segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Democracia de mirones

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN2010.08.30
Portugal tem problemas sérios e profundos: crise económico-financeira, bloqueios na justiça, deficiências na saúde, falhas na educação. Como pode isso tudo ser resolvido no meio da praça pública, com uma multidão ululante a opinar, criticar, insul-tar? A sociedade mediática tem muitas vantagens e excelentes benefícios. Mas está a estrangular a democracia.
Imagine gerir uma empresa, uma casa de família ou até guiar um automóvel com chusmas de mirones a espreitar por cima do ombro e a dar palpites e remoques! O desastre estaria garantido. É precisamente esse o sistema que, em nome da suposta liberdade de informação, queremos que funcione no País.
A resolução de qualquer problema grave necessita de estudo, meditação, consultas. Exige negociações delicadas, tentativas controversas, compromissos ambíguos. Impõe tempo, diplomacia, delicadeza. Só assim se chega a algum resultado. Tudo isso é impossível satisfazendo a cada passo sondagens mensais, debates semanais, telejornais diários. O resultado está à vista: a imprensa funciona bem e tudo o resto anda muito mal.
Vivemos no reino da opinião. Pior ainda, os contributos sérios, honestos e fundamentados estão ao nível dos palpites ignorantes, dislates pomposos, provocações espúrias, conspirações inconfessáveis. Acima de todos reina soberana a piada oportuna. Mas todas estas intervenções - úteis, pertinentes, vácuas ou nocivas - têm em comum a falta de responsabilidade. Um artigo como o que está a ler, por cuidadoso e profundo que seja, não passa de conversa, sem a exigência de quem tem o dever de decidir. Mas influencia essa decisão. O resultado da cacafonia mediática é uma intolerável pressão sobre ministros e deputados, que torna impossível qualquer gestão corrente equilibrada, quanto mais projectos de reforma ou planeamento estratégico. Ignoramos as respostas a qualquer questão porque sabemos os defeitos de todas as propostas. A facilidade com que se destroem soluções gera a impossibilidade de solucionar problemas.
Também a vacuidade dos políticos de sucesso nasce daqui, porque o próprio sucesso a impõe. Os dirigentes elegíveis não são especialistas em soluções mas mestres em ficção, porque esse é o jogo decisivo. Deste modo, domina a superficialidade, improvisação, aldrabice. Vivemos num mundo de ilusão, convencidos de que os líderes, que na televisão e semanários travam duelos aparatosos e praticam números de circo, obedecem às nossas exigências. Por detrás da retórica de modernidade, reformismo, legitimidade popular e sofisticação técnica, somos governados pelos poderes da sombra, que controlam a imagem mediática que nos alimenta.
Se isto é verdade em geral, torna-se gritante em momentos de austeridade. O nosso problema mais urgente é financeiro: exagerámos nos gastos, endividámos o País, temos de cortar. A dificuldade está na divisão dos sacrifícios. Onde impor poupanças? Quem sofre a redução? Decidir isto na praça pública só pode ter um resultado: os grupos organizados controlam a informação e impõem os sacrifícios aos sem-voz. Corporações, sindicatos, grandes em-presas, sectores influentes têm bem oleados os contactos mediáticos. Ninguém toca nesses interesses sem suportar uma enxurrada de notícias, artigos, comentários. Eles são o interesse nacional. Os pobres não fazem manifestações, os desempregados não publicam nos jornais, os imigrantes não são assunto de reportagem. A sociedade mediática estabeleceu uma aristocracia ainda mais poderosa, influente e injusta que a medieval.
O mais espantoso é tudo isto ser feito em nome do direito democrático à informação e intervenção política. A incompreensão do verdadeiro sentido da democracia não só impede o seu funcionamento mas, devido a essa inoperância, cria os bloqueios que podem conduzir ao seu desprezo pelas gerações futuras. Democracia é o povo escolher os governantes, que assumem responsabilidades quatro anos depois. Democracia não significa o povo discutir, pressionar ou manipular cada decisão dos responsáveis. A isso chama-se caos.

domingo, 29 de agosto de 2010

Um acaso

Público 2010-08-29 Vasco Pulido Valente

Nasci, como já disse em outro sítio, em 21 de Novembro de 1941, quando o exército nazi estava a menos de 70 quilómetros de Moscovo e o que parecia (erradamente) a civilização do "iluminismo" parecia estar no seu último momento. Hitler perdeu Moscovo e, embora ele nessa altura não percebesse, foi ali que perdeu a guerra. Tive muita sorte. Não nasci por volta de 1920 (como o meu pai) na Alemanha, em França, em Itália, na Roménia, na Hungria, na Bulgária ou em Espanha. Devo a minha vida à irrelevância estratégica de Portugal e ao catolicismo ultramontano do dr. Salazar, que obedecia ao Papa e, como lhe mandavam, não gostava do Reich. Quem sabe destas coisas, sabe que a violência da II Grande Guerra, apesar da propaganda, nunca penetrou a sério em Portugal.

Parte da baixa classe média, pude aproveitar a educação dos liceus (primeiro do Camões, depois do Pedro Nunes), que não eram, como hoje se diz, "facilitadores". Bem ou mal, saí de lá com algumas noções de aritmética, lógica e gramática e, principalmente, com a ideia (muito proveitosa) de que tudo aquilo me preparava - num futuro longínquo - para trabalhar. A desilusão veio com a universidade, em que, fora meia-dúzia de professores, a ignorância, o vício, o fanatismo e até a loucura regiam o ensino estabelecido e consagrado. Mas, mesmo aqui, o regime não fez de mim um trapo. O movimento estudantil, a célebre "permissividade" de 1960 (de facto de 1967/68) e uma fuga in extremis para Inglaterra (com "cunhas" de um abençoado tio) acabaram por me salvar.

Quando voltei de Oxford, caiu também, oportunamente, a ditadura. A descoberta da democracia e do jornalismo vieram quando deviam vir. Até cheguei, um pouco por equívoco, ao Governo. Passei a meia-idade e o princípio da velhice sem graves dificuldades de dinheiro, num país que se julgava próspero. Só agora as coisas tremem e há uma autêntica ameaça de um desastre colectivo. O meu destino quase não dependeu de mim. Dependeu do estado do mundo e da história de Portugal. Um pequeno erro de datas teria feito de mim uma pessoa diferente. Melhor ou pior, mas com certeza diferente. Quando me apanho a exagerar a minha importância ou a minha vontade, este facto básico consegue sempre repor a noção da minha essencial contingência. Sou um produto de forças que nunca controlei. De certa maneira, um acaso. Como nós todos.

29 de Agosto - Martírio de S. João Baptista

Decepação de João Baptista
1640
Carel Fabritius
Óleo sobre tela
149 cm x 121 cm
Rijksmuseum
Amsterdam

sábado, 28 de agosto de 2010

28 de Agosto - Santo Agostinho

Santo Agostinho ensinando em Roma
Benozzo Gozzoli
1464-65
Fresco, 220 x 230 cm
Capela de Santo Agostinho
San Gimignano
Itália

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um paradoxo do nosso Estado social: mais desigualdade

Público, 2010-08-27 José Manuel Fernandes
O aumento das desigualdades nas últimas décadas deveria levar a questionar, e não a idolatrar, o Estado-Providência

