentamos todos os anos.

Já a teoria de que os mega-agrupamentos podem ser mais eficientes desafia experiências recentes em países como a Finlândia ou os Estados Unidos, que recomendam o regresso a escolas de "dimensão humana". Ora, de acordo com os dados oficiais, a média do número de alunos por mega-agrupamento é de 1700. Pior: muitos desses alunos estão espalhados por escolas diferentes, que perderam as suas chefias próprias e que agora foram reunidas porque, tal como fizeram com África as potências coloniais, os personagens de Kafka que habitam as Direcções Regionais de Educação pegaram na regra e no esquadro e trataram de cumprir as metas de "racionalização" definidas pelo poder central. Resultado: nos distritos de Viana do Castelo e de Aveiro ficaram no mesmo agrupamento escolas que distam 40 km entre si; no de Braga há um caso em que essa distância sobre para 60 quilómetros. Em muitos concelhos os mega-agrupamentos agrupam 20, 30, 40, 50 escolas diferentes e, pelo menos num caso, a demência foi ao ponto de juntar 63 escolas sob a mesma "comissão administrativa".

Vamos admitir, mesmo assim, que é bom eliminar todas as escolas com menos de 21 alunos e agrupar as escolas demasiado pequenas. Se existisse apenas esse objectivo, o processo teria de decorrer exactamente ao contrário. Nunca poderia ser uma direcção regional a convocar os directores das escolas e a ordenar-lhes o que deviam fazer. Nunca poderia comunicar-lhes que agora iam "fundir-se" e que, ou se entendiam sobre a nova "comissão administrativa", ou ela decidiria por eles. Nunca poderia ignorar por completo os pais. Nunca poderia tratar as autarquias locais como parceiros menores. Nunca poderia deixar de prestar contas sobre, por exemplo, quanto dinheiro se poupa com a reestruturação e quanto se gasta, depois, em transportes escolares.

Não é só grave o atabalhoamento legal, que poderá levar pais e autarquias a desencadearem providências cautelares que tornarão ainda mais caótico o regresso às aulas. Não é só grave terem-se dissolvido arbitrariamente órgãos de gestão eleitos há poucos meses, e após um processo de envolvimento das comunidades que nem sempre foi fácil. Não é só grave reinar a opacidade, recusando-se o ministério a entregar a lista das escolas que vão fechar apesar de proclamar que serão (reparem na exactidão) 701. O que se passou e vai passar assusta porque revela, mais uma vez, um ministério que funciona de forma tão "iluminada" como autista. Um ministério para quem a realidade não passa de um empecilho à célere concretização das suas medidas esclarecidas.

Mas tudo isto podia ser bem diferente. Imaginem, por exemplo, que o ministério não tinha poder sobre as escolas, que apenas as podia fiscalizar e assegurar padrões mínimos de aquisição de conhecimentos realizando exames nacionais. Imaginem que as escolas eram responsáveis perante os seus utilizadores: os alunos, os pais, as comunidades locais, os educadores. Imaginem que tinham real autonomia e, face a um orçamento, procuravam fazer o melhor e, naturalmente, ter o maior número de alunos. Imaginem que as autarquias eram verdadeiras parceiras, mais próximas e mais responsabilizáveis do que os burocratas do ministério. Imaginem que as escolas públicas tinham liberdade para encontrarem, nas comunidades mais pequenas, a melhor forma de atender as necessidades locais e, nas comunidades grandes, para concorrerem entre si pela excelência. Imaginem que o sistema não discriminava as escolas privadas e que, se uma criança de uma família pobre quisesse ir para uma escola privada, poderia levar consigo o dinheiro que custaria ao Estado a sua educação se continuasse numa escola pública.

Estranho Portugal seria esse onde os cidadãos seriam mais senhores dos seus destinos do que os burocratas iluminados. Estranho Portugal esse onde o império da cunha e da pequena aldrabice daria lugar a relações transparentes e fiscalizáveis. Estranho Portugal esse que se pareceria com a Suécia, com a Dinamarca, com a Holanda. Estranho Portugal esse onde não oscilaríamos entre o dirigismo salazarista, o dirigismo leninista e o dirigismo socratista. E que belo Portugal...

O que se está a passar este ano com o fecho das pequenas escolas e com os mega-agrupamentos é Portugal deste regime no seu pior. Desta vez, ao contrário do que sucedeu com a avaliação de professores, nem sequer existe uma boa causa, há só burocracia, centralismo e autoritarismo em nome de uns centavos. Desta vez, por causa da época do ano, quase não há reacções. Mas desta vez está-se, ao mesmo tempo, a dar uma terrível machadada na única reforma recente do sistema educativo que ia na boa direcção: a que dava mais autonomia e mais responsabilidade às escolas. Só que essa reforma era uma contradição nos seus próprios termos: Portugal é o país em que o "chefe" quer, pode e manda.

Felizmente nem todos amocham.

Jornalista, www.twitter.com/jmf1957

quinta-feira, 29 de julho de 2010

29 de Julho - Santa Marta

Cristo em casa de Marta e Maria
Tintoretto
(1570-75)
Óleo sobre tela 200x172 cm
Alte Pinakothek, Munich

Políticos: a dízima a dobrar

Políticos: a dízima a dobrar

DN20100729 MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTO
Pela voz de Dom Carlos de Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, ficámos a saber que os políticos católicos devem contribuir com 20% do seu vencimento para o fundo de solidariedade da Igreja Católica. Tentei apurar se o bispo se tinha referido a todos os católicos ou apenas aos católicos que exercem cargos políticos e, para meu grande espanto, confirmaram-me esta última versão.
Confesso que, para além de espantada, fiquei confusa. De facto, sendo a voz de Dom Carlos, na circunstância, a voz da Igreja, logo duas dúvidas se formaram na minha cabeça. A primeira respeita à avaliação que nela se faz do exercício da política por parte de católicos, já que a Igreja parece só querer 20% dos seus ordenados, em vez de, por exemplo, exortar a que sejam testemunhas fiéis da mensagem evangélica no seu exercício e nas suas decisões, que não tenham dois "chapéus", o de cristãos e o de políticos, usados de acordo com a conveniência das circunstâncias. A segunda tem que ver com a ideia, aparentemente assumida, da inutilidade do exercício da política em termos do bem comum de tal modo que o dinheiro assim ganho seja visto como imerecido e até ilegítimo, um dinheiro cuja sujidade se remiria por uma dupla dízima para o fundo de solidariedade.
Ao longo da minha vida exerci diversos cargos políticos e usei os poderes que os mesmos me conferiram e que são, como se sabe, poderes-deveres. Tive sempre uma clara percepção dos riscos do poder, materializado em aspectos muito mais perigosos e tentadores que o dinheiro auferido mensalmente cujo montante está, aliás, pré-fixado em Diário da República. O que são os riscos do orgulho, da prepotência, da falta de isenção comparados com isso? Ou, noutros casos, a falta de coragem disfarçada no subterfúgio da correcção política, a negligência ou a dureza do coração? Pecados gravís- simos, digo eu, por actos e omissões. Pio XII afirmou que a política deve ser uma forma superior de exercer a caridade, a Igreja tem na sua doutrina social uma cartilha preciosa e, mais recentemente, Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate deu-nos um contributo decisivo para entender a urgência de sermos parte nos combates que um mundo inquieto e fragmentado requer. Todos os dias, com as nossas forças e fraquezas, com os nossos acertos e erros, mas sempre com a exigência de seguir o caminho, a verdade e a luz. De que política e de que políticos fala então Dom Carlos Azevedo?
Num outro plano, bem mais relevante, a minha confusão foi total. De facto, a nossa condição de políticos é transitória, mas a nossa condição de baptizados é definitiva. Uma "nova aliança" que nos acompanha até à morte e pela qual o imperativo do amor ao próximo é uma constante para todos os cristãos, políticos ou não. Esse amor traduz-se também em donativos, mas não só. Este é o amor da extrema atenção pelo outro, do cuidar, do prover, do consolar. Em nenhuma das obras de misericórdia, espirituais ou materiais, se refere o acto de dar di- nheiro. Cuidar dos enfermos, vestir os nus, acudir aos aflitos, visitar os presos, acolher os peregrinos, tudo implica proximidade física, gestos, disponibilidade de tempo, portas adentro do nosso coração, da nossa vida e da nossa casa. Porque dar dinheiro é o mais fácil, hoje até o fazemos por transferência bancária sem gastar tempo, palavras ou gestos.
Posto nestes termos, temo que o fundo de solidariedade pareça uma colecta fiscal; os 20%, um imposto exclusivo para políticos; e a Igreja, o Estado. Um dinheiro que não é caridade, mas uma contribuição financeira para algo que se reconhece como socialmente útil. Mas se falamos em caridade, então o que nos interpela vai muito além disso. Todos sabemos que os tempos vão exigir mais de cada um de nós para permitir à Igreja acudir às velhas e novas necessidades de milhares e milhares de portugueses. Os cristãos, políticos ou não, vão responder. Como, aliás, sempre fizeram.


