quinta-feira, 31 de março de 2011

Legítima defesa

DN 2011-03-31 VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Portugal atingiu o seu ponto mais baixo desde a instauração da III República. A integridade da sua economia, incluindo as suas empresas exportadoras e os seus bancos, a segurança das poupanças dos cidadãos particulares, a expectativa de emprego da juventude, a boa reputação do País nos meios diplomáticos e culturais externos, tudo isso que constitui o precioso capital material e simbólico de uma nação está hoje manchado de opróbrio. Portugal é vítima da sua própria liderança política. A mais incompetente, tanto técnica como moralmente, desde os tempos do terrorismo urbano da I República.
A culpa não é anónima. O primeiro-ministro (PM) resolveu conspirar abertamente contra o interesse nacional, ao abrir, em 11 de Março, uma crise política com o intuito de esconder ao País que nenhuma das medidas levadas a cabo pelo seu Governo nos iria livrar de pedir o apoio do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF). Com um obrigatório e doloroso "ajustamento macroeconónico", implicando a entrada em cena das regras e dos dinheiros do FMI. O PM quis passar o ónus da culpa para a oposição. E esta, com a cumplicidade do Presidente da República, caiu na cilada. O Parlamento, em vez de censurar o comportamento anticonstitucional do PM, acabou por votar contra o PEC IV, num claro tiro ao lado.
O mais lúcido estadista português vivo, Adriano Moreira, já advertira há muitos anos para o nosso maior perigo colectivo: um défice de confiança gerado nas altas esferas que acabaria por tornar o Estado completamente exíguo. O sistema político implodiu. Os portugueses estão hoje entregues a si próprios, num limbo de incerteza e perigo. Refundar a República tornou-se uma questão de legítima defesa.

Frase do dia

Quem não está comigo está contra mim, e quem não junta comigo, dispersa
Lc 11, 23

quarta-feira, 30 de março de 2011

Acordo

DESTAK |30 | 03 | 2011   20.11H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Portugal tem uma crise financeira urgente, uma crise económica estrutural e uma crise social latente. Mas o que ocupa todos é a lúdica crise política. Nessa, o mais espantoso é dizer-se que a demissão do Governo marca o início do combate, quando realmente assinala um compromisso e acordo de cavalheiros.
Nos últimos meses viveu-se uma magna encenação, em que cada discurso dizia precisamente o inverso do desejo íntimo do orador. O Governo estava ansioso por ser derrubado, para se libertar do aperto crescente da falência; mas não mostrava tal desejo, querendo poder acusar a oposição disso. A Oposição queria que o Governo se mantivesse em funções, acumulando o odioso da austeridade, mas sem pretender as culpas da sua manutenção.
Esta comédia de enganos tinha uma data limite: o pedido de ajuda externa. O jogo acabaria quando fosse imperioso chamar o FMI, a fatídica ameaça que José Sócrates repetidamente demonizava, assegurando que a exorcizara. O jogo de nervos subia de tom, cada lado atirando a culpa para o outro.
No dia 23, o acordo. O Governo subiu a parada de austeridade para lá do admissível e a Oposição aceitou a responsabilidade pelo derrube político. Assim os dois lados dividiram as culpas e, melhor de tudo, abriram um período intermédio, uma terra de ninguém, onde se chamará o FMI e as medidas duras, sem que ninguém possa ser acusado. O actual Governo, que pede a ajuda, dirá que o fez forçado pela irresponsabilidade de quem o derrubou. O próximo aceitará o facto consumado de que se dirá inocente.

terça-feira, 29 de março de 2011

Montesquieu

Miguel Morgado
RR online 29-03-2011 10:30

Por estes dias chega às nossas livrarias a edição crítica de uma das maiores obras da história da filosofia política, "O Espírito das Leis", de Montesquieu.
Publicado em 1748 sob anonimato, "O Espírito das Leis" exerceu imediatamente uma vasta influência por toda a Europa. É que Montesquieu é muito mais do que a doutrina da separação de poderes que o imortalizaria e que ele, de resto, não inventou.
Durante a Revolução francesa, foi reclamado por republicanos e por monárquicos. Na Revolução americana, e para desgosto de Jefferson, a sua ubíqua figura multiplicou os discípulos. E marcaria uma presença inconfundível nas páginas de gigantes como Hegel, Burke, Constant, Tocqueville, Guizot, Beccaria ou Adam Smith.
Não é difícil perceber o segredo deste sucesso. Com imensa sabedoria e elegância literária, Montesquieu redigiu aquele que é provavelmente o livro mais completo e abrangente jamais escrito sobre política. Nele são abordados temas novos como a condição sócio-política da mulher ou o que muito mais tarde veio chamar-se «globalização», além de outros muito mais antigos como as formas de governo e a arte da guerra.
Fala-se de história, de direito, do clima, da geografia, de economia, de religião. Medita-se sobre a estrutura familiar, a demografia e a liberdade política. Discute-se a diversidade do mundo e reflecte-se sobre a natureza do homem.
Hoje continua a ser necessário ler Montesquieu. Porque ele ensina-nos a considerar os problemas políticos e as suas putativas soluções pela perspectiva irrecusável da moderação. Porque nos põe a pensar e nos convida a deixar para trás o sectarismo ideológico. Porque nunca nos esconde a tremenda complexidade dos assuntos humanos e protege-nos sempre das vozes dos «terríveis simplificadores».

Ver ou não ver o filme Camino?

Caros amigos:
Venho pedir desculpa a todos quantos iludi ou confundi com a divulgação do comentário apreciativo ao filme “Camino” da autoria do crítico de cinema João Lopes e que podem ver aqui.
A minha atenção foi despertada pelo entusiasmo de dois amigos de juízo sólido e seguro que, separadamente me referiram o filme como a ir ver.
A reacção de leitores fiéis não se fez esperar muito e logo na segunda feira de manhã fiquei a saber o logro em que tinha caído e enganado os leitores do Povo.
Um outro amigo meu, com quem falei à tarde, foi ontem mesmo ver o filme e sem mais, deixo-vos com o seu comentário:

CAMINHO
É o que percorremos até chegarmos a Ele.
Sendo o título do filme, evocando o livro de S. Josémaria  Escrivá, não é o verdadeiro nome da protagonista, Alexia. Começando com uma mentira só pode acabar com outra, um sofá vazio.
Feita esta ressalva, na sequência do aviso maldosamente inicial, HISTÓRIA BASEADA EM FACTOS REAIS, passo a contar:
Fiquei intrigado com a sugestão para ir ver um aclamado filme espanhol (de Javier  Fesser) que contava a história de uma menina sobre a qual decorre um processo de beatificação, que me foi recomendado ver por fontes muito diversas (opostas mesmo);  como recentemente um filme de inspiração cristã “dos Homens e dos Deuses” (de Xavier Beauvais)  tinha sido unanimemente aclamado, pensei para comigo que algo de bom podia estar a acontecer no cinema europeu. Mais intrigado fiquei quando me disseram que os anteriores filmes deste realizador de católico tinham pouco.
Vi um filme muito bem feito, mas profundamente MAU.
Como referi, logo nos momentos iniciais da projecção aparece o tal aviso que costuma vir no fim, mas que aqui está estrategicamente no princípio para vermos o filme condicionado pelo aviso (afirmando que se baseia em factos reais), a mãe da Alexia é posta aos nossos olhos com requintes de beatice associadas a malvadez, o pai com o bonzinho mas cheio de dúvidas em Deus, a irmã uma numerário da Opus Dei (o que será verdade) mas com a necessária frieza “imposta” pela Obra, e como se toda estas inverdades não bastassem inventam um namorado (que nunca existiu) de nome Jesus. Estão já a imaginar os trocadilhos que o artista faz com Deus e o namorado.
O que move uma pessoa a mentir tanto, dizendo que conta uma história verdadeira? Que necessidade tem em ferir tanto aquela família? Para dizer que não acredita em Deus basta-nos contar a verdade sobre a sua própria vida, o que se passou para perseguir com tanto empenho a Cristo?
Apenas vos conto a cena da morte de Alexia, tem requintes de malvadez e mentira. É narrada ao mesmo tempo que uma peça de teatro (Cinderela), a mãe e o capelão do hospital também encenam, ambas têm muita gente a assistir, acabam com as plateias a bater palmas. Esta cena das palmas é uma enorme mentira, não se passou assim de facto (até nas palavras de Fesser), que imaginação malévola,  por um monte de gente a bater palmas aos pés de uma menina com um olhar tão doce que morre em paz. Escusado será contar, porque já todos adivinharam, que Camino será recebida quando morre pelo namorado, aprendiz de pasteleiro que se chamava Jesus numa cena idílica com muita música e flores.
Um filme a ver com muitas reservas.

Miguel Mesquita Guimarães
um critico irrequieto

PS- uma pergunta para o “colega” João Lopes, porque raio acha que sendo Portugal um pais de tradição católica (como o afirma) este filme tão cristofóbico tem enorme potencial? comercial que seja. Cheira-me a mais do mesmo. Já agora, pergunte lá porquê a classificação quanto ao género de: drama e comédia, eu nunca tive vontade de me rir. 

A ler também esta crítica no site do Fantasporto e este comentário no site da Opus Dei e ainda um comentário no Facebook

Finalmente, pedindo mais uma vez desculpa por ter induzido os leitores do Povo em erro, sugiro que não vão ver o filme, a não ser para quem tenha o estofo e queira perceber como é que o talento pode ser posto ao serviço de um propósito malicioso, mesmo maligno.
Um abraço com amizade
Pedro Aguiar Pinto

Conferência de preparação para a Beatificação do Papa João Paulo II por Aura Miguel





A Fundação convida todos os seus amigos para a Conferência de preparação para a Beatificação do Papa João Paulo II,
no próximo dia 1 de Maio, em Roma.

Esta conferencia terá lugar na sede da Fundação, no próximo dia 30 de Março, pelas 21:00h.

A oradora é a nossa muito querida amiga
Aura Miguel
JOÃO PAULO II

Que significa ser cristão hoje?


CCLPH mail anuncio 31 Março 2011

Inauguração da Maternidade-Escola em Dili, Timor Leste (4-08-2010)





Uma maternidade escola, construída com apoio da Fundação Mater-Timor, de iniciativa do Patriarcado de Lisboa, e entregue à Diocese de Díli, foi hoje inaugurada na capital timorense pelo Presidente da República, José Ramos-Horta.
4-08-2010

segunda-feira, 28 de março de 2011

A culpa

Jornal Económico 28/03/11 00:03 | António Bagão Félix 
A culpa de não haver PEC 4 é do PSD e do CDS. A culpa de haver portagens nas Scuts é do PSD que viabilizou o PEC 3. A culpa do PEC 3 é do PEC 2. Que, por sua vez, tem culpa do PEC 1.

Chegados a este, a culpa é da situação internacional. E da Grécia e da Irlanda. E antes destas culpas todas, a culpa continua a ser dos Governos PSD/CDS. Aliás, nos últimos 16 anos, a culpa é apenas dos 3 anos de governação não socialista.
A culpa é do Presidente da República. A culpa é da Chanceler. A culpa é de Trichet. A culpa é da Madeira. A culpa é do FMI. A culpa é do euro.
A culpa é dos mercados. Excepto do "mercado" Magalhães. A culpa é do ‘rating'. A culpa é dos especuladores que nos emprestam dinheiro. A culpa até chegou a ser das receitas extraordinárias. À falta de outra culpa, a culpa é de os Orçamentos e PEC serem obrigatórios.
A culpa é da agricultura. A culpa é do nemátodo do pinho. A culpa é dos professores. A culpa é dos pais. A culpa é dos exames. A culpa é dos submarinos. A culpa é do TGV espanhol. A culpa é da conjuntura. A culpa é da estrutura.
A culpa é do computador que entupiu. A culpa é da ‘pen'. A culpa é do funcionário do Powerpoint. A culpa é do Director-Geral. A culpa é da errata, porque nunca há errata na culpa. A culpa é das estatísticas. Umas vezes, a culpa é do INE, outras do Eurostat, outras ainda do FMI. A culpa é de uma qualquer independente universidade. E, agora em versão pós Constâncio, a culpa também já é do Banco de Portugal. A culpa é dos jornalistas que fazem perguntas. A culpa é dos deputados que questionam. A culpa é das Comissões parlamentares que investigam. A culpa é dos que estudam os assuntos.
A culpa é do excesso de pensionistas. A culpa é dos desempregados. A culpa é dos doentes. A culpa é dos contribuintes. A culpa é dos pobres.
A culpa é das empresas, excepto as ungidas pelo regime. A culpa é da meteorologia. A culpa é do petróleo que sobe. A culpa é do petróleo que desce.
A culpa é da insensibilidade. Dos outros. A culpa é da arrogância. Dos outros. A culpa é da incompreensão. Dos outros. A culpa é da vertigem do poder. Dos outros. A culpa é da demagogia. Dos outros. A culpa é do pessimismo. Dos outros.
A culpa é do passado. A culpa é do futuro. A culpa é da verdade. A culpa é da realidade. A culpa é das notícias. A culpa é da esquerda. A culpa é da direita. A culpa é da rua. A culpa é do complexo de culpa. A culpa é da ética.
Há sempre "novas oportunidades" para as culpas (dos outros). Imagine-se, até que, há tempos, o atraso para assistir a uma ópera, foi culpa do PM de Cabo-Verde.
No fim, a culpa é dos eleitores, que não deram a maioria absoluta ao imaculado. A culpa é da democracia. A culpa é de Portugal. De todos. Só ele (e seus pajens) não têm culpa. Povo ingrato! Basta! Na passada quarta-feira, a culpa... já foi.


