sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Queremos uma RTP intocável como uma "vaca sagrada"? Ou apenas um bom serviço público?

Público 2012-08-31 José Manuel Fernandes
Não fazer nada e continuar apenas a "gerir bem" a RTP não é opção. Nos últimos dez anos isso custou 4 mil milhões de euros

Não há nada como os problemas baterem à nossa porta para mudarmos de opinião. Até há uma semana não havia jornalista que não fosse contra as "corporações" e não se manifestasse indignado com as "rendas". Desde que começou a ser discutido o futuro da RTP percebemos que, afinal, as corporações que os indignavam eram as outras e as rendas que os amofinam são aquelas de que não são beneficiários. E o pior é que muitos parecem estar a reagir como uma tribo, sem sequer pensar.

Comecemos pelo princípio, e pelo que é menos relevante, a questão de saber se devia ter sido ou não António Borges a apresentar o cenário de concessão do serviço público de televisão. Não tem discussão: foi um erro político e uma gaffe institucional. Assunto encerrado, gastar mais tempo com isto é ocuparmo-nos da espuma dos dias, não da substância dos problemas.

Continuemos pelo que é mais importante: o futuro da RTP. Há dez anos, quando também houve uma enorme vozearia que até meteu manifestações à porta do telejornal, a RTP era uma empresa falida, arruinada, mal gerida e com défices galopantes. Foi então reestruturada contra ventos e marés e a sua situação estabilizou. Mas o preço dessa estabilização foi elevado: nos últimos dez anos, de 2003 a 2012, a RTP custou aos portugueses, via taxa ou via impostos, 3,77 mil milhões de euros. Quase dois anos de subsídios de férias e Natal da função pública e dos pensionistas. Há quem ache isto um grande sucesso e diga que a empresa deu "lucros" nos últimos dois anos. Teria graça se não fosse trágico.

Isto é muito, mas mesmo muito dinheiro, sobretudo se pensarmos que entretanto a RTP deixou muito a desejar no que respeita à prestação de serviço público e perdeu quase metade da sua audiência. Não fazer nada e continuar apenas a "gerir bem" a RTP não é, para mim, opção. É o tipo de solução que só interessa aos interesses instalados na RTP e que se têm manifestado publicamente, de forma grotesca, nos telejornais das 20h, transformado na tribuna da "corporação RTP" e da defesa das rendas que esta cobra a todos os portugueses (só um exemplo da desproporção: este ano o Estado dará à RTP, para além da taxa e de dinheiro para as dívidas, 90 milhões de euros de indemnização compensatória, três vezes mais do que os 28 milhões de euros que receberá a CP).

A forma desonesta como o lobby da RTP tem procurado condicionar o actual debate é bem evidente no comportamento da administração, que surgiu a dizer que o seu PSEF - Plano de Sustentabilidade Económica e Financeira - permitia reduzir os custos para níveis nunca vistos, mas omitindo que esse plano também prevê o fim do segundo canal e a separação da RTP Madeira e RTP Açores. Com tanta poeira lançada para o ar é, de facto, muito difícil discutir seja o que for, ficamos nas mãos dos interesses instalados e dos seus argumentos.

Há muito que venho defendendo a necessidade de separar a discussão do que deve ser o serviço público de televisão do que deve ser o futuro da RTP. O lobby da RTP sempre quis confundir serviço público de televisão com empresa pública de radiodifusão, mesmo quando é evidente que boa parte das emissões da RTP (incluindo das suas antenas de rádio) se situam no mesmo patamar das emissões dos canais privados. Já se sabe que pouco distingue a RTP1 da SIC e da TVI, mas por que será que a RTP Informação é "serviço público" e a SIC Notícias não é? Ou que a Antena 1 é "serviço público" e a TSF não é? Apenas porque o lobby da RTP tratou de impor uma "ideologia de serviço público" - para utilizar a expressão de Eduardo Cintra Torres - que visa sobretudo defender as suas posições numa empresa pública que nos custa os olhos da cara.

Mais uma vez estamos a discutir a suposta sobrevivência da RTP - com tudo o que ela tem, do Preço Certo ao Malato e à Catarina Furtado, sem esquecer o seu passado ao serviço de governo atrás de governo - sem atender ao que deviam ser os limites da intervenção do Estado, isto é, apenas garantir o acesso ao que o mercado não assegura no seu livre funcionamento. O que eu gostava de discutir era se os nossos impostos e as nossas taxas devem suportar o que é pago às "estrelas" da RTP ou antes garantir que, por exemplo, havia mais produção de documentários, mais teatro na televisão ou mais cuidado com a língua portuguesa. O que eu queria discutir é se faz sentido uma empresa pública, inevitavelmente dependente do poder político, produzir informação, isto é, se pela mesma razão que não temos hoje jornais nacionalizados também não devíamos deixar de ter telejornais do Estado.

É que não faz sentido falar, no século XXI, em "serviço público" a não ser no quadro daquilo que o mercado não é capaz de oferecer. Não há razão para incluir no "serviço público", com os contribuintes a pagar, aquilo a que estes acedem livremente nos outros canais. Não é preciso vivermos em tempos de crise para pensar assim: basta respeitar o dinheiro dos contribuintes, venha ele dos impostos ou de uma taxa.

Boa parte da culpa de estarmos a discutir o que é lateral é do Governo e da forma como geriu este dossier. O resto da culpa é de todos os que não querem mudar nada, a começar infelizmente pela maioria dos jornalistas e a acabar em partidos que até já prometem renacionalizações.

Não sou capaz de discutir cenários que não conheço. Sobretudo o que me espanta é que tanta gente se tenha pronunciado, de forma tão definitiva, até com contas detalhadas e análises sobre "lucros garantidos", sobre hipóteses que nem sequer estão explicitadas. Mais uma vez penso que todos ganharíamos se o Governo expusesse com mais clareza os seus cenários e divulgasse os seus estudos. Ganharíamos mesmo sabendo que haverá sempre quem apenas defenda o status quo, pois o contribuinte paga e o espectador é manso.

O que posso discutir é outra coisa: quais os pontos de partida para a discussão.

O primeiro é que a RTP não pode continuar a ser vista como uma "vaca sagrada" criada para a eternidade. Independentemente do valor de muitos dos seus profissionais, e da evolução positiva dos últimos anos, há lá muitos vícios entranhados que, porventura, só se extirpariam extinguindo a empresa e criando uma nova ao lado. Quem está no sector, e até na RTP, sabe que é assim, mas ninguém o diz alto. Eu digo.

O segundo é que todos beneficiaríamos se o Estado estivesse menos presente neste sector, como todos beneficiámos quando o Estado reprivatizou jornais e rádios e permitiu o aparecimento de televisões privadas (na altura os mesmos que hoje prevêem um desastre anteviram um cataclismo). Tudo o que diminuir o espaço para interferências políticas é positivo, sobretudo num país com os maus hábitos de Portugal.

O terceiro é que a democracia exige pluralismo e transparência na propriedade dos órgãos de comunicação social, requer empresas sustentáveis e que não se movam por interesses obscuros, pelo que qualquer medida do Governo que modifique as condições de funcionamento do mercado tem de ter em consideração a fragilidade extrema do actual tecido empresarial e a opacidade associada a alguns apetites que por aí rondam.

Não fossem estes últimos factores e defenderia a privatização total de RTP, com subconcessão em concurso aberto a todos do serviço público. Como a situação actual exige, além de determinação, prudência, será em função do conjunto destes critérios que analisarei, quando realmente as conhecer, as propostas do Governo. Sem grandes esperanças ou ilusões, mas também sem qualquer interesse instalado ou renda, que não tive nem tenho.

P.S.: O ataque, insultuoso e sem fundamento, que Manuel Loff fez a Rui Ramos, talvez o mais talentoso historiador da sua geração, utilizando para isso as páginas do PÚBLICO, é um exemplo da forma como se tem vindo a degradar, em certos sectores, o debate público instrumentalizado politicamente. Voltarei ao tema.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Famílias criticam novas regras para descontos nos passes escolares

Público 30.08.2012 - 14:05 Por Ricardo Garcia, Marisa Soares
Os novos passes para estudantes vão ter descontos de 60% ou de 25% 

Os representantes das associações de famílias numerosas e das associações de pais estão contra as novas regras de acesso aos descontos nos passes escolares, que entram em vigor a 1 de Setembro. As críticas recaem sobre a fórmula de cálculo dos descontos.

Os novos passes para estudantes vão ter descontos de 60% ou de 25%, conforme os alunos estejam abrangidos pelo escalão A ou B da Acção Social Escolar, respectivamente. Também haverá um desconto de 25% para os alunos inseridos em famílias que beneficiem do Passe Social+, que já contempla reduções nos passes para agregados com baixos rendimentos. Os descontos aplicam-se aos passes 4_18 (alunos entre estas idades) e sub23 (estudantes do ensino superior até 23 anos).

Para Fernando Castro, presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, o problema está na forma como é calculado o rendimento do agregado, que serve de base à atribuição do desconto. “O Governo considera as crianças apenas a 25%, mas nós temos filhos inteiros e não quartos de filhos”, queixa-se, numa referência à forma de cálculo que dá acesso ao Passe Social+.

Neste caso, a base do cálculo é o chamado rendimento médio anual equivalente, que resulta do rendimento bruto do agregado dividido pelo número de sujeitos passivos mais o número de dependentes vezes 0,25. Na prática, um casal com um filho poderá beneficiar do desconto se ganhar até 1131 euros por mês, com dois filhos, 1258 euros, e com três filhos, 1383 euros.

Mas a fórmula não convence Fernando Castro. “Exigimos que o escalão de rendimento seja calculado de acordo com o nível de vida da família e isso só pode ser medido através do rendimento per capita”, sublinha.

Para o acesso aos escalões A e B de Acção Social Escolar – com descontos de 25% e 60% nos passes – a base é o “rendimento de referência” utilizado pela Segurança Social para o cálculo do Abono de Família, refente aos escalões 1 e 2. Para um casal com dois filhos, o desconto máximo aplica-se a famílias que aufiram 629 euros por mês e o mínimo também se aplica a rendimentos até 1258 euros.

O presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Albino Almeida, considera que os cálculos vão “deixar de fora famílias cujo rendimento disponível per capita é já muito baixo”.

Em declarações ontem à TSF, Albino Almeida considerou que os valores de referência para atribuição do desconto são “muito baixos”. “Estão a somar salários que não fazem sentido nenhum. Nem sequer é o salário mínimo nacional, nem a soma de dois salários mínimos nacionais”, criticou, antevendo “algumas dificuldades” para as famílias já em dificuldade.

Para o presidente da Associação de Famílias Numerosas, o Governo não tem uma “política de família” e está “fortemente empenhado em acabar com os nascimentos em Portugal”, deixando às famílias uma única solução: não ter filhos. “Aí, até se pode fechar tudo, maternidades, hospitais, escolas, que não vai fazer diferença”.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Afinal, somos só aldrabões

DN 2012-08-29
FERREIRA FERNANDES
Soube-se, ontem, da catástrofe, pior que o Terramoto de Lisboa (10 mil mortos): em dois anos, desapareceram 134 mil filhos em Portugal! Dados como cidadãos em 2009, desapareceram 104 mil, em 2010, e 30 mil, em 2011. Assim, sem dizer água vai, nem foto "Desaparecido" nos vidros dos supermercados... Uma tragédia enorme e misteriosa. Teremos abatido uma geração, como Herodes? 134 mil é muita gente, é Viseu a desaparecer três vezes. A confirmar-se, em matéria de desaparecimentos o triângulo das Bermudas seria uma brincadeira comparado com o buraco negro do Fisco, onde os infelizes foram vistos pela última vez. Fisco? Eu disse Fisco? Sim, os 134 mil estavam nas declarações de impostos dos pais, em 2009, e, depois, desapareceram, quando passou a ser obrigatório o número de identificação fiscal dos filhos nas declarações do IRS. Então, querem ver que...? Sim, há que considerar a hipótese dos 134 mil serem filhos fantasmas, inventados, concebidos só para sacar benefícios, de 190 a 380 euros, e, quando passou a haver controlo, foram abatidos. Metaforicamente abatidos, apagados nas declarações. Não houve holocausto, só aldrabice de papelada. Uff, fico tranquilo! Embora, como hoje em dia são sempre os alemães a julgar, não sei se, sendo só aldrabões, não ficamos ainda mais mal vistos.

28 de Agosto - Martírio de S. João Baptista

Salomé com a cabeça de João Baptista
Caravaggio (1607)
Óleo sobre tela (91,5 x 106,7 cm)
National Gallery
London

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Sé "mais velha" de Portugal faz hoje 923 anos

@ Rui Ferreira, 2012
Rui Ferreira
Braga Maior, 2012-08-28 
 
“Mais velho que a Sé de Braga” é uma expressão popular, bem conhecida, que pretende aludir à veterania de uma qualquer realidade. Em termos objetivos, a Sé de Braga é efectivamente a mais antiga edificação catedralícia do nosso país e completa hoje nada mais nada menos que 923 anos.
No dia 28 de agosto do distante ano de 1089, ainda antes do Conde D. Henrique ter tomado D.ª Teresa como sua esposa, e do filho de ambos, D. Afonso Henriques, ter fortalecido as suas aspirações independentistas no campo de S. Mamede, o altar-mor da Sé de Braga foi solenemente sagrado. Nesse dia, de grata memória, estiveram presentes o Arcebispo de Toledo, D. Bernardo, que presidiu à cerimónia, os Bispos D. Pedro, de Braga, D. Gonçalo, de Lugo, D. Indigo, de Tui, e D. Pedro, de Orense.
O ano de 1071 é essencial para se entender a história da cidade de Braga. A partir da conquista de Coimbra por intermédio de D. Fernando Magno, em 1064, foi devolvida a estabilidade a Braga e ao território envolvente e viabilizada a restauração da antiga capital da Galécia e do reino suevo. Foi o Rei Sancho II da Galiza que patrocinou a restauração dos direitos administrativos eclesiais, designando D. Pedro como Bispo de Braga, em abril de 1071. A construção de uma catedral imponente, substituindo uma anterior basílica de menores dimensões, era fundamental para a afirmação da diocese restaurada. Assim, D. Pedro iniciou o processo de reorganização do território e demarcação da sua sede episcopal. É um facto, atestado pela arqueologia, que o local onde assenta a catedral bracarense foi outrora espaço sagrado para romanos e para cristãos. Investigações recentes confirmaram a existência de uma basílica paleocristã no subsolo da Sé Primaz, atestando a sua origem anterior aos nove séculos que hoje lhe atribuímos. O facto de este edifício ter assentado sensivelmente no local onde hoje está a capela-mor da Sé, poderá confirmar que o culto e a ocupação humana terá sobrevivido até ao século XI, altura em que o Bispo D. Pedro (1071-1093) retomou a história eclesiástica de Braga, após um período em que esteve associada à diocese galega de Lugo (os Bispos de Lugo acumulavam a prelazia de Braga), devido à instabilidade política e social desta região.
Por isso mesmo, o que hoje observamos é resultado de muitos séculos de alterações e acréscimos, que serviram para enriquecer a valia artística do edifício. A própria fachada da Sé é exemplo disso mesmo. De românico já só restam duas arquivoltas do pórtico primitivo (onde se observa o romance da raposa) e, no lado sul, uma interessante coleção de modilhões (a cachorrada) e a porta do sol, que encontrou o seu lugar, após duas mudanças de sítio. A galilé é obra de D. Jorge da Costa (1486-1501), completada pelo inevitável D. Diogo de Sousa (1505-1532), que também mandou alargar a porta principal. O resto da fachada foi alterada pelo Arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, em 1723. No interior atestamos esta mesma dimensão plurissecular, pese embora as alterações questionáveis que a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais levou a cabo na década de 30 do século XX, e que alteraram sobremaneira a Sacrossanta Basílica Primacial Bracarense. O órgão de tubos destaca-se nitidamente entre as obras de arte do interior. Executado a mando do Cabido, numa altura em que não havia Arcebispo nomeado, o conjunto dos dois órgãos é um dos mais importantes do género em toda a Península Ibérica. A talha foi soberbamente executada pelo bracarense Marceliano de Araújo em 1737. Nas naves ressalta ainda o conjunto de esculturas barrocas, retratando os apóstolos e doutores da Igreja; a pia batismal manuelina, o túmulo flamengo do primogénito do Rei D. João I; e os altares colaterais em estilo neoclássico. A capela-mor é obra esplendorosa dos artistas biscainhos (1509). A abóbada de nervuras é atribuída a João de Castilho, um dos grandes mestres da arte renascentista em Portugal, e a rendilhada cabeceira catedralícia, que se observa no exterior, e onde se destaca o nicho com a imagem de Nossa Senhora do Leite, é também obra desse tempo. Sobram as capelas tumulares, onde se destaca a capela da Glória, com o túmulo gótico de D. Gonçalo Pereira, e a capela dos Reis, onde repousam os pais de D. Afonso Henriques, a Condessa Dona Teresa e o Conde D. Henrique, protagonistas da causa da independência portuguesa.

A dignidade da política

Adriano Moreira
Presidente da Academia das Ciências de Lisboa, Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes 2009
In Communio, 2012/1
SNPC 27.08.12

O tema da dignidade na política, tal como acontece em relação a todas as intervenções na vida social, tem em primeiro lugar relação com a definição do fenómeno identificador da política, e depois com a escala de valores que é variável, não apenas ao longo dos tempos, mas também na área cultural que estiver em exame.
Quanto à primeira referência, a do fenómeno identificador, talvez possa admitir-se que é o que mais interliga todas as concepções, passadas ou vigentes: trata-se da conquista, conservação, e exercício do poder de governar a comunidade.
A conquista pelo exercício da violência e força militar, quer em processo de expansão no sentido de submeter territórios e povos, quer no sentido de submeter a comunidade originária, tem essa referência identificadora, que celebrizou a obra de Maquiavel, o qual se limitou mais a descrever o processo do que a doutrinar sobre condicionamentos éticos dos agentes. Deste modo, o maquiavelismo ficou como uma corrente, de narrativa histórica volumosa, abrangente de procedimentos já não necessariamente militares e violentos, mas do exercício de enganos públicos e privados, de quebras de lealdades, em suma, de falta de autenticidade, isto é, de coerência entre o discurso e a ação.
O século XX teve e sofreu exemplos devastadores desta atitude, que tem o êxito como valor, e o desastre ético como resultado final: o nazismo e o sovietismo foram molduras de conceitos estratégicos exercidos por homens que cultivaram minuciosamente o maquiavelismo.
Foram essas tragédias, marcadas pelas guerras chamadas mundiais, mas de facto ocidentais, de 1914-1918 e 1939-1945, que fizeram regressar a importância do condicionamento do poder político, na conquista, no exercício, e na defesa, pela ética, e a tentar condicionar o processo da globalização pela ética internacional. Não se trata apenas de exprimir essa exigência em normativismos jurídicos, como são a Carta da ONU e a sua Declaração de Direitos Humanos. O encontro de todas as áreas culturais em liberdade, que levou Kofi Annan a procurar, desde 2001, instituir o diálogo entre elas, tornou evidente a necessidade de formular uma Ética global, a que se dedica a Global Ethic Foundation, actualmente presidida pelo notável Hans Kung. Este, tendo sobretudo em vista a questão do Islão, vai propondo soluções pragmáticas, de modo a passar da imagem hostil à imagem da esperança, tema de que se ocupou o Parlamento Mundial das Religiões, reunido em 1999 na cidade do Cabo.
O confronto das duas percepções, a maquiavélica e a ética, tem imediato reflexo no conceito normativo da dignidade na política. Exemplos contemporâneos são, designadamente, Mandela e Václav Havel, o primeiro com o significado especial da trajectória entre a violência revolucionária e a santidade laica. E pondo em evidência que a dignidade na política implica a total devoção ao bem comum da comunidade, agora a tender para mundial, a autenticidade traduzida na coerência entre o discurso e a ação, a coragem de manter o eixo da roda, que são os valores, perante a adversidade, como fizeram líderes da guerra de 1939-1945, com destaque para Churchill e Roosevelt.
O relativismo que atingiu severamente o ocidente, que colocou o credo do mercado no lugar do credo do civismo, o preço das coisas no lugar do valor das coisas, os valores instrumentais acima dos valores fundamentais, multiplicou os casos de fortalecimento da corrente maquiavélica, feriu severamente a relação de confiança entre governantes e governados, levou os povos a tratar os responsáveis políticos na terceira pessoa (eles), e afastou os melhores do exercício da política. O regresso à autenticidade como atitude dominante é, para além dos inevitáveis erros e fracassos, a mais urgente necessidade de restaurar a dignidade na política, e a relação de confiança entre povos e governantes.
Quando João Paulo II proclamou Thomas Morus santo patrono de parlamentares e governantes, não ignorou que fora Chanceler da Inglaterra, assim como, ao elevar aos altares D. Nuno Alvares Pereira, não esqueceu que foi condestável do Reino de Portugal, e exerceu o poder militar contra os inimigos da independência do reino.
Tratou-se, como escreveu Francesco Cossica a respeito do primeiro, de reconhecer os valores que serviram de cânone a toda uma vida, e, naquele caso, dando testemunho com a perda da vida.
Esse cânone foi chamado virtude por Cícero e por Aristóteles, uma moral que se manifesta na política com a flexibilidade exigida pelos interesses a servir.
Isto significa, no conceito, que, tal como é evidente na esfera militar, é compatível com danos infligidos às pessoas (não só materiais), porque tam­bém o homem virtuoso é condicionado pelas circunstâncias.
Muitos entenderam que o melhor discurso sobre a virtude se deve a Aristóteles, o qual, entre mais detalhes, a considera como a disposição de obedecer à razão contra quaisquer oposições, definir os objetivos da ação e não apenas os meios de agir, dando como exemplo a coragem prudente, que não evita o risco por ceder às tentações de evitar o dever, tomando a honra como motivo sejam quais forem as circunstâncias.
A evolução ocidental para a democracia procurou definir juridicamente, nas Constituições, os normativos que, observados, garantem a dignidade da política. Todavia, a mundialização do objetivo de tornar o modelo democrático imperativo, rapidamente demonstrou que antes das normas jurídicas está uma conceção do mundo e da vida que orienta as definições codificadas, que tais paradigmas são variáveis com as áreas culturais, e por isso os compromissos entre os valores e os interesses são condicionados não apenas pela prudência, mas frequentemente pelos interesses. No mundo ocidental a distinção entre moral de convicção e moral de responsabilidade, em que Weber insistiu, tem expressão visível no normativismo das relações internacionais, cada vez mais influenciadas pela libertação do colonialismo que dominou várias áreas culturais. É assim que o direito humanitário parece um compromisso entre os Direitos Humanos (essenciais) e os limites supostos pelo conceito de guerra justa, o que teve uma expressão histórica, primeiro no Tribunal de Nuremberg que rejeitou a justificação da obediência, e, depois, pela instituição do Tribunal Penal Internacional, este a contribuir para as indagações sobre um possível paradigma mundial (Kung) que se imponha às diversidades.
Por isso, a busca de uma nova diplomacia global, destinada a conciliar o mundo, o que procura são padrões comuns de dignidade na política, fiando da autenticidade, isto é, da concordância entre o discurso e a prática, a paz para os nossos dias.
Tal como já escrevi (DN, 3-1-12), provavelmente é ainda necessário, e duradoira apersistência, que os intervenientes mais notados do processo atualizem a relação entre as convicções históricas que lhes moldaram a identidade e a realidade que mudou em termos de ser a outra coisa que não estava prevista nos seus planos por vezes seculares.
É a isto que Blancheri chama "a necessidade de conciliar o mundo", já nem sequer bipolar estrategicamente, mais bipolar do ponto de vista da balança económica e financeira, mas de qualquer modo a exigir redefinir a conciliação entre a política de imagem e a política consistente, entre a reserva de soberania e a interdependência, entre um paradigma ético global e um pragmatismo de conciliação. Realmente colocar o diálogo diplomático construtivo e criador no lugar da competição de interesses contraditórios e inconciliáveis, que dominaram a história não apenas europeia, mas mundial.
O processo europeu cedo levou a avaliar as exigências da querida unidade, não só de mercado, mas política, na área diplomática, ficando célebre o depoimento de fim de carreira do diplomata italiano Roberto Ducci, o qual terminava com um - Good bye to all that, ao imaginar que a cooperação dentro da comunidade europeia implicaria uma reformulação total da relação da nova estrutura dessa unidade com o mundo.
O fecho de consulados e embaixadas, que também praticamos, tem menos que ver com esta prevista evolução do que com a ideologia de orçamento e contenção, imposta pelo desastre financeiro e económico global. Mas em qualquer caso, uma estrutura específica para realidades específicas de cada membro da União, articulável com a unidade desta, exige engenho e arte que a preserve e torne eficaz, porque se trata das janelas de liberdade a que nenhum país vai renunciar.
Um mundo ideal não é necessariamente um mundo simplificado, em que valores e interesses se agregam num só resumo participado por todas as comunidades ao redor da terra. Conciliar o mundo não é uniformizar o mundo.


Financial Times: A recuperação silenciosa de Portugal

Joana Petiz DN 28 agosto 2012

"Entre os países resgatados pela troika, a Irlanda tem ficado com todos os aplausos e a Grécia com todas as vaias. Portugal, porém, tem evitado as manchetes desde que se tornou o terceiro país europeu a ser forçado a pedir um resgate de 78 mil milhões de euros. Ainda assim, durante o último ano surgiram algumas razões para um otimismo cauteloso. Embora a austeridade crescente mantenha a economia numa dolorosa recessão, a troika tem louvado os esforços e o progresso conseguido no país."
É assim que o Financial Times começa uma análise à atual situação portuguesa, elogiando os esforços empreendidos que, segundo a publicação, até recuperaram "um certo nível de confiança para Portugal, onde o governo continua a desfrutar de apoio suficiente para avançar com um programa de ajustamento muito duro". O FT cita ainda o economista da Comissão Europeia Peter Weiss , depois da terceira avaliação da troika, em abril: "O governo não pode fazer mais." E garante que os mercados não ficaram indiferentes às reformas em Portugal: "os juros da dívida a dois anos caíram abaixo de 5%, o nível mais baixo em mais de um ano, e a dez anos chegaram a estar abaixo de 9% este mês - uma das melhores prestações dos países-membros este ano."

28 de Agosto - Santo Agostinho

Vitral de Santo Agostinho
Louis Comfort Tiffany (1848–1933)
the Lightner Museum, 
St. Augustine, Florida. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O futuro da União

DN 2012-08-27JOÃO CÉSAR DAS NEVES

A crise europeia passou o Verão em lume brando para voltar a ferver em Setembro. O que não abrandou foi o borbulhar criativo dos comentadores, que manteve acesa a polémica com palpites para todos os gostos. Desde as catástrofes eminentes dos alarmistas às garantias de segurança das autoridades, o leitor pode escolher o tipo de ebulição que prefere. Que pensar então da situação?
É bom lembrar que crises fatais para a integração europeia tivemos várias nas últimas décadas, mas a União ainda subsiste. Repetidamente ao longo dos últimos 60 anos, qualquer avaliação séria das perspectivas teria de concluir que o projecto não duraria mais de alguns meses. Exactamente como hoje tantos dizem. Desde os anos 1950 que, se quisermos ser minuciosos e exactos, temos de afirmar que a Comunidade Europeia não pode existir. Integrar económica e politicamente tantos países com leis, hábitos, culturas e propósitos tão diferentes é, realmente, uma impossibilidade histórica. Uma impossiblidade que de facto existe e se impôs ao mundo e aos cépticos. Nesse sentido, os prognósticos mais aterradores estão cheios de razão. Como sempre estiveram, apesar de ainda não se terem realizado.
Não vale a pena dizer que esta crise é muito mais grave que as anteriores. Não só isso também foi dito em todos os casos anteriores, mas a afirmação é totalmente arbitrária, por ser impossível medir a gravidade das crises. Será o actual problema da dívida mais ameaçador que o veto de De Gaulle em 1963 ou o "rebate" de Thatcher em 1984? Será mais sério que a crise do petróleo de 1973 ou do sistema monetário europeu em 1993? Mais influente que as sanções contra a Áustria em 2000, o desacordo na invasão do Iraque em 2003 ou a rejeição da Constituição em 2005? Em todos estes momentos, e muitos outros, se falou do fim da Europa. E com razão. Mas ela ainda dura. A dramática situação desde 2010 constituirá mais um dos episódios a juntar à longa lista. Se a Europa sobreviver, claro.
Porque é bom não escamotear a gravidade da situação. Está de facto em causa a sobrevivência da União, como esteve em todos essas épocas. É bem possível que se viva em breve uma situação insustentável, que não possa ser controlada antes de demolir grande parte da integração. Vale a pena, porém, acertar o verdadeiro tipo de ameaça, porque muito do que se anda a dizer é disparate.
Por exemplo, é pouco provável que a União seja derrubada num pânico financeiro. A natureza humana é sempre imprevisível, e ultimamente os ânimos têm andado bastante exaltados, pelo que esta afirmação é bastante arriscada. Mas é bom lembrar que ninguém entra em pânico com aviso prévio. O terror é algo repentino, imprevisto, inopinado. Não é possível um susto generalizado quando toda a gente fala disso há anos. Se em 2010 a Grécia tivesse repudiado a dívida ou Portugal abandonado o euro, haveria um tremor continental de elevada magnitude. Agora já todos descontaram o que havia a descontar, já se provisionaram os riscos previsíveis. Só os muito distraídos se surpreenderiam. Isto não quer dizer que seja inócuo, mas a derrocada generalizada existe sobretudo na imaginação dos agoirentos.
O verdadeiro problema, hoje como sempre, é solidariedade. Os devedores precisam de ajuda porque abusaram dos apoios solidários, e os credores só serão solidários com garantias que esse comportamento comprometeu. Mas não existe alternativa à solidariedade porque, como todos estão no mesmo barco, a queda de um arrastará tudo. Por isso a Alemanha tem razão em exigir austeridade e a Grécia em repudiá-la. Também aqui, como antes, todos os que falam têm toda a razão no que dizem e por isso ninguém se entende.
É verdade que esta é a primeira crise a 27, dentro de um drama global e numa geração sem o élan original. Ninguém sabe o que acontecerá. Até é possível que a União desapareça. Uma coisa é certa: quando cair, agora ou no futuro remoto, os séculos seguintes olharão para ela como modelo. Como o império romano, que durou mil anos e foi copiado noutros mil.

27 de Agosto - Santa Mónica

Santa Mónica
Luís Tristán de Escamilla
1616
Óleo sobre tela 40 x 42 cm
Museo del Prado
Madrid

domingo, 26 de agosto de 2012

Mortos-vivos

João Pereira Coutinho
Correio da manhã, 26-08-2012 1:00:00


O meu caso com a RTP não começa com este governo. Começa com a própria Constituição.


Defesa, justiça, saúde – tudo isso são áreas legítimas de actuação do Estado. Entreter os metecos e, supremo horror, produzir informação para eles – só mesmo em Cuba ou na Coreia do Norte.
É por isso que o modelo audiovisual em discussão – concessionar a RTP 1, acabar com a RTP 2 – aligeira a dor, mas não cura a doença. A RTP devia ser privatizada ou extinta, sem meios termos. E, sobretudo, sem que houvesse um tostão dos contribuintes a garantir uma renda anual de 140 milhões de euros aos senhores que se seguem. Este valor constitui até uma poupança, como disse António Borges? Admito que sim.
Como também admito que concessionar ocanal por termo alargado dilui a influência directa do poder sobre a informação. Mas esse não é o ponto. O ponto estava em acabar com um anacronismo da ditadura, não em garantir--lhe uma meia vida em democracia.

Bento XVI: "A falsidade é a marca do diabo"

Rádio Vaticano, 26-08-2012
Castel Gandolfo (RV) – “A falsidade é a marca do diabo”, e foi essa a “culpa mais grave” de Judas. Neste domingo durante o Angelus o Papa Bento XVI se deteve sobre a figura de Judas, o Apóstolo que traiu Jesus, comentando a passagem evangélica sobre os discípulos que abandonaram Cristo não acreditando nas suas palavras sobre o seu ser “pão vivo descido do céu”.

“Por quê? Porque não acreditaram nas palavras de Jesus, que dizia: Eu sou o pão vivo que desceu do céu, aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue viverá para sempre (cf. Jo 6,51.54). Essa revelação era para eles incompreensível, porque a entendiam apenas no sentido material, enquanto naquelas palavras foi pré-anunciado o mistério pascal de Jesus, no qual Ele daria si mesmo pela salvação do mundo”.
Como em outros casos, - continuou o Papa - é Pedro, a responder em nome dos Doze: “Senhor, para quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna e nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6:68-69). Nesta passagem, temos um belo comentário de Santo Agostinho, que disse: “Vejam como Pedro, pela graça de Deus, por inspiração do Espírito Santo, compreendeu? Por que compreendeu? Porque acreditou. Tu tens palavras de vida eterna. Tu nos dás a vida eterna, oferecendo o teu corpo e o teu sangue. E nós cremos e conhecemos. Ele não disse: nós conhecemos e cremos, mas nós cremos e conhecemos. Nós cremos para poder conhecer; se, de fato, quiséssemos conhecer antes de crer, não teríamos conseguido nem conhecer, nem crer.

“Jesus – disse ainda o Papa aos fiéis reunidos no pátio interno da Residência Apostólica de Castel Gandolfo – sabia também que entre os doze Apóstolos havia um que não acreditava: Judas. Também Judas poderia ter ido embora, como fizeram muitos discípulos, ou melhor, deveria ter ido embora, se tivesse sido honesto”.

“Ao invés ficou com Jesus”- prosseguiu Bento XVI. Ficou não por causa da fé, nem por amor, mas com a intenção secreta de se vingar do Mestre. Por quê? Porque Judas se sentia traído por Jesus, e decidiu que, por sua vez, iria traí-lo.

“Judas era um Zelota, e queria um Messias vencedor, para guiar uma revolta contra os romanos. Mas Jesus tinha decepcionado essas expectativas. O problema é que Judas não foi embora, e sua culpa mais grave foi a falsidade, que é a marca do diabo. Por isso Jesus disse aos Doze: "Um de vós é um diabo" (Jo 6,70)”.
O Papa concluiu com o convite a rezar a Nossa Senhora, “para que nos ajude a crer em Jesus, como São Pedro, e a sermos sempre honestos com Ele e com todos” .Em seguida concedeu a todos a sua Benção Apostólica. (SP)

O mistério gera espanto e o espanto é a base do desejo humano de compreender


Mistery creates wonder
Pandaemonium, August 26, 2012 

‘…and wonder is the basis of man’s desire to understand.’ It is not the phrase for which Neil Armstrong, who sadly died this weekend, will always be remembered. But it is the one that perhaps best sums up not just Armstrong’s vision but also the sense that to be human is forever to be reaching out to grasp what may seem beyond us. And that once we stop doing this, we diminish ourselves as humans.
...

sábado, 25 de agosto de 2012

Neil Armstrong - In memoriam

João Távora
Corta-fitas, 2012-08-25

Quando os Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram a Lua eu tinha sete anos e estava em Milfontes de férias. Nessa noite morna de Verão, como grande parte dos habitantes da vila, desci com os meus pais ao Café Miramar na Barbacã, para assistir na televisão ao acontecimento em directo. Não mais me esquecerei da emoção vivida, aquelas imagens difusas e misteriosas, as palmas, as interjeições e efusivos comentários dos adultos.
De resto lembro-me da estranheza que me causava o Jacinto, um pescador nativo amigo da família, que afirmava que tudo aquilo era uma encenação cinematográfica à boa maneira do cinema americano.  Para ele era inconcebível que o homem chegasse à Lua, talvez porque acreditasse que o satélite era feito de queijo: custa-me a acreditar que a sua opinião se devesse a qualquer dogma político.
Apesar da desilusão que senti nos anos seguintes com a perda de espectacularidade dos programas espaciais da NASA, imagino que este terá sido o maior acontecimento histórico sucedido na minha existência. Por mim continuo a imaginar com entusiasmo como será a grande aventura da expansão humana para o Espaço.
Armstrong foi o Vasco da Gama desse grandioso projecto. O Sítio onde chegou hoje ainda é mais alto. Ganhou perspectiva. Paz à sua alma.
Texto adaptado daqui

As palavras também fazem amor

José Luís Nunes Martins, i-online 25 Ago 2012
Só o que conseguirmos dizer a uma criança pequena, sem equívocos nem adornos, é realmente verdade. Tudo o mais é... pior que o silêncio
Se é fácil concordar com a ideia de que as palavras podem fazer grandes males, por que razão não são vistas como precursoras do maior bem? Afinal, sendo leves como o vento e fortes como o mar, as palavras, e os silêncios entre elas, são capazes de trazer e levar Deus, de criar e destruir o amor...
A palavra é a ponte que faz o encontro do homem com o mundo. Por vezes, pesa montanhas e tem a espessura de rochas, outras, é mais leve que o ar e transparente como um céu. As palavras expressam-nos e impressionam-nos.
São actos puros. Estabelecem verdades, criam-nas, alimentam-nas e também lhes põem fim. São, ou deveriam ser, ecos do que se passa de forma silenciosa nas profundezas da alma. As palavras mais ricas não são necessariamente as literárias de Nobel, mas as autênticas, as que trazem consigo luz, um sentido para a vida. Neste caso, são simples. Só o que conseguirmos dizer a uma criança pequena, sem equívocos nem adornos, é realmente verdade. Tudo o mais é... pior que o silêncio.
Há momentos em que explodimos, momentos em que a vida se ilumina por uma claridade de outro mundo. O amor aparece. Num olhar. Numa palavra simples que traz consigo uma intimidade toda, que transforma o mundo e inaugura um novo futuro.
A palavra amor é utilizada para dar corpo a várias realidades, sendo algumas delas não mais que ilusões e embustes... tentando fazer-se passar pelo contrário do que são.
O conceito de amor é tanto mais definido e claro quanto mais sentimentos considerados vizinhos englobar, tais como amizade, esperança, fé, saudade, paixão, etc., mas que num amor autêntico se fundem numa só realidade. Um só sentir. Em mais do que um coração.
O amor também confunde, desordena e agita. Porque não é a regra, mas uma excepção. As categorias da normalidade, entre as quais se contam as palavras, não foram pensadas com base num cenário de luz e calor, mas num jogo de cinzentos frios por onde o mundo ora se mostra, ora se esconde. Aqui, o amor desconcerta e destrói essa lógica de ser no mundo. Parece uma loucura a quem o não conhece, ou o deseja sem sucesso. O amor verdadeiro é tranquilo como um céu azul, apesar de conter e palpitar trovoadas de esperança.
Todas as palavras são supérfluas se não vierem do fundo do coração, pois quando não trazem essa luz apenas aumentam a escuridão. A maioria dos desentendimentos entre pessoas deve-se às palavras, ou melhor, à estranha ideia que é do diálogo, e não do amor, que nasce o entendimento. Elas são um meio. Não o fim. Um meio de o amor se prometer e aproximar do mundo...
Um detalhe: as palavras ditas distinguem-se das escritas. As primeiras parecem voar, as segundas ficam. A coragem de quem ousa escrever é compensada com uma honra desconhecida daqueles que não assumem o risco de se escrever. Há, no entanto, um restrito número de homens, que vivem de acordo com valores mais altos, para quem a palavra dita tem ainda mais valor que qualquer escrita. Estes sabem quem são, arriscam-se a sentir e a mudar o mundo, prometem-se em palavras, conhecem o seu valor... e o desvalor dos esquecidos e de todos os demais mentirosos.
O amor capaz de felicidade não é um desejo, porque não visa a sua própria satisfação, mas sim uma forma de ser. Sendo, simplesmente. Não busca capturar o outro para dentro de si, mas tão-somente conseguir que quem o sente seja quem é. Como se quem ama se desse conta de que é apenas a metade da construção de um verdadeiro sorriso.

Pais heróis

Inês Teotónio Pereira, i-online 25 Ago 2012
Admiro imenso os pais que não se importam nada que os filhos sejam completamente diferentes deles

A grande prova de maturidade de um pai é quando ele aceita o filho tal como ele é. É nessa altura que ele se torna plenamente pai. Daqueles pais que quase só existem nos filmes da Disney, ou que vimos de tempos em tempos num restaurante e ficamos pasmados a olhar. Os pais que assumem e aceitam que o filho, antes de ser seu filho, é uma pessoa independente dele, absolutamente autónoma e que até pode ser completamente diferente deles, são os genuínos pais heróis. São o John Wayne dos pais: um homem valente, confiante, sereno, determinado e amigalhaço. Um exemplo.
Os filhos destes pais são todos felizes. São irritantemente valentes, confiantes, serenos, determinados e amigalhaços. São exactamente aquilo que querem e, quando chegam a casa, ninguém os chateia. Estão sempre irritantemente bem dispostos e de bem com a vida e com o mundo. Acham que, como os pais os respeitam, o mundo inteiro os respeita, que por os pais os aceitarem como eles são, podem andar de queixo levantado em todo o lado. A rir e cheios de confiança. Como se vivessem no Rio e passassem o dia de chanatos a beber água de coco. Tipo felizes e cheios de auto-estima.
Eu admiro imenso os pais que não se importam nada que os filhos sejam completamente diferentes deles. Por exemplo, admiro imenso aqueles pais todos certinhos e lavadinhos que não se importam nada que o filho ande na rua com os cabelos até aos pés e por lavar há dez anos, ou que tenha as orelhas e o nariz com mais furos que um passador; da mesma forma que admiro profundamente os pais janados e alternativos que não se ralam nada que o filho seja fã de badminton e que prefira ficar a ler livros sobre o ecossistema das formigas a ir com os amigos para o Boom. Ou seja, no meu entender, os pais que respeitam e aceitam os gostos do filho apesar de não os entenderem e de serem completamente antagónicos dos seus deviam ser condecorados no 10 de Junho. Todos e só eles.
E isto porquê? Porque estes pais são uma raridade. A maioria dos pais acha que os filhos são uma parte de si, tipo braços ou pernas, e a prova disso é que quando eles sofrem, nós também sofremos, e quando eles são elogiados, nós agradecemos. Eles são nossos. E é por serem nossos que têm de ser como nós. Se até o nariz é igual… Emocionalmente, é assim. Não há nada a fazer.
No filme a “Árvore da Vida” ouvi esta frase dita por um pai roído de remorsos pela sua relação com o filho: “Eu fi-lo sentir a minha vergonha.” Está aqui tudo: a vergonha pelos erros, pelas diferenças, pelos defeitos do filho e a convicção de que ele tem de conhecer essa vergonha, que tem de sentir essa vergonha para se corrigir. Tipo castigo. A maioria dos pais é assim, com maior ou menor intensidade, todos temos em algum momento vergonha de qualquer coisa do nosso filho. E o pior é que não o escondemos. E passamos esse fardo para as costas deles. Sem piedade, com um bilhete a dizer: “Olha, corrige-te.”
No dia em que os pais percebem que os defeitos e as qualidade dos filhos são deles, não são herdadas, que os sucessos e os fracassos dos filhos são pessoais e intransmissíveis e que os seus gostos são tão aleatórios quanto a cor do cabelo, começam a olhar para os filhos como pessoas e não como suas obras. Só nesse dia é que se tornam pais; até lá, somos só parvos.
Um pai que não tem vergonha das rastas do filho e nem o faz sentir que tem vergonha da sua aversão pela luta livre, é o pai perfeito.

Lance Armstrong

João Vila-Chã
Facebook post em 2012-08-25
Desde o dia em que morreu Joaquim Agostinho nunca mais me interessei pelo ciclismo; a não ser ainda para "celebrar" alguma corrida de Mercx ou Ocaña. A história de Lance Armstrong, porém, é impressionante, pelo que fico numa posição de ambiguidade. Por um lado, é urgente reconhecer que o doping é uma terrível praga no desporto profissional, uma praga pela qual os patrocinadores e até os simples es
pectadores também têm de reconhecer a sua quota-parte de responsabilidade: querendo sempre mais e só o "melhor", o resultado é a criação de um sistema baseado no engano, na fraude, em suma, no "resultado". A dopagem é um grave atentado não apenas contra as regras do desporto, mas sobretudo contra a saúde corporal dos próprios atletas. Mas também acho que o problema da dopagem tem a sua matriz no ambiente cultural que se vive, pois a raiz do mesmo está no que legitimamente se pode designar por cultura da performance, na imposição cultural de ser capaz de vencer a todo o custo, de querer ser só e apenas o nr. 1. O resultado são vidas/corpos destroçados, ou, como agora no caso de Armstrong, uma fenomenal carreira desportiva com sérios sinais de interrogação. Mas sejamos claros, para o dizer mais uma vez: a dopagem farmacológico tem a sua origem num doping bem mais subtil, aquele que nasce e cresce com a cultura do sucesso a todo o custo, aquele que nasce da rivalidade sem coerência, da fantasia de ser sempre e em tudo o melhor. Dito isto, temos um outro problema, que no caso presente é apenas este: como se explica que as acusações feitas contra Lance Armstrong aconteçam a tal distância do sucedido? Como é possível destroçar a carreira desportiva de alguém baseado em acusações feitas por directos competidores, por adversários, nomeadamente por perdedores? Esta, portanto, a ambiguidade do problema. Armstrong diz estar inocente; se está, isso é o que conta. Inocente, porém, não está o sistema que governa muito boa parte do desporto mundial, mas especialmente o ciclismo. Pessoalmente, sempre achei incrível que um corredor possa vencer a prova ciclística mais dura do mundo em 7 anos consecutivos (ou quase). Agora, ao dar-me conta do que parece ser a “queda” do grande campeão, desejo apenas que o caso possa servir de exemplo e de lição. Entretanto, Lance poderá com toda a justiça continuar a dizer o vencedor que foi: primeiro do cancro que quase o vitimava e, depois, das voltas sem conta do Tour de France. E nós? Pois bem, eu diria apenas a palavra do Evangelho que levou Francisco Xavier, ainda em Paris, à sua conversão: «Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se no processo vier a perder a sua alma?» Afinal, só há um modo de ganhar vitórias que nunca ninguém nos poderá tirar, e é este: ganhar em nós os méritos que são de Cristo!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Mandante em chefe

Correio da manhã, 2012-08-24
Leonardo Ralha

É provável que Barack Obama continue na Casa Branca após as eleições de Novembro. Quase todas as sondagens lhe dão vantagem sobre o republicano Mitt Romney, até agora incapaz de mobilizar os descontentes com a economia e o desemprego nos EUA.
Se é grande a desilusão com Obama neste capítulo, estranha-se o silêncio com que tantas almas gentis, indignadas com detenções ilegais e ‘interrogatórios avançados’ de George W. Bush, encaram a actuação do ex-paladino do primado do direito internacional.
Ao contrário da administração anterior, que capturou elementos da al-Qaeda como Khalid Sheikh Mohammed, ‘arquitecto’ do 11 de Setembro, Obama preferiu matar milhares de presumíveis inimigos. O "presidente letal", como lhe chama a revista ‘Esquire’, decide quem é executado em solo estrangeiro, seja pelas forças especiais que visitaram Bin Laden ou pelas bombas dos ‘drones’ nos céus do Paquistão ou do Iémen.
Mais do que comandante-em-chefe, Obama é o mandante-em-chefe de execuções em que faz de juiz, advogado de defesa e de acusação. E, ao contrário de muitos detidos na base de Guantánamo, nenhum réu volta a casa se provar a inocência.

Acerca do ócio cristão

Ivica Raguz
In Communio, 2011/3
23.08.12
SNPC
Dignidade e perigos do trabalho
«... o homem, criado à imagem de Deus, recebeu o mandamento de dominar a terra com tudo o que ela contém e governar o mundo na justiça e na santidade e, reconhecendo Deus como Criador universal, orientar-se a si e ao universo para Ele; de maneira que, estando todas as coisas sujeitas ao homem, seja glorificado em toda a terra o nome de Deus.» (GS 34) Com estas palavras, a Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II Gaudium et spes sublinhou a dignidade de toda a atividade humana, incluindo o trabalho. Segundo a Gaudium et spes, a dignidade do trabalho tem origem na ideia do homem enquanto imagem de Deus. Enquanto Deus "trabalha" e está ativo, enquanto Deus é Criador do mundo, também o homem, como sua imagem, só pode ser criador, ente ativo, trabalhador na sua atividade.
Em poucas palavras: o homem é trabalhador porque Deus se revelou como trabalhador. Isto pressupõe que o homem no trabalho, «submetendo a si a terra» e «subordinando toda a realidade», pode e deve encontrar alegria na operosidade porque Deus se revelou como trabalhador feliz: «E Deus viu que isto era bom.» Pode dizer-se que a alegria e a dignidade do trabalho derivam de duas realidades fundamentais que lhe são próprias e nas quais se manifesta o princípio do homem criado à imagem de Deus. Em alguns aspetos, a alegria do trabalho consiste na criatividade: o homem experimenta-se a si mesmo como ativo e poderoso ao contribuir para o desenvolvimento do mundo e ao atribuir-lhe a forma desejada. Por outro lado, o trabalho dá alegria ao homem, pois graças a ele exprime a sua liberdade e independência perante os outros. Além disso, trabalhando ganha o seu salário, o que lhe permite ser livre e independente. Pelo contrário, sem trabalho, o homem perde a sua dignidade, torna-se passivo, impotente diante do mundo e dependente.
Charles Wells
Mas as primeiras páginas da Sagrada Escritura revelam uma outra vertente do trabalho, a sua ambiguidade: «E dela [a terra] só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto.» (Gn 3,17-19) O trabalho não dá ao homem apenas alegria, mas também «dor» e «suor». O trabalho é «dor» e «suor» porque, trabalhando, o homem constata em si uma falha. É ativo no trabalho, mas através da sua atividade laboral não pode construir-se totalmente, tem sempre de enfrentar uma margem de incompletude.
Todos nós já experimentámos esse sentimento de incompletude depois da conclusão de um trabalho bem sucedido. Um tal "vazio" revela a imperfeição relativa à interioridade humana: o facto de o trabalho não poder por si só satisfazer plenamente a alma de cada um. Assim, o homem que não conhece nenhuma outra realidade salvo a do trabalho, vive sempre na "dor", experimenta um sentimento de frustração. Está tenso e irrequieto, pois o "vazio" provocado por um trabalho acabado de cumprir estimula-o a preencher o tempo com outro trabalho, a dedicar-se a outra atividade. Esta a tipologia do homem trabalhador vivendo sem paz, perseguindo um ativismo que, segundo Josef Pieper, deriva do desespero. O «trabalhador absoluto» está desesperado porque se mede continuamente com a própria inadequação: sempre deficiente, ele vai de uma atividade desesperada para outra atividade desesperada.
Millet
Pieper sublinha ainda que o trabalho submete o homem a um sistema laboral que cria dependência, «o acorrenta ao processo de trabalho». O sistema de trabalho impõe necessariamente ao ser humano as suas próprias exigências e a produtividade própria. Pode acrescentar-se que um tal sistema gera desigualdade entre os homens. O trabalhador dá-se conta de que é diferente dos outros: não recebe o mesmo salário dos colegas, faz a experiência de a sua dignidade depender frequentemente da importância do seu trabalho, a partir do momento em que os outros o respeitam, ou não, conforme a sua situação. Muitos trabalhadores fizeram a experiência da sua insignificância por o seu trabalho não ter qualquer prestígio social.
Além disso, porque o trabalho é uma atividade que não tem valor por si, mas está ao serviço de uma outra coisa, quem se deixou absorver totalmente pelo trabalho vive sempre fora de si mesmo, não tem tempo para si próprio. Pode dizer-se que no processo laboral o homem se esquece a si mesmo, é alienado pelo trabalho. O filósofo Friedrich Nietzsche pôs claramente em evidência os riscos inerentes ao trabalho, que já referimos: «Na glorificação do “trabalho”, nos incansáveis discursos acerca da “bênção do trabalho”, vejo a mesma segunda intenção que se esconde nos elogios das ações impessoais de utilidade geral: o medo, a saber, de toda a realidade individual. No fundo, perante o trabalho - e com isto entende-se sempre aquela fatigante atividade que dura de manhã à noite -, sente-se hoje que o trabalho enquanto tal constitui a melhor polícia pois mantém cada um com rédea curta e consegue impedir vigorosamente o potenciar da razão, da cupidez, do desejo de independência. Ele consome de modo extraordinário uma grande quantidade de energia nervosa e subtrai-a à reflexão, à meditação, ao sonhar, ao preocupar-se, ao amar, ao odiar; coloca diante dos olhos um pequeno objetivo e obtém fáceis e regulares satisfações. Assim, uma sociedade em que continuamente se trabalha duramente, terá maior segurança: e hoje adora-se a segurança como a suprema divindade.»
Adolph Menzel
O homem, totalmente prisioneiro do trabalho, está fatigado, encontra-se sempre no "sofrimento" do exaurir físico e psíquico. Devido a este exaurir, não só não consegue desenvolver uma atitude crítica no confronto consigo mesmo, com os outros ou com a sociedade, como também não pode dar espaço às relações pessoais em família, não pode amar, não tem tempo livre e já não tem força para cultivar amizades. Deste modo, o «trabalhador absoluto» torna-se uma engrenagem não pensante e insignificante na máquina do processo laboral.

Tempo livre na sociedade moderna
A nossa análise um pouco pessimista do trabalho na sociedade contemporânea levar-nos-ia a pensar que não existe nada mais para além do trabalho. E claro que o homem que trabalhasse sem cessar, não poderia em última análise trabalhar para nada. Por isso, o sistema laboral da nossa sociedade inventou «o tempo livre». Já não se fala de ócio, mas de tempo livre.
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Que implica esta evolução lexical que, partindo do ócio, termina no tempo livre? Para Jürgen Habermas, «o tempo livre» é o tempo no qual se «consome a cultura». Ao invés, o ócio é o tempo que «cria a cultura». No tempo livre o indivíduo é instrumentalizado, subordinado ao consumo em que não há lugar à emancipação do homem. Habermas sublinha ainda que o tempo livre das sociedades modernas é completamente absorvido pelo processo laboral. Está apenas ao serviço do trabalho: como período necessário à regeneração de energias, como interrupção e compensação do trabalho.
Para melhor entender estas três dimensões do tempo livre, servir-nos-emos da definição de Aristóteles para o ócio: «Crê-se que a felicidade consista no ócio: de facto, trabalhamos para alcançar o ócio.» O tempo livre pode ser entendido como o ócio invertido. Privamo-nos do trabalho para sermos regenerados, i.e., para podermos restaurar novas forças para o trabalho. No que diz respeito à interrupção, o tempo livre suspende o trabalho quotidiano para que possamos dedicar-nos a outras ocupações que nos dão a ilusão de termos mais sucesso que no trabalho quotidiano. O tempo livre como compensação significa, ao contrário, que renunciamos ao trabalho para nos dedicarmos às atividades não-laborais. O tempo livre deveria preencher o vazio causado pelo trabalho e compensar o seu empenho com uma não-atividade.
© Matthias Kulka/Corbis
Pode ver-se que a perceção atual do tempo livre não sai do círculo vicioso do processo laboral: o tempo livre define-se como um outro trabalho ou somente como não-atividade. Queremos deter-nos um pouco nesta segunda dimensão do tempo livre. Com frequência, este tempo livre como não-atividade torna-se um tempo triste, como diz o poeta croata Dobrisa Cesaric falando da experiência do domingo: «Domingo. Triste». Sim, o tempo livre torna-se triste porque quando não se trabalha não se sabe o que fazer consigo próprio e com os outros. Estamos de tal maneira habituados ao trabalho, que não sabemos que fazer quando não trabalhamos. Este tempo livre e triste assusta-nos porque é entediante, e queremos evitá-lo o mais efetivamente possível. Queremos, como se costuma dizer, «matar o tempo». O tempo «mata-se» com os vários «vícios» do corpo: a embriaguez de fim de semana, o «repouso» nos centros comerciais, as violências em família e nas estradas, o estar todo o dia diante da televisão ou ao computador, etc. Escutemos o que pensa sobre isso Cesaric: «Ao domingo quando o trabalho encerra/ então, a miséria bebe, bebe,/ alguém canta com voz rouca/ e alguém bate na mulher». Em resumo, pode ter-se a impressão de que o homem, embora pareça esperar ansiosamente o tempo livre, no fundo quer regressar ao trabalho, prefere o trabalho porque este tempo livre é triste. Neste sentido tornam-se significativas as palavras de Charles Baudelaire: «Devemos trabalhar, se não por gosto, ao menos por desespero. A verdade, portanto, é que o trabalho é menos enfadonho que o divertimento.»
 
© Allen Bradley/ImageZoo/Corbis
 
Ócio cristão para lá do trabalho e do tempo livre
Após ter apresentado a questão do trabalho e do tempo livre na sociedade contemporânea, pretende-se agora esboçar uma pequena teologia do ócio. Como já vimos, o tempo livre, tal como se vive na sociedade atual, não liberta o homem do processo de trabalho mas arrasta-o ainda mais para o seu contexto. Disto estão também conscientes os pensadores que não aceitam a visão cristã e teológica do ócio. A propósito deste ócio para lá do tempo livre, já Nietzsche, quando descreve a necessidade de uma arquitetura íntima na qual possamos pensar e praticar a nossa liberdade, escreve: «Será necessário, num momento ou noutro, e provavelmente num futuro próximo, dar-se conta daquilo que falta sobretudo nas nossas grandes cidades: lugares tranquilos e amplos, de grande dimensão, para a meditação, lugares com longas galerias extremamente espaçosas para quando o tempo está mau ou há demasiado sol, nos quais não entre o alarido dos carros e dos vendedores ambulantes, e nos quais um mais fino respeito pelas conveniências proíbe também ao padre pregar em voz alta; construções e jardins públicos que exprimam no seu conjunto a sublimidade da meditação e do agir solitário.» De certa maneira, Nietzsche sugere-nos «uma arquitetura do ócio» na qual o homem pode meditar livre e tranquilamente.
Renoir
O filósofo alemão está perfeitamente consciente da submissão do homem moderno à mentalidade do trabalho e, por consequência, do tempo livre despendido entre «ruídos» que corroem a faculdade de pensar. Também nós procuraremos definir o ócio para lá do trabalho e do tempo livre. O que não significa que o ócio não tenha qualquer importância e qualquer relação com o trabalho. Ao contrário, o ócio abre-nos a uma nova perspetiva e visão do trabalho, no seu conjunto relativizante e libertador. Por fim, tornar-nos-á capazes de trabalhar ainda mais.
O que é o ócio? Vimos que o trabalho tem diversas dimensões: a da atividade progressiva e a da liberdade como independência; depois, a da "dor" da tensão contínua e a da subordinação ao processo laboral. O ócio representa as outras dimensões da vida humana: liberdade como recetividade e dependência, alegria da plenitude, liturgia da liberdade do sistema laboral num espaço e num tempo bem definidos.
Monet
Liberdade como recetividade e dependência
No trabalho o homem progride continuamente, apropria-se do mundo, modela-o segundo a sua visão. Isto dá-lhe um forte sentimento de autonomia e de independência. Mas a vida humana não se esgota nesta atividade. Pode dizer-se que aquilo que produz sentido para o homem, que o completa - quer dizer, as relações pes­soais de amor e de amizade - não se conquista, é antes oferecido e recebe-se. Neste sentido, o ócio é certamente uma atividade, mas uma atividade que requer passividade: não nos impomos ao outro, mas retiramo-nos perante o outro para receber e acolher. O homem aceita depender do outro, aprende com o outro e abre-se a ele: «O ócio não é uma atitude daquele que intervém, mas daquele que se abre; não daquele que se empenha em fazer mas daquele que deixa, que se deixa e abandona - quase como um adormecido que se abandona (só aquele que se abandona pode dormir).» Deste modo, realiza-se no ócio uma outra experiência de liberdade. Esta última não se revela na independência e no isolamento do outro, mas antes na dependência e na abertura ao outro. Seguindo Karl Rahner podemos dizer que se trata de «uma liberdade que recebe, disponibilidade que é disposta, responsabilidade que se confia, obra que sofre, expressão da impressão.»
Childe Hassam
Alegria da plenitude
No trabalho há sempre "dor" e "suor", porque as atividades laborais não têm sentido por si mesmas. O trabalho está, assim, profundamente penetrado pela lógica da utilidade: trabalha-se para ser útil, para se obter algo. Neste sentido, o homem que trabalha nunca mais para, sente-se insatisfeito, tenso e voltado para algo que quer alcançar. Ao invés, o ócio é uma atividade que tem sentido. No ócio experimenta-se e recebe-se a plenitude que transmite alegria ao ser humano no seu todo: à alma e ao corpo. A atividade humana fica suspensa diante desta plenitude: desfruta-a e regozija-se com ela. A tensão é menor em favor de um tranquilo abandono: já não se trata de ser útil, mas de se alegrar com a plenitude. O ócio não é meramente um não-trabalho, uma não-atividade de que se pode fazer a experiência no tempo livre. É importante notar a perturbação de quantos fizeram, pela primeira vez, a experiência do ócio: não sabem que fazer. Querem logo ser úteis, fazer algo, retribuir de imediato aquilo que outros lhes deram. Propõem-se corresponder logo à gratuidade do dom que receberam, pois sentem-se ameaçados pela dependência provocada por se terem tornado passíveis de gratuidade. Querem logo restabelecer uma hipotética "justiça" com o outro. Esta "imediatez" de reação confirma que estas pessoas ainda não começaram a viver o verdadeiro ócio, o ócio da recetividade e da alegria da plenitude, a graça de serem destinatários do dom, que não se deve retribuir "logo". Não se deve "logo" restabelecer a justiça com o outro, mas recebe-se a graça da dependência em relação ao outro, a graça que "lentamente" se frui. Por outro lado, o ócio não comporta o sentido de vazio inerente ao tempo livre, durante o qual se deve ter algo para "fazer", que se deve freneticamente preencher. O ócio é a plenitude que nos cumula de paz e tranquilidade.
Renoir
Contudo, como podemos dispor-nos ao ócio na recetividade e na alegria da plenitude? Para começar, o ócio pode ser vivido compartilhando uma refeição. Convida-se alguém para comer de forma inteiramente gratuita, apenas para dar ao outro e ser passível de dom da parte do outro. Convidar e deixar-se convidar para um festim é uma operação aparentemente simples, mas o homem de hoje está, com frequência, privado de tal iniciativa. Já não se tem tempo (trabalha-se ininterruptamente!) para estarmos juntos, para comermos e bebermos juntos. No festim desenvolvem-se relações de amor e amizade. Fala-se com o outro, escutamo-lo. Partilham-se reciprocamente as alegrias e os êxitos, mas também as tristezas e as angústias do outro. Deste modo, o ócio do festim cria a comunhão corporal e espiritual. O ócio pode concretizar-se igualmente através de passeios pela natureza, pois aí não se faz nada, não se trabalha, mas acolhe-se a sua beleza, a sua tranquilidade e a sua força. Além disso, pode exercitar-se o ócio ainda lendo um bom livro que não nos é imediatamente "útil". E pratica-se também o ócio nas visitas aos outros, no fazer boas obras, para lá de qualquer interesse e utilidade.
Monet
Por fim, pode defender-se que o ócio nos dá uma outra visão de nós mesmos, do outro e do mundo, visão a que se poderá chamar "órfica", por oposição à atividade laboral que persegue de preferência um princípio prometeico. Orfeu canta Deus, a natureza, o outro. O seu canto não é interessado, não se compraz na vontade de poder e na procura do útil. Orfeu maravilha-se, agradece, rejubila e recebe através do seu canto a plenitude da realidade. Escreve Rilke sobre Orfeu: «O canto que tu mostras não é cobiça, não procura uma meta que seja alcançada ao final. Canto é existência.» Karl Rahner chama ao ócio o tempo das musas, «o tempo musical»: «O tempo musical é relaxamento, algo que não se projeta nem se produz, tornar-se disponível e confiar nas insuperáveis forças da existência, esperar o irromper de algo de incalculável e de oferecido, acolhimento da graça, o sentido sem objetivo.» (...)

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Somos uns calimeros

Negócios online 22 Agosto 2012 | 23:30
Camilo Lourenço - camilolourenco@gmail.com

Em 19 de Janeiro deste ano os juros da dívida a 10 anos estavam em 14,67%; ontem caíram para 9,18%. Em 19 de Janeiro os juros a cinco anos estavam em 18,46%; ontem caíram para 7,83%. Já no prazo a dois anos os juros estavam em 16,6% e ontem desceram para 4,76%. De referir que a comparação peca por defeito: o valor mais elevado ocorreu no final de Janeiro (os juros a cinco anos chegaram a encostar nos 21%)…

Nos prazos de dois e cinco anos os juros até já estão abaixo dos valores de antes do pedido de ajuda externa. A descida é tanto mais notável porque ela se mantém apesar da queda do PIB (3,3% em termos homólogos) no segundo trimestre de 2012 e da turbulência em Espanha, para onde vão 24% das nossas exportações.

Explicações para este comportamento há-as para todos os gostos: eventual intervenção do BCE; abertura a cedências no programa da Grécia; descida dos juros espanhóis e italianos… Há outra explicação, com mais peso: o trabalho desenvolvido por Vítor Gaspar no controlo das Finanças Públicas, que os investidores estão finalmente a reconhecer (a tendência de descida vem de Fevereiro…).

Confesso que não entendo como é possível ignorarmos (analistas, políticos, opinion makers, etc) uma vitória como esta. Sim, porque é uma vitória (alguns cépticos até já dizem que é provável o regresso aos mercados em 2013…). Há muita coisa por fazer (estimular o investimento, reduzir o desemprego, aumentar a produtividade, voltar a crescer)? Sem dúvida. Mas para um país pequeno, que não gera capital suficiente para se desenvolver, convencer os investidores (em tão pouco tempo) que lhe podem voltar a emprestar dinheiro, é obra. Repito: é obra. Convinha que valorizássemos isso

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

22 de Agosto - Nossa Senhora Rainha

Coroação da Virgem
Sandro Boticelli (1488-1490)
 Têmpera sobre madeira
(378 cm x 258 cm)
Este altar que originalmente estava na capela de Santo Aló na igreja de San Marco está actualmente na Galleria dei Uffizi (encomendado pela Corporação dos Ourives)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O homem é feito para procurar e encontrar o infinito

Mensagem de Bento XVI ao bispo de Rímini na abertura do XXXIII Encontro da Amizade entre os Povos
Antonio Gaspari
RÍMINI, Itália, terça-feira, 21 de agosto de 2012 (ZENIT.org) - "Dizer que a natureza do homem é a relação com o infinito é dizer que toda pessoa foi criada para entrar em diálogo com Deus".
Partindo do lema do encontro, A natureza do homem é relação com o infinito, o papa destaca que "falar do homem e do seu desejo de infinito significa reconhecer a sua relação constitutiva com o Criador".
Porque "o homem é uma criatura de Deus" e, mesmo se hoje a palavra criatura parece fora de moda, é evidente que "permanece no homem o desejo arrebatador" do diálogo com o Criador.
De acordo com o pontífice, tender ao infinito é uma característica “indelével no coração do homem”, e, mesmo quando ele “rejeita ou nega Deus, não desaparece a sede do infinito que habita o homem”.
O problema é situado naquilo que Bento XVI chama de "busca frenética e estéril de falsos infinitos", ou seja, "nas drogas, na sexualidade vivida de forma desordenada, nas tecnologias totalizantes, no sucesso a qualquer custo e até mesmo em formas enganosas de religiosidade".
O bispo de Roma explica que "mesmo as coisas boas, que Deus criou como estradas que levam a ele, muitas vezes correm o risco de ser absolutizadas e tornar-se ídolos que substituem o Criador".
Para chegar ao verdadeiro infinito, é preciso "percorrer um caminho de purificação, um caminho de conversão do coração e da mente. Temos que erradicar todas as falsas promessas de infinito que seduzem o homem e o tornam escravo".
"Para realmente encontrar a si mesmo e a própria identidade, para viver à altura do próprio ser, o homem tem que voltar a se reconhecer como criatura, dependente de Deus".
Na segunda parte da mensagem, o Santo Padre explica que Deus é tão bom que faz o infinito chegar ao homem através de uma forma finita.
"Com a encarnação, desde o momento em que o Verbo se fez carne, foi eliminada a distância intransponível entre o finito e o infinito: o Deus eterno e infinito deixa o seu céu e entra no tempo, imerso na existência finita humana". A descida de Jesus à Terra indica que "nada é trivial nem insignificante na jornada da vida e do mundo".
“O homem”, escreve o papa, “é feito por um Deus infinito que se fez carne, que assumiu a nossa humanidade para elevá-la às alturas do seu ser divino".
Por isso, ressaltou, "não devemos ter medo do que Deus nos pede através das circunstâncias da vida. (...) Chamando alguns a viver totalmente para Ele, Deus chama todos a reconhecer a essência da própria natureza de seres humanos: feitos para o infinito".
Bento XVI conclui dizendo que "Deus deseja em seu coração a nossa felicidade, a nossa plena realização humana". O papa nos convida a "entrar e permanecer no âmbito do olhar de fé que caracterizou os santos, para descobrirmos as sementes do bem que o Senhor espalha ao longo do caminho da nossa vida e abraçarmos com alegria a nossa própria vocação".
 (Trad.:ZENIT)