FÉRIAS: "Poder descansar"

*TEMPO DE FÉRIAS
Poder descansar (*)*

Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso.

Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo
para comer, com muitas pessoas à sua volta.

Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco.

Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!

Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é.

A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.

Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.

Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.

O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir.

Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.

Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: *"Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". *Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois:* "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".*

Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.

*(*) Card. J. Ratzinger "Esplendor da Glória de Deus" Editorial Franciscana,
2007, pág. 161.*

Novas espécies identificadas no Estado social português

Público, 20100729 Helena Matos
O jogo das influências, das cunhas e dos pedidos sempre fez parte da nossa relação com o Estado enquanto poder


1.O povo do meio

"Todos os anos é a mesma coisa. Mas não me consigo habituar a tanta incompetência: 45 dias depois do fim das aulas, neste final de Julho, os alunos e as famílias não conhecem os horários do próximo ano lectivo, impedindo de atempadamente planearem transportes, tempos livres, actividades extracurriculares, enfim, planearem a sua vida. Como se tal não bastasse, a 5 dias do fim do mês, recebo carta a informar-me que o meu filho que vai iniciar o 7º ano afinal já não fica na escola onde se inscreveu. Criaram à pressa um novo agrupamento, juntaram as turmas todas desse ano noutra escola. Dizem que tenho cinco dias para me opor, mas nem sequer informam o que acontece se o fizer: fica na rua? Vai para outra escola ainda mais longe? Tá tudo maluco" - escreveu Gabriel Silva no blogue Blasfémias.

Ao contrário do que escreveu Gabriel Silva não está nada "tudo maluco". Quem assim procede sabe muito bem o que está a fazer, pois, como diz o provérbio, manda quem pode, obedece quem deve. E nós portugueses devemos. Ou muitos de nós devem. Muito particularmente aqueles que gostam de se definir como classe média e que estão presos pela retórica, pelos impostos e pelas aparências a um Estado que se diz social. É o povo do meio.

Para aqueles que vivem nas franjas, o problema naturalmente não se coloca. Ou colocam os filhos em colégios privados, de preferência estrangeiros para que as crianças fiquem a salvo de alguns desvarios pedagógicos nacionais e sobretudo aptas a triunfar em qualquer lugar do planeta, ou então gritam muito e invocam discriminações e traumas vários que lhes garantem a compreensão de muitas assistentes sociais e animadores culturais.

Só quem está no meio precisa de saber em Julho os horários que os filhos vão ter em Setembro, pois os outros têm sempre quem resolva ou se preocupe por eles. Quem está no meio é que não tem saída. Quem garante que as crianças cujas famílias contestem não acabarão num agrupamento pior? Num horário que não dá jeito? Ou numa turma que se designa como problemática? E qual é a alternativa a não obedecer? Pedir ao agrupamento que entregue a cada família os 5 mil euros que lhe custa o aluno e usar esse dinheiro para pagar um colégio ou colocar o filho noutra escola pública? Não pode ser que isso, dizem, é a destruição do Estado social. Claro que seria sim a destruição do Estado deles. Daqueles para quem vários pais nesta espécie de jogo de sorte e azar telefonam para que o seu filho aparentemente calhe numa turma conveniente. Dos chefes deles. E dos chefes dos chefes deles.

O jogo das influências, das cunhas e dos pedidos sempre fez parte da nossa relação com o Estado enquanto poder. Quando o Estado se passou a chamar social, a mobilidade social passou a depender cada vez mais da capacidade que tivermos para nos relacionar com a sua estrutura. O povo do meio para passar a ser povo de cima não tem de trabalhar mais. Tem de aprender a mexer-se melhor no labirinto estatal. E sobretudo não esquecer que a primeira regra para conviver com o Estado social é que este não se contesta. Influencia-se.

2.Os encostados

"Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL) está a propor aos trabalhadores que aceitem uma "redução voluntária do salário-base" e lhe entreguem, a título de "doação", o valor de que prescindirem mensalmente, mantendo-se os seus recibos de vencimento inalterados." PÚBLICO, 27 de Julho de 2010.

Creio que se os abrangidos por esta redução contestarem com algum ruído esta proposta conseguirão que a sua administração siga o exemplo da ministra da Cultura e não só desista de lhes reduzir os salários, como ainda conclua que saiu vitoriosa desse processo de doação-redução. Nós cá estaremos para continuar a doar os nossos impostos, taxas e contribuições para que a EPUL continue a fazer cidade, a amar cidade, a lutar pela cidade, a investir na cidade, a desenhar a cidade, a planear a cidade...

Mas para lá dessa fantástica concepção dos funcionários enquanto doadores existe aqui um outro logro. Para que serve a EPUL? Porque existe? Presta algum serviço que justifique a sua existência? A EPUL vive em constante falência técnica que obriga a que todos os anos reivindique que o munícipio lisboeta cubra os seus prejuízos que nunca se contam por menos de vários milhões. Urbaniza cada vez menos e quando tal acontece colecciona processos dos clientes. Pauta-se também por não fazer nada que a distinga da mais desinspirada empresa de construção civil como facilmente se confirma ao descer a Av. das Forças Armadas ou visitando o Martim Moniz. Mas a EPUL existe e existirá enquanto a sustentarmos. Autarca algum mesmo que o deseje dificilmente conseguirá extinguir este monstro. À primeira tentativa enfrentaria não só a oposição corporativa de todos aqueles que se sentissem lesados nos seus interesses por esta extinção, como, vinda sabe-se lá donde, surgiria imediatamente um campanha sobre o papel crucial da dita EPUL no preservar da cidade da voracidade dos investidores imobiliários e outras patetices quejandas que não têm qualquer tradução prática, mas alimentam muita campanha a favor do papel do Estado. E depois o monstro não faz nada, mas dá colocações, cargos, influências, carros de serviço, lugares invejados. Afinal, bem vistas as coisas, o monstro não serve para nada. Mas serve-nos. Basta que sejam os nossos que estejam lá.

