segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Maternidade de substituição - um retrocesso civilizacional

maternidadesubstituicaopvpatto

domingo, 30 de janeiro de 2011

A má educação

João Pereira Coutinho, CM2011-01-30
Quando o assunto é a educação dos filhos, qualquer pai só tem uma pergunta: a escola é boa ou má? Não entra no cálculo se a escola é estatal ou privada; basta-lhe que seja pública, ou seja, que ele tenha acesso a ela gratuitamente. Este raciocínio básico devia orientar a nossa política de educação: permitir a escolha dos pais de acordo com a qualidade das escolas.
Infelizmente, o raciocínio não entra na cabeça dura do governo. Para a dra. Alçada, as escolas privadas com contratos de associação são demasiado caras; e, além disso, existem escolas estatais às moscas na mesma área das privadas. Tudo muito certo. Pena que a ministra não tenha esclarecido dois pontos: primeiro, quanto custam as escolas estatais por comparação com as privadas; e, segundo, por que raio se mantêm abertas escolas estatais às moscas quando existem as privadas que fazem o mesmo trabalho com assinalável sucesso.
Reduzir todo o ensino a uma coutada estatal é condenar gerações de alunos a uma única opção de ensino. E, como sempre, serão os mais pobres a pagar esta factura ideológica.

Liberdade religiosa em Granada?!?

Obligan a una maestra de Granada a retirar una cruz de su departamento de religión por considerarla “ofensiva”
La maestra de religión de un colegio de Granada, Susana Fernández de Córdoba, fue obligada por dos colegas de ciencias sociales a retirar la cruz y la imagen de la Virgen de la Cabeza de la oficina que compartían por considerarlas ofensivas.
El hecho ocurrió este mes en el Instituto de Educación Secundaria Al-Zujayr, en Zújar (Granada), en el departamento de religión, donde dos profesores de sociales exigieron a Fernández dejar sus creencias fuera de la escuela. “Quito la Cruz, pero por vuestra libertad yo pierdo mis derechos”, respondió la maestra.
El también profesor de religión, Carlos Valle, dijo que “el agravante de este hecho es que se trata del departamento de religión. Si no se puede tener un crucifijo ni siquiera en el departamento de religión, ¿qué será lo siguiente en prohibirnos?”
La maestra recibió el respaldo de los obispos de Andalucía, de los alumnos y de los profesores de religión de la comarca granadina de Baza, que consideran que lo sucedido es una “injusticia”.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Santo e um homem normal

Santo e um homem normal
Aura Miguel RR on-line 28-01-2011 10:12

“O mundo precisa muito da santidade de João Paulo II”. Terá sido este o comentário de Bento XVI ao anunciar ao actual arcebispo de Cracóvia a beatificação do Papa polaco.
Quem o conheceu garante isso mesmo: Wojtyla era um homem fora de série! Mas era assim, porque era um homem normal!...
Wojtyla foi um brilhante actor de teatro, foi operário fabril, praticou desporto, tinha imenso sentido de humor e, ao mesmo tempo, era profundo, corajoso e grande devoto de Nossa Senhora.
Sabia muito bem aquilo o que queria, arriscou tudo ao enfrentar os regimes totalitários e, sobretudo, ao pedir ao mundo para abrir as portas a Cristo. Mas fê-lo com uma tão grande humanidade que tudo nele parecia normal, evidente… Como se fosse fácil ser assim como ele, santo!
A afluência de multidão que já se prevê para o próximo dia 1 de Maio em Roma é a prova disto mesmo: que todos queremos, afinal, em nós, uma centelha desta humanidade tão atractiva que fez dele um grande Santo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Afinal Senhora Ministra da Educação quem mente e quem manipula?


D.AntonioMarcelinoAfinalSraMinistraQuemMenteEQuemManipula_20110127

28 de Janeiro - S. Tomás de Aquino

Triunfo de S. Tomás de Aquino sobre os heréticos
Fillipino Lippi
1489-91
Fresco
Santa Maria sopra Minerva, Roma

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

"Talvez fiquemos agora entendidos"

Público 20110127 Helena Matos
Como diria o dr. Mário Soares, talvez fiquemos agora entendidos sobre as diferenças desta campanha presidencial

"EXPRESSO - A pergunta é a seguinte: há informações de que o dr. Soares conhecia o polémico fax, alegadamente incriminatório para o eng. Melancia [governador de Macau], antes de ser publicado na imprensa...

Mário Soares - Não é exacto. Tudo o que conheço da matéria foi o que li nos jornais.

EXP. - O próprio dr. Almeida Santos ter-lhe-ia entregue uma cópia...

M.S. - Não é exacto. Aliás, não vi que ele tivesse feito em parte nenhuma tal afirmação e não acredito que a tivesse feito. É outra pergunta inquinada.

EXP. - Não confirma que conhecia o caso antes de vir a público?

M.S. - Não confirmo. Acho que estão a fazer-me perguntas que considero impertinentes. Os senhores não são polícias, embora pareça que gostam de se comportar como tal.

EXP. - No caso provável de continuar como Presidente, que governador vai nomear para Macau? Um governador da sua área política, como os anteriores, ou um governador que reúna consenso nacional?

M.S. - É uma pergunta prematura. Já o disse e repito. (...) E, já agora, devo dizer-vos que, em matéria de interrogatórios policiais, fui sujeito em tempos aos tão temidos interrogatórios da PIDE. Nunca falei na PIDE. Talvez fiquemos agora entendidos, uma vez que há entre vós quem tenha experiência na matéria."

Esta entrevista do Expresso a Mário Soares foi publicada na revista daquele semanário a 1 de Dezembro de 1990 e o que nela aconteceu explica-se facilmente: um Presidente da República e então candidato a novo mandato, irritado com as perguntas sobre um caso em que o seu nome era referido, o caso Emaudio/fax de Macau, procura humilhar um dos quatro jornalistas que participavam nesta entrevista revelando o que sabia ou achava que sabia (pois estas informações não eram do domínio público) sobre a forma como esse jornalista enfrentara anos antes os interrogatórios da PIDE.

A pré-campanha para a reeleição de Mário Soares iniciava-se com o candidato a reagir desta forma às perguntas sobre um caso que não queria que lhe assombrasse a campanha. Mas foi isso que veio a acontecer. Semanas depois desta entrevista, já com os candidatos na estrada, um dos envolvidos no caso Emaudio, o alemão Karl Rohe, chegou a Lisboa com uma pasta que pretendia entregar na sede de campanha de um outro candidato presidencial, o centrista Basílio Horta. Dentro dessa pasta, segundo O Independente, estaria material que provaria que o então Presidente da República e alguns dos seus mais directos colaboradores em Belém tinham conhecimento dos bastidores do caso Emaudio/fax de Macau. Dois dias antes da eleição presidencial, o mesmo semanário revelava que o então procurador-geral da República, Cunha Rodrigues, e o procurador-geral adjunto, Rodrigues Maximiano, tinham avaliado os fundamentos jurídicos de chamar o então Presidente da República e recandidato a depor a propósito do caso Emaudio.

A avaliar por tudo aquilo que se disse nas últimas semanas, nada disto aconteceu, pois, a acreditar nessa versão reconfortante do passado, as anteriores campanhas presidenciais, sobretudo as de recandidatura, teriam sido exemplos de elevação por contraste com a baixeza a que se chegou em 2011. Deste axioma resulta geralmente a conclusão de que as campanhas para as recandidaturas presidenciais são sempre uma espécie de marcha triunfal e que em 2011 isso só não se repetiu dadas as características pessoais de Cavaco Silva. Digamos que estes seriam argumentos interessantes, caso fossem verdadeiros. Mas não são. Não o foi com Soares em 1991, tal como já não o tinha sido com Eanes em 1980. (Convirá, aliás, deixar de encarar como uma antiqualha o sucedido na recandidatura de Eanes em 1980, pois Nobre recupera parte do imaginário da regeneração do regime a partir de Belém ou na caminhada para lá. Sinal dos tempos: onde, em 1980, estava o militar e as Forças Armadas surgem agora o médico e a respectiva ONG.)

