sábado, 30 de junho de 2012

Santos de hoje, santos de sempre

Hoje a Igreja faz memória dos primeiros mártires da Igreja de Roma (os protomártires) que deram a sua vida na perseguição de Nero.
A nossa vida almofadada como que nos “protege” da realidade. Acharemos heróico, mas também longínquo o milagre de santidade da vida e morte de Chiara Corbela Petrillo

30 de Junho - Santos proto-mártires da Igreja de Roma



Hoje a Igreja celebra a memória dos cristãos que sofreram o martírio durante a perseguição de Nero, no ano 64. A culpa do incêndio de Roma recaiu sobre os cristãos, os quais foram cruelmente martirizados.

Do lado Sul da Basílica Vaticana há um recinto pequeno, chamado ainda hoje Praça dos Protomártires (primeiros mártires) Romanos. As iluminações que lá se vêem na noite de 26 de Junho, evocam as fogueiras que, pelos anos 64 e 65 extinguiram, ou sublimaram, humildes e heróicas vidas humanas. Roma ardera seis dias e sete noites. Prendem-se primeiro os que são suspeitos de seguir o cristianismo, e depois, conforme as denúncias que se vão fazendo, prendem-se outros em massa, condenados menos pelo crime de incêndio, do que pelo ódio que outros lhes têm. Aos tormentos juntam-se as mofas, homens envolvidos em peles de animais morrem despedaçados pelos cães, ou são presos a cruzes, ou destinados a ser abrasados e acendidos, à maneira luz nocturna ao anoitecer ... Nero oferece os seus jardins para este espectáculo; vestido de cocheiro, corre misturado com a multidão, ou em cima dum carro. A perseguição movida por Nero prolongou-se até ao ano 67. E entre os mártires mais ilustres estavam São Pedro e São Paulo. O primeiro foi crucificado no circo de Nero, actual Basílica de São Pedro. São Paulo foi decapitado junto da estrada que leva a Óstia.

Nós e eles

Por Inês Teotónio Pereira , i-online  30 Jun 2012 - 03:00
O não gosto, ou o não quero, são conceitos vagos e de uma abrangência infinita para qualquer criança
O maior problema das crianças (além da escola) é o facto de os adultos de hoje tratarem as crianças como se fossem adultos, como se fossemos todos da mesma idade, como se fossemos todos iguais. Nada mais errado. Nós achamos que as crianças têm um sentido de humor normal, que elas sofrem como a maioria das pessoas crescidas, que elas sabem o conceito de “consequências dos seus actos”, que elas se desiludem, que agradecem convenientemente, ou que se ofendem. Enfim, que são como a maioria das pessoas com quem nós lidamos todos os dias. Que são, vá, gente normal.
Mas não são: as crianças estão mais perto de serem comparáveis a marcianos do que a pessoas: elas não gostam do mesmo que nós, não sabem o mesmo que nós, não querem o mesmo que nós, não pensam como nós e não se relacionam como nós. Têm, vá, uma cultura completamente diferente. Por exemplo, nenhum adulto grita da casa de banho: “Já acabei de fazer cócóó!” Ora, isto, só por si, revela que as crianças são seres diferentes.
Mas muitas vezes nós esquecemo-nos deste fosso, deste mar imenso que nos separa, e acabamos por tratar os nossos filhos de igual para igual concedendo-lhes uma credibilidade, digamos exagerada. Falamos com eles como se eles fossem pessoas que sabem limpar o rabo sozinhos: não sabem, por isso têm, devem, ser tratados como tal.
A verdade é que nós colocamo-nos ao nível deles: se o nosso filho tem medo do escuro, imaginamos o que seria se nós tivéssemos medo do escuro e imediatamente acendemos a luz; se ele diz que não gosta de peixe, imaginamos que alguém nos obrigaria a comer aquilo que não gostamos, e imediatamente excluímos o peixe da ementa doméstica; se o nosso menino diz que o coleguinha é mau, imaginamos a besta do nosso colega de trabalho a fazer-nos a vida num inferno e armamos um pé de vento na escola. Levamos a peito as suas queixas e acolhemos os seus desejos como ordens. Tolos.
Não nos lembramos que as crianças são crianças e que por isso são exageradas, inconsequentes, irresponsáveis, insensíveis, medrosas e com muitas vontades dispersas e até contraditórias. Ora, se nós, adultos, as levarmos a sério, estamos absolutamente tramados – a nossa vida transforma-se num verdadeiro labirinto esquizofrénico.
A verdade é que a única maneira de sobreviver a uma criança é traçar um caminho e tentar que ela siga esse caminho a maioria do tempo e com o mínimo de desvios, dando sempre uma importância relativa àquilo que ela sente, quer ou diz. Até porque nenhuma criança está à espera que a levem a sério: quando uma criança diz que não quer ir para a cama, é apenas um desabafo, nada mais – ela não está à espera que a deixem ficar acordada até de madrugada. O mesmo se passa com as suas opiniões em relação à comida, ou quando grita que não gosta dos irmãos, do tio ou da professora. O não gosto, ou o não quero, são conceitos vagos e de uma abrangência infinita para qualquer criança.
As crianças não sabem bem o que dizem, além de terem pouco vocabulário, não perdem muito tempo a pensar naquilo que vão dizer. Elas dizem o que lhes ocorre sem grandes elaborações. Não pensam duas vezes, e muitas vezes não pensam sequer uma vez. Para pensar, elas contam connosco. Contam com quem tem a função de as educar. Elas são apenas educáveis.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Responsabilidade

Conversava ontem com um amigo sobre a dificuldade que se vê hoje em exercer a responsabilidade pessoal. Explico-me. Quando faço uma escolha, essa escolha tem consequências. E não é possível fugir delas.
Vinha isto a propósito de uma amiga comum, advogada que lida com muitos casos de divórcio, ter comentado, espantada, uma pergunta de alguém que, numa reunião, perguntava se podia ser ressarcido do investimento que tinha feito no namoro.
Infelizmente é uma mentalidade cada vez mais geral e que se espalha, como vejo quase diariamente nos meus alunos, incapazes de fazer escolhas com receio das consequências, ou que fazendo-as, acham injusto sofrer as consequências das suas próprias escolhas ou acções. Todas as acções são escolhas e é disso que, muitas vezes, não nos damos conta voluntária ou inconscientemente.
José Manuel Fernandes chama decente e honrado ao comportamento nacional que assume a nossa responsabilidade colectiva:

Há, no essencial, duas formas de ultrapassar esta nossa dependência de dívidas cada vez maiores. Uma é a forma decente e honrada de o fazer, que é reformarmos a nossa economia e os nossos hábitos de forma a torná-los sustentáveis. Isso implicará, naturalmente, alterar hábitos de consumo, adaptando-os às nossas possibilidades. A outra é a forma indecente e desonesta e passa por dizer aos nossos actuais credores que não pagamos e aos nossos futuros credores que queremos é subsídios. A tais exigências chamaremos "solidariedade" e embrulhá-las-emos em discursos sobre a "coesão social". Quem tiver dúvidas que leia o manifesto: está lá a retórica toda. (ler aqui)

Tenho muitos amigos que não vão concordar com esta opinião. Mas a minha pergunta é: como é que podemos esperar criar uma cultura de responsabilidade nas novas gerações se justificamos (ou pactuamos) com comportamentos que se recusam a aceitar as consequências da nossa irresponsabilidade colectiva passada?

O ideal de responsabilidade é o sim de S. Pedro cujo dia celebramos hoje. Levar a responsabilidade – resposta – até à doação da própria vida.
Não é nada fácil e até ele, diz a lenda, teve que ser ajudado no Quo Vadis a levar a sua responsabilidade até às últimas consequências. É esta sua proximidade às nossas limitações humanas que faz dele o meu santo preferido – também se calhar, porque os meus pais me deram o seu nome.

Pedro Aguiar Pinto

Eles querem um "futuro decente". Mas não lá muito honrado

Público 2012-06-29 José Manuel Fernandes

A origem dos nossos males não é o memorando da troika, é uma economia e um Estado viciados em dívidas


António Hespanha é uma pessoa muito observadora. Soubemo-lo no último Prós e Contras. Quando vai a um supermercado e olha para os carrinhos de compras dos outros clientes, acha que as suas escolhas não são racionais. Não sei o que o douto professor conhecerá da vida das outras pessoas para fazer essa avaliação, mas se calhar não necessita de saber muito. Ele faz parte daquela elite que julga conhecer as nossas necessidades mesmo quando são apenas nossas. É também dos que acham que os que pensam diferente sofrem de uma irremediável "impiedade" que faz deles monstros em potência. Até porque é um dos subscritores do manifesto "por um futuro decente", que junta gente que, como ele, só pensa no bem do próximo - desde que o próximo aceite que sejam eles a dizerem o que é o seu bem.

Nesse manifesto defende-se que cabe ao Estado "organizar a sociedade em bases colectivas". Naturalmente que, se isso sucedesse, os clientes dos supermercados não fariam compras irracionais - talvez até nem fizessem compras, pois as prateleiras estariam vazias ou só teriam os produtos que iluminados com "sensibilidade social" como o prof. Hespanha entendem ser necessários. E também não haveria maliciosas promoções oferecidas pelos gananciosos dos donos dos supermercados, apenas o que o Estado entendesse correcto - "em bases colectivas". 

Parece exagero, mas não é. Nesse manifesto, que juntou as luminárias do costume a uns trânsfugas do PS, também se diz que todos os nossos problemas têm origem no acordo com a troika. Como se sabe, há um ano, antes desse acordo, nós não tínhamos problemas, só tínhamos soluções. Quando não tínhamos soluções, tínhamos pelo menos "uma visão". E, claro, estávamos prenhes das "ideias generosas" que, de acordo com os subscritores do documento, faltam aos nossos responsáveis mas sobram nos corações sensíveis do prof. Boaventura, do coronel Lourenço ou do ex-sindicalista Da Silva.

Todo o manifesto se pode resumir a duas ideias centrais. A primeira é que não podemos empobrecer. A segunda é que não devemos pagar as nossas dívidas. Chama-se-lhe, eufemisticamente, uma "negociação com todos os credores" que "não pode deixar de ser dura". Ou seja, propõe-se como solução para o empobrecimento um caminho que nos tornaria irremediavelmente mais pobres.

É certo que o prof. Hespanha se apresenta apenas como historiador, mas é estranho que, tendo passado o Prós e Contras a apelar a que se olhasse para a realidade, seja de uma total cegueira quanto a factos bem reais. E um deles é que Portugal nunca conseguiu, desde pelo menos 1950, equilibrar as contas externas. Mesmo nos períodos em que a nossa economia cresceu mais depressa, sempre importámos mais do que exportámos. Fomo-nos safando graças às remessas dos emigrantes, à ajuda dos fundos europeus e ao investimento externo, até que chegou o tempo do crédito fácil e barato. Temos a dívida que temos porque, só desde 1995, fomos acrescentando todos os anos à dívida externa o equivalente a dez por cento do PIB. Porque consumimos sistematicamente mais dez por cento do que aquilo que produzimos. Porque vivemos a crédito e foi esse desequilíbrio que causou os nossos problemas.

Há, no essencial, duas formas de ultrapassar esta nossa dependência de dívidas cada vez maiores. Uma é a forma decente e honrada de o fazer, que é reformarmos a nossa economia e os nossos hábitos de forma a torná-los sustentáveis. Isso implicará, naturalmente, alterar hábitos de consumo, adaptando-os às nossas possibilidades. A outra é a forma indecente e desonesta e passa por dizer aos nossos actuais credores que não pagamos e aos nossos futuros credores que queremos é subsídios. A tais exigências chamaremos "solidariedade" e embrulhá-las-emos em discursos sobre a "coesão social". Quem tiver dúvidas que leia o manifesto: está lá a retórica toda. 

Uma das coisas mais extraordinárias destes debates é o ar sério, até compungido, com que pessoas que nunca perderam um minuto da vida em acções de solidariedade se propõem "ser solidários" com o dinheiro dos outros. Sejam eles contribuintes portugueses ou contribuintes alemães (se forem alemães é melhor ainda). É sempre uma posição confortável e de elevada "autoridade moral". O pior é quando se tem de passar da simples e fácil indignação às propostas concretas.

Os subscritores do nosso manifesto ainda estão na primeira fase, a do simples protesto. A das proclamações tão gongóricas como vagas. Basta-lhes dizer que são pela "defesa da democracia, da soberania popular, da transparência e da integridade, contra a captura da política por interesses alheios aos da comunidade". Ou que dão "prioridade ao combate ao desemprego, à pobreza e à desigualdade". É fácil e é óptimo. Dir-se-ia até que estamos todos de acordo. Só que não estamos.

Propor a denúncia do memorando da troika tem consequências. Estar à altura da grandiloquência destas proclamações também. Pelo que se algum dia tiverem de passar das frases gerais às medidas concretas, as nossas almas sensíveis teriam, para serem coerentes, de propor algo semelhante à plataforma eleitoral do Syriza, cuja leitura é altamente recomendável porque altamente instrutiva. Sobretudo num país como Portugal, onde quase tudo o que ali se propõe já foi por nós testado - pelos governos de Vasco Gonçalves, em 1975. Com os resultados económicos conhecidos. 

A minha ideia de um país decente não é essa. Nem é a de um país a viver de subsídios. 

29 de Junho - S. Pedro



Martírio de S. Pedro
Caravaggio (161)
óleo sobre tela (230x175cm)
Santa Maria del Popolo, Roma


A Igreja católica festeja hoje S. Pedro, o primeiro papa. O apóstolo a quem Jesus deu a missão de enviar e confirmar outros, de ser referência e sinal de unidade. A missão parece imensa e é! Cristo não lhe perguntou se tinha muitos cursos, um currículo exemplar, nem sequer se era impecável. Só lhe perguntou: "Amas, amas-me?... Então vai!"
NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
Vasco P. Magalhães, sj
Edições Tenacitas  - www.tenacitas.pt

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fugir da realidade

Pe. Rodrigo Lynce de Faria
Alguém me dizia, recentemente, que os livros mais "consumidos" pela juventude hodierna são aqueles que ajudam a fugir da realidade. Em concreto, os livros cujo público-alvo são as adolescentes possuem uma receita que não falha: transportá-las para mundos imaginários que as ajudem a "emitir" frequentes suspiros cor-de-rosa. E finalizava essa pessoa dizendo: «Basta ajudá-las a refugiarem-se na sua imaginação e elas sentem-se felizes. E, mais importante ainda, recomendam o livro às amigas».
É necessário reconhecer, em abono da verdade, que cada um de nós necessita da sua imaginação para viver de um modo humano. Se não fosse assim, Deus não no-la teria dado. Sem imaginação, não haveria projectos na nossa vida. E, sem projectos, a vida tornar-se-ia maçuda, monótona e insonsa. Sem imaginação, faltar-nos-ia criatividade. E, sem criatividade, seria deveras difícil encarar o nosso trabalho quotidiano com um salutar entusiasmo.
A imaginação ajuda-nos a expandir o nosso mundo interior e a transcendê-lo. Torna-nos maiores do que aquilo que somos. E é por isso que temos a sensação de que ela nos dá vida e nos anima a viver. Dá-nos asas, faz-nos voar ― e liberta-nos da excessiva monotonia do dia-a-dia.
No entanto, a imaginação descontrolada converte-se num mecanismo de evasão. Soltar a imaginação sem nenhum tipo de controlo é uma autêntica droga. É verdade que proporciona uma alegria e um alívio passageiros, mas também é verdade que acaba por submergir as pessoas numa triste dependência, como é próprio dos estupefacientes.
Evadir-se em sonhos proporciona um certo bálsamo de refrigério interior. Mergulhar num mundo imaginário ― em que somos sempre heróis, sem defeitos nem limitações ― é fácil, entusiasmante e acessível a qualquer um. Faz-nos sentir uma completa "liberdade": ninguém, excepto nós próprios, consegue pôr obstáculos à nossa imaginação.
Mas, não nos enganemos, é uma liberdade fictícia. Só existe numa vida que não é real ― falsa por definição! Fugir da realidade não nos pode proporcionar a verdadeira felicidade. Pode ser ― como o canto de uma sereia ― entusiasmante, deslumbrante e sedutor. Basta pensar no êxito da "second life" no mundo informático. No entanto, bem vistas as coisas, nunca é libertador. Porque procede de uma vida falsificada. E a liberdade e a felicidade só são possíveis na realidade. Nunca na mentira, nem no imaginário que afasta da realidade.
Fugir da realidade também não é libertador porque na vida imaginária não há esforço. E, sem esforço, as pessoas tornam-se passivas e inactivas ― escravas de uma vontade adormecida. Essa fuga da realidade não dá a paz que tanto se procura. A paz autêntica também é fruto do esforço por pôr ordem na nossa imaginação e não nos deixarmos enganar ou anestesiar por ela.
Pe. Rodrigo Lynce de Faria

Frase do dia

O pessimista queixa-se do vento, o optimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas.
Willian George Ward
(1812-1882)
Matemático e teólogo católico inglês


terça-feira, 26 de junho de 2012

O que é urgente, raras vezes é importante

Há uma pergunta que me parece essencial: movo-me por prioridades ou por emergências? Isto é: ando a correr atrás de urgências, como tantas vezes nos acontece, ou sou capaz de parar e ver o que é prioritário ser feito? Ser "bombeiro" é simpático, mas será esse o meu papel no mundo, aquela missão que a mais ninguém pertence? Podemos ter que andar a "apagar fogos", mas que o imediato não encubra o essencial e que o contributo específico de cada um não se perca.
NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
Vasco P. Magalhães, sj
Edições Tenacitas  - www.tenacitas.pt

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Segunda-feira

Procurava um artigo que tinha lido há uns dias. Lembrava-me que tratava do modo como os pais, sobretudo as mães, são sobrecarregadas com os trabalhos de casa dos filhos. Com alguma dificuldade, encontrei-o e recomendo vivamente: Manifesto pela libertação dos pais
De caminho, encontrei outros dois, um deles já bem antigo, mas que guardei e não resisto a propor-vos: Será que alguém pode pôr um preservativo no nariz ...
O outro era de há uma semana e recorda-nos as mil e uma maneiras insidiosas e sempre para nos proteger, que o Estado usa para se meter na nossa vida: Casa nostra
Mais em cima do momento que vivemos, Vasco Pulido Valente desafia-nos a pensar no que verdadeiramente é o patriotismo

Querem os subsídios de férias? Olhem para aqui

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Segunda feira, 25 de junho de 2012

A reposição dos subsídios de férias/natal não depende da bondade do governo, mas das possibilidades financeiras do país. Como dizia Daniel Bessa, a questão passa por saber se os subsídios "algum dia poderão ser repostos" e, neste sentido, "a única tarefa colectiva" que "deveria interessar os portugueses" é "saber o que deveríamos fazer para que algum dia fossem repostos" (Expresso, 21 de Abril). Ou seja, a reposição dos subsídios não depende dos humores de Vítor Gaspar, mas sim de uma mudança estrutural. É bom lembrar que, até ao advento da troika, o dia-a-dia do Estado (salários, subsídios e afins) foi alimentado por aumentos de impostos e emissões de dívida. Como já se percebeu, esses dois caminhos chegaram ao final da linha. O regresso dos subsídios depende, portanto, de duas mudanças. Primeira: conseguimos ou não uma redução do peso do Estado? Segunda: conseguimos ou não equilibrar a balança entre importações e exportações?
Sobre o primeiro ponto, vale a pena ouvir de novo Daniel Bessa: "quando tem de escolher, a sociedade portuguesa está sempre do lado da despesa, nunca lhe ocorrendo, no entanto, que todas as áreas da despesa podem ser aumentadas (inclusive a reposição dos ditos subsídios), desde que outras sejam diminuídas". Tradução? Se quer os subsídios de volta, o funcionalismo público devia ser o primeiro a estar interessado na separação entre o trigo e o joio da Administração Pública. Um exemplo prático: o Concelho do Alandroal tem cerca de 6200 habitantes, mas tem 1 funcionário público por cada 30 habitantes e uma dívida de 4500 euros por habitante. São necessários todos aqueles funcionários? Como é que um Concelho tão pequeno acumulou uma dívida tão grande? Aquele Concelho é necessário? Não podia ser fundido com outro? Enquanto não fizermos estas perguntas e a consequente separação entre o essencial e acessório, a reposição dos subsídios estará comprometida. Como dizia Teodora Cardoso, as metas a curto-prazo eram impossíveis de alcançar sem o corte dos subsídios, e - mais importante - esse corte deu margem para se tomarem outras medidas, sobretudo a reestruturação da Administração Pública (Negócios, 20 de Outubro de 2011).
A par da reestruturação do Estado, outro ponto devia estar debaixo de olho do tal esforço colectivo indicado por Daniel Bessa: o défice externo. O nosso Estado e a nossa sociedade são dependentes do dinheiro dos outros, do crédito externo. Isto sucede porque o país importou muito e exportou pouco, sendo por isso incapaz de gerar poupança interna.Desde a compra de um T2 em Famalicão até ao subsídio de férias da funcionária pública de Viseu, tudo dependia, em maior ou menor escala, do dinheiro que o Estado e bancos pediam lá fora. A tal austeridade é somente o fim deste modo de vida artificial. Ora, enquanto não conduzirmos o país para um equilíbrio da balança de pagamentos, a reposição dos subsídios será complicada. Até porque esse equilíbrio externo é uma condição sine qua non para que os tais mercados voltem a confiar em Portugal. E sem o dinheiro dos malvados mercados não há subsídios para ninguém.

Problemas insolúveis

DN 20120625
JOÃO CÉSAR DAS NEVES

Esta crise reforçou um velho defeito nacional. É espantoso o tempo que se perde com problemas irresolúveis. O mal está, não no seu grau de dificuldade, mas na forma de os colocar, que impede a solução.
Tudo começa na análise da situação. Surpreende a quantidade de especialistas que, em vez de tentar compreender e explicar, prefere assustar e deprimir. Delineando um diagnóstico, acumulam todos os defeitos, vícios, dilemas e obstáculos que conseguem entrever, tomando o seu pessimismo como visão realista da circunstância. Confundem queixas com avaliação, descrevendo os cenários mais horríveis e as acusações mais gravosas.
Não está em causa a veracidade dessas afirmações, mas o seu enviesamento e tacanhez. A realidade, toda a realidade, tem sempre riscos latentes, ameaças potenciais, vícios perigosos. A história só continua através das linhas de abertura, valores positivos, possibilidades criativas que também lá estão. O que somos é resultado daquilo que, através de temores assustadores, acabou por resistir e frutificar. A sabedoria está, não em localizar os pavores, mas em encontrar o bem.
Pior ainda, depois de empilhar todos os males e erros... nada. Não dizem mais nada. Limitam-se a sorrir com satisfação mórbida pelo retrato devastador, achando que isso basta. Apontar medos e riscos só é útil se acompanhado de resposta eficaz. A falta de solução, que inevitavelmente resulta de visão tão negativa, parece-lhes razoável. Alguns ainda balbuciam generalidades ocas, como a urgência de mudar mentalidades, mas a maioria contenta-se com o cenário catastrófico, congratulando-se pela genialidade da ameaça. Está tudo mal. Pronto!
Daqui sai uma outra atitude que, embora sumamente estúpida, é hoje aceite como razoável: a mania de meter dedos nas feridas e atirar pedras aos charcos. Basta pensar um pouco para ver como esta actividade, de que tantos se gabam, é supremo disparate. As chagas não ficam melhores, mas piores, quando lá se mete o dedo e uma pedrada na lama só serve para salpicar toda a gente. A alegada utilidade da prática advém da denúncia perante a comunidade em negação. Isto começa logo por ser falso, pois úlceras e poças costumam ser bem visíveis. Mas mesmo que estejam ocultas, há maneiras mais positivas de as abordar. No fundo, como nos diagnósticos catastrofistas, está mais em causa o sadismo do analista que a busca da solução.
A quarta fonte de impossibilidade advém de objectivos incompatíveis. Nos casos raros em que se apontam propósitos, isso implica violar a lógica, desejar o inviável, impor o utópico, querer a contradição. Exige-se promoção da mudança e manutenção da situação, comer omeletes sem partir ovos. É comum nas contas, públicas ou privadas, forçar a aritmética anunciando subida de despesas, redução de receitas e défice. No fundo, a hipótese de partida é um almoço grátis.
Se na análise e definição de objectivos as coisas já vêm distorcidas, o pior surge na formulação de soluções. Aí, em vez de distinguir e separar dificuldades, abordando cada uma por sua vez, usa-se o método inverso. É comum empilhar todas as questões, muitas de origem bastante diferente, num único e enorme problema, que depois se revela inevitavelmente insolúvel. Não se analisa, amontoa-se. Não se investiga, confunde-se. Mesmo sob um único termo, como desemprego, crescimento, educação há, não um, mas enorme agregado de múltiplos dilemas, que deviam ser tratados individualmente. Aqui o mito dominante é o dos dois coelhos com uma cajadada. Esquecendo que essa possibilidade é uma raridade fortuita, pretende-se poupar esforço criando aglomerados tão ambíguos e complexos onde os coelhos se multiplicam.
Estes vícios podem servir, também eles, para nos deprimir. Afinal é por isto que as coisas não andam. E lá caímos no desânimo. A maneira certa de olhar é a inversa. Sobrevivemos até aqui apesar de sermos assim. Porque felizmente a realidade é muito mais que as nossas conversas e os problemas, mesmo colocados de forma insolúvel, acabam por encontrar solução.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

domingo, 24 de junho de 2012

24 de Junho - Nascimento de S. João Baptista


S. João Baptista no deserto
Mestre da Lourinhã 
c.1535
óleo sobre madeira 146 x 135 cm 
Museu da Santa Casa da Misericóridia 
Lourinhã, Portugal

sábado, 23 de junho de 2012

Rir ou chorar?

Público 20120623 Vasco Pulido Valente

Agora, a mais de meio caminho, talvez seja a altura para falar das perplexidades que me trouxe o Euro 2012. Não que não tenha visto os jogos de Portugal com um relativo prazer e até com uma certa ansiedade; e não também que não se tenha já escrito centenas de páginas sobre o assunto. Mas fui assistindo com crescente espanto ao entusiasmo geral pela selecção, no meio de uma crise que dia a dia piora ou, pelo menos, dia a dia nos tira qualquer razão de conforto ou confiança. Não vale a pena perder muito tempo com as cenas de Marcelo (principalmente, para quem ainda se lembra das "bandeirinhas" de 2004). Só que, desta vez, reparei que houve dezenas de pessoas sérias que não escaparam ao comentário babado e patriótico e a uma espécie de apropriação "nacionalista" dos resultados do futebol.

Porque, no fundo, o que se festeja, quando se festeja o comportamento, aliás meritório da selecção? O que festeja o Presidente da República num telegrama ardente para Varsóvia? Ou o ministro Relvas, que aparentemente se apropriou de Portugal inteiro? Ou o secretário de Estado anónimo que por lá apareceu sem fim compreensível? E os milhares de indígenas que por aí soluçam, alguns (milagre!) com a bandeira monárquica na mão? Não festejam em princípio as façanhas de uma equipa portuguesa, porque a maior parte dos jogadores não vem do nosso campeonato; vem de Espanha, de Inglaterra, da Itália e mesmo da Turquia. A disciplina de vida, os métodos de treino, a própria concorrência e o dinheiro que lá ganham fizeram deles quem eles são hoje.

Em última análise, eles quase todos confirmam o escandaloso conselho do primeiro-ministro: o melhor é emigrar. Vejam os jornais desta semana: entre notícias de roubos, desfalques, corrupção, o futebol brilhava como o último refúgio da dignidade e da decência deste país. Mas ninguém perguntou por que motivo uma sociedade, capaz de organizar com inteligência e eficácia, uma actividade desportiva competitiva e dura, falha miseravelmente no resto. Que relação existe entre o estado do défice, da dívida e da economia e uma equipa de alta qualidade que pode, com um bocadinho de sorte, ganhar o Euro? Provavelmente nenhuma; e nós que por aqui berramos de alegria com o sucesso da selecção devíamos, em boa verdade, chorar com o nosso longo e repetido fracasso no essencial. Como nos compete. 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Demoramos 5 anos a executar uma dívida, mas a culpa é da Merkel

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Sexta feira, 22 de junho de 2012

Vale a pena repetir pela enésima vez: a reforma económica mais importante é a reforma da justiça e das instituições. O crescimento não depende apenas do economês. Aliás, a agilidade burocrática (sim, eu sei, parece um oxímoro) e o Estado de Direito são as antecâmaras da prosperidade, e, por isso, qualquer reforma estritamente económica vai sempre esbarrar na lentidão exasperante da nossa justiça e na ineficácia corruptora da nossa administração pública. Exemplos? O Negócios de ontem trazia a história de um magnata francês do vinho, Roger Zannier, que queria muito investir no Douro. Mal ele sabia que iria ter pela frente um conjunto de funcionários que revela um desprezo olímpico pelos "privados" da economia real. O relato é surreal: "eu pedi as autorizações para plantar vinhas e dois anos depois ainda não tinha resposta. Pedi então uma reunião com o responsável máximo, que convocou a pessoa que me devia ter respondido. E para minha grande surpresa, a razão que me deram (...) foi a de que não tinham tinteiro para colocar na impressora e imprimir a resposta". Dois meses depois desta conversa inconcebível, Zannier continuava sem resposta. Este Tio Patinhas francês manteve o investimento, porque é um apaixonado pelo Douro, mas a maioria dos empresários desistiria (e bem) de um país onde os funcionários públicos têm o poder para bloquear desta forma patética as iniciativas da sociedade. E aposto que ninguém foi punido ou despedido na entidade que bloqueou este investimento durante anos.
Mais exemplos? Em média, os tribunais portugueses precisam de 1600 dias para executar uma dívida (Negócios, 26 de Outubro de 2010). Na Suíça bastam 60 dias, e 90 dias chegam para os tribunais franceses. Ou seja, o Estado de Direito português não existe na atividade económica. Quando precisa de quase 5 anos para reaver o seu dinheiro, um empresário português percebe que este país é para caloteiros e fica com medo de fazer novos negócios. E o que dizer dos empresários estrangeiros? Bom, quando descobrem este buraco negro legal, os Zanniers-não-apaixonados-pelo-Douro evitam Portugal. E com razão.
Não, os responsáveis pela nossa crise não são os mercados, a troika ou Merkel. A culpa é nossa, porque somos incapazes de gerar um debate institucional em Portugal. Políticos e média têm uma visão pessoalista da vida pública, logo, só debatem tácticas conjunturais de políticos e empresários em concreto; as regras e instituições não interessam. Depois, toda a arquitectura jurídica, das faculdades até aos tribunais, tem nojo da actividade económica. Em Portugal, o mundo jurídico nunca quis pensar a eficácia da economia, e isso é bem visível na insensibilidade económica da maioria dos deputados. Para terminar, o funcionalismo público e os partidos estão cheios de pessoas que viveram sempre na bolha, sem contacto com a vidinha real. Ora, tudo isto contribui para uma cultura política e mediática que, muito simplesmente, não quer saber das bases legais e institucionais da prosperidade. Não, a Senhora Dona Merkel não tem nada que ver com isto. Mas, se calhar, devia ter. Se calhar, precisávamos de uma segunda troika, uma troika para as instituições e para a justiça.

Frase do dia

Trazei aqui os vossos corações feridos, contai aqui a vossa angústia; não há sofrimento na Terra que o Céu não possa curar
S. Tomás Moro
(1478-1535)
Escritor e político inglês
Canonizado (1935)

22 de Junho - S. Tomás Moro


Estudo para um retrato da família de S. Tomás Moro
Hans Holbein, o moço
c.1527

Unidos num objectivo comum

RR on-line
Aura Miguel (22/06/2012)
O futebol pode ser uma escola importante: educa para o sentido de respeito pelo outro (inclusive do adversário); para o espírito de sacrifício pessoal, na perspectiva do bem do grupo; e para a valorização dos dotes de cada elemento que forma a equipa.


Este retrato, traçado pelo Papa na mensagem que escreveu no arranque do europeu de futebol, pode ser usado para avaliar a nossa equipa no jogo de ontem. Unidos num objectivo comum, os portugueses superaram a lógica do individualismo e do egoísmo, para dar espaço a uma outra lógica que permitiu a promoção do bem comum a todos os níveis, incluindo a vitória.
Que a tenacidade dos nossos jogadores possa contagiar o resto do país, para que os portugueses saibam exprimir naquilo que fazem as virtudes mais nobres e acções mais humanas, em espírito de paz e sincera colaboração.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Socráticos

DESTAK | 20 | 06 | 2012   17.48H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt


Um facto aberrante da actualidade é a persistência de um influente grupo de defensores de José Sócrates. Por estranho que pareça, o facto é indiscutível. Notícias insistentes confirmam vários apoios, movimentos e protestos de defesa dedicados ao anterior primeiro-ministro. O próprio, no exílio parisiense, mal esconde ambições futuras.
Ora o facto é mesmo insólito. A crise custou o poder a muitos dirigentes. Kostas Karamanlis, George Papandreou, José Luis Zapatero, Silvio Berlusconi, Brian Cowen, até Nicolas Sarkozy, todos saíram em desgraça, sem esperança, mesmo remota, de regresso.
De todos, poucos esticaram a corda tanto quanto José Sócrates ou abandonaram o País com um desmentido mais flagrante da sua política. O mais elementar bom senso levaria o PS a enterrar airosamente a triste memória e seguir em frente. Porque razão uma franja relevante insiste em relembrar o triste fantasma do passado?

Frase do dia

A verdade é frequentemente tão simples e elementar que parece incrível

Giovannino Guareschi
Escritor italiano (1908-1968)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O que é fazer anos?

Sábado passado fiz anos.
Fiquei impressionado com a quantidade de amigos que, usando o Facebook, me deram os parabéns.
Felicitar ou dar parabéns no dia em que faz anos que alguém nasceu é uma forma de expressar um desejo – que aquela vida que comemora um aniversário seja para bem – e, também, um reconhecimento, nem sempre consciente, do valor da vida já passada.
Como agradecimento a todos os que me lembraram nesse dia, leio a homilia que o Papa Bento XVI fez no dia dos seus anos e partilho alguns trechos convosco:
Em primeiro lugar, há o dom da vida que os meus pais me ofereceram …. e que lhes devo agradecer.
Mas não é uma certeza dizer que a vida do homem em si seja um dom.
Pode deveras ser um bonito dom?
Sabemos o que está sobranceiro sobre o homem nos tempos obscuros que vemos diante de nós — ou nos mais luminosos que possam vir?
Sabemos prever a quais aflições, ou eventos terríveis poderá estar exposto?
É justo oferecer a vida assim, simplesmente?  É responsável ou demasiado imprevisível? É um dom problemático, se não for cultivado.
A vida biológica por si mesma é um dom, embora cercada por uma grande dúvida.
A vida torna-se um dom verdadeiro se juntamente com ela se puder doar também uma promessa que é mais forte do que qualquer desventura que nos possa ameaçar, se ela for imersa numa força que garante que é bom ser um homem, que por este homem tudo o que o futuro trouxer é um bem.
A antecipação da ressurreição no meio da história que evolui é a força que nos indica o caminho e nos ajuda a ir em frente.
Demos graças ao bom Deus porque nos doou esta luz e peçamos a fim de que ela possa permanecer para sempre.
E eu devo agradecer a Ele e a quantos me fizeram sentir sempre de novo a presença do Senhor, que me acompanharam para que não perdesse a luz.
…. não sei o que me espera. Contudo, sei que a luz de Deus está presente, que Ele ressuscitou, que a sua luz é mais forte do que toda a obscuridade; que a bondade de Deus é maior do que todo o mal deste mundo. E isto ajuda-me a prosseguir com segurança.
Isto ajuda-nos a ir em frente e neste momento agradeço de coração a quantos me fazem ouvir continuamente o «sim» de Deus através da sua fé.
Obrigado
Pedro Aguiar Pinto

Consumismo

O consumismo é uma doença. É uma mentalidade subtil, sorrateira, que faz pensar que não se é feliz se não se tem mais isto e aquilo... Está-se sempre insatisfeito. A doença torna-se grave quando se começa a olhar para os outros e a competir para ter mais do que eles. Torna-se mortal quando já não dou valor às coisas, nem às pessoas! O ter mata a convivência.

NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
Vasco P. Magalhães, sj
Edições Tenacitas  - www.tenacitas.pt

365 vezes por ano não perguntes porquê, mas para quê.

Ciclo "Política e Pensamento": A Utopia de S. Tomás Moro


Na próxima sexta-feira, é o dia de São Tomás Moro (Thomas Morus, no latim em que escreveu), canonizado em 1935 por Pio XI e declarado Padroeiro dos Estadistas e Políticos por João Paulo II, em 2000, na viragem do século e do milénio. Por sinal, olhando ao estado geral da política, não faltará certamente quem, com crença genuína ou só por ironia, comente que bem estamos precisados de um santo padroeiro que olhe e inspire líderes e actores políticos.

Quem não gostou nada dele foi Henrique VIII, o das muitas mulheres. Depois de nomeado por este para Chanceler do Reino de Inglaterra, em 1529, Sir Thomas More enfrentou os caprichos autocráticos do monarca, acabando por demitir-se. Henrique VIII procurou repetidamente vergá-lo ao seu poder político e religioso. Não conseguindo vencer a rectidão de carácter, o sentido de justiça e a imparcialidade exemplar que marcaram a acção de Tomás Moro, o rei fá-lo-ia prender na Torre de Londres e mandou-o decapitar em 1534. A verticalidade que sempre manteve, bem como a serenidade diante das maiores provações, colocaram o seu martírio como uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, por atitude despótica e de vingança pessoal do soberano.

A sua obra de referência é, porém, bem anterior a estas provações e enfrentamentos, tendo sido publicada em 1516:
«A Utopia»
de S. Tomás Moro
Esta ilha fantástica, criada, imaginada e descrita por São Tomás Moro, precisamente Utopia, marcaria para sempre o significado desta palavra e o seu conceito, como lugar ideal e irrealizável, tendo gerado incontáveis comentários, leituras e interpretações em todo o mundo. A seu respeito, escolhemos ouvir um politólogo das novas gerações: Miguel MORGADO, doutorado em Ciência Política e docente universitário na Universidade Católica, membro da prestigiada escola do respectivo Instituto de Estudos Políticos, um dos mais respeitados cientistas políticos dos nossos dias. Ágil nos novos modos de comunicar, distinguiu-se também como blogger activo, desde os primórdios da nossa blogosfera.
MMorgado 25-junho PPVL

terça-feira, 19 de junho de 2012

Grandes livros, grandes filmes: Henrique V de William Shakespeare


Apresentado por Padre Pedro Quintela, sacerdote da Diocese de Setúbal.
Fundador e Presidente da Direcção da Associação Vale de Acór/Projecto Homem, obra da Igreja que acompanha pessoas toxicodependentes e alcoólicos, é também capelão dos estabelecimentos Prisionais de Setúbal e de Pinheiro da Cruz.
É Assistente Religioso do Polo Universitário de Almada e membro da direcção do Banco Alimentar Contra a Fome de Setúbal.
No âmbito das suas actividades, impulsionou a criação do grupo de teatro católico "TEO-Teatro do Ourives" e é responsável pelo Ciclo de "Cinema Católico de AlmadaHenrique V

Frase do dia

A consciência é muito bem educada. Deixa logo de falar com aqueles que não querem escutar o que ela tem a dizer.

Samuel Butler (1835-1902)

Escritor inglês

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Chiara Corbela Petrillo: uma nova Gianna Beretta Molla

Jovem mãe morreu por ter escolhido adiar o tratamento de cancro durante a gravidez
Salvatore Cernuzio
ROMA, segunda-feira, 18 de junho de 2012 (ZENIT.org) – Sábado passado, na igreja de Santa Francisca Romana, da capital italiana, foi celebrado o funeral da jovem Chiara Petrillo, falecida depois de dois anos de sofrimento provocado por um tumor.
A cerimônia não teve nada de fúnebre: foi uma grande festa em que participaram cerca de mil pessoas, lotando a igreja, cantando e aplaudindo desde a entrada do caixão até a saída.
A extraordinária história de Chiara se difundiu pela internet com um vídeo no YouTube, que registrou mais de 500 visualizações em apenas um dia.
A luminosa jovem romana de 28 anos, com o sorriso sempre nos lábios, morreu porque escolher adiar o tratamento que podia salvá-la. Ela preferiu priorizar a gravidez de Francisco, um menino desejado desde o começo de seu casamento com Enrico.
Não era a primeira gravidez de Chiara. As duas anteriores acabaram com a morte dos bebês logo após cada parto, devido a graves malformações.
Sofrimentos, traumas, desânimo. Chiara e Enrico, porém, nunca se fecharam para a vida. Depois de algum tempo, chegou Francisco.
As ecografias agora confirmavam a boa saúde do menino, mas, no quinto mês, Chiara teve diagnosticada pelos médicos uma lesão na língua. Depois de uma primeira intervenção, confirmou-se a pior das hipóteses: era um carcinoma.
Começou uma nova série de lutas. Chiara e o marido não perderam a fé. Aliando-se a Deus, decidiram mais uma vez dizer sim à vida.
Chiara defendeu Francisco sem pensar duas vezes e, correndo um grave risco, adiou seu tratamento para levar a maternidade adiante. Só depois do parto é que a jovem pôde passar por uma nova intervenção cirúrgica, desta vez mais radical. Vieram os sucessivos ciclos de químio e radioterapia.
Francisco nasceu sadio no dia 30 de maio de 2011. Mas Chiara, consumida até perder a vista do olho direito, não conseguiu resistir por mais do que um ano. Na quarta-feira passada, por volta do meio dia, rodeada de parentes e de amigos, a sua batalha contra o dragão que a perseguia, como ela definia o tumor em referência à leitura do apocalipse, terminou.
Mas na mesma leitura, que não foi escolhida por acaso para a cerimônia fúnebre, ficamos sabendo também que uma mulher derrota o dragão. Chiara perdeu um combate na terra, mas ganhou a vida eterna e deixou para todos um testemunho verdadeiro de santidade.
“Uma nova Gianna Beretta Molla”, definiu-a o cardeal vigário de Roma, Agostino Vallini, que prestou homenagem pessoalmente a Chiara, a quem conhecera havia poucos meses, juntamente com Enrico.
“A vida é um bordado que olhamos ao contrário, pela parte cheia de fios soltos”, disse o purpurado. “Mas, de vez em quando, a fé nos faz ver a outra parte”. É o caso de Chiara, segundo o cardeal: “Uma grande lição de vida, uma luz, fruto de um maravilhoso desígnio divino que escapa ao nosso entendimento, mas que existe”.
“Eu não sei o que Deus preparou para nós através desta mulher”, acrescentou, “mas certamente é algo que não podemos perder. Vamos acolher esta herança que nos lembra o justo valor de cada pequeno gesto do cotidiano”.
“Nesta manhã, estamos vendo o que o centurião viveu há dois mil anos, ao ver Jesus morrer na cruz e proclamar: Este era verdadeiramente o filho de Deus”, afirmou em sua homilia o jovem franciscano frei Vito, que assistiu espiritualmente Chiara e a família no último período.
“A morte de Chiara foi o cumprimento de uma prece. Depois do diagnóstico de 4 de abril, que a declarou doente terminal, ela pediu um milagre: não a própria cura, mas o milagre de viver a doença e o sofrimento na paz, junto com as pessoas mais próximas”.
“E nós”, prosseguiu frei Vito, visivelmente emocionado, “vimos morrer uma mulher não apenas serena, mas feliz”. Uma mulher que viveu desgastando a vida por amor aos outros, chegando a confiar a Enrico: “Talvez, no fundo, eu não queira a cura. Um marido feliz e um filho sereno, mesmo sem ter a mãe por perto, são um testemunho maior do que uma mulher que venceu a doença. Um testemunho que poderia salvar muitas pessoas...”.
A esta fé, Chiara chegou pouco a pouco, “seguindo a regra assumida em Assis pelos franciscanos que ela tanto amava: pequenos passos possíveis”. Um modo, explicou o frade, “de enfrentar o medo do passado e do futuro perante os grandes eventos, e que ensina a começar pelas coisas pequenas. Nós não podemos transformar a água em vinho, mas podemos começar a encher os odres. Chiara acreditava nisto e isto a ajudou a viver uma vida santa e, portanto, uma morte santa, passo a passo”.
Todas as pessoas presentes levaram da igreja uma plantinha, por vontade de Chiara, que não queria flores em seu funeral. Ela preferia que cada um recebesse um presente. E no coração, todos levaram um “pedacinho” desse testemunho, orando e pedindo graças a esta jovem mulher que, um dia, quem sabe, será chamada de beata Chiara Corbela.

Coisas do demo

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 20120618
É sempre interessante escrever sobre temas malditos, ocultados pela nossa imprensa, alegadamente aberta e plural. Este é o maldito dos malditos.
Em tempos tão diversos e heterodoxos, é estranho constatar a total ausência de alguém central na cultura ocidental há milénios. A nossa época, que multiplica as personagens e faz regressar velhas lendas e figuras clássicas, nunca fala do diabo.
Ao longo da história não houve dúvidas sobre a existência e influência do pai da mentira (Jo 8, 44), tentador (Mt 4, 3), inimigo de toda a justiça (Act 13, 10), ameaçando-nos com as suas malícias e aquele seu lugar maldito - a Geena de fogo (Mt 4, 22), o inferno (Lc 10, 15) - onde podíamos cair. Hoje esses assuntos são totalmente omissos, meras figuras de retórica ou cenas de pantomina.
A razão não pode vir de vivermos em tempos secularizados, pela simples razão que não vivemos nesses tempos. Não só os crentes permanecem a esmagadora maioria da população, mas o actual pluralismo fez renascer múltiplas formas de culto e espiritualidade. Além disso, a falta de referências a Satanás não se verifica apenas entre os ateus, mas também nos devotos. Homilias, orações, livros e discussões teológicas desenvolvem-se quase sem referências às forças do mal e seu poder, antes tão populares. No meio de enorme diversidade de temas e abordagens de uma época turbulenta, Lúcifer parece ausente até das igrejas. O secularismo actual significa, afinal, crença firme em Deus com recusa de Satanás.
É curioso perceber porquê. A razão liga-se ao axioma mais central e indiscutível da nossa cultura. Somos o tempo da liberdade, humanismo, técnica e poder sobre a natureza. Ora nada destrói mais esses valores que saber-nos sujeitos a influências maléficas, que turvam as nossas escolhas, distorcem a nossa humanidade, pervertem as nossas obras e podem dominar a nossa vida. Se existem tentações demoníacas, lá se vão os sonhos de tolerância, humanismo, liberdade. Caímos no real. O ser humano, que se acha radicalmente autónomo e soberano, ainda tolera com diplomacia um deus longínquo, mas nunca se considerará sujeito ao demónio.
Paradoxalmente é também o tempo actual que mais manifesta a evidência do diabo e onde a presença palpável do inferno se tornou mais visível e patente. Os telejornais trazem às nossas salas mais cenas de horror e maldade que alguma vez a humanidade assistiu, e a cada passo vemos personalidades descritas como encarnação do mal absoluto. Mas é na ficção que essa presença surge esmagadora.
Argumentistas de cinema e televisão espremem os miolos para criar os vilões mais funestos, com especial predilecção pela malícia em estado puro. Só assim se explica a obsessão cinematográfica pelos psicopatas, vampiros, extraterrestres, fanáticos e outros seres irredutivelmente cruéis sem elemento redentor. Numa palavra, demónios. Por outro lado a contínua descrição romanceada de estados desesperados e irrecuperáveis, da droga à escravatura e à demência, só pode ser tomada como nostalgia do inferno. Nenhuma criança das eras bárbaras viu tanta mortandade, violação e desumanidade como as nossas nos media.
Assim o demónio, nunca sob o próprio nome, está hoje mais presente que em tempos antigos. Por todo o lado, menos na nossa consciência, onde persiste a ilusão da independência. Isso dá-lhe mais poder. "Há dois erros, iguais e opostos, em que a nossa raça pode incorrer quando de demónios se trata. Um é descrer da sua existência. O outro é crer nela e sentir por eles um interesse excessivo e doentio. A eles, ambos os erros lhes são agradáveis e acolhem com idêntico prazer o materialista e o mago" (C. S. Lewis, 1942, The Screwtape Letters, prefácio).
A evidência que esta aparente ausência é coisa do demo não custa a compreender, pois ela tem terríveis efeitos morais. De facto, não havendo Belzebu, os horrores indizíveis que vemos só podem ser culpa do próximo, a quem portanto agredimos justificadamente. Se o diabo não existe, "o inferno são os outros" (J. P. Sartre, 1944, Huis-clos).
naohaalmocosgratis@ucp.pt

domingo, 17 de junho de 2012

OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Voz da Verdade , 2012.06.17

OS HIPÓCRITAS QUE VÃO À MISSA
A propósito do despropósito dos católicos não praticantes

Foi há já algum tempo que uma pessoa, algo impertinente, disparou contra mim, à queima-roupa, a razão da sua não prática religiosa:
- Eu não vou à Missa porque está cheia de hipócritas!
Apesar de não ser um argumento propriamente original – na realidade, nem sequer é um argumento – o tópico deu-me que pensar, sobretudo porque é esgrimido, com frequência, pelos fervorosos «católicos não praticantes» que, como é sabido, abundam. São, em geral, fiéis descomprometidos, ou seja, pessoas baptizadas que dispensam a prática religiosa colectiva, com a desculpa de que nem todos os praticantes são cristãos exemplares.
Alguns praticantes são, no sumário entendimento dos que o não são, pessoas duplas, porque aparentam uma fé que, na realidade, não vivem, enquanto outros há, como os ditos não praticantes, que mesmo não cumprindo esses preceitos cultuais, são mais coerentes com a doutrina cristã. A objecção faz algum sentido, na medida em que a vida cristã não se reduz, com efeito, a uns quantos exercícios piedosos.
Mas o cristianismo é doutrina e vida: é fé em acção, esperança viva e caridade operativa. Portanto, a prática comunitária é essencial à vida cristã e a praxe litúrgica, embora não seja suficiente, é-lhe necessária. Assim sendo, mesmo que os praticantes não vivam cabalmente todas as virtudes cristãs, pelo menos não descuram a comunhão eclesial, nem a prática sacramental e a vida de oração. Deste modo, cumprem uma das mais importantes exigências do seu compromisso baptismal, ao contrário dos não praticantes, não obstante a sua auto-proclamada superioridade moral.
Os fiéis que não frequentam a igreja, à conta dos fariseus que por lá há, deveriam também abster-se de frequentar qualquer local público, porque provavelmente está mais pejado de hipócritas do que o espaço eclesial. Estes novos puritanos deveriam também abster-se de ir aos hospitais que, por regra, estão cheios de doentes, e às escolas, onde pululam os ignorantes. É de supor que o único local digno da sua excelsa presença seja tão só o Céu, onde não consta qualquer duplicidade, pecado, fraqueza, doença, ignorância ou erro. Mas também não, ao que parece, nenhum católico não praticante…
Segundo a antropologia cristã, todos os homens, sem excepção, são bons, mas nem todos praticam essa bondade. Um mentiroso não é uma pessoa que não acredita na verdade, mas que não é sincero, ou seja, não pratica a veracidade. Os ladrões são, em princípio, defensores da propriedade privada, mas não a respeitam em relação aos bens alheios. Um corrupto não o é porque descrê da honestidade, mas porque a não pratica. Aliás, as prisões estão repletas de boa gente, cidadãos que crêem nos mais altos e nobres valores éticos, mas que os não praticam.
Mas, não são farisaicos os cristãos que são assíduos nas rezas e nas celebrações litúrgicas, mas depois não dão, na sua vida pessoal, familiar e social, um bom testemunho da sua fé? Talvez. Só Deus sabe! Mas, mesmo que o sejam, convenhamos que são uns óptimos hipócritas. Os hipócritas são bons quando sabem que o são e procuram emendar-se, e são maus quando pensam que o não são, justificam-se a si próprios, julgam e condenam os outros. Os crentes que participam assiduamente na eucaristia dominical, sempre que o fazem recebem inúmeras graças e reconhecem, publicamente, a sua condição de pecadores, de que se penitenciam, com propósito de emenda. Mesmo que não logrem de imediato a total conversão, esse seu bom desejo e a participação sincera na celebração eucarística é já um grande passo no caminho da perfeição.
Foi por isso que, com alguma ironia e um sorriso de verdadeira amizade, não pude deixar de responder àquele simpático «católico não praticante»:
- Não se preocupe por a Missa estar cheia de hipócritas: há sempre lugar para mais um!