Caldo de léria

DN 2011-03-28  João César das Neves
Muita gente anda compreensivelmente angustiada com a situação nacional. Estranha é a quantidade de pessoas que se dizem desorientadas, sem ver saída. A crise é grave, mas a solução é fácil. São só três coisas simples: deixar-se de tretas, apertar o cinto e trabalhar mais. A mais difícil é a primeira.
Vivemos há anos mergulhados em caldo de léria. Por exemplo, nesta grave crise existe uma pessoa imaculadamente inocente: José Sócrates. O senhor primeiro-ministro, que há seis anos só executa políticas excelentes, reformas decisivas com resultados históricos, não tem culpa nenhuma. O mal vem todo da crise mundial, da Europa, dos mercados e agências de rating.
Não tem Sócrates razão para culpar a crise? Sim, como Madoff. Ambos viram os seus esquemas denunciados pelo colapso do Lehman Brothers. Na gestão Sócrates, a dívida externa bruta total de Portugal (pelo conceito do FMI) aumentou 147 mil milhões de euros, o dobro do buraco Madoff. Quando chegou ao poder em 2005, essa dívida era 168% do PIB. Em meados de 2008, antes do Lehman cair, já subira para 206%, estando agora nos 233% que nos arruínam. Cresceu mais nos anos do sucesso que desde então. Aliás, aumentou precisamente por causa do suposto sucesso. Assim para os portugueses, como para as vítimas de Madoff, a crise veio a tempo de evitar ainda pior. "Quando a maré baixa é que se vê quem nada nu", disse Warren Buffett em 2003. Se o Lehman só falisse este ano, então é que a nossa ruína seria completa.
Mas as piores tretas não estão nas finanças, embora futuros orçamentos revelarão que surpresas os "resultados históricos" nos reservam. A razão verdadeira das dificuldades está na paralisia da economia. Aí o caldo é espesso. Durante seis anos, o Governo encheu a boca com obras estratégicas e planos tecnológicos. Entretanto, a produção estagnava e o desemprego disparava. Foi também a crise mundial? Não. O aparelho produtivo português foi estrangulado com boas intenções e resultados históricos.
O Governo, pela brutalidade do fisco, ASAE e afins, defende o consumidor, ambiente, saúde, cultura, futuro, etc. Só prejudica as empresas. Como disse o senhor Presidente da República no discurso de posse: "É importante reconhecer as empresas e o valor por elas criado, em vez de as perseguir com uma retórica ameaçadora ou com políticas que desincentivam a iniciativa e o risco. No actual contexto, são elas que podem criar novos empregos e dar esperança a uma geração com formação ampla e diversificada e que não consegue entrar no mercado de trabalho."
Além de arruinar a economia e as finanças, o pior foi o desmiolado ataque contra a família em nome da «modernidade», que levou Portugal à menor fertilidade da Europa Ocidental. Isto, além de paralisar a economia e arrombar as finanças, compromete o futuro nacional por gerações. A cegueira ideológica aqui foi criminosa.
Um homem só, mesmo apoiado por um governo, não chega para criar um drama desta dimensão. A maior das tretas é atribuir todo o mal aos políticos. É verdade que o consulado Sócrates deixa o país de rastos em termos financeiros, económicos, sociais e até morais. Um verdadeiro resultado histórico, só comparável ao de Afonso Costa. Mas esse efeito deve-se à sociedade portuguesa, que Sócrates apenas representou. Afinal, na dívida externa, a parte pública é apenas um quarto.
O mal foi acreditarmos nas tretas. A sociedade é democrática e aberta e as lérias foram sempre sucessivamente aplaudidas. Apesar das repetidas denúncias feitas por organismos internacionais, análises económicas, escândalos políticos, opiniões jornalísticas, o povo acreditou sempre. Com tal ingenuidade, Portugal pode estar prostrado; não pode é estar surpreendido.
Agora que fazer? Trocar o Governo é fácil. Difícil é mudar mentalidades. Não apertamos o cinto porque os furos estão tapados. Não há trabalho porque não se pensa em criar empregos e procuramos os que gostamos e não os que há. Quando se ganham hábitos de rico, custa regressar à realidade. Se ao menos nos deixássemos de lérias...

Nos labirintos da religião católica

DN 2011-03-27 JOÃO LOPES
Nestes tempos de política formatada, não é fácil encontrar filmes que lidem com as grandes questões da identidade humana, expondo a sua complexidade e, ao mesmo tempo, escapando a qualquer maniqueísmo para ser servido em debate televisivo. Camino, de Javier Fesser, é um desses filmes: um espantoso retrato interior da tragédia de Alexia González-Barros, uma menina espanhola que faleceu aos 14 anos, vítima de cancro na espinal medula, tendo vivido até final num ambiente de profunda crença católica, aceitando o seu sofrimento como uma dádiva divina.
Lançado em 2008 em Espanha, o filme foi aí pretexto de interessantíssimos debates. Desde logo, porque Fesser, embora dando à sua personagem o nome de Camino (interpretada pela brilhante Nerea Camacho, com 12 anos na altura da rodagem), não estaria autorizado a identificar Alexia na legenda final do seu filme; depois, porque a história de Camino/Alexia coloca em cena os labirintos da religião católica, discutindo as tensões entre o desejo de viver e os leis morais da própria fé; enfim, porque, neste caso, a enunciação dessas leis é indissociável dos valores e regras da Opus Dei.
Claramente enraizado na mais nobre tradição do melodrama familiar, o trabalho de Fesser (também autor do argumento) distingue-se pela capacidade narrativa de escapar a qualquer tentação (a palavra adquire curiosas ressonâncias) de encenar o calvário de Camino como uma luta entre personagens "boas" e "más". Este é, afinal, um filme capaz de colocar em cena a pulsão de prazer inerente a qualquer ser humano, expondo a pluralidade dos seus laços institucionais, familiares ou singularmente afectivos. Por mais desconcertante que isso possa parecer, o tema aglutinador de Camino é a procura dos mais enigmáticos êxtases, escapando ponto por ponto ao hedonismo simplista que, hoje em dia, reduz o prazer aos rituais de consumo de cervejas ou telemóveis.
Tudo isso fez de Camino um importante acontecimento em Espanha, enquadrado por um amplo debate público e, em Fevereiro de 2009, pela consagração nos prémios Goya, arrebatando seis distinções, incluindo a de melhor filme espanhol de 2008. Pois bem, é esse mesmo filme que, agora, com mais de dois anos de atraso, está nas salas portuguesas, lançado com uma "não campanha" que nem sequer soube criar condições mínimas para dar a conhecer a sua existência aos potenciais espectadores... O caso é tanto mais triste quanto, mesmo encarado em termos meramente comerciais, Camino é um objecto de enormes potencialidades. Enfim, lembremos que, salvo melhor opinião, ainda somos um país de raízes católicas... E também que, para além dessa coisa empolgante que é haver eleições para a presidência de um dos três grandes do futebol português, continuam a existir cidadãos portugueses que não se revêem na mediocridade audiovisual que vai (des)organizando a nossa percepção do mundo.

domingo, 27 de março de 2011

A coragem do Bispo Andrea Hao

Catarina Martins Bettencourt
RR on-line 27-03-2011 23:59

Esta semana, na longínqua China, os cristãos de Gonghui estão de luto. Choram a morte do Bispo Andrea Hao Jinli. Tinha 95 anos e pertencia à Igreja Clandestina da China, a que se mantém fiel ao Papa.

