terça-feira, 30 de novembro de 2010

O bem da má vontade

Público, 2010-11-30  Miguel Esteves Cardoso

A Maria João não gosta de agriões. Odeia. Mas, de vez em quando, quando tem pena de mim, faz-me a melhor salada de agriões do mundo.

Detesta lavá-los e arranjá-los. Detesta temperá-los. Mas, por obrigação, com sacrifício e perda de prazer e de tempo útil, faz-me uma salada de agriões. Eu aprecio mais a salada - dá-me mais gosto por causa disso. Também eu, não em contrapartida mas em compartida, meto-me em trabalhos por causa dela, que me custam, porque sei que ela vai gostar.

O prazer de ver o outro feliz é verdadeiro e bom - mas não compensa, em termos de tempo e de energia gastas (incluindo o que não se fez por estar a fazer aquilo que não nos apeteceria, se fosse só por nós). É uma dádiva.

É treta dizer-se que se cozinha com amor ou por paixão. Tudo o que eu comi de bom foi cozinhado com tédio, por dinheiro ou dever, com raiva de perder assim o tempo, por tão pequeno lucro.

O acompanhamento é a exigência, vinda dos anos 60, que não queremos nada que não nos seja dado de "boa vontade" ou, pior ainda, "sem ser por obrigação". Que cruel e prepotente disparate! As coisas melhores e mais bonitas são as que recebemos e damos por obrigação, por termos a consciência pesada, por dever, para não sofrermos a culpa de termos seguido as nossas vontades.

Exigir que nos façam as vontades de livre vontade e com prazer que não seja o de nos fazer a vontade é uma dupla estupidez. Por ser impossível e por tirar o mérito e o amor a quem nos faz.

O direito a não saber

Público, 2010-11-30  Pedro Lomba

Façam esta pergunta a vocês mesmos: quando o Correio da Manhã, seguido do DN, transcreveram excertos de escutas denunciando as opiniões de Edite Estrela sobre os seus colegas europarlamentares, o que ficámos nós a conhecer de útil sobre o caso? Nada. Não nos tornámos cidadãos mais informados ou lúcidos por sabermos o que Edite Estrela diz em privado sobre outros socialistas, com quem porventura até costuma almoçar amenamente em Bruxelas. De permeio, destruímos um valor capital: a privacidade de um político, incluindo o seu respeitável direito à hipocrisia.
Quando o mesmo Correio da Manhã, acompanhado do semanário Sol e de outros jornais que não deixaram de ecoar essas notícias, expuseram trechos de escutas sobre as manobras de Rui Pedro Soares/José Sócrates no caso da compra da TVI e o inconcebível caso Luís Figo/Taguspark (a compra dos direitos de imagem de Figo pelo canal de uma empresa com capitais públicos), o que ficámos nós a conhecer de politicamente relevante? Obviamente, muita coisa. Pudemos julgar este primeiro-ministro com outros olhos; ficámos conhecedores de informação pública sobre o seu modus faciendi nas últimas eleições; e inteirámo-nos com mais ou menos profundidade sobre o papel auxiliar de alguns antigos administradores do Taguspark num escândalo público.
Pensemos na documentação maciça e confidencial que a organização activista WikiLeaks tem trazido desde há meses para o conhecimento geral. Uma coisa é a WikiLeaks pôr cá fora o vídeo do desastre de Bagdad em 2007, que causou 12 mortes, dois deles jornalistas da Reuters, provocado pelo disparo de um helicóptero da força aérea americana. Uma coisa são as informações reservadas, passíveis de demonstrar erros de guerra ou manipulações da opinião pública na guerra do Afeganistão. Quer gostemos quer não, são elementos que acrescentam ao debate público, mesmo que o juízo que possamos fazer sobre elas esteja ele próprio sujeito a debate.
O que não pode, em absoluto, ser confundido com estas revelações são os milhares de comunicações diplomáticas que foram entregues pela WikiLeaks a alguns jornais ocidentais, que ontem fizeram a primeira página deste jornal, e das quais se podem inferir opiniões de diplomatas ou governantes americanos sobre líderes estrangeiros, bem como o tipo de acções de espionagem que os Estados Unidos têm andado a desenvolver no mundo.
Os documentos, pretensamente cedidos por um jovem soldado americano, Bernard Manning, trazem mais estragos do que benefícios para as opiniões públicas. Em primeiro lugar, elas ameaçam a situação de militares e diplomatas americanos por esse mundo fora, e outros iguais a eles de países da NATO. Em segundo lugar, se faz parte da actividade diplomática de um Estado, e dos seus serviços de informações, recorrerem a um certo jogo de muralhas chinesas, não se percebe o que há de condenável nestas informações. Não são só as pessoas que gozam do direito à hipocrisia. Também os Estados podem ter razões legítimas para se relacionarem com outros na base dessa relação de confiança e desconfiança, fazendo política dupla e gerindo as suas alianças com cautela e suspeição.
Como ontem comentava acertadamente um blogger da revista Economist, aquilo que a WikiLeaks está a fazer chama-se simplesmente "coscuvilhice": contar à Maria aquilo que o José disse à Sandra. E voltando à pergunta com que comecei: o que é que esta iniciativa, virada para uma perigosa transparência total, nos ensina de relevante sobre a política internacional? Que os Estados Unidos conhecem de ginjeira Berlusconi ou Putin e se puseram de sobreaviso? So what?
Nós, público, temos o direito a não saber tudo, em especial de que manigâncias se faz a diplomacia de um Estado. Se alguns activistas e jornalistas pretendem eliminar esses segredos no nosso próprio interesse, são infantis e irresponsáveis. Com isso matam a confiança do público na liberdade de imprensa; e não se admirem que, quando for preciso, o público já não esteja cá para a defender. Jurista