Seja qual for o critério que apliquemos, ou o índice que preferirmos, "o período de maior crescimento e consolidação do Estado-Providência foi também o de mais forte crescimento da desigualdade de rendimento", como escreve Luciano Amaral em Economia Portuguesa, As Últimas Décadas, o pequeno mas fundamental livro recentemente editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Se as políticas se medem pelos seus resultados e não pelas suas intenções, num país onde se gritasse menos e se pensasse mais aquela simples constatação impediria que se transformasse o nosso Estado social numa arma de arremesso político. Pela razão simples de que um Estado-Providência que falha num dos seus principais desígnios - o de fazer diminuir as desigualdades sociais - é, no mínimo, um Estado-Providência que merece ser questionado. E não apenas por "razões economicistas" derivadas da sua sustentabilidade financeira: afinal de contas somos o país mais desigual da União Europeia, com excepção do Luxemburgo (um caso muito especial) e da Bulgária (outro caso-limite). Afinal de contas, segundo o último relatório disponível da OCDE, o coeficiente de Gini (um dos indicadores mais utilizados para medir as desigualdades) passou de 0,33 por volta de 1990 para 0,38 (o mesmo dos Estados Unidos) em meados desta década.
Luciano Amaral encontra várias razões para este fracasso relativo do Estado-Providência português na redistribuição da riqueza e na diminuição das desigualdades, algumas delas comuns a outras nações onde os actuais modelos sociais também não têm evitado o aumento das desigualdades. Para aquele historiador dos processos económicos, "uma parte da explicação da desigualdade em Portugal reside, de forma aparentemente paradoxal, no próprio funcionamento do Estado-Providência". Porquê? Porque, apesar de proclamar a universalidade, esse Estado-Providência tem "características pouco universais, continuando a fundar-se sobretudo numa estrutura profissional (ou "corporativa"). E porque, ao mesmo tempo, o nosso sistema fiscal, sendo progressivo na teoria, não o é na prática.
Vale a pena olhar para este último aspecto, que tanta ventania originou esta semana. Na verdade, a colecta do IRS, o "imposto progressivo e redistributivo", só representou, na última década, 10 por cento do rendimento das famílias. Isto significa que mesmo que a sua função redistributiva funcionasse bem, ela teria sempre um peso marginal no reequilíbrio dos rendimentos reais dos cidadãos. E apesar de nenhum partido questionar a progressividade deste imposto, a questão que se deveria colocar era a de saber se vale a pena, para um efeito tão pequeno e tão marginal, manter um imposto tão complicado e que gera, noutras frentes, tantas injustiças relativas. Infelizmente não só ninguém quer ter essa discussão como ela foi já proscrita pelos defensores acéfalos do nosso questionável Estado social.
E como é que o Estado-Providência se tornou, ele mesmo, um perpetuador das desigualdades que, na retórica, pretende combater?
Primeiro que tudo, porque o nosso Estado-Providência assegura antes do mais a "providência" das diferentes corporações, à cabeça das quais vem a da administração pública, cujos regimes foram, e continuam a ser, muito mais favoráveis do que os regimes do resto da população - e isso é verdade tanto no que respeita à segurança social ou à segurança no emprego, como no acesso à saúde, para referir apenas três áreas cruciais. Como notou Luciano Amaral, vivemos também tempos de "uma luta constante pelos recursos do Estado", o que gera um frenesim que beneficia "especialistas da reivindicação" que não coincidem, necessariamente, com os que mais necessitam.
Criam-se assim várias dicotomias - entre os mais velhos, que beneficiam de regimes mais generosos, e os mais novos, que nem sabem se haverá dinheiro para as suas pensões; entre os que estão empregados e os que não têm emprego ou têm empregos precários; entre os que estão nas carreiras protegidas do Estado e de alguns oligopólios e os demais; e por aí adiante. Ao mesmo tempo, o sistema de "direitos adquiridos" gera obrigações que comprometem de tal forma o sistema que este deixa de ter recursos para redistribuir, antes assegurando, por assim dizer, "seguros sociais" a quem se colocou em posição de os vir a receber em condições de privilégio relativo.
Depois, e este aspecto é muito importante, porque o activismo do Estado-Providência, alimentado quer pelo calculismo associado aos ciclos eleitorais, quer pelas melhores intenções do mundo, gera sempre "efeitos indesejados". Ou seja, as distorções introduzidos nos comportamentos sociais por subsídios, abonos, tensas, rendas, bolsas e tudo o que se imagine induzem com frequência dependências inesperadas, dependências essas que implicam novos e ainda maiores custos financeiros.
Como se tudo isto ainda não fosse suficiente, uma sociedade largamente intervencionada pelo Estado e pelos seus "serviços" não só se habituou à esmola como, ao mesmo tempo, foi destruindo os seus ascensores sociais. Ou seja, além de ser uma sociedade mais desigual, é também uma sociedade onde é menor a mobilidade social.
Há, por vezes, a ideia de que estes problemas do nosso Estado-Providência se resolvem melhorando a sua gestão. É o que defenderam esta semana os subscritores do abaixo-assinado dito em defesa do SNS. Ora sendo indiscutível que a Saúde até é o sector com mais sucesso do nosso Estado-Providência, isso não nos permite iludir a sua ineficiência relativa. Como notou José Mendes Ribeiro em Saúde, A Liberdade de Escolher, com base num índice calculado a partir do ano-base de 1995, até 2006 "a produção do SNS cresceu apenas 30 por cento em termos de consultas, internamentos, urgências e cirurgias, mas o respectivo financiamento cresceu 150 por cento." O que é insustentável. Até porque, apesar de gastarmos no sector uma percentagem do PIB superior à média europeia, o relatório relativo a 2009 do Euro Health Consumer Index colocava Portugal em 21.º lugar entre 33 países europeus, só tendo atrás de si os antigos países do Leste. Ou seja, melhorámos muito, mas o modelo de SNS não é ideal nem devia ser intocável.
Por tudo isto, é surpreendente que não se queiram discutir mudanças. Que nem se olhe, por exemplo, para o que está a acontecer a uma velocidade estonteante no Reino Unido, onde a coligação conservadores-liberais desencadeou um processo de reformas que a revista The Economist - antes céptica em relação a este Governo - designou, num editorial intitulado "Radical Britain", o "grande jogo". Prevendo que, "tarde ou cedo, muitas outras nações do mundo desenvolvido terão de seguir pelo mesmo caminho".
É muito fácil agitar fantasmas. É muito mais difícil aceitar a dureza da realidade. E, num país como Portugal, é quase impossível discutir ideias e propostas diferentes. É um dos mais duradouros sinais do nosso atraso e da nossa menoridade.
Jornalista, www.twiter.com/jmf1957

27 de Agosto - Santa Mónica

Morte de Santa Mónica
Benozzo Gozzolli (1464-65)
Frescos do abside da Capela de Santo Agostinho 
San Gimignano
Itália

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A necessidade de um candidato

Público 2010-08-25
Abel Matos Santos
É necessária uma candidatura alternativa no espaço do centro-direita, numa franja a que os media chamam "ala católica"

Desde que o actual Presidente Cavaco Silva assumiu funções, revelando uma conduta titubeante, cautelosa, medrosa até, que uma larga franja do eleitorado que o elegeu não lhe quer dar o voto em 2011.

Isto não seria problema, se tivesse aparecido uma alternativa à sua candidatura, coisa que ainda não aconteceu, deixando "órfãos" de candidato presidencial milhares de portugueses que se desiludiram com Cavaco e não se revêem na sua atitude passiva, de agradar a todos, abdicando dos princípios que diz defender, em prol de uma paz podre, que faz lembrar os piores tempos de Guterres, no seu desastrado Governo socialista.

Por isso muitos de nós, portugueses preocupados com o rumo que o país tomou e com o que de perigoso e estéril se avizinha, temos insistido na necessidade de uma candidatura alternativa no espaço do centro-direita, em particular uma franja organizada da sociedade portuguesa que agora os media decidiram apelidar de "ala católica".

Na verdade, um desígnio que todos cada vez mais dizem ser fundamental, para obrigar à discussão de temas estruturantes e fundamentais da nossa vida em sociedade.

Numa eleição presidencial para 2011, onde existem já quatro candidatos à esquerda (Alegre, Nobre, Moura [e Francisco Lopes, candidato do PCP ontem anunciado]), aguarda-se a mais do que certa recandidatura de Cavaco Silva, tida como da ala direita ou conservadora, se é que isto faz sentido.

No entanto, nós, os que não concordamos com as atitudes que Cavaco Silva tem tomado, não podemos senão desejar que haja no nosso espaço político outro candidato que possa obrigar à discussão do que interessa para o país e, existindo boa fé e inteligência concordantes, persuadir o Presidente que venha a ser eleito da indispensável tomada em conta das nossas convicções. É para isto que outra candidatura de peso à direita faz falta.

Figuras de relevo mais conhecidas, como Bagão Félix, Ribeiro e Castro ou Santana Lopes, ou menos conhecidas na actualidade e de grande craveira, como Rocha Vieira, só para dar alguns exemplos, são personalidades com perfil e capacidade para cumprir essa missão.

Se as menos conhecidas poderão não ter a possibilidade de criar condições para assumirem essa candidatura, já as mais mediáticas e politicamente activas têm essa obrigação moral e ética de o fazer.

Nós, a "ala católica", e os demais concidadãos, temos a obrigação de lhes pedir esse esforço, esse sacrifício em nome de Portugal, e temos também a obrigação de lhes criar as condições necessárias a uma participação digna, a uma participação cívica que revele e elucide o que são as candidaturas da esquerda, mas acima de tudo que ajude a "iluminar" Cavaco Silva, que sem chama parece baralhado, confuso e diz-se à boca fechada, sem se deixar aconselhar.
Especialista em saúde mental (abel@oniduo.pt)

25 de Agosto - S. Luís, rei de França

São Luis, Luís IX, rei de França
Recueil des rois de France de Jean Du Tillet (séc. XVI)
Bibliothèque Nationale de France.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

24 de Agosto - S. Bartolomeu

O Apóstolo S. Bartolomeu
ca. 1480
Matteo di Giovanni
Tempera sobre madeira, 80,5 x 48 cm
Szépmûvészeti Múzeum, Budapeste

Também chamado Natanael, recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo um elogio magnífico: "Eis um verdadeiro israelita no qual não há fingimentoe" (Jo, 1,47). Já na ocasião em que o Apóstolo S. Filipe o apresentava ao Mestre, S. Bartolomeu reconheceu a realeza e a divindade de Jesus Cristo: "Mestre, tu és o Filho de Deus, és o Rei de Israel" (id., 1,49). Segundo a Tradição, S. Bartolomeu foi martirizado no Oriente, para onde levou o Evangelho.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O que fica