Pelo país todo monstros como a lisboeta EPUL sugam-nos até ao tutano. Mas que fazer? O filho do senhor do talho que se tornou vegetariano e fez um curso de computadores, mais a namorada que é psicóloga, a prima que é engenheira de relvados e aquele rapaz porreiro do call center que se tornou administrador, para todos eles e para todos os outros o sonho é, como dizem satisfeitas as famílias dos admitidos, "encostar-se" ao Estado, à câmara, ao instituto, à direcção regional, ou seja, a estes monstrinhos que não se sabe o que fazem, mas dão muito a ganhar.

Em qualquer cidade de província ou vila é fácil reconhecer os "encostados", pois eles tornaram-se na nova aristocracia local. Nas mesmas terras onde os seus avós semianalfabetos tinham como objectivo não aturar mais patrões, o sucesso dos netos licenciados em saberes etéreos passa agora por um lugar influente nas estacas desse pantanal assente numa rede de leis, regulamentos e disposições sempre cheios de omissões onde se cruzam os dinheiros e os poderes públicos com os interesses dos privados. Arranjar um "encosto" é muito mais do que ter um lugar de decisão no Estado. Graças a ele consegue-se uma espécie de via verde para aceder a outros serviços onde outros encostados decidem agrupamentos escolares, acessos a hospitais, lugares nos centros de dia, mais vagas nas secretarias...

Portugal hoje é isto: um país que empobrece, que não ganha para sustentar o seu Estado e em que a única saída possível parece estar não na alteração desta forma de viver, mas sim no conseguir fazer parte dela. Ter um "encosto" é o sonho de qualquer um e mesmo no sector privado o sonho é trabalhar por encomenda dos encostados e protegido pelos encostados. A única coisa que perturba o mundo do encosto é a mudança. Os encostados, as famílias dos encostados, os privados que fazem negócios com encosto e que precisam do aval dos encostados... ou seja, os portugueses na sua quase totalidade não só querem, mas sobretudo precisam que tudo se mantenha como está. É esse o seguro de vida política de gente como José Sócrates e Alberto João.

3.Os donos do nosso

Quarta-feira, enquanto escrevo, a PT confirma a venda da Vivo por 7,5 mil milhões e a entrada na Oi. No primeiro instante só me ocorre dizer que o "sangue do nosso sangue" - como Granadeiro definiu há semanas a Vivo - sofreu uma transfusão. Há uns escassos dias a Vivo era essencial para enfrentarmos um ataque terrorista ou uma crise, não era? E a Pátria, senhores? O que será agora feito da Pátria?

Não há como o argumentário da defesa dos ataques especulativos do capital para que tudo e o seu contrário se tornem possíveis. Em Portugal esse argumentário tem valido nas mais diversas épocas e regimes. Desde umas barracas da Junta Nacional das Frutas que nos idos de 70 do século passado se propunham vender uns legumes a preços tabelados que nos libertassem da especulação do mercado - tudo acabou, como era mais que previsto, nuns tristes vegetais tabeladíssimos e enfezadíssimos que tal como os ditos postos acabaram por apodrecer à míngua de clientes - até à nacionalização da Companhia dos Telefones em 1968: três anos depois o saldo da "companhia ser nossa" traduzia-se numa fantástica lista de espera de 33 mil aparelhos. Mas a companhia era nossa!

Quando finalmente a realidade se impõe, percebe-se que nada daquilo fazia sentido ou falta, mas até lá a retórica do "nosso" vai rendendo poder a quem gere o "nosso", esse endémico gambuzino. E esse poder é que conta. Ensaísta

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Frase do dia

Com facilidade desculpamos uma criança que tem medo do escuro. A verdadeira tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz
Platão

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O antibiótico

JOÃO CÉSAR DAS NEVES

DN2010.07.26

Portugal sofre neste momento três gripes acumuladas. Daí o mal-estar, dores de cabeça, náuseas, paralisia. Em vez de remédios improvisados, era bom usar antibiótico.

Todos sabemos que apanhámos a gripe grega. Os credores assustaram-se com a dívida pública excessiva e descontrolada e ameaçam perder a confiança. Embora localizada só nas fossas nasais, a constipação influencia toda a economia com subida dos juros, bloqueio financeiro, degradação da credibilidade e falta de dinamismo.

Pior é que também sofremos de uma variante da gripe americana. Não apenas o Estado está endividado, mas toda a economia se deixou deslumbrar com a facilidade do crédito. Nos EUA foi o sub-prime, por cá foi a descida das taxas por causa do euro. Agora os consumidores, apertados pelos juros antigos, não têm poder de compra, como as empresas não se atrevem a investir. Isso cria febre, perda de apetite, tonturas, dores por todo o corpo.

Essas duas gripes, apenas financeiras, são sérias mas passageiras. Pior é termos também uma forma da gripe europeia, estrutural e em dose bastante virulenta. A actividade económica está estrangulada por bloqueios sociais e políticos, num momento de reestruturação mundial em que precisava de agilidade. Não é apenas o peso esmagador dos impostos e o entorpecimento da burocracia, mas toda uma portentosa máquina que, em nome de louváveis finalidades e múltiplos interesses, vigia, ameaça, castiga, multa, prende, amarra quem quer que queira trabalhar e produzir.

As leis laborais impedem o ajustamento das empresas, mas são apenas uma pequena parte do enorme emaranhado de decretos, portarias, directivas e regulamentos que as paralisam. Exércitos de fiscais e inspectores castigam quem produz. Das regras ambientais à defesa do consumidor, das posturas camarárias ao ordenamento do território, do combate ao tabagismo, discriminação, poluição e injustiça à promoção da criatividade, juventude, biodiversidade e cultura, tudo serve para encarecer ou bloquear a iniciativa.

Além disso, para desenvolver a economia, o Estado distorce-a protegendo os sectores que acarinha. Construção, comunicações, bancos e energia têm mercado seguro, benefícios blindados, lucros garantidos. Não admira que prosperem e atraiam os melhores cérebros e investimentos, secando o resto. Quanto mais o Estado promove o desenvolvimento mais ele definha. Atacando o cérebro e o coração, esta gripe gera delírio, palpitações e paralisia, ameaçando a própria sobrevivência nacional.

Embora diferentes na localização e sintomas, as três gripes têm identificado um vírus comum. É a ânsia da vida fácil, o mito da riqueza sem esforço, a ilusão de pertencer ao clube sem pagar a jóia. Isto não é só nos maus e corruptos, mas em todos. Participando na União Europeia, adquirimos exigências sem meios para as suportar. Os sindicatos querem salários europeus, os consumidores ambições europeias, os cidadãos reclamações comunitárias. Há é poucas empresas e produtividades de nível europeu. Leis, despesas públicas, e até os salários e consumos ajustaram-se facilmente aos níveis da União. As capacidades, resultados e serviços é que não.