30 de Novembro - Santo André

A crucifixão de Santo André
Caravaggio
ca. 1607
Óleo sobre tela, 202,5 x 152,7 cm
Museum of Art, Cleveland
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O primeiro a ser chamado, o primeiro a dar testemunho

«Como é bom, como é agradável, viverem os irmãos em unidade» (Sl 132, 1). [...] Depois de ter estado com Jesus (Jo 1, 39), e de ter aprendido muitas coisas, André não guardou esse tesouro para si: apressou-se a ir ter com seu irmão, Simão Pedro, para partilhar com ele os bens que recebera. [...] Repara no que ele diz ao irmão: «Encontrámos o Messias (que quer dizer Cristo)» (Jo 1, 41). Estás a ver o fruto daquilo que ele tinha aprendido há tão pouco tempo? Isto é uma prova, a um tempo, da autoridade do Mestre que ensinou os Seus discípulos e, desde o princípio, do zelo com que estes queriam conhecê-Lo.

A pressa de André, o zelo com que difunde imediatamente uma tão grande boa nova, dá a conhecer uma alma que ardia por ver cumpridas todas as profecias respeitantes a Cristo. Partilhar assim as riquezas espirituais é prova de uma amizade verdadeiramente fraterna, de um afecto profundo e de uma natureza cheia de sinceridade. [...] «Encontrámos o Messias», diz ele; não está a referir-se a um messias qualquer, mas ao verdadeiro Messias, Àquele que esperavam. 

Comentário de São João Crisóstomo (c. 345-407), bispo de Antioquia, depois de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilias sobre o evangelho de João 19, 1 


Frase do dia

Nenhum homem tem uma memória suficientemente boa para ser um mentiroso bem sucedido
Abraham Lincoln

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Banco Alimentar recolhe mais 30% de alimentos que no ano passado


RR on-line 29-11-2010 10:09

Campanha bate recorde de recolha de alimentos.

A campanha do Banco Alimentar contra a Fome recolheu mais de três mil toneladas de alimentos durante o fim-de-semana. Face ao ano passado, trata-se de um aumento de 30%.
Banco alimentar recolhe mais de três mil toneladas de alimentos
“O balanço é muito muito positivo e superou todas as nossas melhores expectativas”, refere Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar.
“No final da campanha, foram recolhidas 3.260 toneladas de alimentos, naquilo que constitui um acréscimo de 30% em relação à mesma campanha do ano passado. Houve um banco alimentar onde só acabaram de arrumar as coisas já de madrugada, pelas seis da manhã, apesar de muitos [voluntários] terem hoje um dia de trabalho”, acrescenta Isabel Jonet, em declarações à Renascença.
A campanha do Banco Alimentar contra a Fome decorreu no sábado e no domingo em vários super e hipermercados de todo o país.

Mãos à obra

Raquel Abecasis, RR online 29-11-2010 08:46

Há uns meses, um piloto da TAP deparou-se com uma situação que o chocou. Verificou que, diariamente, milhares de refeições confeccionadas em cantinas e outros estabelecimentos eram lançadas para o lixo, por não serem consumidas.
Escandalizado, recorreu ao Presidente da República, que remeteu a questão para o Parlamento. Passou o tempo e, da casa da democracia, nem uma única resposta.
O cidadão resolveu, então, recorrer a uma petição, via Internet, para que a lei europeia tivesse alterações em Portugal, a fim de poder matar a fome a milhares de pessoas, que necessitam daquelas refeições para sobreviver.
A petição tem já milhares de assinaturas, que vão obrigar o Parlamento a discutir o assunto a que tentou escapar.
É um bom exemplo de que, por cá, o melhor é cada um começar a tentar resolver por si aquilo que considera urgente, porque da nossa actual classe política só podemos esperar guerras desinteressantes por um poder que, graças a Deus, já não detém.
Os últimos dias têm provado que estes senhores já pouco ou nada mandam: pagam o preço da irresponsabilidade com que governaram o país e estão agora a cumprir as ordens que recebem de Bruxelas.
No pouco que ainda nos cabe decidir, é bom que a sociedade civil perceba, como este piloto da TAP, que, se não somos nós a fazer, nada podemos esperar dos agentes do Estado, que deveriam ter o interesse nacional como a sua principal preocupação.

Benefício da dúvida

DN2010-11-29 JOÃO CÉSAR DAS NEVES

O pior na crise actual é a falta de esperança. A decomposição acelerada do Governo põe todos a pensar em alternativas. Mas nenhuma granjeia um mínimo de credibilidade. As coisas estão mal e só se vislumbra que piorem. O mais grave não é o sofrimento actual. É não se ver saída.