Já a campanha de Cavaco Silva em 2011 tem como óbvio contraponto a recandidatura de Soares em 1991: ambas as campanhas foram afectadas por casos e em ambas se constatou que uma campanha de recandidatura é, por princípio, mais fácil de ganhar, mas também mais amarga de fazer. A razão para este aparente paradoxo encontra-se nos candidatos que estão em segundo lugar e que, não tendo, à partida, possibilidade de ganhar, apostam numa estratégia não de vitória mas sim de desgaste do favorito. Não matam o vencedor anunciado. Mas moem-no. Não com argumentos mas sim com escândalos. Aconteceu em 1991 e repetiu-se em 2011.

O que mudou de 1991 para 2011 foi a atitude dos dois grandes partidos: em 1991, apenas o candidato de um partido da franja, Basílio Horta, apoiado pelo CDS, utilizou politicamente este caso em campanha. E, a não ser no semanário O Independente, é difícil encontrar uma linha que à data não o critique por questionar o mandato do então Presidente da República baseando-se, segundo se escrevia nos jornais da época, em "histórias mesquinhas" protagonizadas por "personagens duvidosas", "figurantes sórdidos" e "gangsters de pacotilha". O PSD, que apoiava Soares na recandidatura, e naturalmente o PS demarcavam-se desta campanha de "baixo nível" e o candidato do PCP, Carlos Carvalhas, e da extrema-esquerda, Carlos Marques, seguiram-lhes o exemplo.

O que foi diferente de 1991 para 2011 nada tem a ver, portanto, com as más amizades dos presidentes, muito menos com a sua falta de disponibilidade para explicar o que os jornalistas e opositores lhes perguntam sobre assuntos incómodos. O que de diferente sucedeu em 2011 foi que um partido do centro, e que habitualmente tem os seus dirigentes no cargo de primeiro-ministro ou de Presidente da República, apostou numa estratégia de guerrilha a que, até esta data, nas presidenciais, apenas tinham recorrido os partidos das pontas do arco eleitoral. Como diria o dr. Mário Soares, talvez fiquemos agora entendidos sobre as diferenças desta campanha presidencial.

P.S. 1 - Os candidatos, tal como os presidentes, passam. Quanto à democracia, espera-se que fique. Logo, não se pode encarar com ligeireza o facto de vários portugueses terem sido impedidos de votar normalmente a 23 de Janeiro de 2011. Alguém duvida que se o primeiro-ministro fosse outro, e sobretudo que se fosse do mesmo partido do candidato vencedor, a esta hora o país não estava a braços com uma tentativa de impugnação das eleições?

P.S. 2 - Muito francamente, não creio que o fastio que muitos sentem com a reeleição de Cavaco Silva justifique o recente entusiasmo com a redução de dois para um dos mandatos presidenciais, tanto mais que essa alteração se traduziria numa presidencialização do regime. Mas, sobretudo, deste súbito frenesi com a alteração dos mandatos presidenciais sobressai a evidência de que nunca seremos uma democracia como aquelas, nomeadamente a norte-americana, que todos os dias declaramos invejar: por cá, quando não se gosta de um Presidente, desvaloriza-se-lhe a função e equaciona-se alterar o regime. Lá, e noutras paragens que igualmente prezam a liberdade e respeitam o povo, vê-se o que falhou nas candidaturas derrotadas e parte-se melhor preparado para a próxima campanha, que, imagine-se a rotina, termina sempre numas eleições que têm lugar invariavelmente na mesma terça-feira de Novembro. A rotina é indissociável das democracias porque as mudanças são asseguradas pelo debate ideológico e pela dinâmica da sociedade. Só quando o debate é fraco e a liberdade pouco valorizada é que o ímpeto de mudança é canalizado e canibalizado, numa espécie de movimento centrípedo, pela discussão em torno da própria orgânica do regime. Ensaísta

FMI

DESTAK |26 | 01 | 2011   20.14H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Toda a gente sabe que o principal perigo que Portugal enfrenta é o FMI. Se cairmos nas suas mãos estaremos perdidos. Se é assim tão horrível, porque não tentar influenciá-lo a nosso favor? A nossa diplomacia podia usar os seus contactos junto dos países sócios da instituição para conseguir alguma ajuda. Existe pelo menos um dos membros mais antigos do FMI, participante há precisamente 50 anos, que será bastante favorável às nossas posições: Portugal.
Isto mostra a tolice do que se diz por aí. O FMI não é um papão internacional, mas uma organização criada em 1944, na célebre reunião de Bretton Woods, com o único propósito de ajudar países em dificuldades financeiras. Portugal não só não é vítima do Fundo, mas um dos sócios, tendo aderido em 1960.
Mais, somos lá famosos por termos protagonizado dois dos maiores sucessos da sua longa história. Os nossos acordos assinados em Maio de 1978 e Outubro de 1983 conseguiram por duas vezes uma recuperação rápida e segura de credibilidade.
Antes de sermos o «bom aluno europeu», fama que desperdiçámos para nos enfiarmos na actual crise, tínhamos sido o bom aluno do FMI. A European Financial Stability Facility (EFSF), que agora tanto tememos, foi criada em 9 de Maio de 2010 pelos nossos antigos professores, UE e FMI, para ajudar países em apertos.
Demonizar aquela que será a nossa salvação na enorme dificuldade em que nos metemos é sumamente irresponsável. A única explicação é que os que gemem esses medos são precisamente aqueles que criaram o problema que nos lança nas mãos do FMI.

Musical Wojtyla na SIC


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O nó cego

Público, 24.01.2011 António Barreto

O Presidente eleito não vai ter surpresas. Já sabe que país tem e o estado em que se encontra. O Governo e os partidos também não. Sabem o que têm e o que fizeram. E sobretudo o que adiaram. Surpresas, a breve prazo, talvez as tenham os cidadãos.


O nó cego na vida política portuguesa e o impasse na actividade económica e na situação financeira exigem acção. Depois de cinco anos de adiamento e de agravamento, após quase dois anos de suspensão e azedume, já não é mais possível fazer de conta, protestar de modo impotente ou olhar para o lado. O que se segue a esta eleição de calendário não é previsível. Grande remodelação? Coligação tardia? Demissão do Governo? Dissolução do Parlamento? Iniciativa presidencial? Novas eleições? Novos pacotes de austeridade? Chegada do FMI e do Fundo Europeu? Nova intervenção política da Alemanha e da União Europeia? Tudo pode acontecer. Os dirigentes políticos nacionais já quase não são mestres da sua decisão. As grandes instituições nacionais parecem cercadas e incapazes. Tal como estiveram desde as últimas eleições legislativas, há quase ano e meio, à espera de umas presidenciais ineficazes.

Ignorância e covardia

A falta de previsibilidade é má conselheira. Pior: revela a miopia dos responsáveis políticos, reféns de interesses particulares e de instâncias internacionais. Tudo o que podia ter sido feito há anos (coligação de governo, aliança parlamentar, plano nacional, programa de emergência, recurso financeiro internacional, etc.) foi adiado de modo incompreensível, por causa da incompetência, da ignorância, da covardia e da cupidez dos agentes políticos. Tudo terá de ser feito em piores condições e em mais terríveis circunstâncias. Há três ou quatro décadas que a história do nosso país é uma frustre sucessão de adiamentos. O fim da guerra, a democracia, a liquidação das "conquistas" de 1975, a abertura da economia, a revisão da Constituição, a reforma da Administração Pública e da justiça: eis, por defeito, uma breve lista do que fizemos tarde e mal, quando podíamos ter feito cedo e bem.

No rescaldo das eleições presidenciais de 1996, detectavam-se facilmente os problemas políticos mais importantes para os quais uma resolução era necessária e um esforço urgente: a justiça e a corrupção. Nestes cinco anos, essas dificuldades agravaram-se. Justiça deficiente e corrupção alimentam-se reciprocamente e combinam à perfeição com um sistema de partidos e de governo que as tornou indispensáveis à sua manutenção. A Administração Pública submeteu-se ainda mais à voracidade partidária. Alguns interesses económicos, os que mais dependem do Estado e os que menos escrúpulos têm, souberam capturar as instituições públicas e a decisão governamental. Certos interesses profissionais e corporativos conseguiram também, por outras vias, fazer o Estado refém e organizar, a seu proveito, os grandes serviços públicos e sociais. Assim, o Estado perdeu a sua liberdade, a sua isenção e a sua capacidade técnica e científica. É o administrador dos interesses de algumas corporações e de alguns grupos económicos. Por esse serviço, o Estado cobra, para os partidos, uma gabela ou um tributo. A corrupção, em Portugal, não é apenas o pagamento ilegal feito para obter vantagens públicas. É um sistema, frequentemente legal, de cruzamento de interesses e favores, de benefícios e vantagens, ao qual ninguém, nos superiores órgãos de poder político, parece querer realmente colocar um travão. Fora dos órgãos de poder político, só a justiça poderia ser, em teoria, um freio e um antídoto a este sistema. Acontece que a justiça se transformou também em parte integrante deste sistema. A sua ineficácia ainda é o menor dos males. Bem pior, na verdade, são os protagonistas e os principais activistas do sistema judiciário (conselhos superiores e sindicatos) que pretendem agora, explicitamente, uma maior fatia dos proventos económicos e do poder político.