Foi por ser cristão e por se ter mantido sempre fiel a Roma, que Andrea Hao conheceu, como tantos, as prisões chinesas. Foi acusado de quê? De ser cristão, apenas.
Hao nasceu em 1916 numa família católica. Ele e dois irmãos decidiram seguir a vida religiosa. Ordenado padre, em 1943, foi logo condenado a 10 anos de prisão.
Ao fim desse tempo, quando julgava que tinha chegado ao fim o seu tormento, foi mandado para um campo de concentração para ser "reeducado pelo trabalho".
Esteve preso mais de vinte anos. Ninguém o vergou: nem o medo, nem os trabalhos forçados, nem as ameaças de morte, nem a violência na prisão.
Dele só queriam essencialmente uma coisa: que, como padre, renunciasse a Roma. Nunca o fez.
Ao fim deste tempo todo, as autoridades perceberam que de nada valia manterem-no fechado na prisão. Libertado, ao fim de três anos o Vaticano nomeia-o bispo da Diocese de Chongli. Bispo da Igreja Clandestina, a que se mantém fiel a Roma e não a Pequim, ao Partido Comunista Chinês.
A vida de Andrea Hao é um exemplo para todos nós. Ele era um homem baixo, magro, de aparência frágil, mas, apesar disso nunca ninguém o conseguiu vencer, ninguém o conseguiu domar. Manteve-se sempre fiel ao Papa, continuou sempre fiel a Jesus Cristo.
Mesmo agora, depois de morto, Andrea Hao continua a ser um embaraço para o governo da China.
A polícia procurou que o funeral decorresse sem alarido, não se transformasse numa manifestação pública de fé da comunidade cristã local. Mas, apesar das ameaças, foram dezenas os fiéis que decidiram prestar uma última homenagem ao seu bispo, mesmo correndo o risco de serem também detidos.
Que exemplo para nós, que estamos a viver a Páscoa neste ano de 2011.
Em muitos países no mundo, como nós denunciamos na Fundação AIS – Ajuda à Igreja que Sofre – rezar, ter fé, implica coragem, muita coragem.
Quantos de nós seríamos capazes de enfrentar a prisão, a tortura, o medo, a humilhação apenas para continuarmos a rezar, apenas para continuarmos a dizer que somos cristãos?
Quantos de nós teríamos a coragem do Bispo Andrea Hao?



3.º Domingo da Quaresma: Cristo e a Samaritana junto à fonte de Jacob

 
DUCCIO DI BUONINSEGNA
1308-11
Tempera em madeira
Colecção Thyssen-Bornemisza, Madrid

sexta-feira, 25 de março de 2011

Olhar para cima

Aura Miguel
RR on-line  25-03-2011 06:52

A situação de Portugal é grave.
Já o era há muito tempo, só que agora já não dá para fazer de conta. Resultado: se a tendência dos portugueses sempre foi carpir lamentações, imagine-se agora, com tantos motivos para pessimismo e desilusão!
Mas será que somos apenas o que estamos a viver agora ou nos definimos pelo estado de ânimo que nos domina?... É evidente que não, porque a nossa História tem mais de 800 anos, somos herdeiros de uma Nação com muita gente notável, com governantes de nobre carácter, que amaram Cristo e o seu povo e ainda hoje são elogiados pela humanidade com que regeram o destino dos portugueses.
Por isso, proponho-vos levantar o olhar, não para nos iludirmos, mas para ver coisas que o estado de ânimo ofusca, para viver com o realismo corajoso que o cristianismo nos propõe, com a comoção pelo destino de cada homem e mulher que é próprio da fé. Porque, afinal, se a fé não despertar a nossa razão, liberdade, afeição e todo o nosso eu – sobretudo, nas circunstâncias concretas em que nos encontramos – para que é que serve?

Post-it ao cuidado do futuro primeiro-ministro

pPúblico 2011-03-24 Helena Matos
Ninguém o obrigou a ser primeiro-ministro. Quis ser primeiro-ministro. Logo, não se queixe

1ºNinguém o obrigou a ser primeiro-ministro. Quis ser primeiro-ministro. Logo, não se queixe.

2º Não se esqueça que é muito mais simples para si deixar de ser primeiro-ministro do que para o país ver-se livre de um primeiro-ministro.

3º Não confunda liderança com usurpação de competências. As pessoas que aceitam fazer parte do seu governo não são o prolongamento do seu ego e em muitas matérias, para não dizer em todas, têm mais saber do que o primeiro-ministro. Futebolisticamente falando um primeiro-ministro é como um treinador: um bom treinador é aquele que transforma um conjunto aleatório de jogadores numa equipa.

4º Não se esqueça que quanto mais obcecado viver com o que se diz de si mais dependente vai ficar de jornalistas e comentadores. E um primeiro-ministro dependente de jornalistas e comentadores é um primeiro-ministro que não só não governa como vive sob a suspeição e a tentação de controlar o que se diz dele.

5º É aos portugueses e não aos jornalistas que deve prestar esclarecimentos.

6º Por mais que lhe custe acreditar e por mais injusto que lhe possa parecer foi escolhido para governar e não para dizer mal da oposição.

7º Ser primeiro-ministro é uma circunstância transitória para si mas o que é transitório para si pode tornar irremediável muita coisa na vida dos portugueses. Não complique vidas que já não são fáceis.

8º Por princípio, duvide.

9º Também por princípio ouça muito.

10º Quando já tiver ouvido o que houver para ouvir e tiver duvidado o suficiente de tudo o que ouviu, ou seja quando estiver certo do que vai decidir, decida. E não se esqueça que não existem decisões consensuais. Existem sim boas decisões e más decisões. Decisões fundamentadas e decisões demagógicas. Se tiver razão, o tempo será seu aliado.

11º Antes de assinar o que quer que seja informe-se, estude e pense.

12º Nunca culpe os outros pelos seus erros e falhas.

13º Se o seu sonho é ser aclamado por todos e não ser criticado por ninguém demita-se enquanto é tempo.

14º Não se desculpe com as crises. Ser político é precisamente isso: gerir o inesperado mantendo um mínimo de princípios e assegurando os rituais institucionais que nos separam da choldra. Se os políticos não souberem fazer isto, um director-geral não só bastava como fazia melhor trabalho.

15º Não se esqueça que são os portugueses quem lhe paga o ordenado, o motorista, os telemóveis de serviço, a segurança e todas as restantes coisas. São também os portugueses quem paga ao seu governo e são ainda os portugueses quem sustenta os programas, projectos, obras, reformas e tudo o mais que o seu governo vai aprovar.

16º Não se esqueça que tudo aquilo que lhe pedem que dê, licencie, autorize, aprove, não é seu. É do povo. Ou para ser pago por ele.

17º Nunca, mas nunca, diga que a situação é melhor do que aquilo que realmente é.

18º Não tenha a presunção de que vai fazer tudo bem. Mas recordo que há duas coisas que não pode fazer: uma delas é comprometer a democracia. A outra é tornar-se um problema para o país. A partir daí não há retorno. A sua queda será a única saída possível.

19º Respeite as instituições. Cumpra os rituais da democracia. Dê às palavras o seu valor. São o formalismo e o rigor que asseguram o mínimo de dignidade e auto-estima aos países, sobretudo se estes forem pequenos e pobres.

20º Não confunda o povo com o eleitorado nem o seu partido com o país e muito menos a sua pessoa com Portugal.

21º Não brinque aos legisladores. A lei dever servir as pessoas e não servir-se delas.

22º Nunca esqueça que um dia vai deixar de ser primeiro-ministro e pense sempre que esse dia vai chegar mais cedo do que imagina. Ensaísta

A primeira queda de Sócrates

Público 2011-03-25  Vasco Pulido Valente

O eng.º José Sócrates resolveu não assistir ao debate de quarta- feira na Assembleia da República. Saiu no princípio e não voltou. O desprezo do primeiro-ministro pela Assembleia da República, que representa constitucionalmente o povo português e de que ele ainda por cima depende, revela o homem. Sócrates nunca foi, nem nunca será um democrata, é um autocrata. Um autocrata incapaz de sofrer a humilhação de ser rejeitado e afastado em público por gente que ele considera inferior. Até numa altura crucial para ele e para o país (já para não falar no PS), a vaidade apagou o respeito pela instituição e pelos mais básicos deveres do cargo que ele exerce. Quem não hesita em fazer uma coisa daquelas não tem com certeza, em privado, princípios que nos possam tranquilizar. Como, de resto, se já constatou.

Verdade que o debate sobre o PEC IV envergonharia qualquer parlamento. Quem assistiu à cena na televisão sabe que tudo aquilo não passou de uma acumulação quase delirante de pequenos comícios: discursos que se repetiam até à náusea e para lá da náusea, insultos, slogans, chantagem e por aí fora, sempre no mesmo tom arruaceiro ou ameaçador. Argumentos, nem um. A Assembleia acabou por se tornar um bom exemplo do que por aí se chama "crispação". Cada seita era uma espécie de ilha, concentrada no seu ódio ao próximo e decidida a não ouvir ninguém. A extrema-esquerda e o PS queriam desacreditar o PSD, o PS queria desacreditar o PSD e a extrema-esquerda e, naquela balbúrdia, só havia uma lógica: a raiva universal ao eng.º Sócrates.

Em dois séculos de governo representativo em Portugal, um único político conseguiu suscitar a profunda aversão que hoje suscita o primeiro-ministro: António Bernardo Costa Cabral, que deu o seu nome ao "cabralismo". É interessante pensar no que (em resumo) um dia lhe disse Fontes Pereira de Melo: "A sua presença (no governo) não ajuda o país, porque o senhor é o problema." Manuela Ferreira Leite, com outros cuidados verbais, não ficou longe de Fontes, quando explicou o voto do PSD. E, se calhar, não se enganou. A remoção definitiva de Cabral trouxe a Portugal um certo sossego. A remoção definitiva de Sócrates talvez também acalmasse as coisas. Mas, para nossa desgraça, Sócrates continua, e continuará, secretário-geral do PS e não tenciona, nem de longe, ficar quieto. Esta história ainda não chegou ao fim.



Quem não tem dinheiro não tem vícios. E não pode ter Sócrates

Público 2011-03-25 José Manuel Fernandes
As próximas eleições serão um referendo a Sócrates e ao seu estilo sectário e autocrático de governar

Levantou-se da bancada do Governo, virou as costas aos deputados, fugiu escadas abaixo, rapidinho, evitando os jornalistas. A forma como Sócrates se comportou durante o debate parlamentar mais importante da sua vida política - o debate parlamentar que terminaria num voto que o levaria a pedir a demissão - é mais reveladora do que mil discursos. Este primeiro-ministro nunca esteve à altura do lugar a que, por circunstâncias fortuitas da nossa história política, chegou. No dia em que caiu, no momento em que o seu Governo ruía, na hora em que abandonou os seus ministros durante um debate crucial, deixou ver, com mais nitidez, o seu rosto de autocrata. Se houvesse alguma dúvida de que não era mais possível suportar uma "situação" sustentada apenas na chantagem e no desprezo pelas mais elementares regras da democracia, o gesto final deste tiranete vindo das Beiras encarregou-se de a desfazer.
Há mais de três anos, em Janeiro de 2008, numa altura em que o país bem-pensante ainda andava embeiçado pelo personagem, António Barreto, num artigo de opinião no PÚBLICO, escrevia: "Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo". Em 2009, os portugueses tiraram-lhe a maioria absoluta, mas não aprendeu nada nem mudou o que quer que fosse na sua forma umbiguista e corrosiva de exercer o poder. É por isso que o que aconteceu quarta-feira na Assembleia estava escrito nas estrelas: "isto" não podia durar para sempre.
O que se passou nos meses, anos, em Portugal tem sido trágico.
Houve mentira: mentira sobre o real estado do país; mentira sobre as nossas obrigações internacionais: mentira sobre os êxitos e os fracassos; mentira sobre os objectivos políticos, económicos e orçamentais. Evoluiu-se de mentira em mentira, negando de forma persistente a realidade e insultando todos os que, mesmo timidamente, tentavam evitar o desastre.
Houve corrosão dos hábitos democráticos: pressionou-se o sistema judicial, quando não se interveio mesmo directamente; procurou-se limitar as liberdades; desvalorizou-se a ética; promoveu-se o chico-espertismo; levou-se o clientelismo a limites antes desconhecidos; menosprezou-se a importância das virtudes públicas; planeou-se tomar de assalto órgãos de informação; promoveu-se o lambe-botismo ao mesmo tempo que se perseguia e tentava isolar todos os eventuais discordantes.
Houve cegueira económica: gastou-se dinheiro no que era supérfluo mas alimentava os amigos; cortaram-se despesas de forma pontual e ineficaz por ausência de uma visão de conjunto; procurou dizer-se aos empresários onde deviam e onde não deviam investir; apoiaram-se os amigos e os que prestam vassalagem e fez a vida negra aos independentes e aos que não abdicaram da sua liberdade; fingiu-se que se mudavam algumas leis para que, no essencial, tudo ficasse na mesma.
Um dia se fará a história destes anos, e estou em crer que, quando tal for feito, os vindouros se interrogarão: mas como foi possível? Como pode Portugal cair em tais mãos e mostrar uma tal incapacidade de sacudir esse jugo asfixiante? A resposta passará, obrigatoriamente, pela história da rendição à lógica do poder pelo poder e do lugar pelo lugar de um grande partido da democracia portuguesa, o Partido Socialista.
Há mais de um ano, a 12 de Fevereiro de 2010, escrevi no Twitter: "Ou há um sobressalto no PS, ou estamos num beco sem saída. É tempo de perceber que Sócrates já não faz parte da solução, mas do problema, até do PS". O que surpreende é o PS ainda não ter percebido isto e agarrar-se à esperança de que ainda pode salvar lugares e mordomias (não tenhamos dúvidas que é já só por isso que se batem os barões, os baronetes, os boys, as girls, os aparelhistas e todas as inúmeras clientelas do partido) atrelando-se à retórica catastrofista do líder.
Sócrates tornou-se parte indissociável do problema no momento em que transformou o exercício minoritário do poder num permanente jogo de chantagens e de enganos que destroçou mesmo a melhor das boas vontades do PSD. Responsável pelas políticas erradas que aceleraram a corrida de Portugal para o desastre, o primeiro-ministro viveu em permanente estado de negação, e é isso que justifica a vertiginosa sucessão de PEC. Pior: ao reduzir a política ao golpe baixo e à facada nas costas, ao rodear-se de uma camarilha de trauliteiros ágil no insulto, habilidosa na manipulação e totalmente desavergonhada, capaz de jurar num dia pelo que apostrofava na véspera, Sócrates não deixou nenhum espaço para qualquer convergência ou acordos, apenas para rendições ou prestações de vassalagem.
É por isso que é ensurdecedor o silêncio de um PS que nos surge hoje tão obediente como acéfalo. Os dedos de uma mão chegam para contar os que foram capazes de levantar a voz, o que choca, sabendo-se que o PS já foi, no passado, um partido vivo e de gente de espinha direita. Agora é um partido de zombies amestrado na retórica difundida pelos blogues anónimos de apoio ao Governo, um partido que engole em seco todos os abusos e só se mobiliza quando alguém apela aos seus instintos mais tribais. Um partido que elogia a "combatividade" de Sócrates sem sequer se aperceber que essa combatividade está centrada no "eu" que ele repete a cada passo dos seus discursos, que isso é um elogio a um marialvismo bacoco e de vistas curtas, é um partido que não alcança que a combatividade não é um valor em si mesmo, podendo até ser um factor de corrosão e de agravamento de desastres anunciados (quem duvide que reveja o filme sobre os últimos dias de Hitler).
Enquanto Sócrates continuar à frente do PS, nunca este partido poderá fazer parte de uma solução alargada para Portugal - e quero acreditar que até no PS já ninguém acredita que o país possa sair do actual buraco sem um esforço que envolva uma ampla coligação de forças políticas e sociais. Porém, no PS, ninguém se move, talvez com receio da ira do autocrata, esse autodenominado "animal feroz".
É por isso que não são muitos os caminhos que se abrem aos eleitores. Nas próximas eleições escolherão entre o sectarismo suicida de Sócrates (já que o PS se deixou reduzir à condição do "partido de Sócrates") e a possibilidade de encontrar um caminho alternativo que, podendo e devendo incluir também os socialistas, terá sempre de se fazer sem o actual primeiro-ministro e em ruptura com o seu estilo de impor ao país a sua vontade.
A escolha não será entre mais ou menos austeridade: a austeridade é um destino a que não podemos escapar, pois necessitamos mudar profundamente a nossa forma de viver para poder voltar a ter esperança e a ver a economia crescer. A escolha também não pode ser reduzida à dicotomia Passos Coelho versus José Sócrates, pois aquilo de que o país necessita é de algo mais do que optar entre dois chefes partidários - tem de poder escolher entre mais do mesmo ou uma mudança baseada numa maioria ampla.
Nos últimos anos, nos últimos meses, nos últimos dias, uma imensa sucessão de erros de política económica e orçamental colocaram Portugal na posição do mendigo de mão estendida. Há muito que temos de mudar de vida, não apenas fingir que mudamos de vida. Com ou sem queda do Governo, Portugal colocou-se numa situação em que o recurso à ajuda externa é a melhor solução para evitar, a cada ida ao mercado da dívida, acrescentar mais peso excessivo ao serviço da dívida. A opção não é por isso entre Sócrates ou... finis patriae, pois em finis patriae já estamos - a opção é entre um suplício de Tântalo suportado em nome do imenso orgulho pessoal de José Sócrates e um caminho a percorrer por líderes mais humildes e mais respeitadores das regras democráticas.
Há quem diga que, mesmo assim, Sócrates pode voltar a ganhar. Poder, pode. Mas então só poderemos recordar Sertório: no Ocidente da Península vive um povo que não se governa nem se deixa governar... Jornalista