É importante dizer que este desânimo não vem da situação real. As circunstâncias são duras mas claras. Não é difícil saber o que há a fazer. O caminho é exigente mas sem mistérios. Vivemos em décadas recentes situações bem piores de onde saímos bem. E então a desorientação e desilusão não eram tão grandes como agora. É verdade que a geração actual tem um grau de exigência diferente, sem a capacidade de trabalho e poder de encaixe dos seus pais. Mas quem não tem dinheiro não tem vícios, e quando não há escolha as condições depressa ensinam a saída.
Mesmo assim temos de admitir que as dúvidas sobre o sucesso do futuro Governo, qualquer que seja, são legítimas e justificadas. Não tanto pela dificuldade da tarefa ou falta de qualidade dos prospectivos líderes e técnicos, mas devido à manutenção das condições que nos enfiam no buraco há 15 anos. Os interesses instalados, direitos adquiridos, bloqueios regulamentares e exigências processuais não mudariam com a troca de Executivo. Os grupos de pressão souberam criar contactos em todos os partidos de poder para proteger as suas benesses. A rede que estrangula a economia, se foi apertada por Sócrates e o PS, pode bem sobreviver-lhes.
Apesar disso, com novos líderes surgiria uma inegável oportunidade que não podemos desprezar. É provável que falhe, mas temos de tentar. Mesmo com políticos maus e sob influência dos lobbies, é possível um Executivo diferente chegar onde este falhou. E a prova disso é... José Sócrates.
Quando surgem ministros novos, não envolvidos nas culpas da situação, sem necessidade de justificar erros antigos, livres de compromissos passados e ainda desconhecendo as manhas do poder, existem condições reais para reformas efectivas. Mais ainda se a população, assustada pelas circunstâncias, exige mudanças corajosas e está disponível para suportar os sacrifícios inerentes. E essas condições são em grande medida independentes da qualidade e cor política dos protagonistas. A situação portuguesa de 2005 constitui exemplo evidente.
Já poucos se lembram, mas há cinco anos vivia-se por cá uma conjuntura paralela à actual. Toda a gente sabia que a crise financeira era séria e só a austeridade nos podia salvar. A culpa ficara com o PSD, que governara de 2002 a 2004, e o recém-eleito Governo maioritário do PS prometia medidas duras e reformas radicais que eliminariam de vez o flagelo do Orçamento. O Executivo era composto por políticos implicados na gestão socialista da década anterior e no falhanço que conduzira à maioria PSD-PP de 2002. Só que, passados três anos, o novo governo aparecia como inocente, competente e empenhado. Estavam criadas as condições para a correcção da crise.
Estes factos são precisamente aqueles que desanimam muitos analistas. Constatamos que esta é a quarta vez em menos de dez anos que repetimos o mesmo cenário de crise. Apesar das promessas, as sucessivas austeridades de Guterres, Durão e duas vezes de Sócrates mostraram-se incapazes de corrigir a situação. Pior ainda, os políticos futuros vêm da mesma cepa dos que sabemos terem falhado.
Mas dizer isto é esquecer como estivemos próximo de conseguir resolver a questão. Se Sócrates tivesse feito o que prometera, se tivesse querido mesmo controlar o défice em vez de o tapar com impostos, se a atitude reformista fosse mais do que uma pose, se não se tivesse caído nos recuos das remodelações, manipulações mediáticas e trapalhadas boçais, a nossa situação seria bem diferente.
As condições que Sócrates desperdiçou em 2005 e 2006 são dificilmente reproduzíveis. Além disso, circunstâncias não bastam, e as qualidades dos decisores são cruciais. Mesmo assim é nosso dever, e uma posição realista, dar pelo menos o benefício da dúvida ao futuro Governo.

domingo, 28 de novembro de 2010

O amor mais forte do que o ódio - impressões do filme "Dos homens e dos deuses"

Em Outubro, a minha atenção foi despertada pela capa de duas das revistas francesas de maior difusão (L´Express e Le Fígaro Magazine) que, na mesma semana, davam grande destaque ao filme Dos homens e dos deuses, sobre os últimos momentos da vida dos monges trapistas do mosteiro de Nossa Senhora do Atlas, na Argélia, raptados por um grupo terrorista de matriz islamista, e depois assassinados em condições ainda não bem esclarecidas, em 1996. «Estes monges que agitam a França»; «Do filme ao fenómeno» - eram títulos dessas capas, que evidenciavam o extraordinário sucesso de um filme sobre a vida e as escolhas radicais desses monges. Um sucesso esperado junto do público católico, mas também um inesperado sucesso junto de não crentes, atraídos pela qualidade artística do filme (seleccionado como candidato francês ao Óscar) e, sobretudo, pelo testemunho desses homens e as questões que ele coloca sobre o sentido da vida, do amor e da morte.
O filme emocionou bispos e cardeais. O cardeal Jean-Louis Tauran, presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, qualificou-o como “um hino à liberdade e à fraternidade” (La Croix, 16/11/2010). O cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon, afirmou nunca ter visto um filme retratar tão bem a vocação cristã extrema (o martírio por amor) misturada com a simplicidade da vida quotidiana (L´Express, 13/10/2010). Para o cardeal Vingt-Trois, arcebispo de Paris, o sucesso do filme é «a prova de que as nossas sociedades secularizadas não estão completamente imunizadas contra as preocupações existenciais, e mesmo espirituais» (La Croix, 4/11/2010).
Comentando a reacção do público francês, escreveu o jornalista Jean Sévillia: «cada projecção do filme termina num silêncio total»; «o público sai subjugado, mergulhado, numa meditação que tem algo de religioso» (Le Fígaro Magazine, 16/10/2010).
O realizador, Xavier Beauvois (não crente em busca, como muitos dos espectadores do filme), para compreender o sentido da vida monástica, aconselhou-se junto de monges trapistas e partilhou a sua vida durante algum tempo. «O período das filmagens foi para mim um perpétuo estado de graça»; «tudo era simples, límpido, fácil, evidente, estranho e belo»; «Agora, não vejo o mundo da mesma forma»; «dantes pensava que nada podia ser mudado, os irmãos de Thibirine ensinaram-me que não é assim» - afirmou (la Croix, 18/5/2010). O actor principal, Lambert Wilson considerou a experiência de todos os actores como “uma aventura profunda que os mudou”. «Assumo hoje muito melhor o facto de ser crente»; «não estou pronto a ser monge, mas gostaria de sê-lo de vez em quando» - afirmou também (La Croix, 10/9/2010).
O enredo do filme centra-se no dilema destes monges que, perante as ameaças que pairam sobre os estrangeiros que habitam a Argélia, correm risco de vida e enfrentam a decisão de deixar, ou não, o local onde vivem há anos, partilhando a vida simples e pobre da população local, a quem um deles presta serviços médicos gratuitos, numa harmonia que supera as diferenças entre cristãos e muçulmanos.
A decisão não é fácil e as opiniões começam por estar divididas. Não se fizeram monges para morrer, não são suicidas e não querem o martírio por sua iniciativa. São pessoas comuns, não são heróis sobre-humanos e querem viver. Mas, por outro lado, não querem ceder perante quem quer impor a sua vontade com a força das armas e, sobretudo, sentem que a sua missão junto daquele povo não está terminada; que escolheram partilhar a vida desse povo e com ele se querem identificar também na pobreza de quem não tem meios de fugir; que não podem abandonar esse povo aos terroristas, porque «o pastor não abandona as suas ovelhas quando vem o lobo». Não buscam a morte, mas aceitam-na como fez Jesus Cristo, porque «ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos» e porque «o discípulo não é mais do que o Mestre». Com esta consciência, chegam a consenso e reencontram a paz. Um deles afirma o que todos acabam por experimentar: «sou um homem livre, porque não temo a morte»
Alguns diálogos e algumas cenas deixam uma marca inesquecível em qualquer espectador.
Como aquela em que um terrorista pretende obter os serviços do monge médico com a ameaça das armas. O prior da comunidade, o Irmão Christian de Chérgé, dá testemunho de coragem ao começar por exigir que o diálogo com um homem armado se faça fora do mosteiro, lugar de paz. E, sobretudo, ao não ceder a essa ameaça, como se não tivesse alternativa (porque há uma alternativa à força das armas), deixando que a assistência seja prestada ao terrorista, mas sem distinção em relação à que é prestada à população local. Quando o terrorista se retira, esse Irmão diz-lhe que se celebra nessa altura o Natal, o nascimento de Jesus, Príncipe da Paz, tão estimado pelos muçulmanos. E ele pede desculpa… Mais tarde, será o Irmão Christian a reconhecer o cadáver desse homem perante os oficiais do exército (este também comete atrocidades) e com grande emoção rezará por ele diante desse cadáver.
Comovente o diálogo do monge médico e ancião, o Irmão Luc, com uma jovem a quem explica o que sente quem está apaixonado e a quem diz que sentiu isso mesmo e que, depois, sentiu um amor maior, há sessenta anos…
Também marcante é o diálogo entre o irmão Christian e outro dos irmãos que, confrontado com a escolha de ficar e correr o risco do martírio, vacila e não compreende o porquê dessa escolha. «A escolha já a fizeste há muito tempo»; «é tão louco ficar como foi louco escolher ser monge» - afirma então o irmão Christian, que o faz descobrir em Jesus esse porquê.
Os cantos dos salmos, na sua beleza e serenidade, e os seus textos não escolhidos por acaso, vão-nos preparando para descobrir o sentido do desfecho que se adivinha.
Culminante é a cena do jantar que antecede o rapto, ao som da música de Tchaikovsky, a evocar a última ceia e a presença espiritual de Jesus entre os monges, fonte da alegria que a todos invade nesse momento em que se pressagia um fim tão trágico.
O assassinato é evocado no final sem qualquer imagem de corpos degolados e trucidados (o realizador afirmou que esta sua opção se ficou a dever ao respeito para com os familiares dos monges). Sob um belíssimo cenário de neve nas montanhas do Atlas, ecoam as palavras do testamento espiritual do Irmão Christian. Nele se pede encarecidamente que a responsabilidade da sua morte não seja indiscriminadamente atribuída ao Islão e ao povo argelino, que ama profundamente. Afirma a propósito da vida eterna que espera: «Poderei imergir o meu olhar no olhar do Pai, para contemplar com Ele os seus filhos do Islão como Ele os vê, totalmente iluminados pela glória de Cristo». E perdoa ao seu previsível assassino, o seu «amigo do último minuto, que não sabia o que fazia», fazendo votos de que o encontre, também a ele, no Paraíso.
Se não por fosse por outro motivo, o facto de o testemunho destes homens chegar agora a tanta gente (em Outubro já eram quase três milhões em França), ajudando-as a aproximarem-se de Deus, faz-nos ver que esta morte não foi sem sentido e que o martírio é fecundo, como se diz desde a Antiguidade. Disse, a propósito, o monge e teólogo italiano Enzo Biachi (Avvenire, 20/10/2010) que estes homens «pertenciam a Outro» e, por isso, «falam a todos», pois é graças a pessoas como eles que é possível «acreditar que o amor é mais forte do que o ódio, que a vida é mais forte do que a morte, porque só quem tem uma razão para morrer, tem uma razão para viver».
 Pedro Vaz Patto 

Homilia de D. João Lavrador na vigília de oração pela vida nascente na Sé do Porto


HomiliaDJoaoLavrador20101127

sábado, 27 de novembro de 2010

Vigília de Oração pela Vida Nascente

Padre Duarte da Cunha, secretário-geral do CCEE
Agência Ecclesia, 2010.11.25
A proposta foi lançada pelo Papa em Junho deste ano, anunciando que, na véspera do primeiro Domingo do Advento, se propunha a dedicar um tempo de oração pela Vida nascente. O Papa convidou toda a Igreja, as dioceses, mas também as paróquias, as comunidades religiosas, os movimentos e grupos a unirem-se a ele nesta Vigília de Oração. Recordar as crianças que estão por nascer mas já foram concebidas tem as duas notas típicas do Advento: a esperança na vinda de Deus – de que cada criança desde o momento da concepção é um sinal – e o apelo de Deus a que todos assumam a responsabilidade de promover e defender a vida em todas as suas fases.
A Europa atravessa actualmente, como todo o mundo ocidental, uma trágica crise demográfica. Aquilo que muitos já chamam o inverno demográfico pode ter várias razões: o medo do futuro, a falta de esperança, o cansaço, o materialismo, o egoísmo, a falta de comoção perante uma vida humana, a banalização da contracepção e a liberalização do aborto, a ausência de políticas de apoio à família e à natalidade, o aumento do custo de vida. Mas é um facto que entre os católicos praticantes (e não é por estes serem mais ricos) há mais filhos do que a média. Isto mostra como muito depende da nossa confiança em Deus e da força do amor que vem de Deus e que nos leva a ser solidários e a ajudar-nos uns aos outros.
São já muitos os países da Europa que aderiram à iniciativa do Papa e se unem ao Papa não apenas para reforçar o alerta para a situação grave em que nos encontramos com falta de crianças, mas também para proclamar bem alto a esperança e a confiança em Deus. A necessidade de defender a vida humana desde a concepção é sentida hoje em todos os países da Europa e do mundo. A legislação que tende a ser cada vez mais permissiva e a deixar as crianças desprotegidas e as mães abandonadas a si mesmas é algo que, infelizmente, ainda está em fase de expansão. É estranho que na Europa se gaste mais dinheiro a fazer abortos do que a ajudar quem quer ter filhos e as instituições de apoio à vida.
A iniciativa do Papa, por isso, é um apelo, que interessa todos os países. O Papa não quer que ninguém que acredita no valor da vida humana desista e sabe que esta é hoje uma grande tentação. Alguns políticos, mesmo dizendo-se católicos, como acontece em Portugal, têm desistido de lutar pela defesa da vida considerando irrevogável o caminho feito na liberalização do aborto e que o problema agora é a crise económica. Não se pense, no entanto, que será resolvendo a crise económica que se passará a ter mais filhos. Será, antes pelo contrário, o amor à vida e a promoção da verdadeira família que gerará mais solidariedade e confiança para mudar a situação económica.
Os cristãos, não só os católicos, mas também de outras confissões, nomeadamente os ortodoxos (alguns dos quais já aderiram à proposta de oração do Papa), embora não sejam os únicos a defender a vida, têm uma responsabilidade particular. Por um lado, têm a consciência do valor da vida nascente, e sentem o dever de promover a natalidade e a família (a começar pela sua própria), por outro lado, sabem que estão diante de uma luta que é maior do que as nossas forças e que sem a graça de Deus acabam por esmorecer.
Quando aumentam os perigos para a vida nascente os cristãos de toda a Europa devem, necessariamente mostrar que não desistem. Talvez este seja um do mais importantes objectivos do Papa: manter viva a consciência de que há algo de errado num mundo que despreza o direito a nascer, e, por outro lado, manter viva a chama do amor à vida e continuar a anunciar a todos o amor de Deus que nos faz amar a vida de todos e cada um dos homens. A oração, deste modo é entendida como acto de confiança em Deus, mas também ocasião para nos colocarmos em acção, protegendo mulheres e crianças, e promovendo políticas justas que defendam a vida, sobretudo a mais vulnerável.
Padre Duarte da Cunha, secretário-geral do CCEE
 Dossier | Pe. Duarte da Cunha | 2010-11-25 | 11:59:31 | 5041 Caracteres | Aborto

Concertos de Natal na Igreja de Marvila


cartazconcertos

Grande Jantar de Natal da Federação Portuguesa pela Vida


jantarFPV

Ciclo de Cinema Católico 2 a 5 de Dezembro Almada





Ciclo de Cinema Católico

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

E se o sonho da moeda única acabar em desastre?

Público, 2010-11-26 José Manuel Fernandes
Tudo leva a crer que, pelo menos no futuro mais próximo, os PIIGS serão sempre PIIGS. E por culpa própria

Há uma razão simples, crua, para esta semana vários líderes europeus, de Angela Merkel a Herman van Rompuy, terem dito que o euro estava em risco: a crise mostrou que o actual edifício da moeda única não tem forma de se manter de pé. Pode ser amparado, mas nunca sobreviverá tal como o conhecemos. Resta saber se pode ser reconstruído, mas já lá vamos.

Primeiro que tudo, o que é que se passou com a Irlanda? O que é que levou um país cujo produto per capita é sensivelmente o dobro do português, com uma economia privada saudável, um país com um salário mínimo três vezes mais elevado do que o nosso, a adoptar uma redobrada austeridade que passa, também, por reduzir esse salário mínimo? Talvez esse mesmo salário mínimo seja um entre muitos sintomas de alguns dos maus hábitos que levaram o "tigre celta" a engordar e a perder os seus reflexos.

Entendamo-nos: ao contrário do que muitos repetem por aí, há muita coisa que nos aproxima da Irlanda. E o pior é que o que nos aproxima da Irlanda são os defeitos comuns, não as virtudes que esta tinha e ainda tem. Apesar da crise bancária.

Esta semana, num texto no Financial Times, um antigo taoiseach (nome dado ao primeiro-ministro na Irlanda), Garret FitzGerald, atribuía os males do seu país a, no início desta década, se ter aumentado a despesa pública, o que provocou um aumento de preços e salários que degradou a competitividade da economia e permitiu um boom imobiliário irresponsável; esse boom, por seu turno, gerou impostos que criaram a ilusão de que o orçamento estava equilibrado quando já não era sustentável. A irresponsabilidade de alguns bancos fez o resto. Num outro texto, este bem mais colorido e publicado na Spectator, Kevin Myers, um colunista do Irish Independent, explicava como um mirabolante plano de novas auto-estradas, gastos sumptuários nas empresas públicas e reformas milionárias dos bonzos do regime tinham contribuído para o desastre. Ou seja, males que também nos são familiares...

Mas isto é a parte má da Irlanda, aquela que nos faz sentir (à excepção do sistema bancário) relativamente parecidos. A parte boa é aquela que está agora em risco: um tecido económico pujante que beneficia de um IRC especialmente baixo (apenas 12,5 por cento, mas mesmo assim capaz de gerar receitas em percentagem do PIB semelhantes às do IRC alemão), de uma mão-de-obra qualificada, de muito investimento estrangeiro e da especialização em dois sectores de ponta, as novas tecnologias e os produtos farmacêuticos. Este sector privado é tão competitivo que, apenas por efeito das medidas de austeridade já tomadas, está a recuperar parte da sua competitividade. Mais: a Irlanda, ao contrário de Portugal, da Espanha ou da Grécia, está de novo perto de ter uma balança de transacções positiva.

Apesar da irritação alemã com o baixo valor da taxa de IRC na Irlanda, a verdade é que, muito por efeito do sector exportador, o antigo "tigre celta" esteve sempre mais próximo de ser um "bom aluno" do clube da moeda única do que Portugal ou a Grécia. Esta última nem se esforçou, tratando de aldrabar alegremente os seus números, algo que a eurocracia tolerou. Já Portugal, para além de ter sido o primeiro país a incumprir o Pacto de Estabilidade, não cresce há dez anos e tem um desequilíbrio estrutural nas contas externas que gera uma dívida, entre Estado e particulares, que ninguém sabe como ou quando poderá ser paga.

Sucede que quando a Alemanha aceitou trocar a reunificação pelo euro - assim abandonando o seu adorado marco - impôs apenas uma parte das condições necessárias à criação de uma união monetária realmente saudável. Muitos na altura defenderam - até por se oporem ao euro - que, para 16 Estados partilharem a mesma moeda, não bastava limitar os défices e as dívidas públicas, era também necessário harmonizar políticas fiscais e, sobretudo, criar mecanismos de transferência de recursos para acudir a situações de crise regionais. Isso não foi feito e, é bom dizê-lo com clareza, não podia ser feito, pois iria contra a vontade dos cidadãos da maioria desses 16 Estados. Para além disso, o défice de legitimidade democrática das instituições europeias não teria autorizado então, como não autoriza hoje, que se transfiram para as autoridades da UE mais competências de tipo federal.

O resultado desta união monetária coxa está à vista nesta crise. A Alemanha, mais alguns vizinhos bem-comportados, mantiveram-se fiéis aos velhos princípios do marco, uma moeda forte que, para coexistir com economias competitivas, implicava que estas aumentassem constantemente a sua produtividade. Isso foi exigindo reformas que uns fizeram e outros não. Os que não fizeram já estão ou estarão na situação da Grécia e de Portugal, isto é, prisioneiros de uma moeda única que não pode ser desvalorizada e encerrados numa união monetária onde todos são supostamente iguais mas há uns mais iguais do que outros quando chega a hora de ir pedir dinheiro emprestado. Durante quase dez anos foi possível iludir esta situação devido à descida das taxas de juro e a os mercados tratarem os países da periferia quase tão bem quanto tratam a Alemanha. Esse tempo acabou e não será apenas uma sucessão de bail-outs que o fará regressar.

O que quer dizer que, pelo menos num futuro próximo, os PIIGS serão sempre PIIGS. E por culpa própria.

Está na moda, mesmo assim, culpar a Alemanha e Angela Merkel pelas dores dos mal-comportados. O colunista do Financial Times Martin Wolf tem sido mesmo uma das vozes mais críticas, chegando a exigir aos alemães que consumam mais bens importados sem se perceber bem por que hão-de estes trocar os seus BMW por Fiat ou Renault. Já o historiador Timothy Garton Ash pede um gesto de grandeza à chanceler: "Frau Bundeskanzlerin, a História está a bater à sua porta", escrevia ontem no The Guardian. E que pede ele? Que, em nome da Europa, a Alemanha se torne 30 por cento "menos alemã". E que os outros países consigam ser 70 por cento "mais alemães". Sinceramente, não acho que seja um pedido muito razoável.

Também não creio que, ao contrário do que tem sido sugerido, o problema esteja na coragem ou falta de coragem de Frau Merkel para enfrentar o descontentamento do seu eleitorado. O problema está mesmo em que ninguém sabe realmente o que fazer. Um bom exemplo disso mesmo é dado pela possível passagem do actual fundo europeu de emergência a um mecanismo permanente de assistência a países em dificuldade. Os especialistas convergem em que tal mecanismo deva co-responsabilizar o sistema financeiro em caso de crise num determinado país, até para obrigar esse sistema a actuar de forma mais cuidadosa. Porém, ao falar no assunto, Merkel provocou uma tempestade nos mercados apesar só se preverem mudanças para 2013. Sugeriu-se logo que devia ter ficado calada, mas não se disse quando deveria, em alternativa, abrir uma discussão que será necessariamente demorada no seio da União Europeia. Advogou-se, no fundo, o adiamento e dissimulação.

Mais uma vez, também agora alguma coisa será feita. Talvez antes, talvez depois, de chegar a vez de Portugal ser obrigado a pedir ajuda. No entanto, a verdade é que a moeda única parece presa no seu próprio labirinto, incapaz de servir ao mesmo tempo aos países do marco e aos países do escudo ou do dracma. É insustentável, por exemplo, a manutenção das actuais diferenças de juros no seio da mesma união monetária - umas economias não podem estar a financiar-se a dois por cento e outras a sete por cento. Mas nenhuma solução que não passe por um "governo económico" inatingível no actual quadro político - e, a meu ver, intolerável porque insufragável pelos cidadãos - alteraria, se alterasse, os actuais desequilíbrios.

Por isso vou escrever o que nunca pensei escrever: é tempo de pensar em alternativas à actual arquitectura da moeda única para que o seu eventual fracasso não arraste consigo a obra muito maior e mais importante que é a União Europeia. Jornalista (twitter.com/jmf1957)


P.S.: Duas coisas impressionaram-me na greve geral. Uma foi a simpatia que esta suscitou mesmo entre a maioria de portugueses que a ela não aderiu, sinal de que os cidadãos estão saturados e, ao mesmo tempo, ansiosos, para não dizer aflitos. A outra foi a quase desistência do Governo, que desapareceu dos radares (por onde andou Sócrates?) e, quando aparecia, não sabia que dizer, sinal de que está psicologicamente derrotado e politicamente desorientado. A situação parece madura para o desembarque do FMI.

LG - Momentos


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Um país, dois sistemas

Helena Matos, Público, 2010-11-25

Há um vago ar de dia de ponte porque muito boa gente, sobretudo no sector público, está de "nim" à greve

As notícias dizem que estamos em greve geral. Na rua por onde passo de manhã tudo funciona: cafés, o talho, o restaurante, a farmácia, a tabacaria e o quiosque. O mercado está cheio, os supermercados também. Cheio está também o parque automóvel duma editora que se estabeleceu aqui no bairro. À porta do colégio é o habitual corrupio de carros e crianças. Para geral a esta greve falta-lhe muito. É sim uma greve no sistema público. No sistema privado quase não há greve. No meio de tudo isto há um vago ar de dia de ponte porque como uma greve geral se traduz basicamente por conseguir paralisar os sectores que são essenciais para os outros poderem trabalhar - como as escolas e os transportes - muito boa gente, sobretudo no sector público, está de "nim" à greve. Ou seja, oficialmente não trabalham porque não têm onde deixar os filhos nem transportes públicos assegurados.

O que hoje está na rua não é portanto uma greve geral. É sim uma greve a que adere uma parte significativa dos trabalhadores cujos ordenados são pagos directa ou indirectamente com dinheiros públicos. Por outro lado esta greve não é propriamente uma greve. Uma greve é uma interrupção do trabalho decidida pelos trabalhadores que através desse procedimento esperam pressionar as entidades patronais de modo a que estas satisfaçam as suas reivindicações. Neste caso isso não só não acontece como não é possível. Para que os grevistas vissem satisfeito o seu caderno reivindicativo os contribuintes, e dentro destes o sector privado que é o que gera a riqueza indispensável ao sustento do sector público, teriam de pagar ainda mais impostos. Ora Portugal atingiu o limite do esforço fiscal.

Pode, é certo, aumentar-se o combate à evasão fiscal, agitar-se o espantalho das grandes fortunas e fazer-se da fiscalidade uma recriação do velho Oeste onde vale tudo para cobrar impostos - e neste momento o simples planeamento fiscal ou seja o, dentro da legalidade, procurar pagar o menos possível está quase criminalizado - mas mesmo assim não há dinheiro que chegue. Por isso esta greve que não é geral também não é uma greve no sentido em que não se espera que gere resultados além da paralisação em si mesma. Na verdade também não foram exactamente greves o que aconteceu recentemente em França e Espanha, onde os sindicalistas impuseram paralisações e fizeram bloqueios de modo a que os outros não pudessem trabalhar ou sequer deslocar-se. O resultado foi desastroso para os sindicatos, cujos piquetes pareciam umas milícias fundamentalistas e levaram muitos cidadãos a questionar-se sobre o modus operandi dos sindicatos. Em Portugal o que tivemos de mais parecido com isso foi o bloqueio da Ponte 25 de Abril em 1994. Mas em 2010 muitos dos protagonistas desse bloqueio não só não se revêem, pelo menos enquanto o PS estiver no poder, no que então disseram e fizeram como na verdade o povo português dificilmente entenderia hoje que se desse cobertura institucional a tais comportamentos, como aconteceu em Julho de 1994 quando, durante a crise da Ponte 25 de Abril, os líderes do bloqueio foram recebidos festivamente no Palácio de Belém.

Assim, não só a greve de hoje, 24 de Novembro, não foi geral como também não foi uma greve. Tratou-se sim duma demonstração de irritação do sector Estado consigo mesmo - os estatistas que estão no Governo são tão estatistas quanto os grevistas, simplesmente já não têm mais onde ir buscar dinheiro para pagar tanto Estado. Este sistema público trava neste momento dentro de si uma espécie de lutas de classes: de um lado estão as chefias, os quadros e os boys dos partidos instalados nos seus pelouros tão difusos quanto bem pagos, com direito a carro, secretária, cartão de crédito e despesas de representação. Do outro estão aqueles que compensam os fracos vencimentos e as carreiras bloqueadas com a segurança de um emprego que acreditavam para toda a vida. Os segundos acham que tudo corre mal por causa dos abusos dos primeiros e vice-versa. Provavelmente todos têm razão. Uma boa parte desta gente ocupa a maior parte do seu tempo dito laboral a definir o que é e não é da sua competência. Uma boa parte do que fazem não tem outra utilidade que não seja a de justificar a existência dos respectivos serviços. (Um serviço público pode fechar as portas e aqueles que a ele têm de recorrer serem enviados para outro local, mas durante anos os funcionários do serviço extinto lá continuarão entregues na rotina dos ofícios e dos memorandos do serviço que só a eles serve.) Noutros casos o que fazem seria realizado muito melhor e mais barato pelo sector privado. Por fim, o que, como a justiça, é vital que o Estado faça corre de forma tão constrangedora e autista que entrou em descrédito.

Enfim o sistema Estado vive dias de irritação consigo mesmo e de perplexidade perante um sector privado que não produz o suficiente para que o sector público continue a viver como tem vivido e a crescer como tem crescido. Carvalho da Silva e João Proença não lutam, como gostam de dizer, pelos direitos dos trabalhadores. Eles lutam sim para nos impor o dever de sustentarmos o sector público e os direitos adquiridos da sua geração.

Para seu e nosso mal, a CGTP e a UGT não encontram em Portugal grandes empresas cheias de lucros milionários que suportem os encargos das suas reivindicações. Melhor dizendo, existem algumas, mas na sua maioria são aquelas que crescem sob o chapéu-de-chuva estatal. Donde à CGTP e à UGT só lhes restarem como improváveis patrões, se por patrão se entender aquele que paga o ordenado, alguns portugueses em sufoco fiscal. Lembram-se do slogan de contestação às propinas "Não pagamos"? Digamos que aquilo que estamos a viver é um imenso e silencioso "Não conseguimos pagar mais" por parte de um sector da sociedade, o privado, e por parte das gerações mais novas que, tanto no sector público como no privado, pagam aos trabalhadores mais velhos direitos adquiridos que eles próprios nunca terão. Um país com dois sistemas nunca me pareceu um sítio recomendável para se viver. Mas é esse mundo que vimos em luta pela sua sobrevivência nesta greve de 24 de Novembro de 2010. Ensaísta

Um atentado clandestino contra a Língua Portuguesa

Público, 2010-11-25
José Ribeiro e Castro ([1])

L
embra-se de ouvir o Governo defender a Língua Portuguesa e a afirmação internacional do seu estatuto? Esqueça. O Governo Sócrates acaba de desferir-lhe um rude golpe.
De modo sorrateiro, no meio do tropel do debate orçamental e da crise, o Conselho de Ministros de 28 de Outubro, aprovou um Decreto de adesão ao chamado “Acordo de Londres”, no âmbito da Convenção da Patente Europeia (Convenção de Munique).
Esta decisão, hermética para a generalidade do público, vai no sentido de fazer substituir quase integralmente o Português pelo Inglês na validação em Portugal do registo europeu de patentes, o que lesa gravemente os muito importantes interesses internacionais da Língua Portuguesa e também os legítimos interesses nacionais da propriedade industrial.
Trata-se de uma adesão claramente precipitada e, no mínimo, prematura. E, sobretudo no tempo e no modo como é feita pelo Governo, desfere uma machadada, forte e inesperada, na afirmação e promoção internacionais da Língua Portuguesa e do seu estatuto como Terceira Língua Europeia Global. Em particular, desvaloriza e reduz o Português a praticamente nada como língua científica e tecnológica, no espaço próprio do registo europeu de patentes.

A
decisão governamental vai ao arrepio de todos os esforços feitos na promoção internacional da Língua Portuguesa, contrariando os registos e os sinais da recente presidência portuguesa da CPLP. O Governo faz gato-sapato do “Plano de Acção de Brasília para a Promoção, a Difusão e a Projecção da Língua Portuguesa”, adoptado em Março e consagrado na Cimeira de Luanda em Julho, bem como do seu espírito e ambição.
Faz com que Portugal passasse a ser o único país lusófono no mundo em que uma patente poderia ser registada sem estar redigida em Português, sem que, lamentavelmente, o Governo tenha sequer procedido a consulta prévia a nível ministerial aos nossos parceiros da CPLP, a fim de proporcionar a conveniente ponderação do assunto no quadro dos interesses e politicas globais da Lusofonia.
Por outro lado, além de constituir um rude golpe na política internacional da Língua, ferindo-a precisamente na Europa e numa área particularmente sensível e relevante para a Economia e a modernidade – a área da Ciência, da Inovação e da Tecnologia –, a adesão de Portugal ao Acordo de Londres iria quebrar, no regime europeu de patentes, a paridade de regime linguístico com a vizinha Espanha e com a língua espanhola, afectando-nos muito negativamente na relação com aquele que é o mais próximo de nós e também o mais concorrencial na problemática do multilinguismo europeu.

P
ior: o Governo agiu às escondidas, talvez com má consciência. Ainda em Maio passado, o Ministério da Justiça garantiu, por escrito, ao Parlamento que, a avançar para uma adesão ao Acordo de Londres, o Governo adoptaria como instrumento normativo uma proposta de Resolução da Assembleia da República. Nada disso: avançou de decretozinho.
Procura, assim, escapar ao escrutínio público e ao debate parlamentar. Podendo promover a adesão a este acordo internacional por Resolução da Assembleia da República ou por Decreto governamental, este Governo Sócrates escolheu esta última via: discreta, enviesada e clandestina. Com o que, além de faltar à palavra dada, dá uma guinada de 180 graus face ao processo que o outro Governo Sócrates escolhera para aprovar a última revisão, em 2007, da Convenção da Patente Europeia – nessa altura, apresentou uma proposta de Resolução. Confuso? É mesmo assim.
O Governo tinha também prometido ouvir e levar em conta o parecer dos agentes oficiais de propriedade industrial, como escreveu em resposta a deputados do CDS, em Agosto e Setembro passados. Ao contrário. Não organizou qualquer consulta formal ao sector e estrangeirou-se, ignorando a opinião dos profissionais e especialistas nacionais de propriedade industrial e bem sabendo que vai contra o seu pensamento.

T
orna-se imperativo travar este Decreto e reconverter o seu caminho. Por isso mesmo, o Grupo Parlamentar do CDS deu entrada, na semana passada, de um projecto de Resolução para fazer suspender o processo de adesão ao Acordo de Londres. O que se pede?
Quatro coisas:
·         Primeira, a suspensão imediata da tramitação do Decreto governamental e a sua reformulação.
·         Segunda, a sua reconversão em proposta de Resolução, para que, usando palavras do Governo em Maio passado, a Assembleia da República possa tentar construir “um consenso alargado” e, em qualquer caso, “deliberar no sentido que melhor sirva os interesses nacionais”.
·         Terceira, que se proceda de imediato a uma consulta ministerial no âmbito da CPLP.
·         Quarta, que qualquer eventual adesão de Portugal ao Acordo de Londres seja diferida e se garanta que nunca será efectiva antes de lhe aderir uma maioria dos Estados signatários da Convenção de Munique, reguladora da Patente Europeia, incluindo necessariamente entre estes a vizinha Espanha.
Cabe agora uma quinta solicitação urgente, uma vez que as últimas notícias indicam que o Decreto já seguiu para Belém: que o Presidente da República não assine o Decreto e proporcione, assim, a imediata reorientação do processo no sentido referido.
Cavaco Silva é a última trincheira de defesa da Língua Portuguesa e do interesse nacional.



([1])  – Deputado do CDS. Presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas.