sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O novo fardo do homem, e cristão

Público, 2010-12-31 José Manuel Fernandes
É um sinal dos tempos a indiferença perante o regresso das perseguições religiosas um pouco por todo o mundo

Bernard-Henri Lévy defendeu esta semana, no El País, que "os cristãos formam hoje, à escala planetária, a comunidade perseguida de forma mais violenta e na maior impunidade". Mais: "enquanto o anti-semitismo é considerado um crime e os preconceitos anti-árabes ou anticiganos são estigmatizados, a violenta fobia anticristã que percorre o mundo não parece ter qualquer resposta".
Curiosas palavras vindas de um não-cristão, interessantes considerações proferidas por quem, em tempos, ajudou a fundar o SOS-Racismo. E singularmente coincidentes com as de Bento XVI, que, na sua mensagem a propósito do próximo Dia Mundial da Paz, também notou que "os cristãos são, actualmente, o grupo religioso que padece o maior número de perseguições devido à própria fé".
São raras as notícias sobre estas perseguições, mas isso não significa que elas não existam - apenas que não lhes é dada a importância que merecem. Parece mesmo existir uma espécie de sentimento de culpa que leva a que, ao mesmo tempo que se destacam os ataques aos crentes de outras religiões, se subvalorizam aqueles de que são vítimas os cristãos - católicos, ortodoxos, evangélicos, baptistas e por aí adiante.
Vejamos alguns exemplos recentes. Na Nigéria, o Natal foi marcado por uma série de atentados, de que resultaram 86 mortos, todos reivindicados por uma organização islamista. Em Hanói, as autoridades proibiram uma celebração protestante e a polícia carregou sobre os crentes que rezavam na rua. No Azerbaijão, foi aprovada legislação que aumenta as multas aplicáveis a todos os grupos que tenham actividade religiosa sem antes se terem registado oficialmente. No Paquistão, uma mulher cristã, Asia Bibi, foi condenada à morte por blasfémia. No Irão, foram muitos os cristãos que passaram o Natal na cadeia, alguns deles acusados de apostasia (terem trocado a fé muçulmana por outra). Pouco antes do Natal, um grupo de cristãos coptas foi morto no Egipto perto da sua igreja. Nas Filipinas, uma bomba feriu 11 pessoas durante uma missa no dia de Natal. Na cidade chinesa de Chendgu, a polícia invadiu uma igreja na véspera de Natal e levou presos 17 crentes, incluindo uma mulher grávida. Na Índia, ocorreram ataques contra comunidades cristãs conduzidos por fundamentalistas hindus. E, no Iraque, onde a intensidade do ataque às comunidades cristãs tem levado a um êxodo em massa, várias cerimónias natalícias foram canceladas após terem sido recebidas ameaças de grupos ligados à Al-Qaeda.
Bernard-Henry Levy acrescenta a estes muitos outros exemplos, incluindo a prisão de uma jovem internauta na Palestina de Mahmud Abbas, a tentativa de assassinato do arcebispo de Kartum, Gabriel Zubeir Wako, a perseguição aos cristãos evangélicos da Eritreia, ou a morte a tiro do padre Christian Bakulene na República Democrática do Congo. O terrível destino da comunidade de monges franceses que vivia num mosteiro católico na Argélia e foi assassinada por um grupo de fundamentalistas islâmicos, e que Xavier Beauvois nos conta no belíssimo filme Dos Homens e dos Deuses (ainda em exibição), está longe de ser um exemplo isolado de violência sectária.
Não faltará quem, como alerta o filósofo francês, esteja pronto a fechar os olhos perante estes crimes lembrando o antigo estatuto de religião dominante do Cristianismo. É um disparate imenso, sob todos os pontos de vista. Primeiro, porque todas as vidas humanas têm o mesmo valor, e nada nos permite diminuir a integralidade de qualquer ser humano, seja ele hindu, muçulmano, ateu ou cristão. Depois, porque se é verdade que os cristãos, como tantos outros, promoveram "guerras santas", não se pode ignorar que a emergência dos valores modernos da liberdade, da igualdade e da dignidade humana medrou em sociedades cristãs, nelas tendo ganho corpo e foros de cidadania muito antes de tal ocorrer noutras civilizações. É bom recordar, por exemplo, que na primeira república democrática moderna, os Estados Unidos, a liberdade religiosa antecedeu a liberdade política e, como justamente notou Tocqueville, a forte presença da religião na sociedade não impediu a criação de um Estado forte e separado das igrejas.
Bento XVI, que dedica precisamente a sua mensagem de 1 de Janeiro de 2011 à liberdade religiosa, nota que esta se radica "na própria dignidade da pessoa humana" e está "na origem da liberdade moral", pois se estabelece que "cada homem e cada grupo social estão moralmente obrigados, no exercício dos próprios direitos, a ter em conta os direitos alheios e os seus próprios deveres para com os outros e o bem comum", como proclamou o Concílio Vaticano II. Invocando a Declaração Universal dos Direitos do Homem, o Papa defende que excluir a religião da vida pública torna mais difícil "orientar as sociedades para princípios éticos universais" ou "estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados".
Na mira do chefe da Igreja Católica está um laicismo radical que se traduz na "hostilidade contra a religião" e numa limitação ao "papel público dos crentes na vida civil e política". É neste quadro que Bento XVI não se limita a desejar que terminem as perseguições sectárias aos cristãos na Ásia, em África ou no Médio Oriente, mas também faz votos para que "cessem no Ocidente, especialmente na Europa, a hostilidade e os preconceitos contra os cristãos pelo facto de estes pretenderem orientar a própria vida de modo coerente" com os seus valores.
Em causa não está a laicidade das instituições ou o direito de crítica, que no Ocidente é exercida com veemência sem que suscite apelos à censura por parte das igrejas cristãs (ao contrário do que sucede com os muçulmanos). Em causa está, isso sim, saber se é legítimo despedir uma enfermeira em Inglaterra porque esta insistiu em usar um crucifixo. Ou se, também em Inglaterra, é legítimo levantar um processo contra um psicólogo que distribuiu aos seus colegas de serviço um desdobrável sobre os efeitos negativos do aborto com base no argumento de que isso é "perturbador".
Entretanto, chega-nos de Espanha outro tipo de notícias perturbantes. Em Lérida, um imã radical criou uma milícia privada que anda pelas ruas a perseguir os muçulmanos que têm comportamentos não ortodoxos (na forma de vestir, por exemplo), perante a indiferença das autoridades. Enquanto isso, na província de Cádiz, um jovem muçulmano fez queixa na polícia do seu professor de Geografia por este ter falado, nas aulas, das condições em que fabricava presunto (o Ministério Público espanhol teve, neste caso, o bom senso de arquivar a queixa).
O contraste entre estas situações faz-nos regressar à ideia de que tendemos a olhar para a violência anticristã com critérios mais condescendentes ou mesmo com um espírito compreensivo. É como se entendêssemos que todos os cristãos devem carregar um novo "fardo do homem branco", sendo obrigados a penar, pelos cinco continentes, os pecados da colonização e, por isso, sendo sempre culpados de todos os males, mesmo quando estão inocentes...

Jornalista, www.twitter.com/jmf1957

31 de Dezembro - S. Silvestre

S. Silvestre I e Constantino
Doação de Constantino
(ca. séc. XIII)
Fresco
Santi Quattro Coronati
Roma

Aproveitar a crise

Aura Miguel, RR on-line 31-12-2010 8:30

Sabem qual é o nosso problema? É que não gostamos de sacrifícios. Achamos que a vida só é boa quando não há contrariedades, quando nos distraímos, quando rimos com os amigos ou fazemos aquilo que nos apetece. Mas que grande ilusão!...
Bem sabemos que não é assim, que não existe esperança, nem beleza, nem bondade, nem justiça, nem amor, nem relações verdadeiras sem sacrifício.
Assim, a terminar este ano, desejo, a todos, um óptimo 2011 sem ilusões. Um ano cheio de vida verdadeira, leal, fecunda, sincera. E, portanto, com sacrifícios. Por isso, provavelmente, a crise vai fazer-nos bem, porque terá o mérito de nos reconduzir às coisas verdadeiramente importantes da vida.
Se assim for, podemos vir a ser melhores pessoas e, até mesmo, finalmente, vir a mudar Portugal.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Falharam a vida, meninos

Público, 2010-12-30  Helena Matos
A geração de 60 será em Portugal uma das primeiras em décadas e décadas a ser sucedida por outras que viverão pior

Nas fotografias que gostam de mostrar têm o cabelo revolto e um ar de quem tem a certeza de tudo. São a chamada geração de 60, definição imprecisa mas prática por essa imprecisão que permite englobar nela muitos daqueles que foram jovens um pouco antes ou depois dessa década ícone para a geração que não só nos tem governado como também construiu o mundo imaginário onde vivemos.
Esse mundo onde público era sinónimo de justiça e gratuitidade rimava com solidariedade. Esse mundo onde governar bem equivalia a fazer cada vez mais promessas de redistribuição e onde o Estado passou a ser entendido como o grande doador. Esse mundo onde não haveria mais guerras porque tudo se resolveria pelo diálogo, esse mundo onde a corrupção era um problema dos outros, sobretudo daqueles que os tinham antecedido, porque eles eram puros.
A cada dia que passa, a cada pirueta sobre o empobrecimento de que não se deve falar porque parece mal e é populista abordar tal assunto, sobre os jornalistas que eram combativos e perseguidos quando escreviam sobre os conluios do poder doutros tempos e que agora passaram a ignorantes quando não a canalhas caso escrevam sobre as negociatas do poder de agora, sobre a emigração que outrora confirmava sermos um país sem esperança e que agora não interessa nada, sobre os tribunais cuja independência foi uma reivindicação até que eles temeram sentar-se no banco dos réus... pois a cada dia desses apetece-me mandá-los ler esse fabuloso final d"Os Maias donde foi retirado e adaptado o título desta crónica. Aliás, talvez sejam a última geração por largas décadas que em Portugal tem gosto literário que lhe permite ler Eça, pois as gerações seguintes, tendo frequentado aquilo a que a geração de 60 chamou escola inclusiva, multicultural, progressiva... etc. ... etc., terão grandes dificuldades em ler algo que não lhes seja apresentado como muito fácil, muito giro e muito moderno. O que é sinónimo de não ler nada que valha a pena.
Na verdade talvez não seja necessário recorrer a Eça. Talvez baste imaginar aqueles questionários que, tal como acontece com o da Pública, perguntam aos escolhidos com que idade tomaram consciência de que tinham falhado na vida. Contudo creio que a geração de 60 nunca admitirá que falhou. Está-lhes na génese culpar os outros por tudo o que acontece: primeiro culparam os pais porque tinham perpetuado um modelo de família que achavam caduco e baseado na mentira. E quando eles mesmos amaram, odiaram, traíram e fizeram compromissos, como acontece a todo o Sapiens sapiens desde que o mundo é mundo, culparam o pai e sobretudo a mãe porque muitos anos antes não lhes tinham dito as palavras que eles achavam certas. Depois culparam o sistema das guerras e o capitalismo da pobreza. Enfim, no quotidiano, fosse ele o sexo ou a economia, havia sempre uma culpa que tudo explicava. Quanto ao mundo, havia essa culpa original do homem branco que estava sempre por trás dos massacres e das fomes. E ela, a tal geração de 60, assumiu-se como a apontadora de culpas.
Quando chegou a sua vez de serem poder viveram da culpa anos a fio, o que em Portugal nem sequer era difícil dado o carácter ditatorial do Estado Novo. Se lhes fosse possível teriam mantido Salazar empalhado para fazer dele um eterno bode expiatório. Na impossibilidade de tal acontecer levaram anos a descobrir salazares atrás de políticos ou propostas que não se acomodassem à sua forma de ver o mundo.
Talvez o primeiro momento em que a geração de 60 finalmente se sentiu adulta em Portugal tenha ocorrido quando constatou que a culpabilização do Estado Novo já não chegava para explicar o presente. Esse presente em que não há dinheiro para pagar as reformas que eles tinham garantido e que só por maldade não eram maiores e constantemente actualizadas. Esse presente em que os portugueses sustentam dois serviços de saúde, o dos seguros, à cautela, e o do Serviço Nacional de Saúde, o tal que tinha de ser universal e gratuito porque foi assim que esta geração o imaginou, primeiro no arrebatamento das greves académicas e depois na solenidade das reuniões maçónicas e que como bem se sabia não só não é gratuito como arranja agora estratagemas para excluir aqueles que já não chegaram a tempo. Esse presente em que a legislação sobre o emprego transformou os mais jovens em eternos tarefeiros a recibo verde. Esse presente em que ter bons resultados quer dizer que arranjámos quem compre um bocadinho da nossa dívida.
Quando a realidade se lhes impôs buscaram novos culpados que acrescentaram aos antigos: os culpados tanto podiam ser os grandes capitalistas como, no dia seguinte, os empresários de vão de escada. Os mercados cegos ou os investidores sem gosto pelo risco. A ânsia do lucro ou o atavismo da mediocridade do qb. A defesa da competitividade ou o egoísmo a sobrepor-se ao igualitarismo. A falta de Europa ou o excesso dela. As decisões da senhora Merkel ou as indecisões da senhora Merkel.
Os bancos que se endividaram para emprestar dinheiro a quem não podia pagar tais créditos sem avaliar os riscos dessas operações e os bancos que não querem correr o risco de nos emprestar dinheiro. Os pessimistas que influenciam negativamente as agências de rating sobre Portugal e as agências de rating que não se deixam influenciar pelos optimistas.
Todos os dias, semanas, meses e anos nos apontaram novos culpados. Aos culpados de sempre somaram ameaças globais - como as alterações de clima, a gripe A ou a escassez dos alimentos - e promoveram cruzadas que procuraram fazer de cada um de nós um convertido aos seus novos dogmas e que tanto abarcam aquilo a que chamam questões de género como o sal que se põe no pão.
No fim, acabámos cansados. Estourados de apontar tanta culpa alheia e perplexos perante o caos que entretanto se instalara à nossa volta. Tudo o que nos prometeram está agora em causa. E como é óbvio já o sabiam há muito tempo.
A geração de 60 será em Portugal uma das primeiras em décadas e décadas a ser sucedida por outras que viverão pior. O ano que agora acaba é aquele em que se tornou óbvio que falharam a vida, meninos. O que nos espera de agora em diante é constatar que para lá desse falhanço também lixaram a vida daqueles que vieram depois.
Ensaísta

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

29 de Dezembro - S. Tomás Becket

Excerpto do filme Becket (1964) realizado por Peter Glenville, com Richard Burton and Peter O'Toole (ficha)

Igreja do Sacramento recebe prémio Vilalva 2010

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Este ano o prémio foi para esta instituição intitulada Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja da mesma Soberana Invocação da Cidade de Lisboa, que assumiu o restauro dos tectos da nave e do presbitério, dos vãos dos janelões das paredes laterais da nave, das nove telas do presbitério e do batistério da igreja.
Com uma construção que data do século XVI, a igreja do Santíssimo Sacramento foi a única igreja reconstruída após o terramoto de 1755 que manteve a sua estrutura anterior.
O galardão é oferecido anualmente pela fundação Calouste Gulbenkian a um projeto selecionado entre vários a concurso, que representem importantes contributos para a defesa do património histórico nacional.
O prémio, no valor de 50 mil euros, será entregue à Irmandade do Santíssimo Sacramento numa cerimónia a 10 de janeiro na igreja do Sacramento em Lisboa.

A Irlanda e o aborto

Público, 2010-12-28 Pedro Vaz Patto
A lei irlandesa continuará a exercer algum efeito de contenção. Não será algum tribunal europeu a impedi-la de o fazer

Muitas das notícias sobre a recente sentença do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem a respeito da legislação irlandesa sobre o aborto dão a entender que esse tribunal condenou a Irlanda por causa dessa legislação e da proibição, que dela decorre, do aborto em todas as circunstâncias excepto em caso de perigo para a vida da mulher. Daí poderia concluir-se que a Convenção Europeia dos Direitos Humanos consagra o direito ao aborto e impõe uma alteração dessa legislação, tão restritiva e contrária à da quase totalidade dos países membros do Conselho da Europa.

Mas não foi esse, claramente, o sentido da decisão do Tribunal de Estrasburgo, pelo que um esclarecimento se impõe.

A pretensão das recorrentes neste caso (A. B. e C. contra Irlanda) era essa, na verdade: que o tribunal declarasse a proibição do aborto contrária ao artigo 8.º dessa convenção, que consagra o direito ao respeito pela vida privada, protegendo a autonomia individual face à ingerência dos poderes públicos. O aborto livre seria um corolário do direito de privacy, na linha da jurisprudência constitucional norte-americana a partir do caso Roe v. Wade, que deu origem à completa liberalização do aborto nos Estados Unidos. Por isso, já desde há muito que os partidários dessa liberalização colocavam grandes esperanças no desfecho deste processo, onde intervinham, como "partes terceiras" (amicus cu- riae), conhecidas organizações pró-escolha.Ora, o tribunal veio negar tal pretensão das recorrentes, afirmando, inequivocamente, que do referido artigo 8.º não decorre qualquer direito ao aborto livre. E é assim porque a questão do aborto não diz respeito apenas à mulher e à sua liberdade, como se mais nenhum direito ou interesse de outrem nessa questão devesse ser considerado. Pelo contrário, a liberdade da mulher está, neste âmbito, de acordo com a sentença, estreitamente ligada à vida do feto, devendo a tutela dessa liberdade ser sopesada com a da tutela dessa vida. Neste quadro, a legislação irlandesa de proibição generalizada do aborto cabe dentro da margem de apreciação das legislações nacionais relativa à conjugação entre esses vários direitos em jogo e corresponde à particular sensibilidade moral e ética das questões envolvidas e aos interesses públicos em causa. O facto de a esmagadora maioria dos estados membros do Conselho da Europa ter legalizado o aborto em termos acentuadamente permissivos não é obstáculo a essa interpretação, nem impõe uma interpretação evolutiva ou actualista desse artigo 8.º.

Por esse motivo, foi negada a pretensão de duas das recorrentes, que se queixavam por lhes ter sido negada a possibilidade de abortar em situações que não configuravam algum risco de vida, embora pudessem caber no âmbito das chamadas "razões sociais". Em relação à recorrente que pretendia abortar por entender que a gravidez impediria o tratamento do cancro de que padecia, o tribunal condenou a Irlanda, não por causa da proibição do aborto em si, mas porque o quadro legal não permitirá acertar com segurança se em casos como esse o aborto seria, ou não, permitido por estar em risco a vida da mulher (facto negado pelo Governo irlandês).

Só os juízes que formularam votos de vencido (seis, contra onze que votaram favoravelmente a decisão) sustentaram a tese de que o direito à liberdade da mulher prevalece sempre sobre o direito à vida do nascituro, distinguindo os direitos das pessoas que "participam activamente na interacção social" e os de quem não tem ainda essa capacidade.

As organizações pró-vida que pugnam pela legislação restritiva irlandesa e que também se empenharam neste processo intervindo como amicus curiae, congratularam-se com este desfecho, que, contra o que se pretendia, não põe em causa, no essencial, a legislação irlandesa ou qualquer legislação europeia que ilegalize o aborto.

É sabido que muitas mulheres irlandesas se deslocam ao Reino Unido para abortar. Os números mais recentes apontam para cerca de cinco mil por ano. Um número, em todo o caso, proporcionalmente inferior ao das mulheres britânicas que legalmente abortam anualmente (mais de um quarto do número de nascimentos) e também das portuguesas (cerca de um quinto do número de nascimentos). A lei irlandesa continuará, pois, a exercer algum efeito de contenção, salvando algumas vidas. Não será algum tribunal europeu a impedi-la de o fazer. Juiz

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Aborto: Hora de reabrir a discussão

Raquel Abecasis, RR on-line,  27-12-2010 09:11

Os últimos dados estatísticos provam aquilo que para muitos era óbvio, antes de se alterar a legislação: três anos depois da despenalização do aborto em Portugal, o número de abortos está a crescer de forma assustadora.
Este ano, foram feitos, em média, 53 abortos por dia.
Na análise a estes números, o director de obstetrícia do Hospital de Santa Maria lamenta que as mulheres não tenham compreendido a lei e que não haja mais medidas de prevenção da gravidez.
A realidade é de tal modo assustadora, com os especialistas e defensores da lei a reconhecerem que a prática do aborto é hoje um método anti-concepcional, que só por si deveria levar os responsáveis a reconhecer o erro das teses que defenderam em 2007.
Diante de uma tragédia destas dimensões, o pior que se pode fazer é persistir no erro. Três anos depois, está na altura de se reabrir uma discussão que nunca foi feita de forma honesta. Os que em 2007 defenderam com tanto calor os direitos das mulheres não podem agora ficar calados diante das estatísticas que, em 2010, são reais, ao contrário dos números ilusórios que se debateram há três anos.

28 de Dezembro - Santos Inocentes

O Massacre dos Inocentes
Giotto 
(1304-1306)
Fresco
Capella degli Scrovegni
Padua, Itália

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O rancor sai caro

Público, 2010-12-27  Miguel Esteves Cardoso

Ontem vi Wishful Drinking, o documentário da HBO que nos mostra Carrie Fisher como comediante stand-up, baseando-se no livro dela com o mesmo nome.
Em Hollywood ninguém sabe rir da desgraça própria como Carrie Fisher - apesar de não haver muita concorrência. Vê-la e ouvi-la tem tanta graça como lê-la, até porque todo o monólogo foi escrito até à perfeição. Recomendo Wishful Drinking a toda a gente mas, sobretudo, àqueles que vagamente se lembram dela como a Princesa Leia do primeiro Star Wars.
No fim do espectáculo, Carrie Fisher interrompe a comédia para partilhar o que ela diz ser as únicas duas coisas que aprendeu na vida. A segunda - que uma mosca tanto pode pousar num cagalhão como num bolo - parece mais um encolher de ombros perante a aleatoridade da vida do que uma pérola de sabedoria.
Mas a primeira, que tem muito peso numa vida tão azarada como a dela, é verdadeira e está bem apalavrada: "Guardar rancor a alguém é como tomar veneno e ficar à espera que a outra pessoa caia morta". É verdade. Uma pessoa, passado muito tempo, quando se dá conta do tempo que perdeu a não perdoar e a querer mal a quem nos fez uma, arrepende-se de ter tido tanto ressentimento.
Nós tomamos o veneno do azedume e da vontade da vingança, que nos enferruja a alma, enquanto a pessoa que amaldiçoamos dança e sofre pela vida como lhe calhou dançar e sofrer, indiferente ao nosso rancor. Se calhar, afinal, é a tal mosca que tudo decide. Uma vez de cada vez.

Oportunidade histórica

DN2010-12-27 JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Os homens crescem mais nas tormentas que na bonança. Por isso vivemos hoje uma ímpar oportunidade histórica: podemos finalmente dar o salto que falta para nos confirmar no ritmo do futuro.
Depois de ser líder cultural no Renascimento, lançando e conduzindo a gesta da globalização marítima, o pequeno Portugal deu-se mal na época civilizacional seguinte. Não foi por os ideais iluministas terem chegado tarde ou demorado a estabelecer-se. A penetração começou em meados de setecentos com o marquês de Pombal e, após dura guerra civil, estavam definitiva e triunfantemente implantados a partir de 1834. A maioria dos países europeus sofreu um reaccionarismo mais longo, demorando a adquirir estavelmente um regime aberto.
Ao contrário do que se diz, o problema nunca esteve no atraso da modernização. Aliás, o País antecipou várias ideias que a Europa viria a aplicar, como a abolição da pena de morte ou a criação do banco central. O mal sempre foi a qualidade dos nossos modernistas. A podridão do Liberalismo e a canalhice da República mostram bem o fiasco da variante lusitana de progresso. O mais irónico é que os nossos intelectuais costumam desprezar o povo e a cultura nacional, quando o único grande defeito do País está na mediocridade das elites.
A inversão desse fiasco deu-se porque comparativamente os fascistas portugueses foram melhores que as alternativas. Ao contrário dos outros regimes autoritários europeus (e das tentativas democráticas nacionais), o resultado do salazarismo foi um país seguro, estável e progressivo. Assim, a revolução de 1974 pode trazer a grande oportunidade para Portugal, finalmente, conseguir um regime aberto, pacífico, dinâmico.
E correu muito bem! O nosso país ocupou enfim uma posição digna e respeitável junto das nações avançadas. Mas, após vinte anos de sucesso, surgiu há quinze a terrível tentação da facilidade. A Europa afinal não era um desafio, uma concorrência, mas um hipermercado que fornecia fartura em doze suaves prestações mensais. A sociedade pensou que a prosperidade estava em promoção. Promessas, direitos adquiridos, justas reivindicações, garantias, exigências e obras públicas faziam o País acreditar que o bem-estar era rápido e barato. A dívida crescente foi o truque que suportou a ilusão.
Hoje somos um país europeu, livre e desenvolvido, que enfrenta o último desafio, dominar a tentação oportunista. Se aprendermos que o sucesso nunca está adquirido e exige sempre esforço, seriedade e criatividade, ultrapassaremos o obstáculo e chegaremos ao grupo de países na frente do progresso. Nas últimas décadas aprendemos tanto e conquistámos posições. Falta apenas dominar a última falácia para chegar ao destino. Vencendo a ilusão, atingiremos enfim a condição de país próspero. Os próximos anos determinarão se conseguimos ou não.
O obstáculo não são só os suspeitos do costume, corrupção dos políticos, defeitos da administração, educação, justiça e cultura. O obstáculo está também nos que bramam contra os suspeitos do costume. O inimigo que temos de vencer são as raivas, os insultos, as lamúrias, os resmungos e as imprecações ociosas. É preciso deixar-nos de tretas, apertar o cinto, trabalhar mais e melhor. Cada um no seu sítio tem de procurar a solução para a migalha da crise que lhe compete, sem desculpas, zangas ou teorias. Simplesmente subir ao nível europeu a pulso, carregando às costas a mochila dos disparates recentes. No cimo do penhasco está a modernidade. A distância já não é longa.
Temos a democracia e a economia. Precisamos apenas de realismo, serenidade, imaginação. Há que vencer as fraudes e boçalidade dos dirigentes, mas também os extremismos e insultos dos que desconfiam dos dirigentes. Tal como a mentira da facilidade que levou à crise foi a mesma que apodreceu o império em meados do século XVI, também o inimigo actual é a mesma tolice intelectual que paralisou o liberalismo de oitocentos. A nossa geração tem à vista a realidade de um novo Portugal, moderado, inteligente, capaz. Esse pode vencer a crise.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 26 de dezembro de 2010

O fato usado do presidente

Zita Seabra, DN 2010-12-26
Três dias antes do Natal, assistia calmamente ao Telejornal da RTP1 quando vi a grande notícia da noite. Entre os atentados em Bagdade e as agências de rating, uma voz off anuncia o que as câmaras filmam: o presidente da maior empresa pública portuguesa a levar dois saquinhos de papel com roupa usada e um brinquedinho (usado) para uns caixotes de cartão, cheios de coisas usadas para oferecer no Natal. Fiquei comovida. Que imagem de boa pessoa, que gesto bonito: pegar num fatinho usado do seu guarda-vestidos que deve ter uns 200 e num pequeno brinquedo de peluche, e depositar tudo no caixote de cartão para posteriormente ser redistribuído? À administração da empresa? Não, a notícia explica que é para oferecer aos pobrezinhos, que estão a aumentar com a crise. A RTP, Telejornal à hora nobre, filma o comovente gesto. Em off, o locutor explica o sentido dizendo que alguém vai ter no sapatinho um fato de marca. Olhando para os sacos de papel, percebe-se que esse alguém também receberá umas meias usadas e talvez mesmo uma camisa de marca usada.
Primeiro, pensei que estava a dormir e um pesadelo me fizera voltar ao tempo de Salazar, à RTP a preto e branco ou à série da Rita Blanco «Conta-me como foi».
Mas não, eu estava acordada e a ver o presidente da EDP no Telejornal da RTP 1 (podem ver o filme na net) posar sorridente para as câmaras, a levar um saquinho a um caixote, que não era de lixo, mas de oferta. Por acaso, estava à porta da EDP a RTP a filmar o gesto. Iam a passar e filmaram, certamente, porque para os pobres os fatos em segunda mão de marca assentam como uma luva. Um velhinho num lar de Vila Real vestido Rosa & Teixeira sempre é outra coisa. Ou o homeless na sopa dos pobres com Boss faz outra figura, ou o desempregado com Armani numa entrevista do fundo de desemprego... Mentalidade herdada do Estado Novo, foi a minha primeira análise, teorizando imediatamente que os ricos em Portugal, os que recebem prémios de milhões em empresas públicas e ordenados escandalosos e que puseram o mundo e o país como se vê, são os mesmos com a mesma mentalidade salazarenta. Mas nem é verdade, pois, mesmo nesse tempo, as senhoras do regime organizavam enxovais novos nas aulas de lavores do meu liceu para dar no Natal aos pobres que iam nascer.
Tantos assessores de imprensa na EDP, tantos assessores na Fundação EDP, milhões de euros gastos em geniais campanhas de marketing, tantas cabeças inteligentes diariamente pagas para vender a imagem do presidente da EDP, tudo pago a preço de ouro, e não concebem nada melhor do que mandar (!?) filmar, no espaço do Telejornal mais importante do país, um gesto indigno, triste, lamentável, que envergonha quem vê. Não têm vergonha? Não coraram? E a RTP que critérios usa no Telejornal para incluir uma notícia?
Há uns meses escrevi ao presidente da EDP e telefonei-lhe mesmo, a pedir ajuda da empresa para reparar a velha instalação eléctrica, gasta pelo uso e pelo tempo, de uma instituição, onde vivem 40 adultas cegas e com deficiências e que têm um dos mais ricos patrimónios culturais do país. A instituição recebeu meses depois a resposta: a Fundação EDP esclarecia que esse pedido não se enquadrava nas suas atribuições. Agora percebi. Pedia-se fios eléctricos, quadros eléctricos novos e lâmpadas novas. Devia-se ter escrito ao senhor presidente da maior empresa (pública) portuguesa, com os maiores prémios de desempenho, cujo vencimento é superior ao do presidente dos Estados Unidos, para que oferecesse uma lâmpada em segunda mão, que ainda acendesse e desse alguma luz. Talvez assim mandasse um dos seus motoristas, com um dos geniais assessores de imprensa e um dos fantásticos directores de marketing, avisar a RTP (a quem pagamos uma taxa na factura da luz) para virem filmar a entrega da lâmpada num saquinho de papel.
2011 anuncia-se um ano duro para os portugueses e sê-lo-á tanto mais quanto os responsáveis pelo estado a que se chegou não saírem da nossa frente.

Mensagem Urbi et Orbi de Sua Santidade Bento XVI

Santo Natal, 25 de Dezembro de 2010    

«Verbum caro factum est – o Verbo fez-Se carne» (Jo 1, 14).
Queridos irmãos e irmãs, que me ouvis em Roma e no mundo inteiro, é com alegria que vos anuncio a mensagem do Natal: Deus fez-Se homem, veio habitar no meio de nós. Deus não está longe: está perto, mais ainda, é o «Emanuel», Deus-connosco. Não é um desconhecido: tem um rosto, o rosto de Jesus.
Trata-se de uma mensagem sempre nova, que não cessa de surpreender, porque ultrapassa a nossa esperança mais ousada. Sobretudo porque não se trata apenas de um anúncio: é um acontecimento, um facto sucedido, que testemunhas credíveis viram, ouviram, tocaram na Pessoa de Jesus de Nazaré! Permanecendo com Ele, observando os seus actos e escutando as suas palavras, reconheceram em Jesus o Messias; e, ao vê-Lo ressuscitado, depois que fora crucificado, tiveram a certeza de que Ele, verdadeiro homem, era simultaneamente verdadeiro Deus, o Filho unigénito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (cf. Jo 1, 14).
 «O Verbo fez-Se carne». Fitando esta revelação, ressurge uma vez mais em nós a pergunta: Como é possível? O Verbo e a carne são realidades opostas entre si; como pode a Palavra eterna e omnipotente tornar-se um homem frágil e mortal? Só há uma resposta possível: o Amor. Quem ama quer partilhar com o amado, quer estar-lhe unido, e a Sagrada Escritura apresenta-nos precisamente a grande história do amor de Deus pelo seu povo, com o ponto culminante em Jesus Cristo.
Na realidade, Deus não muda: mantém-se fiel a Si mesmo. Aquele que criou o mundo é o mesmo que chamou Abraão e revelou o seu próprio Nome a Moisés: Eu sou Aquele que sou… o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob… Deus misericordioso e compassivo, cheio de amor e fidelidade (cf. Ex 3, 14-15; 34, 6). Deus não muda: Ele é Amor, desde sempre e para sempre. Em Si mesmo, é Comunhão, Unidade na Trindade, e cada obra e palavra sua tem em vista a comunhão. A encarnação é o ápice da criação. Quando no ventre de Maria, pela vontade do Pai e a acção do Espírito Santo, se formou Jesus, Filho de Deus feito homem, a criação atingiu o seu vértice. O princípio ordenador do universo, o Logos, começava a existir no mundo, num tempo e num espaço.
«O Verbo fez-Se carne». A luz desta verdade manifesta-se a quem a acolhe com fé, porque é um mistério de amor. Somente aqueles que se abrem ao amor, são envolvidos pela luz do Natal. Assim sucedeu na noite de Belém, e assim é hoje também. A encarnação do Filho de Deus é um acontecimento que se deu na história, mas ao mesmo tempo ultrapassa-a. Na noite do mundo, acende-se uma luz nova, que se deixa ver pelos olhos simples da fé, pelo coração manso e humilde de quem espera o Salvador. Se a verdade fosse apenas uma fórmula matemática, em certo sentido impor-se-ia por si mesma. Mas, se a Verdade é Amor, requer a fé, o «sim» do nosso coração.
E que procura, efectivamente, o nosso coração, senão uma Verdade que seja Amor? Procura-a a criança, com as suas perguntas tão desarmantes e estimuladoras; procura-a o jovem, necessitado de encontrar o sentido profundo da sua própria vida; procuram-na o homem e a mulher na sua maturidade, para orientar e sustentar os compromissos na família e no trabalho; procura-a a pessoa idosa, para levar a cumprimento a existência terrena.
«O Verbo fez-Se carne». O anúncio do Natal é luz também para os povos, para o caminho colectivo da humanidade. O «Emanuel», Deus-connosco, veio como Rei de justiça e de paz. O seu Reino – bem o sabemos – não é deste mundo, e todavia é mais importante do que todos os reinos deste mundo. É como o fermento da humanidade: se faltasse, definhava a força que faz avançar o verdadeiro progresso, o impulso para colaborar no bem comum, para o serviço desinteressado do próximo, para a luta pacífica pela justiça. Acreditar em Deus que quis compartilhar a nossa história, é um constante encorajamento a comprometer-se com ela, inclusive no meio das suas contradições; é motivo de esperança para todos aqueles cuja dignidade é ofendida e violada, porque Aquele que nasceu em Belém veio para libertar o homem da raiz de toda a escravidão.
A luz do Natal resplandeça novamente naquela Terra onde Jesus nasceu, e inspire Israelitas e Palestinianos na busca duma convivência justa e pacífica. O anúncio consolador da vinda do Emanuel mitigue o sofrimento e console nas suas provas as queridas comunidades cristãs do Iraque e de todo o Médio Oriente, dando-lhes conforto e esperança no futuro e animando os Responsáveis das nações a uma efectiva solidariedade para com elas. O mesmo suceda também em favor daqueles que, no Haiti, ainda sofrem com as consequências do terramoto devastador e com a recente epidemia de cólera. Igualmente não sejam esquecidos aqueles que, na Colômbia e na Venezuela mas também na Guatemala e na Costa Rica, sofreram recentemente calamidades naturais.
O nascimento do Salvador abra perspectivas de paz duradoura e de progresso autêntico para as populações da Somália, do Darfour e da Costa do Marfim; promova a estabilidade política e social em Madagáscar; leve segurança e respeito dos direitos humanos ao Afeganistão e Paquistão; encoraje o diálogo entre a Nicarágua e a Costa Rica; favoreça a reconciliação na Península Coreana.
A celebração do nascimento do Redentor reforce o espírito de fé, de paciência e de coragem nos fiéis da Igreja na China continental, para que não desanimem com as limitações à sua liberdade de religião e de consciência e, perseverando na fidelidade a Cristo e à sua Igreja, mantenham viva a chama da esperança. O amor do «Deus-connosco» dê perseverança a todas as comunidades cristãs que sofrem discriminação e perseguição, e inspire os líderes políticos e religiosos a empenharem-se pelo respeito pleno da liberdade religiosa de todos.
Queridos irmãos e irmãs, «o Verbo fez-Se carne», veio habitar no meio de nós, é o Emanuel, o Deus que Se aproximou de nós. Contemplemos, juntos, este grande mistério de amor; deixemos o coração iluminar-se com a luz que brilha na gruta de Belém! Boas-festas de Natal para todos!
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Beleza e luz

Aura Miguel, RR on-line 24-12-2010 11:11

No meio da correria e actividade frenética que antecedem o Natal, queixamo-nos de o essencial passar ao lado. Mas como, habitualmente, Deus costuma andar longe da nossa vida - e da nossa acção - fica tudo reduzido à canseira das compras, à troca de presentes e aos excessos gastronómicos.
Tudo embrulhado em papel vistoso – claro - e típicas iluminações natalícias, de preferência, inócuas sem qualquer referência ao nascimento de Cristo.
Pois no Iraque é o oposto: não há iluminações nem decorações natalícias, nem sequer nas igrejas. E não haverá Missa do Galo em nenhuma igreja cristã de Bagdad, Mossul e Kirkuk. Esta noite, os cristãos que, corajosamente, ainda lá vivem, fecham-se em suas casas para celebrar o acontecimento decisivo que põe as suas vidas em risco: o nascimento do Salvador.
Com que emoção os nossos irmãos do Iraque acolherão esta noite o Deus menino que vem ao nosso encontro!... Ele que é a verdadeira beleza e a verdadeira luz e quer partilhar a nossa condição humana, em pobreza e simplicidade.
O presépio é disso que fala. Peçamos, pois, também para nós, aqui em Portugal, um coração disponível para acolher o amor infinito que vem ao nosso encontro.

O prodígio que todos esperamos

Julián Carrón, Osservatore Romano, 2010-12-23
“Toda a minha vida foi também atravessada pelo sentimento de que o cristianismo traz alegria, dá dimensão.
Por fim, também seria impossível suportar a vida como alguém que é sempre do contra.” (Luz do Mundo, p. 21). Estas palavras de Bento XVI lançam-nos um desafio: o que significa ser cristãos hoje? Continuar a crer simplesmente por tradição, devoção ou costume, fechando-se na própria concha, não está à altura do desafio. Da mesma forma, reagir com força e ir contra para recuperar o terreno perdido é insuficiente. O Papa chega a dizer que é “insuportável”. Um e outro caminho – retirar-se do mundo ou ser do contra – não são capazes, no fundo, de suscitar interesse pelo cristianismo, porque nenhum dos dois respeita aquilo que sempre será o cânone do anúncio cristão: o Evangelho.
Jesus colocou-se no mundo com uma capacidade de atracção que fascinou os homens do seu tempo. Como diz Péguy. “Ele não perdeu os seus anos gemendo e interpelando a maldade dos tempos. Ele cortou a direito... Fazendo o cristianismo”. Cristo introduziu na história uma presença humana tão fascinante que quem que se deparava com ela tinha de levá-la em consideração. Para recusá-la ou aceitá-la. A ninguém deixou indiferente.
Hoje estamos todos diante de uma “crise do humano”, que se atesta como cansaço e desinteresse pela realidade e que envolve todos os âmbitos que dizem respeito à vida das pessoas. É uma desgraça para todos, com efeito, que as pessoas não se ponham em jogo com a sua razão e a sua liberdade. E exatamente neste momento a Igreja tem diante de si uma aventura fascinante, a mesma das origens: testemunhar que existe algo capaz de despertar e suscitar um interesse verdadeiro. “Também o meu coração espera,/para a luz olhando e para a vida,/outro prodígio da primavera”. Todos nós, como o poeta Antonio Machado, esperamos o milagre da primavera no qual ver realizar-se a nossa vida. E se alguém disser, ainda com o poeta, que é um sonho, por que o esperamos?
Porque essa espera nos constitui no íntimo, como escreve Bento XVI: “Vimos como o homem anseia por uma alegria infinita, deseja o prazer até ao extremo, quer o infinito.”
(Luz do Mundo, p. 68). Mas o homem pode decair, o mundo pode procurar arrancar esse desejo do infinito minimizando-o; pode até zombar dele oferecendo algo que atrai por certo tempo, mas que não dura, e no fim nos deixa só mais insatisfeitos e mais cépticos.
Ora, a prova da veracidade daquilo que fascina e desperta um interesse é que deve durar.
Mas mesmo as coisas mais bonitas – vê-se isso quando se ama uma pessoa ou quando se inicia um novo trabalho – acabam. O problema da vida, então, é se existe alguma coisa que dure.
O cristianismo tem a pretensão – porque a sua origem não é humana, embora possa ser vista nos rostos dos homens que o encontraram – de ser portador da única resposta capaz de durar no tempo e na eternidade. Porém, um cristianismo reduzido não é capaz de oferecer isso. Sabemos por experiência que existe um modo abstracto de falar da fé que não suscita a mínima curiosidade. Se o cristianismo não for respeitado na sua natureza, tal como se apresentou na história, não poderá lançar raízes no coração. O cristianismo é sempre colocado à prova perante o desejo do coração, e não se pode libertar disso: foi o próprio Cristo que se submeteu a esta prova. O aspecto fascinante é que Deus, despojando-se do Seu poder, fez-se homem para respeitar a dignidade e a liberdade de cada um. Encarnando, é como se tivesse dito ao homem: “Observa um pouco se, vivendo em contacto comigo, encontras algo interessante que torne a tua vida mais plena, maior, mais feliz. Aquilo que não és capaz de obter com teus esforços,
podes obter se me seguires”. Foi assim desde o início. Quando os dois primeiros discípulos perguntam: “Onde moras?”, Ele responde: “ Vinde e vede”. A sua simplicidade é desarmante. Deus confia-se ao juízo dos primeiros dois que O encontram.
O homem não pode evitar confrontar continuamente aquilo que acontece com as suas exigências fundamentais.
Qualquer um poderia argumentar que no tempo de Jesus viam-se os milagres, mas que hoje já não é tempo de prodígios. Não é assim, pois essa experiência continua a ter lugar, como no primeiro dia: quando encontras pessoas que despertam em ti um interesse e uma atracção tais que te obrigam a fazer contas com o que te aconteceu. Como disse o Papa, “Deus não Se impõe, [...] A sua presença é um encontro que chega ao que há de mais íntimo e profundo no homem,” (Luz do Mundo, p. 166-167).
Há alguns anos um amigo meu foi estudar árabe no Cairo. Conheceu um professor muçulmano. O encontro podia ter-se desenvolvido conforme os estereótipos de um e de outro. Mas aconteceu algo inesperado: eles ficaram amigos. O muçulmano perguntou ao meu amigo por que era cristão, e este convidou-o para vir à Itália, onde conheceu o Meeting de Rímini. Arrastado pelo encontro com uma realidade humana diversa, quis realizar o Meeting do Cairo, envolvendo muitos jovens egípcios, muçulmanos e cristãos.
Recentemente, em Moscovo, conheci pessoas que até há pouco tempo nada tinham a ver com a fé. Descobriram-na encontrando cristãos que despertaram nelas a curiosidade.
Algumas eram batizadas na Igreja ortodoxa e interessaram-se pelo cristianismo – coisa que nunca tinham feito antes – graças a amigos que o viviam com intensidade e plenitude.
Não são histórias do passado, mas algo que acontece agora, no presente.
Na sua recente visita à Espanha, Bento XVI convidou a um diálogo entre laicidade e fé.
E como fez isso? Indicando uma presença, uma testemunha, Gaudí, que com a Sagrada Família “foi capaz de criar [...] um espaço de beleza, de fé e de esperança, que leva o homem ao encontro com Aquele que é a Verdade e a própria Beleza”. O Papa desafiou a todos tornando contemporâneo o olhar de Cristo e indicando a experiência nova que Ele introduz na vida: qualquer um pode interessar-se por ela ou rejeitá-la. Quando Bento XVI nos chama à conversão está dizendo-nos que, para dar testemunho de Cristo, para sermos “transparência de Cristo para o mundo”, precisamos de percorrer um caminho até descobrir a pertinência da fé com as exigências da nossa vida. Não sei se algum católico pode sentir-se excluído do chamamento do Papa. Eu não.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Natal na Luz

1. Frei João P. de passo estugado, naquela noite de 24 de Dezembro, sob uma chuva torrencial batida por forte ventania, fazia por chegar a horas ao “Despertar do Menino”. É tradição, na Ordem Franciscana, antes da Missa do Galo, o Guardião com uma imagem do Menino Jesus, acompanhado de dois irmãos com velas, ir pelos corredores do convento cantando Christus natus est nobis! Venite adoremus! (Cristo nasceu por (para) nós! Vinde adoremos!). À medida que vai batendo à porta da cela de cada Irmão, estes abrem-na, beijam o Menino e incorporam-se, com velas, formando procissão até à Igreja.
Ao subir os degraus de acesso ao portão de ferro forjado deparou com um vulto de costas, encharcado, tremente de frio, de cabeça erguida, olhando para o alto. Frei João, barbudo, encapuzado no seu gore-tex negro, para assinalar a sua presença tossicou. O vulto virou-se e ao deparar com aquela carantonha barbuda ao fundo de um grande capuz negro expediu um grito. Era uma jovem, de rosto pálido, olheiras carregadas, visivelmente grávida. Frei João, reagindo prontamente, disse-lhe:
- Santo Deus! Não se assuste… Jesus! Que faz aqui assim desabrigada e ainda para mais nesse estado!? Entre, entre depressa, que ainda apanha uma pneumonia. Pois que faz aqui!? Oh! Meu Deus, pobre pequena!
A moça olhava-o pasmada, de olhos arregalados, de rosto inerte, emudecida, enquanto Frei João P., depois da passado o portão, abriu rapidamente a porta de entrada, puxando delicadamente a jovem para dentro.
- Entre, entre. Não faça cerimónia. Venha por aqui, para uma sala aquecida. Depressa. Sente-se, sente-se que eu já venho; vou buscar umas toalhas para se enxugar. Nessa cadeira não; sente-se antes aqui para estar perto do aquecedor. Isso! Isso! Espere um nadinha que não demorarei.
Pouco depois, estava de volta com um toalhão, uma camisa, umas calças, largas como a sua grande barriga, e uma camisola grossa. Pôs tudo em cima da mesa central e adiantou:
- Queira fazer o favor de se enxugar e mudar de roupa, enquanto lhe preparo um chá quente.
- Mas, mas onde estou? O senhor quem é? Perguntou timidamente a moça.
- Não receie que está na casa de Deus. Este é o convento da Luz, de Nossa Senhora da Luz, e eu sou o Frei João, um Padre franciscano. Nada tem a temer. Mude-se depressa, não vá apanhar alguma doença ruim…
Frei João, ao regressar, bateu à porta perguntando se estava já mudada, se podia entrar. Como a resposta fosse afirmativa, avançou e colocou o tabuleiro com o chá quente e uns biscoitos na mesa.
Reparou então, pela dilatação da barriga, que a gravidez da moça se achava em estado muito adiantado. Sorrindo disse:
- Muitos parabéns! Vejo que tem um filho e que dentro em pouco lhe verá a carinha, o terá nos seus braços e o amamentará a seus peitos. Grande alegria! Melhor, enorme alegria!
O olhar dela, até então mortiço, inexpressivo, ganhou um súbito brilho de alegria, uma vivacidade jubilosa, acompanhado de um grande sorriso de contentamento. Mas logo se lhe franziu o sobrolho numa tristeza.
- Que foi? Perguntou Frei João. Que fazia ali numa noite como esta?
- Olhava para o azulejo…
- Azulejo? Que azulejo?
- Aquele redondo que encima a frontaria do convento. Fixava-me na Virgem Maria com o Menino ao colo. E do fundo do coração pedia que me ajudasse.
- Ah! Sim, a Imaculada Conceição. A Nossa Senhora, com o Seu Filho Jesus, que esmaga o Maligno.
- Padre, continuou ela, estou só. E a solidão pesa-me muito nesta noite de Natal. Por isso vagueava pelas ruas numa grande angústia e melancolia até que deparei com esta fachada iluminada e vi a Nossa Senhora. Deixei-me ficar, absorta, esquecida do tempo, até que o Padre apareceu.
- Pois, não tens tu família? Onde está o pai da criança que trazes em ti? És tão nova, hás-de ter teus pais vivos…
Então, soluçando, debulhada em lágrimas contou a sua história.
Que como já tinha emprego saíra de casa para ir viver com o namorado. Apesar das “precauções” que lhe tinham ensinado na escola acabara por engravidar. O pai da criança não a aceitava de modo nenhum e pressionava-a para abortar. Ela depois de um primeiro susto ficara maravilhada por trazer aquela vida dentro de si e começara a sentir-se, literalmente, mãe. Enfrentou o amante, discutiram, foi chantageada, não se deixou subjugar. O rapaz abandonou-a com desprezo e violentas imprecações. Lembrou-se então que era filha, que sua mãe deveria lembrar-se da alegria de a ter trazido em si durante nove meses. Foi a casa dos pais contar-lhes o sucedido. Pedir conforto, compreensão e companhia. A mãe disse-lhe, sem papas na língua, que o seu namorado é que tinha razão e que a única coisa certa a fazer era “botar o bebé para fora”. O pai, esse, ficara indiferente dizendo-lhe somente, entre dois arrotos, enquanto bebia cerveja e olhava pasmado a televisão, que ela já tinha idade para saber o que fazer e que fosse qual fosse a decisão que ela tomasse para ele estava bem. Mas que não trouxesse a criança lá para casa, pois chegara a reforma e agora queria era sossego e descanso. A mãe, implacável, ofereceu-se, “pelo muito que lhe queria”, a pagar-lhe o aborto. Revoltada, voltou para o seu apartamento e desde então tem vivido sozinha com o filho que traz debaixo do coração. Com ele se tem entretido em longas conversas, repetindo-lhe o seu amor.
- Padre! - exclamou ela de supetão -, será que me podia confessar? Tive uma educação tão religiosa num colégio de freiras durante oito anos. Depois, aos poucos, fui-me afastando – deixei de ir à Missa, abandonei Deus…
- Claro que sim! Espera só um pedaço enquanto levo estas coisas e me vou paramentar para celebrarmos o sacramento da reconciliação.
Dentro em pouco reentrava Frei João envergando a alva e a estola branca. Distraído, a pensar na Missa do Galo, esqueceu-se de que deveria celebrar o sacramento da penitência com a estola roxa.
Sentou-se, fez o sinal da Cruz sobre a moça enquanto dizia:
- O Senhor esteja nos teus lábios e sobretudo no íntimo do teu coração para celebrarmos com muito fruto este sacramento de conversão.
O pranto da penitente era tão grande, o seu arrependimento tão manifesto, o amor a Cristo tão verdadeiro e comovente que Frei João só pensava na pecadora arrependida do Evangelho que lavava os pés de Jesus com as suas lágrimas e os enxugava com os seus cabelos.
Depois de lhe sussurrar palavras de consolação e encorajamento, deu-lhe como penitência participar na Missa do Galo, em seguida absolveu-a, e terminou pedindo-lhe que repetisse as seguintes palavras de um dos salmos. “Dai graças ao Senhor porque Ele é bom, porque é eterna a Sua misericórdia”.
Mal ela terminou de dizer estas palavras, exclamou:
- Ai Padre! Que se me rebentaram as águas.
Frei João habituado que estava à meditação da Sagrada Escritura pensou de imediato, como num automatismo, no Espírito Santo tantas vezes significado na Bíblia com a água viva; só num instante a seguir quando ela lhe diz que está com contracções é que se apercebeu realmente do que se passava.
- Não se assuste. Tenha calma. Vamos chamar o INEM ou os bombeiros.
Tirou o telemóvel do bolso, mas verificou que estava sem bateria.
- Ligue do meu, disse ela vasculhando com as mãos na roupa encharcada de que se tinha despojado.
Mas o seu também não funcionava porque a água o tinha estragado.
- Ai Padre! Que estou cheia de contracções.
- Não se assuste, que a central telefónica do convento é já aqui ao lado e eu faço a chamada. Correu Frei João para a portaria, mas o gabinete do pbx estava fechado. Ela entretanto chamava por ele. Frei João começou de dar patadas na porta procurando arromba-la mas os seus 57 anos tinham-lhe tirado vigor e nada conseguiu. Lembrou-se então do Frei José C., enfermeiro da comunidade, muito experimentado e caridoso. Mas o convento era enorme, gigantesco e os clamores dela, cada vez mais aflitivos. Ainda correu cerca de 40 metros até ao fim do primeiro corredor e reparou que já se ouvia, ao longe, o cântico Christus natus est nobis! Venite adoremus! Um grito estridente fê-lo correr novamente para a sala onde ela, a Maria da Conceição, deitada no chão, de costas para baixo, com as calças desapertadas, coberta de camarinhas de suor, em contorções convulsas exclamou:
- Não me deixe! Ajude-me que ele quer sair! Ele vai nascer!
Frei João, numa aflição em que nunca se tinha visto nem esperava sequer que algum dia lhe viesse a acontecer, desparamentou-se rapidamente, tirou-lhe as calças, colocou por debaixo das suas coxas a alva, para que o bebé não tocasse no tapete, enquanto rezava a Nossa Senhora do Ó, do Bom Sucesso e do Bom Parto que acudisse. Como por milagre a criança, uma rapaz, saiu com facilidade e brevidade. Frei João tentou limpá-lo com a alva, deu-lhe uma palmada que o pôs a chorar. Levantou-se e correu como um louco até ao claustro inferior onde se pôs a gritar para a procissão que percorria o claustro superior:
- Nasceu! Nasceu! Depressa, ajudem! Frei José venha depressa que nasceu!
Como ninguém estava ao facto do que se passava, coisa que esqueceu a Frei João, todos cuidaram não só que fosse mais uma das suas singularidades, que lhe eram habituais, mas um verdadeiro despropósito. No entanto, como não se calasse e os brados fossem em crescendo o Guardião pediu ao Frei José que fosse acalmar o Frei João e lhe desse o tratamento necessário. Mal o Frei José desceu, o Frei João correu para ele pegou-lhe pelo pulso e arrastou-o até à sala de visitas na portaria. Ao deparar com tamanho espectáculo o Frei José exclamou:
- Virgem Santíssima! O que é isto Padre?
Mas a pergunta era retórica porque experiente como era começou logo a tratar do necessário. Entretanto Frei João foi-lhe contando em traços gerais o que tinha sucedido e como não conseguira nem chamar o INEM, nem a ele, Frei José. Este pegou então do seu telemóvel e fez a chamada. Correu em seguida à enfermaria buscando o que era necessário para tratar prontamente da mãe e do filho.
Entretanto chegou a hora da Missa. Maria da Conceição fez menção de participar. O Frei José opunha-se veementemente em nome da saúde. Frei João segredou-lhe que estava evidentemente dispensada da penitência que lhe dera. Mas ela inamovível, com uma determinação e vigor invulgares teimou que havia de participar, e com o seu filho. Frei José, verificando que a única coisa limpa e seca ali era a estola branca de Frei João, pegou nela e enfaixou o pequeno para o resguardar do frio. Frei João, foi então em demanda do Padre Guardião, Frei Domingos C. M., para explicar o sucedido. Encontrou-o na sacristia envergando a casula para a celebração da Santa Missa. Explicou-lhe brevemente o que se passava. Frei Domingos e o Prior da Paróquia, Frei José António C. L., quiseram abençoar a mãe e o filho, antes da Missa começar. Ora eles iam, precisamente nesse momento, passando pelo corredor que levava à Igreja fronteiro à porta da sacristia. Frei Domingos chamou-os e abençoou-os, e o mesmo fizeram todos os sacerdotes presentes. Nesse momento a mãe com ar inspirado pediu o baptismo para seu filho. Todos ficaram hesitantes. Ela insistiu, suplicou, implorou. Chegava nesse momento o Frei Victor M. L. que ia presidir à Eucaristia como Superior maior. Sabedor do que se passava logo acedeu com alegria e entusiasmo em realizar o baptismo. O Pároco, Frei José António, logo assentiu. O Frei Albertino R., director do coro, que tinha nesse momento ido à sacristia para acertar as últimas coisas com o Presidente da celebração, logo entoou, no que foi imediatamente secundado pelos restantes Irmãos, o cântico Vou cantar um hino à vida, dom gratuito do Senhor, pela graça recebida bendirei o Seu amor.
O Frei José lembrou então que o INEM devia estar a chegar. O Guardião encarregou-o por isso de tratar com eles o melhor modo de atender a mãe e o bebé, logo que chegassem.
A meio da homilia chegaram os bombeiros. Maria da Conceição recusou-se a deixar a celebração. Frei José conseguiu dos bombeiros que, caso não tivessem nenhuma urgência, aguardassem o final da Missa. Estes consentiram, e um deles pediu se podia também assistir.
O Frei Victor perguntou se alguém aceitava ser padrinho daquela criança a que a mãe dera o nome de Francisco. Ofereceram-se dois casais, bem conhecidos pela sua virtude, e a mãe agradeceu comovida. Entretanto os sacerdotes que concelebravam, bem como os fiéis leigos que se encontravam nos cadeirais não puderam deixar de reparar no ar tão compenetrado, como que extático, daquele jovem bombeiro que seguia tudo com visível interesse e comoção.
A solenidade dos cânticos, a beleza dos paramentos, a preciosidade dos vasos sagrados, a luminosidade do templo, a participação orante de todos, num só coração e numa só alma, davam a impressão de que o Céu tinha descido à Terra. A oferenda do Sacrifício incruento tornava presente o Cristo Glorioso e Ressuscitado, escondido na aparência do pão e do vinho.
Antes da bênção final, Frei Domingos, Guardião do Convento da Luz, explicou que o Menino ia ser retirado do presépio para a seguir à bênção todos o poderem beijar. Foi então que o acólito mais novo, demasiado despachado, se dirigiu para o mesmo. Depois de pegar no Menino, ao girar, tropeçou no tapete do altar arrastando consigo Nossa Senhora e S. José. Como não se aguentasse e caísse quebrou-se a imagem do Menino bem como a de Sua Mãe e a de Seu pai adoptivo.
Um grande “Oh!” de consternação profunda ecoou por toda a Igreja. O petiz, vermelho como uma beterraba, não sabia onde se meter. Mas Frei Victor, que nunca se atrapalhava com nada e tinha sempre uma grande capacidade de improviso logo disse:
- Nosso Senhor na Sua Providência quis que neste Natal tivéssemos um presépio ao vivo. Por isso a Maria da Conceição fará de Nossa Senhora e seu filho Francisco de Menino Jesus. E para S. José… para S. José… Oh, amigo bombeiro como se chama o Sr.?
- Zé, respondeu ele num fio de voz envergonhada.
- Pois então vem mesmo a calhar, e fará de S. José. Ficam os dois ao lado do Francisco, quer dizer, do Menino Jesus, enquanto quem quiser vem beijar os seus pezinhos.
O Zé, encaminhado por Frei João, lá foi para onde lhe indicaram com os olhos marejados de lágrimas. À medida que a procissão dos fiéis procedia em homenagem ao Menino, S. José chorava cada vez mais. O seu pranto era de tal ordem que todo ele tremia e soluçava, a ponto de não se ter de pé e se colocar de cócoras. Muitos diziam, mais tarde, que nunca tinham visto alguém chorar assim. Maria da Conceição depois do arrebatamento agradecido de todas aquelas alegrias inesperadas e totalmente imerecidas não conseguiu deixar de reparar no bombeiro que assim se derramava. Apoderou-se dela uma grande compaixão e uma simpatia profunda. Olhou então para Frei João, com ar interrogativo e suplicativo. Tendo este pressentido o que ela queria abeirou-se de “S. José” e levantou-o. Este abraçou-se em Frei João, como uma lapa a um rochedo. Passados uns minutos, o sacerdote conseguiu colocar-lhe o braço por cima dos ombros e encaminhá-lo para uma sala contígua à sacristia. Aí ficou a saber do sofrimento daquele moço. Tinha vivido junto com uma moça que engravidara, e apesar de todos os seus esforços e de toda o auxílio quer da parte da sua família quer da dela não conseguiu evitar que ela abortasse o seu filho. Aquela dor muito dorida nunca mais o largou, era uma chaga aberta cheia de sal.
Uma hora depois, saiu o Zé com um rosto luminoso de alegria. O seu companheiro impaciente rosnou-lhe alguns impropérios. Ele sorriu e abraçou-o com veemência. E seguiram finalmente para o Hospital com a Maria da Conceição e o Francisco.
2. - Ai como o Frei João está envelhecido! Como ele se atrapalha a concelebrar…
- Psiu Maria! Lembra-te que estamos na Igreja e ele ainda te pode ouvir.
- Ouve lá agora, há-de estar mouco de todo, pobrezinho. Ainda me lembra quando ele nos casou e baptizou os nossos filhos…
- Quem nos diria Maria, retorquiu o Zé, há 28 anos, que viríamos a assistir à Missa celebrada pelo Francisco, coadjuvado pelo Frei João, na mesma Igreja e na mesma noite de Natal em que ele foi baptizado. Os desígnios de Deus são realmente insondáveis. Na verdade, Ele, como diz S. Paulo, concorre em tudo para o bem daqueles que O amam.
- Sabes, Zé, continuou a Maria, cada vez compreendo melhor aquelas palavras da Escritura: onde abundou o pecado, superabundou a Misericórdia.
Nuno Serras Pereira
21. 12. 2010

Natal

DESTAK | 22 | 12 | 2010   17.53H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
A crise era séria, profunda, duradoura. Herodes, fascinado pelas obras públicas, oprimia o país com impostos. Depois do embelezamento grandioso do Templo, vieram as fortalezas, Masada e Herodium, e as novas cidades Cesareia Maritima e Mamre. A dívida externa crescia e o Império Romano ameaçava com austeridade ou intervenção directa de um Procurador. O povo, sucessivamente enganado por gerações de dirigentes, já não acreditava em nada. Israel sentia-se confuso e desorientado.
Pior, estava desanimado, deprimido, não via saída.Foi então que «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9, 1). A solução veio do Alto, inesperada, explosiva, desconcertante, ultrapassando infinitamente o problema do momento. Não surgiu na capital, no palácio, na monarquia, mas num cantinho obscuro, um estábulo com uma manjedoura a servir de berço. Foi anunciada nos céus mas só os que estavam calados puderam ouvir.
A nossa crise é séria, profunda, duradoura. Mas acontece depois daquele nascimento. Acontece depois de estarmos salvos. O Senhor já veio e ficou connosco. Neste Natal não temos de esperar por Ele. Ele é que está à nossa espera. A ver se desta vez ouvimos finalmente o que então se disse no céu: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2, 10-11). Hoje como então, a solução dos nossos problemas não está na capital, no palácio, mas no estábulo iluminado.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Há 53 abortos legais todos os dias em Portugal

i-online  Sílvia Caneco, Publicado em 22 de Dezembro de 2010  |
Especialistas entendem que três anos e meio depois da legalização, os números já deveriam ter começado a decrescer
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A lei que entrou em vigor em 2007 despenaliza o aborto até às dez semanas de gestação. Faltas às consultas de planeamento e repetições de aborto continuam a preocupar médicos
Este ano, por cada dia que passou, foram feitos 53 abortos legais. Em 2007, os números não ultrapassaram os 36. O número de interrupções voluntárias da gravidez tem crescido sucessivamente desde que a prática foi despenalizada há três anos. Em 2009, houve 19 572 contra os 18 607 abortos praticados em 2008 (mais 965). E, até Agosto de 2010, os casos já atingiram o patamar dos 13 mil. Ou seja, a manter-se a média actual, 2010 vai fechar ligeiramente acima do ano anterior, o que contraria a tendência decrescente noutros países europeus que optaram pela legalização.

Apesar de os números se aproximarem das estimativas iniciais - previa-se, com base na experiência de outros países europeus, que pudessem vir a praticar-se 20 mil abortos por ano -, especialistas entendem que três anos e meio depois da legalização do aborto, por opção da mulher, até às dez semanas já se deveria ter entrado numa lógica decrescente.

"A tendência no Norte da Europa é para uma estabilização passado dois ou três anos. E depois um decréscimo: na Dinamarca, por exemplo, ao fim de dois ou três anos os números começaram a baixar. Se cá não baixam é preocupante: legislou-se, mas não se iniciou um programa a sério de prevenção da gravidez", critica Luís Graça, director do serviço de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

O especialista, que foi um dos maiores defensores da aprovação da lei em 2007, está desiludido com os resultados. "Tomam-se medidas pontuais, mas não se tomam medidas de acompanhamento. Não há políticas preventivas e, assim, o aborto vai continuar a ser usado como um método de não concepção."

E, mais do que com os resultados, está desiludido com as mulheres: 354 foram reincidentes e fizeram mais do que um aborto em 2008 e 2009. "Fui ingénuo. Tenho pena que não tenham estimado uma lei feita para salvaguardar a sua saúde: era para protegê-las das complicações dos abortos clandestinos, não para fazerem dois ou três em dois anos."

O obstetra entende que a única bandeira que os defensores da despenalização ainda podem levantar é a da diminuição das complicações associadas a abortos ilegais "Antes tinha 20 a 22 consultas por mês devido a complicações decorrentes de abortos clandestinos. Agora, são duas ou três."

Crise ou conhecimento da lei? O agravamento do desemprego e da situação económica pode pesar na decisão de ter um filho, mas a maioria dos profissionais de saúde acredita não ser a razão principal para os números da interrupção voluntária da gravidez continuarem a não diminuir. As dificuldades decorrentes da crise económica são apenas parte da história: o maior conhecimento da lei pode explicar o resto.

"Este aumento não me surpreende. É natural que ao início os números não fossem tão altos. A prática tinha acabado de ser instituída: as pessoas não tinham ainda tanta informação", afirma Duarte Vilar, director-executivo da Associação para o Planeamento da Família.

Também Jorge Branco, coordenador do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva, entende que "o aumento da confiança nos estabelecimentos de saúde onde é possível realizar um aborto" explica a tendência crescente dos números dos abortos praticados por via legal. A influência da crise, por contraste, "será muito residual, porque quando a lei foi criada já se sentiam estas dificuldades", recorda, o coordenador do Programa Nacional de Saúde Reprodutiva

Mulheres reincidentes Para Daniel Serrão, não há qualquer razão que justifique o aumento dos abortos praticados no país, já que "é uma intervenção completamente desnecessária, que, independentemente de ser feita de forma legal, só traz riscos para a mulher". Dos 13 033 abortos registados nos primeiros oito meses do ano, 12 676 foram feitos por opção da mulher: só em 357 casos, o aborto foi provocado por perigo de morte ou de saúde da grávida ou malformação do feto.

"A lei do aborto não foi acompanhada por medidas que educam para a sexualidade. Se os métodos contraceptivos são gratuitos, não há nenhuma razão para as mulheres não terem uma vida sexual sem necessidade de abortar", lamenta o médico e especialista em ética da vida.

Além das falhas no planeamento familiar, o especialista aponta para a necessidade de controlo das repetições de abortos. "Na maior parte dos países, as mulheres só podem fazer um aborto. Aqui é a la carte", acusa. O registo dos motivos que levam as mulheres a abortar seria, na opinião do especialista, o primeiro passo para perceber "se o fazem por fome ou miséria, por falta de companheiro ou só porque sim".

Jorge Branco, presidente do conselho de administração da Maternidade Alfredo da Costa, explica que na impossibilidade de recusar fazer um aborto a uma mulher que seja reincidente, resta aos profissionais de saúde apostar nos casos mais problemáticos e "dar a essas mulheres métodos contraceptivos menos falíveis e mais duradouros, como os implantes".