terça-feira, 31 de julho de 2012

Para melhor servir e amar!

Santo Inácio de Loyola faz hoje anos. Nasceu no País Basco e no século XVI foi um dos grandes responsáveis pela profunda viragem cultural e eclesial da época. Fundou os jesuítas. Deixou um livrinho, um guia prático, chamado Exercícios Espirituais. Exercícios, ginástica para o espírito, para, como ele diz, "em tudo amar e servir". Em tudo mesmo - pensamentos, obras, relações - em tudo ser gente, oferecendo-se! Em tudo amar e servir!
NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
365 vezes por ano não perguntes porquê, mas para quê
Vasco P. Magalhães, sj

Edições Tenacitas
www.tenacitas.pt
http://www.facebook.com/edicoes.tenacitas


Boas férias!

Trabalhar para descansar

Agência Ecclesia, 2012-07-31
Tempo livre, tempo de descanso, no comum, férias. O tempo dilatado onde os ponteiros do relógio devem parar para que o equilíbrio seja restabelecido. Um novo fôlego que pode levar à contemplação, criatividade, procura de Deus ou simplesmente ao encontro com o outro. Vasco Pinto Magalhães, sacerdote jesuíta, aborda estes e outros temas, antecipando ainda o seu novo livro, ‘Só avança quem descansa’.
Agência Ecclesia (AE) – Falar em férias implica falar em descanso. Descanso em Deus ou descanso para Deus?
Vasco Pinto Magalhães (VPM) As duas coisas. Este é um tema de que gosto muito de falar, porque não é nada um tema lateral. Às vezes pensa-se que se descansa para trabalhar, mas eu penso que devíamos trabalhar para descansar. Aliás, acabo agora de escrever um livro, que ainda não está publicado, que tem o título ‘Só avança quem descansa’.
O tempo de férias pode ser muito ambíguo, porque é uma paragem no trabalho que às vezes visa mais o descanso físico e psicológico do que o descanso espiritual. O que nos descansa é o equilíbrio, a boa consciência e não se pode descansar uma parte sem a outra. Muitas vezes não se descansa nada nas férias porque se está cheio de pressa de fazer coisas e depois é um engano, porque a pressa e o medo ou ansiedade tiram-nos qualquer descanso!
AE – Por isso as férias têm de trazer a calma e a serenidade?
VPM Sim, e portanto não implicam ter de passar por muitos locais extraordinários - que ajudam, porque somos corporais -, mas trata-se mais de uma atitude interior. Estar descansado é estar em paz, em paz consigo mesmo, em paz com os outros: às vezes pode estar-se descansado com muito trabalho.
AE – Nas férias há o convite a cada cristão de descansar em Deus. Há esta consciência da presença de Deus?
VPM O cristão deveria estar sempre consciente da presença de Deus para viver descansado. Descansar é um treino para o descanso eterno, que é o céu, e esse é o nosso objetivo na vida. O nosso objetivo não é trabalhar, mas sim trabalhar para estar cada vez mais descansado, mais equilibrado, mais saudável, mais em Deus.
Acredito que aquilo que mais nos descansa é uma relação saudável com outra pessoa, o sentir-se amado, o poder ser eu perante uma pessoa sem ter de me estar a defender, a mascarar ou a arranjar conversa, e isso é o que acontece com Deus!
AE – Então o próprio “encontro com o outro” deve ser um momento de descanso?
VPM – Estou convencido que é isso o que mais descansa, assim como a boa consciência, o ter um sentido para a vida. São essas coisas que equilibram e integram, senão há uma grande agitação interior que se torna desgaste. O trabalho, por exemplo, desgasta porque trabalhamos mal, à pressa, em intensidade, horas em quantidade e não em qualidade, sob pressão! O trabalho de que eu gosto e pelo qual sou reconhecido, esse não me cansa!
AE – Deus também descansou ao 7.º dia. No evangelho de Marcos, Jesus convoca: “Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. Este é o verdadeiro convite para as férias?
VPM Exatamente e é uma coisa tão bonita! Claro que arranjar um espaço bonito para as férias é equilibrante, mas agora imagine-se que estou cheio de problemas por dentro: por mais bonito que seja o lugar, um passeio à beira mar ou uma serra bonita, se eu estiver cheio de pressa não descanso!
Se eu não estiver inteiro, que é uma das boas maneiras de descansar, então é porque estou dividido. O evangelho também fala nisso: “Marta! Marta! Estás dividida!”. Há coisas que criam ambiente e, como somos corporais, temos de criar o ambiente certo, uma coisa bonita, um bom livro que me faz encontrar comigo próprio, com a minha história, que me liga a cabeça e o coração. Tudo aquilo que integra a pessoa e relaciona bem faz descansar.
AE – Qual a melhor atitude para partir para férias?
VPM – Primeiro que tudo, saber o que eu quero fazer, marcar prioridades e sobretudo não entrar em competição nem em consumismos, mas realmente aproveitar bem todos os bocadinhos para se encontrar consigo mesmo. E ao encontrar-me comigo mesmo encontro-me com Deus, no sentido de me encontrar com o amor, porque Deus é amor!
AE – Há vários sítios para onde podemos ir nas férias: na praia, no campo, nas peregrinações ou em viagem…
VPM Sim, todos servem para encontrar Deus, basta estar inteiro, ter ultrapassado a mentalidade do negócio, da pressa. Porque se estou na ânsia das fotografias, de riscar este museu e o outro e correr para ver mais este ou aquele monumento, então não descanso. Tem de se acabar com esse sufoco, apreender aquilo a que os antigos chamavam ócio, que não é estar sem fazer nada, mas sim estar contemplativo.
Aqui chega-se à importância do tempo livre, se for tempo de liberdade. Nos anos 60 chegávamos ao lazer e tempo livre mas, depois, estes foram esgotados pelo consumismo e pela competição. Uma pessoa pensa que é mais feliz se tiver muito dinheiro, se fizer muitas viagens e muita coisa, o que a leva a desintegrar-se e espalhar-se por várias coisas.
AE – As férias são, por isso, uma quebra na rotina e nos tempos ritmados de pressa e horários.
VPM Sim, põe-me equilibrado, num equilíbrio dinâmico. Para um cristão, que descansa em Deus, equilíbrio não é ataraxia dos gregos ou nirvana hindu, isso seria realmente parar tudo e nem pensar em nada – o que às vezes ajuda, até um bocadinho de yoga podia ajudar.
Há pessoas para quem o descanso é uma correria: andar quilómetros ou ver os filmes todos que perderam. Então, tudo é transformado em ansiedade.
Eu dizia que o equilíbrio é dinâmico, não é uma paragem no sentido de “não me vou mexer”, ou “vou dormir”. Pode ser um engano, por exemplo, um retiro espiritual que pode ser um grande descanso ou uma grande ansiedade, se houver grandes decisões a tomar, não me situei no amor ou no sentido da vida.
AE – É nas férias que encontramos momentos de fraternidade, a família, os amigos de sempre e os que estão mais longe. Esta é outra forma de descanso?
VPM – Sim, porque no tempo de trabalho, infelizmente, as pessoas não têm tempo para ser gente, não têm tempo para a relação, não há tempo para as coisas mais básicas, comem à pressa, dormem à pressa, falam à pressa, não ouvem…
Depois há desgaste, claro, mas também é verdade que cada um tem tempo para aquilo que quer, só que às vezes temos as prioridades mal arrumadas; se eu quero mesmo uma coisa então tenho tempo para ela!
AE – Que prioridades mal arrumadas são essas? O que é que não nos deixa partir para férias?
VPM A ansiedade interior e a pressa, mas as principais causas são as atitudes interiores. Claro que um mal de saúde ou uma doença grave na família nos causa preocupação, mas não significa que nos tire a atitude de estar equilibrado, descansado. Santo Agostinho dizia que “a paz é a tranquilidade na ordem” e o descanso é a mesma coisa.
AE – O tempo de descanso é também uma paragem para ver e contemplar a beleza e a beleza na fé?
VPM Sim, esse é um tema importante. A beleza descansa muito, desde a beleza natural, a beleza das ações à beleza do pensamento criativo…
A beleza também é ordem, é o esplendor do ser, o esplendor da conjugação de todos os aspetos que me fazem levar ao êxtase, à contemplação. Hoje somos pouco contemplativos, vemos muitas coisas mas não entramos nelas. Uma coisa é olhar para o mar ou olhar do alto de uma montanha, outra coisa é “entrar” na paisagem, para que possa fazer parte de mim. Senão somos todos um pouco “voyeurs”: cheguei, vi e parti mas nada fica, não há tempo para entrar na realidade.
AE – Faz falta termos tempo para contemplar, ver e sentir?
VPM Exatamente. O livrinho de que falei, que estou a escrever, começou como um ensaio com o título “gestão do tempo”. Realmente não somos educados para gerir o tempo. O tempo livre é uma coisa que fica para as sobras ou para os intervalos; ora acho que tem de ser o contrário. O dia forte tem de ser o domingo, descansar para depois trabalhar.
AE – Essa falta de tempo leva à falta de fé?
VPM – Leva ou então leva a uma fé angustiada que cansa muito, também. Como é que se tem tempo para Deus? Uma vez ouvi dizer que “rezar é perder tempo com Deus” e é tão bonito isto, perder tempo, que não o é, é ganhar tempo. As pessoas não valorizam tudo aquilo que não está a ser economizado ou não tem sucesso económico. Não valorizam o gratuito, o tempo em si, o próprio viver.
AE – As férias podem ser a oportunidade para essa busca?
VPM Eu penso que devia ser isso mesmo, encontrar esse espaço onde eu me torno mais eu e eu; onde sou eu nas relações, na comunhão, mas também com tempos para estar só. É também importante a conversa interior, tranquilamente comigo próprio, para me autoconhecer e me pacificar. Ao equilibrar a respiração, equilibro o pensamento e ele começa a lidar bem com o coração.
AE – Há vários tipos de férias, aqui falávamos de férias associadas ao verão, que trazem uma luz e um calor diferentes, que nos transformam.
VPM Para nós latinos, sobretudo… Nos países nórdicos, por exemplo, fazem férias de inverno para poder ir para a neve, que é outro tipo de férias, de experiências, de passar o tempo, de descansar. Mas o segredo está na atitude.
Claro que a mim me ajuda imenso o calor, gosto muito de praia, de montanha, mas também de uma varanda, um prato de percebes e o mar à vista… (risos)
AE – São coisas como essas, simples, que temos de trazer para as férias?
VPM Sim, a boa companhia de um livro ou de um pensamento que me envolve, de uma paisagem que me alarga o coração, que me faz não sentir sem sentido. Há pessoas que não conseguem descansar porque a sua própria vida não tem sentido, é uma correria. Criámos uma sociedade de stress, muito deprimida, e por isso vive em descansos, curas de sono, pastilhas e tudo mais… Tudo porque nos satisfazemos pela quantidade e não pela qualidade.
AE – O tempo livre podia ser a solução para deixar muitas caixas de comprimidos?
VPM Exato, por isso é que eu acho que nós precisamos de feriados, de férias… Quanto mais feriados, melhor trabalhamos, ao contrário do que se pensa. Julgar que por estar mais horas no trabalho se trabalha melhor é um erro. Há muita coisa acumulada e por isso é que há pessoas que quando entram de férias, na primeira semana, têm de parar a “onda” que as persegue.
É bom trabalhar para ir de férias, sem ver o trabalho só como o que é produtivo ou negócio. Rezar também é uma forma de trabalho, relacionar-se com os outros é outra forma. O desgaste físico é muito relativo.
Por exemplo, uma coisa que me descansa muito é mexer no barro, mas gera-me também tensão. Estou sempre à espera de ter tempo para moldar, fazer alguma coisa de novo e sinto a tensão criativa do que vai sair ou da concretização de uma imagem. Mas depois dá-me a sensação de descanso, que me equilibra, por algo que criei.
 AE – Moldar o barro é um exemplo do que faz nas férias. Que outras coisas deixa para fazer em tempo de descanso?
VPM Guardo livros que não tive tempo para ler, conversas e alguns tempos de comunicação com a natureza que, no dia a dia, se tornam impossíveis. Predisponho-me também a viajar, principalmente quando são destinos que me preenchem vazios, tempos de conhecimento e maior ligação ao mundo. Estes espaços e momentos que me humanizam são o mais necessário nas férias.
São férias com afetos, os afetos não fazem férias… E também é preciso equilibrá-los porque andam deprimidos ou exaltados e é preciso vê-los como um todo a caminho de uma plenitude. Esta plenitude vem com a comunhão, maior comunhão comigo próprio e melhor com os outros.

Que se lixem os ciclos

Público 2012-07-31 Pedro Lomba


Uma das críticas que têm sido feitas ao governo é a de estar, antes de tempo, já a preparar as próximas eleições. Este é o governo que, mal tomou posse, começou logo a ser contestado por eleitoralismo. Carrega agora na austeridade, para em 2015 suavizar a receita. Vai no imediato para além do programa da troika, para mais tarde ganhar folga e poder recuar. É uma crítica que quase sempre vem de pessoas que, quando estiveram no poder, não foram, como se sabe, nada eleitoralistas. Nunca trocaram generosidade por votos. Mas não é a incoerência destes críticos que aqui interessa. É o irrealismo de acharem que, desde que a troika chegou a Portugal, faz sentido manter o debate político nestes termos. Podemos entender o período que vai de 1991 a 2011 como um grande e único ciclo político. PSD e PS governaram esses 20 anos, com predomínio dos socialistas. Mas não governaram de modo diferente. O PSD convenceu primeiro os eleitores de que era melhor a erguer o grande Estado no qual depositámos todas as nossas esperanças. O PS convenceu-os a seguir de que era melhor a conservá-lo, aproveitando as brechas para o fazer crescer ainda mais. Durante estas duas décadas os métodos dos governos não foram diferentes: espalharam nomenclaturas partidárias, inflacionaram expectativas, aquartelaram os interesses. Foi um jogo voluntarista em que ninguém perdeu. Os banqueiros e a fauna das obras públicas tiveram o que queriam. Mas também os funcionários públicos ou os beneficiários do rendimento mínimo. O regime parecia não ter descontentes.

A entrada no euro e a imensa disponibilidade e alternativa do endividamento serviram para sustentar este modo de vida artificial. Isto teve consequências. Desde o fim dos anos 90 que, salvo anos excepcionais, fomos de défice em défice e sofremos sistemáticos aumentos de impostos para os pagar. Pagámos a continuada subida da despesa pública com medíocre desempenho económico. Camuflámos os números do desemprego com situações de semiocupação. Vivemos todo este tempo a pensar na política como gestão porque nunca fomos obrigados a verdadeiras escolhas. O resultado não foi uma democracia de cidadãos conscientes e esclarecidos sobre o país onde viviam, mas um regime de súbditos e clientes que, além de não se aperceberem de que os seus votos eram uma moeda de troca para os governos, também nunca tiveram de pensar em alternativas ao seu modo de vida. A entrada em cena da troika representou o fim do ciclo 1991-2011 e o início de outro. Queiramos ou não, este é o governo que tem menos espaço de manobra para gerir criativamente o ciclo político, com o recurso à habitual distribuição de pechinchas e favores. Agora, o regime passou a produzir real insatisfação e não há mais para gerir a não ser expectativas frustradas. Agora, os nossos políticos têm de largar a gestão dos ciclos e a arbitragem de grupos, para passarem a fazer política a partir do confronto entre diferentes visões do mundo.

Ao contrário do que dizem, não vivemos um PREC de direita porque o poder não está nas ruas. Vivemos sim um tempo de repolitização de uma sociedade que, por diversas razões, a tinha perdido, ou dela se tinha ilusoriamente privado. Fazer política é fazer as escolhas a que o "administrativismo" anterior nos poupou. Precisamente por isso, este é também o tempo em que os partidos de esquerda perderam o monopólio da política e têm de ir a jogo num mundo que mais do que nunca os desafia.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Uma nação de badochas (que exige medalhas olímpicas)

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
8:00 Segunda feira, 30 de julho de 2012
Lendo uma revista de um hospital da zona de Lisboa, um sujeito fica a saber coisas que parecem saídas de um filme pós-apocalíptico, estilo Mad Max foi à Cozinha: menos de 1% das crianças portuguesas bebe água na quantidade adequada, e mais de 90% consome refrigerantes e fast-food pelo menos quatro vezes por semana. Para quê beber água, quando podemos ir ao MacDonald's beber uma soda bem fresquinha e com bolhinhas? Só 2% das crianças portuguesas come fruta todos os dias. As maçãs e as laranjas, como se sabe, são muito caras e, ainda por cima, deixam um cheiro esquisito nas mãos. É mais barato e higiénico comprar aqueles pedaços de pão com chocolate no meio, entre outros portentos de nutrição. Quase 60% das crianças vai de carro para a escola. Andar dois quarteirões é, para além de qualquer dúvida, uma atividade perigosa. Nunca se sabe quando é que uma criança de 14 anos pode torcer um pé, não é verdade? As mães, por seu lado, dizem que não têm tempo para fazer sopa. Pois claro, é melhor usar o tempo nas viagens entre casa e o MacDonald's. Além disso, enquanto a criança de 11 anos prepara uma papa de bebé para o jantar, a mãe pode relaxar no Facebook. Para quê descascar cenouras, que, como se sabe, são caríssimas, quando se pode estar a likar o penteado novo da amiga? 

Notícias de um país que também há

Público 2012-07-30
Maria João Avillez

1. Conheço-os, entrevistei-os, testemunhei in loco o seu trabalho fora de portas. Cabia-me moderar o debate que teriam sobre a diplomacia nos países onde se fala português, Brasil, Índia, as várias Africas. O hoje e o ontem de tudo isso.

Era em Coimbra e celebrava-se mais uma sessão do 4º Festival das Artes, promovido pela Fundação Inês de Castro e um belo dia idealizado na Quinta das Lágrimas.

Ouvi mais do que moderei. Não se modera a excelência. Havia antes que desatar o fio que unia a competência, a experiência, o talento de António Monteiro, Francisco Seixas da Costa e Marcello Mathias. E soltar essa lucidez sem ilusões com a pátria ao fundo que de modo tão diverso eles encarnam e representam. E então lembrei-me que estivera frente a um país que também existe - quem diria? - e é bem servido. Aqueles três cavalheiros, concordando ou discordando, foi dele que falaram. Pouco ouvido, escondido pela descrença que em rigoroso exclusivo formata o nosso quotidiano, pouco visto, coberto pelo tremendismo que ocupa a montra da media, lembrei-me desse Portugal que também há, naquela noite quente de Coimbra.

2. Lembrei-me das lágrimas de emoção de Placido Domingo após o último acorde do concerto a seis órgãos de Mafra e do modo como logo a seguir evocou um país que erguera aquele convento, o ornamentara de seis órgãos, produzira aqueles seis organistas e inspirara Leal Moreira, nos idos de Setecentos, a compor a música que ali se ouviu.

Mas os congressistas da Europa Nostra - federação de associações culturais que trabalha em estreita relação com a UE presidida justamente por Placido Domingo - reunidos em Junho em Lisboa tinham o mesmo olhar surpreso: há 40 anos que faziam congressos, mas nenhum com a luz, a pedra, o Tejo, o claustro dos Jerónimos, o desenho do Palácio Fronteira, o verde de Sintra, o azul zangado do Atlântico, o branco harmónico de Évora, as janelas de Guimarães.

Representante português da Europa Nostra, o Centro Nacional de Cultura e o seu presidente, Guilherme d"Oliveira Martins, foram os (aplaudidos) anfitriões: nem um nem outro precisaram, porém, de ficcionar um país ou sequer de o enfeitar para os seus ilustres hóspedes, bastou-lhes mostrar o que existe.

3. Lembrei-me de uma noite destas, quando se começou a ouvir Beethoven na rua. Frente à fachada iluminada do S. Carlos, os músicos fundiram-se com a noite de onde os deuses tinham subitamente arredado um vento gelado. Espalhados pela plateia, nos prédios, nas escadas do largo, no muro, nas esplanadas em volta, crianças, jovens, velhos, casais com filhos, cadeirinhas de bebés, adolescentes louras, estrangeiros de ténis uniam-se num mesmo olhar de mudo reconhecimento. A ideia do Festival ao Largo é portuguesa, o cenário era Lisboa, os artistas, nacionais. Falo de nós, portanto. E desta noite em particular. Mas à mesmíssima hora, em mil outros pontos do país, ouvia-se música, num desdobrar quase vertiginoso de escolhas, ritmos e lugares. Não acredito que todos tivessem apoios ou subsídios.

4. Lembrei-me da minha alegria ao ler os quatro parágrafos do New York Times sobre o filme de Gonçalo Tocha, rodado na ilha do Corvo, É na Terra não É na Lua. Cada vez mais premiado e distinguido por esse vasto mundo fora, esta quase demencial sinfonia foi assinada por dois jovens (o outro chama-se Dídio Pestana) não particularmente "subsidiados", nem particularmente "protegidos". Apoiados neles próprios foram, filmaram, voltaram. Tiveram razão, o (pungente) Portugal deles é uma obra-prima.

5. Lembrei-me de José António Falcão, outro português que vale a pena. Após ter redimido do abandono de décadas o património artístico da diocese de Beja - anos e anos de persistente, paciente e muito sábio trabalho -, o historiador inventou há tempos um festival inadjectivável. Tenho-o visto crescer em idade e "diferença". Nas Terras sem Sombra do seu Alentejo, voltou a ouvir-se este ano música rara, eleita por Paolo Pinamonti (o sempre desejado). A programação foi muito imaginativa, a escolha dos espaços - património edificado ou património ambiental - relevou de critério igualmente raro: natureza e música num mesmo abraço. E ao serão, após os concertos, abriam-se casas de mesa posta e trocavam-se estados de alma molhados pelos nossos excelentes vinhos. Singular, magnífico e português.

6. Lembrei-me de Lisboa este Verão. Nunca a vi assim. António Costa tem posto gente a cantar nos bairros populares e músicos nos jardins públicos, mas o espanto vai muito além de sete notas de música. Há esplanadas e terraços superlotados, comércio aberto à noite, lojas alternativas, livrarias que são jóias, bairros com assinatura própria, ideias engenhosas, áreas recuperadas, hostels renovadamente premiados, surpresas, mercados sui generis, criatividades inesperadas (veja-se o que sucede com as nossas conservas...). Vida. Não é exclusivo da capital, nem sequer fruto da onda turística. É uma volta que operou uma mudança, porque houve gente que acreditou e teve a vitalidade e a vontade dessa fé. Estive há dias no Porto com o mesmo espanto. Não falo da "noite", respondo pelo dia. Zonas reabilitadas, percursos novos, arte e artes, o Douro debruado de vida.

Mas o que me interessa nesta agitação - produtiva - que extravasa o calendário do Verão é que alguém teve de suar por ela, as boas ideias não são de borla. Nada do que vi nasceu por acaso, não foi uma sorte, nem uma oferta. Alguém - muitos "alguém" certamente - preferiu o risco e não temeu o esforço. Pensando que Lisboa, o Porto e por aí fora valiam essa pena. Pensando que o país talvez também valha, Portugal tão pouco contado.

A natureza do homem é relação com o infinito

Aproximam-se as férias do Povo que, encontra já muitos dos seus amigos em férias.
Vem a propósito, por isso, este oportuno artigo de José Luís Nunes Martins que nos chama a atenção para o apocalipse do sentido, uma cultura niilista que nos invade até à raiz da educação dos nossos filhos e netos. Por isso, a nossa consistência humana vê-se no modo como ocupamos o tempo livre, as férias, o tempo a que realmente podemos chamar nosso.

Dar sentido ao tempo pode ser ajudado por usar uma parte do nosso tempo livre numa Peregrinação. Convido-vos, por isso, a virem connosco na Peregrinação do CL a Fátima em Outubro, cuja ficha de inscrição anexo a esta mensagem.
Pode também ser descarregada aqui

Maré baixa

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN2012-07-30
Na grave recessão produtiva, como é normal, ouvem-se muitas tolices e contradições. A real situação económica nacional é muito mais simples e até favorável do que se dá a entender.
A situação financeira, que domina as atenções, evolui bem, como tinha acontecido nos anteriores programas do FMI. Hoje, como em 1978 e 1983, a cura está a ser rápida, com a balança de pagamentos a equilibrar em pouco tempo. E, tal como antigamente, o esforço vem quase todo da economia privada. Aliás, nos dois casos anteriores o défice público até piorou. Se desta vez der uma ajudinha, não será nada mau. Entretanto, como há 30 anos, os intelectuais e comentadores fazem tudo para sabotar o ajustamento. A coisa tem mais graça por os papéis estarem invertidos: há 30 anos a esquerda aplicava a austeridade e a direita protestava.
O episódio financeiro, embora importante, é secundário pois é no lado produtivo que se joga o futuro. Aí as coisas estão a acontecer ainda mais depressa. Prova disso é que, comparando com o segundo trimestre de 2008, início da crise mundial, o emprego português caiu 10% e o investimento 32%. Isto mostra como a primeira fase está a decorrer depressa.
É verdade que para a maioria dos comentadores são estes os sinais invocados para dizer que "a receita não funciona". Isso explica-se porque eles não falam de economia, mas daquela ficção sóciopecuniária que alimenta a vida político-mediática. Segundo tais falácias, a receita seria adequada se o doente saísse milagrosamente da cama, como um super-herói, sem tratamento nem dor. Após 20 anos de disparates monstruosos, que essa ficção gerou e todos os economistas denunciaram, isso é impossível. Aliás, se as previsões da troika se verificarem, a coisa até nos sairá barata. Para entender isto é preciso compreender os verdadeiros contornos da situação.
A base do problema económico é a mesmo do financeiro: o crédito barato que, além da enorme dívida, também distorceu o sector produtivo. A enxurrada de dinheiro externo funcionou como uma maré alta que abriu temporariamente novas áreas aos animais marinhos. Múltiplas empresas e empregos, em todos os sectores, nasceram e prosperaram artificialmente graças à aparente prosperidade. Mexilhões, percebes, lapas, ameijoas, e até sardinhas aproveitaram este alargamento da margem de manobra. A zona mais beneficiada foi à volta do Estado e seus negócios protegidos, mas afectou toda a actividade nacional. A maré quando sobe é para todos. Foram tempos de facilidades.
Os números nunca mentiram acerca da fragilidade da situação, e o crescimento económico foi anémico desde 2000. Nessas zonas ribeirinhas, por vezes turvas, não é possível alimentar grandes peixes. Só marisco miúdo. Por outro lado, não se deve exagerar o efeito da tolice, pois a maré alta pouco afecta o resto do mar. Nas águas profundas e seguras a rica fauna económica permaneceu e permanece.
Um dia, como era fatal, a maré tinha de descer. Aliás, inicialmente até cai abaixo do normal para compensar os excessos anteriores. É isso que agora afecta toda a economia, temporariamente apertada em águas demasiado recuadas. Mas nas zonas marginais, que a ilusão mantivera férteis, tudo secou. Aí não há escolha: é urgente desmantelar empresas e empregos, só rentáveis graças ao dinheiro fácil, para os transportar para regiões mais profundas e produtivas.
Isso não é nada fácil, e ainda demorará bastante tempo, pois são erros de 20 anos. Muito boa gente passou grande parte da carreira nessas zonas sempre insustentáveis, agora desertas. Elas voltarão a ser colonizadas, mas só daqui a anos, quando o crescimento económico permitir reocupar as áreas mais elevadas com solidez.
Nesta reestruturação económica a política pouco pode fazer. Ao menos não estrague. O Estado, que promoveu o problema com os seus diques e canos, teria um papel importante desmantelando-os. Mas a conversa das reformas estruturais e liberalização, hoje, como há 30 anos, tem poucos resultados. Felizmente, a economia continua a ajustar rapidamente.
naohaalmocosgratis@ucp.pt

domingo, 29 de julho de 2012

Frase do dia

O pior momento para um ateu acontece quando se dá conta de que está verdadeiramente grato e não tem ninguém a quem agradecer
G.K. Chesterton

sábado, 28 de julho de 2012

O apocalipse do sentido

Por José Luís Nunes Martins, publicado em 28 Jul 2012 - 03:00 | Actualizado há 2 dias 8 horas
A falência do indivíduo, enquanto unidade original e de valor absoluto, é uma condição do sistema
·Existe hoje um problema que atinge as fundações da sociedade em que vivemos que cresce de forma quase irrevogável, como uma espécie de tumor, e que muito em breve destruirá um dos mais importantes pilares da nossa essência colectiva: falta de fertilidade.
No mundo de hoje há cada vez menos tempo, espaço e, principalmente, vontade de criar o novo. De construir sentidos para a vida. Consomem-se de forma capitalista os poucos sentidos pré--fabricados à disposição. As pessoas são muito parecidas... cinzentas – cada vez mais do mesmo tom de cinza –, cor do que já se consumiu, do que se desfez, daquilo que já não está aqui. A morte não é negra: é cinza.
A degeneração da capacidade criativa do homem de hoje, quando se trata de construir novos e bons caminhos para a sua vida, afecta a base do que (não) somos hoje enquanto grupo.
Esta decadência terá começado nos anos 60 do século passado, quando toda uma geração começou a imaginar um mundo em que ninguém faz nada e onde tudo é agradável. Este sonho gerou e alimentou a ideia de que a felicidade nascerá da inércia preguiçosa e infantil de quem quer um mundo melhor, mas que tudo o que está disposto a fazer por isso é reclamar... birras à espera do bem bom. Queriam um mundo melhor, mas não o criaram. Ergueram cartazes e sentaram-se à espera; no tempo que passou, evadiram-se daqui das mais variadas formas... alienaram-se, tornaram-se estranhos a este mundo. Diziam que eram sonhadores...
Esta absurdidade alastrou a um ritmo assustador e fará com que, dentro de poucos anos, não haja quem dê valor a uma obra de arte. A bondade do único, a singularidade, será vista como uma anormalidade e, enquanto tal, um crime hediondo contra a massa. Um atentado contra a tirânica reprodução do igual.
O mundo é hoje como um mar de preguiçosos conformados e orgulhosos das suas frustrações. Definhando ao estonteante ritmo do zapping entre canais de várias formas de anúncios que prometem felicidades instantâneas. Sempre fugas.
A falência do indivíduo, enquanto unidade original e de valor absoluto, é uma condição do sistema. Os mercados só sabem gerir massas. Um homem livre é, neste enquadramento, um terrorista. São cada vez menos aqueles que, contra a esmagadora maioria, se distinguem através da sua capacidade de dar sentido e significado à vida. Estes criadores não reprodutores desafiam a multidão com as suas obras subversivas, fogem a normas e a modas, parecem voar, porque flutuam bem acima do lodo onde os outros, como mortos, vivem.
No apocalipse do sentido da vida que se pressente há, felizmente, este pequeno número de homens que não se rendem, poetas da existência: são aqueles que dão luz e cores ao mundo, que fertilizam a humanidade através dos seus trabalhos. Vão estendendo a mão a quem respira podridão, sem muitos sucessos, quase nenhuns... Mas a obra-prima destes artistas é inspirarem outros a serem absolutamente originais. Longe do êxodo das gentes para o nada. Afinal, a mais sublime das obras de arte é a criação de um artista.
Estes fundadores navegam, sem raízes, em pequenos barcos sem âncora, flutuando neste mar cinzento, entregando-se à missão de garantir que haverá vida humana depois da morte desta humanidade. Contam apenas com a sua arte e com a generosidade do senhor dos ventos. Rumo a um futuro puro, onde cada homem sabe que deve criar o sentido da sua própria vida. A fim de que cada um de nós seja, nessa altura, uma obra de arte original. Uma criatura criadora. Uma bondade generosa. Uma fonte de vida. Uma criação.
Deus ajude e inspire quem Lhe segue o exemplo.
Investigador

Mandarim ou caça?

Inês Teotónio Pereira , i-online  28 Jul 2012 - 03:00
Percebi o óbvio: os nossos filhos devem ser a geração mais ignorante de toda a história da humanidade
Desde que a crise assentou arraiais e o princípio do fim foi anunciado que a educação dos meus filhos tomou uma proporção desmesurada na minha vida. O que até então tinha sido um processo mais ou menos descontraído e imperativo – “tira os pés da mesa”, “come de boca fechada”, “vai lavar os dentes”, “vai estudar”, etc. – passou a ser uma prioridade muito mais intensa, densa, dramática mesmo. Educá-los passou a ser uma questão de sobrevivência – a sobrevivência deles. De repente – e foi de um dia para o outro, depois de assistir a uma daquelas entrevistas trágicas do prof. Medina Carreira –, senti-me num daqueles episódios do National Geographic dedicados à educação das crias, que são ensinadas de forma implacável a caçar ou a fugir dos predadores para conseguirem sobreviver à selva. Assumi- -me, então, como uma dessas mães que não dão quaisquer abébias aos filhos, de forma a prepará-los para a vida. Sem piedade. A questão é vencer ou morrer. E com drama. Muito drama.
Então, de forma pragmática, elenquei mentalmente algumas das competências essenciais que os tornem mais, vá, capazes de sobreviver ao abismo do desconhecido (dramático). Comecei pela escola – o mais fácil: disse-lhe e repeti-lhes várias vezes (todos os dias) que, se eles não estudarem, vão morrer à fome, assim como os filhos deles – umas pobres crianças que não têm culpa nenhuma de terem uns pais calões que dedicaram mais tempo à playstation do que à matemática. Ponto. Todos têm estudado com afinco.
O pior foram as outras competências: arrumar a roupa, lavar o chão, fazer as camas, descascar fruta, fazer arroz, atarraxar lâmpadas, aspirar, lavar loiça e estender roupa. Coisas básicas que eles não fazem ideia de como têm aparecido feitas. É certo que os meus filhos ainda são crianças e que até devem estar proibidos por lei de acenderem um fósforo, mas estamos ou não estamos a viver uma época dramática? Estamos. Por isso, por eles, empenhei-me a ensinar-lhes estas tarefas. Um desastre.
Percebi o óbvio: os nossos filhos devem ser a geração mais ignorante de toda a história da humanidade. Eles cresceram numa época em que tudo tem de ser funcional. Tudo tem um único objectivo: que possamos todos passar mais tempo a fazer nada. Quanto menos se souber, melhor – quer dizer que se tem tudo feito. Por isso, não há nada para aprender. E nós, pais, não temos nada para ensinar.
Já nem as camas se fazem, puxamos o edredão para cima e está feito; o arroz cozinha sozinho; se a televisão se estraga, ligamos para um número qualquer e aquilo arranja-se pelo telefone; os candeeiros já compram com as lâmpadas e quando se estragam compra-se um novo que é ao mesmo tempo das lâmpadas; a comida compra-se meia feita; até existe uma fita-cola para fazer as bainhas. Nada se arranja, tudo se compra. Nada se planta, cultiva ou cria – o princípio da cadeia alimentar, ou de produção, são as prateleiras do supermercado.
Ou seja, no dia em que não haja dinheiro para ir ao McDonald’s, ou para comprar caldos Knorr, ou para pôr gasolina no carro, ou para comprar ovos no supermercado, voltamos todos à Idade da Pedra a atirar pedras aos animais. Não há meio-termo.
Concluí, por isso, que os meus filhos estão tramados. Não têm o que aprender (além do currículo nacional…) e tudo o que sabem é capaz de não lhes servir para nada. Estou na dúvida se para o ano os inscrevo no mandarim ou num curso de caça aos bisontes… Existe?

José António Saraiva recorda o seu tio José

SOL 28 de Julho, 2012
José António Saraiva

José António Saraiva, director do SOL, recorda José Hermano Saraiva, o seu «Tio José».

Para mim era o ‘Tio José’. Na família Saraiva são quase todos Josés ou Antónios. O meu Tio José teve cinco filhos, e os mais velhos chamam-se José, o primeiro, e António, o segundo. O meu pai era António José, eu sou José António, o meu irmão mais velho é António Manuel.
O meu Tio José era o meu tio rico. Tinha um enorme Buick preto onde nos levava às festas em casa dos meus avós. O meu pai foi demitido do ensino por razões políticas e depois emigrou, enquanto o Tio José ocupou lugares importantes, tendo sido deputado, ministro e embaixador.
Além disso foi advogado, professor do liceu, reitor, professor universitário, director de instituições públicas – e, depois do 25 de Abril, figura popularíssima da televisão. Por um período curto também foi director de um jornal (o Diário Popular).
O acaso do destino levou a que a sua última grande entrevista à imprensa escrita tenha sido feita por mim. Foi por ocasião dos seus 90 anos. Já tinha muitas dificuldades físicas, não conseguia erguer-se sozinho, mas conservava intacta a lucidez e o vigor mental. Falava com grande convicção, acentuando as sílabas. Estava muito pessimista sobre o estado do país. Mas o que verdadeiramente o entusiasmava era falar do passado. Do seu, mas sobretudo do passado de Portugal.
No meio de tantas tarefas tão diferentes, sempre me interroguei sobre qual seria a sua verdadeira vocação. Advogado? Político? Professor? Historiador? Divulgador?
Nessa última entrevista, fiz-lhe notar que ele tivera duas vidas perfeitamente distintas: uma até 1974, quando acabou a carreira política (era na altura embaixador de Portugal no Brasil), outra a partir de 75, quando iniciou uma fulgurante carreira televisiva. E a essas duas vidas corresponderam duas moradas: a primeira no Bairro do Restelo, numa pequena vivenda de dois pisos, a segunda numa quinta com uma casa desenhada por ele, onde ia incorporando antiguidades (pórticos, colunatas, painéis de azulejo) compradas aqui e ali. Perguntei-lhe de qual dessas vidas tinha gostado mais. Respondeu-me que nunca pensara nisso dessa forma – e depois de reflectir um pouco disse-me que preferia a segunda.
A resposta não me surpreendeu. Ele foi advogado, com escritório na Rua do Ouro, mas nunca pensei que fosse sê-lo até ao fim da vida. Ele foi político, mas nunca foi um político. Ele foi historiador, mas investigar não chegava para o preencher. Ele foi professor, mas gostava de ter uma plateia mais vasta do que a da sala de aula. Por isso, o que verdadeiramente o entusiasmava era fazer televisão. Dizia muitas vezes nos seus programas: «Os meus caros telespectadores…» – e era verdade. Ele precisava de ter espectadores.
Bem no fundo, julgo que ele era um actor que desempenhava brilhantemente o papel da sua própria personagem e de outras pelas quais se apaixonou. Umas vezes era José Hermano Saraiva, outras encarnava grandes figuras históricas como D. João I, D. Nuno Álvares Pereira ou Luís de Camões. E, na sua pele ou na de outros, usava a enorme bagagem intelectual que foi acumulando ao longo da vida. Por isso, por essa qualidade de actor, atraía tanto as audiências: ele sabia comunicar directa e arrebatadamente com o seu público.
Mas se na vida pública era um actor, em privado era um eremita. Um solitário às voltas com os seus livros, as suas investigações, as suas hipóteses. E a enorme soma de conhecimentos que acumulava solitariamente punha depois a render nas suas aparições públicas.
Um eremita em casa, um actor em público. Estas duas vertentes quase opostas conviviam nele em perfeita comunhão. Mais: precisavam uma da outra. Era assim que eu o via, era assim que ele era.
Em 1969, quando ocupava a pasta da Educação, com 50 anos, dizia-me: «Sabes Zé, vou entrar num plano inclinado. A partir de agora é sempre a cair. Sou ministro, a primeiro-ministro não chego, portanto a minha trajectória será sempre descendente». Viu-se. Teve direito a uma segunda vida quase tão longa como a primeira e que suplantou a outra em prazer para ele e utilidade para a maioria dos portugueses.
Enfrentou várias vezes a morte. Teve dois enfartes graves ainda em jovem, um edema pulmonar duplo há meia dúzia de anos, outros achaques. Numa ocasião confidenciou-me: «Olha, Zé, explodi! O meu sangue esguichou a dois metros de altura». Foi quando lhe puseram um pacemaker. Mas tinha sempre alguma coisa para fazer que o prendia à vida. «A primeira coisa que pensei quando acordei do coma foi que não podia morrer, pois não terminara a gravação da História de Portugal em DVD», revelava-me após mais uma passagem pelo hospital.
Agora a morte apanhou-o. Não foi ela que o venceu mas ele que desistiu. Tinha deixado há meses de gravar para a RTP os programas que o agarravam à vida. E sem esse estímulo cansou-se rapidamente de viver.
Há pessoas que não deviam morrer. O meu Tio José era uma delas: ao ser sepultado, foi como se sepultassem um tesouro. Ali ficou para sempre, sem poder ser usado, um imenso manancial de sabedoria. Cabe-nos a nós, que prosseguimos a caminhada, empunharmos com dignidade o facho dos que vão ficando pelo caminho.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Manoel de Oliveira ligado à vida

Rui Osório
Sol 2012-07-27
“Em três ou quatro longas conversas deixou-me uma marca funda. Quase tão funda como alguns dos filmes que me ajudaram a desenhar o mundo dentro da cabeça – a importância do que se pressente e nunca é dito, as palavras que existem não apenas para mostrar mas também para dissimular, tanta coisa que me ofereceu com Francisca, Vale Abraão ou Douro, Faina Fluvial.Manoel de Oliveira. Que nas últimas horas saiu dos cuidados intensivos. Estranha notícia a do seu internamento; vejo-o como um homem jovem dentro de um corpo que não lhe pertence. Há muito mais de dez anos, em sua casa, enquanto me mostrava fotografias dos anos de piloto perguntei-lhe como gostaria de ser recordado. Guardou as imagens, colou os olhos em mim e falou: «Elegante maneira de me perguntar pela morte… Gostaria de o ser como aquilo que sou, não de outra maneira. Procuro a autenticidade e a sinceridade. É aquilo que realmente penso e sinto, o que devo continuar a fazer até ao último dia. Interessa-me a verdade, a minha verdade nua. É um impulso que não domino, já não sou eu que o faço. Há um outro dentro de mim que o faz, limito-me a ser totalmente obediente».
A propósito de uma folha pensei nele. Uma folha mais valiosa do que qualquer bem material que reivindique como meu – nela estão escritos os sonhos que quero concretizar, ideias que acrescento ou corto, conforme mudo de pele e azimute. Guardo-a com zelo. Mimo-a com leituras periódicas, pensamentos e objecções. A folha sou eu no que ainda não fui ou ousei. Pensei em Manoel por ter descoberto que tenho mais sonhos do que tempo para os concretizar; por muito que corra jamais darei vida a tudo o que me pede vida. São sérias as escolhas quando o corpo precisa de dormir mais do que antes. Entendi-o naquele minuto, como certamente ele o terá entendido ainda antes de eu nascer… A diferença é que talvez, num qualquer momento de balanço, tenha decidido concretizá-los a todos e ficar assim de contas acertadas – não admira que a primeira coisa que disse nos cuidados intensivos, pelo menos alguns o juram, tenha sido o desejo de regressar a casa por tanto ter ainda a fazer.
Adorava que tivesse tido o privilégio de o ver sorrir. Como lhe posso explicar esse sorriso? É como se Manoel conservasse a infância e a misturasse com a rebeldia da juventude e a subtileza perversa de um sábio. Já adormeceu num filme dele? Oiça as palavras que guardou para si: «Há pessoas que adormecem nos meus filmes, mas também há quem adormeça a meio do coito e isso não depende do acto em si. Estou a tornar-me popular, mas sei bem que é por aparecer na televisão e ser um homem muito velho. De repente, alguns vêem-me como portador de um segredo de longevidade e aplaudem-me de pé por isso. Mas eu não sou um artista de circo».
Também já adormeci em filmes de Manoel. E já despertei, a ponto de me ser difícil dormir com tanto para pensar ao mesmo tempo. Ele acha que o seu cinema é uma tentativa de escapar à contaminação dos valores humanos. «Quando o amor, a vingança, o ódio ou o sofrimento contaminam as histórias não é necessária grande arte».
Acho um pouco diferente. É um cinema onde, quando acerta, reina a invisibilidade onde tudo realmente acontece. Reconhecemo-lo quando o silêncio nos apanha por um instante que seja. Aí correm pensamentos, mortes e sonhos, ódio e amor. Um alfabeto sem letras. Uma profundeza sem testemunhas. Um abismo de luz e escuridão.
Ficou a pensar na definição. «Sim, talvez. O cinema é uma máquina que, como a fotografia, mostra aquilo que não é. O retrato do seu pai não é do seu pai, é uma imagem onde transparece a ideia do seu pai. O cinema, mesmo que seja um documentário sobre um qualquer acontecimento, é um fantasma da realidade, ou de uma visão da realidade. Quanto mais fantasmagórico for o filme mais real se torna»
Saiu dos cuidados intensivos o homem que um dia foi corredor de automóveis, campeão de salto à vara, trapezista e galã conhecido e cobiçado no Porto. Filho de Francisco, primeiro fabricante de lâmpadas em Portugal, e de Cândida que adorava as suas façanhas desportivas. Um dia, em 1938, viu Isabel à espera do eléctrico e pensou que o seu olhar era diferente. Voltou a vê-la na praia e concluiu que já a vira antes do princípio dos tempos. Isso confessou quando lhe pediu uma dança no Casino da Póvoa. Mas Isabel só dançou o ‘Danúbio Azul’ quando Manoel encontrou alguém que os apresentasse formalmente. Arranjou-o, claro. Casaram em Dezembro de 1940, um amor em tempo de guerra. Que resiste até hoje. Porque sem amor a vida não seria possível, farta-se de proclamar.
Gostaria de lhe perguntar se ainda tem muitos projectos na sua folha. Se o tempo lhe continua a parecer tão escasso como quando lhe falei pela última vez. «Por vezes, dá-me a sensação de que estou a perder tempo. Quero aproveitar o que me sobra nas melhores condições e contribuir para que não nos vejam como um número. A gente tem um nome e não quero deixar de ser eu. A sociedade do consumo é uma sociedade sem ética, quase desgovernada. As pessoas querem ter mais, querem fazer mais, querem consumir mais e tudo acabará inevitavelmente no desespero. Não sou um número».
O tempo é escasso. Eu sei, Manoel.”

Do tempo livre à libertação do tempo

Do Tempo Livre

Elogio do tempo livre

O caráter lúdico da existência, a festa, o divertimento, mais ou menos organizado, tomou formas distintas ao longo da história e nas diversas culturas. Aí plasmava-se o Homo ludens, e manifestava-se a impossibilidade de definir o homem a partir da caracterização unidimensional do Homo faber. A gratuidade do lúdico mostra uma dimensão existencial que não podemos negligenciar, abre uma clareira no utilitarismo habitual com que se pensa o tempo (time is money) e, em consequência, o homem. (...) Pensar o que se faz do tempo é refletir como se define o homem.
Fica assim indicada uma possibilidade de entendimento do tempo livre. Ele não é apenas um tempo «entre» tempos, já ocupados, mas interroga-nos, antes de mais, sobre a realização pessoal e social que projetamos, sobre o projeto que pessoal e socialmente desejamos para as nossas vidas. Mesmo o descanso autêntico pede para ser enquadrado nesta dinâmica maior da responsabilidade pela realização pessoal e social. O tempo livre é tempo de integração. De enriquecimento cultural, pessoal, afetivo. De exercitação do músculo da imaginação e da criatividade. De explicitação da vida interior.
A democratização, o incremento das propostas culturais de vivência dos tempos livres são aspetos positivos de uma mutação profunda nos modos de vida, consolidando uma consciência do direito ao bem-estar e à qualidade de vida. Assim, importa reconhecer com alegria a utilização do tempo livre na contemporaneidade, como fator de desenvolvimento e acréscimo que dá vida à vida e não apenas como expressão do mercado. (...)
É acerca da dificuldade de administrar, organizar e viver a liberdade própria que devemos refletir, quando olhamos para o tempo livre. Porque este tempo de descanso ou diversão, tempo libertado, poderá ser um indicador para compreender que tipo de humanidade queremos construir. Formar para o tempo livre é educar para a liberdade. Dar os instrumentos para que cada um construa a sua própria casa, e não espere uma vida pré-fabricada. Que cada um conheça as suas verdadeiras necessidades, emoções, desejos mais íntimos para poder escolher quer o seu tempo, quer a sua vida. Isso é verdadeira autonomia. E para isso é tantas vezes preciso «perder» muito tempo livre. Não ter medo da interpelação do tempo nem fugir a enfrentar-se nesse espelho crítico. Talvez esta amalgamada realidade seja também uma hora para a sabedoria.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

30ª Peregrinação Lisboa-Fátima de Comunhão e Libertação


 “Bestiais como sempre, carnais, egoístas, interesseiros e obtusos como sempre haviam sido / E ainda assim lutando, sempre reafirmando e recomeçando a marcha num caminho que fora iluminado pela luz; / Tantas vezes parando, perdendo tempo, desviando-se, atrasando-se e voltando, mas jamais seguindo outro caminho”. don Giussani sempre nos chamou a atenção para esta descrição da posição justa da condição humana de T. S. Elliot nos coros de “A rocha”. É esta posição que nos permite recomeçar todos os dias com a certeza do caminho.
É esta conversão que devemos pedir (na nossa peregrinação): viver a fé como uma experiência porque, como diz don Giussani, “uma fé que não pudesse ser encontrada e descoberta na experiência presente, e confirmada por esta, útil para responder às suas exigências, não seria uma fé capaz de resistir num mundo onde tudo, tudo, dizia e diz o oposto».”
Padre Julián Carrón, na abertura dos Exercícios da Fraternidade Comunhão e Libertação, 20 de Abril de 2012

25 de Julho de 2012
Queridos Peregrinos,
Os dias de caminho que faremos na 30.ª Peregrinação Lisboa-Fátima no próximo mês de Outubro, serão cheios do pedido desta conversão, desta inteligência da fé que ilumine a nossa vida e, muito particularmente, o ano da Fé que começará a 11 de Outubro, em plena peregrinação.
Despedimo-nos até à reunião de preparação no dia 2 de Outubro, chamando a vossa atenção para os avisos práticos.
Recebam um abraço dos vossos,

Padre João Seabra / Padre Luis Miguel Hernandez

Ricardo Saldanha / Joana Queiroz / Pedro Aguiar Pinto

.

Descarregue aqui a ficha de inscrição. Se tiver dificuldade pode também tentar aqui