As gripes juntas criam situação grave. O tratamento eficaz impõe jejum e disciplina para regressar à solidez e credibilidade indispensáveis para relançar o desenvolvimento. Há que cortar ilusões, exigências, mas também salários, pensões, subsídios, benesses, direitos, ajustando à disponibilidade de recursos. Não é preciso cortar muito, apenas equilibrar. Quando mais depressa e mais abrangente, melhor e mais justo.

Todos sabem o que há a fazer mas nenhum político sensato quer as culpas de o aplicar. Por isso se perde tempo em debates espúrios e mezinhas débeis e provisórias. Mas existe um antibiótico para esse vírus: o FMI. A grande vantagem é que ele fica com as culpas. Os cidadãos aceitam a austeridade e não acusam o Governo, deixando incólumes os políticos locais.

O diagnóstico está feito, a terapêutica preparada, o remédio seleccionado. Só falta cumprir a prescrição.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vistas curtas

Público 20100723  Luís Campos e Cunha  

Assuntos importantes raramente são urgentes e raramente os assuntos urgentes são os mais importantes

Defender aquilo em que acredito é um dever e um privilégio. E, devo confessar, estar contra a corrente dá-me um gosto acrescido. Infelizmente muitas vezes tenho tido esse gosto. Nada mais irrita, quando se quer discutir um assunto importante, do que o argumento que o problema é outro, para não se discutir esse.

E os assuntos importantes raramente são urgentes e raramente os assuntos urgentes são os mais importantes.

Naturalmente que o problema mais grave da nossa sociedade é o desemprego. Qualquer pessoa minimamente bem formada não pode deixar de pensar e agir consequentemente. O desemprego é um drama pessoal inimaginável e um problema social (e económico) que pode ser minimizado nas suas consequências pela acção do Estado. Simplesmente a sua resolução não está, fundamentalmente, nas mãos do Governo. É a prazo que o problema, de facto, se pode resolver pela revitalização do crescimento.

Lamentável é que o desemprego continue a aparecer nas bocas de alguns, à laia de manobra de diversão, quando não se querem discutir outros assuntos, também importantes. Recusam discutir o Freeport, porque o problema que interessa aos portugueses é o desemprego; não se deve falar da embrulhada TVI-PT, pela mesma razão; e agora não se discute a revisão constitucional, porque o problema dos portugueses é o desemprego.

Ora, sendo o desemprego um problema cuja resolução última é a prazo e que tem a ver com o bom funcionamento do sistema económico, e estando este claramente ligado com o bom funcionamento do sistema político, nada mais a propósito do que discutir a eventual revisão constitucional. Há ainda outra forma de matar uma discussão: matar o mensageiro. Por exemplo, Vital Moreira neste jornal, sobre a proposta do PSD, não hesita em afirmar que "... as ideias do PSD" são "retrógradas e oportunistas." Mais ainda, as propostas pelo "... facto de terem sido feitas publicamente dizem muito sobre a forma caprichosa e irresponsável como o PSD aborda as mais sérias questões político-constitucionais." É pena, porque o artigo vale a pena ser lido (concorde-se ou não) mas matar o mensageiro mata também a crítica à mensagem.

Há questões que são importantes e, desde logo, os poderes do Presidente da República (PR) e as suas responsabilidades. Se a ideia do PSD é uma dupla responsabilidade do Governo face ao Parlamento e ao PR, podemos ter problemas. Quem tem poderes, tem responsabilidades. E, qualquer que seja o PR a ser eleito, pode ter uma orientação ideológica diferente do Governo e podemos ter mais instabilidade. Se o PR o demite, fica com a possibilidade de ver a reeleição do mesmo partido. Se não demite o Governo, podendo fazê-lo, fica comprometido com o que não concorda. No primeiro caso, cria uma crise política grave; no segundo, uma co-responsabilização do PR por uma política governamental de que discorda. Portanto, neste aspecto tenho dúvidas - há que ver os detalhes, que não conheço, e o diabo está nos detalhes.

Já me parece uma boa ideia a moção de censura construtiva. Se há no quadro parlamentar uma alternativa, o Presidente deve aceitar essa alternativa maioritariamente aprovada pelo Parlamento, antes de poder dissolver o Parlamento.

Há, no entanto, algo que penso ser uma pequena revolução se viesse a ser aceite. E seria uma boa revolução. Não me apercebi dos termos exactos mas nas diferenças pode ficar como achega da minha lavra: qualquer nomeação do Governo para lugares técnicos deveria ser objecto de uma avaliação parlamentar prévia. Ficariam apenas de fora os lugares de estrita confiança pessoal, como sejam os lugares de gabinete de cada membro do Governo. Mas incluir-se-iam nessa avaliação prévia os directores-gerais, os órgãos dirigentes de institutos públicos, os administradores de empresas (públicas ou não) de nomeação governamental, etc. A análise do Parlamento deveria ser técnica: saber se a pessoa proposta pelo Governo tem um curriculum que se adeqúe ao cargo, independentemente de ser do partido do governo ou não.

Esta avaliação parlamentar, que pode ser mais ou menos vinculativa, teria um efeito dissuasor para nomeações de gente sem passado para lugares de responsabilidade. Esse efeito dissuasor levaria qualquer Governo a pensar duas vezes antes de propor um medíocre. Por outro lado, qualquer medíocre seria dissuadido de aceitar um convite do Governo, porque poderia passar pelo enxovalho de não passar a sua nomeação no Parlamento.

Naturalmente, uma norma deste tipo implica uma maturidade democrática muito grande. Se o Parlamento começasse a vetar por razões estritamente políticas, daí em diante nenhum bom técnico estaria disposto a aceitar uma proposta governamental. Seria pior a emenda que o soneto.

Já fiz muitas outras sugestões que acredito poderiam melhorar o desempenho da política em Portugal. Mas a apreciação parlamentar para lugares técnicos de nomeação política, estou certo de que já poderia representar uma melhoria considerável.

Estar a discutir apenas os problemas urgentes é esquecer os problemas importantes: não é sinal de bom coração, é sintoma de vistas curtas. Em qualquer caso, discutir a revisão constitucional, no sentido de melhorar o funcionamento do sistema político, é também facilitar a resolução dos problemas económicos e sociais de hoje. Especialmente porque todos reconhecem que há problemas no funcionamento do sistema. Lembram-se da embaraço que foi o defunto estatuto dos Açores? Professor universitário