Recomeços

Miguel Esteves Cardoso
Público, 2011-03-25

Por um acaso, anteontem, no maravilhosamente reinventado restaurante Aya, em Carnaxide, só encontrámos pessoas amigas que tinham sofrido e aguentado doenças que muitas vezes matam.
Falámos todos de cancros e de a-vê-cês e de infecções, como se os anos em que não nos vimos tivessem sido ocupados - como, de facto foram - a tentar não morrer. Sentiu-se uma sorte de ainda estarmos todos aqui, mais a tristeza, insolúvel, de quem já não estava. Alguém falou em sobreviver e logo todos nos zangámos com a palavra. Sermos meramente sobreviventes resumia as nossas novas vidas ao facto de ainda não termos morrido.
Também não renascemos. Nem tão-pouco nos limitámos a continuar, lidando com a doença como uma interrupção da vida, que retomámos um bocadinho mais à frente.
Na verdade, tivemos de nos refazer. Revimo-nos e recentrámo-nos. Fomos obrigados a rearrumar as nossas almas, para acomodar ameaças novas, arranjando e preparando as identidades, habituando-nos a elas.
Somos mais recomeçadores do que sobreviventes. Aquilo que conseguimos fazer foi mais um começo do que uma continuação. A sobrevivência não tem valor, assim como quem morre não tem culpa.
Somos obrigados a viver como somos obrigados a morrer. Recomeçar não era a nossa vontade - estávamos bem como estávamos antes de adoecer e de nos curarmos. Mas é aquilo que temos de fazer, já que temos a sorte de continuarmos, por enquanto, por muito (ou pouco) que seja o tempo, vivos. E recomendados.

quinta-feira, 24 de março de 2011

A retórica dos fugitivos

Público 2011-03-24  Pedro Lomba

A última sessão do Parlamento no fim da I República acabou sem quórum. Tal era o descrédito da casa que os deputados resolveram não comparecer. A última sessão do Parlamento ontem, no fim de Sócrates ou no princípio do fim de Sócrates, acabou quase sem Governo. As sumidades da governação eclipsaram-se. Sócrates saiu de cena logo que Teixeira dos Santos acabou de falar. E Teixeira dos Santos nem se dignou ouvir Manuela Ferreira Leite. Ambos assumiram o registo de provocação constitucional em que têm vivido há muito tempo e que usaram para esconder o PEC IV da Assembleia, do Presidente, dos parceiros sociais, de toda a opinião pública. Foi de propósito. Ambos desejaram ter este fim.
Participar no debate com os deputados sobre o novo PEC era uma responsabilidade elementar do primeiro-ministro. O seu poder deriva do Parlamento. O seu dever é ouvir; e ouvir críticas, censuras, condenações, é também uma forma de ser responsabilizado. Mas como esperar responsabilidade de um governo e de um primeiro-ministro que aproveitaram a oportunidade do PEC IV para precisamente falsificarem e manipularem a responsabilidade pelo fracasso da sua governação?
Convém estarmos atentos ao que se está a passar. Muita manipulação e desinformação se prepara. Sócrates, como de costume, está a tentar o seu próprio branqueamento por ter conduzido o país para a bancarrota. Tornou-se um fugitivo que procura escapar pela única frincha que as circunstâncias permitem, atirando o ónus do que aí vem, da crise, da intervenção externa - como se o país não estivesse há muito tempo em crise - para os seus sucessores. O seu pedido de demissão é uma fuga, um artifício para torpedear a possibilidade de os portugueses o responsabilizarem.
É disto que se trata. Mas quem é que deverá ser responsabilizado por este momento crítico senão Sócrates? Quem é que nos governou nos últimos seis anos? Quem é que escondeu a situação real das contas públicas, quem contra todos os avisos e ameaças persistiu cegamente no erro e na mentira? E não foi Sócrates que apresentou PEC sucessivos com a colaboração do principal partido da oposição, ao mesmo tempo que não os cumpria? Não foi Sócrates que, dizendo agora "ou nós ou o FMI", finge que Portugal já tem recorrido à ajuda externa do Banco Central Europeu? Não foi Sócrates que atiçou a desconfiança dos mercados, expropriando Portugal da sua liberdade e independência?
Tem sido esta a admirável estabilidade de Sócrates. E é desta mesma estabilidade que ele agora se proclama curador. Entre uma estabilidade destrutiva e uma clarificação urgente, há alguém que não prefire a clarificação?
Era assim que tudo fatalmente acabaria. Com um primeiro-ministro acossado e em fuga, recorrendo a todos os truques para falsificar a sua responsabilidade, vitimizando-se e com um PS domesticado e desesperado por salvar o que resta.
Quem quiser perceber a manobra fugitiva de Sócrates que leia um texto do cientista político espanhol José Maria Maravall "Responsabilidade e manipulação" (está disponível na Internet). O caso estudado por Maravall é a conduta do PSOE espanhol nos anos 80. Para manipular o processo de responsabilização política pelos eleitores, os media foram apertados; escondeu-se informação relevante que permitisse acompanhar o Governo; falsearam-se os resultados das políticas governamentais; o partido começou a viver com férrea disciplina e centralismo para aparecer artificialmente unido na crise, culpou-se a oposição pelo que fez e não fez; o Governo apresentou as suas políticas como necessárias e inevitáveis.
Sócrates abraçou em absoluto esta retórica da manipulação da responsabilidade. É a sua única saída. A responsabilidade não é dele, é de outros. A crise não é dele, é de outros. Muito haverá para dizer sobre este período deletério que Sócrates encarna na nossa política. Um dia perguntaremos como foi possível. Jurista