DN 2010-08-23
JOÃO CÉSAR DAS NEVES
O que fica?" Quais as coisas que permanecem na vida? Que valores se mantêm quando tudo o resto falha? Nesta pausa de Verão é conveniente aproveitar as férias para meditar sobre esta grande questão da existência. E encontramos uma boa resposta numa das despedidas mais marcantes do nosso tempo. Para compreender a importância desse momento é preciso recuar um pouco.
O professor Joseph Ratzinger tinha planeado uma vida pacata de académico e estudioso, projecto frustrado por dois papas. Primeiro Paulo VI elevou-o ao episcopado em Maio de 1977 e ao cardinalato menos de um mês depois. Em seguida João Paulo II levou-o para Roma em 1981, durante quase 24 anos. O seu mandato de "Grande Inquisidor" constitui o segundo mais longo de sempre, apenas ultrapassado pelo cardeal Francesco Barberini no século XVII e, devido à turbulência doutrinária pós-concíliar, o mais mais mediático de todos os tempos. Todo o mundo, que ignora a burocracia vaticana, sabia bem o seu nome.
A 18 de Abril de 2005, dois dias depois de completar 78 anos, o cardeal fez as suas despedidas. O papa João Paulo morrera duas semanas antes, no dia 2, e estava a começar o conclave para eleger o sucessor. O novo papa certamente escolheria um novo prefeito e a sua espinhosa missão, tão diferente da que planeara, estava terminada. Ele, que repetidamente pedira a exoneração, voltaria aos seus estudos finais, até ser chamado à casa do Pai. A última intervenção pública daquele que foi o mais famoso e influente membro da Cúria Romana durante um quarto de século seria precisamente a homilia na missa inicial do conclave. Esse texto notável constitui o testamento espiritual do grande cardeal Ratzinger, um dos maiores teólogos da Igreja Católica. Em tom de balanço, afirma:
"Mas o que fica? O dinheiro não fica. Os edifícios tampouco ficam, nem os livros. Depois de um certo tempo, mais ou menos longo, tudo isto desaparece. A única coisa que permanece eternamente é a alma humana, o homem criado por Deus para a eternidade. O fruto que fica, portanto, é o que semeamos nas almas humanas, o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma à alegria do Senhor" (cardeal Ratzinger, homilia na missa na abertura do conclave, 18 de Abril de 2005).
Hoje, neste Verão, estamos também em tempo de balanço. O que ficou deste ano que passou? Que frutos esperamos do que aí vem? Sabemos bem que a nossa atenção tem estado ocupada com dinheiro, edifícios, livros. É para aí que converge o melhor dos nossos esforços e quase todas as nossas actividades. Os projectos profissionais, os objectivos imediatos, o horário de cada dia, tudo é concebido e executado para ganhar dinheiro, estabelecer edifícios, preencher livros. Chamamos a isso ser pragmático, eficiente, produtivo. Esse é o modelo que a nossa sociedade impõe. No final do ano, neste período do Verão, foi isso que ficou.
No entanto todos nós, sobretudo os mais velhos, vamos notando como depois de um certo tempo, mais ou menos longo, tudo isso desaparece. Se o nosso balanço for um pouco mais abrangente, basta que olhemos para lá do ano passado, e vemos logo como todos os esforços se esbateram.
A única coisa que permanece eternamente é precisamente aquilo que fomos esbanjando ao longo dos dias do ano que passou. Aquilo que omitimos, que esquecemos, que desprezámos, aquilo que sacrificámos ao dinheiro, edifícios e livros, é esse o único fruto que permanece eternamente. O amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra que abre a alma à alegria do Senhor. Aquilo que ficou na alma daqueles com quem passámos o nosso tempo, é isso que o tempo não leva. Por isso tantos neste Verão, apostando naquilo que não fica e sacrificando o que permanece, sentem-se vazios.
O ano novo começa daqui a dias. "Então, vamos e peçamos ao Senhor que nos ajude a levar fruto, um fruto que permaneça. Só assim a terra se transforma de vale de lágrimas em jardim de Deus" (idem). No dia seguinte a pronunciar estas palavras, o seu autor era Papa.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 22 de agosto de 2010

Começou hoje o Meeting de Rimini


Começou hoje e prolonga-se até ao próximo sábado, a XXXIª edição do Meeting per l’Amicizia tra i Popoli em Rimini, Itália. Podem ver aqui o video promocional da edição do ano passado e aqui o programa deste ano, cujo tema central é "Aquela natureza que nos faz desejar coisas grandes é o coração"


Passe bem!

JN, 2010-08-22 Zita Seabra
Não é certamente possível ter escolas e creches abertas e maternidades a funcionarem, se nascem cada vez menos crianças e Portugal tem uma das mais baixas taxas de natalidade da Europa.
Nos últimos anos, todas as políticas dominantes foram no sentido de atacar a família, de a desestruturar e de dificultar que os casais tenham filhos. Na mesma semana da notícia do fecho das escolas, foi promulgada a lei das uniões de facto. Esta lei vem no seguimento de toda uma legislação concebida para considerar a instituição familiar - ou, como escreveram Marx e Engels, a «família patriarcal-burguesa» - algo de obsoleto.
Senão, vejamos. O aborto passou a ser considerado um direito, o que teve como consequência imediata transformar-se num banal método anticoncepcional. Da legislação que existia em Portugal e que apenas pretendia evitar a prisão das mulheres que, perante um drama que por vezes acontece nas curvas da vida, partiu-se para esse caminho e os resultados estão à vista. Hoje, há jovens mulheres que banalizaram o aborto na sua vida e já realizaram dois ou três abortos legais, desde que a lei foi aprovada, em hospitais públicos, ou em clínicas espanholas. Alguns dos inspiradores da lei já vieram, alarmados, penalizar-se pelos resultados da lei que fizeram e reconhecer que nem conseguem que essas jovens passem, depois de abortar, por uma consulta de planeamento familiar. Voltam apenas, pouco tempo depois, para um novo aborto. Um direito nunca pressupõe culpa e a lei aprovada banalizou o aborto a pedido, sem drama , sem culpa, como se não existisse uma vida interrompida.
Em simultâneo, facilitou-se de tal forma o divórcio sem qualquer salvaguarda da parte mais frágil do casal: os filhos e (quase sempre) a mulher, surgindo dramas terríveis de casamentos desfeitos com um «passa bem». Os filhos vêem-se de repente transformados num fardo que circula de casa em casa, sem quarto, porque o que dá mais jeito é que uma semana «chateiem» um, outra outro e, muitas vezes, ainda rodem pelos vários avós. As crianças deixaram de ser, tantas vezes, o centro do vida familiar para se transformarem em novos nómadas e as mulheres em novos pobres, «despedidas» mais facilmente que qualquer empregado sindicalizado.
Do ponto de vista fiscal, o casamento e os filhos penalizam quem tem a ideia antiquada de casar e imagine-se… ter filhos e ter uma família. As uniões de facto estão de tal forma equiparadas ao casamento que o melhor para quem não deseja nenhum compromisso é mesmo garantir, publicamente, em notário que, apesar de solteiro, viúvo ou divorciado, vive só, assegurando que ninguém entra lá em casa. Homem ou mulher.
O casamento civil foi, assim, equiparado à união de facto, transformado num contrato a (curto) prazo, quando já tinha sido recentemente equiparado o casamento de homossexuais com o de heterossexuais. Com filhos ou sem filhos, o importante é, na ideologia dominante, acabar com a opressão da família burguesa.
Não modernas as teorias que originaram estas leis mas, felizmente, também não corremos ainda os riscos das teses extremistas do fim da família, teorizado por Marx e Engels como um objectivo de luta. Marx escreveu que «a primeira divisão do trabalho é a de homem e mulher para a procriação de filhos». Engels cita-o e acrescenta que «a primeira oposição de classes que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo de homem e mulher no casamento singular e que a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo masculino» (in A Origem da Família, da Propriedade e do Estado, F. Engels.).
No seguimento desta teoria, nasceram as feministas radicais com a Kolontai e o ataque à família levado a cabo nos países comunistas que foi um dos maiores atentados aos direitos humanos nesses países. Na URSS, os pais não faziam férias com os filhos. Os filhos passavam férias nos Pioneiros, enquanto os pais seguiam para as férias nos sindicatos. Na China de Mao Tse-Tung, além de ser proibido pelo Estado ter mais que um filho e o aborto ser obrigatório, chegou-se ao ponto de proibir as cozinhas nas casas das famílias e de se ter de comer e cozinhar nos refeitórios comunitários. Refeitórios masculinos e femininos.
Com leis que dificultam cada vez mais ter filhos, com modelos dominantes desestruturantes da família, ainda há quem proteste por se fecharem escolas, creches, ATL, maternidades, jardins-escolas? Espantoso é que ainda haja quem seja feliz e acredite no futuro, olhando e vivendo filhos e netos.

A OMS, a gripe A e Bento XVI

Público, 2010-08-22 Gonçalo Portocarrero de Almada
Não faltou quem avançasse com rigorosíssimas profilaxias e chorudos negócios: vacinas, máscaras, desinfectantes, etc.

Foi há dias que, num informal encontro de umas três dezenas de amigos, algures no Norte, alguém inocentemente e com a maior seriedade brindou a assistência com a última novidade: a Organização Mundial da Saúde anunciou o fim da pandemia da gripe A! A reacção foi imediata e unânime: estalou a gargalhada geral, que não teria sido mais sonora, nem menos sincera, se essa conspícua entidade internacional tivesse decidido certificar o naufrágio do Titanic, o óbito de Napoleão ou a morte das vítimas do dilúvio universal.