Democracia em perigo

O Governo, refém interna e externamente, administra a democracia como quem preside ao saque do Estado: na economia, satisfaz, para além das exigências do país, os interesses económicos; na sociedade, distribui, mesmo sem os recursos necessários, a protecção social. Enquanto houve crescimento económico, rendimentos e crédito externo, o Governo e os seus partidos alimentaram a democracia com aquela distribuição, compatibilizando assim as mais absurdas, socialistas e sectárias políticas sociais de saúde, educação e segurança social, com as mais predadoras e vorazes iniciativas capitalistas. Este mundo improvável acabou. Os recursos financeiros esgotaram. O crescimento económico estagnou. O crédito evaporou-se. Pela primeira vez, em trinta anos, a democracia portuguesa está em perigo, porque perdeu os seus instrumentos favoritos. A nossa democracia ligou-se perigosamente aos favores concedidos e à demagogia providencial. Sem esquecer o facto de que a confiança nas instituições políticas, públicas e judiciárias, essencial à liberdade, estiola.O clima é mais importante do que o raio de sol ou o aguaceiro de passagem. Criar riqueza e favorecer o investimento é essencial, mas tal não se fará sem um novo enquadramento geral. Decretos e truques de cartola nada resolvem, sem a confiança dos cidadãos e dos agentes económicos. Sem certeza e estabilidade, as intenções e as oportunidades são miragens. Sem lealdade legislativa, ninguém, cidadãos ou empresas, pode planear as suas actividades. Uma boa estatística, que inebria os medíocres, será sempre contrariada pela seguinte, bem mais cruel.

Portugal parece não estar dotado das instituições políticas, dos órgãos de poder, de partidos políticos e de dirigentes à altura de resolver alguns dos problemas essenciais do presente. O processo político português está de tal modo feito que tudo contraria os esforços políticos para reordenar a vida pública e encarar de modo duradouro as necessidades de emergência. As soluções encontram-se na relação entre sociedade e responsáveis políticos, não mais em golpes de sorte partidários, em personalidades impolutas ou em arranjos de gabinete. Com perícia e responsabilidade, as soluções serão graduais e pacíficas, mas rápidas. Sem o que, bruscamente, nada de bom resultará. Impõe-se uma paz partidária, nem que seja apenas entre alguns partidos. E é necessária uma trégua social honesta e equilibrada. Sem abdicar da sua autonomia, patrões e sindicatos precisam de encontrar um ponto de entendimento sem intervenção dos partidos.

Portugal em 2016

As peripécias, os acidentes de percurso, o carácter de algumas individualidades, a futilidade de tantos comportamentos políticos e a inutilidade das declarações públicas continuarão a ilustrar o roteiro da nossa jornada futura. Mas é possível detectar, indelével, sob a espuma do efémero, o percurso principal.

Dentro de cinco ou dez anos, Portugal poderá ser governado de modo diferente. Com mais ou menos democracia. Em completa dependência do estrangeiro ou com uma relativa autonomia. Com graus de corrupção pelo menos controlados ou na submissão a uma partidocracia insaciável. Com novos partidos, novo sistema de governo e um regime diferente. O governo de maioria poderá ser a regra, mas a deriva minoritária poderá prosseguir. O regime parlamentar ou presidencial poderá substituir este arremedo que nos rege, fruto da invenção delirante de juristas medrosos e académicos sem visão da realidade. As eleições poderão ser nominais, mas a ditadura dos partidos poderá também manter-se no alheamento do soberano e dos direitos individuais. Os dilemas são estes. Inelutáveis. Mas as escolhas são nossas. Pelo menos em parte.

Sociólogo

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

25 de Janeiro - Conversão de S. Paulo

A conversão de São Paulo, a caminho de Damasco
 Michelangelo Merisi da Caravaggio
1600-1601
Óleo sobre tela
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Cerasi Chapel, Santa Maria del Popolo
Rome

Comunicado de imprensa - Apresentação do livro O Sentido Religioso

Comunicado de imprensa
Apresentação do livro de don Giussani O sentido religioso
com o Padre Julián Carrón em Milão e em vídeo directa com 180 cidades italianas

Comunhão e Libertação e a editora Rizzoli organizam para quarta-feira 26 de Janeiro 2011, às 21H30, no Palasharp de Milão, a apresentação do livro de don Luigi Giussani (1922−2005) O sentido religioso, por ocasião da nova edição da Rizzoli.
Intervém o Padre Julián Carrón, Presidente da Fraternidade de CL.
É a primeira vez que a apresentação de um livro acontece em simultâneo por toda a Itália. Serão, de facto, mais de 180 as cidades que poderão seguir em directo via satélite a apresentação milanesa do Padre Carrón. Calcula-se que, para além dos 8.000 presentes no Palasharp, pelo menos 50.000 pessoas participem no evento.
Para todo o ano 2011 O sentido religioso será o texto da «Escola de comunidade», a catequese semanal dos aderentes ao movimento, jovens e adultos, em todo o mundo.
Traduzido em 19 línguas, O sentido religioso é o livro mais conhecido de don Giussani, que a partir da primeira edição de 1957 foi enriquecido pelo Autor no decurso das sucessivas reimpressões, até à edição actual da Rizzoli.
O sentido religioso representa o primeiro de três volumes do "PerCurso", que compreende Na origem da pretensão cristã e Porquê a Igreja. Don Giussani nestes livros, imprimiu o fruto de uma existência inteira gasta a mostrar as pertinências da fé às exigências da vida, num empenho educativo que formou milhares de pessoas por todo o mundo, e cujo carisma continua a encontrar e a envolver tantos através da experiência de Comunhão e Libertação.
* * *
«A fórmula do itinerário para o significado último da realidade – qual é? Viver o real.
A experiência daquela implicação oculta, daquela presença arcana, misteriosa no interior dos olhos a abrir-se para as coisas, dentro da atracção que as coisas despertam, […] como poderá ser vivida, esta complexa e no entanto simples experiência, esta experiência riquíssima de que é formado o coração do homem, que é o coração do homem e portanto o coração da natureza, o coração do cosmos? Como poderá ela tornar-se poderosa? No embate com o real. A condição única para ser sempre e verdadeiramente religioso é viver sempre intensamente o real. A fórmula do itinerário para o significado da realidade é viver o real sem cortes, ou seja, sem negar ou esquecer qualquer coisa. De facto, não seria humano, isto é, razoável, considerar a experiência limitadamente à superfície, na crista da onda, sem descer às profundezas do seu movimento». (em O sentido religioso).

Sala de imprensa de Cl
Milão, 20 de Janeiro de 2011.
Comunicado de imprensa

em Portugal a apresentação do Sentido Religioso será em Lisboa, no dia 22 de Fevereiro, às 21H30, no Sana Lisboa Hotel

Frase do dia

Na ausência de justiça, o que é a soberania senão o roubo organizado?
Santo Agostinho

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Mensagem do Papa Bento XVI para o 45º dia mundial das comunicações sociais



Convido sobretudo os jovens a fazerem bom uso da sua presença no areópago digital.
Renovo-lhes o convite para o encontro comigo na próxima Jornada Mundial da
Juventude em Madrid, cuja preparação muito deve às vantagens das novas tecnologias.