E se os meninos deixassem em paz o sítio do costume e fossem brincar para outro lado?

Helena Matos
Público 2011.03.24
E se os meninos deixassem em paz o sítio do costume e fossem brincar para outro lado?

No início deste mês de Março, em Madrid, um grupo de criaturas sem mais que fazer resolveu entrar na capela da Universidade Complutense onde, entre copos e charros, brincaram às missas e às sessões de top less.
Fotografaram tudo e colocaram as imagens da proeza na internet. Como é óbvio a seguir veio o debate sobre os limites ou da falta deles destes grupos extremistas, muito activos a exigir que os respeitem e muito eficazes a infernizar a vida aos demais. Naturalmente já foi apresentada queixa contra os protagonistas deste desacato. Pois a mim parece-me que não só não se deve apresentar queixa alguma como se devem incentivar estes actos, sobretudo deve-se promover a sua deslocalização. De repente ocorre-me que podiam, por exemplo, repetir a façanha numa mesquita. Faziam tudo tal e qual como na capela da Complutense: entravam a correr em magote, simulavam a oração, embebedavam-se, fumavam, despiam-se, fotografavam os bracinhos com palavras de ordem a prometer violência, insultavam os fiéis e faziam uns graffitis. Depois colocavam as fotografias na internet. Os imans de quem estes activistas da Complutense tanto gostam não deixariam certamente de querer trocar com eles umas ideias sobre estes eventos. Como diz o povo era remédio santo. No sentido místico e físico do termo.


Direitos

3 | 03 | 2011   21.59H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
Os direitos adquiridos são inegáveis protagonistas desta crise. Trata-se de um conceito bastante curioso. Será que agora os direitos se podem adquirir? Quando se fala em direitos humanos refere-se algo que cada pessoa tem naturalmente, que lhe é atribuído pela sua existência. Aí não há aquisição. A discussão recente não se refere a esse tipo de direitos. Embora apareçam nos debates como sacrossantos, são coisas muito mais modestas e contingentes.
Nenhuma das pessoas que invoca tais direitos afirma ter pago por eles. Seria indigno. De facto, as tais regalias sociais que eles tentam defender foram ganhas na contestação pública, luta política ou, sobretudo, na pressão de secretaria. Por isso uma designação mais adequada seria «favores políticos». Os quais, por natureza, nunca se podem dar como adquiridos. Se quem pretende ter os tais direitos não os pagou, quem paga? Isso nunca é referido. Como é o povo que sustenta os tais direitos, essa discussão rapidamente mostraria a injustiça da reivindicação.
O mais interessante é que estejam a ser os partidos de Esquerda os mais activos em defender os direitos e conquistas inalienáveis. Isso, não só os torna conservadores, mas condu-los a argumentos iguais aos que invocavam as classes nobres do século XVIII e os capitalistas do século XIX nas lutas heróicas do proletariado. Marx tinha razão: a história repete-se, primeiro como tragédia, depois como farsa (O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte, 1852, cap. 1).

Humildade e verdade

MANUEL MARIA CARRILHO
DN 20110324
Humildade e verdade são, a meu ver, os parâmetros essenciais para se ultrapassar o difícil momento que o País que está viver. Humildade, porque é preciso reconhecer que a situação actual é o resultado de alguns graves erros cometidos nos últimos anos, sobretudo desde a Primavera de 2008, quando a crise se anunciou em toda a sua gravidade, e desde o Outono de 2009, quando se arriscou a constituição de um governo minoritário. E verdade, porque só com uma exigente autenticidade sobre a nossa situação e as suas principais causas se conseguem repor as condições de credibilidade, de coesão social e de eficácia, que são nucleares para se dar a volta à situação.
É um momento de não retorno, seja qual for o destino parlamentar do chamado PEC IV, cuja rejeição é dada como certa no momento em que escrevo (quarta-feira de manhã). E também de balanço: do balanço de um reformismo que teve na mão, em 2005, a rara oportunidade de conduzir uma mudança histórica no nosso país, em condições de absoluta excepção. E que não o conseguiu porque cedo trocou o diálogo pela arrogância, a comunicação pela manipulação e o reformismo pelo "agitismo", numa infeliz espiral de generalizada incompetência, onde se desperdiçaram as melhores energias.
De resto, seria bom perceber que a generalizada erosão que atinge hoje a legitimidade da política e a credibilidade dos partidos se deve sobretudo a isto: à crescente percepção popular da sua extraordinária incompetência, bem como da incompetência - e quantas vezes do negocismo -, das elites que lhe estão mais associadas. E há momentos em que a incompetência se pode tornar num risco para a própria democracia.
A crise internacional - do subprime, do euro - teve, claro, o seu papel, e ele foi de relevo. Mas, sobretudo, ela expôs e intensificou o que até aí tinha sido desvalorizado ou ocultado pelo optimismo oficial. Agora, enfrentamos a mais difícil crise das últimas décadas, começa a ser preciso recuar mesmo muito tempo para se encontrarem dados tão preocupantes como os que temos hoje em domínios como os da falta de crescimento (90 anos), da dívida pública (160 anos) ou do desemprego (80 anos).
É por isso que digo que, para se poder avançar para um futuro diferente, precisamos de uma ética da responsabilidade assente na humildade e na verdade. É com humildade que é preciso reconhecer que o programa que venceu as legislativas de 2009 foi, na realidade, abandonado há muito. Basta lembrar que nele não havia nem aumento de impostos, nem atrofia das prestações sociais, nem corte de salários. E que, bem pelo contrário, o que se prometeu foi um crescimento alavancado num investimento público que, simplesmente, se esfumou...
Por outro lado, a verdade impõe que se diga que a situação actual é já (limitando-nos aqui a factos incontroversos) a de um País assistido financeiramente pelo Banco Central Europeu, quer em termos de dívida pública (que se estima num total de 18 mil milhões de euros), quer em termos de troca com a banca de títulos em carteira (que se calcula em cerca de 40 mil milhões). No Le Monde de sábado passado, Cécile de Corbière lembrava que a Irlanda, a Grécia e Portugal têm entre 7% e 10% dos seus activos bancários constituídos por empréstimos do BCE, enquanto a média europeia anda em 1,5%. Portugal apresenta assim, como há dias escrevia Helena Garrido no Jornal de Negócios, todos os sinais de um país que "está a ser governado a partir de Bruxelas e de Frankfurt. E que já está tudo preparado para o Governo fazer o pedido formal de ajuda financeira à Europa e ao FMI".
A questão, agora, é a de saber por onde passa a saída da crise. Só o Presidente da República e o PS têm legitimidade para ter ainda alguma iniciativa política, no sentido de levar esta legislatura até ao fim. Mas José Sócrates está politicamente incapacitado para o tentar com êxito, e Cavaco Silva não parece entusiasmado com a ideia. É por isso que, se não acontecer algo de inesperado, as eleições se impõem, reforçando a evidência tão esquecida da curta vida dos governos minoritários.
Neste contexto, a situação é - não vale a pena escamoteá-lo - muito difícil para o Partido Socialista. Porque, ou continua Sócrates, e as eleições serão inevitavelmente um julgamento da histórica "bancarrota" a que conduziu o País, não tendo ele de resto nunca ouvido o próprio PS em nenhum dos momentos em que isso se impunha absolutamente.
Ou se faz uma pausa - como bem sugeriu José Medeiros Ferreira - para pensar, renovar e revitalizar o PS. Tentando, com uma nova liderança, retomar os seus valores patrimoniais mais importantes (e tão esquecidos), conjugando-os com uma visão de futuro que dê respostas credíveis às enormes dificuldades que vivemos.
Anunciam-se tempos de emergência patriótica. O País tem de ser colocado acima, e bem acima, dos partidos. Só um governo que esteja à altura desse imperativo será capaz de mobilizar os portugueses e de relançar Portugal. E de, ao mesmo tempo, nos reposicionar com dignidade numa União Europeia onde há muito a fazer, e onde se vai continuar a jogar muito do nosso destino colectivo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A autoridade na política contemporânea