No elevador de um hotel de Fátima, encontrei recentemente uma paradoxal advertência: "Em caso de incêndio, mantenha o sangue-frio"! Pois é, em tempos tão infelizmente incandescentes, a Organização Mundial da Saúde não conseguiu manter o sangue-frio. Pelos vistos, ainda fervilha em febris convulsões de uma mórbida imaginação, pois só assim se compreende que, em plena silly season, se tenha dado ao trabalho de declarar extinta a pandemia que nunca existiu, muito embora anunciada e profetizada como a nova peste bubónica, a que milhões de seres humanos teriam que pagar o pesado tributo das suas inocentes vidas. Salvo as poucas vítimas que, por escassas, não são menos de lamentar, a gripe A poupou-nos, graças a Deus, mas não assim a Organização Mundial da Saúde que, não tendo conseguido matar-nos com o temível vírus H1N1, procura agora assassinar-nos com uma arma ainda mais mortífera: o riso! Haja dó...

Não obstante a pouca fiabilidade das catastróficas previsões, a verdade é que não faltou quem avançasse com rigorosíssimas profilaxias e chorudos negócios: vacinas, máscaras, desinfectantes, etc. Até o templo santo, que se supunha mais imune aos males do século, se viu cenário de severas medidas de prevenção de eventuais contágios, como as aparatosas abluções a que alguns ministros do culto se entregaram escrupulosamente, os mesmos que antes - por sua alta recreação, sem razão teológica nem licença eclesiástica - tinham abolido a prática da lavagem das mãos do celebrante no ofertório, por sinal muito mais litúrgica, funcional e discreta do que essas improvisadas e espectaculares purificações. É de crer que, com o fim da pandemia que, como a pescada, antes de o ser já era, regresse o bom senso, se restaure a praxe do lavabo e se remetam para as sacristias, de onde nunca deveriam ter saído, os detergentes e as pias de baixa condição.

Em boa hora, Bento XVI esteve em Portugal em dias inesquecíveis do mês de Maria. Foi um primeiro incêndio, este não ateado pelo vento nem por criminosas mãos humanas, mas pelo sopro do Espírito, o fogo do amor e da verdade. Para além do sempre surpreendente brilho do verbo inspirado do Vigário de Cristo, ressoou um pouco por toda a parte o bom exemplo da sua piedade, sobretudo nos momentos culminantes das celebrações eucarísticas a que presidiu, em Lisboa, Fátima e Porto. E não terá sido por acaso que o mesmo gesto se repetiu nessas três missas, pois em todas a Sagrada Comunhão foi dada na boca aos fiéis que a receberam, ajoelhados, das mãos do Santo Padre.

Sem querer dar ao facto valor normativo, de que carece, cumpre sublinhar que, em pleno histerismo gripal, a atitude de Bento XVI foi corajosa e inspiradora. Quantos presbíteros, em pleno ano sacerdotal, se comoveram ante a profunda e humilde adoração eucarística do Papa! Quantos leigos agradeceram a Bento XVI esse gesto, que lhes recordou a sua liberdade - que é também um seu direito - de receber a comunhão com essa mesma fé e atitude de veneração! E quantos cristãos, ante o ridículo dos exageros internacionais, das manipulações da opinião pública e, o que é pior, das tentativas de tergiversação da doutrina católica e da perversão da sua expressão litúrgica, se sentiram confirmados na fé e reafirmados na sua confiança naquela única instituição contra a qual as portas do Inferno não prevalecerão!

Bem vistas as coisas, agora que estamos em tempo de rescaldo da inexistente pandemia, bendita gripe A e bendita Organização Mundial de Saúde! Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)

22 de Agosto - Nossa Senhora Rainha

Coroação da Virgem
Velasquez
(ca. 1645)
Óleo sobre tela
Museu do Prado
Madrid

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Vergonha

Público, 2010-08-20 Luís Campos e Cunha
O poder, em sentido lato, é dominado crescentemente por pessoas que não sentem nem têm vergonha

Há muita gente com vergonha da falta de vergonha que por aí impera. A vergonha é um dissuasor de comportamentos sociais pouco éticos. A falta dela conduz ao "vale tudo", e cada um de nós fica a saber que a simples chamada de atenção pública para um problema não é suficiente. Ou seja, ficamos impotentes perante a falta de vergonha, pois não basta denunciar as situações.
Um dia, em Montargil, uma senhora pobre e de muita idade dizia-me que a sua família eram pessoas de muita vergonha. Foi-me dito há mais de um quarto de século e nunca mais ouvi tal expressão, que não conhecia mas também nunca esqueci. O que ela queria dizer é que, sendo pessoas de muita vergonha, eram pessoas honestas. É a expressão acabada da vergonha como dissuasor ético de quem vive em comunidade.
No passado recente, apenas há alguns anos, uma gafe ou apenas um pequeno escândalo eram suficientes para um ministro se demitir. Foi assim quando houve dúvidas (sublinhe-se, aliás, que não foram confirmadas) sobre um pagamento de sisa por António Vitorino. Ou quando Carlos Borrego contou uma anedota de mau gosto (e que todos já conhecíamos) sobre as pessoas que morriam no hospital de Évora. Um ministro que meteu uma cunha para a filha entrar em Medicina, logo que se soube, demitiu-se. Em todos os casos eram pessoas de muita vergonha.
Lembro-me, quando em cargos públicos, de reler os meus discursos com a ideia de que poderiam ser lidos pelos meus alunos ou colegas de Faculdade. E sempre pensar que teria vergonha se eles pensassem que eu dizia uma coisa na Faculdade e outra no Parlamento ou numa entrevista a um jornal. Eram intervenções políticas e, como tal, nunca seriam uma aula, mas nos raciocínios económicos subjacentes não podiam contradizer o que tinha aprendido e ensinava.
Pelo facto de sermos um país pequeno e com uma pequena elite, em que todos se conhecem, a vergonha, quando existe, é um dissuasor moral muito eficaz. Para toda a vida nos recordaremos de pessoas públicas envolvidas em simples casos, muitas vezes sem fundamentação, ou em casos de incumprimento de obrigações fiscais ou pequena corrupção (a grande corrupção não parece existir em Portugal, a avaliar pelo número de condenações em tribunal). Ou seja, o simples facto de todos nos conhecermos, e de estarmos condenados a ver-nos regularmente nas mais diversas ocasiões, leva a que, quando há vergonha, as pessoas em serviço público cumpram a lei e as regras da decência nas nomeações e na gestão da coisa pública. Muitos cumpriam (e continuam a cumprir) por imperativo de consciência, mas outros o faziam por simples vergonha de serem descobertos. Esta parte está a acabar.
Nesse sentido, penso que Portugal era menos corrupto há dez ou quinze anos do que é hoje em dia. Aliás, os indicadores internacionais de percepção da corrupção colocam neste momento Portugal numa situação vergonhosa. Por falta de vergonha de muitos agentes políticos.
Como se chegou aqui? Penso, mais uma vez, que é o resultado do mau funcionamento da justiça aliado a uma comunicação social sensacionalista. A falta de resposta e a morosidade por parte da justiça e da investigação é embaraçante e conduz à impunidade. Quem não tem vergonha fica sem sanção. Por outro lado, uma imprensa e uma televisão populistas e em busca desesperada de audiências fazem o resto. A população não acredita no que lê e no que ouve e, por outro lado, acusa-se e condena-se sem provas e sem direito a defesa, no tribunal da populaça.
O defunto semanário O Independente ainda começou bem, mas rapidamente acusou, julgou e puniu sem ouvir o réu. Lembro-me de o ter deixado de comprar (e ler) por volta de 1992, quando me apercebi da pulhice que estavam a fazer a um amigo. O Independente foi, em muitos casos, uma escola de mau jornalismo que, para nossa infelicidade, fez escola. Há, como é óbvio, ainda muitas excepções entre a classe dos jornalistas que, crescentemente, apenas confirmam a regra.
A acusação publicada e permanente de pessoas, com casos e com pseudocasos, leva a que as pessoas de vergonha se afastem da causa pública. É um fenómeno de selecção adversa, pois, pelos constantes vexames públicos, cada vez mais, só pode exercer cargos políticos quem não sentir vergonha. E quem não sente vergonha é porque não tem vergonha. É mau, mesmo muito mau, para a democracia e para todos nós.
Como é possível que os casos dos sobreiros, da cova da beira, do freeport, da universidade independente, da face oculta, dos contentores, dos projectos engenheirais, do bpn, da tvi-pt, dos submarinos não passem de pequenos incidentes (e por isso os escrevo com letra minúscula)? São casos que atravessam (quase) todos os partidos e nada se sabe e nada acontece. E o pouco que acontece é anos e anos tarde demais e muitas vezes envolto numa neblina que apenas confunde e nada esclarece.
A justiça e a comunicação social têm um problema sério. E nós temos um problema grave. O poder, em sentido lato, é dominado crescentemente por pessoas que não sentem nem têm vergonha. Os que ainda têm vergonha terão vida política curta, no actual estado de vivência democrática.
Professor universitário

20 de Agosto - S. Bernardo

S. Bernardo e os seus monges
Tríptico do Altar de Le Cellier
1509
Jean Bellegambe
Óleo sobre madeira
Painel lateral esquerdo (95.9 x 25.4 cm)
The Friedsam Collection
Metropolitan Museum of Art
New York
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S. Bernardo de Claraval nasceu no seio de uma família nobre em Fontaine cerca de Dijon em 1090. Depois de ter frequentado a escola dos Cónegos regulares de Notre Dame de Saint-Vorles em Châtillon entrou no Verão de 1113, juntamente com os seus seis irmãos, o seu tio e alguns companheiros, aos quais demoveu a imitarem o seu exemplo, na recentemente fundada abadia de Cister. Em 1115 foi enviado como abade fundador para Claraval. Três anos mais tarde erigiu o seu primeiro mosteiro derivado de Claraval, em Troisfontaines, aquela que seria a primeira de uma série de cerca de 70 fundações sob a sua alçada directa, para não contar os cerca de 100 mosteiros que através de toda a Europa ainda no tempo de S. Bernardo haveriam de ficar associados à casa mãe de Claraval.

Em 1133, 1135 e 1137/1138 S.Bernardo deslocou-se a Itália onde haveria de desempenhar um papel decisivo na superação do cisma entre Anacleto e o Papa Inocêncio III. Em Junho de 1140 tomou partido no concílio de Sens, no qual se exigia a condenação de Abelardo (1079-1142); do mesmo modo, em 1148, interveio também no concílio de Reims, no qual foi levantada acusação contra a doutrina de Gilberto de la Porrée(1075-1154). Em 1145 viajou pelo Languedoc, no sul da França, em ordem a proceder contra os seguidores de diversas heresias que então grassavam nessa região. Em 1147 foi encarregado pelo Papa Eugénio III de pregar a segunda Cruzada, a qual, em 1148, haveria de redondar no mais completo fracasso. Depois disso deslocou-se ainda à Renânia e à Baviera, tendo regressado nos inícios de 1153 à sua região natal, acabando por falecer em 20 de Agosto de 1153 em Claraval.

A Igreja autorizou a sua veneração a partir de 1163, tendo a sua canonização ocorrido em 1174 pelas mãos do papa Alexandre III.
Os escritos de S. Bernardo podem ordenar-se da seguinte maneira: em 1119 ou 1120 apareceu a sua Carta a Roberto (ep. 1); pouco tempo depois apareceram as quatro homilias De laudibus Virginis Matris; ainda antes de 1122 ou 1125 publicou o tratado De gradibus humilitatis et superbiae; por volta de 1124-1125, a sua Apologia; cerca de 1127, a epístola-tratado De moribus et officio epis­co­po­rum; antes de 1128 apareceu o De gratia et libero arbitrio; entre 1126 e 1141 escreveu otratado De diligendo Deo; em 1135 publicou o tratado De laude novae militiae ad milites templi; entre 1135 e 1153 apareceram as Homilias sobre o Cântico dos Cânticos; em 1140 escreveu sobre as heresias de Abelardo; cerca de 1140 publicou o tratado De conversione ad clericos; antes de 1143-1144 surgiu o tratado De praecepto et dispensatione; entre 1145 e 1153 foi escrito o De consideratione; depois de 1148 escreveu a sua biografia de Mala­quias de Armagh. Além disso, é ainda de registar o facto de que ao longo de toda a sua vida activa S. Bernardo foi escrevendo Homilias sobre o ano litúrgico, para além dos seus Sermones de diversis, das suas Sentenças, bem como de todo um conjunto aproximado de 500 cartas sobre os temas mais diversos. Em todos estes escritos, S. Bernardo revela-se um escritor exímio, capaz de fazer uma escolha pertinente e agradável das palavras, de recorrer a jogos de palavras e, em geral, de proceder a uma composição clara e cheia de vigor literário. Como escritor, S. Bernardo revela-se um verdadeiro artista da palavra. De facto, para além de notável organizador e condutor de homens, S. Bernardo de Claraval foi, sem dúvida, um cultor exímio dos grandes géneros literários herdados da antiguidade clássica e dos grandes autores da Patrística. Felizmente, para o conhecimento da sua obra, eixte uma edição crítica dos seus escritos, edição essa que se deve particularmente ao cuidado de Dom Jean Leclercq (1911-1993), insigne historiador beneditino do século XX, e que foi publicada entre 1957 e 1976.

S. Bernardo de Claraval foi proclamado Doutor da Igreja Universal em 1830 pelo Papa Pio VIII.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

18 de Agosto Santa Helena

Santa Helena
Basílica de S. Pedro
Vaticano

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

16 de Agosto - S. Estevão da Hungria


 
Estátua do rei S. Estevão da Hungria (969-1038)
Budapeste, Hungria
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No final do primeiro milénio, a Europa foi invadida pelos bárbaros nómadeas vindos da Ásia, que acabaram dominados pelos reis da Alemanha e da França. As tribos magiares, como eram chamadas, instalaram-se na região da Panónia, actual Hungria e lá conheceram o cristianismo. A partir deste contacto, aos poucos, foram se convertendo e abraçaram a religião católica.
O duque Gesa casando com uma princesa cristã, permitiu que os filhos fossem educados no seguimento de Cristo. O seu primogénito Vaik, que nascera em 969, ao completar dez  anos de idade, foi baptizado e recebeu o nome de Estevão. Nesta cerimónia, o futuro herdeiro do trono teve a felicidade de ver seu pai, convertido, recebendo o mesmo Sacramento.
Mas o velho duque morreu sem conseguir o que mais desejava, unir seu povo numa única nação cristã. Este mérito ficou para seu filho Estevão I, que passou para a História da Humanidade como um excelente estadista, pois unificou as trinta e nove tribos, até então hostis entre si, fundando o povo húngaro. Ele também consolidou o cristianismo como única religião deste povo e ingressou para o elenco dos "reis apostólicos".
Casou com a piedosa e culta princesa Gisela, irmã do imperador da Baviera, Henrique II, agora todos venerados pela Igreja. Tendo como orientador espiritual e conselheiro o Bispo de Praga, Adalberto, confiou aos monges beneditinos de Cluny a missão de ensinar ao povo a doutrina cristã. Depois conseguiu do Papa Silvestre II a fundação de uma hierarquia autônoma para a Igreja húngara. Para tanto enviou à Roma o monge Astric, que este Papa consagrou Bispo com a função de consagrar outros Bispos húngaros.
Com o auxílio da rainha Gisela, Estevão I fundou muitos mosteiros e espalhou inúmeras igrejas pelas dioceses que foram surgindo. Caridoso e generoso criou hospitais, asilos e creches para a população pobre, atendendo especialmente os abandonados e marginalizados. Humilde, ele fazia questão de tratar pessoalmente dos doentes, tendo adquirido o dom da cura. Corajoso e diplomático, soube consolidar as relações com os países vizinhos, mesmo mantendo vínculos com o imperador de Bizânico, adquirindo também o dom da sabedoria. Assim, transformou a nação próspera e o povo húngaro num dos mais fervorosos seguidores da Igreja Católica.
No dia da Assunção de Maria, em 15 de agosto de 1038, o rei Estevão I morreu. Logo, passou a ser venerado pelo povo húngaro, que fez do seu túmulo local de intensa peregrinação de fieis, que iam agradecer ou pedir sua intercessão para graças e milagres. A fama de sua santidade ganhou força no mundo cristão, sendo incluído no Livro dos Santos em 1083, pelo Papa Gregório VII. A festa de Santo Estevão da Hungria, após reforma do calendário da Igreja de Roma passou as ser celebrada no dia 16 de agosto, um dia após a sua morte.