Diacomunicasociais

Os cortesãos cegos

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2011-01-24
Vivemos numa sociedade oficialmente livre-pensadora, sem tabus, preconceitos ou dogmas. Estão criadas as condições para os tabus mais acéfalos, preconceitos mais avassaladores, dogmas mais totalitários, por não existir sequer a disposição para reconhecer essa possibilidade.
Um dos contos mais geniais da literatura revela onde pode chegar a cegueira ideológica. Publicado na colectânea medieval espanhola El Conde de Lucanor de 1335 (Enxemplo XXXII - de lo que contesció a un Rey con los burladores que ficieron el paño), foi vulgarizado por Hans Christian Andersen como As Roupas Novas do Imperador (Kejserens nye Klæder) em 1837. Os cortesãos, a quem foi dito que o tecido do traje do imperador é invisível a quem não é filho de seu pai, estão dispostos a exaltar a beleza das vestes, sem conseguirem admitir que o rei vai nu. Sintomaticamente, na versão de Andersen, quem não vê as roupas é estúpido ou incompetente, mas na Idade Média interessava mais a família que a competência.
Não faltam exemplos desta cegueira. Há anos assistiu-se à derrocada do glorioso paraíso colectivista da União Soviética que tantos louvaram acefalamente durante décadas. Antes desfizera-se o mito da supremacia da raça ariana. Mas a sociedade sem tabus tinha de ter uma obsessão ainda mais infantil. O nosso dogma é a equivalência entre os estilos de vida.
Todas as civilizações e culturas sempre souberam que a família, onde as gerações se unem e sucedem, amando-se, educando-se, sustentando-se, perdoando-se, constitui a base da sociedade. Sempre houve alternativas, avaliadas de forma diferente nas várias culturas, mas nenhuma as viu como semelhantes à célula vital. A cultura ocidental contemporânea é a primeira que tenta negar a evidência.
Começa logo por não ser possível sequer falar de família. Agora é "família tradicional", porque alegadamente há várias. E aqui o adjectivo é pejorativo. Depois um portentoso aparato mediático, filmes, televisão, revistas, livros, jornais, lança-se numa campanha de propaganda massiva a favor das alternativas, adultério, divórcio, promiscuidade, concubinato, perversão, deboche, etc. É tudo excelente.
A origem desta tese aberrante é compreensível. As gerações anteriores, defendendo ferozmente a família, costumavam desprezar quem vivia nessas alternativas. Isso é inaceitável, porque todos devem ser respeitados, qualquer que seja a sua opção. Mas uma coisa é respeitar as pessoas, outra é respeitar as opções. Aí surgiu o erro que gerou o actual tabu. Todos respeitamos e cuidamos dos doentes, mas ninguém acha que a doença é igual à saúde. Aliás, precisamente por estarem a sofrer, os doentes são ainda mais acarinhados que os demais, por viverem pior. As disfunções familiares são doenças sociais. Sem desprezar ou censurar os que as sofrem, deveriam ser acudidos e respeitados, trazendo-os à condição saudável.
Em vez disso assistimos a um delírio de argumentação que, partindo de um conceito distorcido de autonomia pessoal, exalta aquilo que traz infelicidade, miséria, desgraça. Porque, vale a pena lembrar, até em termos agregados são já visíveis os resultados desta atitude. Todos reconhecem que, naturalmente, a sociedade ocidental se encontra em decadência demográfica, política, social e moral. Porque defender a família é considerado conservador, e o contrário de conservador é destruidor.
Apesar disso as luminárias contemporâneas estão dispostos aos maiores malabarismos para sustentar o axioma de equivalência contra qualquer evidência. Trata--se de um tabu absoluto e indiscutível: cada um vive como quer e ninguém tem nada com isso. Hoje, discute-se e critica-se tudo, a todos os níveis, menos aquilo que na nossa vida é mais influente sobre todos.
Quando surgem as tragédias, inevitáveis em estilos de vida desviantes, aparecem logo alcateias de comentadores para assegurar que o sucedido nada tem a ver com a perversão ou a opção de género, porque coisas dessas acontecem em todo o lado. Como os cortesãos de Andersen, nem se dão conta do seu ridículo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

A Agenda Europa

Zita Seabra, 2011.01.23
Abolir as raízes cristãs da sociedade europeia é um atentado cultural mas é também alinhar com a perseguição que se abate sobre os cristãos que são hoje as maiores vítimas das perseguições do Mundo.
A Agenda da UE teve este ano uma importante novidade: a referência no calendário anual das festas religiosas de diversas religiões, excluindo as datas de referência do cristianismo. Nem Natal, nem Páscoa! O dia 25 de Dezembro é tão-só o dia 25 de Dezembro
Os factos são conhecidos. A Comissão Europeia mandou imprimir três milhões de agendas para oferecer a outros tantos alunos e professores de escolas dos países que compõem a União Europeia. Esta agenda, cheia de informações, teve este ano uma importante novidade: a referência no calendário anual das festas religiosas de diversas religiões, excluindo as datas de referência do cristianismo. Nem Natal, nem Páscoa! O dia 25 de Dezembro é tão-só o dia 25 de Dezembro.
Numa Europa berço da civilização ocidental, filha directa do cristianismo, ensina-se às crianças as datas referência, esquecendo as cristãs, apagando as suas origens, base da sua cultura e da sua matriz genética, definidora e diferenciadora, formadora do conjunto cultural do velho continente. Um espanto. Protestaram diversos países como a Itália, a Polónia, o vice-ministro francês, entre outros, e a Comissão Europeia decidiu publicar oito milhões de erratas para distribuir às escolas que tinham recebido as agendas.
É evidente que os responsáveis pelo facto não o fizeram por esquecimento. Ninguém se esquece que dia 25 de Dezembro não é um dia qualquer do calendário, e nenhum europeu se lembra dos dias festivos dos muçulmanos ou dos budistas e não se recorda dos dias que lhe marcam o seu próprio calendário. É óbvio que se tratou de um apagar deliberado do cristianismo, o que é em si mesmo o sinal da mais brutal intolerância como é, igualmente, um sinal de obscurantismo e de ignorância. É, sobretudo, um profundo gesto de hostilidade para com os cristãos.
Muitas vezes, na história da Europa, se tentou apagar as referências ao cristianismo. Os jacobinos franceses tentaram substituir o calendário gregoriano e impor o "Calendário Revolucionário Francês", mudando assim a nomenclatura dos dias e obviamente os feriados católicos e a referência ao nascimento de Cristo. Dessa revolução, no que respeita à agenda resta a referência ao 18 de Brumário e não sobrou nenhum dia feriado dos 5 "sans-culottes". Mesmo em Portugal, abundaram as tentativas, a mais ridícula das quais foi certamente a proibição do bolo-rei e sua substituição pelo bolo da República.
Abolir as referências cristãs na Europa é fazer esquecer que na origem de muito do que de melhor existe na civilização ocidental tem origem no cristianismo. Na Igreja Católica nasceu a sistematização das primeiras universidades, os primeiros hospitais, os livros que permitiram salvaguardar o essencial da cultura clássica, as misericórdias, a assistência social e um inquestionável património artístico.
Abolir as raízes cristãs da sociedade europeia é um atentado cultural mas é também alinhar com a perseguição que se abate hoje sobre os cristãos que são hoje as maiores vítimas das perseguições do Mundo. No Parlamento Europeu foi recordado que 75% das perseguições religiosas que hoje acontecem são contra cristãos. No Iraque, no Egipto, na Índia, na Nigéria, nas Filipinas, no Irão, em Chipre ou na China, recordam só alguns casos dramáticos recentes. Alguns silêncios escandalosos de autoridades e organizações humanitárias tão prontos a falar de outras perseguições raia o escândalo. Quantas vezes o silêncio cala a denúncia e a hostilidade substitui a solidariedade com as vítimas?
A agenda da Comissão Europeia não tinha uma falha, um esquecimento, que uma errata ou oito milhões de erratas supere. A Agenda Europeia só me fez lembrar a história que se contava há anos, antes da queda do comunismo: uma guia do Museu Hermitage, perante um quadro de uma Anunciação, explicava aos visitantes que o quadro representava o que acontecia no tempo dos czares, com uma camponesa forçada a ajoelhar perante uma representante da nobreza...
Felizmente, a Agenda Europa já nem no Hermitage pode ser oferecida.