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Método socrático


DESTAK | 21 | 07 | 2010   21.54H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Vivemos estranhos tempos políticos. A regra parece ser a desorientação e contradição. O Governo a cada passo corrige decididamente aquilo que fizera dias antes.
A cada momento surge um ministro a contradizer com firmeza o que ele próprio afirmara. As obras públicas são para manter a todo o custo e para adiar indefinidamente, conforme o dia. Com ou sem portagens, conforme a semana.
Os impostos passam de estáveis a crescentes de uma hora para a outra. As reformas decisivas na Saúde, Educação e Justiça já foram tudo e o seu contrário.
Este espectáculo grotesco, que alguns atribuem à crise internacional, parece incomparável, mesmo na triste história da multissecular democracia portuguesa. Tem, no entanto, um paralelo evidente no passado: a actuação do último primeiro-ministro socialista, José Sócrates.
Vale a pena lembrar que em 2005 o PS ganhou a primeira e única maioria absoluta sob a promessa solene de não aumentar impostos. Muitos avisaram então que tal seria impossível dada a situação, mas foram desprezados perante a firmeza do líder.
Logo que chegou ao poder, surpreendido pelo que toda a gente sabia, o Governo descobriu que tinha de subir impostos. Decidiu então faltar à palavra dada, criando uma magna encenação.
A comissão presidida pelo governador do Banco de Portugal respondeu a uma pergunta impossível: qual o défice se Governo nada fizer o resto do ano (a posse fora em Março!). Horrorizado com esse número artificial pode dar o dito por não dito.
O que hoje assistimos é apenas o paroxismo deste método socrático.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A política de emergência


Público, 20100720 Pedro Lomba

Bem sei que a cena tem sido explorada para cantigas de escárnio e mal dizer. Paulo Portas, no Parlamento, chefe de um partido com 11 por cento dos votos, a pedir à maioria do mais prepotente Governo que já tivemos que mude de primeiro-ministro para abrir caminho a uma coligação PS-PSD-CDS. Estávamos mesmo a ver que a proposta iria ser recebida com o cinismo de serviço; e estávamos mesmo a ver que PCP e Bloco de Esquerda iriam gostar dela, por se sentirem desconvidados.

Já fui crítico de Paulo Portas muitas vezes. Isso não importa agora. Digo-vos porém que este apelo de Portas a que o Parlamento crie condições para uma grande coligação me pareceu tudo menos digno de riso. Podemos discordar do momento e do método como ele a apresentou. Podemos discutir as suas intenções. Mas, cálculos à parte, penso que Portas verbalizou o sentimento de muitos portugueses que estão fartos do estado de impotência e chantagem a que chegou a nossa política.

O raciocínio desses portugueses é o seguinte: se estamos a passar por um período de austeridade económica sem precedentes, se vamos perder nível de vida, se vamos sofrer na pele desvios persistentes em relação à Europa, se nos preparamos para atravessar um período difícil, não haverá motivos de sobra para sermos governados também em circunstâncias extraordinárias? E por que esperam os partidos? Para tempos extraordinários, não bastam governos triviais fazendo a politiquice de sempre. São precisos governos em condições de emergência.

Estas condições indubitavelmente existem. Depois de uma década perdida, preparamo-nos para outra a marcar passo. Não iremos crescer nada que se veja, nada que sustente o nosso modo de vida. O destino é o empobrecimento das classes médias, a acentuação da desigualdade social e, como para muitos já está a ser, a nova emigração.

O Governo, entretanto, gastou-se. Sócrates não consegue governar em minoria, ou não quer governar em minoria. Prometeu, antes das eleições, o paraíso e acabou a oferecer o inferno dos PEC, do aumento de impostos, da subida do desemprego, da dívida, da sensação difusa de que o pior ainda está para vir. E podíamos acrescentar os factos mais desprimorosos da sua conduta que, fosse a política uma profissão sujeita a um código deontológico, dariam para o primeiro-ministro sofrer o seu próprio exílio de Elba, inibido de exercer cargos públicos durante largos anos.

Se estas não são condições para uma emergência política, não sei que condições podem existir. De certa forma, o espírito de emergência já existe na cabeça do PS e dos seus dirigentes. Foi assim que Teixeira dos Santos pretendeu justificar o aumento retroactivo dos impostos. Mas, perante isto, o PS adia o problema. É ele, Sócrates, o primeiro interessado numa instabilidade política que possa envenenar o país e permitir o passar de culpas. O PSD segue à risca o seu calendário. E Bloco e PCP acenam com a expectativa do "governo da rua". O eleitorado está dividido e apático, como o demonstram as sondagens. E um eleitorado dividido não é bom para a governabilidade.

Aquilo que Portas formulou foi nem mais nem menos do que um apelo a uma política de emergência. Dificilmente essa política poderá ser monopartidária, porque nenhum partido sozinho, sobretudo se for o PSD ou o CDS, conseguirá a legitimidade necessária para a impor ao resto do país sem grandes resistências do "governo da rua". Uma política de emergência tem de se basear num consenso de emergência intrapartidário. É verdade que esse consenso deveria estar aberto a todos os partidos. Mas não tenhamos ilusões: estarão PCP e Bloco em condições para o aceitar?

Num tempo extraordinário, corremos o risco de temos um governo que não quer governar (como o actual) ou um governo que pode ser impedido de governar (um PSD em minoria), sabotado em permanência pelo "governo da rua". A escolha que temos pela frente é só uma: ou teremos governo, ou não teremos. Em vez de olharem para o próprio umbigo, seria bom que PS, PSD e CDS tratassem de fazer o consenso que permitisse formar um. Jurista

terça-feira, 20 de julho de 2010

Carta de um padre

A carta que se segue foi escrita pelo padre salesiano uruguaio Martín Lasarte, que trabalha em Angola, e endereçada a 6 de Abril ao jornal norte-americano The New York Times.  Nela expressa a sua perplexidade diante da onda mediática despertada pelos abusos sexuais de alguns sacerdotes a par do desinteresse que o trabalho de milhares religiosos suscita nos meios de comunicação.



Eis a carta.

Querido irmão e irmã jornalista:

Sou um simples sacerdote católico. Sinto-me orgulhoso e feliz com a minha vocação. Há vinte anos vivo em Angola como missionário. Sinto grande dor pelo profundo mal que pessoas, que deveriam ser sinais do amor de Deus, sejam um punhal na vida de inocentes. Não há palavras que justifiquem estes atos. Não há dúvida de que a Igreja só pode estar do lado dos mais frágeis, dos mais indefesos. Portanto, todas as medidas que sejam tomadas para a proteção e prevenção da dignidade das crianças será sempre uma prioridade absoluta.
Vejo em muitos meios de informação, sobretudo em vosso jornal, a ampliação do tema de forma excitante, investigando detalhadamente a vida de algum sacerdote pedófilo. Assim aparece um de uma cidade dos Estados Unidos, da década de 70, outro na Austrália dos anos 80 e assim por diante, outros casos mais recentes...
Certamente, tudo condenável! Algumas matérias jornalísticas são ponderadas e equilibradas, outras exageradas, cheias de preconceitos e até ódio.
É curiosa a pouca notícia e desinteresse por milhares de sacerdotes que consomem a sua vida no serviço de milhões de crianças, de adolescentes e dos mais desfavorecidos pelos quatro cantos do mundo
Penso que ao vosso meio de informação não interessa que eu precisei transportar, por caminhos minados, em 2002, muitas crianças desnutridas de Cangumbe a Lwena (Angola), pois nem o governo se dispunha a isso e as ONGs não estavam autorizadas; que tive que enterrar dezenas de pequenos mortos entre os deslocados de guerra e os que retornaram; que tenhamos salvo a vida de milhares de pessoas no Moxico com apenas um único posto médico em 90.000 km2, assim como com a distribuição de alimentos e sementes; que tenhamos dado a oportunidade de educação nestes 10 anos e escolas para mais de 110.000 crianças...
Não é do interesse que, com outros sacerdotes, tivemos que socorrer a crise humanitária de cerca de 15.000 pessoas nos aquartelamentos da guerrilha, depois de sua rendição, porque os alimentos do Governo e da ONU não estavam chegando ao seu destino.
Não é notícia que um sacerdote de 75 anos, o padre Roberto, percorra, à noite, a cidade de Luanda curando os meninos de rua, levando-os a uma casa de acolhida, para que se desintoxiquem da gasolina, que alfabetize centenas de presos; que outros sacerdotes, como o padre Stefano, tenham casas de passagem para os menores que sofrem maus tratos e até violências e que procuram um refúgio.
Tampouco que Frei Maiato com seus 80 anos, passe casa por casa confortando os doentes e desesperados.
Não é notícia que mais de 60.000 dos 400.000 sacerdotes e religiosos tenham deixado sua terra natal e sua família para servir os seus irmãos em um leprosário, em hospitais, campos de refugiados, orfanatos para crianças acusadas de feiticeiros ou órfãos de pais que morreram de Aids, em escolas para os mais pobres, em centros de formação profissional, em centros de atenção a soropositivos... ou, sobretudo, em paróquias e missões dando motivações às pessoas para viver e amar.
Não é notícia que meu amigo, o padre Marcos Aurelio, por salvar jovens durante a guerra de Angola, os tenha transportado de Kalulo a Dondo, e ao voltar à sua missão tenha sido metralhado no caminho; que o irmão Francisco, com cinco senhoras catequistas, tenham morrido em um acidente na estrada quando iam prestar ajuda nas áreas rurais mais recônditas; que dezenas de missionários em Angola tenham morrido de uma simples malária por falta de atendimento médico; que outros tenham saltado pelos ares por causa de uma mina, ao visitarem o seu pessoal. No cemitério de Kalulo estão os túmulos dos primeiros sacerdotes que chegaram à região... Nenhum passa dos 40 anos.
Não é notícia acompanhar a vida de um Sacerdote “normal” em seu dia a dia, em suas dificuldades e alegrias consumindo sem barulho a sua vida a favor da comunidade que serve. A verdade é que não procuramos ser notícia, mas simplesmente levar a Boa-Notícia, essa notícia que sem estardalhaço começou na noite da Páscoa. Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que cresce.
Não pretendo fazer uma apologia da Igreja e dos sacerdotes. O sacerdote não é nem um herói nem um neurótico. É um homem simples, que com sua humanidade busca seguir Jesus e servir os seus irmãos. Há misérias, pobrezas e fragilidades como em cada ser humano; e também beleza e bondade como em cada criatura...
Insistir de forma obsessiva e perseguidora em um tema perdendo a visão de conjunto cria verdadeiramente caricaturas ofensivas do sacerdócio católico na qual me sinto ofendido.
Só lhe peço, amigo jornalista, que busque a Verdade, o Bem e a Beleza. Isso o fará nobre em sua profissão.
Em Cristo,
Pe. Martín Lasarte, SDB.

Frase do dia

Um contemporizador é aquele que alimenta o crocodilo, na esperança de que ele o coma em último lugar
Sir Winston Churchill

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Uma questão de educação

DN2010-07-19 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
A senhora ministra da Educação é uma pessoa séria, respeitadora, democrática. Por isso, não tem certamente dificuldade em entender o alarme e a preocupação que alguns pais sentem perante o que o seu ministério se prepara para apresentar como educação sexual. São mesmo muitos os pais, além de professores, educadores e pessoas de boa vontade, que se inquietam, e não são fanáticos, maníacos ou desequilibrados.. A senhora ministra, cuja função é servir o País e a formação dos jovens, tem de compreender isto.
Não entremos na conversa administrativa e legal com que o inistério se protege como mandam os pergaminhos. Sabemos que tudo se faz com o melhor propósito educativo e técnicas pedagógicas. Sabemos que há liberdade no uso das horas de aula e dos conteúdos, que devem ser adequados ao projecto educativo. Nós sabemos, mas nem todos sabem. Sabemos que os pais têm de ser informados de todas as actividades nesse âmbito. E sabemos que raramente o são. Até sabemos que os famigerados kits da Associação para o Planeamento Familiar (APF) se destinam aos professores e que nunca devem ser mostrados aos alunos. Mesmo assim, será que a senhora ministra não compreende o alarme e a preocupação de tantos?
Comecemos pelo óbvio, até porque neste assunto isso tem sido o mais distorcido. Existe uma coisa chamada pudor, dominante nestes temas. É verdade que muitos, em nome da liberdade de expressão, se esforçam hoje por fingir que não o conhecem e fazem vasta campanha de engenharia social contra ele. Mas as pessoas educadas sabem bem o que isso é, e o Ministério, se quer ser de educação, tem de o assumir. Se insiste em tratar assuntos destes como mera "educação para a saúde", muita gente decente fica alarmada. Há muito mais, para lá de saúde, envolvido no comportamento sexual. Sem regras claras e sérias, as crianças ficam à mercê dos caprichos e equívocos do docente que lhes couber.
A senhora ministra também não ignora que estes temas estão hoje embrulhados em profunda polémica ética, em que cada lado defende o que o outro acha horrível. Há 50 anos, era assim nos temas económicos, com alguns iluminados proclamando que a sua posição radical era a única via aceitável para a modernidade e a justiça. Muitos países caíram na armadilha de os levar a sério, com consequências desastrosas que ainda persistem. Em ambien- tes de grave controvérsia e indefinição, as entidades oficiais devem ter os cuidados que se impõem. Saindo em defesa aberta de um dos lados, mostram--se tirânicas e intolerantes. A senhora ministra sabe a prudência que se exige em momentos assim.
Também tem de saber que, neste confronto, a APF se situa num dos extremos da polémica. A auto--erigida guardiã nacional da ortodoxia erótica é considerada por muitos como um talibã radical e militante. Aliás, os sintomas são evidentes: basta considerar a retórica arrogante, supino desprezo pela opinião alheia e esforço patético para mascarar de resultado científico uma posição moral e ideológica particular. Quando o Ministério permite a ambiguidade que vai impondo essa associação privada como referência pública, sem procurar alternativas que equilibrem o panorama, torna-se cúmplice da distorção.
Não entremos nos pormenores com que tantos se deliciam. Este tema deu muito grão para o irresponsável moinho mediático, que se excita pela controvérsia sem olhar à gravidade do que está em causa. A educação sexual é tema central e decisivo. Por isso mesmo, tem de ser tratado com respeito, ponderação, equilíbrio e seriedade. Não se podem copiar exageros como o da Espanha, que, numa patética tentativa de ser a vanguarda, manifesta a parolice do saloio modernaço. Devemos, antes, copiar os países realmente avançados e desenvolvidos, o seu respeito democrático pelas várias posições e os cuidados que temas delicados merecem.
O que sabemos do que o Ministério pretende impor como educação sexual não garante o respeito pelos direitos das famílias portuguesas. Só nos resta confiar nas qualidades de mulher e cidadã da senhora Ministra da Educação.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

sábado, 17 de julho de 2010

Comemorações da República ou comemorações da Primeira República?

