sábado, 30 de abril de 2011

Frase do dia

Era necessário que o heróico se tornasse quotidiano e o quotidiano heróico
Papa João Paulo II, Nurcia, 23 de Março de 1980

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O jogo

DESTAK |28 | 04 | 2011   09.10H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
A classe política em geral tem dado uma triste imagem de si própria nesta crise. Pondo sempre a táctica eleitoral à frente do interesse nacional, repetidamente recusa a evidência mais patente, fomenta as ilusões mais tontas, omite as reformas mais candentes.
Agora, apesar de instada por múltiplas individualidades, mostra-se absolutamente incapaz de acordar uma estratégia de salvação nacional, insistindo na chicana e agressividade que, na grave emergência, só podem ser infantis.
É essencial compreender que isto é resultado da atitude popular durante décadas. Há muito tempo que jornais, conversas de café, opiniões de blogs têm instilado uma atitude cínica, desconfiada, boçal e quezilenta na nossa vida pública. Como nos tempos de Rafael Bordalo Pinheiro e d' As Farpas de Ramalho, esperamos o pior dos nossos dirigentes. Daí só pode nascer o pior.
Ansiamos por políticos sérios, competentes, dedicados. Mas fazemos tudo para os espantar. Quais são as pessoas sérias, competentes e dedicadas que se prestam ao enxovalho permanente da vida partidária e parlamentar?
O caso de Manuela Ferreira Leite e a estranheza com que foi acolhida e expulsa é disso prova evidente. Um clima destes só atrai equilibristas, manipuladores e ilusionistas, de que José Sócrates é o protótipo. Só assim se explica que ele, tendo acumulado mais fiascos, erros e desgraças do que qualquer primeiro-ministro da história moderna, ainda se apresente ao eleitorado com expectativas de ganhar.
O seu jogo, onde aliás é mestre, nada tem a ver com o interesse nacional.

Frase do dia

Uma coisa morta pode ir com a corrente, mas só uma coisa viva pode ir contra ela
G. K. Chesterton

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A transparência cristã de João Paulo II

Em preparação para a nossa participação pessoal no acontecimento da beatificação do Venerável Papa João Paulo II, o Povo reúne sobre o título Beatificação do Papa João Paulo II conteúdos de natureza diversa que nos podem ajudar a fazer presença da sua estatura humana e da sua vida de santidade. O dossier não está ainda terminado e por isso a indicação “em construção”.

Javier Echevarría , i-online  27 de Abril de 2011

Qual foi o segredo da eficácia evangelizadora deste Papa extraordinário? É evidente que Wojtyla foi um defensor incansável da dignidade humana
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Há anos que se ouvem testemunhos de jovens, e menos jovens, que se sentiram atraídos por Cristo graças às palavras, ao exemplo e à proximidade de João Paulo II. Com a ajuda de Deus, alguns empreenderam um caminho de procura da santidade sem mudar de estado, na vida matrimonial ou no celibato, outros, no sacerdócio ou na vida religiosa. São vários milhares e há quem lhes chame "a geração João Paulo II".
Qual foi o segredo da eficácia evangelizadora deste Papa extraordinário? É evidente que Karol Wojtyla foi um defensor incansável da dignidade humana, um pastor solícito, um comunicador credível da verdade e um pai, para crentes e não crentes. Mas o Papa que nos guiou na transição do segundo para o terceiro milénio foi acima de tudo um homem apaixonado por Jesus Cristo e identificado com Ele.
"Para saber quem é João Paulo II é preciso vê-lo rezar, sobretudo na intimidade da sua capela privada", escreveu um dos biógrafos deste santo pontífice. E assim é, de facto. Uma das últimas fotografias da sua caminhada terrena retrata-o na capela privada acompanhando, pela televisão, a Via-Sacra que decorria no Coliseu. Naquela Sexta-Feira Santa de 2005, João Paulo II não pôde presidir fisicamente ao evento, como fizera nos anos anteriores. Já não conseguia nem falar nem andar, mas essa imagem espelha a intensidade do momento que vivia. Agarrado a um grande crucifixo de madeira, o Papa abraça Jesus na cruz, aproxima o Crucificado do seu coração e beija-O. A imagem de João Paulo II, ancião e doente, unido à Cruz, é um discurso tão eloquente como as suas palavras vigorosas ou as viagens extenuantes.
O novo beato cumpriu com generosidade heróica o mandato de Cristo aos Seus discípulos: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura" (Mc 16, 15). Na ânsia de chegar ao último recanto de África, da América, da Ásia, da Europa e da Oceânia, João Paulo II não pensava em si próprio; tinha o ímpeto de gastar a vida em serviço dos outros, o desejo de mostrar a dignidade do ser humano - criado à imagem e semelhança de Deus e redimido por Cristo - e de transmitir a mensagem do Evangelho.
Certa vez, ao fim da tarde, acompanhei D. Álvaro del Portillo - então prelado do Opus Dei - aos aposentos pontifícios. Enquanto esperávamos a chegada do Papa ouvimos os passos cansados, de alguém que arrastava os pés, aproximar-se por um corredor. Era João Paulo II, muito cansado. D. Álvaro del Portillo exclamou: "Santo Padre, está tão cansado!" O Papa olhou para ele e, com voz amável, explicou: "Se por esta altura não estivesse cansado, seria sinal de que não teria cumprido o meu dever." O zelo pelas almas transportou-o ao último canto da Terra para levar a mensagem de Cristo. Há alguém no mundo que tenha estreitado mais mãos na sua vida, ou tenha cruzado o seu olhar com o de tantas pessoas como ele? Esse esforço, também humano, era outro modo de abraçar e de se unir ao Crucificado.
A universalidade do coração de João Paulo II não o conduzia só a uma actividade que poderíamos chamar exterior: também no seu interior agia operativamente este espírito, assumindo as inquietações do mundo inteiro. Diariamente, a partir da capela privada no Vaticano, percorria o globo. Por isso foi natural a resposta a um jornalista que perguntou como rezava: a oração do Papa - respondeu - é uma "peregrinação pelo mundo inteiro rezando com o pensamento e o coração".
Na sua oração - explicava - emerge "a geografia das comunidades, das igrejas, das sociedades e também dos problemas que angustiam o mundo contemporâneo", e deste modo o Papa "expõe diante de Deus todas as alegrias e esperanças e ao mesmo tempo as tristezas e preocupações que a Igreja partilha com a humanidade contemporânea".
Esse coração universal e esse impulso missionário levaram-no a dialogar com pessoas de todos os tipos. Isso tornou-se patente durante o Jubileu do ano 2000; quis encontrar-se com crianças, jovens, adultos e idosos; com desportistas, artistas, governantes, políticos, polícias e militares; com trabalhadores do campo, universitários, presos e doentes; com famílias, pessoas do mundo do espectáculo, emigrantes e nómadas...
A biografia de Karol Wojtyla pode também ler-se como um contínuo levar o Evangelho aos mais variados sectores da sociedade humana: às famílias, à escola e à fábrica, ao teatro e à literatura, às cidades de arranha-céus e aos bairros de barracas. A sua história levou-o a perceber com clareza que é possível tornar presente Cristo em todas as circunstâncias, também nos momentos trágicos da guerra mundial e das dominações totalitárias que imperaram na sua terra natal. Nos cenários mais diversos da modernidade, João Paulo II levou a luz de Jesus Cristo à humanidade inteira. Com a sua existência ensina-nos a descobrir Deus nas circunstâncias em que nos toca viver.
Numa das suas obras, S. Josemaria Escrivá de Balaguer, contempla Jesus na cruz como Sacerdote Eterno, que "abre os seus braços à humanidade inteira". Penso que a caminhada terrena de João Paulo II foi uma réplica fiel desse Senhor a acolher no Seu coração todos os homens e mulheres, derramando amor e misericórdia em cada um, com um acento especial para os doentes e os desvalidos.
A vida do cristão é procurar configurar-se com Cristo; e João Paulo II cumpriu-o de modo sublime: por causa da sua heróica correspondência à graça, da sua alegria de filho de Deus, pessoas de todas as raças e condições sociais viram brilhar nele o rosto do Ressuscitado.
A fotografia que referi no início destas reflexões parece-me uma síntese visual da vida de João Paulo II: um Papa exausto pelo longo tempo de serviço às almas, que conduz o olhar do mundo para Jesus na cruz, para que cada um e cada uma encontre aí respostas para as suas interrogações mais profundas. A vida do novo beato é pois um exemplo de transparência cristã: tornar visível, através da própria vida, o rosto e os sentimentos misericordiosos de Jesus. Penso que é essa a razão e o segredo da sua eficácia evangelizadora. E estou convencido - assim o peço a Deus - de que a sua elevação aos altares induzirá no mundo e na Igreja uma onda de fé e de amor, de desejos de servir os outros e de gratidão ao Senhor.
No dia 1 de Maio de 2011, na Praça de São Pedro, sob o olhar carinhoso da Mãe da Igreja, poderemos unir-nos a Bento XVI e dizer uma vez mais: "Queremos expressar a nossa profunda gratidão ao Senhor pelo dom de João Paulo II e queremos também agradecer a este Papa tudo o que fez e sofreu" (Audiência geral, 18 de Maio de 2005).
Aos que o conhecemos em vida, cabe-nos agora o gostoso dever de o dar a conhecer às gerações vindouras.