Grupo de leitura "Amor e Responsabilidade"


GrupoAR

sábado, 22 de janeiro de 2011

Confundir para reinar

Aura Miguel
RR on-line 21-01-2011 07:50

A estratégia não é de agora e foi alvo de denúncias há mais de 15 anos pela Santa Sé. Em causa, a tentativa (bem sucedida) por parte de alguns ‘lobbies’ feministas e ‘gays’ em mudar, ao nível das legislações mundiais, algumas palavras de significado claro, por outras mais ambíguas. Por exemplo, em vez de “sexo”, passar a usar-se a palavra “género”.
Subjacente está a tentativa de eliminar as diferenças entre homem e mulher, considerando-as um mero condicionamento sócio-cultural. “Sexo” é uma palavra que sublinha a diferença entre homem e mulher, enquanto “género” é muito mais abrangente, porque em vez de apenas dois tipos – feminino e masculino – a nova expressão da moda abrange cinco: feminino, masculino, homossexual feminino, homossexual masculino e híbrido.
Em Portugal, a esquerda rasga as suas vestes por a nossa Constituição (escândalo dos escândalos…!) ainda usar a palavra sexo… e propõe uma nova formulação do artº 13º para se eliminar, de uma vez por todas, esta expressão ultrapassada…
A estratégia de confundir para reinar, sempre foi uma estratégia de poder. É por isso que é sempre bom saber o que está por trás das boas intenções daqueles que nos querem baralhar.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

ESCLARECIMENTO SOBRE A "APOLOGIA DO VOTO INÚTIL"

A recente publicação do texto ”Apologia do voto inútil”, no passado dia 17, obriga-me a prestar o seguinte esclarecimento:
1. Como claramente se afirma neste artigo, bem como no publicado na véspera na “Voz da Verdade”, o voto numa candidatura ideologicamente contrária à doutrina da Igreja - como seriam, por exemplo, o nazismo ou o comunismo - é, para um cristão, ilícita, por uma questão da mais elementar coerência. Mas, a votação numa candidatura que se assuma como representativa de valores compatíveis com o ideário cristão, é moralmente legítima para os católicos.
2. Contudo, a opção dos eleitores não se reduz à escolha de uma candidatura, pois também se pode realizar através de outras formas legítimas de participação cívica. Com efeito, muito embora todos os cidadãos e todos os cristãos estejam chamados a cumprir com o seu dever cívico no próximo dia 23, ninguém está moralmente obrigado a votar num dos candidatos, sobretudo se entender, como é legítimo que entenda, que não estão reunidas as condições para sufragar nenhum dos projectos presidenciais existentes, nomeadamente porque os seus princípios são inaceitáveis, ou a idoneidade moral dos prováveis eleitos não merece a sua confiança política.
3. Contra a lógica do «voto útil», não se deve portanto descartar o voto nulo, branco ou a abstenção. Note-se que não se diz que o recurso a este modo de participação democrática é o único legítimo para um cristão, pois expressamente se afirma que «é moralmente lícita a votação num candidato que, mesmo sendo defectível, é o menos mau dos possíveis ganhadores». Apenas se refere que aquela opção pelo «voto inútil» é a que resta para quem não tem outra, quer por não se rever em nenhuma das candidaturas viáveis, quer por não estar disponível para exercer o voto de conveniência.
4. A argumentação foi desenvolvida apenas e só no plano moral, como se constata pelas expressões usadas para este efeito: «axiomas éticos», «princípios», «discutível moralidade», «verticalidade», «leviandades», «vitória moral», «coerência ética», «moralmente lícita», «idoneidade moral», «princípios e valores permanentes», etc. Pelo contrário, não se nomeia nenhum candidato, nem nenhum partido político, precisamente para que o texto não pudesse ser usado contra ou a favor de nenhuma candidatura, na medida em que esse não era, manifestamente, o propósito que presidiu à sua elaboração.
5. Por último, muito embora todas as afirmações em apreço sejam coerentes com a doutrina da Igreja, que subscrevo na íntegra, e as recomendações dos senhores Bispos, a cuja autoridade gostosamente me submeto, não têm outro valor que não seja o de manifestar, com a liberdade que se supõe existir numa sociedade democrática, a livre opinião do autor, na justa medida em que o consente a sua condição eclesial, enquanto cidadão empenhado na construção de uma sociedade mais justa e solidária.
Gonçalo Portocarrero de Almada


Presidenciais e voto católico

Público, 2011-01-21  António Pinheiro Torres
É por reconhecer que tal eleitorado existe que diversas candidaturas vêm, de forma mais directa ou não, apelando ao voto

Conforme muitas e credenciadas vozes vêm afirmando, não se pode dizer que exista um eleitorado, ou um voto, católico, nem sequer simplesmente cristão, se por essa designação entendermos uma expressão eleitoral unitária de quem se afirma como sendo parte dessa confissão religiosa: ao longo dos anos e em Portugal ,os católicos exprimem-se em diferentes partidos e votam por diversas opções. Se atendermos aos resultados eleitorais, pode mesmo duvidar-se se muitos dos cristãos se darão ao trabalho de confrontar a sua escolha política com os princípios da sua fé (conforme a hierarquia da Igreja católica e algumas iniciativas de leigos sempre convidam nas vésperas de qualquer acto eleitoral) ...

Este facto, porém, não contradiz que dentro desse eleitorado que professa o cristianismo, ou no quadro mais amplo, e abrangendo quem não partilha essa fé, do centro-direita, não se venha afirmando ao longo dos anos um corpo eleitoral com um volume de voto estável (vejam-se o milhão e meio de votos "não" nos referendos do aborto). Com manifestações cívicas quantitativamente impressivas (petições populares a um ritmo médio de dois em dois anos que reúnem entre 80 e 200 mil assinaturas) e até, em alguns actos eleitorais, esporádicos movimentos uniformes (como a transferência de voto para o PP nas últimas Europeias).

É por reconhecer que tal eleitorado existe que diversas candidaturas nestas presidenciais (que não a que se prenuncia vencedora) vêm, de forma mais directa ou não, apelando ao voto daqueles que se identificam com a agenda agregadora deste povo: liberdade de educação e religiosa, vida e família, subsidiariedade. Ou tacitamente ("votem agora nesta e obriguem assim Cavaco Silva a ir à 2.ª volta") ou programaticamente ("votem em mim porque sou dos vossos ou defenderei as vossas ideias"). Em ambos os casos partindo da constatação que muito provavelmente uma parte desse eleitorado, pelo menos à 1.ª volta, não votará Cavaco Silva e expressar-se-á através dos votos nulo e branco, até noutras candidaturas, ou pela primeira vez em muitos anos abstendo-se.

Com a deslocação de voto do centro-esquerda a favor de Cavaco Silva parece quase certo este ganhará as eleições folgadamente à 1.ª volta. E por isso a 2.ª volta que seria inevitável com a falta de parte daquele eleitorado não sucederá muito provavelmente. Mas engana-se quem pense que as atitudes acima referidas de não voto na candidatura de Cavaco Silva possam ter origem nos apelos de outros candidatos. As suas origens estão em outro lado: na perplexidade com o desempenho do anterior mandato (a começar na questão do aborto e a terminar na incompreensão de que no diploma sobre o ensino particular o que estava em causa é a liberdade de educação e não um sistema de financiamento), na falta de correspondência entre o perfil humano e o rosto político que esse povo procura e na necessidade de começar um caminho indispensável para o futuro do centro-direita. O fim do voto cuja utilidade só existe para os actuais "donos" desta área política que sempre o dão por descontado e que depois o esquecem na prática política diária.
Ex-deputado do PSD, dirigente de movimentos cívicos

21 de Janeiro - Santa Inês

O milagre de Santa Inês (detalhe)
Tintoretto
ca. 1577
óleo sobre tela
Madonna dell' Orto
Veneza

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Esquerda propõe trocar "raça" e "sexo" por "etnia" e "género"

A propósito desta notícia como muito bem assinala  “O Carteiro” é importante ler a “Carta aos Bispos da igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo” escrita em 2004 pelo então Perfeito e Secretário da Congregação para a doutrina da Fé (Cardeal Ratzinger e Arcebispo Amato) e aprovada pelo Papa João Paulo II.

….
Nestes últimos anos têm-se delineado novas tendências na abordagem do tema da mulher.
Uma primeira tendência sublinha fortemente a condição de subordinação da mulher, procurando criar uma atitude de contestação. A mulher, para ser ela mesma, apresenta-se como antagónica do homem. Aos abusos de poder, responde com uma estratégia de busca do poder. Um tal processo leva a uma rivalidade entre os sexos, onde a identidade e o papel de um são assumidos em prejuízo do outro, com a consequência de introduzir na antropologia uma perniciosa confusão, que tem o seu revés mais imediato e nefasto na estrutura da família.
Uma segunda tendência emerge no sulco da primeira. Para evitar qualquer supremacia de um ou de outro sexo, tende-se a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural. Neste nivelamento, a diferença corpórea, chamada sexo, é minimizada, ao passo que a dimensão estritamente cultural, chamada género, é sublinhada ao máximo e considerada primária. O obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é grávido de enormes consequências a diversos níveis. Uma tal antropologia, que entendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico, acabou de facto por inspirar ideologias que promovem, por exemplo, o questionamento da família, por sua índole natural bi-parental, ou seja, composta de pai e de mãe, a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade, um novo modelo de sexualidade polimórfica…..

Público, 2011-01-20
A substituição do conceito de raça pelo de etnia e a de sexo por género são as principais propostas dos partidos de esquerda para a revisão do princípio da igualdade da Constituição. PSD e CDS-PP defendem a manutenção do artigo 13.º da lei fundamental como está, argumentando que a sua formulação é perceptível, embora os primeiros admitam a "vantagem de uma certa modernidade linguagem e de conceitos".

A Constituição estabelece naquele artigo que "ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual".

O PCP propõe a "eliminação da expressão ultrapassada" de "raça" por "origem étnica". O deputado do BE Jo- sé Soeiro sublinhou que "a raça é um conceito produzido pela ideologia fascista e colonialista", argumentando também pela vantagem de utilização da palavra "género" em lugar de "sexo". Estas propostas tiveram o apoio da vice-presidente da bancada do PS Ana Catarina Mendes.

O deputado do PSD Marques Guedes afirmou que "pode-se admitir a vantagem de uma certa modernidade linguagem e de conceitos", mas fri- sou que "só continua a haver sexo mas- culino e feminino". Antes disso, o PSD defendeu a inclusão da promoção da solidariedade entre gerações como uma das tarefas fundamentais do Estado (artigo 9.º) - que foi aceite pelos deputados -, e o PCP propôs a promoção da integração dos cidadãos imigrantes na sociedade portuguesa. O PS e o PSD mostraram-se renitentes à proposta comunista por abrir o artigo sobre os deveres fundamentais a "questões e segmentos da população tão específicos", que até estão incluídos em outros artigos da Constituição e que visam "políticas sectoriais". com Lusa

20 de Janeiro - S. Sebastião

Martírio de S. Sebastião
Antonio Pollaiolo 
1475
Óleo sobre choupo 291.5 x 202.6 cm
The National Gallery
Londres

Os bons velhos tempos

Público 20110120 Helena Matos
Como é óbvio, os portugueses não viviam melhor há 40 anos. Há 40 anos os portugueses viviam com o que tinham

Um grupo de empresários resolveu patrocinar um projecto designado Farol do qual fazia parte um inquérito aos portugueses. O resultado do inquérito foi aparentemente inesperado: 46 por cento dos inquiridos consideraram o actual cenário económico e social pior, ou muito pior, do que aquele que se registava há 40 anos, ou seja, antes do 25 de Abril; 74 por cento acha que o Estado deve contribuir sempre para a competitividade e o desenvolvimento de Portugal; e mais de metade, 54 por cento, diz que não estaria disposto a lançar um negócio próprio. Ou seja, de repente estava diante de nós um país que, tal como há 40 anos, parece continuar a não dar valor à liberdade política, que acha que o Estado deve ter um papel activo na economia e em que, para cúmulo, até o passar a ser patrão de si mesmo deixou de ser, como foi há 40 anos, um sonho de ascensão social que levou milhares de portugueses dotados de poucas habilitações e muita vontade de romper a pobreza familiar a erguerem empresas por todo o país e nos locais pa- ra onde emigraram.

Uma vaga sensação de incómodo acompanhou estes resultados. Quase como aquele remorso que se instala nos jornais sempre que se constata que faleceu um dos capitães que nos idos de 74 deu a voz pelo MFA e que com o tempo foi ficando esquecido. Mas dificilmente os resultados podiam ser outros, pois a democracia assentou o seu discurso fundacional não em como poderíamos ser um país mais rico, mas sim no combate à desigualdade e aos ricos, desígnio que pode satisfazer ímpetos justiceiros e alguma inveja, mas que nunca fez dos pobres menos pobres. Todo o esforço da democracia foi concentrado não em promover a livre iniciativa, mas sim em fazer dos portugueses utentes de serviços públicos que legitimavam o seu crescimento através desse combate à desigualdade. Consequentemente, o Diário da República transformou-se num novo Génesis de algo a que chamou justiça social: decretos, leis e portarias construíram um edifício legal que durante muito tempo nos disseram ser dos mais avançados do mundo, em que tudo e mais alguma coisa se pro- metia e garantia. Era como se bastasse escrever para ter. Não bastava, como agora se vê.

Esse discurso fundador do regime pós-74 desenvolveu-se em duas linhas preferenciais de argumentos: a demonização do passado e a promessa de crescentes benesses materiais. Naturalmente, quando estas últimas falham, o olhar sobre o passado altera-se. E assim o imenso período geralmente designado como "antes do 25 de Abril", sobretudo o dos governos de Marcelo Caetano, está para os portugueses como a Natureza para aqueles desiludidos da abundância que um dia trocam a civilização por aquilo que eles acham ter sido a saudável vida doutros tempos e que acabam a ter de ser resgatados mais mortos do que vivos dumas situações de risco em que ingenuamente caem.

Como é óbvio, os portugueses não viviam melhor há 40 anos. Há 40 anos os portugueses viviam com o que tinham. E que era geralmente pouco, porque pouco se tinha e também porque mesmo nos meios onde o dinheiro abundava a regra de vida era austera. Há 40 anos os portugueses sabiam que viviam um pouco melhor do que a geração dos seus pais e tinham como inquestionável que os seus filhos e netos viveriam melhor do que eles. Há 40 anos os por- tugueses achavam que "o Marcelo" dava reformas, escolas, estradas e criticavam-no por não dar mais. Como se o dinheiro desse dito "dar" não saísse do bolso dos portugueses.

Quarenta anos depois, os portugueses mantêm viva a mesma separação entre o dinheiro dos seus impostos e aquilo que os governantes decidem. Em alguns casos mantêm até uma linguagem igual àquela que se usava há 40 anos - ainda esta semana uma secção local de um partido, no caso do PS, mas podia ser outro qualquer, distribuiu um folheto onde se congratula porque uma autarquia por si presidida "presenteou" uma determinada freguesia com uma biblioteca. "Presenteou"? Há 40 anos não se escreveria doutro modo!

Os governos dão e os povos acham que eles podem dar mais. E ameaça-se com contestação porque os governos estão a tirar o que tinham dado. É neste logro do dar e do tirar que temos passado as últimas décadas. Foi necessário chegar-se a 2010 e à respectiva crise para que se estabelecesse uma relação entre a coluna do deve e a coluna do haver na nossa concepção do Estado. Mas trata-se ainda duma relação ténue e sobretudo coluna alguma relaciona por enquanto as decisões de cada um e a situação do país. E contudo essa relação tem de ser estabelecida, pois, ao contrário do que sucedia há 40 anos, os portugueses têm hoje acesso a informação mais do que suficiente para terem consciência de que usufruem de um padrão de vida muito superior ao daqueles que os antecederam mas que sabem estar muito acima das suas posses reais. Sabem também que os seus filhos irão viver pior, quanto mais não seja porque vão ter de pagar por largos anos aquilo de que os pais usufruíram. Os filhos e os netos de quem teve emprego blindado para toda a vida, mesmo que não trabalhasse nada, são agora eternos trabalhadores a recibos verdes, sem direito a subsídio de desemprego e, para cúmulo, obrigados a descontar para uma segurança social cujos recursos não são suficientes para cobrir todo o pacote de garantismos que se consideraram inerentes à democracia.

Desta traição geracional não é apenas responsável quem nos governou e governa nos últimos 40 anos, mas todo um povo que se desresponsabilizou na ditadura e na democracia de cada vez que fez de conta que acreditava que os governantes davam e que achou que aquilo a que chamavam os seus direitos seria pago por quem calhasse, quando calhasse e na forma que calhasse. Mas as facturas, sobretudo as dos pobres, caem sempre na respectiva caixa do correio. E quando o destinatário já não reside lá fica ao cuidado dos seus filhos.