Público, 2010-07-17 José Pacheco Pereira
A sucessão de publicações, eventos, sessões, não escapam a uma ambiguidade que remete mais para uma história "oficial"

Outro dia, à minha frente um eléctrico trazia pintado um dos símbolos da República, uma figura feminina com barrete frígio com um seio desnudado, uma variante, mesmo assim mais púdica, da figura de Delacroix da "liberdade guiando o povo". Um seio nu em vez de dois, certamente porque a Carris obedece aos bons costumes. Neste ano do centenário da República, actos dessa comemoração estão por todo o lado, mas toda esta sucessão de publicações, eventos, sessões, não escapam a uma ambiguidade que remete mais para uma história "oficial" do que para a história pura e simples, mais agnóstica quanto à política e à ideologia republicana. Ou dito de forma mais exacta, quanto à nossa tradição republicana jacobina e maçónica, que encontrou expressão numa parte da oposição à ditadura, quer nos sobreviventes da própria Primeira República, quer no oposicionismo não comunista, socialista, uma continuidade. Resumindo e concluindo, o que se está a comemorar não é a forma republicana de governo, mas sim a Primeira República de 1910 a 1926, através da imagem laudatória e mítica que se fixou nos anos da oposição ao regime do Estado Novo. É uma coisa bem diferente da República, até porque o próprio regime de Salazar e Caetano não só foi republicano na forma, como o foi muitas vezes mais do que na forma, na essência, sendo que a Salazar se deve o fim da querela república-monarquia que até aos anos 50 permanecia viva. Só que era outro tipo de republicanismo e esse não o estamos a comemorar.

Antes do 25 de Abril o republicanismo maçónico tinha sido absorvido na aliança que o PCP tinha feito com os elementos da velha oposição republicana e com os socialistas que representavam de alguma maneira a sua "juventude". Esta aliança conheceu altos e baixos e foi posta à prova pela aparição nos anos 60 de novos actores, os grupos esquerdistas, que obrigaram o PCP a ter que lidar não só com a sua direita, mas também com a sua esquerda. Até meados da década de 60, no calendário oposicionista, o 31 de Janeiro e o 5 de Outubro eram mais importantes do que o 1º de Maio ou a data da Revolução Russa, o 7 de Novembro. Nas romagens que se faziam aos cemitérios ou aos monumentos das figuras republicanas, no Porto e em Lisboa, manifestações semilegais, havia sempre um grito emocionado de "Viva a República!", atirado para o ar. Recordo-me, no Porto, de um velho popular, penso que alfaiate, que aparecia sempre e que tinha uma voz possante, apesar de ser muito pequeno e atarracado e que gritava o "Viva a República" quase a chorar. Mas essa emoção já estava então a esmorecer, e, nas cadeias, esquerdistas e comunistas digladiavam-se pelas datas que se deviam comemorar pelos presos e, cá fora, aparecia uma nova geração de intelectuais esquerdistas que descobriam uma Primeira República bem diferente da que a oposição mitificara.

Essa Primeira República era intolerante, pouco democrática, antioperária, anti-sindicalista, tão corrupta como todos os regimes, tinha uma clientela venal e convivia bem quer com milícias violentas, quer com o embrião de uma polícia política, a partir da qual a própria PVDE, depois, PIDE, depois DGS, evoluiu. Havia eleições, mas dificilmente se podiam considerar mais do que um simulacro, quer pelo desenho dos círculos eleitorais, quer pela escassa participação popular, num sistema que funcionava na base do clientelismo e do patrocinato, a favor do Partido Democrático. Havia corrupção e grossa incompetência, de que são exemplo a companhia dos Transportes Marítimos do Estado, criada a partir dos barcos alemães apresados nos portos portugueses, quando da declaração de guerra, e a construção de bairros sociais, que acabaram apenas de ser construídos em pleno salazarismo, que não deixou de usar o contraste entre a sua "obra" e a ineficiência republicana. Havia mais censura do que se imaginava e as perseguições políticas eram comuns, assim como o número de presos e deportados. A prática de deportações em massa, para Timor, Guiné era habitual, assim como o exílio forçado de monárquicos, jesuítas, e mesmo dos republicanos que tinham que fugir da sequência de golpes militares que caracterizavam a enorme instabilidade política nas ruas e nos governos. E a Primeira República foi manchada igualmente pelos assassinatos políticos, em particular a célebre "noite sangrenta", em que foram mortos António Granjo, Machado Santos, José Carlos da Maia, Freitas da Silva, Botelho de Vasconcelos, entre outros. Por contraste, o único assassinato político que merece ser classificado como tal no Estado Novo foi o de Humberto Delgado, embora haja ainda muitas obscuridades quanto ao que se passou. Houve gente morta pela PIDE, nos campos de concentração, nas cadeias, sob tortura, em confrontos de rua, mas não existem provas de que se tratava de assassinatos deliberados.

Claro que os 16 anos da República não podem ser comparados aos 48 anos da ditadura, que instituiu todas as formas de violência numa organização estatal estável e muito mais eficaz, e que penetrou a sociedade portuguesa com mecanismos repressivos ao lado dos quais os da Primeira República parecem amadores. Mas esta é uma comparação que é perigosa, que posso fazer, mas que não desejo que se preste a uma confusão historicista, porque se trata de coisas muito diferentes, de regimes muito diferentes. Se quisermos fazer uma comparação mais compreensiva, é entre o republicanismo de 1910 a 1926 com o constitucionalismo monárquico, que os republicanos ajudaram a denegrir e que sob muitos aspectos era, esse sim, muito mais tolerante do que os momentos mais negros da República. Basta ler As Farpas, ou os jornais onde Bordalo Pinheiro colaborava, os Pontos nos Iis, o António Maria, a Paródia, para o perceber.

Na Primeira República havia partidos, liberdade de imprensa, competição eleitoral, tudo muito imperfeito e longe da visão idílica dos republicanos, mas no Estado Novo não só não havia nada disso, como a institucionalização num Estado protofascista nos anos 30, e depois conservador-autocrático, tornou o conformismo pela coacção num pano de fundo que castrou gerações inteiras. Quem desculpa o Estado Novo com os excessos da Primeira República não sabe do que está a falar ou então está a fazer outra coisa. Mas também convém não nos iludirmos que as comemorações deste ano conseguiram ultrapassar de forma significativa a visão do republicanismo maçónico e jacobino, preso à mitificação da Primeira República, e sem perspectiva crítica. Há excepções, mas esta foi a regra. Viva a República! Historiador

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A salvação do Estado social está no Estado garantia

Público2010-07-16 José Manuel Fernandes
Como os demagogos que instrumentalizam o medo, defensores do Estado providência apostam na ignorância do cidadão

A ignorância é o terreno onde medra a demagogia dos políticos. E são os medos que a ignorância propícia que abrem caminho ao populismo. Ora, em tempos de crise, não há medo maior do que o de perder os poucos apoios sociais de que se dispõe. Não admira por isso que, a par com a "história de Carochinha" do neoliberalismo - esse monstro que ninguém sabe sequer definir o que é -, tenha agora surgido o papão do fim do Estado social. Nas últimas Jornadas Parlamentares do PS, sem nada para oferecer de substancial a um bando de deputados desorientados, Augusto Santos Silva e José Sócrates investiram contra a ideia do "Estado garantia". Explorando a ignorância reinante - em especial a ignorância dos jornalistas, apenas atentos ao sound byte -, o inimitável Silva chegou a dizer que a ideia de um "Estado garantia" por oposição ao seu "amado" Estado providência era "um verdadeiro monumento que vai marcar o pensamento político nas próximas décadas".