Prelado do Opus Dei

Este é o post 3000 do Povo

Beatificação do Papa João Paulo II

(em construção)
Encíclicas

terça-feira, 26 de abril de 2011

Beato João Paulo II - Edição especial da Agência Ecclesia


BeatoJoaoPaulo

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Os Príncipes

Público, 2011-04-25 Filipe Anacoreta Correia
A enorme onda da realidade vai destruir grande parte das seguranças ilusórias em que nos apoiámos

Na Florença renascentista, Maquiavel afirmava que "nas acções dos Príncipes, em que não existe tribunal a que recorrer, o que importa é o sucesso das mesmas". "Procure, pois, um Príncipe, vencer e manter o Estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos louvados, porque o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados, e no mundo não existe senão o vulgo; os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar".
Vem isto a propósito do calendário político que se vive em Portugal e de como o mesmo tem sido sublimemente conduzido pelos actuais responsáveis partidários. Um dos aspectos que mais impressionam na trágica situação nacional que atravessamos é que, paradoxalmente, ela resulta da enorme competência e engenho político dos seus protagonistas.
José Sócrates tem gerido a crise como um político extraordinário. O seu golpe de precipitar a queda do Governo foi, na perspectiva socialista e naquela que lhe interessa salvaguardar, uma jogada de génio. Deste modo, endossou à oposição e ao país a responsabilidade pela situação de debilidade extrema em que nos encontramos. E continua ao ataque, sempre veloz, sem nunca dar o ângulo a qualquer recuo ou ponderação que não a da sua própria conquista ou manutenção do poder.
E, por seu lado, também os seus opositores têm feito aquilo que está ao seu alcance para afirmarem o seu poder e conquistarem aquele que ainda não têm.
As jogadas do tabuleiro, cada uma à sua medida, têm revelado que temos em Portugal excelentes políticos, altamente profissionais e com grande faro. De uma forma geral e à parte pequenos deslizes, os nossos políticos têm demonstrado que dominam a indústria em que se movem e são muitíssimo competentes.
Prova disso é a afirmação dos diferentes líderes no seio dos respectivos partidos e o unanimismo crescente que granjeiam. Tal unanimismo, em contraste com a ameaça de desintegração social a que assistimos no nosso tempo, é no mínimo ridícula, mas demonstra empenho e uma atitude implacável por parte dos seus protagonistas.
A conquista ou manutenção do poder, sem ponderação do interesse geral sobre o corporativo ou qualquer referência à virtude (no sentido clássico ou aristotélico), é a escola do actual espectro partidário. A política é isso. Dizem que é a conquista e a manutenção do poder. E, nesse esforço, todos estão a fazê-lo bem ou mesmo muito bem.
Fazem-no, é certo, à custa de Portugal, mas isso não interessa. Ninguém parece reparar. Na política, o que importa são as aparências. E a gestão destas sempre deixou pouco lugar aos que apontaram e apontam para outro horizonte. Como dizia Maquiavel, "os poucos não podem existir quando os muitos têm onde se apoiar".
Sucede que se aproxima vertiginosamente uma enorme onda da realidade, que vai destruir grande parte das seguranças ilusórias em que nos apoiámos. Os nossos Príncipes tentam surfar essa onda. Porém, cada vez mais se pode adiar menos o momento do seu impacto.
Temo que, sem outro alcance de responsabilidade, a nossa desfragmentação enquanto Povo seja, mais do que uma possibilidade, uma probabilidade. Ainda que sob o olhar de Príncipes de luva branca. Membro do Conselho Nacional do CDS-PP

Ainda sobre o 25 de Abril

Público 2011-04-25 João Carlos Espada As democracias nunca prometeram o paraíso porque não são acerca de resultados. São acerca de regras de conduta