Os bons velhos tempos nunca existiram. Tal como nunca existiu o bom jornalismo de outrora, que, na verdade, se traduzia nuns textos presunçosos e dogmáticos. Tal como nunca existiram as pessoas cheias de saúde do antigamente, que, na realidade, apenas tinham muita saúde porque morriam cedo. O que existe é o tempo que nos coube e em que, como de costume, preferimos efabular sobre o passado a interrogarmo-nos sobre que presente estamos a construir. Ensaísta

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Petição contra o aborto no aniversário do referendo 2007

Caros amigos: no próximo dia 11 de Fevereiro ocorre o 4º aniversário do segundo referendo do aborto.
Estamos a preparar várias acções para assinalar a data, denunciar o escândalo desta lei (ver os números, quase 60 mil neste momento, 53 por dia desde o inicio da lei!, em:
http://www.federacao-vida.com.pt/estudos/index.htm) e afirmar bem alto o Direito à Vida de todos os seres humanos.

Entre essas acções pretendemos uma que consiste na entrega na Assembleia da República de uma Petição que pode depois ser retomada por deputados como os que nos vem acompanhando nestes tempos e no próprio plenário do hemiciclo provocar esta discussão e iniciativas legislativas condizentes.

Para isso precisamos de reunir entre 4 e 5 mil assinaturas nas três semanas que nos separam da data uma vez que a iniciativa e a data nos proporcionam uma ocasião mediática que permite a questão salte para a discussão pública.
Depende de cada um que tal suceda.

A Petição está em: http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N5620.

Este é um daqueles momentos decisivos em que não podemos falhar fazendo jus às nossas convicções.
Assinem desde já, façam assinar à vossa volta, divulguem, por favor.

A Vida conta convosco. O Direito à Vida depende de todos nós.

Um abraço do
Antonio Pinheiro Torres

Frase do dia

Cínico é aquele que sabe o preço de tudo mas não sabe o valor de nada
Oscar Wilde

Disconnect to connect

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Olhar o passado

Raquel Abecasis
RR on-line 17-01-2011 08:20

Nos últimos dias encontrei dois exemplos antagónicos de lidar com a crise, que merecem ser contados.
A meio da semana, um homem de quarenta e poucos anos, com fracas habilitações e especializado em arranjos caseiros queixava-se de lhe ter sido retirado o subsídio de desemprego. Perante este cenário, a reacção foi: "E agora não sei como é que eles querem resolver a situação”.
A possibilidade de aceitar um trabalho, ainda que não remunerado de acordo com os antigos critérios ou com um contracto seguro, estava para este homem liminarmente afastada.
Poucos dias depois, outra pessoa comentava que quem agora fala de crise não sabe o que foi há 35 anos perder toda uma vida construída em Africa e recomeçar do zero num país longínquo. Para essa pessoa, a crise de que agora falamos é uma crise relativa.
Nestes dias, como nos anos 70, temos muito a aprender com estas pessoas que com a sua coragem e determinação ajudaram a reconstruir Portugal. Para estes não houve subsídios nem outras regalias e nem por isso o seu e o nosso futuro ficou hipotecado.
Talvez esta crise tenha o mérito de tornar os portugueses mais adultos e responsáveis, porque essa foi uma tarefa que nem o 25 de Abril nem a adesão à Europa conseguiram cumprir por estas bandas.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Apologia do voto inútil

Público 2011.01.17  Gonçalo Portocarrero de Almada
O voto numa candidatura sem possibilidades reais de vitória ou a abstenção afiguram-se ser as opções mais coerentes

Em tempos de eleições presidenciais, legislativas ou autárquicas, é recorrente o recurso ao argumento do voto útil. Na gíria política, entende-se por voto útil a escolha do candidato ou do partido que, mesmo não reunindo as condições que o eleitor desejaria sufragar, é, no entanto, o menos mau dos candidatos com hipóteses de ganhar. Na perspectiva eleitoral, o voto num partido ou candidato que nunca poderá vencer é sempre um voto perdido ou, pior ainda, um voto nas candidaturas que ficariam beneficiadas com a inutilidade prática desse voto idealista.

À medida que se aproxima um acto eleitoral, esfumam-se os axiomas éticos e os princípios, que cedem o seu lugar à pressão das sondagens e das conveniências do momento, quase sempre apresentadas como inadiáveis exigências de salvação nacional. À conta desses pretensos imperativos de ordem pública, engolem-se não poucos sapos e conspícuos cavalheiros travestem-se ideologicamente, em malabarismos de rara acrobacia e discutível moralidade. E quem não se disponibilizar para uma tal cambalhota eleitoral e decidir não vender, nem hipotecar, o seu voto, é certo e sabido que pagará cara a factura da sua verticalidade: à partida é, pelo menos, um utópico e, à chegada do desastrado resultado eleitoral que a sua atitude propiciou, é um cúmplice do inimigo, um traidor.

É sabido que a história do voto útil tem barbas. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o voto útil funcionou a favor de duas grandes forças extremistas. Quando a Alemanha se encontrava numa muito delicada situação interna e externa, os nazis apareceram como a força mais eficaz para deter o triunfante bolchevismo, que ameaçava a liberdade alemã e europeia. É certo, em termos históricos, que muitos dos apoiantes de Hitler o fizeram à conta do voto útil: mesmo não concordando com as teses nazis, entenderam que essa era a única força política capaz de deter o comunismo internacional e, por isso, deram-lhe o seu voto. Em sentido contrário, o voto útil também funcionou a favor do bolchevismo que, para muitos antinazis, parecia ser o mal menor ou, pelo menos, a única estrutura partidária com força suficiente para se opor, com eficácia, ao nacional-socialismo. Mas é óbvio que tanto uns como os outros, quer votando de olhos fechados em Hitler, quer dando o seu contrariado voto aos seguidores de Estaline, favoreceram as respectivas tiranias e votaram contra a liberdade, a democracia e o bem comum. Os seus votos foram úteis, sem nenhuma dúvida, mas para o mal.

Não é só na vida privada que o crime não compensa, porque também na vida política essas leviandades pagam-se caras, como sabem os que sofreram a ditadura nazi na Alemanha, ou os que padeceram os horrores do comunismo na Rússia e nos outros países que também viveram, ou ainda vivem, sob a ditadura do proletariado. Na realidade, tanto os que sufragaram Hitler como os que apoiaram Estaline perderam, porque a vitória moral e política foi daqueles "inúteis" que souberam privilegiar uma atitude de coerência ética, sem se deixarem intimidar pelos falsos argumentos de uma suposta utilidade nacional ou internacional.

Se, por absurda hipótese, houvesse que escolher entre Estaline e Hitler, seria caso para dizer que venha o diabo e que escolha porque, por mais útil que fosse votar em Hitler, para que Estaline não pudesse ganhar, ou votar em Estaline, para que Hitler não saísse vencedor, seria sempre uma escolha dos diabos. E a quem o não seja, só lhe resta uma hipótese digna: não votar em nenhum dos dois, por mais inútil que uma tal atitude pudesse parecer.

Em Portugal, Hitler e Estaline não vão a votos, felizmente, e portanto é moralmente lícita a votação num candidato que, mesmo sendo defectível, é o menos mau dos possíveis ganhadores. Mas o voto numa candidatura sem possibilidades reais de vitória ou a abstenção, quando são escassas as garantias de idoneidade moral dos prováveis eleitos, afiguram-se ser as opções mais coerentes para quem, na sua vida pessoal e na sua actuação pública, não se pauta por conveniências contingentes, mas por princípios e valores permanentes. Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)