TERTÚLIAS DE HOMENS
FUNDAÇÃO MARIA ULRICH

A Fundação Maria Ulrich convida-o a para mais uma Tertúlia sobre:

"A autoridade na política contemporânea"
Prof. Miguel Morgado

25 de Março, sexta-feira, pelas 21h30

Rua Silva Carvalho, 240 (junto às Amoreiras) Lisboa
fundmariaulrich@clix.pt / fundacaomariaulrich.blogspot.com

RSFF até 23 de Março                                                    telfs: 213.882.110; 96.6969620

Rua Silva Carvalho, 240 (junto às Amoreiras)
Lisboa
fundacaomariaulrich.blogspot.com





Arrepiados com a exigência das tarefas que se vão impondo no horizonte próximo deste Governo, ou de um outro que porventura venha a existir a breve prazo, aumentam os partidários da solução a que, à falta de melhor expressão, podemos chamar Bloco Central. O arrepio justifica-se, sem dúvida. Mas a solução não se recomenda.

De tão virada para o futuro que procura estar, a proposta do Bloco Central quase se orgulha de ser terrivelmente amnésica. Esquece-se do facto político fundamental dos últimos 15 anos: o de vivermos sob a hegemonia do PS, com a cooperação do espírito geral de um Bloco Central efectivo.

O que a democracia portuguesa precisa, pelo contrário, é de gerar uma alternativa política ao projecto partidário socialista. Por outras palavras, o eleitorado português precisa de ter a possibilidade de escolher dentre alternativas políticas genuinamente diferentes. De resto, o que dizer de uma democracia com um partido que, sob a ameaça de uma catástrofe inominável, jamais pode passar à oposição?

E de tão alicerçado no passado que procura estar, o apelo à constituição de um Bloco Central ilude-se com um falso paralelo entre o Portugal de hoje e o de 1983-85, onde se concretizou o primeiro Bloco Central. Só à superfície é que existe um paralelo entre a situação de emergência que se vivia à época e a que se vive hoje.

O Bloco Central fez-se para proteger o princípio do fim do PREC ou, pelo menos, para aliviar as consequências do PREC. A emergência dos nossos dias deve-se, em grande parte, aos impasses gerados pela existência de um Bloco Central político que dominou e ossificou o país. Uma má ideia, portanto.


Miguel Morgado

Pensamento do dia

«Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores, e que os grandes exercem sobre elas o seu poder.
Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer se grande, seja o vosso servo; e quem, no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo.
Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.»
Mt 20, 26-28

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sobre o filme "Camino"

http://www.opusdei.pt/art.php?p=43143 2011/03/21


No próximo dia 24, estreia em Portugal o filme “Camino”, considerado o melhor filme espanhol em 2009 (vencedor de 6 prémios Goya). Neste artigo, apresentam-se os comentários do director do Gabinete de Informação do Opus Dei em Espanha acerca deste filme.

Alguns meios de comunicação social questionaram-me sobre o filme "Camino". Mais uma vez quero começar por manifestar respeito pela liberdade de expressão e confiança no valor da criatividade artística.
Considero que esta ficção cinematográfica apresenta uma visão distorcida da fé em Deus, da vida cristã e da realidade do Opus Dei.
O ambiente construído por este filme em nada se parece com a alegria, a liberdade e o espírito de compreensão e de serviço em que as mulheres e os homens do Opus Dei procuram viver; é muito fácil comprová-lo.
Isso é constatado diariamente por milhares de pessoas que partilham a vida do dia a dia com um membro do Opus Dei, ou colaboram de alguma forma nos hospitais, centros de Ensino Universitário, colégios, trabalhos em áreas assistenciais ou trabalhos sociais de todo o género nascidos do impulso apostólico e do espírito de serviço dos membros do Opus Dei.
São realidades com as portas abertas.
Este filme poderá ter um aspecto positivo se for uma ocasião para que muitas pessoas descubram a verdadeira vida de Alexia González Barros, que pode ser conhecida no site www.alexiagb.org.
Alexia faleceu em 1985, com 14 anos, após uma dolorosa doença. A Igreja Católica iniciou o estudo da sua Causa de Canonização. Partilho a dor desta família perante esta utilização da vida da sua irmã. Face à afirmação de que Alexia faleceu entre aplausos, Alfredo González Barros salientou:
“Doeu-me a alma, pelo injusto e terrível que foi tal afirmação. Não deve ser necessário dizer-te que a minha irmã Alexia não morreu rodeada de aplausos. Morreu rodeada de carinho”.
Reitero que estas palavras de sereno respeito não pretendem criar nem participar em qualquer polémica.

Manuel Garrido

Para mais informação:

Análise de Camino em Aceprensa.pt
Site oficial de Alexia González-Barros (espanhol)
“Camino”, de Javier Fesser e a verdadeira história de Alexia. (espanhol)
Notas sobre o filme "Camino" (espanhol)
"Caminos de concordia", por Juan Manuel Mora, Vice-reitor de Comunicação da Universidade de Navarra.
(espanhol)
Análise de Lucero Solórzano (Excélsior)
(espanhol)

http://www.opusdei.pt/img/sp.gif