Afinal chumbaram menos alunos

Alexandre Homem Cristo
Ionline, 2013-08-26

Os alarmistas, depois de tantas das suas acusações terem sido desmentidas pelos factos, continuarão, de credibilidade intacta, a encher o debate de ruído

Quando foram introduzidas, as provas finais do 4.o ano (fim do 1.o ciclo do ensino básico) geraram polémica. Quase em uníssono, os críticos acusaram o governo de ter como intenção a reprovação dos alunos com mais dificuldades, optando por um modelo de ensino elitista e ultrapassado. Houve quem acusasse o governo de querer regressar à "escola do antigamente" ou à "escola salazarenta". Houve também quem afirmasse que o objectivo era o de criar uma escola para pobres e uma outra para ricos (aplicando uma eugenia social). Houve ainda quem tivesse a certeza de que se tratava de um experimentalismo ideológico e inédito nos países desenvolvidos. E houve, por fim, quem garantisse que tamanha pressão sobre as crianças, que alegadamente fariam as provas sob a ameaça de reprovação, as iria marcar traumaticamente e para sempre. Todas as acusações levavam ao mesmo: a introdução de provas finais no 4.o ano não era mais do que a execução do plano da direita para "destruir a escola pública".
Ora, sendo certo que a memória é curta, agora que as provas finais se realizaram, se conhecem os resultados e estamos à beira de um novo ano lectivo, é oportuno verificar se alguma das tão graves acusações se concretizou. Afinal, não está em causa apenas o escrutínio do governo, mas também a credibilidade dos seus críticos.
Comecemos pelo óbvio: sem surpresa, não há registo de crianças traumatizadas pela realização da prova final, nem Portugal é o único país onde alunos do 4.o ano realizam provas - o mesmo acontece nos EUA, no Canadá, no Reino Unido e em outros países. Dito isto, foquemo-nos na análise que importa: a introdução de exames do 4.o ano resultou num aumento de alunos reprovados? Isto é, serviu a introdução desta prova final para excluir alunos?
A resposta é não. Pelo contrário, a taxa de reprovação (3%) foi a mais baixa dos últimos 14 anos (ou seja, desde 2000, ano a partir do qual temos dados). A conclusão consta no relatório do GAVE "Análise Preliminar dos Resultados: provas finais de ciclo e exames finais nacionais 2013" (7 Agosto 2013), e não deixa dúvidas: este ano chumbou-se menos do que em todos os anos anteriores. De resto, a tão criticada divisão das provas finais em duas fases - de modo a que os alunos que reprovassem na primeira fase tivessem uma segunda oportunidade (e, entre as duas fases, acompanhamento personalizado dos professores para colmatar as suas dificuldades) - contribuiu para este desfecho.
A conclusão é evidente: não somente os dados contrariam os alarmismos dos críticos, como a opção do governo por provas finais com duas fases provou ser acertada e possibilitou que mais alunos passassem para o ano seguinte. Sejamos absolutamente claros: o que aconteceu na realidade foi precisamente o inverso do que os acusadores afirmavam. Ora, durante meses, muito se discutiu. E agora, perante os resultados, alguém se lembra ou se importa?
Nem por isso. Hoje em dia, só interessa se as previsões, as medidas ou os cenários estão errados quando vêm do governo. Por isso, os alarmistas, depois de tantas das suas acusações terem sido desmentidas pelos factos, continuarão, de credibilidade intacta, a encher o debate de ruído. Mas o facto de a imprensa, na sua inclinação de contrapoder, amplificar essas críticas, não significa que elas tenham razão de ser. Agora que o início do ano lectivo está à porta, e já se ouvem as habituais ameaças da Fenprof, isto é algo que convém não esquecer.

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