O melhor sintoma da vitalidade de uma democracia adulta reside em não se falar dela. Esse é o sintoma de que uma democracia se tornou aquilo que de facto é: o regime político normal entre povos civilizados.
Numa democracia adulta, as pessoas discutem políticas rivais e comparam as vantagens e desvantagens em adoptar uma ou outra. Mas não põem em causa, obviamente, o sistema de regras que lhes permite discordar e discutir livremente. A esse sistema de regras que permite a discussão e escolha livres chamamos democracia, mais exactamente democracia liberal.
Em regra, é isso que se tem passado entre nós nos últimos 37 anos, se descontarmos o período do chamado PREC e suas sequelas. É por isso um tanto ou quanto aborrecido começar a ouvir umas vozes dizendo que, perante a crise a que chegamos hoje, não valia a pena ter havido o 25 de Abril. Afinal, opinam essas vozes, a democracia não nos trouxe o paraíso que nos tinha prometido.
Há aqui um equívoco, talvez um pouco grosseiro. As democracias nunca prometeram o paraíso, nem qualquer outro resultado particular, simplesmente porque não são acerca de resultados. São acerca de regras de conduta, de procedimentos. Essas regras permitem que os cidadãos escolham políticas, e são estas que produzem os resultados. Se os resultados, numa democracia, desapontam os cidadãos, talvez seja altura de mudar de políticas. Eventualmente, também de ajustar procedimentos para facilitar essas mudanças (como seria o caso de introduzir mais concorrência no sistema eleitoral).
Uma "não-democracia", entre povos civilizados, é um estado de excepção. Não é uma opção normal, ou habitual, como a opção democrática. Isso mesmo foi dito com naturalidade por Winston Churchill, num célebre discurso em Paris, a 24 de Setembro de 1936, contra o despotismo nazi e comunista:
"Como poderemos nós, criados como fomos num clima de liberdade, tolerar ser amordaçados e silenciados; ter espiões, bisbilhoteiros e delatores a cada esquina; deixar que até as nossas conversas privadas sejam escutadas e usadas contra nós pela polícia secreta e todos os seus agentes e sequazes; ser detidos e levados para a prisão sem julgamento; ou ser julgados por tribunais políticos ou partidários por crimes até então desconhecidos do direito civil? Como poderemos tolerar ser tratados como rapazinhos, quando somos homens adultos?"
É certo que o regime autoritário derrubado a 25 de Abril de 1974 não tinha comparação possível com o despotismo totalitário dos regimes nazi e comunista. Mas era um regime de excepção, com procedimentos anormais, não habituais, como aqueles que Churchill descreveu na citação acima.
Esse regime de excepção terá tido justificações excepcionais, ainda assim discutíveis, em 1926, quando o país se debatia no caos em que se saldou a I República - ela própria um regime de excepção não democrático. Mas por que razão precisava Portugal de um regime de excepção a seguir à vitória das democracias no Ocidente, após a II Guerra Mundial, em 1945?
A esta luz, o único tópico realmente intrigante não é o de saber se terá valido a pena o 25 de Abril. O tópico realmente intrigante consiste em saber por que é que a transição à democracia só ocorreu em Portugal em 1974, e não 30 anos mais cedo.
Em suma, não faz qualquer sentido discutir se o 25 de Abril valeu ou não a pena, tendo em conta a situação financeira e económica a que chegamos hoje. Alexis de Tocqueville respondeu a esses disparates de forma conclusiva, em 1856, no seu livro sobre O Antigo Regime e a Revolução:
"É bem verdade que, no longo prazo, a liberdade conduz sempre, aqueles que sabem conservá-la, ao bem-estar e muitas vezes à riqueza; mas há ocasiões em que ela perturba momentaneamente o usufruto desses bens; e há outras em que só o despotismo pode oferecer o seu usufruto passageiro. Os homens que só valorizam na liberdade o usufruto desses bens nunca a conservaram por muito tempo.
"Aquilo que, em todos os tempos, ancorou a liberdade no coração de alguns homens foi o seu encanto próprio, independentemente dos seus benefícios: foi o prazer de poder falar, agir, respirar sem constrangimento, sob o único governo de Deus e das leis."
Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia

A libertação

Público 2011-04-25 Miguel Esteves Cardoso

Se não fosse o 25 de Abril este jornal não existiria e as primeiras dez palavras desta crónica não poderiam ser publicadas. Tal como o Pesach, que lembra a fuga dos judeus da escravidão do Egipto, o 25 de Abril significa a liberdade. De escolher, mal ou bem.
Todos os dias, excepto ao sábado, recebo um mail do Chabad.org que me dá a Daily Dose, umas palavras inspiradoras que o Rabbi Tzvi Freeman condensa da obra sábia sabedoria do Rabbi Menachem Mendel Schneerson, o Lubavitcher Rebbe. Cito, para bem de cada um, atendendo a Freud e ao 25 de Abril, o recado antigo que recebi sexta-feira passada:
"Em cada um de nós há um Egipto e um Faraó e um Moisés e uma Liberdade numa Terra Prometida. E, a cada momento no tempo, há uma oportunidade para outro Êxodo.
"O Egipto é um lugar que te prende a quem tu és, impedindo-te de cresceres e de mudares. E o Faraó é aquela voz dentro de ti que goza com a tua vontade de fugir, dizendo-te: "Como podes tentar ser hoje uma coisa que não eras ontem? Não estás bem tal como estás? Não sabes quem és?"
"Moisés é o libertador, a força infinita no fundo de nós, que tem a obsessão impetuosa de se livrar de qualquer submissão, de transcender sempre, de se se ligar àquilo que não tem limites.
"Mas a Liberdade e a Terra Prometida não são elementos estáticos que ficam ali à espera. São conquistas tuas, que podes criar a qualquer momento, em qualquer coisa que fizeres, só por te livrares de quem eras na véspera."
Nem menos.

A árvore de Páscoa

DN 2011-04-25
JOÃO CÉSAR DAS NEVES
A raiz é o egoísmo. O fruto é a solidão. O tronco, ramos, folhas e flores são muitos. Vários com nomes maravilhosos: direitos humanos, liberdade individual, realização pessoal. Envenenados pela raiz, os grandes valores apodrecem e infectam. O fruto é sempre a solidão.
Vimos o desejo nobre de a igualdade social acabar nos morticínios da guilhotina jacobina; o desejo sublime da afirmação cultural nacional cair na chacina do holocausto nazi; a ânsia magnífica da justiça económica descambar no horror do gulag soviético. Quanto mais elevados os propósitos, mais monstruosas as aberrações distorcidas pela seiva peçonhenta da raiz soberba.
O pior de todos os ramos coube-nos em sorte. Pior porque toca o mais íntimo do ser humano, a família. Corrompidos os mecanismos sociais no século XVIII, os regimes políticos no século XIX, os sistemas económicos no século XX, hoje as entranhas egoístas da árvore atacam a vida pessoal. Entretanto, a humanidade já expeliu muito do veneno dos outros ramos. Ninguém defende a sociedade sem classes, os regimes perfeitos, a economia colectiva. Apesar dos belos ideais, a desgraça dessas concepções egoístas está à vista. Agora todas as forças se dirigem a esfarrapar os laços familiares, as mais íntimas fibras do nosso ser.
A argumentação é a mesma de jacobinos, nazis e comunistas, aplicada à vida íntima. Pretende-se, como então, defender a liberdade, impor a igualdade, forçar a realização pessoal. Por baixo, como antes, sente-se a cauda viperina do egoísmo.
O amor conjugal é valor que todos defendem. Mas, como os direitos individuais de sucesso pessoal se sobrepõem a tudo, tem de acabar na ruptura e divórcio. Como o indivíduo é soberano, a família não se pode defender dos seus caprichos. A lei, em nome da liberdade, acode promovendo a precariedade. Torna-se mais fácil dissolver um casamento que uma sociedade comercial ou contrato de trabalho.
A fecundidade e felicidade das crianças é propósito universal. Mas, como os projectos de consumo ou carreira têm precedência, o filho transforma-se num inimigo a abater. Em relação tão íntima a única solução é a morte. E o Estado lá está para fornecer abortos subsidiados. Os embriões passam de espécie protegida a vírus de extirpar.
A natureza é valor supremo que todos apoiam ecologicamente. Toda a natureza, menos a humana, porque essa limita a igualdade de género. Que é a natureza face ao império dos sentidos? Como o capricho pessoal afinal tem mais direitos que a realidade congénita, o Estado iguala todas as perversões como aceitáveis e equivalentes.
O efeito comum é sempre a agressão à família. O resultado é sempre a solidão. Como a carreira acaba na reforma, a beleza fenece com a idade, a vitalidade se gasta no tempo, todos acabam sós, autónomos, fechados, contemplando uma colecção de caprichos momentâneos, prazeres fugidios, aventuras ocasionais, rupturas, infidelidades, traições. A conclusão é a velhice solitária, vítima do egoísmo que a isolou. Alguns ainda se espantam dos que morrem anónimos: "Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar" (Bento XVI Caritas in Veritate 53).
Os propósitos anunciados eram grandiosos. O mal estava na raiz egoísta, na origem interesseira, na estrutura auto-suficiente. O mal vinha da base, das entranhas. Que fazer a uma árvore envenenada na estirpe? A única solução é enxertar um galho saudável e esperar que a seiva sadia se espalhe no organismo.
Isso foi o que aconteceu e que nós vos anunciamos. Na Páscoa um ramo de puro amor foi pregado na árvore da morte. Agora, além da seiva do orgulho egoísta, circula no tronco, ramos, flores e folhas um fluxo de divina caridade. O fruto é a união. Isso salvou a sociedade pela subsidiariedade, a política pela democracia, a economia pela solidariedade. Isso salvará a família dos horrores com que o nosso tempo a persegue. Só o amor vence a solidão.

domingo, 24 de abril de 2011

Mensagem Urbi et Orbi do Papa Bento XVI (Páscoa de 2011)


MsgUrbietorbiPascoa2011

Pensamento do dia

Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé” (1 Cor 15,14-15).
[...] A fé cristã fica de pé ou cai com a verdade do testemunho segundo o qual Cristo ressuscitoudos mortos. Se se suprimir isto, certamente que ainda se poderá recolher da tradição cristã uma série de ideias dignas de nota sobre Deus e o homem, sobre o ser do homem e o seu dever-ser (uma espécie de concepção religiosa do mundo), mas a fé cristã estará morta. Nesse caso, Jesus [...] deixará de ser o critério de medida; o critério será apenas a nossa avaliação pessoal, que escolherá do seu acervo aquilo que pareça útil. E isto significa que ficaremos abandonados a nós próprios. A nossa avaliação pessoal será a última instância. Somente se Jesus ressuscitou é que aconteceu algo de verdadeiramente novo, que muda o mundo e a situação do homem. Então Ele, Jesus, torna-Se o critério em que nos podemos fiar; porque, então, Deus manifestou-Se verdadeiramente.
Bento XVI
O Povo deseja a todos os seus leitores uma Santa Páscoa!

Domingo de Páscoa

Ressurreição
Piero della Francesca
1463-65
Mural (fresco e têmpera), 225 x 200 cm
Pinacoteca Comunale, Sansepolcro

Homilia do papa Bento XVI na Vigília Pascal de 2011


Homiliapapa2011VigiliaPascal

sábado, 23 de abril de 2011

O dia do silêncio

O Sábado Santo é por excelência o dia do silêncio.
É o dia de Cristo Morto que põe à prova a esperança: aquela certeza no futuro por força duma certeza presente.
Desta só é possível fazer memória, porque o Sábado Santo é o dia onde o reconhecimento da Sua presença se torna difícil. Até as igrejas estão despidas e não há qualquer celebração litúrgica.
Só nos resta mesmo a solidão da oração silenciosa.
No mundo que vivemos é cada vez mais difícil, porque as rádios e as televisões, as lojas e o rebuliço da vida parecem fazer esquecer este drama maior da humanidade: Aquele em quem toda a Esperança espera está morto!  
Mas ao mesmo tempo, misteriosamente, o nosso tempo assemelha-se ao que aconteceu há dois mil anos: só os que lhe eram mais próximos viveram a angústia deste dia; todos os outros, Jerusalém inteira, guardavam o sábado ritual em preparação da Páscoa; neste nosso tempo, a preparação da Páscoa, é sobretudo, a preparação de uma festa, de cujo significado já nem se está recordado ou que esta camuflado debaixo  de costumes importados e pagãos.
Mas é sempre possível fazer silêncio, mesmo no meio do maior rebuliço; um silêncio pessoal que procura “as razões da nossa esperança”.
Ajuda-me ler este texto de don Giussani sobre o silêncio. Procuremos o silêncio neste dia do silêncio. Procuremos tempos de silêncio na nossa vida cheia de coisas urgentes.
É urgente encontrar o silêncio!

Pedro Aguiar Pinto

Pilha-galinhas

João Pereira Coutinho
Correio da Manhã, 2011-04-23
O caso Fernando Nobre fez tremer o país pensante. O caso Ricardo Rodrigues não inquietou uma alma. Entendo. Uma coisa é um convite inábil a uma personalidade inábil.
Outra, bem mais tolerável, é ter como cabeça-de-lista pelos Açores às próximas eleições legislativas um cavalheiro que furta gravadores a jornalistas com inegável talento manual; e que o Ministério Público vem agora acusar de crime de atentado à liberdade de imprensa e crime de atentado à liberdade de informação. Estas duas medalhas, reforçadas pelas imagens do acto, seriam um bilhete de regresso, em qualquer democracia respeitável, para que o sr. Rodrigues continuasse a sua carreira nas doces pastagens de onde veio. Entre nós, são o bilhete de volta à dignidade parlamentar.
Tivesse Fernando Nobre seguido esta escola e jamais teria dito por aí que vira em tempos uma criança a correr atrás de uma galinha para lhe roubar o pão que trazia no bico. A história seria outra: ele próprio roubara o pão, e a criança, e até a galinha. Tenho a certeza de que seria levado em ombros até S. Bento.

Sábado Santo - Descida aos infernos

Duccio di Buoninsegna
Descida ao Inferno
1308-11
Tempera sobre madeira, 51 x 53,5 cm
Museo dell'Opera del Duomo, Siena

Sobre o silêncio


Silencio

Vigilia de Oração Fátima Beatificação Papa João Paulo II

Beatificação de João Paulo II: Fátima em vigília mundial de oração 

No próximo dia 1 de Maio, Bento XVI presidirá, no Vaticano, à beatificação do seu antecessor, João Paulo II. O Santuário de Fátima associa-se em júbilo a várias celebrações e iniciativas que estão a ser preparadas, algumas com expansão mundial.
30 de Abril – Santuário de Fátima em vigília mundial de oração
Televisão unirá cinco lugares do mundo
Na noite de 30 de Abril, às 19:00 de Lisboa, numa organização do Vicariato de Roma, o mundo vai unir-se em oração.
Intitulada “Totus Tuus – Vigília de Oração em preparação da beatificação de João Paulo II”, a iniciativa terá um forte impacto, uma vez que juntará cinco lugares diferentes, através da televisão:
- a Basílica de Guadalupe, no México;
- o Santuário de Kawekamo, na Tanzânia;
- o Santuário de Fátima; em Portugal
- Cracóvia, na Polónia;
- o Santuário de Nossa Senhora do Líbano, em Beirute.
Em cada uma destas cidades será recitado um mistério do Rosário, difundido em tempo real pelo Centro Televisivo do Vaticano para todo o mundo.
Em Roma, a partir do Circo Massimo, presidirá à vigília o Cardeal Agostino Vallini, vigário de Sua Santidade para a Diocese de Roma.
O Santuário de Fátima acolheu com muita alegria o convite para esta oração, porque será mais um momento para lembrar e homenagear João Paulo II.
A Capelinha das Aparições foi o local escolhido para a ligação com Fátima. Deste lugar será possível acompanhar, através de ecrãs televisivos instalados para a ocasião, todo o Rosário.
D. Augusto César, bispo emérito de Portalegre Castelo Branco, presidirá em Fátima a este momento.
Mais informações sobre esta iniciativa: http://www.radiovaticana.org/por/Articolo.asp?c=475891


sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Quadragesimo Anno revisitada

Público 2011-04-22 Glória Rebelo
O fim da sociedade é, assegurando as exigências da justiça distributiva, proporcionar aos seus membros bem-estar social

Acentuada pela actual crise financeira internacional, a Europa enfrenta uma fortíssima crise identitária acompanhada de grandes mudanças socioeconómicas que passam, sobretudo, por saber responder a desafios estruturais como a globalização, a sustentabilidade dos recursos naturais ou, ainda, o envelhecimento da população. Em particular a União Europeia (UE) vive o momento mais desafiante da sua história: responder com eficácia, e de forma coesa, a uma devastadora crise do capitalismo financeiro que, de forma inédita, vai conduzindo ao colapso financeiro não só de famílias e empresas mas também de países, originando uma gravíssima crise económica e social.
Daí que se torne premente uma reflexão sobre a denominada "economia virtual", muito assente nos implacáveis veredictos das agências de rating que, não obstante os erros de avaliação cometidos na génese da crise de 2007/2008, continuam a sufragar grande parte da decisão de investimento em empresas, regiões e Estados.
Ora esta ponderação leva-nos, entre outras, a revisitar as propostas da encíclica Quadragesimo Anno, de 1931, onde - em resposta à crise de 1929 - a Igreja Católica, acerca da então "questão social e económica", se posicionou sobre a relação entre a economia, a ética e a ordem social. Como realça esta encíclica, é um erro julgar a ordem económica e a moral alheias entre si, importando, na regulação da actividade económica, que se atenda não só ao interesse individual mas também ao bem comum. Procurava este enunciado alertar para os gravíssimos inconvenientes da repartição da riqueza de então e para a necessidade de se acautelarem diversos "ímpetos" do capitalismo, evitando, em especial, que alguns grupos da população fossem excluídos do bem comum.
E, muito à semelhança da crise de 1929, neste momento em que vivemos uma nova fase do capitalismo - com especial protagonismo para o capitalismo financeiro e a acção das agências de rating - a crise internacional que nos afecta não poderá ser solucionada sem uma conveniente resposta que considere os princípios da justiça social e, assim, regule a actividade financeira, travando a lógica desenfreada de acumulação desequilibrada de recursos. Uma resposta que se exige, no quadro institucional da UE, solidária entre os Estados-membros, por forma a salvar o euro dos ataques especulativos e a mudar o paradigma socioeconómico, respondendo aos problemas do aumento do desemprego e das desigualdades sociais. Afinal, como alertava a referida encíclica, o fim da sociedade é, assegurando as exigências da justiça distributiva, proporcionar aos seus membros bem-estar social. Professora universitária e investigadora

Sexta-feira Santa - Deposição no túmulo

 Hyeronimus Bosch
A deposição no túmulo
1507
Ink and grey wash, 250 x 350 mm
British Museum, London

Palavras do Papa no fim da via-Sacra no Coliseu


Papa 20110422

O legado de Afonso Costa e as manobras de José Sócrates

Público 2011-04-22 José Manuel Fernandes

Muita coisa se tem escrito sobre o centenário da Lei da Separação do Estado e das Igrejas, mas não me lembro de a ver referenciada como uma das armas políticas criadas por Afonso Costa para garantir a hegemonia dos radicais na chamada "República Velha". Porém, como Vasco Pulido Valente explicou, a Intangível - assim ficou conhecida a lei, e não por acaso - foi bem mais do que "o mais odioso acto da facção jacobina": foi também um instrumento para os exaltados da propaganda submeterem os moderados e tomarem conta do movimento republicano e do Estado. Ora a forma como os radicais então manobravam tem curiosos e significativos paralelos com as intrigas políticas dos dias que correm.
O objectivo político da Intangível não era apenas o de humilhar os católicos - algo que conseguia na perfeição, ao colocar os padres na dependência de uma "pensão" do Estado, ao proibir qualquer cerimónia litúrgica depois do sol-posto ou ao impedir os religiosos de usarem em público as suas vestes talares, entre muitas outras disposições. Com a Intangível Afonso Costa "deixou os moderados num impossível aperto", obrigando-os a optar entre o seu campo e o "do inimigo". Com a Intangível traçou uma espécie de "linha na areia" que separava os que estavam a favor ou contra a República, colocando os primeiros sob o comando dos radicais e tornando impossível qualquer compromisso com os demais.
José Sócrates, sem ter o calibre intelectual ou o génio político de Afonso Costa, parece inspirar-se no mesmo tipo de processo político. A todo o momento trata de estabelecer a "linha na areia" que separa os "patriotas" dos inimigos do "bom povo socialista": ontem foi estar ou não com o FMI, hoje é estar ou não com o seu modelo muito próprio de "Estado social", no limite é, como perguntou em Matosinhos, "estar ou não estar com ele". O PS já caiu nesta armadilha e rendeu-se-lhe num congresso transformado em cerimónia ritual coreografada ao estilo de Leni Riefenstahl.
É certo que o PS ainda não é o partido da "formiga branca", as milícias radicais que atemorizavam os adversários políticos nas ruas da Lisboa da I República, mas nas suas tropas não faltam hooligans modernos, hoje travestidos de bloguers anónimos que pontificam em sites como o Câmara Corporativa e deixam o seu ódio e ameaças vertidas pelas caixas de comentários da imprensa online. Sócrates também não teorizou, como Afonso Costa fez em Santarém em Novembro de 1912, o assalto dos militantes do partido aos lugares no Estado, mas os seus homens estão por todo o lado, ocupando postos na administração e nas empresas públicas, formando o grosso do exército fiel e dependente que foi agarrar nas bandeirinhas de Portugal para a celebração de Matosinhos.
Há um século, os republicanos sabiam que nunca poderiam, em eleições livres e abertas, ganhar uma maioria, pelo que trataram de fazer uma lei eleitoral que fez diminuir o número de eleitores por comparação com os tempos da Monarquia Constitucional. Hoje não é possível mudar as leis eleitorais mas é possível afastar os eleitores das urnas. É por isso que os socialistas, que sabem que não podem ganhar em circunstâncias normais, tudo estão a fazer e tudo farão para que a 5 de Junho a abstenção seja a mais elevada possível, única forma de alimentarem a esperança que os votos do seu núcleo duro sejam suficientes. Já seguiram a mesma táctica nas Presidenciais, e com sucesso, pois trata-se de um recurso tão simples como rasteiro: fazer crer que são todos iguais naquilo que os políticos têm de mau, isto é, na mentira, no compadrio e no nepotismo. Criarão os casos que forem necessários não para provar que Sócrates não é mentiroso, pois aí não teriam sucesso, mas para dar a entender que todos os demais são igualmente mentirosos. Não podendo fazer esquecer os casos da licenciatura, do Freeport, da Cova da Beira, das casinhas na Guarda ou da casona na Rua Braamcamp, tentarão descobrir uma qualquer Casa da Coelha ou um simples pionés desviado. Como os republicanos de Afonso Costa, há muito que ao grupo de Sócrates lhe é indiferente as regras democráticas ou o prestígio do regime. Pior: neste momento interessa-lhes mesmo o desprestígio do regime e a descrença na democracia. Frases de aliados, como as do bastonário da Ordem dos Advogados, a pedir uma "greve à democracia", provam-no.
Não temos hoje a violência física dos carbonários ou da "formiga branca", mas instalou-se um clima de violência moral alimentada por uma propaganda insana e insulto fácil. Nas eleições de Junho de 1915, que consagraram a ditadura dos "democráticos" de Afonso Costa, só votaram 280 mil dos seis milhões de portugueses; nas eleições de 5 de Junho quantos menos portugueses votarem (à semelhança do que se passou nas Presidenciais), mais hipóteses tem o partido de Sócrates de sobreviver. E a verdade é que o aumento irreal do número de indecisos nas sondagens que vão sendo conhecidas - um aumento que contraria o que é habitual em semanas pré-eleitorais - mostra que o estratagema pode estar a ser bem sucedido.
Sócrates não anda nos velhos carros eléctricos, e por isso não se verá forçado a saltar por uma janela com medo do povo, como um dia sucedeu ao também odiado Afonso Costa, mas tal como o seu remoto antecessor também viu na instrumentalização de uma crise internacional a sua oportunidade. O chefe republicano impôs a entrada, desnecessária, de Portugal na I Guerra para assim conseguir a hegemonia definitiva dos radicais entre os diferentes partidos republicanos, congeminando o governo da União Sagrada; o caudilho socialista imaginou que de PEC em PEC iria conseguir amarrar a oposição ao seu navio à deriva. Costa reunia a "família republicana", Sócrates tratava de cumprir o sonho mexicano do "partido indispensável" e irremovível do poder.
Os custos para o país dos delírios de Afonso Costa foram imensos - potenciados, para mais, pelo clima de violência que marcou a I República. Os custos para Portugal dos erros, da obstinação e do populismo de Sócrates já estão a ser muito pesados - e verdadeiramente não se sabe se o país está mesmo determinado a pôr-lhes fim. Até porque há em Portugal uma preocupante menoridade democrática: em mais de 150 anos de eleições, só uma vez um primeiro-ministro em funções foi derrotado. Aconteceu com Santana Lopes, e por muito menos do que hoje deveria ser suficiente para afastar Sócrates. Só que ele não liderava um partido com raízes longínquas no republicanismo da propaganda.
Mesmo assim, apesar de todas as imensas diferenças entre as duas épocas, a simples permanência do estado de bancarrota então e agora deve fazer-nos meditar sobre onde desembocaram as manobras de Afonso Costa e seus seguidores. Jornalista

Sobre a verdade - alocução de D. Manuel Clemente na celebração da Paixão do Senhor


homiliadmanuelclemente

Três tempos, três Vias-Sacras

MARIA JOSÉ NOGUEIRA PINTODN 2011-04-21
Na minha família sempre se rezou a Via-Sacra às três em ponto da tarde de Sexta-Feira Santa. As mulheres da casa ocupavam-se do altar improvisado sobre a lareira da sala, cumprindo uma hierarquia de idades. Com o passar dos anos os mais velhos foram partindo e uma nova geração veio preencher as fileiras e fomos sendo sempre mais e mais. Um missal do Séc. XIX passava de mão em mão para que todos participassem nas leituras. Era um livro com a lombada gasta, de que caíam muitos santinhos, escrito numa linguagem gongórica e totalmente desconhecida da nossa prol nada e criada no post Vaticano II. Em todas as Estações abundava a frase "Vós, misericordiosíssimo Senhor", o que provocava inevitáveis tropeços na leitura. Era uma cerimónia doméstica, terna e, apesar de alguma informalidade, muito devota.
No início da década de noventa o missal foi substituído por um molho de folhas dactilografadas, textos escritos por um grupo de pessoas muito diversas que tinham em comum serem voluntárias junto das prisões, de doentes de VIH, de toxicodependentes. A intenção que os moveu foi o de, Estação após Estação, estabelecer uma íntima ligação entre o sofrimento de Cristo e o sofrimento desta humanidade, ambos sempre renovados, entre o Mistério da Paixão e a imutável condição humana, entre os trágicos acontecimentos que rodearam a Cruz e a sua proximidade com o nosso tempo: o domínio da guerra sobre a paz, a constante violação dos direitos humanos, as novas doenças ameaçadoras e segregadoras. E como eram escritas numa linguagem simples, e quem as escreveu conhecia por dentro estas realidades o novo texto ganhou no realismo com que aproximou tempos separados por séculos e na clareza com que demonstrou a permanência do essencial. Na nossa família há de tudo como na botica, graças a Deus, e as reacções foram diversas: para uns dessacralizava, para outros actualizava, para uns banalizava, para outros devolvia a realidade pura e dura das coisas. Certo é que, no geral, a nossa Via-Sacra II introduziu uma forte melhoria no modo de participar e de entender o que, verdadeiramente, está em causa na Paixão de Deus feito homem.
Foi recentemente publicada, por iniciativa do reitor do Santuário do Cristo Rei, uma Via-Sacra a partir de contributos pedidos a diversas pessoas. Conta o padre Sezinando Alberto que se inspirou em catorze grandes quadros a óleo que no Santuário polaco da Virgem Negra retratam a Paixão "através de cenas dramáticas da história recente daquele país". De novo ganha força a ideia "da correspondência da actualidade da paixão de Cristo" não apenas em cada homem mas à dimensão planetária.
Quando a li apercebi-me da curiosa mudança nos temas escolhidos, comparativamente com os do início da década de noventa. Pondo à parte o texto do missal que parece limitar-se a uma narrativa em círculo fechado com os seus personagens históricos, como se tudo começasse e acabasse ali, circunscrito num tempo e num espaço irrepetíveis, a evolução entre os outros dois textos é notória: as novas formas de violência que levam a que a religião cristã seja hoje a mais perseguida no mundo, a paganização da sociedade em nome da laicidade dos Estados, a vivência da fé reduzida ao foro íntimo de cada um, o ataque sistemático a todos os valores que forjaram a nossa civilização, as crescentes desigualdades na distribuição dos rendimentos, com o consequente aumento da pobreza para níveis intoleráveis constituem, agora, temáticas centrais.
O mundo mudou muito nas últimas décadas e sempre que pensamos que mudou para melhor verificamos que novas e subtis formas de ditadura e de violência vieram substituir outras. A correspondência da actualidade da Paixão de Cristo é uma realidade que se nos impõe no nosso quotidiano e vivê-la nessa perspectiva pode bem valer a pena.

Sexta-feira Santa - Crucifixão

 Pietro Cavallini
c. 1308
Crucifixão
Fresco
San Domenico Maggiore, Nápoles


Sexta-feira Santa - Caminho para o Calvário

Abel Grimmer
1593
Jesus carrega a cruz a caminho do Calvário
óleo sobre painel de carvalhol, 108,5 x 114 cm
Groeninge Museum, Bruges

Reencontro com João Paulo II

Uma proposta da sua rádio… dias antes da beatificação de Karol Wojtyla.
Dia 26 de Abril, no Auditório da Renascença, em Lisboa não perca a exibição de um documentário sobre o Papa que mudou o mundo.
“No coração de João Paulo II”… um documentário da autoria de Aura Miguel para ver às 3 da tarde ou às 9 e meia da noite.
Duas oportunidades para ouvir também a jornalista da Renascença que sempre acompanhou de perto João Paulo II.
Reserve já o seu lugar. Envie um e-mail para: passatempo@rr.pt

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Já gastámos as palavras pela rua"

Público 2011-04-25  Helena Matos
37 anos depois do 25 de Abril

Talvez tenha sido porque estive a arrumar papéis para os impostos, actividade que materializa a sensação de perda, pois, ano a ano, ganha-se menos e paga-se mais. Ou talvez a culpa seja daquela palavra troika repetida à exaustão em todos os noticiários: a troika ia para aqui, a troika ia para acolá, a troika chegava uns minutos antes da hora prevista... Enfim, tem sido um fartar de troika na rua, troika no automóvel, troika a entrar no elevador. E uma pessoa olha e só vê umas criaturas mudas - a troika -, os jornalistas frenéticos tentando obter uma declaração da troika, os carros a partirem levando a troika para longe da nossa vista e deixando-nos na angustiante dúvida se, mal se viu a salvo do nosso olhar, a troika perdeu a compostura calvinista e desatou a rir de nós, da nossa aflição e do ar decadente de tudo isto.
Há uns dias, poucos, verborreia equivalente era gerada pela expressão "dívida soberana". De cada vez que a televisão e as rádios repetiam a palavra "soberana", acentuando a sibilante inicial e prolongando a sílaba tónica, era como se tivéssemos ganho de novo o torneio de Arcos de Valdevez, só que agora o troféu era a dívida soberana. (O que, além de ridículo, é patético, pois, na nossa actual situação, "dívida soberana" é uma expressão que contém em si mesma uma contradição insanável entre os termos, pois foi precisamente porque a dívida cresceu tanto que o país perdeu boa parte da sua soberania, a não ser que por nossa soberania se entenda a dívida propriamente dita.)
À beira de comemorarmos o 37.º aniversário do 25 de Abril, o verso de Eugénio de Andrade que dá título a esta crónica é o retrato mais rigoroso da nossa presente situação nacional: "Já gastámos as palavras pela rua (...) O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas."
Todas as palavras com que construímos o ideário destes 37 anos - justiça, dignidade, solidariedade, independência - não só nos parecem subitamente gastas como quando as repetimos não acontece absolutamente nada. E, contudo, como escreveu Eugénio de Andrade, "tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam quando as pronunciávamos." Mas isso foi antes de as palavras estarem gastas.
Esta relação adolescente com as palavras - somos como aqueles gaiatos que, entre acne e balões de pastilha elástica, se deleitam proferindo as palavras giras de cada momento - é um sinal dos patéticos ardis a que recorremos para não nos confrontarmos com a nossa imagem no espelho. Mas não só. Na verdade, na política, a nossa relação com as palavras nem chega à adolescência, pois é pouco mais que infantil: basta que alguém diga três vezes "combater as injustiças", duas "inclusão" e uma "solidariedade" para que, de imediato, como nos contos populares, aquele que profere estas palavras passe a falar por elas e a ser identificado com elas. Não quer isto dizer que se acredite que é realmente assim mas tem-se a forte convicção de que seria melhor que assim fosse.
Por exemplo, há anos que sabemos que a lei das rendas impede a mobilidade, condena as cidades à degradação e obriga a imensa maioria que não goza do privilégio dessas rendas baixíssimas a comprar casa. E há anos também, e estou a recuar até aos anos 60 do século passado, que qualquer deputado que ousasse dizer que isto tinha de mudar porque seria melhor para o país e para todos nós se arriscava a ser tratado como um ser destituído de sensibilidade social. Por isso agora é quase com alívio que se ouve que a troika vai impor a liberalização do arrendamento. Assim nós podemos continuar com o nosso discurso político cheio de palavras mágicas como "protecção dos mais pobres" e "senhorios parasitas", enquanto se transfere a responsabilidade da mudança que sabemos indispensável para alguém vindo de fora.
Agora, que as palavras estão gastas, procuramos por todos meios que outras palavras façam de conta que se mantém o que sabemos que acabou - o amor e a política são tão semelhantes, não é? Assim, se recuarmos, não necessariamente dias pois umas horas bastam, constataremos que, antes da troika e da dívida soberana, andámos às voltas com a palavra regime. De repente, descobriu-se que o regime estava bloqueado, que o regime precisava de ser refundado, que o regime era o problema. (E, como sempre que se fala da refundação do regime, surge Otelo Saraiva de Carvalho a contar espingardas e fazendo declarações que nos levam a pensar não que ele tenha feito o 25 de Abril, como diz, mas sim que o 25 de Abril se tenha feito apesar dele.)
Atacar o regime é a forma mais fácil de não se falar de política e sobretudo de desculpabilizar em geral quem a tem feito, e muito em particular serve para desresponsabilizar o Governo.
Mas nós não só não precisamos como não devemos mudar o regime. Aliás, no meio do enorme falhanço que a nossa situação económica representa e do descrédito da justiça, o que nos sobra e funciona regularmente são precisamente as instituições da democracia. O nosso problema não é, portanto, das instituições, mas sim, em primeiro lugar, de quem escolhemos para as ocupar. E, em segundo, da crescente tolerância e consequente cumplicidade que a sociedade portuguesa foi mostrando perante o que outrora se chamou corrupção e mentira e que, num dia cuja data não recordamos, se passou a designar por tratamento preferencial e inverdade. Desde esse dia que "gastámos as palavras". Desde esse dia que sabemos que isto nos ia acontecer. Com troika e tudo o mais. Ensaísta

Quinta-feira Santa - O beijo de Judas

Giotto
1304-06
A Prisão de Cristo (O beijo de Judas)
Fresco, 200 x 185 cm
Cappella Scrovegni , Padua

Quinta-feira Santa - Agonia de Jesus no horto

 Agonia de Jesus no Horto
Pieter Coecke van Aelst
1527-1530
Museu Hermitage
S. Petersburgo

Quinta-feira Santa - O lava-pés

Tintoretto
Cristo lava os pés dos seus discípulos
c. 1547
Óleo sobre tela
210 x 533 cm 
Museo del Prado, Madrid

O silêncio de Jesus

Pedro Lomba
Público, 2011-04-21 Pedro Lomba

Estamos na semana do processo contra Jesus Cristo. O julgamento de Jesus e o julgamento de Sócrates são os dois momentos fundadores da nossa civilização. Curiosamente, acabaram ambos com condenações à morte. Nenhum deles pode ser considerado um processo justo, nenhum assentou numa acusação legítima ou convincente, nenhum teve um desenvolvimento linear. E, por outro lado, os dois foram processos políticos.
Ao longo dos tempos, teólogos, historiadores, juristas, todos escreveram e discutiram abundantemente sobre cada passo do processo que levou à crucificação de Jesus. O interrogatório de Pilatos. O papel dos sacerdotes. O diálogo entre Pilatos e Jesus sobre a verdade, relatado pelo evangelho de João, no qual o jurista Hans Kelsen viu representada a oposição entre absolutismo e relativismo. A multidão democrática e manipulável clamando pela libertação de Barrabás em troca de Jesus. A questão da realeza de Jesus. A questão da jurisdição romana, diversa da jurisdição religiosa. A decisão final de Pilatos lavando as mãos.
Mas a nossa relação com o processo de Jesus é e continua a ser, em grande medida, a relação de quem não compreende. E não é tanto o desfecho que não compreendemos. Não são tanto os culpados que não compreendemos.
Nós compreendemos por que Jesus foi levado pelo Sinédrio para ser apresentado ao procurador romano. Para que Jesus morresse, não bastava a acusação religiosa. Para que Pilatos condenasse Jesus à morte, precisava de factos que implicassem a sua autoridade, precisava de uma culpabilidade terrena e política. Por isso os acusadores levaram Jesus até Pilatos apresentando-o como o malfeitor que se autoproclamava rei dos judeus. Por isso todos os evangelistas narram a primeira pergunta do interrogatório: "És tu o rei dos judeus?" "Tu o dizes", responde Jesus.
Nós compreendemos que, se Pilatos não tinha nada contra Jesus - "Não acho culpa alguma neste homem" -, do relato de João, como sabemos, o mais profundo e detalhado sobre o interrogatório, vem a referência ao diálogo da verdade entre Jesus e Pilatos. Quando Jesus responde: "O meu reino não é neste mundo", Pilatos diz: "Logo, tu és rei." E Jesus replica: "É como dizes. Eu sou rei. Para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade." E depois cala-se, tal como fizera antes.
O que nós não compreendemos é o silêncio de Jesus. Em todas as fases do processo, Jesus praticamente não diz nada, não refuta nada. No Sinédrio, Caifás também tinha perguntado: "És tu o Messias?" E Jesus ficou em silêncio. Diante de Pilatos, Jesus também nada responde. (Só no relato de João lhe ouvimos dizer: "Tu perguntas isso por ti mesmo ou porque outros to disseram de mim?") Perante Herodes, para quem Pilatos o remetera, Jesus é novamente interrogado e também nada responde. Perante a multidão e os sacerdotes, sempre o mesmo Jesus silencioso.
O que nós não compreendemos, desculpem este "nós", o que eu não percebo é esse silêncio. É como se Jesus tivesse passado ao lado do seu próprio processo. Talvez porque não existisse processo. Talvez porque não existisse acusação. Devemos por isso usá-lo como modelo? Ou devemos pensar que o silêncio de Jesus também não é deste mundo?
O juiz e professor Gustavo Zagrebelsky diz, no seu livro A Crucificação e a Democracia (ed. Tenacitas): "Jesus que se cala, esperando até ao fim, é um modelo. Convida até ao fim ao diálogo e à reflexão. Infelizmente para nós, no entanto, não nos podemos permitir aguardar em silêncio até ao fim." Boa Páscoa.

Nós e os governantes


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Blood money - The business of abortion

1ª sessão em Lisboa  (Auditório do Oratório de S. Josemaría 29 de Abril as 21.30 H)
Localização: http://oratoriosjosemaria.com.sapo.pt/local/orat.htm
Reservas por email : <aes.bloodmoney@gmail.com>
ou sms : 917 728 789
*filme  em ingles (legendas em espanhol)
3 euros por pessoa (famílias numerosas em que vão ao menos 3 filhos 1 euro por pessoa)
2ª Sessão : Colégio Marista de Carcavelos dia 6 de Maio 21.30