segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Bom Pastor

O Bom Pastor
No último dia de Abril proponho que voltemos a olhar para o assunto de ontem para perceber o que é que Santa Catarina de Sena tem a ver com os dias de hoje.
Ontem, domingo do Bom Pastor, fomos lembrados dos nossos Pastores, começando pelo Papa. Na homilia o Padre João lembrou a turbulência do Papado, exemplificando com a prisão e morte do Papa Pio VI e a quase clandestina eleição do seu sucessor Pio VII num conclave reunido em Veneza; o outro exemplo do milagre que é a permanência do Bom Pastor na pessoa do Papa ao longo de uma história com dois mil anos é o Grande cisma do Ocidente, no qual Santa Catarina de Sena teve um papel improvável e decisivo.
O grande exemplo de Santa Catarina de Sena foi o de não calar as suas inquietações e não deixar que as circunstâncias a determinassem.

Destaques recentes
A insólita inversão João César das Neves
Eutanásia dossier temático (onde reúno os posts relacionados com este tema)
Os prodígios da ilha do Corvo onde Maria João Avillez nos fala das suas impressões sobre este filme:
É na Terra não é na Lua - trailer I video

Existe uma crise da democracia?

Público 2012-04-30
João Carlos Espada
As democracias reforçam-se através de parlamentos que são capazes de absorver e domesticar os populismos

Atravessamos uma crise das democracias no Ocidente e em particular na Europa? Pode essa crise resultar de um certo esgotamento das propostas da esquerda e da tentação radicalizante que daí decorre? Ou essa tentação radicalizante pode ser produto da tentativa em curso de constitucionalizar políticas orçamentais na zona euro - políticas que deveriam ser deixadas à concorrência eleitoral e parlamentar?

Estas foram algumas das questões cruciais propostas - em surpreendente sintonia - por dois conferencistas convidados para o Colégio da Europa, em Varsóvia, na semana passada, pela cátedra Geremek. Os oradores foram o norte-americano Marc F. Plattner, director do Journal of Democracy e vice-presidente do National Endowment for Democracy, e o britânico Raymond Plant, professor do King"s College, Londres, e par trabalhista na Câmara dos Lordes. As palestras fazem parte de uma série sobre "Civilização Europeia" promovida pela cátedra Geremek ao longo de três anos. Por coincidência de calendário, tiveram lugar em dois dias consecutivos, quinta e sexta-feiras, tendo cada orador acedido a assistir à palestra do outro. Ambos ficaram surpreendidos pela sintonia dos seus próprios argumentos, embora à primeira vista falassem de quadrantes políticos diferentes.

Marc Plattner, que falou na quinta-feira, apresentou uma elegante retrospectiva do que chamou a "odisseia europeia com a democracia no século XX". Depois de passar em revista a trágica pulsão totalitária da Europa com o nazismo e o comunismo, Plattner prestou homenagem à resistência polaca que enfrentou os dois totalitarismos e foi crucial para a queda do comunismo.

Mas, quando a palestra parecia ir terminar num final feliz, Plattner começou a alertar para uma mal-estar que estaria a ocorrer nas nossas democracias triunfantes, sobretudo na Europa. Esse mal-estar manifestar-se-ia designadamente no crescimento eleitoral de partidos extremistas. E isso poderia resultar, propôs ele como hipótese explicativa, do apagamento das diferenças políticas entre os partidos de centro-direita e centro-esquerda.

Segundo Plattner, este apagamento poderia ser fruto do esgotamento das políticas assistencialistas da esquerda, as quais tinham conduzido a um endividamento público insustentável. Perante esse esgotamento, as esquerdas democráticas não tinham realmente propostas alternativas e, por isso, estavam a abrir caminho ao crescimento de populismos antidemocráticos.

Raymond Plant, que falou na sexta-feira, concordou em boa parte com o diagnóstico de Marc Plattner sobre o apagamento das diferenças entre o centro-esquerda e o centro-direita. Mas avançou com a explicação alternativa de que isso se devia, sobretudo na zona euro, à tentativa de constitucionalizar assuntos de política orçamental que deviam ser deixados à rivalidade partidária.

Plant condenou então o novo tratado entre 25 membros da União Europeia que prevê a constitucionalização de limites aos défices orçamentais. Observou com ironia que isso tornaria inconstitucionais as políticas keynesianas seguidas no pós-guerra por quase todas as democracias ocidentais, bem como as próprias políticas de corte nos impostos seguidas por Reagan e Thatcher na década de 1980.

Se a política orçamental for retirada do debate parlamentar, perguntou Plant, o que resta para debater nos parlamentos? A resposta, sugeriu, reside naquilo que estamos a observar na Europa: o crescimento de temas bizarros relacionados com a identidade nacional, o proteccionismo e crítica azeda das elites - financeiras, em primeiro lugar, mas depois também político-partidárias e empresariais. Não são estes os temas preferidos dos vários extremismos antiliberais?

Um silêncio profundo dominou a audiência por alguns instantes após ambas as palestras. Depois irromperam dezenas de perguntas, num turbilhão que alterou os horários previstos para o encerramento.

No final, uma conclusão prudencial parecia emergir: é preferível trazer para o debate político civilizador dos parlamentos tudo o que esteja a ser debatido na rua, por mais desagradável que isso possa parecer. As democracias reforçam-se através de parlamentos que são capazes de absorver e domesticar os populismos, não através da sua exclusão por inconstitucionalidade.

A insólita inversão

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2012-04-30

A relevância da homossexualidade na nossa sociedade é surpreendente. Um assunto do foro privado, igual ao que sempre foi, saltou para o centro da actualidade. Mais estranha ainda a inversão de atitude. De prática condenada e repudiada passou a algo que todos se esforçam por considerar normal. Aliás, qualquer outra avaliação é inaceitável.
É verdade que, apesar dos importantes avanços na tolerância, ainda se encontram aí casos graves de discriminação e violência que devem ser denunciados e resolvidos. Mas no meio de tantos problemas sociais, económicos e políticos, vivendo-se fortes conflitos de muitos tipos, é inusitada a atenção e a inversão.
Um paralelo resolve a estranheza. O horror nazi ensinou ao Ocidente a suprema injustiça do racismo. Alguém que é desprezado por ser judeu, mulher ou negro sofre por algo inevitável, que não depende da sua escolha. Mas isso é muito diferente da crítica contra atitudes pessoais, como cristão, comunista ou engenheiro. Em ambos os casos, a injustiça é comparável, mas no primeiro existe pura arbitrariedade, enquanto o segundo visa actos da responsabilidade da pessoa, que deve assumir as suas escolhas. Como diz o velho provérbio jurídico, "ninguém é preso por ser ladrão, mas por ser apanhado a roubar".
A chamada "ideologia do género" tem feito o impossível para conseguir que a opção sexual seja classificada como congénita, identificando assim a homofobia com o racismo. No entanto, nesse campo, a única coisa demonstrável é a existência de uma tendência. Todos temos múltiplas inclinações pessoais, que o nosso comportamento depois promove ou contraria. Não existe no acto sexual uma necessidade inelutável. Cada um continua senhor das suas escolhas e nunca pode atribuir o seu estilo de vida a uma predeterminação genética.
Aqui surge uma segunda confusão entre discriminação e opinião. Existe realmente o crime grave de homofobia, que consiste no tratamento injusto, ou pior a agressão, a alguém por opção sexual. Isso é muito diferente da opinião que cada um possa ter sobre essa actividade. Chamando "homófobo" a quem quer que, sem prejudicar ninguém, considere a prática uma perversão, confundem-se as coisas e comete-se uma outra discriminação, aqui por delito de opinião. Também existem no mundo graves perseguições contra católicos, que não podem ser confundidas com o repúdio particular por essa religião, manifestado de forma civilizada. A fúria actual contra qualquer pessoa que não alinhe com a visão dominante da naturalidade e equivalência de todas as opções sexuais é, ela sim, uma forma grave de totalitarismo cultural.
Ultimamente, esta ideologia tornou-se institucional. Aquilo de que tratam os jornais não é sexualidade, mas decretos. O problema não é erótico, é jurídico. Esta terceira confusão vem de deduzir do repúdio da homofobia a exigência de leis que concedam a esses casais uma paridade com as famílias. O erro abandona o campo especulativo e torna-se político.
O Estado não regula amor e paixão. Se assim fosse, teria de criar muitos contratos para além do casamento. O motivo por que instituiu apenas este tem razões político-sociais, não sentimentais. De facto, a família é a célula base da sociedade, e convém que a lei a estatua, regulamentando os direitos básicos. Fora disso há múltiplas formas de amizade e relação que seguem as partes genéricas do Código Civil.
A razão do interesse jurídico está na paternidade, nascimento e educação de futuros cidadãos, que apenas a família estável realiza com qualidade. Isso não significa que o casamento só se aplique a casais férteis; também o contrato de sociedade é dirigido à produção e lucros, mas uma empresa não deixa de o ser se estiver inactiva. Estas considerações são óbvias, mas a lógica cede num tempo em que as questões da sexualidade têm impetuosidade doentia. O prazer venéreo adquiriu estatuto absoluto, e a regra suprema é "vida sexual e reprodutiva saudável, gratificante e responsável". Que significa gozo sem regras. Esta é a verdadeira causa das confusões.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

domingo, 29 de abril de 2012

O seu a seu dono. A liberdade da Igreja e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Voz da Verdade, 2012-04-29

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, na sua sentença de 31 de Janeiro passado contra a Roménia, violou o princípio da separação entre a Igreja e as instituições comunitárias. Com efeito, ao entender justificada, em virtude do artigo 11º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, a pretensão de alguns sacerdotes ortodoxos romenos e seus colaboradores pastorais se constituírem em sindicato, esse Tribunal não só desrespeitou a autoridade eclesial competente na matéria, como também interferiu abusivamente na vida interna dessa comunidade eclesial.

Desde tempos imemoriais, a Igreja está empenhada no reconhecimento efectivo e universal dos direitos humanos, por entender que esses deveres, faculdades e garantias decorrem, com absoluta necessidade, da irrenunciável dignidade humana. Daí a sua denúncia dos regimes contrários à justiça social e o seu empenhamento na construção de uma sociedade global cada vez mais justa e solidária.
A Igreja vive este seu compromisso social sem contudo se imiscuir ou, sequer, interferir na governação das diversas comunidades, cuja salutar autonomia não só acata como também promove, nomeadamente proibindo aos seus ministros o desempenho de actividades de carácter partidário. Tem, portanto, redobrado direito a que seja também reconhecida e respeitada a sua personalidade jurídica, bem como a sua independência em tudo o que se refere à sua organização interna.
A relação canónica que, pela ordenação sacerdotal, se estabelece entre o bispo diocesano e o seu clero é exclusivamente do foro eclesial, até porque a natureza do vínculo, embora superficialmente análogo a uma prestação de serviços, transcende enormemente essa categoria. Na realidade, a essência da relação do Ordinário com o seu presbitério é mais de carácter familiar do que laboral, é mais paternal do que patronal e, por isso, a analogia com as legítimas associações patronais e sindicais não colhe.
Uma associação sindical de padres seria tão absurda quanto uma confederação patronal de bispos, e ambas tão disparatadas quanto seria também a transposição dessas estruturas laborais para o âmbito da família, que não é, salvo melhor opinião, uma unidade colectiva de produção. 
Por outro lado, enquanto o trabalhador sindicalizado não exclui, a priori, a possibilidade de se associar, com os seus colegas, para a defesa dos seus comuns interesses profissionais, o candidato às ordens sagradas positivamente abdica desse seu eventual direito. A sua dedicação ao ministério não decorre, com efeito, de um contrato laboral, mas de uma libérrima opção de entrega pessoal. Portanto, aos que voluntariamente se entregam a Deus, mediante um vínculo de voluntária e consciente obediência, na comunhão eclesial, pode-se e deve-se exigir a correspondente responsabilidade em relação ao seu compromisso.
O Estado, certamente, pode e deve afirmar o direito universal à liberdade sindical, mas uma tal proclamação não o autoriza à sindicalização efectiva de todos os trabalhadores por conta de outrem. Para além desse respeito elementar pela liberdade individual dos trabalhadores, deve também reconhecer a sacralidade de um vínculo que dispensa o exercício dessa prerrogativa laboral. Em caso contrário, estaria a reduzir o ministério pastoral a uma simples relação laboral. Se assim fosse, também a filiação poderia ser equiparada a uma mera prestação de alimentos, ou a um peculiar arrendamento de um quarto na habitação familiar, mas é óbvio que a maternidade e a paternidade, muito embora pressuponham estes elementares deveres em relação à prole, a eles contudo não se limitam.
Se, por absurdo, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos entendesse que a proibição canónica dos padres se sindicalizarem é contrária aos direitos fundamentais, não se deveria também opor às instituições religiosas que assumem denominações contraditórias com a letra da dita convenção? Será que iria obrigar, por hipótese, as Escravas do Sagrado Coração de Maria, a designarem-se como Damas do Coração de Maria, por ser a escravatura contrária aos direitos humanos e a sacralidade do coração mariano avessa à laicidade das instituições europeias?! E os frades menores, deverão passar a maiores, tendo em conta que, juridicamente, são todos adultos e os menores não podem professar numa ordem religiosa?!
Ante estes serôdios tiques de autoritarismo estatal e de ingerência das instituições europeias no foro privado da bimilenar vida religiosa cristã, talvez valha a pena recordar a sempre actual sentença do divino Mestre: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!» (Mt 22, 21).

29 de Abril - Santa Catarina de Sena

Santa Catarina de Sena como Mãe Espiritual da Segunda e Terceira Ordens Dominicanas
Cosimo Roselli 1499-1500
Tempera e ouro sobre painel 170.0 x 171.5 cm
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Santa Catarina nasceu em Sena, no dia 25 de Março de 1347. Na Europa, a peste negra e as guerras semeavam o pânico e a morte. A Igreja sofria por suas divisões internas e pela existência de "antipapas" (chegaram a existir três papas, simultaneamente).
Desejando seguir o caminho da perfeição, aos 15 anos Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Viveu um amor apaixonado e apaixonante por Deus e pelo próximo. Lutou ardorosamente pela restauração da paz política e pela harmonia entre os seus concidadãos. Contribuiu para a solução da crise religiosa provocada pelos antipapas, fazendo com que Gregório XI voltasse a Roma. Embora analfabeta, ditava as suas cartas endereçadas aos papas, aos reis e líderes, como também ao povo humilde. Foi, enfim, uma mulher empenhada social e politicamente e exerceu grande influência religiosa na Igreja de seu tempo.
As suas atitudes não deixaram de causar perplexidade nos seus contemporâneos. Adiantou-se séculos aos padrões de sua época, quando a participação da mulher na Igreja era quase nula ou inexistente. Deixou-nos o "Diálogo sobre a Divina Providência", uma exposição clara das suas ideias teológicas e da sua mística, o que coloca Santa Catarina de Sena entre os Doutores da Igreja.
Morreu aos 33 anos de idade, no dia 29 de Abril de 1380.

Domingo do Bom Pastor


O Bom Pastor
Catacumbas de Priscila
Roma

O que tem Santa Catarina de Sena a dizer-nos 600 anos depois?

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A semana em que calha o dia 25 de Abril é sempre ocasião de balanços que não se fazem no resto do ano.
José Manuel Fernandes chama a atenção para a pretensão daqueles que se acham donos da data e, por conseguinte, com direito a serem donos de todos nós. É uma questão de deixarmos!
As dificuldades económicas são motivo de desespero para muitos. Não obrigatoriamente. Serão, se os deixarmos!
José Pacheco Pereira retrata um país “…desiludido, revoltado, deprimido, sem esperança, nem sentido, que, ou cai na mais completa anomia e submissão, ou esbraceja sem sentido contra tudo e contra todos. E a grande tragédia da política democrática é que essas pessoas estão sós, não contam com ninguém a não ser com os restos que ainda subsistem de genuína solidariedade social, e do que sobra da família, estilhaçada pela engenharia "fracturante" das últimas décadas”. Estas pessoas ficam sós … se as deixarmos!
As políticas fracturantes são também consequência do egoísmo da sociedade moderna. São importações irreflectidas dos países que são modernaços numas coisas, mas noutras não, revelando um provincianismo que nos envergonha. Se os deixarmos!
Santa Catarina de Sena, uma mulher analfabeta na confusão da Europa do século XIV – maior ainda do que a de hoje – não deixou que as circunstâncias catastróficas levassem a melhor!
O que podemos fazer para não os deixar? Podemos fazer crescer a nossa autoconsciência, não apenas num balanço da semana do 25 de Abril, mas de todos os dias; construindo um povo que não se deixa levar. Não é uma tarefa de líderes, mas de cada um.
Os primeiros passos são tímidos e, se calhar, inconsequentes, ou melhor, não têm consequências imediatamente visíveis.
Por exemplo, quero querer que há muitos mais do que 2762 portugueses que se identificam com a petição Defender o Futuro. Peço-vos um último esforço que acorde os vossos amigos e conhecidos. Divulguem como puderem para que chegue a muitos mais.


sábado, 28 de abril de 2012

Assine aqui a petição "Defender o futuro"


Durante os últimos seis anos e durante a maioria do Partido Socialista o pais conheceu uma avalanche de leis fracturantes sem precedentes. Em cada um desses momentos o  Presidente da República vetando, pedindo nova apreciação pelo parlamento ou promulgando com anotações criticas, chamou a atenção para os limites e dificuldades colocadas por essas leis. Mudada em Junho passado a maioria na Assembleia da República é tempo de fazer um balanço do resultado de cada uma dessas leis e apreciando-as, incluindo a própria regulamentação, proceder em conformidade alterando-as ou revogando-as no todo ou em parte.
 Estamos profundamente convencidos que a regeneração a que Portugal está convidado passa necessariamente por este âmbito, uma vez que a mentalidade que preside ao quadro legislativo acima referido é para nós um dos factores da crise em que estamos mergulhados.
Foi neste espírito que tomámos a iniciativa desta Petição "Defender o Futuro"
Convidamos-vos todos a assinar para que, depois de recolhidas, entre quatro ou cinco mil subscrições a possamos entregar no Parlamento onde deverá ser apreciada em plenário, de acordo com a lei aplicável.

Consulte e assine a Petição aqui

 244 assinaturas às 12:00 de 17 de Março de 2012
 870 assinaturas às 12:00 de 19 de Março de 2012
1720 assinaturas às 12:00 de 22 de Março de 2012
2665 assinaturas às 12:00 de 10 de Abril de 2012
2777 assinaturas às 12:00 de 30 de Abril de 2012

Quanto tempo Portugal vai estar assim?

Público 2012-04-28  José Pacheco Pereira
Este é um dilema do homem comum, não é um dilema para a classe dirigente, nem para a elite do poder

Quanto tempo Portugal vai estar assim? Não sei, mas suspeito que muito tempo, tempo de mais. "Assim" é como estamos agora, sem esperança, sem futuro, só com presente. Um presente longo, demasiado longo para alguns.

A pergunta é tudo menos técnica, é "social" no seu mais fundo sentido. Pode ser feita por um jovem de 20 anos ou por um homem ou mulher de 40 anos, e, embora a margem de manobra de cada um seja diferente, é a sua vida que depende da resposta, é a sua vida que, se ficar encalhada no presente, fica mal. A pergunta é humanista, num sentido que já não se usa, é uma pergunta que nasce da condição humana, e de pensar sobre disciplinas malditas dos dias de hoje como a História, ou a Literatura, ou a Política, ou a Filosofia.

Tudo coisas que passaram de moda, e que são, para a nossa elite, expendable, inúteis. É típico dos tempos fartos prescindir do pensar, e é por isso irónico que os defensores do primado da economia como "inevitabilidade" (uma típica ideia marxista), e que proclamam as virtudes das vacas magras, mantenham na sua cabeça um típico sinal dos tempos das vacas gordas: o de que não é preciso pensar porque a vida "real" tem a ver com os dilemas que acham simples do produzir e do gastar.

Esta e outras perguntas que é necessário fazer a partir da complexidade do humano, pensado em sociedades em que há a escolha cultural da democracia, remetem de imediato para dilemas éticos, que estão no cerne dessa escolha. Ora, muitos dos dilemas que defronta hoje a sociedade portuguesa são do domínio da ética, e raras vezes os vejo tratados como tais. E para os enunciar, mesmo antes de os tratar, não precisamos de nenhuma proclamação da verdade revelada, nem de nenhum moralismo. É apenas necessário vontade de verdade.

Quanto tempo Portugal vai estar assim? Começa porque este é um dilema do homem comum, não é um dilema para a classe dirigente, nem para a elite do poder, nem para quem tem suficiente folga para escapar com poucos estragos aos tempos de crise. A pergunta só é crucial para alguns, não é para todos e é por isso que o "quanto tempo" só é um problema para quem não vive bem, ou vive cada vez pior. E estamos no primeiro dos dilemas éticos que torna ridícula a comparação churchilliana que às vezes aparece nos discursos dos governantes, atraídos pela retórica do "sangue, suor e lágrimas", sem terem que derramar uma gota, nem fazer um esforço, nem chorar uma lágrima.

O que dá grandeza à tragédia da guerra que Churchill conduziu é que todas as personagens que estão no palco partilham o mesmo risco. Há uma "unidade de perigo", uma consistência no risco comum, a que ninguém escapa. É isto que faz nas guerras os grandes militares que comandam da frente, e dos dirigentes políticos que colocam a cabeça num cepo que não é apenas perder as próximas eleições. Não é o "protagonismo", nem a "liderança", nem o abastardamento da palavra "carisma", nem as palavras de um "politiquês" feito de carreiras políticas profissionais nos interstícios partidários e dos negócios. É a consciência da comunidade, algo de muito raro e muito difícil de conseguir, e que tem a condição sine qua non da partilha do risco. Ora, na actual crise, há demasiadas excepções e as excepções são sempre para os "mesmos" para se forjar um sentimento do "nós".

O resultado é um abismo psicológico cada vez maior que vai tornar Portugal numa sociedade ainda mais dual do que já era, duas partes que sentem diferente, agem diferente e vivem diferente. Numa sociedade já muito deslaçada e fragmentada, este abismo entre pessoas e grupos sociais vai coalescer os fragmentos, um para cada lado, mas não os vai aproximar. É caso dos "novos pobres", que se vão aproximar dos pobres, vão viver como eles, mas não são como eles.

Parte importante da chamada "classe média" está a soçobrar numa pobreza para a qual está longe de estar preparada e adaptada. Aliás, se há coisa para que não há "ajustamento", é a pobreza. Por isso me revolta considerar-se que o empobrecimento é apenas uma "mudança de hábitos", como se subitamente as pessoas escolhessem comer frango em vez de outra carne porque acreditam nas virtudes de poupar, ou como forma de punição por antes "viverem acima das suas posses". Não, as pessoas que passaram a comprar frango de aviário não estão a "adaptar-se", estão pura e simplesmente a escolher não o que desejam, mas o que podem comprar. Um dos dilemas morais dos nossos dias está na obrigação de recusar uma linguagem que impregna os actos de muita gente de culpa e submissão, redimida pela pobreza, como se houvesse qualquer valor moral na pura necessidade.

"Os portugueses têm que aceitar viver de outra maneira". Claro que têm, mas esta frase só pode ser dita se considerarmos que o fazem por necessidade e não por escolha, e que nem todos o fazem. Não há "unidade do perigo", insisto, não é para todos. Esta absurda ideia, talvez aquela que mais legitima a linguagem do poder e a que mais interioriza a culpa - daí a sua eficácia - é a de que um festim colectivo de abundância, de crédito fácil, de dinheiro distribuído a rodos, de benesses várias do Estado, é o principal culpado da actual situação. E o culpado é o homem comum, são aqueles que o "ajustamento" mais ataca para os remeter à sua original condição de pobres, de que nunca deveriam ter saído.

Se é daqui que temos que partir, então vamos encontrar muitos outros "culpados" antes de chegar à família que comprou os sofás, ou que foi de férias, com crédito de consumo, ou comprou casa com dinheiro emprestado da banca. Temos que ir aos bancos que concederam esse crédito porque isso lhes trazia lucro, aos políticos que fizeram toda uma política assente nesta falsa prosperidade, e aos economistas que, então como agora, justificam o presente pela sua inevitabilidade.

Quando ouço falar do "festim do crédito", quem é que é responsável pelo "festim"? Quem deu a festa para recolher lucros, ou participou nela para ter vida mais fácil? A resposta justa é: pelo menos os dois. A injustiça da resposta é que só um aparece como "culpado" do "festim", e só um lhe paga os custos. E se falarmos mesmo dos muitos milhares de milhões que constituem a dívida nacional, que hoje é apontada como um fardo moral para os pobres que "viveram acima das suas posses", com esse plural majestático do "nós", em "nós vivemos acima das nossas posses", eles não foram certamente para o bolso das pessoas comuns que hoje lhes pagam o custo. Não foram os pobres, nem os funcionários públicos, nem a classe média baixa que fez as PPP. O discurso do poder é todo feito para culpabilizar os de baixo, enquanto quase pede desculpa para moderar um pouco os de cima. A resposta dos de baixo é uma rasoira populista e igualitária, que também não promete nada de bom para o futuro.

Há uns imbecis que dizem que falar assim é falar como o Bloco de Esquerda. Não, falar assim é falar como deveriam falar todos aqueles que não vêem a realidade com os olhos do poder e das ideias da moda, e que se esforçam por perceber o sentido último da política em democracia: as pessoas só têm uma vida, e, estragada essa vida, não há outra. É laica a política em democracia, vive da vida terrestre não da vida celeste. E se isso não é a pulsão da política em democracia, o bem comum e concreto das pessoas, então a democracia não sobrevive. Não tenho feitio para Catão, e tudo o que aqui é dito é mais que moderado e devia ser, se não andássemos todos virados para as explicações simplistas e para os slogans dicotómicos dos blogues, sensato. Aliás, a grande traição do PSD, do PS e do CDS é terem deitado fora, ofuscados pelo poder, todas as raízes humanistas, sociais, liberais, e cristãs, do seu pensamento e, pior ainda, do seu "sentimento".

É por isso que anda um Portugal lá fora desiludido, revoltado, deprimido, sem esperança, nem sentido, que, ou cai na mais completa anomia e submissão, ou esbraceja sem sentido contra tudo e contra todos. E a grande tragédia da política democrática é que essas pessoas estão sós, não contam com ninguém a não ser com os restos que ainda subsistem de genuína solidariedade social, e do que sobra da família, estilhaçada pela engenharia "fracturante" das últimas décadas. A elite dirigente, política e económica, sabe pouco desse sentimento de solidão, e, pior ainda, sabe cada vez menos, porque os modos de vida se separam todos os dias, entre o conforto do poder e a devastação da pobreza. O rasgão que isto está a fazer num Portugal já muito puído será muito difícil de remendar.

O dom do encontro

José Luís Nunes Martins, publicado em 28 Abr 2012 - 03:00 | i-online
Carlos Ribeiro
Estamos aqui, condenados à morte, em busca de força para fazer um caminho que traz inquietações a cada momento, mas que também nos leva mais a cada passo. Não estamos sós – nunca se está só quando se espera alguém – porque há quem queira construir este caminho connosco, esquecendo-se do seu.
Há alguém que nos segue em silêncio. Diferente dos outros, não nos ajuda a levantarmo-nos quando caímos, mas também não se aproveita da proximidade para nos derrubar. Anda por aqui à nossa espera, admirando a forma como sonhamos e a força com que lutamos pelas realizações da nossa vida. Por vezes, empresta-nos a sua vontade e dá-nos mais firmeza e coragem para sermos felizes. E somos. Mesmo quando não nos damos conta disso.
A vida de cada um de nós é essencial para Deus. Mas, que razão o terá levado a criar para si mesmo esta prisão?
O amor é a entrega da vida. É saber que se é um meio para que o outro seja feliz. Uma força pura para a realização dos sonhos de outrem. Um sentido para a vida.
Neste mundo, os dias do amor são sempre curtos.
É urgente perceber que não vamos ficar aqui para sempre. Este mundo não é, contudo, um lugar menor. É um espaço e um tempo de belezas infinitas. É preciso olhar de forma pura o que nos rodeia, aprender a ver outra vez o sol e a chuva, a areia e as ondas. Que são sempre belas, desde que quem as sente as faça assim.
Se tudo te parecer cinzento e calado, talvez esteja assim... porque tu queres.
Afinal, para mudar uma paisagem, é preciso mudares o que sentes.

Eutanásia

2012-04-27 Holanda: destino perigoso Aura Miguel
2012-04-23 Idosos fogem da Holanda com medo da eutanásia
2010-10-25 Testamentos de vida e de morte Pedro Vaz Patto
2008-11-09 Eutanásia: Afinal de que falamos? Isabel Galriça Neto
2008-08-11 Eutanásia e vidas sem valor Pedro Vaz Patto


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Frase do dia

Educação
é aquilo que revela ao sábio e esconde ao estúpido, a vastidão dos limites do seu conhecimento.
Mark Twain

Os prodígios da ilha do Corvo

Público 2012-04-27 Maria João Avillez

Dois euros deviam chegar para o parquímetro, não me antevia sentada no cinema as três horas e dez minutos do filme, desde quando é que a ilha do Corvo pedia tal fôlego, mais de três horas aquela pedra no Atlântico habitada por engano, quantos eram os corvinos meus distantes irmãos, língua e pátria comum, 400, 400 e tal?

Mas quase logo a seguir e o espantoso é que foi mesmo quase logo a seguir, enterrada na penumbra da sala, percebi que nenhum adjectivo - sempre uma armadilha é certo - chegava ou servia. E, de resto, elegê-los segundo qual fonte, se havia tantas: a que jorrou assombro, a que derramou espanto, a que trouxe estranheza? A da compaixão, a da pungência? A do esquecimento? Não escolho, não sei. Fazê-lo seria trair os dons que brotaram dessas fontes. Prefiro a fidelidade - única maneira de os merecer - aos dons e prodígios de que é feito este filme que está sempre a lembrar-nos que é na Terra não é na Lua que aquilo existe. E se parece a Lua, santo Deus, ou seja lá onde for, mas não neste mundo... Um bocado de rocha arredondada e breve, que dá pelo nome de ilha, submersa na zanga do mar que ali parece não conhecer outra forma de vida senão a da fúria e do seu brado; quase nenhuma árvore e que árvores querem partilhar aquele molhado desamparo? Lá ao cimo, a coroa da cratera do que foi um vulcão, cá em baixo, uma branca mancha de casas, atemorizadamente unidas umas às outras, contra marés e ameaças. No meio... nada, ou quase. Um bocado de rocha de quem quase ninguém ouviu falar e poucos quiseram devidamente saber, quando muito terá havido incursões velozes no barco desconjuntado que traz víveres e animais, na avionete que pousa na pista artesanal, mas logo volta a subir para nuvens que a levem a melhores vidas. Os da ilha ficam, os outros, sempre escassos, sempre fugidios, partem.

Mas Gonçalo Tocha ficou. Ficou muito tempo, voltou muitas vezes. Eu agradeço-lhe, nem ele sabe quanto. E ainda mais que tenha querido filmar tudo, como logo avisa: o mar e o vento, o céu e a terra, as vacas e os porcos, os rostos e gestos, uma motorizada que desce, uma camioneta que sobe no traço negro da única estrada. Uma porta que se abre, a récita sincopada do terço, dois vultos na rua deserta, a televisão acesa no café, uma menina que aprende canto, um alemão que toca num piano desafinado, a morte selvática do porco, um inglês silencioso que ama pássaros, o cais sempre afogado em ondas que tudo varrem e afogam, ilha de sempre inverno. Uma mulher que cose, outra que faz queijo, outra que fabrica um barrete de lã azul e há-de estar a fazê-lo enquanto durar o filme, um não avança sem o outro, irmãos de sangue nesta saga. Sim, as gentes dali. Um vagar que nenhum ponteiro mede - e porque se haviam de apressar? - uma solidão sem medida, olhares vazios por nunca haver "amanhãs" e já nem se lhes pedia que cantassem, apenas que existissem. E a espessura e a força e a aspereza que de tudo isso escorre. Para o mar, para o nada, para nós.

As gentes, sim, o filme está "ocupado" por elas e nem sequer interessa que sejam só isto ou não sejam bem isto. É fácil filmar o mar e o céu, "filmar" a alma é para raros. Descobrir onde ela está, aprisioná-la dentro do vento, estendê-la ao longo da solidão, enrolá-la e desenrolá-la, ouvindo-a falar, lembrar e chorar, isso é que não é de certeza para todos.

E eles, pasme-se, eram só dois, Gonçalo Tocha fixava a imagem, Dídio Pestana capturava o som e de vez em quando falavam um com o outro para nós ouvirmos.

Por isso agora, hoje, daqui em diante, já não vai poder ouvir-se falar da ilha do Corvo, arquipélago dos Açores, Portugal, como se nada fosse. Aquilo passou a ser connosco, ficámos contaminados e isto sim é um prodígio. E um dom.

Volto a agradecer.

Não há donos do regime nem pais da pátria

Público 2012-04-27 José Manuel Fernandes
Nenhuma legitimidade de "Abril" pode servir para deslegitimar quem exerce o mandato democrático

O que significa interrogarmo-nos sobre se é necessário um novo 25 de Abril? Significa o mesmo que perguntarmos se é preciso um novo Salazar. Por trás de ambas as interrogações está a mesma pulsão antidemocrática, a mesma recusa dos naturais defeitos dos regimes democráticos e o mesmo desejo de impor uma determinada via política sem respeitar as escolhas dos portugueses.

Já sei que muitos vão ficar indignados com a comparação, mas ela tem, do ponto de vista do respeito pelos princípios da democracia, toda a pertinência. Por uma razão simples: ou consideramos que o 25 de Abril foi uma revolução democrática, que devolveu a voz ao povo português, ou consideramos que ele foi mais do isso, que foi também um projecto político com um programa específico, independente da vontade desse mesmo povo português. Aparentemente é isso que pensam os que, por estes dias, proclamaram que "o poder político que actualmente governa Portugal configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores". Mas que ideais? E que valores? Os do Estado de direito democrático? Não, não é essa a acusação. A acusação não tem a ver com atentados à liberdade ou abusos de poder que façam perigar as regras da democracia. A acusação refere-se antes a políticas concretas - às políticas com que não concordam aqueles que se têm por donos do "espírito do 25 de Abril".

Ora sucede que, como escreveu um filósofo político de esquerda, Norberto Bobbio, na tradição democrático-liberal - que é tradição ocidental e é a nossa tradição -, "as definições de democracia tendem a resolver-se e a esgotar-se num elenco mais ou menos amplo de regras do jogo". Mais: "Todas essas regras estabelecem como chegar à decisão política e não o que decidir." Isto é, a democracia não tem "um espírito" que implique realizar políticas mais à esquerda ou mais à direita, a democracia é tão-somente sobre os mecanismos que permitem decidir, por exemplo, o futuro dos sistemas de Saúde e Segurança Social, não sobre modelos concretos mais públicos ou mais privados.

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril e ao 25 de Novembro era apenas a extrema-esquerda que procurava a sua legitimidade no "espírito" da revolução dos cravos. Agora parecem ser todos aqueles que, pura e simplesmente, não parecem dispostos a aceitar uma realidade política em que, pela primeira vez na nossa história democrática, coincide um Presidente que não é de esquerda com uma maioria parlamentar que também não é de esquerda. No primeiro 25 de Abril em que isso aconteceu fizeram a birra que se viu.

Mais: o que é que significa dizer que "este é o primeiro governo da nossa história democrática que parece querer dispensar a memória de Abril"? Que "memória de Abril" é essa que não pode ser dispensada na opinião do principal partido da oposição? O que será o "rumo de crescimento e progresso", agora supostamente invertido? Será o rumo que levou a que Portugal tivesse, na última década, o terceiro menor crescimento de todo o mundo (pior só o Zimbabwe e a Itália)? Será o "progresso" referido o do crescimento da dívida, hoje transformada num verdadeiro quarto "d" do regime democrático? E não é verdade que foi este quarto "d" o responsável por estarmos hoje dependentes de credores, logo com menos margem de liberdade?

Numa democracia não existem intérpretes genuínos da vontade popular, existe sim pluralismo e competição entre ideias diferentes. E essas ideias, desde que respeitem as suas regras formais e não visem subvertê-las, são tão legítimas umas como outras. É preciso pois ser claro: quando se invoca "Abril" para combater esta ou aquela opção política, não se está a invocar a democracia, está-se a invocar um qualquer programa revolucionário que hoje, como ontem, um conjunto de heróis diz interpretar. A batalha da Constituinte já foi essa batalha, isto é, a guerra entre a legitimidade dos deputados eleitos e a legitimidade do MFA. A revisão constitucional de 1983 foi mais um passo nesse combate democrático, ao afastar de vez os militares do poder. Agora só se estranha que tantos dos que, nessas alturas decisivas, ajudaram a tornar Portugal numa democracia normal surjam a dizer que, afinal, nos temos de submeter ao "espírito", ou à "memória", de Abril, seja lá o que isso quer dizer - ou melhor, isso quer dizer que temos todos de aceitar, sem contestar, as heranças socialistas e estatistas das últimas décadas.

Esta forma de olhar para o nosso país - a mesma que torna aceitável a ideia de que será necessário "um novo 25 de Abril" sem compreender que isso representaria sempre uma ruptura ilegítima da ordem democrática - deriva do complexo de superioridade de que padece boa parte da nossa esquerda (não toda, há excelentes excepções). O fenómeno não é novo: foi Álvaro Cunhal, que tinha a vantagem de não ter complexos, quem escreveu um livrinho sobre a "superioridade moral dos comunistas", mas de uma forma geral os princípios aí expostos não se distanciam muito dos que alimentam a ideia dominante de que só os políticos de esquerda se preocupam com os pobres e desvalidos. Já os outros, "os políticos neoliberais", esses limitam-se "a inventar umas coisas para não parecerem frios e impiedosos". Exacto, não fui eu quem inventou estas palavras e esta caricatura, foi o eurodeputado Rui Tavares neste mesmo jornal, mas ela diz tudo: os que não acham que cabe ao Estado suprir todas as necessidades das pessoas são gente que, no fundo, não presta. E se essa gente se ocupa dos pobres na prática, e não apenas em palavras, então incorre noutro vício fatal, o da "caridadezinha".

Podia aqui elaborar sobre as contradições morais dos que, cegos por preconceitos ideológicos, têm andado por estes dias a protestar contra uma campanha de recolha de desperdícios para entregar aos mais necessitados, mas não vale a pena. O meu ponto é mais simples: em política a moral, a piedade ou a bondade não são exclusivo de nenhuma tendência ou facção, e as boas intenções não são critério para avaliar o resultado das acções concretas. No mercado das ideias ninguém possui carimbos de validade ou invalidade, pelo que todos estão sujeitos à contestação e ao escrutínio democrático.

É por isso que foi realmente triste ver a forma como Mário Soares se comportou neste 25 de Abril. Ele não é apenas um político como tantos outros: ele é um antigo Presidente da República, a quem o Estado democrático reconhece esse estatuto e os direitos correspondentes, e que por isso tem o dever de respeitar as instituições e, sobretudo, de honrar a casa da democracia, que é a Assembleia da República. Ele que tanto se bateu para fazer vingar a legitimidade democrática contra a legitimidade revolucionária não deve - não pode - aparecer a defender uma alegada legitimidade de "Abril" para deslegitimar quem exerce o mandato democrático. Fazê-lo é uma prova de fraqueza, não de força, na argumentação política. E deixa-o exposto à ideia de que se toma por dono do regime.

É na Terra não é na Lua - trailer I


"É NA TERRA NÃO É NA LUA"_trailer I from Gonçalo Tocha on Vimeo.

Holanda, destino perigoso

27-04-2012 8:54 por Aura Miguel

Atenção: se tem mais de 60 anos e for passear até à Holanda; se aí tiver um grave problema de saúde e for para ao hospital, pode ficar sujeito à eutanásia.

Com a liberalização desta prática, há médicos que a propõem a pacientes crónicos com diabetes, com esclerose múltipla, SIDA ou cancro. Há mesmo cidadãos que, em autodefesa, transportam consigo um cartão contra a eutanásia chamado “passaporte para a vida” ou “não-me-matem”.

Com os idosos, o risco ainda é mais flagrante. É que, para além da falta de confiança nos médicos, a família também pode ser uma ameaça: um recente estudo da Universidade de Göttingen revela que, em sete mil casos de eutanásia praticada na Holanda, 41% foram a pedido dos familiares. Muitos deles justificaram-se incapazes de lidar com a situação…

Resultado: os idosos evitam os hospitais holandeses e muitos refugiam-se em lares do outro lado da fronteira. É que na Alemanha sentem-se protegidos, porque ali a memória das práticas nazis ainda está viva. Pelo menos, por enquanto.

O suicídio e a actual crise económica

In jornal SOL  27.04.2012
Pedro Afonso
Médico Psiquiatra

De acordo com os números do Instituto Nacional de Estatística, em 2010 as mortes por suicídio em Portugal ultrapassaram pela primeira vez, os óbitos provocados por acidentes rodoviários. Neste caso, ocorreram no nosso país 1101 óbitos por suicídio, mais 86 do que as mortes registadas em acidentes nas estradas durante o mesmo período.
Desde a “grande depressão”, com início em 1929 nos EUA, que se conhece a relação entre a crise económica e o aumento do número de suicídios. Ora, considerando o crescimento da taxa de desemprego para cerca de 15%, as dificuldades económicas da população e o consequente acréscimo dos casos de depressão, existem sérios riscos de ocorrer no nosso país um aumento exponencial do número de suicídios. Um estudo publicado em 2009, na revista Lancet, revelou que na UE cada aumento de 1% do desemprego está associado a uma subida de 0,8% de suicídios. Além disso, verificou-se que um aumento superior a 3% na taxa de desemprego encontra-se associada a um acréscimo de 4,5% de suicídios. 
Mas será que este aumento do número de suicídios poderá ser evitado? Existem pelo menos dois países da UE que conseguiram alcançar este objectivo. Na Suécia, o desemprego aumentou de 2,1% para 5,7 % entre 1991 e 1992, mas apesar disso a taxa de suicídios diminuiu. Por sua vez, na Finlândia, o desemprego aumentou de 3,2% para 16,6% entre 1990 e 1993 e as taxas de suicídios diminuíram ano após ano. Este sucesso pode ser em grande parte explicado pelo facto de ambos os países disporem de um forte modelo de protecção social e terem implementado programas de estímulo à procura e criação de emprego, a par de possuírem bons cuidados de saúde mental.
O aumento das doenças psiquiátricas associadas à crise económica é um problema que terá de ser monitorizado pelo governo, devendo ser tomadas algumas medidas que podem salvar vidas. Por exemplo, os serviços de saúde devem acompanhar as situações mais dramáticas, como são os casos em que ambos os elementos do casal estão desempregados, ou quando existem filhos menores que podem sofrer graves carências com o empobrecimento dos pais. De resto, umas das maiores humilhações que o ser humano pode sofrer é não conseguir garantir a alimentação dos seus próprios filhos.

Sabendo que a crise veio para durar, já não se trata de solicitar aos portugueses que façam alguns sacrifícios,  trata-se de lhes pedir que acatem resignadamente uma vida servil de constante provações, exigindo por vezes que ultrapassem os limites do suportável da sua saúde mental. Talvez por isso é que tomo cada vez mais consciência do sentimento de impotência perante muitos casos de depressão e sinto uma força irreprimível de escrever a palavra “fome” no diagnóstico psiquiátrico da ficha de observação.

O pior sinal que poderíamos dar actualmente ao mundo seria o de uma sociedade que se resigna perante o sofrimento dos mais fracos e que permanece impassível face à sua própria destruição. A indiferença política diante do aumento do número de suicídios, no contexto da presente crise económica, pode tornar-se perigosa, pois corrompe o tecido social e exprime a renúncia a um importante compromisso: o compromisso com o futuro.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Gravidez

DESTAK |25 | 04 | 2012   21.25H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt

Os jornais gostam de polémicas, sobretudo em assuntos fracturantes. Como se explica então que tenham ignorado uma clivagem grave num órgão influente sobre um tema da actualidade?O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida publicou a 26 de Março um Parecer sobre Procriação Medicamente Assistida e Gestação de Substituição (www.cnecv.pt), as chamadas «barrigas de aluguer». 
O texto inclui uma estranha «Nota» no final: «O Conselheiro Michel Renaud foi inicialmente designado como relator juntamente com o Presidente e o Conselheiro Jorge Reis Novais, tendo sido autor de um projeto de Parecer alternativo que colheu uma minoria dos votos.» A imprensa ignorou totalmente este relatório minoritário, que está no mesmo site e é assinado por alguns dos mais reputados membros do conselho: Michel Renaud, Ana Sofia Carvalho, Agostinho Almeida Santos, Francisco Carvalho Guerra, José Germano de Sousa, Maria do Céu Patrão Neves. 
A crítica de fundo, como explica o texto, é que «foi o interesse sempre prioritário e frequentemente exclusivo do casal beneficiário e não o interesse do nascituro que esteve na base da discussão do CNECV». Isto é grave para um Conselho que se diz ético. Tirando a Agência Ecclesia, que publicou um texto do Professor Daniel Serrão, outro eminente especialista em ética da vida, houve silêncio geral. 
Porque razão a imprensa esqueceu esta polémica? Assim passou apenas a tese oficial que as «barrigas de aluguer» têm só problemas menores. Muito curioso.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Grandes livros, grandes filmes! Singularidades de uma rapariga loira

S. Marcos Evangelista é o santo do dia


Perene é a dedicação deste dia à festa de S. Marcos Evangelista que se admite ser o autor do Segundo Evangelho, de  Marcos -  e o primo de Barnabé, de que se fala nos Actos e nas Epístolas -.
Marcos e Maria viviam em Jerusalém. A sua casa servia de local de reunião dos primeiros cristãos.
Discípulo de São Paulo, esteve ao seu lado quando este ficou preso em Roma. Foi também discípulo de São Pedro: "a que (Igreja) está em Babilónia, eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho" (1 Pedro 5,13s.).
Santo Irineu, Tertuliano e Clemente de Alexandria atribuem decididamente a Marcos, discípulo e intérprete de São Pedro, o segundo Evangelho. E segundo os críticos modernos, o evangelho de Marcos foi escrito por volta dos anos 60/70 e dirigido aos cristãos de Roma.

Hoje também é feriado – um dos chamados feriados civis – que comemora o dia 25 de Abril de 1974.
Foi já – e também apenas – há 38 anos. Por isso, se é um dia na minha história pessoal não consigo prever o que será na História de Portugal.
Entretanto, é sempre tempo de exame e avaliação.
A liberdade de que o 25 de Abril quer ser símbolo perde-se quando não tomamos parte da responsabilidade do nosso destino e clamamos pela protecção do estado ou dos líderes. Sintoma disto é o espanto de João Carlos Espada perante o que viu num encontro no Brasil do 25º Fórum da Liberdade onde se celebravam a democracia e a liberdade, os direitos da pessoa humana e, por essas razões, o livre empreendimento, a limitação do Estado, o combate à corrupção e ao compadrio promovido por dinheiros públicos por contraste com Portugal onde. quando chegou, a primeira página de um dos principais jornais portugueses titulava “Precisamos de um novo 25 de Abril?”.
Perde-se ainda (a liberdade) quando rotulamos acções, atitudes, ideias, apenas para as denegrir e fazer vingar um determinado rumo ideológico.
Trata-se de um defeito que é incompatível com a liberdade e a democracia verdadeiras, e também, com todo o relacionamento humano: a dificuldade em escutar
Peçamos a intercessão de S. Marcos para que esta capacidade virtuosa de escutar o outro nos seja dada e nos ajude a cultivá-la

Pedro Aguiar Pinto



A questão dos feriados

DN 20120425
VASCO GRAÇA MOURA

Os feriados religiosos, ligados a evocações e cerimoniais do calendário litúrgico, têm na sua origem a destinação de certos dias para celebrações religiosas de sinal específico e para a interiorização das orações correspondentes, no caminho da salvação da alma. O feriado teria sido inicialmente destinado a permitir a participação numa determinada festa da Igreja e a concentrar mais intensamente a devoção do cristão num dia em que ele não teria mais nada que fazer a não ser isso. Não seria propriamente um dia de descanso, mas de devoção, que era vista como obrigação, sendo proporcionado assim um tempo interior para a vida religiosa.
Por sua vez, os feriados laicos ou civis, ligados por via de regra a datas históricas e à correspondente celebração, pretendem-se dotados de uma fortíssima carga simbólica, capaz de unir os cidadãos em torno de certos acontecimentos fundamentais pelo sentido patriótico de que se revestem.
Parece no entanto que, tanto no plano dos feriados religiosos, como no dos laicos, o sentido profundo de tal simbolismo se foi gradualmente esvaziando em quase todos os casos, e os feriados resvalaram, pura e simplesmente, para a situação de datas de desocupação folgada, sem obrigações laborais, podendo contar como dias de férias e tornando-se instrumentos para a construção de "pontes".
Provavelmente, só os feriados correspondentes ao dia de Natal e ao 1.º de Maio mantêm um sentido mais ajustado, aquele cobrindo mais ou menos todos os quadrantes do espectro ideológico e político, e este beneficiando de uma celebração pública muito participada e significativa, por parte das forças de esquerda.
Os outros feriados religiosos, incluindo a sexta-feira de Paixão, parecem longe do sentido universal que o Natal veio adquirindo; por sua vez, os outros feriados laicos vão dando lugar ou a romagens pouco expressivas ou a cerimónias oficiais que não arrastam mais do que aquelas centenas de pessoas que não podem deixar de comparecer e implicam algumas forçosas transmissões televisivas.
Sem querer discutir matérias que se prendem com a evolução do sentimento religioso na nossa sociedade e muito menos com soluções para neutralizar o seu progressivo esbatimento, parece-me que de há muito cessou a interiorização devocional que justificava o feriado para largas camadas das populações.
O mesmo se passa com a maioria dos feriados laicos: o seu alcance simbólico também se veio a dissipar, em grande parte porque a escola funciona com graves deficiências e quase ninguém sabe já, em boa verdade, o que é que se pretende celebrar. O desconhecimento da história, o falhanço no plano da cultura, o esfarrapamento da língua, o descaso quanto à relevância nacional de determinados acontecimentos, podem explicar tudo isso.
No tocante aos feriados laicos, o remédio para tal estado de coisas estará menos na manutenção deles e muito mais no apetrechamento dos espíritos para a boa compreensão dos significados e contextos de cada data.
Por exemplo, celebrar feriados como o 10 de Junho ou o 1.º de Dezembro, ou outros, seria muito mais importante e muito mais eficaz a partir da elaboração e aplicação exigentes de bons programas escolares, no tocante à língua, à história e à cultura portuguesas, do que pelo facto de se proporcionar mais um dia de inactividade laboral. Pelo menos, isso ajudaria a repensar certas coisas e a compreender melhor o significado e o alcance delas. Comemorar é isso mesmo.
Tenho visto defender com mais ou menos eloquência a manutenção dos feriados, mas não tenho visto reclamar com idêntico vigor quanto às deficiências e carências chocantes que nessa perspectiva ficam referidas e que só agravam a nossa geral irresponsabilidade.
Por muitos feriados que sejam mantidos, não será pelo facto de o serem que Portugal reforça o conhecimento dos seus valores, da sua identidade ou da sua história, ou se apetrecha para encarar o presente e o futuro. Essa manutenção, por si só, até tende a agravar o geral estado de balda e descaso em que se vive em tais matérias. Pode contribuir para o turismo interno e para a hotelaria, mas não contribui para interiorizar ou reforçar seja o que for quanto ao que mais importa.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

25 de Abril - S. Marcos

S. Marcos pregando em Alexandria
(1504-1507)
Giovanni Bellini 
Óleo sobre tela 334x770 cm
Pinacoteca de Brera
Milão

terça-feira, 24 de abril de 2012

Uma demonstração de amor

Pe. Rodrigo Lynce de Faria
«Não é nada fácil, hoje em dia, encontrar alguém que saiba escutar. Muitos ouvem, mas são poucos os que escutam. Já o diferencia o dicionário da nossa amada língua portuguesa: "ouvir" é ter o sentido da audição; "escutar" é ouvir prestando atenção. Prestar atenção não é um detalhe de pouca importância ― faz toda a diferença! Sobretudo, quando experimentamos a necessidade vital de que alguém nos compreenda.
«Nesse caso, agradecemos que a pessoa com quem falamos não somente nos ouça, mas pedimos-lhe encarecidamente que também nos escute. Que procure sintonizar com aquilo que lhe estamos a tentar dizer. Só assim, sentimos de verdade paz na alma e alívio no coração».
Sábias palavras! De se lhe tirar o chapéu, sim senhor! É verdade: actualmente são poucos os que realmente escutam os outros com interesse. E é certo e sabido que, se as pessoas não se escutam umas às outras, a sociedade deixa de existir.
E se a "sociedade" é a lá de casa, deixa de haver família. No lugar dos familiares que convivem no mesmo lar, surge um conjunto de indivíduos que, por pura coincidência, vivem na mesma casa. E, evidentemente, não desejam ser aborrecidos com problemas que não são os seus. "Está alguém metido numa alhada? Que se desenvencilhe sozinho! O que é que eu tenho a ver com isso?".
É uma descrição ― talvez um pouco exagerada ― daquilo que conhecemos como isolamento. E o isolamento, por muito atraente e simplificador que possa parecer à primeira vista, acaba por gerar apatia. E a apatia, se não for contrariada, mais cedo ou mais tarde leva ao desespero, por muito dissimulado que ele esteja.
É relativamente fácil constatar que, na vida de um casal, quando há problemas no relacionamento mútuo, geralmente esses problemas começaram quando se deixou de escutar o outro. Escutar às vezes pode ser sinónimo de sofrer, como diz A. Polaino. E o sofrimento leva à infelicidade ― quando não se aceita como uma demonstração de amor. Sem sentido cristão, o sofrimento no convívio com os familiares pesa muito, fecha o horizonte de felicidade e torna-se uma tragédia. Se não for "curado" a tempo, pode gerar cinismo com o passar dos anos.
Escutar é, naturalmente, uma demonstração de amor. Uma demonstração de genuíno interesse pela pessoa amada. Deixar de escutar é, simplificando, começar a deixar de amar. Porque ainda que possa parecer exagerado, quando marido e mulher não se escutam, estão a começar a perder o respeito um pelo outro. E sem respeito, não há amor ― excepto nas sociedades da caverna onde a marretada era uma demonstração de carinho.
Aprender a escutar com interesse. Escutar é, entre outras coisas, saber colocarmo-nos nas circunstâncias dos outros. Assim, veremos os acontecimentos com serenidade e compreensão. E mais facilmente desculparemos, quando isso for necessário. Mas sobretudo, como dizia S. Josemaria, encheremos este nosso mundo de caridade, que é aquilo que ele tem mais necessidade.

Amigo de verdade

"Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso."
Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
Esta correcção que não magoa, mas ajuda é uma arte, ou melhor, uma virtude.
Destaques:
A ânsia de protecção Pedro Lomba sobre as eleições francesas e o resultado alcançado por Marine Le Pen
Idosos fogem da Holanda com medo da eutanásia uma notícia assustadora que nos deve alertar para uma das próximas campanhas fracturantes no nosso país….
Lançamento do livro "1 de Dezembro - dia de Portug... 26 de Abril 18:00 na livraria Férin. O Porf. Jorge Miranda apresenta este livro onde José Ribeiro e Castro apresenta os seus argumentos em favor de salvar o feriado do 1.º de Dezembro, como o dia de Portugal.

Correcção fraterna

Grande arte é saber corrigir a tempo, oportunamente, abrindo uma porta; sem esmagar a pessoa mas ajudando a superar o erro. Quem sabe fazer esta distinção não deve ter medo de ter opinião nem cai na ratoeira de se calar dizendo que é tolerante. A tolerância é com as pessoas, não com os actos.
NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
Vasco P. Magalhães, sj
Edições Tenacitas  - www.tenacitas.pt


365 vezes por ano não perguntes porquê, mas para quê.

A ânsia de protecção

Público 20120424 Pedro Lomba

Marine Le Pen surpreendeu nas eleições em França. Os 20% da candidata da Frente Nacional deixaram a generalidade da imprensa europeia em choque. Mas será que este choque higiénico nos serve alguma coisa para compreendê-la? Dizer que Marine Le Pen significa o regresso da "extrema-direita", da "ameaça fascista" ou da "xenofobia" na Europa pode funcionar como dramatização e apelo à memória. Mas passa ao lado das verdadeiras causas. Os trabalhadores votaram em Marine Le Pen. Porquê?

Este triunfo eleitoral junto dos trabalhadores traz à memória uma velha frase do historiador das ideias Zeev Sternhell: "O nosso conhecimento da direita, comparado àquele que temos da esquerda, continua a ser ainda muito rudimentar". Algumas reacções às eleições em França confirmam que esse "carácter rudimentar" se mantém. Nas eleições em que a esquerda tanto recorreu à herança da Revolução Francesa e aos valores históricos da III República para cativar os descontentes com a Europa, o capital financeiro e os mercados, muita gente acreditou que toda essa multidão deserdada acabaria naturalmente por confluir para a esquerda. Como identificam em demasia a direita com o laissez-faire da globalização económica, do ataque ao Estado e da desnacionalização da economia, subestimaram o impacto do discurso proteccionista de Marine Le Pen.

Foi a França que criou as categorias políticas a que nos últimos 200 anos temos vindo a chamar esquerda e direita. Mais, foi em França que as múltiplas correntes da esquerda e da direita se encontraram num laboratório de ideias e experiências. Por isso, quando ouvimos Marine Le Pen dizer "nós explodimos o monopólio dos dois partidos, dos bancos, das finanças e das multinacionais", só por falta de cultura política se pode pensar que este pensamento contra as finanças e contra as multinacionaisé apanágio das esquerdas funcionando, nesse sentido, como um discurso oportunista e demagógico. Na verdade, este cruzamento entre ideias soberanistas e proteccionismo social está bem enraizado em certas direitas francesas.

É preciso olhar para Marine Le Pen a partir da história das ideologias. Existem muitas famílias nas direitas francesas. A divisão mais clássica reconhece três: a legitimista, a orleanista e a bonapartista. O que pretendo sublinhar é que, no pensamento continental, a direita francesa foi sempre a que mais activamente recusou a economia como categoria fundante do político.

A recusa do "império da economia" permite-lhe mais facilmente conquistar o voto dos jovens precários, dos insatisfeitos e dos trabalhadores. Entre as propostas de Marine Le Pen contam-se muitas reivindicações básicas e pedestres. Porém, o apelo ao patriotismo económico e a formas de proteccionismo hábil contra a concorrência desleal dos países com mão-de-obra barata e empresas deslocalizadas é exactamente aquilo que os trabalhadores querem ouvir. Entra num território importante para a esquerda. Nenhum político lhe pode ser indiferente.

Além disso, este foi o discurso de uma mulher divorciada, mãe de três filhos, que conhece o mundo do trabalho e nunca se desviou de uma linguagem simples e eficaz. O sucesso de Marine Le Pen representa a ascensão de uma direita radical de colarinho branco que, por todas as formas sofisticadas, tentará tirar partido da enorme ânsia de protecção e segurança dos cidadãos nacionais. Aquilo que estes dramaticamente pedem ao Estado é que os proteja. Da economia, da Ásia, dos outros. Ausente algumas décadas, o proteccionismo está de volta.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Surpresa no Brasil, choque em Portugal

Público 2012-04-23  João Carlos Espada

Quando se chega a uma certa idade, pensamos que já nada nos vai surpreender. Esse era certamente o meu estado de espírito quando há precisamente duas semanas aterrei em Porto Alegre, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Não era a primeira vez que visitava o Brasil, embora fosse a primeira visita a Porto Alegre, e não havia motivo para esperar grandes surpresas. Mas enganei-me redondamente e, ainda agora, no rescaldo da viagem, tenho dificuldade em ordenar o turbilhão de impressões que esta viagem me deixou.
Não foi o samba, nem o Carnaval, nem as praias de que habitualmente se fala - e que, aliás, não vi. Foi uma sociedade civil vibrante, em perpétuo movimento, com uma energia empreendedora que só tem paralelo nos EUA (e talvez na China e na Índia, mas devo admitir que não senti aí a mesma energia).
Assisti a um congresso de dois dias com 5200 pessoas. Era a 25.ª edição do Fórum da Liberdade, promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais, e que teve lugar na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Parecia que estávamos em Nova Iorque ou Washington. Uma organização ultraprofissional, amaciada pela incrível simpatia brasileira. Milhares de pessoas aprumadas, devidamente vestidas, pontuais, alegres e bem-educadas. Uma universidade com 30 mil alunos, num único campus, uma verdadeira cidade, que não recebe um real do Estado.
E, sobretudo, o que diziam, era inacreditável o que diziam. Celebravam a democracia e a liberdade, os direitos da pessoa humana e, por essas razões, o livre empreendimento, a limitação do Estado, o combate à corrupção e ao compadrio promovido por dinheiros públicos. Enalteciam a livre concorrência, não pediam subsídios ao Estado, combatiam os subsídios do Estado e o favorecimento pelo Estado de umas empresas em detrimento de outras. Exigiam impostos baixos e concorrência no fornecimento dos serviços públicos, sobretudo na educação e na saúde.
Era bom de mais para ser verdade. Mas era verdade. Simultaneamente, estas pessoas não mostravam qualquer sinal de arrogância. Exprimiam o maior apreço por Portugal, embora os seus antepassados não fossem apenas portugueses, mas também polacos, italianos, alemães e japoneses, além de índios e africanos, entre muitos outros. Um verdadeiro melting pot, com uma matriz portuguesa que todos enfatizavam. Ouvi vibrantes elogios aos descobridores portugueses, ao seu espírito de tolerância, maior do que o dos anglo-saxónicos, disseram-me, e sempre, repetidamente, à língua de Portugal.
Estas pessoas, ou algumas delas com quem falei demoradamente, querem reforçar a competitividade do Brasil no mundo e regulam os seus padrões pelos da América do Norte. Mas querem reforçar os laços com Portugal. Surpreendem-se por ser mais fácil obter dupla cidadania com Itália do que com Portugal. Gostariam que houvesse um mercado único entre Brasil e Portugal, semelhante ao que existe na União Europeia. Preconizam o mútuo reconhecimento imediato de diplomas escolares e de empresas. Gostariam de ter mais facilidade em investir aqui e de trabalhar aqui. "Há 190 milhões de falantes de português no Brasil", explicaram-me, "que têm apreço por Portugal. Muitos gostariam de educar os filhos em Portugal, de investir em Portugal, de passar parte das suas reformas em Portugal. Não será este um mercado excitante para os portugueses?"
Parece-me que sim, eu pelo menos saí do Brasil contagiado pela energia criativa e empresarial do Rio Grande do Sul. Mas, quando aterrei em Lisboa, tive o primeiro choque lusitano, depois da agradável surpresa brasileira. Na primeira banca de jornais, uma revista de grande circulação titulava na capa: "Precisamos de um novo 25 de Abril?" Não pude acreditar. Temos uma democracia e perguntam se precisamos de um golpe de Estado? Terei chegado por engano à Guiné?
Não foi engano. Passa-se os olhos pelos jornais e vê-se uma cacofonia de reclamações igualitárias, reclamações de mais Estado, mais subsídios, mais garantias. O pobre Governo debaixo de fogo pelas tímidas medidas reformadoras que tem tomado - em vez de lhe reclamarem uma drástica descida dos impostos e um vigoroso convite ao investimento externo. Os nossos jovens fogem para o estrangeiro em busca de oportunidades, e os que ficam querem enterrar ainda mais o país, atacando os mercados, um inexistente neoliberalismo, os alemães e outros europeus empreendedores que viraram bodes expiatórios da nossa paralisia.
Pobre país, receio ter de dizer. Mas amanhã regresso à Polónia, cujo Presidente, aliás, nos acaba de visitar com grande sucesso. Lá reencontrarei a confiança na livre iniciativa que me surpreendeu no Brasil - e cuja ausência é simplesmente chocante em Portugal.

Idosos fogem da Holanda com medo da eutanásia

Notícia da Deutsche Welle  (no blog Estado Sentido)
Idosos fogem da Holanda com medo da eutanásia
Asilo na Alemanha converte-se em abrigo para idosos que fogem da Holanda com medo de serem vítimas de eutanásia a pedido da família. São quatro mil casos de eutanásia por ano, sendo um quarto sem aprovação do paciente.(...)
Estudo justifica temores – Uma análise feita pela Universidade de Göttingen de sete mil casos de eutanásia praticados na Holanda justifica o medo de idosos de terem a sua vida abreviada a pedido de familiares. Em 41% destes casos, o desejo de antecipar a morte do paciente foi da sua família. 14% das vítimas eram totalmente conscientes e capacitados até para responder por eventuais crimes na Justiça. (...)
Não, não é na China nem na Coreia do Norte. É numa daquelas sociedades perfeitas do Norte da Europa.

Lançamento do livro "1 de Dezembro - dia de Portugal"

1oDezembro

Autoconsciência

A minha vida decorre, digo-o como resultado da experiência, entre a consciência que tenho de mim, a realidade que me rodeia e aquilo que “os outros” dizem que a realidade é e que eu sou.
Com facilidade chamo aos outros, “eles”, atribuindo-lhes todas as culpas do que corre mal, do que me impede de ser eu próprio.
E isso, é verdade, mas não é toda a verdade. 
É verdade quando o “eles”, o Estado, quer regular tudo. Como diz João César das Neves em vez de “emagrecer o aparelho, incha-o. Não desregulamenta, aperta. Não liberaliza, intervém”. Intervém até no âmbito da esfera privada
É verdade, também, quando “eles” os patrões, os colegas, já não se sabe bem quem começou, estabelecem regras de comportamento, nomeadamente hábitos de horários de trabalho completamente disparatados e irracionais.
Mas também me dou conta que eu próprio olho para a realidade como algo já adquirido, já visto, que não me traz nada de novo. E este olhar cínico, prende-me, impede-me de confiar, faz-me presa fácil do poder (do poder que tem origem nos outros, mas também do poder que, tem origem em mim). É este poder que tem origem em mim que me impede de me centrar no essencial.
S. Jorge, também meu patrono, de que celebramos hoje o dia, é um exemplo ideal, mesmo que lendário de um eu, que sendo nada, não se contentou com menos do que o eterno
Continua a ser possível e a fazer sentido responder à pergunta do Público sobre se baptizamos/tencionamos baptizar ou não os nosso filhos e ainda é possível assinar a petição Defender o Futuro: duas formas, modestas, mas que afirmam a autoconsciência de cada um.