sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O que a vaca e o burro (dentro ou fora) do presépio dizem sobre a espiritualidade contemporânea

José María Gil Tamayo
Título original: O meu vizinho ateu
In L'Osservatore Romano, 30.11.2012
30.11.12 SNPC


Surpreende o facto de que em certos meios de comunicação o conteúdo central do livro de Bento XVI, A infância de Jesus, foi posto em segundo plano em relação à questão da presença ou não do boi e do burro na gruta de Belém. Desviando a atenção do ponto focal da obra que, como o próprio Papa sublinhou, não é um ato de ensinamento pontifício, mas a expressão da sua pesquisa pessoal e teológica sobre o rosto do Senhor.
Talvez, além do aspeto anedótico, a confusão mediática seja um sinal da secularização e da desertificação espiritual que Bento XVI identifica como o problema principal que a Igreja deve enfrentar no nosso tempo. E um dos sintomas mais dolorosos é a marginalização silenciosa e transversal de Deus da vida pessoal e pública.
Afirma-o também o arcebispo e teólogo espanhol Fernando Sebastián na sua última obra La fe que nos salva, quando afirma que «o problema número um da Igreja de hoje consiste em ajudar as pessoas a crer». Com efeito, na sua opinião, «ontem o ateísmo subsistia na mente de alguns filósofos. Hoje, temo-lo em casa, nos primos, nos sobrinhos e nos vizinhos. O ateísmo envolve todos nós, e o viver como se Deus não existisse tornou-se uma espécie de ateísmo por omissão». Remediar a esta situação e voltar a pôr Deus no centro é o que Bento XVI está a fazer.
Para o Papa, este compromisso é necessário também na Igreja, porque «o desafio de uma mentalidade fechada ao transcendente — disse a 25 de novembro de 2011 — obriga também os próprios cristãos a voltar de modo mais decidido à centralidade de Deus (…) Por isso, não menos urgente é propor de novo a questão de Deus, inclusive no próprio tecido eclesial».
A este compromisso de voltar a Deus, Bento XVI dedica há mais de um mês as suas catequeses de quarta-feira. Como aconteceu no passado, nas lições de teologia que o professor Joseph Ratzinger dava aos estudantes universitários de Tübingen — reunidas há mais de quarenta anos no volume Einführung in das Christentum («Introdução ao Cristianismo» — assim no atual ciclo de catequeses o Papa explicou que a «fé não é simples assentimento intelectual do homem a verdades particulares sobre Deus; é um gesto mediante o qual me confio livremente a um Deus que é Pai e que me ama; é adesão a um “Tu” que me dá esperança e confiança. Sem dúvida, esta adesão a Deus não está isenta de conteúdos: com ela estamos conscientes de que o próprio Deus nos é indicado em Cristo, mostrou o seu rosto e fez-se realmente próximo de cada um de nós» (24 de outubro de 2012).
Esta é a proposta fundamental do Ano da Fé, que o Pontífice proclamou para reavivar na Igreja a alegria de crer através da recuperação do primado de Deus, pois «se Deus perder a centralidade, o homem perde o seu justo lugar, e não encontra mais a sua colocação na criação, nas relações com os outros» (14 de novembro de 2012). Sem Deus, tudo de volta contra o homem.
Por sua vez o homem, que Bento XVI define «mendigo de Deus», traz em si mesmo «um desejo misterioso de Deus» (7 de novembro de 2012), que não pode permanecer uma paixão inútil, mas deve transformar-se num anseio profundo, alimentado pelas alegrias autênticas e pelo desejo de plenitude.
Sem dúvida, a resposta do homem é essencialmente resposta a Deus: mas, também e precisamente por isso, é resposta aos outros, através da obra de evangelização, que por sua vez é comunicação com Deus. «Falar de Deus — recorda o Papa — é comunicar, com força e simplicidade, com a palavra e a vida, aquilo que é essencial: o Deus de Jesus Cristo, aquele Deus que nos mostrou um amor tão grande, a ponto de se encarnar, morrer e ressuscitar por nós; aquele Deus que pede para O seguir e para se deixar transformar pelo seu amor imenso, para renovar a nossa vida e os nossos relacionamentos; aquele Deus que nos concedeu a Igreja, para caminharmos juntos e, através da Palavra e dos Sacramentos, renovarmos toda a Cidade dos homens, a fim de que ela possa tornar-se Cidade de Deus» (28 de novembro de 2012).
As de Bento XVI são catequeses do essencial, para conduzir a Deus os homens e as mulheres do nosso tempo.

Festas Nicolinas agitam Capital Europeia da Cultura e recordam devoção a S. Nicolau

Câmara Municipal de Guimarães, et al.
30.11.12


Começam este sábado em Guimarães, pelas 6h00 da manhã, as "novenas" das Festas Nicolinas, tradição com origem na devoção cristã a São Nicolau, bispo de Mira, atual Turquia, que morreu em meados do século IV.
Às "novenas", que deixaram de ser rezadas nos habituais nove dias, sucede a principal missa das Festas, no domingo, antecedida por concentração junto à Capela de São Nicolau, pelas 11h00.
Ao meio dia é celebrada eucaristia na igreja de Nossa Senhora da Oliveira por todos os membros vivos e falecidos da Irmandade de S. Nicolau.
Durante a celebração será inaugurada a obra de conservação e restauro da tela e altar de São Nicolau.
Após a missa sai a procissão, com acompanhamento dos irmãos e restantes fiéis, para reconduzir a imagem de São Nicolau à sua capela. Participam os estudantes nicolinos com caixas e bombos.
O culto a S. Nicolau, que se espalhou pela Europa sobretudo a partir do século X, terá chegado a Guimarães através dos peregrinos que se deslocavam à cidade para venerarem a imagem de Santa Maria, e também devido à passagem de romeiros de e para Santiago de Compostela.
S. Nicolau está ligado à devoção popular como protetor das raparigas pobres, perseguidos, comerciantes, crianças, e presos.
A fama de S. Nicolau espalhou-se pelo cristianismo, documentada por igrejas e obras de arte, por instituições e tradições ligadas ao seu nome. As narrativas referem que enquanto bispo de Mira executava milagres consecutivos. Mas os dados seguros sobre a sua vida são escassos.
Paralelamente a estas devoções, S. Nicolau é também patrono dos estudantes. Reza a lenda que três jovens em idade escolar foram esquartejadas por um ladrão e quando São Nicolau se aproximou deles devolveu-lhes a vida.
As celebrações eram inicialmente de cariz exclusivamente religioso. Com o passar do tempo vão sendo incluídas manifestações de caráter profano, tais como cantares e danças.
O culto foi depois apropriado pelos estudantes, que construíram uma capela em honra de São Nicolau entre 1663-64.
Inicialmente as festas só eram assinaladas no dia reservado no calendário religioso a S. Nicolau, 6 de dezembro. Pela manhã os estudantes participavam na missa com sermão e à tarde as celebrações assumiam uma índole profana, com a realização de jogos populares.
Mais tarde as celebrações começaram a ser assinaladas a 5 de dezembro, quando era anunciado o programa do dia seguinte através de um pregoeiro que percorria as ruas da cidade.
Os festejos passaram depois a iniciar-se a 29 de novembro e a terminar a 7 de dezembro, período que hoje se mantém..
Formalmente, as Nicolinas surgem em 1691, altura da criação formal da Irmandade de S. Nicolau, com os seus estatutos.
Atuais e antigos estudantes (os Novos e os Velhos Nicolinos), reúnem-se numa tradição que ciclicamente abre uma semana em que se celebra a vida.

Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo

Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo

Banco Alimentar em nova campanha

Recolha de donativos começou online e vai estender-se às cadeias de supermercados e hipermercados

Lisboa, 30 nov 2012 (Ecclesia) – A presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares (FPBA) disse à Agência ECCLESIA que a instituição conta com a solidariedade da população, numa nova campanha de solidariedade, para responder ao aumento de pedidos de ajuda.
“Infelizmente, são cada vez mais os que precisam de ajuda para se alimentar e tenho a certeza de que há cada vez mais pessoas solidárias, que vão dar tudo o que podem porque há quem precise delas”, referiu Isabel Jonet, antecipando a recolha de alimentos que vai ter lugar em várias cadeias de supermercados e hipermercados no sábado e domingo.
A partir de sábado e até ao dia 9 de dezembro, decorrerá a Campanha ‘Ajuda Vale’, que permite a recolha de alimentos em superfícies comerciais sob a forma de vales que representam alguns produtos básicos.
Nos dias 26 e 27 de maio, os Bancos Alimentares Contra a Fome recolheram um total de 2644 toneladas de géneros alimentares na campanha realizada em 1655 superfícies comerciais, com a ajuda de mais de 37 mil voluntários.
Isabel Jonet elogia a “harmonia” entre pessoas de várias proveniências e convicções em volta de uma causa comum, “dar de comer a quem tem fome”.
Os géneros alimentares recolhidos foram distribuídos a mais de 2100 Instituições de Solidariedade Social, que os entregam a 337 mil pessoas com carências alimentares, sob a forma de cabazes ou de refeições confecionadas.
A 42ª campanha do género é complementada desde sexta-feira, até ao dia 9 do próximo mês, pela recolha de donativos online, em www.bancoalimentar.pt.
Para Isabel Jonet, esta é uma forma de alcançar, por exemplo, “os emigrantes portugueses que queriam contribuir” ou “os mais jovens, que não costumam ir às compras”.
“O facto de os projetos de solidariedade poderem envolver e mobilizar mais pessoas abre um mundo novo”, prossegue.
Na última campanha online, em maio, a FPBA teve a visita de pessoas de 95 países.
A Liga Portuguesa de Futebol Profissional, em parceria com os Bancos Alimentares contra a Fome, promoveu na última jornada dos campeonatos por si organizados a campanha “Liga Contra a Fome”, com o objetivo de sensibilizar a sociedade para a problemática das carências alimentares em Portugal, bem como angariar alimentos através do site www.alimentestaideia.net.
“Campanha após campanha, vamos tendo doações através deste canal”, conclui Isabel Jonet.

Faleceu Herói Pró-Vida Internacional Pouco Reconhecido

Friday Fax, 2012-11-30

WASHINGTON, DC, 30 de novembro (C-FAM) Contam que Richard Wilkins estava deitado na sua cama certa noite na década de 1990 e não conseguia dormir. Ele não conseguia tirar algo de sua cabeça, a ideia maluca de que ele tinha de viajar meio mundo para participar de um evento chamado Conferência de Habitação da ONU em Istambul. Wilkins nunca havia estado numa conferência da ONU antes. Mas ele foi.
Pelo fato de que ele estava conectado a uma instituição chamada Faculdade Kennedy na Universidade Brigham Young, eles achavam que ele era de Harvard e pediram que ele falasse. Ele deu um discurso muito forte sobre a importância da família. Delegados o buscaram, entre eles sauditas. Richard de certo modo convenceu os sauditas a falarem à vontade, pois eles raramente fazem, mas aí eles ajudaram Richard a bloquear uma perigosa linguagem antifamília, impedindo-a de ser introduzida no documento.
Esse era Richard, impetuoso, entusiasmado, convincente e eficaz.
Richard se tornou um dos mais eficientes defensores pró-vida e pró-família a nível internacional. Ele era uma presença constante nos corredores da ONU e delegados corriam para consultá-lo. Como professor de direito com grande amor em seu coração por seu próximo, eles sabiam que podiam confiar nele.
Richard fundou o muito influente Fórum Mundial de Políticas da Família, que era uma reunião anual de diplomatas de elevada patente na Faculdade Kennedy na Universidade Brigham Young (UBY) onde Richard era professor. Diplomatas vinham do mundo inteiro para três dias de palestras intensas, e para interações que se traduziram numa coalizão crescente e mais poderosa na ONU.
Lamentavelmente, os esquerdistas na UBY — há esquerdistas em toda parte — minaram o trabalho de Richard. Todo ano ele tinha de lutar para manter seu programa e sua presença na ONU. Muitos de nós anualmente escreveriam cartas para o presidente da Universidade Brigham Young para explicar a importância do trabalho de Richard. Mas eles acabaram atingindo-o. Seu programa acabou sendo eliminado.
Richard escapou para Catar para viver no deserto e para fundar um instituto de política de família sob o patrocínio de Sheika de Catar, a terceira esposa do emir de Catar. Esse instituto patrocinou importantes conferências no mundo inteiro. Sob a liderança de Richard o Catar veio a sediar o Ano da Família da ONU, que ocorrerá em 2014.
Uma coisa que não era muito conhecida sobre Richard era que ele era um talentoso ator dramático. Ele cantava como personagem principal todo ano na produção da UBY de “A Christmas Story.” Aqueles que o viam falar sabiam que havia um ator enterrado não muito abaixo da superfície.
Com apenas 59 anos de idade, na manhã depois do Dia de Ação de Graças, Richard sofreu um forte ataque do coração. Ele estava muito mal e inconsciente no hospital até segunda-feira de noite quando ele faleceu.
Tributos para Richard estão vindo do mundo inteiro.
John Klink, que por muitos anos negociou documentos para o Vaticano na ONU, disse: “Perdemos o corajoso Richard. Estou pessoalmente triste não só com a perda de um valente defensor da vida. As contribuições de Richard eram grandes — tão grandes que constituem um presente belo e permanente para a humanidade e um exemplo magnifico de uma vida que foi vivida de forma brilhante.”
Anna Záborská, representante da Eslováquia no Parlamento Europeu e ex-presidente do Comitê Parlamentar Europeu para Direitos das Mulheres, disse: “Comemoramos Richard Wilkins como um extraordinário especialista legal internacional destacando o possível impacto negativo da extinta Constituição da UE, e a Carta Fundamental de Direitos da UE, sobre questões de família e vida. Graças à experiência internacional de Richards, conseguimos finalmente limitar as tentativas da UE contra a família natural na UE. Enquanto organizo neste final de semana em Bratislava a primeira conferência preparatória dos países membros orientais e centrais da UE para o aniversário de 20 anos do Ano Internacional da Família, teremos um minuto de silêncio para honrar o compromisso de Richards para com a elaboração de políticas internacionais em favor da família.”
Alan Carlson, fundador do Congresso Mundial de Famílias, disse: “Richard era um dos maiores e mais vigorosos defensores da família natural. Ele era especialmente eficaz em assuntos legais envolvendo a família na ONU. Richard era um parceiro vital em tornar o Congresso Mundial de Genebra o sucesso que foi e preparou o terreno e estabeleceu padrões para todos os nossos futuros congressos.”
Janice Shaw Crouse, do Instituto Beverly LeHaye e Concerned Women for America, disse: “Richard era um dos membros mais dedicados e estratégicos de nossa coalizão pró-vida/pró-família. Ele permanecia firme no princípio enquanto confrontava os inimigos com charme e sabedoria. Ele entendia o poder do princípio bem como a influência dos relacionamentos pessoais. Sentiremos muito a falta dele, tanto como colega quanto como amigo.”
Bill Saunders, vice-presidente sênior da organização Americanos Unidos pela Vida, disse: “Ele era uma advogado maravilhoso e um grande amigo, talvez até um homem insubstituível. Uma perda grande e inesperada não só para sua família, mas também para as famílias do mundo inteiro.”
Estamos de luto pela morte dele.

A Igreja saiu à rua

Foi com estas palavras comovidas que o administrador da Sociedade do Campo Pequeno salientou o que mais o tinha impressionado nestes três dias do Meeting “Fé: o grande método da razão que ontem terminou em Lisboa”.
Explicou que o que nunca tinha visto na sua longa vida de católico praticante tinha sido este movimento de dentro para fora, do templo para um centro comercial, anunciando por via do testemunho de pessoas concretas, vidas que encontram um significado novo na familiaridade com Jesus Cristo. E isto feito de forma anónima, isto é, sem procurar vender uma imagem e sem se querer impor. Contou que, nos primeiros contactos, julgou que os promotores quisessem um espaço dentro do centro comercial e ficou impressionado com o que viu acontecer: a utilização de um espaço próprio (a arena do Campo Pequeno) onde as pessoas anónimas podiam entrar livremente e ver e ouvir.
Acrescento eu: é este o método que nos é lembrado hoje, dia de Santo André, o primeiro discípulo: “Vinde e vede”.
Fiquei ontem a saber que a exposição “Fé: o grande método da razão” foi visitado por mais de 2000 pessoas e as sessões em que pude estar presente, no primeiro e no último dia estiveram sempre com as cadeiras todas ocupadas.
O dia de ontem foi ainda especial porque “fui e vi” um acontecimento de que não tenho memória nos meus quarenta anos de vida universitária numa universidade pública. No ISEG, anunciado ontem na sua página oficial, iniciou-se um ciclo de conferências intitulado “Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo”. A primeira conferência esteve a cargo do Prof. João César das Neves, com quem aprendo sempre uma nova forma de olhar para as coisas que parecem já conhecidas. É absolutamente notável que um grupo de docentes, alunos e funcionários reunidos sobre o lema “Economia e Fé” tenha conseguido levar a cabo uma iniciativa com esta na universidade laica e republicana.
É caso para dizer que ontem a Igreja saiu à rua!

O Rato que Ruge

Fernando Melro dos Santos,
Estado Sentido, 30.11.12

Hoje senti na pele um dos problemas mais graves que assolam, e assolarão ainda mais, os Portugueses.
Levei o meu carro, que tem quatro anos, à inspecção obrigatória. Devia talvez ter pedido um parecer ao constitucionalista Jorge Miranda, porque segundo o mesmo, se é obrigatória devia ser gratuita. Mas não foi, larguei lá 28 euros.
O meu carro, que está em perfeito estado de conservação exterior e mecânica, tem à frente um pneu 225/45 marca Yokohama, e um pneu 225/45 marca NanKang, a única que havia em Alcains quando lá tive um furo nesta Páscoa, por acaso na Sexta-Feira Santa. Ambos os pneus são novos, com cerca de 8 mil km feitos.
Ora o meu carro chumbou. Os pneus são novos e da mesma medida, mas não são, de acordo com as normas, iguais. E agora tenho que optar entre deitar fora um pneu novo de 120 euros, ou esperar que não me multem, na estrada, no valor de 250 euros.
Eu, graças a Deus, posso (embora não queira nem deva) comprar um pneu novo de 100 euros. Até poderia pagar (embora não quisesse nem devesse) pagar a multa de 250 euros. Portanto vou agir como se não pudesse, que é o caso da grande maioria dos condutores (e demais pessoas de bem) a quem são impostos regulamentos do Primeiro Mundo, numa realidade do Terceiro: estradas esburacadas que obrigam a manutenção acrescida, preços da manutenção e do próprio cumprimento das normas desconexos com os níveis salariais, e assim por diante.
Isto é mais ou menos a mesma brincadeira do IMI. E se ninguém pagar? Penhora-se 50 mil casas? Apreende-se 50 mil carros? E a populaça, continua a dizer, de ombros encolhidos, "olhe, eles é que mandam" mesmo sabendo que o dinheiro esbulhado nem sequer dura quinze dias nos cofres do Estado, que depressa o rebentará num banquete qualquer?
Bom, era só. Podem vir os anónimos malhar.

Peculiaridades duma República Portuguesa

João Távora, i-online em 30 Nov 2012
     
Decidiu a maioria governamental, como medida profiláctica contra a proverbial improdutividade doméstica, eliminar quatro feriados nacionais, dois religiosos e dois civis. É assim que, da sua exclusiva competência, o governo dá como eliminados o 5 de Outubro e o 1º de Dezembro, numa curiosa medida que visa uma certa reciprocidade: com uma espécie de lei de talião, nem “tradicionalistas” nem “progressistas” (que me desculpe o leitor estes abusivos chavões) se ficam a rir. Esta solução aparentemente equitativa esconde contudo um fatal equívoco, porque sendo consensual que a revolução de 5 de Outubro de 1910 dividiu profundamente o país, é inegável que a restauração da independência, em 1640, uniu os portugueses em torno dum projecto de soberania que possibilita existirmos formalmente como tal e alimentarmos esta ou outras polémicas. De resto duvida-se que, no mais que previsível regresso ao poder, os nossos donos não se empenhem em recuperar rapidamente um dos seus principais símbolos em defesa daquilo que reclamam como “memória colectiva” (colectiva porque partilhada por mais do que uma pessoa).
Convém nesta altura explicar que “memória colectiva” é um peculiar conceito alimentado pelas nossas oligarquias com a tralha politicamente correcta e a espuma dos dias que as animam na sua mesquinha luta pela sobrevivência. Curiosamente, nessa “memória selectiva”, os heróis e os símbolos são escolhidos criteriosamente de um cardápio ideológico com o horizonte máximo de três ou quatro gerações. Acresce que, para grande contrariedade dos “nossos senhores”, não existe isso de “memória colectiva”; resultando os seus porfiados esforços educativos num fenómeno de “amnésia colectiva”, um assunto com que ninguém se preocupa afinal, porque, mesmo atreitos ao entretenimento e à fancaria, o mais das vezes aqui se vive em constante aflição com o pão à mesa.
Neste dia 1 de Dezembro o calendário assinala pela última vez como feriado nacional o Dia da Restauração da Independência, assunto que, na verdade, a poucos comove e cuja exumação acontecerá com o recato que inevitavelmente um sábado impõe à efeméride, há muito ameaçada pela indiferença dum regime apátrida e sem memória. O mesmo que reduziu a nossa designação oficial à apoucante designação de “república portuguesa”, ou seja, um mero adjectivo. Tudo isto é uma aterradora parábola que nos deveria afligir a todos… se é que, como Nação, sem darmos conta, não estaremos já em profundo estertor.
Aos inconformados, resta-nos o espaço doméstico, familiar e associativo, para hastearmos as nossas bandeiras e contrariarmos esta macabra dinâmica. Partilhando a herança duma profunda liberdade de consciência e semeando mensagens de esperança e dos valores perenes fundadores da portugalidade.

Já encomendaram a máquina de fazer notas?

José Manuel Fernandes
Público, 30/11/2012 - 00:00

O acordo sobre a Grécia mostrou como a UE não é, nem é bom que seja, uma "união de transferências"

A culpa é, provavelmente, dos estivadores. Ou talvez seja do Arménio Carlos, da CGTP. Ou de um dos mascarados dos Anónimos. Nos últimos dias todos estes personagens não têm dado descanso ao largo em frente da Assembleia da República. Suponho eu é devido à sua tão assídua presença que não tem sido possível levar até lá o camião com a impressora. A impressora de notas. Aquela que, imagino, deve ter sido encomendada para instalação na Fundação Mário Soares. Aquela com que, acrescento eu, o variado grupo de peticionários que ontem entendeu dirigir-se, por "carta aberta", ao primeiro-ministro crê ser possível resolver os problemas nacionais. Porque certamente terão uma solução na manga, já que, como sentenciam, Passos Coelho deve "retirar as consequências políticas que se impõem, apresentando a demissão ao senhor Presidente da República". Só não se sabe exactamente a que eventos se referem já que, numa democracia parlamentar, é do outro lado da rua, e não nas salas da fundação do ex-Presidente, que se determina se um Governo tem ou não condições para governar. Um dessas condições é ter um Orçamento aprovado. Precisamente o que aconteceu esta semana.
É verdade que o Orçamento aprovado é aquele de que ninguém gosta. Sobretudo porque tem impostos a mais. E também, para um número crescente de portugueses, porque tem cortes a menos. Cortes nas despesas do Estado. É um Orçamento que tem uma única vantagem, se a tiver: orçamentos como este, não queremos mais, nunca mais. O que ainda não sabemos é como vamos evitá-lo. O caminho da máquina de imprimir dinheiro não parece, mesmo assim, o mais razoável.
Falo da máquina de imprimir dinheiro porque a extensa lista de "personalidades" que assinam aquele documento não tem apresentado, apesar da sua constante presença no espaço público, muito mais alternativas ao drama que vivemos. E que é um drama que começa numa realidade simples: não há dinheiro. Era assim quando chamámos a troika, continua a ser assim hoje. Na altura quem nos emprestou dinheiro não estava disponível para nos subsidiar a fundo perdido e isso continua a ser verdade hoje. Quem ainda alimentasse dúvidas ou esperanças teve esta semana duas ocasiões para as desfazer.
A primeira foi quando a União Europeia não chegou a acordo sobre o seu orçamento para 2014/2020. Estamos a falar de um orçamento que representa apenas um por cento da riqueza criada em toda a União, mas mesmo assim os países que são contribuintes líquidos querem diminuí-lo. Exacto: diminuí-lo. Isso não impede que haja quem continue a falar de federalismo e de "solidariedade europeia". Será que ainda não perceberam que a pressão dos eleitorados europeus é para diminuir o orçamento comum, não para o aumentar? Não viram as deliberações de parlamentos tão diferentes como o britânico, o finlandês ou o alemão? Já aqui escrevi e repito: muitos economistas assumem em privado que o euro não sobreviverá sem um orçamento da zona monetária situado entre os cinco e os sete por cento do produto, pois só assim haverá margem para acorrer às regiões deprimidas - as de hoje e as do futuro - através de estabilizadores automáticos. Os países - e os povos, e os seus dirigentes eleitos - nem um por cento querem dar, ou aceitam partilhar. Por que insistem então os nossos vanguardistas na loucura do federalismo? Será que querem fazê-lo à maneira leninista, contra os povos mas supostamente em seu nome e para "seu benefício"?
Como se este sinal não fosse suficiente, o acordo a que se chegou para a Grécia também foi muito elucidativo. O FMI, que não é um país nem uma instituição europeia, tinha recomendado o óbvio: um perdão verdadeiro da dívida grega. O acordo acabou, em contrapartida, por só prever um perdão mínimo, condicional e problemático. Porquê? Porque um perdão da dívida grega afectaria directamente os países que lhe emprestaram dinheiro. A Alemanha, mas também Portugal. Até agora, apesar da resistência de algumas opiniões públicas, a ajuda à Grécia ainda não custou nada aos contribuintes do Centro e do Norte da Europa. Já se houvesse um perdão verdadeiro, a conta iria directamente aos seus bolsos. O mecanismo agora criado dilui e adia essas perdas directas. Mesmo assim os editoriais da imprensa alemã, por exemplo, não deixaram de chamar a atenção para a factura a pagar.
Tenho para mim que, mais tarde ou mais cedo, os contribuintes alemães, como os finlandeses ou os holandeses, ou os franceses, acabarão por passar o cheque. Aos gregos, mas também a nós. Quando isso acontecer, ou os países da periferia já colocaram todas as suas contas na ordem e mudaram realmente de hábitos, ou os nossos "benfeitores" vão-nos querer bem longe das suas carteiras. O que eu não acredito ser possível, nem desejável, é a criação de uma "união de transferências". A democracia europeia não lhe sobreviveria. Nem a democracia nos principais países europeus. Não há nenhuma razão cultural, económica ou mesmo moral para os alemães terem de ser eternamente mais generosos com os povos do Sul do que os catalães querem ser com os seus vizinhos andaluzes ou galegos. A única coisa que me espanta é que haja quem veja com bons olhos o egoísmo soberanista de Barcelona enquanto pede cheques em branco aos "moralistas protestantes" do Norte da Europa.
O que é mais desesperante neste debate é que o Governo, com a sua inabilidade política, o tornou quase impossível. Pior: o mais desconcertante é que este Governo, dito o mais liberal de sempre, mostra muito pouco impulso reformista e muita pouca vontade, ou determinação, para defender reformas realmente diferenciadoras. Numa altura em que o país continua a caminhar à beira de algo ainda bem pior, a meta dos "quatro mil milhões" tem a vantagem de ser concreta mas parece arbitrária. E o conceito de "refundação" continua a não ser preenchido.
Esta semana, por exemplo, o primeiro-ministro comprou uma inevitável polémica ao sugerir que poderia passar a haver co-pagamentos no ensino secundário. Seriam, de novo, os mesmos a pagar, mesmo devendo o tema ser discutido. Em contrapartida nada disse, ou sugeriu, sobre uma alteração do actual modelo centralista e monolítico de escola pública, nada disse sobre o direito que mesmo os filhos das famílias mais pobres deviam ter de acesso às boas escolas privadas, nada referiu sobre liberdade de escolha num regime em que o Estado, falido como está, deixasse de ser o fornecedor quase universal dos serviços para ser antes o garante de que todos têm acesso a esses serviços.
Há momentos em que o Governo parece actuar de forma inteligente - foi inteligente, por exemplo, a forma como se promoveu, com o acordo da maioria dos parceiros sociais, o pagamento de metade dos subsídios em duodécimos, tal como tem sido hábil a forma como se promoveu a reforma dos portos e o fim do regime protegido na profissão de estivador -, mas outros onde as confusões se sucedem - caso das excepções aos cortes, como a que foi inscrita no Orçamento e beneficia os controladores aéreos, numa aparente cedência a mais uma ameaça de greve, ou o recuo nos acordos com as universidades, um gesto que evita a fronda dos reitores mas em nada contribui para a necessária reestruturação de um sector com oferta inflacionada.
O problema não está, como julgam os assinantes do abaixo-assinado "peticionário", de a austeridade necessária para cumprir as metas do défice acordadas com a troika ultrapassar o anunciado na campanha eleitoral - o problema está em que boa parte da agenda liberalizante com que Passos Coelho se apresentou às eleições está a ficar no tinteiro. A austeridade há-de passar. Já a possibilidade de realizar, com um consenso alargado, reformas que poderiam efectivamente modificar o modelo de Estado omnívoro que construímos ao longo das últimas décadas (e a que só por mórbida ironia chamamos "social", pois é sobretudo egoísta a favor das gerações que têm ocupado o poder), essa pode não regressar.

30 de Novembro - Santo André

Jesus chama Pedro e André
Duccio di Buoninsegna 
(1308-11)
Têmpera sobre madeira 43,5 x 46 cm
National Gallery of art
Washington

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Encerramento do Meeting "Fé: o grande método da razão"



Último dia do Meeting "Fé: o grande método da razão"

Fé: O grande método da razão. Arena do Campo Pequeno
29 NOV Quinta-feira
13.15h- A fé na literatura:
Apresentação do Assassínio na Catedral de T. S Eliot
Maria Luisa Costa Cabral, professora do ensino secundário
Maria do Rosário Lupi Bello, docente universitária
19.00h- Concerto dos Menas & Cenas
21.30h- A fé na Igreja hoje
Cón. Luís Alberto de Carvalho, Vigário coordenador da região de
Lisboa
Cón. João Seabra, Pároco e Director do I. S. de Direito Canónico da
UCP
Também amanhã:

"Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo" 1ª sessão do... João César das Neves. ISEG. Anf 21, Francesinhas 1, 13:00

Concílio Vaticano II. 5º anos depois. Convento da Estrela. 18:00

Gordura

Destak | 28 | 11 | 2012   18.55H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt

No sábado 1 de Outubro de 2011 a Dinamarca foi o primeiro país do mundo a combater a obesidade e doenças cardiovasculares com um imposto sobre a gordura. A taxa de 16 coroas por quilo de gordura saturada em produtos com mais de 2.3% dela, tornava proibitivas manteiga, queijo, carne, nata, batata frita, além de banha e afins. A contribuição recolheu 216 milhões de dólares no primeiro ano, mas terá gerado gastos de 1800 milhões em viagens de gulosos à Alemanha e Suécia para compras.
O orçamento para 2013, aprovado a 10 de Novembro, também sábado, eliminou o controverso imposto pouco após o seu aniversário. O Estado nos países desenvolvidos tem vindo a meter-se nos assuntos mais variados. Sempre cheio de boas intenções, são poucos os campos da nossa vida em que não existe regulamentação, inspecções, políticas. Além disso, é bom lembrar que as au-toridades não conhecem cortesia, persuasão, subtileza. Os meios que usam implicam sempre taxas, multas, inspecções, prisões. A consequência é que vivemos cada vez mais numa sociedade regulada, vigiada, limitada.
Na Europa andar de carro ou avião, construir casa, frequentar escola, até comprar um brinquedo tornaram-se actividades complexas, difíceis, exigentes. Fumar, beber álcool ou comer enchidos são quase actos subversivos. Era evidente que a gordura seria o próximo alvo do Big Brother sanitário. O caso dinamarquês é um surpreendente e louvável recuo desta obsessão regulatória, há muito excessiva. É bom celebrar esta vitória da liberdade que, não só é rara, mas será certamente curta.

Economia: Ciclo de colóquios «Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo».

Agência Ecclesia

Lisboa, 29 nov 2012 (Ecclesia) - O grupo de cristãos «Economia e Fé», do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, organiza um ciclo de colóquios chamado «Deixem-me falar-vos de Jesus Cristo».
O grupo que olha a economia “à luz da espiritualidade cristã e Doutrina Social da Igreja” convidou para a primeira sessão, que decorre hoje no anfiteatro 21 do edifício Francesinhas 1, o docente da Universidade Católica Portuguesa, João César da Neves, lê-se num comunicado enviado à Agência ECCLESIA.
Este grupo procura promover o "debate com todos os estudiosos de economia e de gestão que consideram que fazer do lucro a regra exclusiva e o fim último da atividade económica é moralmente inaceitável", lê-se.
João Lobo Antunes (Faculdade de Medicina, Universidade de Lisboa); João Duque (ISEG-Universidade Técnica de Lisboa); Joaquim Gomes Canotilho (FD, Universidade de Coimbra); José António Pereirinha (ISEG-Universidade Técnica de Lisboa); Jorge Miranda (FD, Universidade de Lisboa) e Tolentino Mendonça (vice-reitor da Universidade Católica de Lisboa) serão outros oradores deste ciclo.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

"O amor como critério de gestão"

Pedro Braz Teixeira, i-online 28 Nov 2012
António Pinto Leite publicou um livro muito promissor, que traz o amor para a gestão
     
No dia 8 deste mês fui assistir a uma apresentação do livro de António Pinto Leite (APL) “O Amor como Critério de Gestão” (2012, Principia, Cascais), no Instituto Adelino Amaro da Costa.
A síntese do livro é apresentada logo no início (p. 9): “Amor ao próximo como critério de gestão significa tratarmos os outros – colaboradores, accionistas, clientes, fornecedores, concorrentes, comunidade, futuras gerações – como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos no lugar deles.”
O texto parte do preceito “O centro vital da ética cristã é o amor” (p. 23) e dos diálogos do autor com Deus: “Que queres que eu diga?” (p. 24). Teve um parto difícil, como é compreensível: “Serei capaz de suportar a exigência que o critério contém? Serei digno de colocá-lo em público?” (p. 26).
É fruto, por um lado, de uma investigação racional, alargada a um conjunto de reuniões de trabalho no âmbito da associação de empresários católicos (ACEGE), referidas no texto, que denota amadurecimento, embora o autor reconheça que está ainda nos primórdios da investigação.
Por outro lado, sente-se uma presença, ainda que contida, do próprio amor nas suas páginas, pela forma muito colorida e diversificada em que as suas propriedades são descritas.
Entre as suas propostas mais interessantes inclui-se a “modificação genética do conceito de lucro”, que passa a poder “ter uma dimensão moral, imaterial” (p. 44). Procura também uma visão alargada: “líderes humanizados fazem organizações humanizadas, organizações humanizadas fazem pessoas felizes, pessoas felizes fazem empresas produtivas, empresas produtivas fazem uma economia competitiva”, “uma economia competitiva é condição necessária de uma sociedade justa” (pp. 53-54). Recomenda que o tema se torne tema de investigação universitária (p. 74).
Esta obra é extremamente genuína e esse sentimento é reforçado pela apresentação que o autor fez no referido instituto. Foram vários os momentos em que APL sentiu necessidade de conter as suas emoções, ora calando--se, ora baixando os olhos. Não estamos em presença de uma mera especulação racional, mais sim perante um verdadeiro e profundo propósito de vida.
No trabalho espiritual que tenho vindo a fazer (sem ligação a qualquer igreja) tenho recebido a informação de que os portugueses vão protagonizar umas Novas Descobertas, desta feita no interior do homem.
APL fala exactamente nisto, em pressentir que há um mundo enorme por explorar no interior das pessoas, em particular no trabalho.
Sinto que APL vai desempenhar um papel muito importante nestes novos descobrimentos portugueses e cheira--me que está neste momento a começar “o” trabalho da sua vida. Tudo o que fez antes foi importante, mas é agora que o melhor de si vai desabrochar, poderá ser um novo Vasco da Gama.
O mais significativo é que APL já está na “onda” certa, sente e vive aquilo que prega, enquanto eu, por exemplo, ainda não cheguei lá. Fiquei curioso de ver chegar o momento em que APL deixe de sentir como necessário o controlo emocional na apresentação destes temas. Quando as suas ideias passarem a ser transmitidas com a fortíssima carga emocional que as anima, vai mexer em muito mais cabeças, e sobretudo vai tocar muito mais corações. Porque APL não é como muitos de quem se pode dizer “Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz.”
Gostaria de terminar sugerindo a tradução do livro noutras línguas, porque me parece que ele tem um importante caminho internacional a percorrer. Além disso, também recomendo a divulgação destas ideias nas televisões portuguesas, mas em espaços relativamente resguardados, para preservar a sua essência e delicadeza.
Investigador do NECEP da Universidade Católica
As opiniões expressas no texto são da responsabilidade do autor e não vinculam o NECEP

Protecção de quem?

DN 2012-11-28
VASCO GRAÇA MOURA

Toda a gente viu, nos serviços noticiosos de televisão, a horda ululante e desvairada que ao fim da tarde de 14 de Novembro atacou as forças da polícia em frente a São Bento.
A arruaça promovida por essa associação de malfeitores ao longo de mais de uma hora, insultando e agredindo as forças da ordem, praticando danos avultados em bens públicos, causando um tumulto inaceitável e agindo com violência incendiária e criminosa só impunha um tipo de actuação por parte da polícia: varrer aquela canalha selvática desde a primeira agressão e sem quaisquer contemplações.
A PSP optou por esperar pacientemente, talvez tempo demais, sujeitando-se a toda a espécie de vexames até lhe ser mandado que impusesse o respeito da ordem pública. E então agiu e agiu bem, embora pudesse ter agido muito melhor se tivesse ali por perto um carro da água para limpar à mangueirada, depressa e eficazmente, a escadaria do Parlamento e adjacências.
Em qualquer país civilizado, a reacção policial teria sido bem mais dura e expeditiva.
Tratou-se de uma perturbação intencional e muito violenta da ordem pública, da integridade e da segurança de pessoas e bens, levada a cabo no espaço público e à vista de toda a gente por um grupo de facínoras sem escrúpulos.
Essa perturbação foi filmada por operadores de televisão, sem nenhum condicionamento que não fosse a própria natureza tumultuária do que estava a acontecer. Isto é, não há aqui nenhuma espécie de segredo profissional nem parece que a cobertura pela imagem de um facto, criminoso ou não, ocorrido no espaço público, implique a protecção de qualquer espécie de sigilo profissional dos jornalistas intervenientes.
No caso, eles não precisaram de se documentar em fontes mais ou menos discretas. Os factos de agressão e distúrbio a que me refiro não são fontes a cuja protecção sigilosa os jornalistas tenham direito.
As fontes são as fontes. Os factos são os factos. O serviço público precisamente está em documentá-los e, tratando-se de crimes, em ser dada a necessária colaboração por quem dispõe desses documentos às autoridades públicas competentes para identificação dos agressores.
Nem se vê que colha a distinção entre imagens editadas ou não editadas. Se não fosse assim, e quando, por hipótese, um determinado jornalista pretendesse favorecer um bando de criminosos, bastar-lhe-ia editar convenientemente as imagens, suprimindo delas tudo o que permitisse identificá-los e pretextar o sigilo profissional para se escusar a mostrá-las.
É pelo menos bizarro o entendimento da Comissão Nacional de Protecção de Dados, nos casos a que se refere o DN de 24 de Novembro (incidentes de rua a 21 e 29 de Setembro, o primeiro, aquando da reunião do Conselho de Estado, e o segundo, na manifestação da CGTP), refugiando-se em qualificações e objecções ociosas e especiosas que só podem redundar na protecção dos infractores e do crime.
Não é para isso, estou em crer, que a referida comissão existe.
Compreende-se que Miguel Macedo pretenda garantir o acesso da PSP a imagens não editadas, sem margem para quaisquer dúvidas jurídicas. Os formalismos, malabarismos e manobrismos proporcionados por um Direito inconsistente que foi sendo constituído em nome do politicamente correcto e de todas as escapatórias possíveis à assunção de quaisquer responsabilidades sérias levam o ministro da Administração Interna a sentir como necessária a emissão de parecer por parte do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República.
É todavia um excesso de escrúpulo da sua parte. O DN também noticia, a par da opinião que vai no sentido dessa legitimidade, uma outra, segundo a qual "tal procedimento poderá configurar violação do sigilo profissional dos jornalistas".
Naquele "poderá" é que está o centro de gravidade da argumentação capciosa, muito especialmente em se tratando de acesso a imagens colhidas no espaço público, e sem que houvesse ou haja qualquer fonte a proteger... Vive-se um tempo de crise da autoridade e de insegurança crescente.
Há muitos aspectos em que a Justiça em Portugal tem sido uma vergonha.
Bom seria que, pelo menos nalguns, como neste caso, deixasse de o ser rapidamente.
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

7ª Catequese do ano da Fé - Como falar de Deus?

07 Catequese 20121128

O interior desaparecido

DESTAK | 27 | 11 | 2012   19.42H
José Luís Seixas
A ligação aérea entre Lisboa e Bragança foi suspensa. Perante a caducidade de concessão anterior, o Governo não abriu novo concurso, poupando 2,5 milhões de euros de subsídio compensatório. Pouco interessa ao preclaro decisor a necessidade ingente deste meio de transporte para uma população que tenta resistir à periferia, à desertificação e ao esquecimento; que facilitava a circulação eficaz de quadros provindos de Lisboa e do estrangeiro, potencializando a pouca vida económica nordestina que ainda subsiste e a adventícia que teimava em afirmar-se.
Sem avião, sem ferrovia, com acessibilidades rodoviárias portajadas ao nível da Suíça que pouparão algum tempo, mas não encurtam distância, resta às populações definharem. Desde os Planos de Fomento de Marcelo Caetano, o País nunca mais olhou o ordenamento do seu território. As populações migraram para o litoral e as grandes áreas urbanas converteram-se em “presas da desordem”, como diria Corbousier. Sem gente e sem votos, do interior tudo foi sendo retirado. Além dos velhos e dos teimosos. Por necessidade do poder, Portugal reduziu o seu território a um terço.
No interior, as casas fecham-se, as escolas encerram, as produções abandonam-se. Nas periferias das grandes cidades o crime aumenta, a fome cresce, a indigência vai tomando conta das ruas. Com esta última medida compromete-se o futuro de uma região inteira, numa incompreensível “intifada” contra o interior, o contrário do que um cidadão com bom senso defenderia como necessário face ao esgotamento económico das macrocefalias do litoral.

O que é a fé

Curvando-me em cega credulidade, como é meu costume, diante da mera autoridade e da tradição dos mais velhos, supersticiosamente engolindo uma história que eu não posso testar no momento por experiência ou julgamento privado, sustento firmemente a opinião segundo a qual eu nasci em 28 de Maio de 1874, em Campden Hill, Kensington

G. K. Chesterton, Autobiografia

A fé, para Chesterton, é esta forma de conhecimento indirecto, com base no crédito que dou a alguém que sabe do que fala e não me quer enganar. O que este alguém diz é um testemunho. Amanhã e depois na Arena do Campo Pequeno visite a exposição Fé: o grande método da razão e à hora do almoço e à noite ouça os testemunhos de gente que sabe do que fala e não nos quer enganar. Contam histórias de vida; como a familiaridade com a pessoa de Cristo dá um gosto de novidade à vida de todos os dias. Ouvir estas testemunhas confirma e alimenta a nossa fé.
Vá até ao Campo Pequeno, hoje ou amanhã, ou melhor ainda, hoje e amanhã.
Vale a pena! Sou eu que o digo! Sei do que falo (já lá estive)  e não vos quero enganar.

Com a amizade do
Pedro Aguiar Pinto

Testemunhos de crentes mediáticos mostram que fé cristã não está «ultrapassada»

SNPC 28.11.2012

O Movimento Comunhão e Libertação inaugurou esta terça-feira, em Lisboa, a iniciativa "Fé: o grande método da razão", que a par de uma exposição propõe painéis temáticos e testemunhos de vida.
A iniciativa «parte do Ano da Fé», que a Igreja Católica assinala até 24 de novembro de 2013, «e também da consciência de que a fé é para ser vivida na realidade quotidiana, de maneira normal, com várias facetas e onde a inteligência também deve ser usada», explicou Aura Miguel ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
O projeto «é um convite para perceber as razões da fé na multiplicidade de modos de viver, como por exemplo no futebol, na medicina, na cultura e na literatura», acrescentou a jornalista da Renascença.
A exposição patente na Arena do Campo Pequeno, onde também decorrem os encontros, pretende dar a entender que «fé e razão articulam-se e precisam uma da outra», referiu.
Na noite desta terça-feira centenas de pessoas ouviram o testemunho do treinador de futebol Fernando Santos, selecionador nacional da Grécia, e quarta-feira, pelas 21h30, será a vez do ator Miguel Guilherme.
Os testemunhos dos convidados realçam que «a fé não é uma coisa antiga e ultrapassada»: «Se Cristo ressuscitou, então está vivo, e se está vivo é contemporâneo, pelo que o nosso dever é discernir onde o encontramos e como se pode identificar a sua presença no contexto de hoje», frisou Aura Miguel.
«Afirmar a fé não é difícil; o problema é que há poucos cristãos conscientes da forma como essa afirmação deve ser feita. O desafio é dar testemunho da fé de maneira atrativa. Não valem a pena discursos, livros ou documentos se não houver testemunho de vida. O que tentámos fazer foi identificá-los em pessoas que têm fé nos contextos mais inesperados», sublinhou.

Fernando Santos: testemunho de fé de um homem do futebol

A Bola, 2012-11-27

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Irredutíveis

Pedro Lomba
Público 27/11/2012

Tenho alguma dificuldade em perceber aqueles que dedicam o seu tempo a censurar as empresas "rentistas" e monopolistas do regime, mas não dizem uma palavra quando o assunto atinge outras classes de "rentistas" e "monopolistas", profissionais de que se sentem próximos por motivos ideológicos. O monopólio, ou melhor, a isenção de uma actividade inteira à livre concorrência, tanto pode afectar uma empresa extractiva como uma classe profissional.
Tomemos o caso dos estivadores que tanto têm dado nas vistas nos últimos meses com greves consecutivas nalguns portos do país. Governo, trabalhadores portuários e UGT chegaram a acordo a 12 de Setembro. Mas alguns sindicatos de estivadores, ligados à CGTP, rejeitaram mudanças no trabalho portuário. Uma parte deles, cerca de 400, continua em greve contra as alterações que, com a cobertura da troika, o Governo e parceiros sociais definiram para o trabalho portuário. Os estivadores insistem e fizeram ontem mais um pré-anúncio de greve.
Vistos de fora, os estivadores parecem um grupo desaustinado e, como dizem os jornais, "irredutível". Mas por que é que os estivadores permanecem "irredutíveis"? Basta pesquisar um pouco sobre a situação do trabalho portuário para perceber a origem dessa irredutibilidade. Para começar, o contrato de trabalho portuário impõe a posse de carteira profissional ao trabalhador portuário. A liberdade contratual é aqui uma ficção. Na prática qualquer contratação fica nas mãos dos sindicatos. Esta transformação dos sindicatos dos estivadores em quase ordens é também responsável pelo regime exclusivista com que as actividades de movimentação de cargas são definidas. Toda e qualquer actividade relativa às mercadorias (por exemplo, o controlo das entradas e saídas) está abrangida pela definição legal das movimentações de cargas.
Em terceiro lugar, os sindicatos de estivadores conseguiram disciplinar a organização do trabalho beneficiando por sistema a antiguidade do trabalhador. A forma como está organizado o trabalho portuário implica a prioridade em "chamar ao trabalho" os estivadores "históricos", todos contratados antes de 1993 e todos no topo das suas carreiras. Só depois se pode passar para os estivadores posteriores a 1993. Passa-se o mesmo com os turnos. No essencial, o trabalho portuário acaba por ser pago em regime de trabalho suplementar. O sistema de prioridades assegura aos trabalhadores mais antigos serem chamados para todos os turnos, permitindo-lhes uma acumulação de mais de 1500 horas por ano em trabalho suplementar remunerado.
É a este regime inconcebivelmente intervencionista que se chama, na linguagem dos especialistas, a "factura portuária". O esquema das horas suplementares, das prioridades no trabalho e as limitações à entrada de novos trabalhadores sem a carteira tornaram o trabalho portuário uma absoluta excepção entre excepções. Resta que estas regras nem resultam da lei, mas de convenções colectivas de trabalho. E ai de qualquer governo que se disponha a rever este estado de coisas. As greves em Lisboa, Setúbal, Aveiro e Figueira da Foz fizeram com que mais de 70% da carga transportada passe agora por Sines e Leixões. Os sindicatos dos "irredutíveis" representam 45% da mão-de-obra para apenas 28,4% de carga. Evidentemente, os portos nacionais ficam mais caros para a concorrência. E a fuga de cargas é uma ameaça séria. Os estivadores conhecem a realidade e por isso mantêm a chantagem. De excepção em excepção, permitimos durante décadas uma sociedade de monopólios económicos, jurídicos ou laborais. E todos irredutíveis.

Abertura da exposição "Fé: o grande método da razão"



Fé: o grande método da razão começa hoje na arena do Campo Pequeno

Ao homem do mundo de hoje impõe-se uma pergunta: é razoável crer?
"Fé e razão, necessitam uma da outra, complementam-se, não somente para uma compreensão meramente intelectual, mas também para alimentar esperanças verdadeiras na humanidade e orientar as actividades rumo à promoção do bem de todos" (Papa Bento XVI, Audiência Geral de 21.XI.2012)

Provocados por esta certeza, convidamo-lo a, nos próximos dias 27, 28 e 29 de Novembro, na Arena do Campo Pequeno, visitar a Exposição "Fé: O Grande Método da Razão". Também, ao longo destes dias, um variado leque de testemunhos e testemunhas - músicos e homens do teatro, universitários, médicos, empresários, juristas, padres e um treinador de futebol - passarão pela Arena do Campo Pequeno.

Venha descobrir!
Inauguração hoje com a apresentação do livro do papa “A infância de Jesus” pelo Padre Luís Miguel Hernandez e a jornalista Aura Miguel às 19:00. Veja o programa aqui

Obviamente, demita-se! Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Com a ironia fina e eficaz a que nos habituou, o Padre Gonçalo desmonta o rol de argumentos que os adeptos da demissão de Isabel Jonet e ao mesmo tempo explica o valor da caridade como amor ao próximo
Um olhar inconveniente João Carlos Espada
João Carlos Espada acompanha a tese de Niall Ferguson que argumenta que o grande crescimento económico do Ocidente nos últimos séculos se ficou a dever à transformação das suas sociedades que eram de acesso limitado em sociedades de acesso aberto. Esta transformação apoiou-se em quatro estruturas fundamentais: o governo representativo, o mercado livre, o estado de direito e a sociedade civil. Segundo ele é a desvirtuação destas instituições que explica a crise do Ocidente.
A grande fraude João César das Neves
Também comentando um livro, desta feita de Rodney Stark, que “derruba uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja”, João César das Neves pergunta-se como foi possível empilhar tantos dislates e burlas sobre a Igreja Católica.
Testemunhos de pais que o foram mais uma vez durante este ano de crise. Ao mesmo tempo que são edificantes, dão também que pensar: em que sociedade vivemos, onde a simplicidade generosa do acolhimento dos filhos parece “anormalmente” heróica

Exposição sobre a fé em Lisboa. "Um sentido novo" para quem lá passa

Primeiro, surge o espanto


“Como é que eu sei que estou apaixonado? Acontece-me isto, isto e isto. Com a fé acontece algo semelhante. É estar diante de alguma coisa que é maior do que eu e isso é um encontro”, descreve um dos organizadores do evento, que conta com o treinador Fernando Santos entre os convidados.


RR on-line 27-11-2012 10:48 por Susana Madureira 
Martins

A arena do Campo Pequeno, em Lisboa, é a partir desta terça-feira, e até quinta, palco de uma exposição sobre a fé, uma iniciativa de estudantes ligados ao movimento eclesial Comunhão e Libertação.

A iniciativa surge como resposta aos apelos do Papa Bento XVI aos cristãos para redescobrirem o caminho da fé.

“Como é que eu sei que estou apaixonado? Porque, quando passo pela rapariga por quem estou apaixonado, o coração palpita, a cara fica rosada, eu fico nervoso, as mãos ficam a suar. Acontece-me isto, isto e isto e digo que estou apaixonado. Com a fé acontece algo semelhante. É estar diante de alguma coisa que é maior do que eu e isso é um encontro”, descreve Bernardo Cardoso, estudante de Filosofia e um dos organizadores da exposição no Campo Pequeno.

A mostra abre com uma enorme fotografia, de um jovem afegão de olhar espantado – uma fotografia que, no entender de Bernardo Cardoso, espelha o percurso da fé.

Mais adiante, há um túnel sem luz, um verdadeiro salto de fé, admite Ana Maria Gonçalves, que vai ser uma das guias do pequeno labirinto.

“O guia diz ‘Venham comigo’ e as pessoas vêm atrás de mim. À partida, as pessoas sabem que não vão ser assaltadas ou levar um tiro, sabem que vou fazer uma coisa boa. Isto, para se perceber que o conceito de confiar numa testemunha é básico no dia-a-dia”, afirma à Renascença.

Ao longo de dois dias, além da exposição há diversas conferências dedicadas à fé, que vão ter como convidados, por exemplo, o treinador de futebol Fernando Santos e o actor Miguel Guilherme.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Dito&Feito - O caso de Freitas do Amaral

Sol 26 de Novembro, 2012,  José António Lima

Freitas do Amaral personifica um caso, quase único, que contraria a tradicional tendência de se ser radical na juventude, moderado na meia-idade e conservador na velhice.
Hoje em dia alinhado, em regra, com as teses mais esquerdistas, o fundador do CDS chegou a ser o símbolo de toda a direita portuguesa nas presidenciais de 1986, que perdeu por uma unha negra para Mário Soares. Há quem diga que a sua surpreendente viragem à esquerda começou aí, politicamente derrotado, seduzido pelo brilho da nova corte soarista e pelo magnetismo indulgente do Presidente socialista. Que se tornou seu inspirador e compagnon de route nos últimos 25 anos.
Secundando o actual bota-abaixismo de Soares, Freitas veio agora propor a queda do Governo de Passos Coelho e adivinhar que «é quase inevitável haver eleições entre o quarto e o nono mês de 2013». Como? Fácil, acrescenta o ex-ministro de Sócrates. O Presidente da República poderá invocar um de dois motivos: em Março ou em Junho, «os resultados da execução orçamental afastarem-se ainda mais do Orçamento aprovado»; ou, em último caso, em Outubro, «uma derrota esmagadora do PSD e do CDS, mas sobretudo do PSD, nas eleições autárquicas».
É certo que Freitas do Amaral já fez cair um Governo da AD, em 1982, com o pretexto de um resultado menos famoso numas autárquicas. Mas, ainda assim, esse não parece motivo bastante para o Presidente alegar que está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas... Freitas devia até recordar-se que Cavaco Silva perdeu outras autárquicas, em 1989, continuou solidamente no Governo e obteve mesmo uma segunda maioria absoluta em 1991. Mas, pelo que se lê, qualquer motivo serve, hoje em dia, para Freitas pedir o derrube do Governo. Fazendo coro com Mário Soares e o Bloco de Esquerda.
A culminar esta sua deriva radical, Freitas do Amaral chega ao ponto de afirmar que a recente intervenção policial frente ao Parlamento «foi talvez demasiado violenta, atendendo a que não houve um ataque dos manifestantes contra as forças policiais. Houve pedradas, mas não luta corpo a corpo». Extraordinário!... Só faltou mesmo Freitas confessar que andou por lá, de capuz e lenço na cara, a atirar pedradas. Que, no seu entender, não entram na categoria de ataques às forças policiais – devem ser só contundentes divergências de opinião.

Quanto custa ao Estado a educação de um aluno?

Alexandre Homem Cristo, i-online 26 Nov 2012

É mais barato para o Estado ter uma turma numa escola com contrato de associação? Sim, fica 1045 euros mais barato, se tivermos em conta o custo médio nacional
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A pergunta teve respostas no relatório do Tribunal de Contas (TC), publicado no final de Outubro, e no estudo, divulgado na semana passada, da autoria de um grupo de trabalho (GT) nomeado pelo Ministério da Educação e Ciência. Os valores diferem pouco quanto ao ano lectivo de referência da base de dados (2009/2010), ficando o custo médio nacional em cerca de 5 mil euros por aluno. A verdadeira dificuldade estava em estimar, a partir de um valor datado, o custo para o actual ano lectivo. Só o GT arriscou fazê-lo. Descontou o valor equivalente aos cortes salariais na função pública, ao corte num dos subsídios e ao impacto da revisão da estrutura curricular. E calculou um valor médio nacional de 86 mil euros por turma (4 mil euros por aluno), correspondente a cerca de 70 mil euros por turma no ensino básico (2º e 3º ciclos) e 89 mil euros por turma no ensino secundário. É uma estimativa com muitas limitações e cuja utilização deve ser prudente. Mas é a que temos. A dúvida é o que fazer com ela. E é aqui que começam os problemas.
O debate público português tem uma aversão aos números. Os que abalam as certezas corporativas estão errados; os que as confirmam estão correctos. E, quando é preciso, até se arranjam outros para contrapor. A objectividade nunca interessou. Permanece-se alheio aos factos. Impede-se o debate. E mantêm-se vivos os mitos que alimentam os interesses do costume – e que, na educação, nunca são os dos alunos.
A abordagem da questão do custo por aluno não é excepção. É mais barato para o Estado ter uma turma numa escola com contrato de associação? Sim, fica 1045 euros mais barato, se tivermos em conta o custo médio nacional. Sim, fica 3707 euros mais barato, se olharmos para o custo médio no ensino secundário. Mas não, fica 15 mil euros mais caro em relação ao custo médio no ensino básico. A estimativa não é perfeita. Nem o são as respostas que obtemos à pergunta inicial. Mas, na verdade, ninguém se importa. A questão é, antes de tudo, ideológica. Deve o Estado financiar privados para a prestação de serviço público na educação? Nem que ficasse por metade dos custos e pelo dobro da qualidade, a esquerda jamais aceitaria a possibilidade. Volta-se ao ponto de partida: a discussão dos factos é infrutífera pois, do seu lado, os números servirão somente para ornamentar argumentos.
Perante o bloqueio, há que libertar o debate. As estimativas levantam muitas outras questões que carecem de discussão. Uma, em particular. Por que razão só são discutidas as implicações para as escolas privadas na rede pública? De facto, parece contraditório. Perante uma estimativa sobre o custo por aluno em 841 escolas públicas do Estado, o escrutínio e as atenções focam-se exclusivamente nas 83 escolas públicas privadas. Como se não existissem disparidades e gestões ruinosas nas escolas do Estado. E como se esses despesismos, multiplicados pelo número de escolas, não tivessem um impacto significativo nas contas do Estado. Pode Portugal adoptar regras iguais de financiamento das escolas da rede pública, sejam elas privadas ou estatais? A questão nem sequer é original: em diversos países do mundo, é assim que se faz. Com igualdade no financiamento e na responsabilidade.
Não tenhamos ilusões. Dificilmente a questão será discutida. Ela não entusiasma os sindicatos ou os interesses instalados no sistema educativo. Ambos receiam a prestação de contas. E, apesar das evidências, ambos acreditam, por doutrina, que o Estado gere sempre bem os recursos públicos. Talvez seja, por isso mesmo, esta a questão que mais importa discutir.

Obviamente, demita-se!

Público, 26/11/2012
Manifesto de um imaginário esquerdista ululante, presidente de um não menos imaginário Banco Alimentar a Favor da Fome:

"Sou a favor da demissão da presidente do Banco Alimentar Contra a Fome pelas seguintes razões:
1.º - Por causa do nome. Isabel é nome de rainha e, pior ainda, de santa: duas inconveniências numa só palavra! À frente de uma instituição social exige-se um nome laico e republicano. Em política, o que parece é. Ainda por cima, a santa homónima fez o milagre errado: o que se quer é que as flores se convertam em pães, e não estes em rosas!
Se o nome próprio não ajuda, o apelido muito menos: Jonet! Soa francês e é parecido com Junot, de tão má memória. Além disso, é queque, e os pobres precisam de pão e não de bolos. Uma estrangeirada não pode comandar uma legião de voluntários que, periodicamente, nos assalta à entrada dos supermercados. Os pobres querem francesinhas e não afrancesadas!
2.º - Porque é presidente de um banco, ou seja, é banqueira! Portanto, faz parte da oligarquia que explora os pobres. Os bancos só ajudam quem não precisa e nunca serviram sopas aos pobres. Banqueira foi só uma, a do povo e mais nenhuma! E - note-se! - a D. Branca acabou na prisão! Nada de banco, a não ser o dos réus. O Banco Alimentar tem de passar a ser um sindicato e dar bifes, todos os dias, ao povo. Abaixo o Banco Alimentar e viva o Bitoque de Esquerda! Porque, afinal, se a banca é da direita, é da esquerda o monopólio do social.
3.º - Porque fez umas declarações incríveis: foi à televisão dizer coisas sensatas e, pior ainda, verdadeiras! E se o Governo dissesse toda a verdade sobre a crise, a oposição não prometesse o que sabe que não poderá dar e as centrais sindicais não aldrabassem sobre as greves?! Com verdades e bom senso não se vai a lado nenhum! Além disso, como muito bem explicou Orwell, a liberdade de pensamento e de expressão não servem para isso, nem são para todos!
4.º - Porque é contra a fome. Mas um banqueiro não pode ser contra o dinheiro, nem a presidente do Banco Alimentar contra a fome! Até porque a fome é necessária: as revoluções fazem-se em jejum. Com a barriga farta, não há quem proteste! Os obesos não apedrejam polícias! As sopinhas do Banco Alimentar querem dar cabo da raiva proletária, em nome da resignação cristã, mas, com conformismo, fica entornado o caldo revolucionário. É preciso ler Marx - não o Groucho! - e aprender que o que faz falta é exasperar a malta, para que seja carne de canhão para a revolução.
5.º - Porque é católica, o que é um insulto para a laicidade das instituições sociais. Há muito que os pobres foram nacionalizados, antes até dos bancos. Por sinal, capitães de Abril, por que raio é que o Alimentar ainda o não foi?! Já não há pobrezinhos paroquiais: agora são todos do Estado, são todos do povo, são nossos. Se a Igreja quer ter os seus próprios pobres, para promover bazares e canastas de senhoras bem, que os arranje à sua custa, mas os pobres nacionais não são de nenhuma religião, porque estão ao serviço das ambições políticas da esquerda! É que, se nos tiram os pobres, que nos resta?! Se já nem valores ou ideologia temos ...
6.º - Porque faz caridade. Para que, depois de um lauto banquete, já não lhe doa a consciência por ter comido à tripa forra, em uma hora, o que dava para alimentar, durante um mês, cem crianças. Mas esta caridade é a mordaça da hipocrisia que sufoca, na garganta do pobre, o grito da justiça. Quem quiser solidariedade social que deixe de brincar à caridadezinha e pugne pelos direitos dos proletários. É verdade que o marxismo não trouxe a justiça social, nem encheu as barrigas dos explorados, mas encheu de arrogância moral uma certa esquerda que fez da pobreza, que não conhece senão como abstracção, a sua bandeira e a sua razão.
Concluindo e resumindo: que se demita a presidente do Banco Alimentar! Bem sei que, se o fizer, as dezenas de seus colaboradores, as centenas de voluntários, os milhares de dadores e as dezenas de milhares de pobres a quem ajuda, discreta e eficazmente, através de tantas instituições maioritariamente cristãs, ficarão a perder. Mas seria uma atitude muito politicamente correcta, que ganharia o aplauso de meia dúzia de sujeitos bem-pensantes, que nunca fizeram nada por quem tem fome.
Já agora ... alimente esta ideia!"

Um olhar inconveniente

João Carlos Espada
Público, 26/11/2012

Por vezes há olhares inconvenientes que nos fazem olhar para as mesmas coisas de forma totalmente diversa. Esse pode ser o caso do mais recente livro de Niall Ferguson, o historiador de Harvard, Oxford e Stanford, intitulado The Great Degeneration: How Institutions Decay and Economies Die (Allen Lane, 2012).
Os debates políticos na Europa continuam centrados na melhor forma de financiar a elevada despesa do Estado: ou através do aumento dos impostos, ou através de mais despesa para "estimular o crescimento". Niall Ferguson vem alertar-nos para a hipótese de esse debate perder de vista o real problema europeu e ocidental: a estagnação do crescimento económico e a consequente transferência do centro de gravidade mundial para fora do Ocidente.
Em 2012, o Banco Mundial previa uma contracção da economia europeia e um crescimento de apenas 2% nos EUA. A China cresceria quatro vezes mais e a Índia três vezes mais. Em 2016, o FMI prevê que o PIB chinês, ajustado em paridades de poder de compra, ultrapassará o dos EUA. Sem esse ajustamento, o PIB chinês será nessa data ainda apenas 60% do americano - mas era apenas 8% em 1989. O que está a acontecer aos nossos olhos, argumenta Ferguson, é o gradual encerramento da "Grande Divergência" - o longo processo que, entre 1500 e 1980, permitiu a incrível "descolagem" das economias europeias e depois ocidentais relativamente ao resto do mundo. Há cerca de 300 anos, observa Ferguson, o chinês médio ainda talvez fosse ligeiramente mais abastado do que o norte-americano médio. Em 1978, o norte-americano médio já era 22 vezes mais rico do que o chinês médio. Em 1960, a esperança de vida média na China era de 40 e poucos anos, enquanto nos EUA já era de 70.
Estes são apenas alguns indicadores que exprimem a "grande divergência entre o Ocidente e o resto" durante o período de 1500 aos finais de 1900. São esses mesmos indicadores que agora indiciam uma reversão. O americano médio é hoje apenas cinco vezes mais rico do que o chinês médio. Em termos de esperança de vida e níveis de educação, alguns países asiáticos estão agora à frente de muitos ocidentais. Segundo o inquérito PISA da OCDE relativo a 2009, a diferença entre o desempenho em Matemática dos jovens de Xangai e os dos EUA era tão grande como a diferença entre os jovens americanos e os tunisinos. Estes e muitos outros indicadores semelhantes levam Ferguson a indagar o que pode explicar este declínio relativo do Ocidente ao longo das últimas três décadas. A resposta, segundo ele, só pode ser encontrada depois de compreendermos os factores que levaram à grande descolagem do Ocidente a partir de 1500. Deveremos em seguida investigar se esses factores continuam presentes ou se estão a desaparecer no Ocidente.
A "Grande Divergência" tem tido inúmeras tentativas de explicação. Passando brevemente em revista alguma da mais relevante literatura na matéria, Ferguson retoma a ideia de que houve no Ocidente uma gradual mudança de instituições relativamente ao resto do mundo. Essa mudança basicamente consistiu em passar de uma sociedade de "acesso limitado" - mais ou menos comum no mundo de 1500 - para uma sociedade de "acesso aberto".
As sociedades de acesso limitado caracterizavam-se por economias de baixo ou nulo crescimento (o que Adam Smith chamou de "estado estacionário"); tinham muito poucas organizações não estatais; possuíam governos muito centralizados e não dependentes do consentimento dos governados; as suas relações sociais assentavam em laços pessoais e dinásticos.
Em contrapartida, as sociedades de acesso aberto, gradualmente emergentes no Ocidente a partir de 1500, deram lugar a rápido crescimento económico. Viram surgir vibrantes sociedades civis com inúmeras instituições independentes do Estado. Os governos tornaram-se menos centralizados e passaram a ter de prestar contas aos contribuintes e aos eleitores. As relações sociais passaram a reger-se por regras impessoais, the rule of law, na expressão inglesa, envolvendo a protecção dos direitos de propriedade e a igualdade perante a lei.
Ferguson resume esta grande mudança em quatro instituições fundamentais: Governo representativo, mercado livre, Estado de direito (rule of law) e sociedade civil. O que tem acontecido no Ocidente a estas instituições ao longo das últimas décadas? Na sua opinião, elas têm decaído.
Os nossos governos quebraram o contrato intergeracional, gastando o dinheiro dos contribuintes e endividando as gerações vindouras. Os nossos mercados estão asfixiados por regulamentações governamentais de todo o tipo e impostos sempre crescentes. O governo das leis deu lugar ao governo dos advogados. A sociedade civil está a dar lugar a uma sociedade "incivil" onde todos esperamos que o Estado resolva os nossos mais ínfimos problemas e onde gigantescos aparelhos estatais de educação gastam sempre mais dinheiro com piores resultados. Talvez seja altura de ter em conta este olhar inconveniente, em vez de continuar a exigir à sociedade civil que pague as dívidas do Estado.

A grande fraude

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2012-11-26

E se boa parte das nossas certezas acerca da história mundial fosse realmente falsa? Se nos últimos três séculos a classe intelectual estivesse dominada por uma ideologia enganadora que a levou a distorcer os factos para satisfazer preconceitos dogmáticos?

No seu recente livro The Triumph of Christianity (HarperOne, 2011) o reputado sociólogo da religião Rodney Stark faz um resumo de 40 anos de carreira e de uma impressionante lista de trabalhos de outros autores. O tema explícito é o paradoxo a que dedicou grande parte da sua atenção: "como foi possível que uma obscura seita judia se tenha tornado na maior religião do mundo?" (p.1). Só que, apesar de cobrir esparsamente os dois mil anos de história, pode dizer-se que o verdadeiro assunto do volume é bem diferente: derrubar uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja.

Muitos dos resultados são bem conhecidos dos especialistas, mas continuam desprezados nas visões populares, onde persistem velhos embustes. A lista é impressionante. O sucesso da expansão cristã no Império Romano não se ficou a dever à decadência do paganismo, revolta de escravos ou favores de Constantino, mas ao facto de os cristãos, graças à sua caridade, "viverem mais tempo que os seus vizinhos pagãos... não 'descartarem' as crianças femininas e as mulheres cristãs não terem a mortalidade substancial por abortos feitos num mundo sem antibióticos" (p.417). Também é falso que o paganismo romano desapareceu devido à perseguição da Igreja triunfante. Antes "desceu lentamente na obscuridade" (p.198).

A Idade Média europeia não foi uma "idade das trevas" de miséria e obscurantismo, mas uma época brilhante da história do mundo, pois a ausência de impérios eliminou a escravatura e monumentos grandiosos, e o génio humano pôde virar-se para descobertas pragmáticas, das esporas aos óculos e moinhos, passando pelo capitalismo (p.242-5). As cruzadas não foram uma bárbara agressão colonial cristã contra muçulmanos inocentes. Não só nasceram de séculos de tentativas islâmicas de colonizar o Ocidente, mas nelas os nobres arruinavam-se em busca da salvação eterna (cap.13). A religião não é inimiga da ciência, mas foi na Igreja que nasceu e grande parte dos maiores cientistas são e sempre foram devotos (cap.16). "A Inquisição Espanhola foi um corpo bastante moderado, responsável por poucas mortes e salvou muitas vidas por se opor à caça às bruxas que varreu o resto da Europa" (p.418). "A afirmação de que a religião vai em breve desaparecer à medida que o mundo se torna mais moderno é apenas ilusão optimista de académicos ateus" (idem). Estas afirmações, e muitas outras, são demonstradas com apelo a números, factos e investigações sérias e comprovadas.

O livro não é uma obra de apologética, e estão bem presentes as misérias da Igreja na história (cap.15, 17, 20, 21). O propósito é antes demolir mistificações acumuladas ao longo de décadas, que se tornaram avassaladoras na opinião pública. Aliás, mais que para a história do cristianismo, o valor do livro está no que revela da nossa história intelectual.

Como foi possível empilhar tantos dislates e burlas, todos no mesmo sentido? É evidente que desde o Iluminismo muitos académicos estão convencidos que a religião é o inimigo da verdade e humanidade, e tomaram a missão de desmascará-la e denunciá-la. Lançam-se na tarefa com o mesmo zelo e fervor dos missionários religiosos, só que ao fazê-lo violam os princípios mais sagrados do seu próprio credo científico, enganando, distorcendo, manipulando.

A Igreja sempre prosperou na perseguição, pelo que o ataque lhe foi benéfico. Mas é assustador pensar no enorme poder que alguns pseudocientistas têm, se usarem a sua posição de prestígio e influência para veicular dogmas pessoais. Voltaire e Gibbon, como hoje Richard Dawkins ou Peter Berger, são um perigo para a liberdade maior que Napoleão, Hitler ou Mugabe. Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias.

domingo, 25 de novembro de 2012

Pais em 2012: Corajosos, irresponsáveis ou optimistas?

Andrea Cunha Freitas Público, 25/11/2012 - 09:29

Como é ser pai em 2012? O PÚBLICO lançou a pergunta aos leitores do online e recebeu cerca de uma centena de respostas.

Prometem substituir a Playstation por brincadeiras em poças de água. Seguram-se na importante almofada que é a retaguarda familiar — muitas vezes chamada avós. Fazem contas à vida e reclamam da falta de apoio do Estado às famílias. Alguns ponderam emigrar. Muitos estão desempregados. Todos se sentem inseguros mas quase todos se dizem optimistas. Os pais de 2012 tiveram filhos que são também filhos da crise
Ter um filho em 2012 é um acto de coragem, irresponsabilidade ou um sinal de optimismo? Lançámos a pergunta aos nossos leitores e esperámos pelas respostas. Recebemos muitas histórias que falam nessa parte tão importante da vida que é ter um filho. São todas diferentes e todas iguais. Diferentes nos detalhes e iguais na declarações de uma vontade, um sonho, um plano de vida que falou mais alto do que a crise. Apesar das muitas dificuldades, admitindo tantos medos e riscos, tiveram, em 2012, o primeiro filho ou mais um. Não interessa. Asseguram que vale a pena. Bárbara, Maria João, Filipe, André, Mariana, Mattia, Constança, Inês, Margarida, Júlia... são bebés nascidos na crise em Portugal.
É verdade que nos testemunhos sobram as descrições de um sentimento que tem tanto de enternecedor como de ridículo. É verdade que os e-mails enviados são cartas de amor. “O nosso pequenote é a maravilha mais perfeita que existe (...) Lutar nunca me pareceu tão material e humano, nunca me pareceu tão concreto. Quem diria que uns bracinhos tão pequenos e umas mãozinhas tão frágeis poderiam dar um empurrão tão forte?”, escreve Francisco Pessanha. “Para mim que sempre quis ser mãe, que crise pode ofuscar aquele sorriso de gengiva ainda despida todas as manhãs?”, pergunta Sofia Pereira, mãe de uma menina “mais planeada do que o 11 de Setembro” com quase 11 meses.
Mesmo quando o discurso nos parece ser o mais realista possível, o coração acaba por sair pela boca. “Na minha opinião, e falando de uma forma mais fria, não há vantagens em ter um bebé. Choram, fazem cocós, chichis, trocam-nos os sonos, fazem-nos gastar bastante dinheiro (quartinho, banheira, roupas, cuidados de saúde, etc.) e para não falar da vida atribulada para conciliar o trabalho com a rotina do bebé. Mas depois, quando ele dorme no nosso colo ou fica a olhar para nós, isso tudo é esquecido e sentimos que a vida ganha um novo propósito”, diz um pai que se identifica como RA.

Queda brutal da natalidade
As decepcionantes estatísticas da natalidade são conhecidas. Fala-se num “inverno demográfico” que dura há 30 anos e que se agrava a cada ano que passa. No início deste mês uma das notícias do PÚBLICO referia em título que “2012 vai ser o ano com menos bebés de que há registo”. Até ao final do ano, o número de crianças nascidas em Portugal não deverá ultrapassar os 90 mil e, com isto, o país é “campeão” nos dados que confirmam a queda da taxa bruta de natalidade na Europa. Cientistas, Governo, Presidente da República, Igreja unem-se no apelo que diz que Portugal precisa de mais bebés. Porém, estas vozes são abafadas pelo poderoso grito da crise que nos exige cada vez mais cortes e contenção.
Os pais de 2012 vivem ao som deste grito. Nos testemunhos enviados ao PÚBLICO, todos fazem contas à vida. Nas histórias onde o desemprego não está de facto já presente, a pura ameaça assusta. E, mais uma vez, a terrível estatística: 15,9% da população portuguesa está desempregada.
“A minha mãe ficou assustada, disse que as coisas estavam complicadas e que estando a crise longe de acabar tinha sido um pouco precipitado.”
Alda Silva chora com medo e chora de rir. As lágrimas que caem por causa do medo são pelo dia de amanhã. As que são empurradas pelas gargalhadas são da inteira responsabilidade de Maria João, com pouco mais de um ano. A filha de Alda nasceu quando a mãe tinha trabalho. No final da licença de maternidade, o contrato acabou e Alda ficou no desemprego. Alda e Maria João estão 24 horas juntas. “Como vivo? Vivo com medo... muito medo do incerto”, escreve.
Nunca como agora o argumento de “ter condições” para ter um filho foi tão influente. Esta não é a melhor altura para aumentar encargos. Em troca ouvimos de resposta o que também já sabemos de antemão: é muito difícil reunir todas as condições para ter um filho, em tempo de crise ou sem ela. O pediatra Mário Cordeiro está deste lado: “Não creio que se deva ser leviano, quanto ao ter filhos, mas também não se deve pensar ‘de mais’ no sentido de só os ter quando estiverem reunidas ‘todas as condições’. Nunca será o caso.”
“Não há momentos perfeitos!”, confirma Mariana Castro, uma das mães de 2012, que quando contou à sua mãe que estava grávida viu o sorriso da futura avó suspenso por causa da crise. “A minha mãe ficou assustada, disse que as coisas estavam complicadas e que estando a crise longe de acabar tinha sido um pouco precipitado.” Casada desde 2009, Mariana não quis mais adiar o sonho. Hoje a filha tem mais de nove meses e a somar às “dificuldades, desemprego, trabalhos pouco estáveis, etc.” há as contas com as “vacinas fora do Plano Nacional de Vacinação, os leites, os remédios”.
Pronto, as condições perfeitas não existem. Mas... agora? Porquê agora? Porquê logo agora em plena crise? A socióloga Vanessa Cunha acredita que o “factor idade” será um dos mais determinantes na decisão. “Muitas destas pessoas não podiam esperar mais e não quiseram adiar o projecto de parentalidade, sob pena de o comprometer. Muitas terão pensado “é agora ou nunca”.
A socióloga acertou na ideia que se repete em muitos testemunhos e acertou mesmo na frase exacta. “Tenho 38 anos e estou grávida do segundo filho. O primeiro tem nove anos. Eu e o pai decidimos ter este filho porque estamos os dois com cerca de 40 anos e estamos cansados de esperar por um contexto económico mais favorável, que nunca chega! (...) Como a vida não espera por nós, decidimos que era agora ou nunca!”, diz Patrícia Costa.
Almofada familiar
Há o alarme do relógio da fertilidade mas há também o que Vanessa Cunha chama “almofada familiar”. Chegamos aos avós, algo que pode fazer toda a diferença entre ter e não ter (mais) um filho. Podem ser outros membros da família, mas em alguns dos testemunhos enviados está a referência (e uma reverência) aos avós. Ou porque ajudam financeiramente — pagando algumas contas e compras — ou, simplesmente, porque estão ou vão estar lá, para tomar conta dos netos ou para ir buscá-los à creche.
Os avós servem de almofada e também de inspiração pelo seu passado. São muitas as frases dos pais de 2012 que começam com a expressão “no tempo dos meus avós”. Um tempo também difícil mas em que tudo se arranjava, em que havia sempre espaço para mais um na mesa e os filhos “se criavam”. Uma ideia demasiado romântica para as expectativas que temos hoje para os nossos filhos, avisa Vanessa Cunha. É que o tempo desses avós foi também um tempo em que muitas crianças apenas completavam o 4.º ano de escolaridade e depois iam trabalhar, um tempo em que os nossos indicadores de mortalidade infantil estavam muito longe do sucesso e progresso que foi conquistado nos últimos 30 anos. “Acho que ninguém quer voltar atrás, até esse tempo”, corrige Vanessa Cunha.
“É preciso que o Estado reconheça os encargos que as famílias com filhos a cargo têm e que estes deverão ser contabilizados na hora de avaliar a capacidade financeira das famílias: neste momento, para o cálculo da taxa do IRS e para a isenção das taxas moderadoras, os filhos contam zero, enquanto para o abono de família valem apenas como meia pessoa”
A “almofada familiar” torna-se ainda mais essencial na decisão de ter um filho perante a escassez de apoios públicos à família. Os pais queixam-se. “A falta de oferta pública de infra-estruturas torna um bebé muito caro e condiciona com certeza muitas famílias em terem um ou mais filhos”, acredita Rita Cabaço, 35 anos, mãe de um filho. A falta de creches públicas é um alvo concorrido nas histórias dos pais de 2012 mas critica-se também a insuficiência de subsídios de apoio e, especificamente, as alterações drásticas no abono de família. “Havia um contrato de cooperação entre o Estado e as famílias e as regras foram radicalmente alteradas, sem qualquer perspectiva futura”, nota Vanessa Cunha.
A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas tem denunciado este Estado ausente e negligente. “É preciso que o Estado reconheça os encargos que as famílias com filhos a cargo têm e que estes deverão ser contabilizados na hora de avaliar a capacidade financeira das famílias: neste momento, para o cálculo da taxa do IRS e para a isenção das taxas moderadoras, os filhos contam zero, enquanto para o abono de família valem apenas como meia pessoa”, lê-se num comunicado publicado este ano no site.
Karin Wall, socióloga e investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa e directora do Observatório das Famílias e das Políticas de Família, acha que este abandono que os pais de 2012 sentem em relação ao Estado é legítimo. As alterações ao abono de família já em 2004, com Bagão Félix, deixaram de fora uma grande parte das famílias, reservando para este apoio apenas os mais pobres. O cheque mensal não era elevado mas, sublinha a directora do Observatório das Famílias, “é uma mensagem que o Estado dá de apoio às famílias e que deixou de existir”. “No caso de apoio económico às famílias, há uma série de instrumentos que passaram de um esquema universal para um selectivo”, constata.
Mas Karin Wall põe alguma água na fervura. “Há apoios em várias áreas. Na última década houve um empenhamento grande para aumentar o número de creches que são subsidiadas pelo Estado e que funcionam como IPSS (instituições particulares de solidariedade social). A taxa de cobertura para creches e amas entre os 0 e os 3 anos aumentou para 37%, acima do objectivo europeu dos 33%”, contrapõe.
A mensagem que hoje vem do Estado é aguentar, consumir menos, cortar, racionalizar. Algo que bate de frente com o crescer de uma família. Quando se tenta conciliar a crise que se tem com os filhos que se quer, é inevitável mudar. Mudar tudo, desde a casa, à cidade, ao modo de viver e até de brincar. “A crise pode ser uma ocasião de repensar o que se gasta com as crianças, como se gasta e quando se gasta”, defende o pediatra Mário Cordeiro.

Sem Barbies e sem consolas
Carolina tem 16 meses e é a filha de Cristiani Oliveira, uma brasileira a residir em Portugal há mais de dez anos. “Diante de todos os meios electrónicos e prendas caras, sabe quais são os brinquedos e brincadeiras favoritas da minha filha? Bolas de sabão, correr no parque, brincar na beira do mar. Tudo grátis ou quase. (...) Ser pai em tempo de crise é difícil de facto para as classes mais baixas, quando há a preocupação de ter ou não pão na mesa todos os dias. Quanto à classe média, que é onde me incluo, custa-me ver o discurso ‘zero filhos’ ou ‘um filho’ quando a preocupação é se poderão ou não dar uma Playstation, as viagens mais caras, um consumismo desenfreado, etc.”, escreve a mãe de Carolina.
“Nunca compramos Dodots, lavamos com água como antigamente, com panos turcos, não compramos comida feita, fazemos tudo, o nosso bebé nunca comeu uma farinha comprada (...). O meu marido passou a ir a pé da estação de Entrecampos até ao Saldanha para poupar no passe, eu deixei de beber cafés e de comprar um lanche na rua, levo marmita como as operárias de antigamente. Não fazemos férias e não compramos nada por impulso, nunca soubemos o que era o prazer de comprar alguma coisa só porque gostávamos dela.
“Cresci sem Barbies, sem consolas, em escolas públicas, a andar de autocarro, a ir ao restaurante só em aniversários, a receber poucas prendas no Natal, a estimar e poupar os meu brinquedos, a partilhá-los com os meus cinco irmãos, a saltar para as poças de água de galochas, a fazer casas-na-árvore, a arrancar rabos às lagartixas. (...) Hoje tenho um filho e quero poder dar-lhe tudo! Tudo é também as poças, a chuva, os passeios no campo, os dias na praia, o sol, uma boa educação, escolas melhores, gente educada à sua volta, a lua e uma ou muitas voltas ao mundo!”, diz Joana Brandão, 35 anos, “actriz desempregada, casada — feliz, mãe de um filho de três anos e grávida de três meses”.
“Ainda bem”, reage Vanessa Cunha, vendo as vantagens de, “perante a adversidade, sermos capazes de repensar a forma de estar na vida”. “A nossa geração — que agora está a ter filhos — foi em grande parte educada com alguma facilidade no acesso ao consumo. Este pode ser um momento de reavaliação.” A socióloga insiste: “A crise não toca todas as famílias da mesma maneira.”
Assim, se uns vão prescindir de (ou adiar) uma viagem à Eurodisney, mudar de carro ou comprar uma casa maior, brincar numa poça de água em vez de comprar uma Playstation, outros terão de tomar opções bem mais difíceis. “Tenho 25 anos, sou licenciada em Relações Públicas e Comunicação Empresarial, o curso pouco importa, o meu maior objectivo nesta vida era ser mãe”, começa Teresa Nascimento. O filho nasceu em Março de 2012. E agora? “É muito duro, todos os dias é uma luta constante”, conta. Teresa que ganha 560 euros por mês pelo trabalho especializado que faz “a preço de saldo” para um empresa. O marido ganha pouco mais do que isso. A renda é de 350 euros e, contabiliza, “a mensalidade da creche será de 180 euros”. E é então que, diz, “o engenho aguça”. “Nunca compramos Dodots, lavamos com água como antigamente, com panos turcos, não compramos comida feita, fazemos tudo, o nosso bebé nunca comeu uma farinha comprada (...). O meu marido passou a ir a pé da estação de Entrecampos até ao Saldanha para poupar no passe, eu deixei de beber cafés e de comprar um lanche na rua, levo marmita como as operárias de antigamente. Não fazemos férias e não compramos nada por impulso, nunca soubemos o que era o prazer de comprar alguma coisa só porque gostávamos dela. Fazemos a planificação do mês no mês anterior, aceitamos roupa de quem queira oferecer, tanto para nós como para o menino”, descreve.
Por coincidência, 20 minutos depois de recebermos o testemunho de Teresa Nascimento, chega o relato de César Medalha Pratas. As diferenças saltam à vista. “Eu e a minha mulher temos proveniências de famílias de classe média-alta. Crescemos com acesso a todo o tipo de bens e nunca passámos dificuldades sérias!”, conta o advogado, casado com uma psicóloga clínica. Ter um filho era um desejo com algum tempo e fazê-lo acontecer em 2012 é uma aventura. Também aqui houve mudanças, ainda que muito distantes da realidade de Teresa. “Sabíamos de antemão que iríamos fazer concessões ao nosso estilo de vida desafogado! E assim foi, fizemos um plano e temos de o cumprir, sob pena de vermos o crescimento do nosso filho complicado! Trocámos de casa, mas não para a casa que sonhávamos, teve de ser uma casa bem mais pequena do que a que tínhamos projectado. Deixámos de jantar fora três ou quatro vezes por semana, e as duas ou três vezes por ano que viajávamos para fora do país deixaram de existir...”
Emigrar e não emigrar
Emigrar também pode ser uma solução, dizem estes pais. E há quem já o tenha feito, quem esteja a pensar nisso e quem tenha encontrado um meio-termo. Rita Cabaço enviou o seu relato e o seu retrato de família: a mãe e o filho André (agora com dez meses) sentados num sofá e o pai... numa imagem digitalizada no computador. “Depois de engravidar, o meu namorado deixou de ter trabalho em Portugal e teve de emigrar. Passei o fim da gravidez sozinha e agora estou também sozinha a tomar conta do bebé que tem nove meses, o que é desgastante fisicamente e também emocionalmente”, conta. Mário Baptista entretanto voltou, mas como não consegue arranjar emprego pondera voltar a sair do país.
Nuno Frade escolheu uma estratégia diferente e optou por emigrar... sem ter de emigrar. Nuno, 34 anos, vivia na grande Lisboa onde um dia ficou desempregado. Há dois anos decidiu com a sua companheira Paula, de 30 anos, procurar “um cantinho com qualidade de vida” e criar um negócio próprio. “A Margarida nasceu a 14 de Setembro na Maternidade de Portalegre e foi registada em Marvão, uma das regiões mais desertificadas de Portugal.” Um lugar onde “as crianças são tratadas como tesouros” e onde Margarida não será mais um número, acredita os pais.
Os dados do Censos 2011, divulgados esta semana, mostram que em 2011 o número de núcleos familiares “casal com filhos” continuava a ser o predominante (mais de um milhão e 600 mil famílias com esta estrutura), mas menos do que em 2001 quando o valor ultrapassava um milhão e 700 mil. As famílias estão também mais pequenas, diz o Censos de 2011. Vanessa Cunha, que é a principal autora de uma investigação que concluiu que as famílias com filhos únicos poderão atingir um número recorde e tornar-se maioritárias na geração dos que estão entre os 30 e 40 anos, reforça esta tese. “Esta geração vai fazer as opções mínimas de parentalidade”, diz. E não é necessariamente porque querem. Muitas vezes o número de filhos que têm não coincide com os que gostariam de ter.
Nas histórias contadas pelos pais de 2012 não encontrámos retratos catastróficos — ainda que um pai de família tenha profetizado com uma certeza inabalável a chegada de uma III Guerra Mundial — nem vidas de fome e miséria nua e crua. As pessoas que tomaram esta decisão em 2012 e que estão a sofrer por causa disso não aparecem nestes testemunhos mas existem em Portugal. “Há pessoas que tiveram filhos e que estão numa situação terrível”, lamenta Karin Wall, que lembra que a taxa de risco de pobreza está muito acima da média nas famílias com desempregados, famílias numerosas (a partir de três filhos) e monoparentais. “Estas, definitivamente, precisam de apoio”, alerta.
E, por fim, uma certeza: se o PÚBLICO tivesse feito a pergunta ao contrário e procurasse as pessoas que, em 2012, abandonaram ou adiaram a decisão de ter um filho por causa da crise, a história a contar seria muito diferente. “Há muitas pessoas à espera de melhores dias”, diz a socióloga Vanessa Cunha. Karin Wall concorda: “Há pessoas que estão numa situação muito vulnerável e que vão esperar por melhores condições para ter o filho ou os filhos que querem.” Podem até ser mais do que os pais de 2012.