Qual é o objectivo deste tipo de discurso? Primeiro, criar a ideia de que qualquer mudança nas regras de funcionamento do nosso Estado social corresponderá sempre à sua destruição ou amputação. Depois, limitar qualquer debate aos parâmetros pré-definidos pelos que "amam" o Estado providência. Contudo, se houvesse um pouco mais de curiosidade intelectual e menos preguiça mental, estes ataques à ideia de um Estado garantia não teriam passado sem um mínimo de escrutínio público e mediático. Até porque, ao contrário desse molusco indefinível que dá pelo nome de neoliberalismo, existe abundante literatura sobre o Estado garantia. Mais: o conceito já foi objecto de vários debates públicos em Portugal, incluindo um ciclo em 2006/2007 (as Conferências dos Jerónimos) em que participou, que eu tivesse notado, pelo menos um membro do actual Governo, assim como nas jornadas da hospitalização privada de Outubro de 2009, que José Sócrates aceitou abrir e onde Maria de Belém foi oradora (estive lá).

Na verdade, de que se fala quando se fala de Estado garantia? Em primeiro lugar, de um Estado social que recupera os seus valores iniciais - "garantir a todos os cidadãos aquele mínimo de liberdade de escolha que concretiza a dignidade humana e, portanto, a igualdade de oportunidades no exercício dos direitos sociais", como escreveu Fernando Adão da Fonseca - e recusa os modelos monopolistas que tornaram ineficientes, burocráticas e centralizadoras as agências públicas encarregues de prestar serviços sociais. Em segundo lugar, de um Estado social que devolve aos cidadãos e à sociedade protagonismo e responsabilidade, na linha do velho e bom princípio da subsidiariedade. Ou, como escreveu já em 2005, no PÚBLICO, Mário Pinto, de "um Estado social subsidiário, em vez de um Estado social-burocrático de direcção central".

É fácil percebermos aquilo de que estamos a falar, se estudarmos as reformas que tiveram lugar na Suécia ao longo dos últimos 20 anos, realizadas curiosamente por governos sociais-democratas. Nesse país, após se ter verificado que os graus de cobertura do seu Estado social eram não só economicamente incomportáveis, como estavam a limitar o desenvolvimento económico, acabou-se com o monopólio público no fornecimento de serviços sociais e desregulou-se também este sector. Em áreas como a assistência aos idosos, o sistema educativo ou a rede de jardins-de-infância, passou a ser possível a concorrência entre instituições públicas e entre estas e instituições privadas. O Estado não deixou de assegurar o financiamento de todos os serviços, mas os cidadãos e as famílias passaram a ter liberdade de escolha. O resultado destas reformas foi o retomar de um crescimento económico mais vigoroso, ao mesmo tempo que recuava o peso do Estado na economia. A Suécia não deixou de ser um Estado social - e um Estado social muito mais generoso e eficaz que o português -, mas passou a respeitar mais a liberdade dos seus cidadãos, ao mesmo tempo que salvava os mecanismos essenciais quer do crescimento económico, quer da solidariedade social.

A forma analfabeta e preconceituosa como os debates políticos decorrem em Portugal permite que políticos à beira de um ataque de nervos tentem instrumentalizar a ignorância e os medos e saquem da pistola sempre que um incauto fala em instituições privadas. É uma retórica duplamente criminosa: primeiro, porque insistir no monopólio público dos serviços do Estado social é condená-los à morte lenta por falta de recursos, por via da multiplicação no futuro dos "cortes" do presente; depois, porque acentua as clivagens sociais, ao condenar os mais pobres a serviços degradados, ao mesmo tempo que os menos pobres escapam, sempre que podem, para o sector privado.

A realidade é muito dura e não há como fugir dela. É ver, por exemplo, como em nome da "racionalização" da rede de escolas públicas se atropelam, de forma burocrática e por imposição superior, quer os projectos educativos adaptados às realidades locais, quer toda e qualquer racionalidade de gestão, ao criarem-se os mega-agrupamentos. E é verificar como, apesar de circunstâncias económicas que não são muito favoráveis, aumenta a percentagem dos jovens que frequenta escolas privadas: só no ensino secundário o peso do sector privado passou de 7,2 para 13,5 por cento nos últimos 15 anos. Ou seja, a forma como todos os que podem têm vindo a reagir à degradação de uma parte muito importante das escolas públicas - fugindo delas - agrava a dualidade social e mina o princípio da igualdade de oportunidades. Mais: a falsa gratuitidade e universalidade dos serviços públicos de saúde e educação ou dos sistemas de apoio social tem-se traduzido numa prisão que impede a liberdade de escolha por parte dos cidadãos, o que viola a sua dignidade enquanto homens livres. Nenhuma propaganda, nem nenhuma política pontual são ou serão capazes de mascarar este caminho para níveis de serviços sociais cada vez mais insatisfatórios e desiguais.

Ao entrincheirarem-se em posições que só o dogmatismo ideológico suporta, alguns dos nossos demagogos podem obter efeitos políticos de curto prazo ao explorarem a ignorância dominante, mas ao mesmo tempo enterram a cabeça na areia. Ao recusarem-se a ver que só fazendo regressar o Estado social à nobreza original do Estado garantia se pode salvar, em última análise, uma sociedade que garanta a todos os cidadãos um mínimo de dignidade, recusam-se a admitir que a Terra se move. E pur si muove! Jornalista (www.twitter/jmf1957) Um homem poderoso convida uma miúda de 13 anos para a casa de um amigo famoso. Prometendo fazer dela uma estrela, pede-lhe que se dispa para lhe tirar fotografias. Isto depois de lhe dar champanhe a beber e a fazer experimentar drogas. Mas antes de a violar e sodomizar. Quando confrontado com a justiça, esse homem poderoso confessou os seus crimes - o que não o impediu de comentar, mais tarde, que "todos sonham em ter sexo com raparigas novas". Novinhas mesmo, de preferência com 13 anos, supõe-se.

Um monstro, dir-se-ia. Não. A crer nos relatos da imprensa portuguesa este homem poderoso, quando foi confrontado com a hipótese de vir a ser castigado pelos crimes, algo descrito como uma "saga legal", viveu "um pesadelo". Quando um tribunal, invocando uma falha técnica no processo judicial, mas não o libertando da culpa, o deixou sair em liberdade total, logo se ouviram aplausos e festejos pelo fim do "dramático desenvolvimento".

Se este homem poderoso fosse um bispo, nunca teria sido tratado com esta complacência, para não dizer com esta cumplicidade. Mas o homem poderoso chamava-se Roman Polanski, é um homem "de cultura", e mais uma vez se provou que há criminosos e criminosos. E que os crimes de pedofilia só são crimes, quando são perpetrados pelos criminosos "certos".