A geração da crise

DN 2011-01-17
JOÃO CÉSAR DAS NEVES
Pela primeira vez, há mais de 50 anos, Portugal terá uma geração a viver pior que a anterior." Esta é uma frase que, com algumas variantes, ouvimos frequentemente. Pode até ser o chavão da crise, que se assume como estrutural.
É bom notar que nos últimos 50 anos nunca se disse que as gerações viviam melhor que as anteriores. O que se ouvia eram queixas, lamentos, protestos. Agora, que supostamente se perdeu aquilo que é tão precioso, finalmente notamos a sua existência.
Mas como é que se sabe isto? Qual o fundamento para uma afirmação tão clara e dramática? Uma geração abarca muito tempo e, formulada assim, esta conclusão tem consequências vastas e abrangentes. Será mesmo verdade que o que sabemos nos permite conclusões sobre a dinâmica geracional?
De facto a frase não resiste a inspecção detalhada. Começa logo por se basear no conceito vago e indefinido de "geração". Depois nem sequer clarifica se a comparação é com a actual, a anterior ou a seguinte. De facto não pode ser uma constatação. Os insuspeitos dados europeus (séries AMECO, preços de 2000) dizem-nos que Portugal em 2010 produziu mais 6,7% que em 2000 e o rendimento nacional subiu 5%, estagnando em valores por pessoa. A actual geração não perdeu face à anterior.
Assim tem de ser uma previsão: vamos viver pior que antes. Isso, aliás, encaixa num outro oráculo hoje recorrente: "Esta crise vai demorar mais de dez anos a corrigir." Ainda uma previsão arbitrária, certamente inspirada pelo mesmo pessimismo endémico que nos impediu de reconhecer os ganhos dos últimos 50 anos. Determinar quando a crise estará resolvida é algo que ninguém hoje pode seriamente fazer. As rupturas de 1977 e 1983 foram solucionadas em dois ou três anos; mas as de 1560, 1605, 1837, 1847 e 1892 demoraram várias gerações. Esta deverá ficar no meio dessas.
O que tem mais graça em toda esta discussão é que aqueles que são tão rigorosos a afirmar uma data remota e contingente costumam ser incapazes de responder com clareza a duas questões muito mais simples e directas: quando começou esta crise? Quando começa a recuperação?
Uma crise nunca começa quando se sente, mas quando surge o desequilíbrio que a provoca. Como uma bebedeira, é na euforia da festa que nasce o problema. A questão central desta é a habitual: o endividamento externo. Estamos há muito a viver acima das nossas posses e os credores perderam a paciência. Ora isso começou numa data precisa: 1996. A balança externa (saldo corrente e de capital) andou praticamente equilibrada nos dez anos anteriores e então começou a derrapagem que ainda não está resolvida. A dívida externa, que era de 8% do PIB nessa data, anda hoje acima dos 110%. Foi nestes 15 anos que Portugal se transformou num país viciado em crédito externo. Quase uma geração.
O segundo momento decisivo é quando acaba a festa e começa a ressaca, surgindo os sacrifícios que curam o desequilíbrio. E esse instante tem também uma resposta evidente: ainda não começou. O défice externo continua igual e a dívida continua a subir. O que o Governo celebrou na semana passada foi o sucesso de um leilão de mais dívida.
O que temos são promessas de austeridade e luta de interesses para evitar a dureza. Quando saírem os dados fiáveis deste últimos meses, o mais provável é que mostrem mais despesa, com a corrida a aumentos, promoções e outros expedientes. A única coisa que este ano já trouxe foi subida de impostos, que tivemos repetidamente nestes 15 anos, sem que isso significasse qualquer correcção real.
A origem da crise é patente: largas franjas da sociedade portuguesa retiram dela muito mais do que contribuem. Não quer dizer que produzam pouco, mas que ganham mais que isso. Muitos só atrapalham e desperdiçam. O mecanismo central desse processo é indiscutivelmente o Orçamento do Estado, que inchou até metade do PIB.
A crise fica resolvida em meses ou sacrifica várias gerações. A resposta depende da data em que esta geração abandonar a pantomima dos últimos anos que, finalmente, já não convence ninguém.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

domingo, 16 de janeiro de 2011

VOTAR EM CONSCIÊNCIA

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Voz da Verdade, 2011-01-16
Os católicos têm a mais absoluta liberdade de voto, pois só em circunstâncias de excepcional gravidade a Igreja, através da voz autorizada da sua hierarquia, pode exigir aos seus fiéis que exerçam esse direito de uma forma concreta. Mas não sendo este o caso, na medida em que o episcopado não se pronunciou nesse sentido, cada cidadão cristão está chamado a decidir, em consciência, a modalidade da sua participação no próximo acto eleitoral.
Que a Igreja respeite a liberdade política dos seus crentes não quer dizer que esta decisão não tenha relevância moral, nem que seja indiferente votar ou não e, votando, apoiar qualquer candidato ou partido. Muito pelo contrário. Os cristãos também têm toda a liberdade matrimonial e profissional, mas a escolha do cônjuge ou do ofício não são indiferentes, como também a prática laboral ou a vivência conjugal se devem pautar por exigências éticas. E casos haverá em que determinadas situações – como é o caso do aborto, por exemplo – ainda que legais, não são admissíveis para um católico, porque incompatíveis com o seu padrão moral.
No panorama eleitoral português há várias opções, mas não se vislumbra nenhuma que corresponda aos principais valores cristãos, como são, entre outros, a vida, que a Igreja defende desde a concepção e até à morte natural; o casamento, entendido como a união indissolúvel entre um homem e uma mulher; a família e a educação. De facto, a maioria das propostas eleitorais são assumidamente favoráveis ao aborto, à eutanásia, ao divórcio, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e são também contrárias à liberdade de educação. Por outro lado, a candidatura ideologicamente mais próxima dos valores humanistas está, à partida, descredibilizada junto do eleitorado cristão, pelo seu reiterado apoio às leis anti-vida, anti-casamento e anti-família.
De acordo com o princípio evangélico – dê-se a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus – não seria desejável a existência de um partido ou candidato oficialmente católico, porque um tal absurdo seria uma expressão do mais anacrónico clericalismo que, para além de coarctar a liberdade política dos católicos, atentaria contra a natureza sobrenatural da Igreja que, como é sabido, não tem ambições temporais. Mas seria de esperar que, num país de tão arreigadas tradições cristãs, se apresentassem vários candidatos que, pela sua ideologia humanista e a sua consequente prática política, pudessem constituir uma opção legítima para o eleitorado que se identifica com os princípios da Doutrina Social Cristã e procura quem possa viabilizar as suas aspirações de justiça e de solidariedade social.
Não sendo este o caso, os cristãos coerentes ver-se-ão assim na contingência de se absterem; de votarem em branco; de votarem contra a sua consciência, se o fizerem em forças políticas assumidamente anti-cristãs; ou à margem da sua consciência, se votarem em quem, mesmo professando, em teoria, os princípios cristãos, na prática favoreceu uma política contrária aos princípios éticos e ao bem comum, nomeadamente viabilizando o aborto, o divórcio e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Se o voto contra a consciência é sempre reprovável, é eticamente aceitável, num contexto de mal menor, votar no menos mau dos candidatos, embora seja um voto à margem da consciência.
Votar em consciência é um imperativo ético para todos os cidadãos, mormente para os cristãos. Mas, que fazer quando a consciência – por falta de ciência ou por falta de coerência – não se apresenta às eleições?!
P. Gonçalo Portocarrero de Almada  

Pobre Wikipedia

Público 2011-01-16 Miguel Esteves Cardoso

A Wikipedia fez anos. Que conte muitos. Pergunta-se se é fiável ou não. Se acerta mais vezes do que erra. Se é bom. Mas não é essa a melhor pergunta. É natural que as pessoas educadas gostem da Wikipedia, porque têm muitas outras fontes, muito mais fidedignas, às quais recorrem - até para saber onde é que a Wikipedia falhou.

Em 1978, Brian Chapman, que foi meu tutor na Universidade de Manchester, desentusiasmou-me sabiamente dos meus excessos de estudo, dizendo-me que uma educação universitária consistia em, número um, ensinar-nos "how to look things up" e, número dois, em "how to look at the things you"ve looked up".

É intraduzível e isto diz muito sobre a cultura portuguesa, em que as bibliotecas sérias são fechadas e os livros têm de ser requisitados, não sendo permitido que se deambule livremente pelas estantes, tirando, para levar para casa durante o tempo que for preciso, os livros que quisermos, com um limite generoso de 10 ou de 20.

Por isso associo sempre livros, livres e liberdade. "To look up" é, ridiculamente, "consultar". É "ir ver" aos livros. Não tem o sentido de encontrar e descobrir (um tesouro) que tem "look up".

Ai de quem dependa só da Wikipedia, por muito bom que seja (ainda é uma semimerda). Ai de quem não souber como verificar se é ou não. E, sobretudo, ai de quem não tiver, em livros ou online (embora só 5 por cento dos livros estejam online), maneira de se safar sem a Wikipedia. É essa a pobreza.