Razões para celebrar

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN20100816
Aproxima-se o dia 5 de Outubro e torna-se urgente encontrar razões para celebrar o centenário da revolução. O país merece mais que uma comemoração vácua e farfalhuda ou, pior, um magno embuste. Existirá algum motivo sólido e razoável para fazermos a festa daqui a cinquenta dias?
A justificação não pode vir dos próprios acontecimentos da data. Os factos e actos desse dia foram caricatos e lamentáveis, mais deprimentes que inspiradores. A Monarquia não caiu; limitou-se a não se levantar. A República portuguesa, a terceira mais antiga da Europa, nasceu por omissão.
Quanto ao significado da mudança, é melhor nem falar. O País vivia havia décadas em triste podridão, justificando amplamente a extinção do regime. Os vencedores de Outubro conseguiram o impossível: tornar saudosa a anterior podre tristeza. Saltaram da frigideira para o fogo. Por muito que os esforços celebrativos o tentem esconder (e os republicanos nostálgicos são mestres em fraude, sobretudo histórica), o regime que vigorou de 1910 a 1926, em especial nos sete anos até Sidónio, é forte candidato a pior catástrofe nacional da longa e acidentada História de Portugal.
Machado Santos, Afonso Costa, Bernardino Machado e toda a trupe que tomou o poder há cem anos parecia cuidadosa e pessoalmente escolhida para uma opereta político-cómica. Sobre o povo entusiasta e optimista desceu, como um enxame de gafanhotos, um vasto exército de incapazes, vingativos e oportunistas, de intelectuais pedantes a criminosos encartados. É espantoso tanto que encontraram para destruir em tão pouco tempo em país tão depauperado.
A seu favor diga-se que não foi tão assassina quanto antecipou a lúcida e acertadíssima previsão de Eça, 32 anos antes: "A república em verdade, feita primeiro pelos partidos constitucionais dissidentes, e refeita depois pelos partidos jacobinos, que, tendo vivido fora do poder e do seu maquinismo, a tomam como uma carreira, seria em Portugal uma balbúrdia sanguinolenta" (Eça de Queirós, Carta a Joaquim de Araújo, Newcastle 25/Fev/1878; in Notas Contemporâneas, Livros do Brasil, Lisboa, p. 33). Inicialmente faltou o sangue e sobrou a balbúrdia. Até se impor a entrada na Grande Guerra, que supriu o sangue. Nenhuma pessoa honesta e razoável pretenderá hoje celebrar este paroxismo de boçal inépcia.
Pior ainda foram as consequências. Depois de 76 anos de triste podridão liberal e de 16 de balbúrdia sanguinolenta republicana, o povo estava farto de democracia. O amargo caos da Primeira República gerou cinco décadas de ditadura. A lembrança dos anos republicanos foi o maior aliado ideológico de Salazar. O seu esquecimento, a maior fraqueza política de Caetano.
Hoje, após 36 anos da nova democracia, tudo isto é passado remoto. Mas nem assim a celebração fica justificada. O centenário cai em cheio numa crise que põe tudo em causa. Será que vale a pena festejar?
A história celebra-se pelo que nos traz. Em geral é a grandeza passada que beneficia, mas as grandes tragédias também geram heranças favoráveis. Para ter razões de festejar basta uma comparação serena e objectiva do Portugal em ambos os extremos do centenário. Somos um país europeu de pleno direito. Devemos isso, entre outras, à mudança de há cem anos. Não pelo que destruiu, mas pelo que ensinou sobre destruição.
Os erros do 5 de Outubro salvaram o 25 de Abril. Costa Gomes, Álvaro Cunhal e Mário Soares sentiam no pescoço o hálito dos republicanos. Em vez de construírem a sociedade ideal, contentaram-se com algo que funcionasse. E conseguiram realizar aquilo que falhou 64 anos antes.
Temos muito mal a dizer do regime que nos governa mas, apesar dos problemas, funciona. Somos um país europeu com crises graves, como os outros. As nossas críticas estão ao nível das de franceses, britânicos e espanhóis. É razoável celebrar hoje com digni- dade o centenário da República porque, após Abril de 1974, a revolução de 1910 frutificou em liberdade e desenvolvimento. Vivemos numa república estável, livre e serena. Excelente razão para celebrar.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 15 de agosto de 2010

Quando tudo arde

DN2010
ALBERTO GONÇALVES
No ano passado, o mérito pela escassez de incêndios cabia ao Governo e não a um Verão particularmente fresquinho. Este ano, a culpa pela devastação em curso é do calor tórrido, dos criminosos, dos negligentes e do "aquecimento global": não é do Governo. Aparentemente, a acção preventiva da tutela reflecte-se nos sucessos, não nos fracassos.
Mistérios à parte, a verdade é que o País voltou a arder e as cabeças encarregadas de o pensar também. Com a frequência das chamas, fervilham ideias instantâneas sobre o modo ideal de impedir a calamidade. Em países normais, esse é o tipo de coisas que se discute antes de a calamidade acontecer. Aqui discute-se durante a dita, embora não se trate do típico "casa roubada, trancas na porta", não senhor: em Portugal, debate-se o tipo de tranca enquanto a casa está a ser roubada. Depois de consumado o roubo, a porta continua aberta.
As trancas, perdão, as medidas de prevenção sugeridas são inúmeras. A minha preferida é a do ministro da Agricultura, que deseja nacionalizar os terrenos abandonados. No universo peculiar do dr. António Serrano, obviamente habilitadíssimo para a pasta que carrega, as matas e florestas do Estado encontram-se limpas, vigiadas e pura e simplesmente não ardem. Eis o contributo mais original desde que um ministro do PSD atribuiu a origem dos fogos às granadas que os ex-combatentes trouxeram do Ultramar.
Ainda que sem o talento natural do dr. António Serrano, que ponderadamente pediu a 6 deste mês uma avaliação do Plano Nacional de Defesa da Floresta aprovado em 2006, as luminárias restantes fazem o que podem em matéria de desnorte. O ministro da Administração Interna compara, todo contente, a quantidade de área queimada com a equivalente de 2003 e declara-se preocupado com "a segurança das pessoas", uma evidência se por "pessoas" entendermos ele próprio, e por "segurança" a sua manutenção no cargo. Um secretário de Estado do Ambiente ciranda a anunciar "meios aéreos". O Presidente da República e o primeiro-ministro interrompem com pompa as respectivas férias mas, desrespeitosamente, as labaredas não interrompem o respectivo trabalho. E a ministra da Educação prossegue o encerramento em massa das escolas rurais e deixa cada aldeia entregue a três (ou quatro) velhinhas, assunto que nada tem a ver com os incêndios e por cuja invocação peço desculpa.
Domingo, 8 de Agosto - Casamento escandaloso
O casamento recente de um escritor português com o companheiro motivou uma ou outra notícia de jornal, uma ou outra coluna de opinião e uma razoável quantidade de sentimentalismo na Internet. Dado que não se tratou do primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo, que sempre tinha o efeito da novidade, estranhei que tantos órgãos de comunicação e tantos comunicadores individuais imitassem a imprensa dos mexericos. Estranhei sobretudo que a comoção orientasse quase todos os desabafos.
Sobretudo porque, ao contrário do que sucede no jornalismo dito "social", os autores dos desabafos em questão são, ou parecem ser, esquerdistas convictos, daquela esquerda que, não só desde Brecht, gastou décadas a ridicularizar o matrimónio "burguês". Pelos vistos, bastou alterar a orientação sexual para que o que antes era ridículo se transformasse numa celebração do amor puro e irredutível. Num ápice, o formalismo opressor do "papel" passou a atestado indispensável de maioridade cívica e a motivo para lágrimas de alegria.
Que eu saiba, a igualdade não é isto. A igualdade que esteve no centro das reivindicações do casamento gay implicaria, agora que este se consumou em sentido lato, que se alargasse o enxovalho aos gays que cederam às "convenções" e à moralidade "tradicional".
A menos que a igualdade fosse apenas um pretexto para que o casamento, à semelhança das paradas, reforçasse o cliché da homossexualidade enquanto diversão exótica. A menos que se vá a um enlace gay como se vai ao zoo ver os macaquinhos amassarem bananas contra as grades, exercício tonto se praticado pelo cidadão comum mas ternurento quando a cargo dos bichinhos. A menos que o combate à discriminação seja um modo sinuoso, e talvez inconsciente, de discriminar mais.
Quarta-feira, 11 de Agosto - A OMS e o lobo
Há poucas semanas, a Organização Mundial de Saúde avisava oficialmente, pela enésima vez, que a gripe A não terminara. Oficiosamente, a guarda avançada da OMS fundamentava o parecer. Para o especialista britânico John Oxford, por exemplo, a "segunda vaga" da gripe vinha a caminho e com redobrado vigor. A vacinação, referiu o dr. Oxford, é essencial. Para o português Francisco George, o H1N1 iria "com certeza" regressar e "ser responsável por nova actividade epidémica". As pessoas, referiu o dr. George, devem continuar a vacinar-se. A despropósito, note-se que o dr. Oxford é o responsável científico de um importante laboratório de investigação de vacinas e que o dr. George é um dos rostos do sistema de saúde que gastou, perdão, investiu dezenas de milhões nas ditas, ainda assim uma pequenina parcela dos 5 mil milhões gastos, perdão, investidos globalmente.
Agora, pela voz da sua directora, a OMS admite que a gripe, afinal, acabou, com um saldo de vítimas algumas vezes inferior ao da gripe comum e muitas vezes inferior ao previsto. Ao decreto do fim, a dra. Margaret Chan acrescentou uma curiosa constatação: "O mundo teve sorte."
Não digo que não, mas sorte de facto teve a OMS, que andou um ano e tal a incitar ao pânico e, após se provar o absurdo do incitamento, mantém inexplicáveis pretensões à credibilidade. E quem diz a OMS diz a imprensa, os investigadores com e sem aspas, os governantes e restantes elementos da brigada do medo, que no mínimo há um par de décadas assustam a humanidade com epidemias e cataclismos que, contas feitas, dão em nada ou em quase nada. Das vacas malucas às aves engripadas, passando, fora do zoológico, pelo "bug" do milénio ou pelo aquecimento global, os tempos recentes têm sido uma sucessão de desgraças anunciadas e nunca verificadas.
Felizmente. Excepto pelo receio de que as massas, as exactas massas que têm entrado em histeria a cada alarme falso, um dia ignorem um alarme verdadeiro. Eis, parece-me, mais um pavor injustificado. A julgar pelas evidências, Pedro pode gritar "Lobo!" tanto quanto quiser que surgiremos sempre a acudir ao rebanho. Isto na presunção de que o rebanho são os outros.
Quinta-feira, 12 de Agosto - Vitória Amarga
Para quem, como eu, nasceu em Matosinhos e suportou Narciso Miranda na presidência da câmara durante três quartos da vida, o vexame a que o afastamento e, agora, a expulsão do PS sujeitaram a criatura deveria suscitar um imenso gozo. Estranhamente, não é só isso que suscita.
A título informativo, esclareço que não tenho respeito nenhum pelo sr. Narciso Miranda. No seu longo reinado (é o termo), Matosinhos alcançou de facto o progresso, isto é, progrediu da vila industrial, simpática e bonitinha da minha infância para o dormitório triste, caótico e esteticamente angustiante dos tempos que correm. A ética também não abundou nesta história: se o sr. Narciso Miranda era o "autarca modelo", não o era no sentido afirmado por Mário Soares e demais líderes socialistas, que vinham a Matosinhos receber os proverbiais (e medonhos) "banhos de multidão", mas no sentido em que representava na perfeição os vícios e os tiques do nosso municipalismo democrático. Durante anos, supus que não haveria pior. Estava, naturalmente, enganado.
No dia em que a lota deixou de dar votos e passou a dar vítimas de enfarte, as cúpulas partidárias sentenciaram a morte política do sr. Narciso Miranda, trocando-o pelo apoio a um punhado dos seus anteriores acólitos. Regeneração? Não brinquem. Hoje, os acólitos de ontem, aliás igualmente envolvidos na morte de Sousa Franco, dominam a autarquia, coadjuvados por novas e inacreditáveis insignificâncias. O que se julgava impossível aconteceu: os vícios e os tiques aumentaram. O poder local é um poço sem fundo.
O poder central também, e a manipulação sofisticada dos senhores que despacham sumariamente o sr. Narciso Miranda e 200 outros militantes provoca saudades do tempo em que o populismo se reduzia a um par de beijos numa vendedora de peixe.
Enxotado num processo sem regras nem maneiras, o sr. Narciso Miranda fingiu descobrir de repente que, embora a democracia não dispense os partidos, os partidos dispensam a democracia sempre que podem. Tem o castigo que merece, infelizmente executado por quem e em benefício de quem merecia castigo maior.

15 de Agosto - Assunção de Nossa Senhora

 
Assunção
Lelio Orsi, Italiano, 1511–1589
19 x 22 cm
Pena e tinta castanha em papel creme antigo
Museum of Fine Arts, Boston

sábado, 14 de agosto de 2010

14 de Agosto de 1385 - Batalha de Aljubarrota

 




14 de Agosto - S. Maximiliano Kolbe

7.ª estação: Simão de Cirene ajuda Jesus a carregar a cruz

Estamos no campo de concentração de Auschwitz. Em Agosto de 1941 10 prisioneiors são escolhidos na parada para serem mortos. O prisioneiro n.º  6670 era Maximiliano Kolbe,  um franciscano. Não era um dos escolhidos mas voluntariou-se para morrer em vez de um dos condenados, pai de uma grande família. 

Em Praga, na igreja da Virgem Maria na área de Lhotka (http://lf.netservis.cz/), as estações da via sacra são invulgares: cada estação representa um episódio do sofrimento da humanidade ao longo da história. Trata-se de uma ideia original do padre Vladimir Rudolf, nos tempos difíceis que se seguiram ao esmagamento pelos tanques soviéticos da movimentação que ficou conhecida como a "Primavera de Praga". As esculturas foram feitas usando resina sintética pelo artista checo Karel Stadnik entre 1973 e 1975. A sétima estação faz memória do martírio de S. Maximiliano Kolbe. As outras treze estações podem ser vistas aqui.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Aconteceu o que tinha de acontecer: o país a arder

Público, 2010-08-14 José Manuel Fernandes
O "milagre" dos últimos anos era enganador: bastou um Verão quente para regressarem os incêndios catastróficos

Depois de vários anos de estios relativamente amenos, com temperaturas baixas e chuva em Agosto, eis que voltámos à normalidade e ao drama dos incêndios de Verão. Depois de décadas a dizer e a escrever que o problema dos incêndios só se podia mitigar encarando de outra forma os espaços rurais e as florestas que temos, eis que regressámos à rotina das declarações diárias do ministro das polícias, enquanto o ministro da Agricultura quase não aparece. Parece que nunca aprendemos nada, ou pelo menos nunca aprendemos o suficiente.
É cedo para fazer qualquer balanço, mas a dimensão de fogos como os que lavraram na zona de São Pedro do Sul, na serra Amarela (Gerês) ou em Lamas de Olo (Alvão) mostra-nos como a abordagem dos últimos anos, ainda muito centrada no combate aos fogos depois de estes se desencadearem, é limitada. Pior: é dramaticamente insuficiente. E é errada.
A primeira razão por que ocorrem fogos de grandes dimensões e consequências catastróficas é a existência de uma excessiva concentração de biomassa em manchas contínuas. Se não houver suficiente madeira acumulada e matos ressequidos, não há fogos. Quando, em contrapartida, existem manchas florestais contínuas de espécies altamente inflamáveis e nunca se limpam as matas, qualquer pequeno acidente ou descuido é suficiente para que, havendo uma ignição, o fogo progrida de forma galopante e incontrolável. Basta estar mais calor e algum vento.
Ora o que sabemos é que, neste domínio, pouco se fez, e o que se fez não chega para produzir frutos. Primeiro porque, fora das áreas das florestas de produção geridas pelas empresas de celuloses, o ordenamento florestal é quase inexistente. Depois, porque as associações de produtores florestais - única forma de ultrapassar os problemas colocados por um mundo rural dominado pelo minifúndio - arrancaram de forma deficiente e, por atrasos no Proder, estão estranguladas financeiramente. Por fim porque o Estado, que devia dar o exemplo, praticamente não trata nem limpa as matas públicas, com excepção do centenário Pinhal de Leiria.
Mas mesmo que tudo tivesse sido feito para ordenar o mundo rural, nunca se ultrapassaria um problema estrutural: a floresta portuguesa deixou de ser de uso múltiplo e, por isso, é quase inevitável a acumulação de enormes quantidades de biomassa. Este problema é ainda mais estrutural e mais insolúvel do que o da desertificação do mundo rural, pois mesmo nas regiões onde se mantém uma razoável presença humana já ninguém vai às matas apanhar lenha para a lareira e o fogão. Pior: há regiões do país onde parar à beira da estrada para apanhar umas pinhas ou umas ramadas é bem capaz de ser suficiente para uma "autoridade" bem apessoada passar uma valente multa.
Ao contrário do que se decreta em Lisboa, a utilização natural da floresta, habitual ainda há uma geração atrás, não é substituível por ordens administrativas para "limpar as matas". Quando muito, essas ordens podem ter efeito no perímetro restrito das habitações, pois quem quer que já tenha procedido à limpeza de uma mata sabe quanto é que isso custa e como não há indústria de biomassa que pague o suficiente para compensar o investimento. Ou até indústria de biomassa que consiga ser sustentável no médio e longo prazo.
Para alterar este estado de coisas será necessário não só inverter o ciclo da desertificação - algo que certamente não se consegue tornando mais difícil viver em zonas isoladas, sem escolas e sem outros serviços públicos, para mais sujeitas a uma criminalidade persistente -, como assumir que existem reais possibilidades de explorar a fileira florestal, se, para além das celuloses, outras indústrias forem capazes de valorizar a produção e, assim, justificar o investimento na preservação da floresta. E, também, se actividades complementares, como uma pastorícia dirigida para a redução da biomassa em zonas florestais, tiverem possibilidades de se desenvolver.
Há também um mundo de tarefas miúdas, invisíveis, que deviam ser feitas, que têm de ser feitas antes de se começar a pensar naquilo que habitualmente mais se discute: o combate aos fogos e os meios disponíveis. Sobretudo se pensarmos que aquilo que por regra discutimos é a espuma da espuma, isto é, a existência ou não de meios aéreos.
Primeiro, era importante existir no terreno uma força articulada de guardas e sapadores florestais que, logicamente, deviam estar enquadrados no Ministério da Agricultura e não depender do ministério das polícias, como infelizmente acontece. Sem presença no terreno ao longo de todo o ano e coordenação com quem trabalha na floresta, não é imaginável que essas forças possam ser realmente eficientes.
Depois, era necessário estudar a nossa floresta durante o período em que ela não está a arder para saber como mitigar o risco de fogo e como actuar em caso de incêndio. É possível - já vi com os meus olhos - desenvolver modelos informáticos que prevêem a evolução de um fogo de acordo com a orografia do terreno e o sentido do vento, ficando-se a saber onde este evoluirá de forma imparável e onde perderá força, devendo nestas zonas ser abertas clareiras e, mais tarde, ser posicionadas as forças de combate. Mas esta é apenas uma das várias metodologias que permitem prevenir a propagação incontrolada do fogo e passar a atacá-lo com economia de meios e recursos, mas muito mais eficiência.
Por fim, era essencial passar a olhar para o fogo de outra forma. Compreender, por exemplo, que, dentro de limites aceitáveis, o fogo é um dos factores que faz funcionar os ecossistemas. Compreender que, face à forma caótica como se espalharam casas e casinhas por esse país fora, há circunstâncias em que se devia ter o sangue-frio de deixar arder aquilo que, para ser salvo, implica sacrificar um combate mais eficaz a um grande incêndio. Não há, contudo, forma de tomar estas difíceis decisões sem o envolvimento e a co-responsabilização das autarquias locais.
As mortes de vários bombeiros (mesmo as que resultaram de acidentes aparentemente não relacionados com o combate aos incêndios) e o recurso sistemático a meios aéreos vindos de Itália (em Julho), de França e de Espanha (esta semana) mostram os limites do dispositivo existente, apesar de este implicar um investimento muito superior (vários vezes superior) ao de há alguns anos. Mostra também como, em muitas zonas do interior e do Norte do país, as forças locais de bombeiros estão exauridas e sem meios humanos (até porque vive cada vez menos gente nesses concelhos). A enorme quantidade de meios humanos e materiais que tem sido transferida diariamente do sul para o norte do país não tem impedido que, por exemplo, ao consultar a página da protecção civil, se encontrem fogos que lavram há muitas horas e estão a ser combatidos por meia dúzia de homens (ontem de manhã havia um fogo na zona de Ponte de Lima que lavrava há mais dez horas e tinha sete homens a combatê-lo...).
É também claro que é possível evoluir muito nas técnicas de combate aos fogos - utilizando mais os contra-fogos e, sobretudo, usando mais vezes as motosserras, as enxadas e as máquinas de rasto, em vez da água e dos borrifos dos helicópteros -, só que isso exige estruturas de comando capazes de lerem melhor o fogo no local e de compreenderem o que a meteorologia lhes diz sobre, por exemplo, a evolução do sentido do vento.
É fácil perceber que é muito mais o que falta fazer do que o que foi feito. É também claro que, ao colocar o MAI no centro do combate aos fogos florestais, quando os problemas começam no mundo rural e na área de responsabilidade do Ministério da Agricultura, se privilegia a espuma em vez das medidas de fundo. Pelo que está a acontecer o que muitos especialistas previam: voltámos a ter um Verão realmente quente e, com ele, voltaram os incêndios. Muita gente lançou foguetes antes de tempo. E fora de tempo. Jornalista, www.twitter.com/jmf1957

P.S.: Declaração de interesses: faço parte da direcção de uma associação humanitária que gere uma corporação de bombeiros voluntários.
P.S.2: Ferreira Fernandes escreveu ontem, no Diário de Notícias, uma crónica sobre Josefa, a bombeira da Lourosa, que é um murro no estômago da nossa vacuidade contemporânea. Obrigatório ler.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A soldado desconhecida

FERREIRA FERNANDES
DN 12 Agosto 2010
Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?

O mártir é "uma pessoa extremamente livre"

Pontífice pede o compromisso diário de crescer no amor a Deus
ROMA, quarta-feira, 11 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – O mártir é “uma pessoa extremamente livre” – afirma Bento XVI – pois a graça de Deus não suprime a liberdade, mas a enriquece.
O Papa falou sobre o martírio, “forma de amor total a Deus”, na audiência geral desta quarta-feira, realizada junto aos peregrinos reunidos em Castel Gandolfo.
“Onde se funda o martírio? – perguntou primeiramente o Papa –. A resposta é simples: sobre a morte de Jesus, sobre seu sacrifício supremo de amor, consumado na Cruz para que pudéssemos ter a vida”.
No martírio, opera “a lógica do grão de trigo, que morre para germinar e trazer a vida”. “O próprio Jesus é o “grão de trigo que veio de Deus, o grão divino, que se deixa cair na terra, que se deixa partir, quebrar na morte e, precisamente através disto, se abre e pode assim dar fruto na vastidão do mundo”.
“O mártir segue o Senhor até o fim, aceitando livremente morrer pela salvação do mundo, em uma prova suprema de fé e de amor”, disse o pontífice.
Segundo o Papa, a força para enfrentar o martírio nasce “da profunda e íntima união com Cristo”.
Isso porque “o martírio e a vocação ao martírio não são o resultado de um esforço humano, mas a resposta a uma iniciativa e a um chamado de Deus”.
O Papa comentou que, ao se ler a vida dos mártires, fica-se surpreso com “a serenidade e coragem no enfrentamento da morte: o poder de Deus manifesta-se plenamente na fraqueza, na pobreza de quem se confia a Ele e só n’Ele deposita a sua esperança”.
Bento XVI disse ainda que “é importante enfatizar que a graça de Deus não suprime ou sufoca a liberdade daqueles que enfrentam o martírio, mas, ao contrário, enriquece-a e reforça-a”.
O mártir “é uma pessoa extremamente livre, livre em relação ao poder, ao mundo, uma pessoa livre, que, num único ato definitivo, entrega a Deus toda a sua vida”. O martírio “é um grande ato de amor em resposta ao imenso amor de Deus”.
O Papa afirmou ainda: “provavelmente nós não somos chamados ao martírio, mas nenhum de nós está excluído do chamado divino à santidade, a viver em alta medida a vida cristã, e isso implica tomar a cada dia a sua cruz”.
Num tempo em que “o egoísmo e o individualismo parecem prevalecer, temos de assumir como primeiro e fundamental compromisso crescer a cada dia em um amor maior a Deus e aos irmãos, para transformar a nossa vida e assim transformar também o nosso mundo”, disse o pontífice.
(Alexandre Ribeiro)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

11 de Agosto - Santa Clara

A morte de Santa Clara
Master of Heiligenkreuz
1400-10
Samuel H. Kress Collection
The National Gallery of Art
Washington

terça-feira, 10 de agosto de 2010

10 de Agosto - S. Lourenço

 
S. Lourenço perante Valeriano
Fra Angelico
1447-49
Capella Niccolina, Palazzi Pontifici, Vaticano

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

9 de Agosto - Santa Teresa Benedita da Cruz

Precariedade persistente

DN20100809  JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Precários nos querem, rebeldes nos terão." Esta frase, que há meses aparece nas nossas paredes, surpreende. Não se costumam ler por cá afirmações tão ameaçadoras. Noutros países, coisas destas são habituais, mas nós somos um povo pacato, sereno, que raramente se entrega a emoções agressivas. Nas tabernas e blogs dizem-se coisas até mais graves, mas desde os turbulentos tempos da revolução não surgem na praça pública.
Antes de mais, a frase manifesta a gravidade do problema laboral. Não só o desemprego chegou ao máximo da história nacional, envolvendo quase 600 mil pessoas, mas, além dos 71 mil inactivos disponíveis que, desanimados na busca de emprego, não contam nas estatísticas, ainda há quase 900 mil trabalhadores sem contrato permanente. O total representa milhão e meio, 28% da população activa, que pretende emprego estável sem conseguir.
O fenómeno da precariedade tem passado em Portugal por fases diferentes. Nos anos 1980 e 90 sofreu uma flutuação marcada, evoluindo em simetria aos desempregados. Enquanto o desemprego subia, a precaridade descia e vice-versa. Era evidente que constituía a válvula de escape do sistema. Eram os precários que ganhavam ou perdiam emprego quando este subia ou descia.
Isso manifesta aquele que é o contributo mais forte, e mais oculto, da integração europeia para a nossa força laboral: a dualidade. A legislação comunitária, pensada para países ricos, só parcialmente pode ser aplicada por cá. Nasceu então uma elite de trabalhadores com direitos europeus, ficando o resto à margem. É essa margem precária que dá flexibilidade e permite ao mercado funcionar com desemprego muito inferior ao comunitário. Assim se finge adoptar o sistema dos parceiros, mantendo o equilíbrio à custa da injustiça.
Como é costume na hipocrisia nacional, todos sabem mas ninguém diz. Os trabalhadores desprotegidos, indispensáveis à viabilidade económica, são usados como argumento retórico mas ficam sempre à margem das políticas sociais. Entretanto, os sindicatos vão reivindicando mais direitos para os associados, esquecendo de facto quem não atinge os mínimos. Esses, incapazes de pagar quotas e sempre ameaçados de despedimento, passam ao lado dos interesses dos que os dizem representar.
Na última década, a evolução mudou, mesmo se o quadro de fundo se manteve. A partir de 2001, com o desemprego a subir, o peso dos trabalhadores a prazo, em vez de descer, aumentou todos os anos excepto nas crises de 2002-03 e 2008. Há dez anos que se situa em máximos históricos, acima de 20% do emprego por conta de outrem. Isto mostra as profundas mudanças no mercado de trabalho, não apenas por transformação estrutural, mas pela entrada de 250 mil emigrantes na década, que elevou o total de estrangeiros em Portugal a 450 mil.
Se a referida frase revela este terrível problema, falha redondamente no diagnóstico e na terapia. Inspirada no antigo mito da luta de classes e na ilusão ingénua e cómoda de um grupo de "maus" que "quer" a precariedade, anuncia rebeldia que, não só não resolveria nada, mas agravaria tudo.
É urgente uma reforma séria, profunda e realista do mercado de trabalho. Como os 900 mil precários sabem bem, garantir direitos no papel bloqueia o crescimento, única forma de criar empregos sólidos. A ilusória rigidez legal impede o ajustamento, sobretudo em época de turbulência, e prejudica todos. Pelo contrário, como se vê lá fora, uma flexibilização justa e moderada das regras, preservando os direitos essenciais, assegurando forte vigilância social e acudindo aos mais afectados, permite a justiça laboral e fomenta empregos de qualidade.
Mas, apesar de anos de fiasco evidente, os obstáculos à reforma permanecem formidáveis. Contra o realismo estão as retóricas dos autoproclamados defensores dos trabalhadores, a ilusão das seguranças aparentes e, sobretudo, os interesses dos privilegiados. É mais cómodo acusar o vácuo e prometer rebeldia. Mas a alternativa é a continuação deste marasmo social. Se rígidos se quiserem, precários continuarão.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt