quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Papa

DESTAK |27 | 02 | 2013   22.46H
João César das Neves | naohaalmocosgratis@ucp.pt

Para que é que a gente quer um papa? É curioso que, no meio de tantos debates à volta da renúncia de Bento XVI, ninguém se incomode em fazer esta pergunta básica que, no entanto, é indispensável. Aliás, se a tivessem feito teriam sido evitados muitos dos disparates que se ouvem por aí.
Será que queremos um papa para ele nos dizer o mesmo que nós achamos? Uma grande quantidade de pessoas parece convencida disso. Estão muito indignados porque o Papa não concordar com eles em vários assuntos, da ordenação das mulheres ao aborto, do casamento homossexual ao modo de celebrar a missa. Mas se fosse para isso que quiséssemos um papa, então ele não era preciso. Bastaria abrir o jornal e ligar a televisão e ficávamos a saber esses palpites, que qualquer pensador das avenidas distila sem dificuldade.
O único valor do Papa é ser representante de Cristo. É ser neste mundo a presença de algo diferente, sublime, transcendente. Não admira que nem sempre concordemos com ele. Mas é importante lembrar que o vigário de Cristo é ele, não o comentador de ocasião. Todas as vezes que os oradores nos veiculam as suas opiniões, muito dignas e respeitáveis, devemos ser ter em conta que o Papa é outro.

Bento XVI confirmou a minha fé

Aura Miguel
RR on-line 28-02-2013 17:24

O que fica para sempre é uma decisão de grande paternidade, ao ponto de eu própria me sentir abraçada na explicação que ele deu.

Sei, a partir de agora, que tenho Bento XVI a rezar por mim, pela Igreja e pela humanidade inteira. Sei que ele está na Cruz, junto a Cristo sofredor.

É como uma força escondida que eleva este mundo tão confuso, triste e angustiado, tão alheio à bondade de Deus. A partir de agora, o ministério de Bento XVI fica escondido aos nossos olhos, mas – talvez por isso mesmo – abraça uma missão ainda mais importante do que aquela que cumpriu magistralmente nestes oito anos.

Com a explicação que Bento XVI deu ontem sobre a sua vida e aquilo que vai fazer, ficou evidente que o critério da sua decisão não foi o da eficácia com que a maioria dos "media" olhou para a sua renúncia – houve mesmo quem adiantasse que Ratzinger estava farto e que finalmente ia escrever livros, estando aliviado por deixar o cargo que tinha.

Ora, na sua última audiência geral, ficou bem claro que não é nada disso, bem pelo contrário. O que fica para sempre é uma decisão de grande paternidade, ao ponto de eu própria me sentir abraçada na explicação que ele deu.

Ou seja, que o "descanso" e a "segurança" que eu tinha em saber que Bento XVI era o Papa, agora essa certeza continua porque, como ele disse, permanece na Cruz, junto do Senhor crucificado, a interceder por mim e por todos, e pelos destinos da Igreja e da humanidade.

Portanto, estou grata por ter testemunhado este grande momento histórico que me fez crescer na fé. Para ser justa, Bento XVI, com a decisão de tomou e as últimas palavras que proferiu no final do seu pontificado, confirmou a minha fé.
- See more at: http://rr.sapo.pt/opiniao_detalhe.aspx?did=98553&fid=34#sthash.UD56Ncui.dpuf

Vaticano selecciona 60 fotografias e frases do pontificado de Bento XVI

60 Fotografias e Frases de Bento XVI by papinto

Obrigado Bento XVI


Obrigado Bento XVI

Senhor, aumentai a nossa fé!


Poucos episódios dos Evangelhos terão maior poder de sugestão.
Era o entardecer.
Cansado, o Senhor do Universo adormeceu sobre uma almofada à popa de um barco que navega.
E sonha o cosmos.
Embalado pelo ondular calmo das águas, pela brisa suave, pelo marulhar cadente dos remos, o drapejar manso da vela, pelo tom doce e ritmado das vozes.
Num instante, desencadeou-se um grande turbilhão de vento.
As ondas cresceram e arrojaram-se contra o barco, que se encheu de água.
Jesus, à popa, continua adormecido sobre a almofada.
E os discípulos que O vêem assim, em pura paz, afinal não vêem nem percebem nada.
Aflitos, acordam-No e pedem-Lhe ajuda.
Jesus, despertando, ordenou que o vento serenasse e fez-se grande calma.
E faz-nos uma pergunta para o mar da nossa vida:

Porque é que não temos fé?

Miguel Alvim

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Imagens da última Audiência Geral do Papa Bento XVI

UltimaAudiênciaGeral by papinto

A radicalidade da oração

Graça Franco
RR on-line 27-02-2013 20:34

Que vai agora fazer Bento XVI, despido das honras e vestes do poder? Dar-nos um exemplo de humildade e coragem que impele à mudança.
Não abandono a cruz. Permaneço apenas de um modo novo junto do senhor crucificado. "Já não sou portador do poder do Governo da Igreja, mas continuarei, no recinto de São Pedro, ao serviço da oração". Se dúvidas houvesse ficaram na sua última audiência, esclarecidas. O Papa não foge, não abdica, não vai gozar de uns anos sabáticos dedicados à reflexão e à música. Não voltará à sua condição de brilhante teólogo não irá viajar pelo mundo ou a fazer conferências. Não. Vai continuar, a sua mesma missão, dedicando-se a uma tarefa fulcral para o governo da Igreja. Não parte, fica. Tal como João Paulo II, também ele permanecerá junto à cruz até ao fim.
E se o Papa polaco fez do seu pontificado uma catequese da vida mostrando ao mundo (que abomina a doença e foge da velhice), o valor sagrado da vida desde a concepção até à morte natural, Bento XVI, na sua racionalidade germânica, oferece-se também ele em catequese. Mostrando-nos agora o que na Vida de um cristão é verdadeiramente essencial, importante e prioritário. Num mundo vergado ao activismo mais produtivista ele abdica do óbvio poder da acção deixando-a humildemente ao sucessor, e às suas redobradas forças, para escolher o mais difícil: confiar inteiramente na força da oração contemplativa.
E o que é a oração? Nada, a inutilidade perfeita, dirá o mundo. Tudo. Responde o Papa, guiado pela sua própria razão iluminada pela força da sua fé inquebrantável. Porque sabe e não duvida que essa mesma força moverá montanhas. Pedi e obtereis. Batei e abrir-se-vos-á. Disse o mestre.
E Bento XVI que podia limitar-se a pregar brilhantemente essa doutrina mostra-nos como se faz quando se acredita, como ele, que a barca da Igreja, não é dele, "não é nossa" mas pertence ao próprio Cristo que nunca a abandona.
Já em 2005 o então cardeal Ratzinger, a escassos dias de ser Papa, numa dorida oração da nona estação da via sacra nos falava da sua visão da Igreja como uma barca que parece pronta a afundar-se e " mete água por todos os lados". Oito anos depois está agora para todos os cristãos bem mais óbvia a fragilidade da barca e a violência da tempestade. Mas, por mais que as lutas de poder lhe transfigurem o rosto e as suas vestes se sujem com os pecados daqueles que deveriam servi-la, acima de tudo com os sacerdotes, como não teme repetir-nos, ainda por estes dias, o próprio Papa, ele é também o primeiro a recordar-nos: descansemos, porque só aparentemente o Senhor dorme.
Para quem via neste Pedro, de hoje, o bom timoneiro capaz de controlar as ondas levando a atribulada embarcação no rumo certo não é fácil entender nem aceitar esta escolha que radica numa confiança absoluta em Deus.

A mudança radical que promoveu este Papa, na luta contra o pecado interno da pedofilia, o que fez para combater os jogos de poder e o desvio de dinheiros, o renovado alento que deu às relações com as outras igrejas irmãs e as outras religiões no mundo, como apelou ao testemunho coerente da alegria da fé, como nos recordou que a beleza e a cultura nos aproximam de Deus e fé e razão são duas aliadas e não duas inimigas, como criticou sem rodeios os vícios capitalistas, se opôs à desregulamentação do mundo do Trabalho e promoveu a Paz! Como em tudo isto parecia ir apenas a meio do bom combate fica naturalmente em aberto um " e porquê agora?" Pode não ser fácil entender nem aceitar esta escolha que radica numa confiança absoluta em Deus. Tal como nunca será fácil (pelo menos às mulheres) entender a passagem do evangelho em que Jesus visita os amigos Lázaro Marta e Maria e nos diz de forma radical o valor da oração.  Marta afadigada a preparar o almoço para o mestre e para os companheiros reclama junto de Jesus que force a sua irmã a ajudá-la. Esta indiferente à necessidade óbvia de cuidar da refeição prostrou-se aos pés de Jesus tranquilamente a ouvir a sua palavra. À hora de preparar a mesa pôs-se a rezar!
Para os que sabem que as tarefas de Marta também são oração é ainda hoje mais difícil entender a indiferença de Jesus às reclamações de Marta e as suas palavras recriminatórias: Marta, Marta, andas afadigada com muitas coisas e uma só é importante. Maria escolheu a melhor parte e não lhe será tirada!
Hoje, como ontem, ao ouvir as palavras do Papa não é fácil ao mundo entendê-las. Se Marta tivesse a escolha da irmã e se prostrasse como ela em oração aos pés do seu Senhor quem serviria o almoço? Quem serviria a Igreja nascente, naquele grupo de discípulos esfomeados que acompanhavam o mestre na visita aos amigos de Betânia? Como perceber que Maria está a ajudar a irmã contemplando o Senhor?
Que vai agora fazer Bento XVI, despido das honras e vestes do poder? Dar-nos um exemplo de humildade e coragem que impele à mudança. Mas, acima de tudo, mostrar-nos que mesmo hoje, contra todas as lógicas terrenas, é possível ter a sabedoria e confiança suficientes para escolher a melhor parte… que não lhe será tirada!

Fiz as pazes com Bento XVI

RR on-line 27-02-2013 Filipe d'Avillez

Sei bem que não há maior arma contra os inimigos da Igreja que a oração. Esse será, para sempre, o seu melhor escudo contra o mal. E há tanto mal! Há tantos ataques!

Meu querido Santo Padre. Confesso que ainda estou a ter algumas dificuldades em aceitar a sua decisão.

Aceito-a com devoção filial, mas tenho muito medo que sirva para "relativizar" o carácter do ministério que ocupa até às 20h00 de 28 de Fevereiro.

Há algum tempo que dizia que não gosto do princípio de que os bispos, nossos pais na fé, resignem por limite de idade, quais funcionários públicos. Desde que tornou pública a sua decisão, já ouço demasiada gente a dizer que isto é o culminar de um processo e que, a partir de agora, todos os Papas vão ter de considerar o seu exemplo, quando as forças começarem a fraquejar. Eu não quero ver construir no Vaticano um lar de terceira idade para papas reformados. Morreria feliz se o seu exemplo não for seguido por mais ninguém.

Mas respeito-o. Respeito porque sei que não quer nada que não o bem da Igreja que tanto ama e que, obviamente, conhece melhor o seu estado de saúde do que eu ou qualquer outro comentador.

Respeito-o, sobretudo, porque sei que foi uma decisão rezada, profunda e sincera. E foi isso que me levou a fazer as pazes com a sua decisão. A oração.

Sei bem que não há maior arma contra os inimigos da Igreja que a oração. Esse será, para sempre, o seu melhor escudo contra o mal. E há tanto mal! Há tantos ataques! Sobretudo os que vêm de dentro, protagonizados por responsáveis da Igreja, como tão bem nos tem lembrado, inclusivamente, durante a sua viagem a Portugal.

Estamos em guerra, Santo Padre, e sei que as guerras ganham-se, em última instância, na frente de batalha, nas trincheiras. Os nossos trunfos nesta batalha não são os bem-falantes, não são os dedicados nem os muito praticantes. Os nossos trunfos são os que rezam. Só rezam. Nada mais fazem do que rezar. Os monges e freiras, aparentemente fechados e afastados do mundo, são as nossas armas de devoção maciça.

Por isso, agora acho que compreendo. Vai para as trincheiras, não vai? Vai combater o bom combate, no local onde ele custa mais. Não está a fugir. Não poderia fugir. Vai arregaçar as mangas e travar a luta que eu e tantos outros, por melhores que sejam as intenções, não podemos travar.

Vá Bento XVI. Prometo rezar por si. Vá para as trincheiras, vá lutar. É aí que Deus o quer agora. É também a si, agora, que a Igreja confia a sua protecção!

Discurso de despedida do Papa Bento XVI na sua última Audiência

Venerados irmãos no Episcopado e no Sacerdócio!
Ilustres Autoridades!
Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço-vos por terem vindo em tão grande número para esta minha última Audiência geral. Obrigado do coração! Estou realmente tocado! E vejo a Igreja viva! E penso que devemos também dizer um obrigado ao Criador pelo belo tempo que nos deu mesmo agora ainda no Inverno.

Como o apóstolo Paulo no texto bíblico que ouvimos, também eu sinto no meu coração o dever de agradecer sobretudo a Deus, que guia e faz crescer a Igreja, que semeia a sua Palavra e assim alimenta a fé no seu Povo. Neste momento a minha alma expande-se para abraçar toda a Igreja espalhada no mundo; e dou graças a Deus pelas "notícias" que nestes anos de ministério petrino pude receber sobre a fé no Senhor Jesus Cristo, e da caridade que circula no Corpo da Igreja e o faz viver no amor, e da esperança que nos abre e nos orienta para a vida em plenitude, rumo à pátria do Céu.

Sinto que levo todos na oração, um presente que é aquele de Deus, onde acolho cada encontro, cada viagem, cada visita pastoral. Tudo e todos acolho na oração para confiá-los ao Senhor: para que tenhamos plena consciência da sua vontade, com toda sabedoria e inteligência espiritual, e para que possamos agir de maneira digna a Ele, ao seu amor, levando frutos em cada boa obra (cfr Col 1,9-10).

Neste momento, há em mim uma grande confiança, porque sei, todos nós sabemos, que a Palavra de verdade do Evangelho é a força da Igreja, é a sua vida. O Evangelho purifica e renova, traz frutos, onde quer que a comunidade de crentes o escuta e acolhe a graça de Deus na verdade e vive na caridade. Esta é a minha confiança, esta é a minha alegria.

Quando, em 19 de Abril, há quase oito anos, aceitei assumir o ministério petrino, tive a firme certeza que sempre me acompanhou: esta certeza da vida da Igreja, da Palavra de Deus. Naquele momento, como já expressei muitas vezes, as palavras que ressoaram no meu coração foram: Senhor, porque me pedes isto? É um peso grande este que me coloca sobre as ombros, mas se Tu mo pedes, à tua palavra lançarei as redes, seguro de que Tu me guiarás, mesmo com todas as minhas fraquezas. E oito anos depois posso dizer que o Senhor me guiou, esteve próximo a mim, pude perceber quotidianamente a Sua presença. Foi uma parte do caminho da Igreja que teve momentos de alegria e de luz, mas também momentos difíceis; senti-me como São Pedro com os Apóstolos na barca no mar da Galileia: o Senhor deu-nos tantos dias de sol e de leve brisa, dias nos quais a pesca foi abundante; houve momentos também nos quais as águas estavam agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir. Mas sempre soube que naquela barca está o Senhor e sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas é Sua. E o Senhor não a deixa afundar; é Ele que a conduz, certamente também através dos homens que escolheu, porque assim quis. Esta foi, e é uma certeza, que nada pode ofuscar.  E é por isto que hoje o meu coração está cheio de agradecimento a Deus porque não fez nunca faltar a toda a Igreja e também a mim o seu consolo, a sua luz, o seu amor.

Estamos no Ano da Fé, que desejei para reforçar a nossa fé em Deus num contexto que parece colocá-Lo cada vez mais em segundo plano. Gostaria de convidar todos a renovar a firme confiança no Senhor, a confiar-nos como crianças nos braços de Deus, certo de que aqueles braços nos sustentam sempre e são aquilo que nos permite caminhar a cada dia, mesmo no cansaço. Gostaria que cada um se sentisse amado por aquele Deus que doou o seu Filho por nós e que nos mostrou o seu amor sem limites. Gostaria que cada um sentisse a alegria de ser cristão. Numa bela oração para recitar-se quotidianamente de manhã diz-se: "Adoro-te, meu Deus, e te amo com todo o coração. Agradeço-te por me teres criado, feito cristão…". Sim, estamos contentes pelo dom da fé; é o bem mais precioso, que ninguém pode nos tirar! Agradeçamos ao Senhor por isto todos os dias, com a oração e com uma vida cristã coerente. Deus ama-nos, mas espera que nós também o amemos!

Mas não é somente a Deus que quero agradecer neste momento. Um Papa não está sozinho à frente da barca de Pedro, mesmo que seja a sua primeira responsabilidade. Eu nunca me senti sozinho no levar a alegria e o peso do ministério petrino; o Senhor colocou tantas pessoas que, com generosidade e amor a Deus e à Igreja, me ajudaram e me foram próximas. Antes de tudo vós, queridos Cardeais: a vossa sabedoria, os vossos conselhos, a vossa amizade foram preciosos para mim; os meus Colaboradores, a começar pelo meu Secretário de Estado que me acompanhou com fidelidade nestes anos; a Secretaria de Estado e toda a Cúria Romana, como também todos aqueles que, nos vários sectores, prestaram o seu serviço à Santa Sé: são muitas caras que não aparecem, permanecem na sombra, mas no silêncio, na dedicação quotidiana, com espírito de fé e humildade foram para mim um apoio seguro e confiável. Um pensamento especial à Igreja de Roma, a minha Diocese! Não posso esquecer os Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio, as pessoas consagradas e todo o Povo de Deus: nas visitas pastorais, nos encontros, nas audiências, nas viagens, sempre percebi grande atenção e profundo afecto; mas também quis bem a todos e a cada um, sem distinções, com aquela caridade pastoral que é o coração de cada Pastor, sobretudo do Bispo de Roma, do Sucessor do Apóstolo Pedro. Levei cada um de vós diariamente na oração, com um coração de pai.

Gostaria que a minha saudação e o meu agradecimento alcançasse todos: o coração de um Papa expande-se ao mundo inteiro. E gostaria de expressar a minha gratidão ao Corpo Diplomático junto à Santa Sé, que torna presente a grande família das Nações. Aqui penso também em todos aqueles que trabalham para uma boa comunicação, a quem agradeço pelo seu importante serviço.

Neste ponto gostaria de agradecer verdadeiramente de coração às muitas pessoas pessoas que em todo o mundo, nas últimas semanas, me enviaram sinais comoventes de atenção, de amizade e de oração. Sim, o Papa não está nunca sozinho, agora experimento isso mais uma vez de um modo tão grande que toca o coração. O Papa pertence a todos e tantas pessoas se sentem muito próximas a ele. É verdade que recebo cartas dos grandes do mundo – dos chefes de Estado, dos líderes religiosos, de representantes do mundo da cultura, etc. Mas recebo muitas cartas de pessoas simples que me escrevem simplesmente do seu coração e me fazem sentir o seu afecto, que nasce do estar junto de Cristo Jesus, na Igreja. Estas pessoas não me escrevem como se escreve, por exemplo, a um príncipe ou a uma grande personagem que não se conhece. Escrevem-me como irmãos e irmãs ou como filhos e filhas, com o sentido de uma ligação familiar muito afetuosa. Aqui pode-se tocar com a mão o que é a Igreja – não uma organização, uma associação para fins religiosos ou humanitários, mas um corpo vivo, uma comunhão de irmãos e irmãs no Corpo de Jesus Cristo, que une todos nós. Experimentar a Igreja deste modo e poder quase tocar com as mãos a força da sua verdade e do seu amor é motivo de alegria, em um tempo no qual tantos falam do seu declínio. Mas vejamos como a Igreja é viva hoje!

Nestes últimos meses, senti que as minhas forças estavam a diminuir e pedi a Deus com insistência, na oração, para me iluminar com a sua luz, de modo a tomar a decisão mais justa não para o meu bem, mas para o bem da Igreja. Dei este passo na plena consciência da sua gravidade e também inovação, mas com profunda serenidade na alma. Amar a Igreja significa também ter coragem de fazer escolhas difíceis, sofrer, tendo sempre em vista o bem da Igreja e não de si próprio.

Aqui, permitam-me voltar mais uma vez a 19 de Abril de 2005. A gravidade desta decisão está no facto de daí em diante eu estar empenhado sempre e para sempre no Senhor. Sempre – quem assume o ministério petrino já não tem mais privacidade alguma. Pertence sempre e totalmente a todos, a toda a Igreja. A sua vida vem, por assim dizer, totalmente privada da dimensão privada. Pude experimentar, e experimento-o precisamente agora, que se recebe a própria vida quando se doa a vida. Antes disse que muitas pessoas que amam o Senhor amam também o Sucessor de São Pedro e estão afeiçoadas a ele; que o Papa tem verdadeiramente irmãos e irmãs, filhos e filhas em todo o mundo, e que se sente seguro no abraço da vossa comunhão; porque não pertence mais a si mesmo, pertence a todos e todos lhe pertencem.

O "sempre" é também um "para sempre" – não há mais um retornar ao privado. A minha decisão de renunciar ao exercício activo do ministério não revoga isto. Não retorno à vida privada, a uma vida de viagens, encontros, recepções, conferências, etc. Não abandono a Cruz, mas estou de modo novo junto ao Senhor Crucificado. Não carrego mais o poder do ofício para o governo da Igreja, mas no serviço da oração estou, por assim dizer, no recinto de São Pedro. São Bento, cujo nome levo como Papa, será para mim de grande exemplo nisto. Ele mostrou-nos o caminho para uma vida que, activa ou passiva, pertence totalmente à obra de Deus.

Agradeço a todos e a cada um também pelo respeito e pela compreensão com o qual me acolheram nesta decisão tão importante. Continuarei a acompanhar o caminho da Igreja com a oração e a reflexão, com aquela dedicação ao Senhor e à Sua Esposa que tentei viver até agora a cada dia e que quero viver sempre. Peço-vos para lembrarem-se de mim diante de Deus e, sobretudo, para rezarem pelos Cardeais, chamados a uma tarefa tão importante, e pelo novo Sucessor do Apóstolo Pedro: o Senhor o acompanhe com a Sua luz e a força do Seu Espírito.

Invoquemos a materna intercessão da Virgem Maria Mãe de Deus e da Igreja para que acompanhe cada um de nós e toda a comunidade eclesial; a ela nos confiemos, com profunda confiança.

Queridos amigos! Deus guia a sua Igreja, apoia-a mesmo e sobretudo nos momentos difíceis. Não percamos nunca esta visão de Fé, que é a única verdadeira visão do caminho da Igreja e do mundo. No nosso coração, no coração de cada um de vós, haja sempre a alegre certeza de que o Senhor está ao nosso lado, não nos abandona, está próximo a nós e acolhe-nos com o seu amor. Obrigado!

Tradução obtida no blog Senza

Última Audiência de Quarta-feira do Papa Bento XVI

Queridos irmãos e irmãs,
No dia dezanove de Abril de dois mil e cinco, quando abracei o ministério petrino, disse ao Senhor: «É um peso grande que colocais aos meus ombros! Mas, se mo pedis, confiado na vossa palavra, lançarei as redes, seguro de que me guiareis». E, nestes quase oito anos, sempre senti que, na barca, está o Senhor; e sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas do Senhor. Entretanto não é só a Deus que quero agradecer neste momento. Um Papa não está sozinho na condução da barca de Pedro, embora lhe caiba a primeira responsabilidade; e o Senhor colocou ao meu lado muitas pessoas que me ajudaram e sustentaram. Porém, sentindo que as minhas forças tinham diminuído, pedi a Deus com insistência que me iluminasse com a sua luz para tomar a decisão mais justa, não para o meu bem, mas para o bem da Igreja. Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e inovação, mas com uma profunda serenidade de espírito.
* * *
Amados peregrinos de língua portuguesa, agradeço-vos o respeito e a compreensão com que acolhestes a minha decisão. Continuarei a acompanhar o caminho da Igreja, na oração e na reflexão, com a mesma dedicação ao Senhor e à sua Esposa que vivi até agora e quero viver sempre. Peço que vos recordeis de mim diante de Deus e sobretudo que rezeis pelos Cardeais chamados a escolher o novo Sucessor do Apóstolo Pedro. Confio-vos ao Senhor, e a todos concedo a Bênção Apostólica.  

Veja aqui a Audiência Geral com tradução simultânea em português

Adopte um Cardeal

Obedecendo ao Papa que nos pede que rezemos pelos Cardeais, proponho , de modo a tornar mais concreta esta oração que Adoptem um Cardeal, . Neste site é nos atribuído um dos cardeais. A nossa tarefa é rezar por ele, para que através dele o Espírio Santo possa mostrar a Sua escolha para a Igreja.

Última audiência pública do Papa Bento XVI

Tempo de Quaresma

Este tempo de Quaresma é uma travessia. Quem atravessa o deserto precisa de água, de bússola e, sobretudo, da convicção de que vale a pena caminhar e alcançar o fim, a meta desejada. Temos metas? Quais? Temos água? O apoio de Deus, a sua força, não falha. E a bússola? Quem é que nos dá uma palavra ou mão amiga a partir da experiência?

NÃO HÁ SOLUÇÕES, HÁ CAMINHOS
365 vezes por ano não perguntes porquê, mas para quê
Vasco P. Magalhães, sj

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Frase do dia

Quando os homens não podem mudar as coisas, mudam as palavras
Jean Jaurés
Político francês (1851-1914)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Semana histórica

Na próxima 5ª feira termina o Pontificado do Papa Bento XVI. Na quarta-feira será a sua última Audiência Geral. Importante viver estes dias com a intensidade de atenção que estes acontecimentos sugerem. Reuni neste dossier todos os posts que afixei desde que foi conhecida a intenção de renúncia do papa.
É claro que os artigos escolhidos foram bastante seleccionados. Muita coisa se disse, porém, como se pode comprovar numa mera consulta dos jornais nos últimos dias, a grande maioria dos textos que se debruçaram sobre a decisão de resignação de Bento XVI nem sequer menciona aquele que foi, de longe, o factor mais decisivo no fenómeno que consideram: Deus.(ler aqui)

Nesta Quaresma surgiu esta iniciativa de colocar nas janelas o Estandarte de Cristo e aqui explica-se porque é importante este gesto.

Para perceber melhor a questão económica que nos cerca recomendo que ouça esta entrevista ao economista João César das Neves

Um apelo à serenidade no meio da turbulência

João Carlos Espada
Público 25/02/2013

Muito já foi dito sobre o regresso de Grândola, Vila Morena ao repertório político nacional. Pessoalmente, penso que o primeiro ponto a sublinhar é que cada um é livre de ter as suas próprias preferências musicais e que os outros pouco ou nada têm a ver com isso. Outro ponto, todavia, consiste em usar uma canção que é símbolo da liberdade para impedir a liberdade de expressão de outros, mesmo que esses outros sejam governantes - mesmo governantes de credibilidade discutível.
Mais grave, contudo, parece-me ser o facto de a canção da liberdade ser usada numa Universidade para impedir a expressão de um argumento de que se discorda. A Universidade é o lar da permanente discórdia tranquila, do confronto civilizado entre pontos de vista rivais. É assim há 2500 anos. Deve imperiosamente continuar a sê-lo e não imagino nenhum argumento, nenhuma indignação legítima, nenhuma causa superior, que possa por um dia que seja interromper essa tradição de liberdade - que deve ser intocável no interior dos muros de uma Universidade.
Finalmente, é legítimo perguntar o que significa realmente o retorno da canção de Zeca Afonso ao repertório político nacional. Costumávamos cantá-la, antes do 25 de Abril de 1974, como forma de protesto contra um regime ditatorial que não respeitava direitos básicos da pessoa e do cidadão. Vivemos hoje em liberdade e democracia constitucional. Vem a propósito usar a canção da liberdade para atacar um Governo eleito livremente e livremente sujeito à crítica e escrutínio públicos?
Receio que o efeito, eventualmente não intencional, possa ser a desvalorização e não a valorização da democracia. Quando começa a confundir-se a crítica a um Governo e a uma política com a resistência contra a ditadura, algo de fundamental está realmente a ficar confuso. Quem viveu sob a ditadura sabe no entanto que a diferença é óbvia. E deve dizê-la: antes do 25 de Abril, os acontecimentos da semana passada teriam terminado com prisões e cargas policiais e não teriam sido noticiados, muito menos debatidos, nos jornais. Essa é a brutal diferença. Convém não esquecê-la.
Quanto ao Governo, por seu turno, creio que está na altura de parar para pensar, como julgo ter sugerido aqui em Outubro passado. Não propriamente porque discursos dos governantes andem a ser interrompidos, mas porque esses discursos precisam de ser confrontados com os factos.
Este Governo foi eleito com um programa de saneamento do despesismo estatal e de reforma dos privilégios financiados por esse despesismo. Digamos que havia um programa de "libertação da sociedade civil", uma expressão carregada de esperança que foi há muito tempo, creio que logo após o 25 de Abril ou depois do 25 de Novembro, enunciada por Francisco Pinto Balsemão.
Em vez disso, temos assistido a um preocupante, senão mesmo alarmante, aumento da carga fiscal sobre essa mesma sociedade civil. O resultado tem sido a espiral recessiva que hoje é inegável. E, com ela, a quebra das receitas fiscais que se pretendia aumentar. Já aqui sugeri que o resultado final pode estar a ser uma espiral estatizante, através da asfixia da economia e sociedade civis.
Em democracia, regime em que indiscutivelmente vivemos, a pergunta banal que se impõe é a seguinte: em que eleitorado se reconhece este Governo? Para quem fala? Com quem conta? Pode parecer uma pergunta pedestre, mas é uma pergunta importante. Se a resposta fosse, por exemplo, para os portugueses que cumprem a lei e pagam os seus impostos, então a necessária conclusão teria de ser que as expectativas desses eleitores têm de ser tomadas em conta.
Esta pode ser a explicação da irritabilidade crescente que parece alastrar na sociedade portuguesa. É uma irritabilidade difusa, mas contagiante, que atravessa o espectro político-partidário e afecta muitos sectores, não apenas os que são tradicionalmente favoráveis às oposições. Essa irritabilidade exprime desapontamento, cansaço, quebra de horizontes de esperança. O Governo devia preocupar-se com esses sinais. Mas a oposição democrática também. A irritabilidade difusa mas persistente, em democracia, não afecta apenas os partidos do Governo. Mina a confiança, e esta é o suporte do regime democrático, o qual, como costumava recordar Raymond Aron, é obra comum de partidos rivais.
P.S.: Um possível estímulo para reencontrarmos um espírito de diálogo nacional tranquilo pode talvez ser encontrado num lugar inesperado: o filme sobre Lisboa que o embaixador da Polónia em Portugal, Bronislaw Misztal, acaba de produzir. Raramente um recém-chegado a Lisboa (em Agosto do ano passado) terá expressado de forma tão tocante o apreço pela maneira de estar portuguesa. O filme pode ser visto na página oficial da Embaixada da Polónia: http://www.lisbon.mfa.gov.pl/.

Humildade: a encíclica de Bento XVI na hora da despedida

Jean-Marie Guénois
In Le Figaro Magazine, 15-16.2.2013
Transcrição: L'Osservatore Romano
© SNPC | 25.02.13

Bento XVI não publicará a encíclica sobre a fé – embora em fase avançada – que devia apresentar na primavera.  Já não tem tempo. E nenhum sucessor é obrigado a retomar uma encíclica incompleta do próprio predecessor. Mas existe outra encíclica de Bento XVI, escondida no seu coração, uma encíclica não escrita.  Ou melhor, escrita não pela sua pena mas pelo gesto do seu pontificado. Esta encíclica não é um texto, mas uma realidade: a humildade.
A 19 de abril de 2005 um homem que pertence à raça das águias intelectuais, temido pelos seus adversários, admirado pelos seus estudantes, respeitado por todos devido à acutilância das suas análises sobre a Igreja e o mundo, apresenta-se, recém-eleito Papa, como um cordeiro levado para o sacrifício. Utilizará até a terrível palavra «guilhotina» para descrever o sentimento que o invadiu no momento em que os seus irmãos cardeais, na Capela Sistina, ainda fechada para o mundo, se viraram para ele, eleito entre todos, para o aplaudir. Nas imagens da época, a sua figura curvada e o seu rosto surpreendido testemunham-no.
Depois teve que aprender o mister de Papa. Extirpou, como raízes arraigadas sob o húmus da terra, o eterno tímido, lúcido na mente mas desajeitado no corpo, para o projetar perante o mundo. Foi um choque para ambas as partes. Não conseguia assumir a desenvoltura do saudoso João Paulo II. O mundo compreendia mal aquele Papa sem efeito. Bento XVI nem teve os cem dias de "estado de graça" que se atribuem aos presidentes profanos. Teve, sem dúvida, a graça divina, fina mas pouco mundana. Contudo teve, ainda e sempre, a humildade de aprender sob os olhares de todos.
Foram sete anos terríveis de pontificado. Nunca um Papa teve, num certo sentido, tão pouco "sucesso". Passou de polémica em polémica:  crise com o Islão depois do seu discurso de Ratisbona, onde evocou a violência religiosa; deformação das suas palavras sobre a Sida durante a primeira viagem à África, que suscitou um protesto mundial; vergonha sofrida pelo explodir da questão dos sacerdotes pedófilos, por ele enfrentada; o caso Williamson, onde o seu gesto de generosidade em relação aos quatro bispos ordenados por D. Lefebvre (o Papa revogou as excomunhões) se transformou numa reprovação mundial contra Bento XVI, porque não tinha sido informado sobre os discursos negacionistas da Shoah feitos por um deles; incompreensões e dificuldades de pôr em ação o seu desejo de transparência quanto às finanças do Vaticano; traição de uma parte do seu grupo mais próximo no caso Vatileaks, com o seu mordomo que subtraiu cartas confidenciais para as publicar...
Não teve nem sequer um ano de trégua. Nada lhe foi poupado. Às violentas provações físicas do pontificado de João Paulo II, ao atentado e ao mal de Parkinson, parecem corresponder as provações morais de rara violência desta litania de contradições sofrida por Bento XVI.
Ao renunciar, o Papa eclipsa-se. À própria imagem do seu pontificado. Mas só Deus conhece o poder e a fecundidade da humildade.

Ao lado do essencial

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-02-25

Quando Jesus nasceu foi dito d'Ele: "Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações" (Lc 2, 35). Parece que essa propriedade se mantém no Seu Vigário, pois muito do que se tem dito nestes dias acerca de Bento XVI manifesta mais a atitude pessoal de quem fala do que o problema que julga analisar.
A Igreja é a instituição mais comentada fora dela. Por todo o lado se proclamam opiniões taxativas sem lhe pertencer, ou sequer simpatizar. O Cristianismo é, sem dúvida, o tema com mais treinadores de bancada. Pelo seu lado o Papado, que é o seu elemento mais criticado, exerce a espantosa atracção que se vê. Não conseguem gostar dele, nem deixar de falar disso. O fenómeno merece análise.
É verdade que a Igreja Católica constitui uma realidade única no mundo. Existindo há 2000 anos, hoje com 1200 milhões de fiéis, é facilmente a maior e mais influente instituição da história. Bento XVI, o 265.º Papa, é também caso único. A mais antiga monarquia, a do Japão iniciada em 660 a. C., tem actualmente "apenas" o seu 125.º imperador, enquanto o Dalai Lama, que pode ser considerado o líder mundial mais parecido, é só o 14.º desde 1357. Em termos meramente estéticos e intelectuais é fascinante.
No entanto, essas análises incluem um elemento inesperado pois, em geral, os comentadores, sendo alheios, não fazem o menor esforço para entrar dentro da lógica daquilo que consideram. Mas não tomam isso como um obstáculo à qualidade do seu juízo. É evidente que quem emite opiniões sobre ciência, música, jardinagem ou alpinismo faz um esforço para entender essas entidades, mesmo que se mantenha exterior ao próprio. Ninguém escreve sobre indígenas do Pacífico, cinema japonês ou cultura punk sem procurar dominar o respectivo ponto de vista. No caso da Igreja isso não sucede, o que leva a generalidade dos críticos a pronunciar candidamente os dislates mais flagrantes, sem perceber que está totalmente ao lado da questão. O motivo desta situação é um fenómeno curioso.
Como se pode comprovar numa mera consulta dos jornais nos últimos dias, a grande maioria dos textos que se debruçaram sobre a decisão de resignação de Bento XVI nem sequer menciona aquele que foi, de longe, o factor mais decisivo no fenómeno que consideram: Deus. Concorde-se ou não, goste-se ou não da sua convicção, é evidente que Bento XVI tomou a sua decisão diante de Deus. Do mesmo modo, toda a Igreja recebeu a notícia como vinda de Deus, e espera do Senhor a continuação desta história. Ignorar isto é como discutir música sem som ou alpinismo sem montanhas.
Olhar para os recentes acontecimentos desta forma, ou seja a partir de dentro, muda completamente as conclusões. Bento XVI não renunciou por causa da Cúria, que é igual há séculos, ou devido a escândalos e ataques, iguais aos que acompanharam cada momento do pontificado. Nem sequer foi por motivos de saúde, apesar de o próprio os ter invocado. O seu gesto só aconteceu porque ele está plenamente convencido ser essa a vontade de Deus. Ele acha mesmo que é isso que aquele Senhor que segue atenta e minuciosamente em cada passo da vida há muito anos, e a quem entregou cada gota da sua existência, quer que ele faça.
Ver assim as coisas também muda totalmente as conversas que estes dias se multiplicam sobre o próximo Papa. Aqueles para quem essa eleição terá consequências, porque seguirão realmente na sua vida o novo "Cristo na terra", como lhe chamava S. Catarina de Sena, vêem as coisas de outra forma. Eles estão pouco preocupados se ele será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou reservado. Essas são as questões das escolhas na ONU ou Comité Olímpico, mas o Conclave nada tem a ver com isso.
Para os eleitores o propósito é, como diz a Constituição Apostólica que regula o processo, ter "em vista unicamente a glória de Deus e o bem da Igreja" (Universi Dominici Gregis, 83). Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transfiguração do Senhor - Homilia de 2013.02.24

Porque é que o inútil é importante?

José Tolentino Mendonça
SNPC 24.02.13

Sei os riscos que corro ao propor um tema como este: o elogio da inutilidade. Por um lado, estamos claramente perante um termo ambíguo. A inutilidade parece à primeira vista um valor negativo ou um contravalor. Quando é que a inutilidade é boa e libertadora? Por outro lado, a nossa cultura, que idolatra a produção e o consumo, assumiu o útil como um dos critérios máximos para avaliar as nossas vidas. Se é útil, é bom. Quando nos sabemos úteis, sentimo-nos compensados. A vida tornou-se uma espécie de grande maratona da utilidade. Contudo, o termómetro que assinala a nossa vitalidade interior não pode dispensar a pergunta pelo lugar que saudavelmente damos ao inútil.
Porque é que o inútil é importante? Porque o inútil subtrai-nos à ditadura das finalidades que acabam por ser desviantes em relação a um viver autêntico. Condicionados por esta finalidade, e aquela, e aquela acabamos simplesmente por não viver, por perder o sentido da gratuidade, a disponibilidade para o espanto e para a fruição. Recorrendo a uma expressão do teólogo Dietrich Bonhoeffer, a inutilidade é que nos dá o acesso à "polifonia da vida", na sua variedade, nos seus contrastes, e na sua realidade escondida e densa. E a polifonia da vida outra coisa não é que a sua inteireza, tantas vezes sacrificada à prevalência contínua do que nos é vendido por útil.
Neste sentido, Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Mestre do inútil! Quando lemos os Evangelhos a partir desta chave, encontramos esta preocupação contínua nas palavras de Jesus: a recondução de cada um, não àquelas finalidades subjetivas que se interpõem como obstáculos, mesmo que a gente as veja como grandes oportunidades, mas à abertura fundamental a uma vida segundo o próprio ser. A isso Jesus desafia os discípulos: "Não vos preocupeis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem quanto ao vosso corpo como que haveis de vestir, pois a vida é mais que o alimento, e o corpo é mais que o vestuário. Reparai nos corvos… Reparai nos lírios, como crescem. Não trabalham nem fiam… Pois eu digo-vos: nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles" (Lc 12, 22).
Num tempo de aperto, em que o útil nos constringe ao máximo empenho, é importante não esquecer o lugar que, precisamente nestes dias difíceis, temos de conceder ao inútil.

A família, espaço de resistência

A. Bagão Félix
Voz da Verdade, 2013-02-24
A família tem sido objecto da atenção prioritária nos documentos da Doutrina Social da Igreja (DSI): "Lugar primeiro da humanização da pessoa e da sociedade" (João Paulo II, Christifideles Laici, 1989), "Célula primeira e vital da sociedade" (Vaticano II, Apostolicam Actuositatem, 1965), "Santuário da vida, sede da cultura da vida" (Centesimus Annus), "Igreja doméstica chamada a anunciar, celebrar e servir o Evangelho da vida" (João Paulo II, Evangelium Vitae, 1995), "A escola do mais rico humanismo" (Gaudium et Spes), "A primeira escola das virtudes sociais" (Vaticano II, Gravissimum educationis, 1965) "Uma comunidade de amor e de solidariedade" (Santa Sé, Carta dos Direitos da Família, 1983).
De entre todas as sociedades humanas, a família é a única natural. Não foi inventada cientificamente, não resulta de qualquer legado jurídico, não foi imposta por qualquer acto administrativo, não germinou fruto de uma qualquer ideologia.
Apesar da desconsideração a que, não raro, é sujeita, a instituição familiar é a primeira e mais decisiva infra-estrutura moral e referencial na conjugação e transmissão de valores e de saberes.
Desconsideração não apenas das autoridades políticas e de outras instituições, mas também por parte de famílias que tendem a demitir-se dos seus papéis vencidos pela pressa, pela angústia, pela indiferença, pela acomodação, pela resignação. Quantos "filhos órfãos de pais vivos" (João Paulo II), quantos filhos de pais a tempo cada mais parcial, quantos avós de netos distantes não sofrem a ausência da família? Quantas refeições se transformam em salas de espectáculo televisivo ou mesmo em almoços ou jantares de negócios ou de relatórios executivos?
Não há um dia em que a família não seja objecto de proclamação pelo mundo fora. Aliás, o mesmo acontece com a paz. No entanto, é da crise da primeira e da ausência da segunda que a actualidade se alimenta freneticamente.
Porque há famílias em crise, os novos paladinos da "libertação" familiar, logo concluem silogisticamente pela crise da família.
Então pelo mesmo raciocínio, havendo desemprego menosprezamos o valor do emprego? Havendo doenças, desvalorizamos o benefício da saúde? Havendo fumadores devemos dar menos valor ao benefício de não fumar?
Claro que não. Havendo muitas famílias em dificuldade, ninguém, de boa-fé, pode, todavia, pôr em causa a família como a expressão antropológica mais solidarista de transmissão da vida, de partilha geracional, de desenvolvimento da personalidade, de mais informal e eficaz instituição de partilha, de protecção social e de escola de trabalho.
Mas temos que reconhecer que as vulnerabilidades por que passa a família contribuem para o empobrecimento cívico, espiritual, afectivo e educativo.
Por isso, a família pode e deve ser a primeira instância de resistência contra a renúncia a valores superiores, sem os quais apenas se pode construir uma qualquer ilusão fugaz.
Bem se sabe que é preciso haver abertura intelectual para perceber as mudanças no mundo que nos envolve. Mas também não podemos descartar a profundidade e extensão da experiência acumulada de gerações passadas. A família é uma unidade feita da diversidade de idades, onde cada um vale mais pelo que é do que pelo que tem.
Não há desenvolvimento verdadeiramente humano sem qualidade da família. Nem é possível e desejável construir e desenvolver um "Estado Social de bem-estar" radicado num certo "mal-estar das famílias".
A família não é para a sociedade e para o Estado, antes a sociedade e o Estado são para a família" (Conselho Pontifício Justiça e Paz, 2004). Bento XVI escreveu na Caritas in Veritate que "perante concepções e políticas materialistas, no âmbito das quais as pessoas acabam por sofrer várias formas de violência […] há que contrapor a competência primária das famílias".
Em matéria familiar tenho respeito pelas normas, mas acredito mais nos valores. Valorizo os recursos, mas elejo o exemplo. Admiro o êxito individual, mas sou mais sensível ao sucesso familiar.
"O futuro da humanidade passa pela família!" (Familiaris Consortio).

Que Papa?

Voz da Verdade, 2013-02-24
D. Nuno Brás

Ainda que não deixe de ser curioso o interesse que a comunicação social e, de um modo ou outro, muitos daqueles que relativizam no seu discurso a pessoa do Papa ou se dizem "não praticantes" têm mostrado pela resignação de Bento XVI e pelo processo de eleição do seu sucessor, o facto é que tudo isso nos pode conduzir a desviar a atenção para realidades menos importantes.
Com efeito, a grande maioria de programas, artigos e opiniões, mais não passam de "desabafos". No fundo muitos deles o que desejam é pedir que o próximo Papa lhes justifique as atitudes de vida, as situações menos claras, um modo de viver a fé mais individualista e segundo a sua própria opinião, antes que integrados plenamente no seio da Igreja. Houve mesmo um Presidente da República de um país europeu que, num claro momento de falta de inspiração ou mesmo de arrogância, disse não ter qualquer candidato a apresentar!
E também nós, facilmente, nos podemos deixar ir por entre essa multidão que opina sobre quem deve ser o próximo Papa, que nome deve ter, que gestos e decisões deve tomar, como se não coubesse ao Espírito Santo a escolha do próximo sucessor de Pedro, e como se, quem quer que ele seja e que nome possa escolher, não fosse para nós, tão-simplesmente, o Santo Padre.
O Papa está no coração dos crentes não por causa da sua nacionalidade, da estética da sua figura, da idade que possa ter, do nome que possa escolher. O Papa está no coração dos crentes simplesmente porque é Papa, sucessor de Pedro, aquele que é o garante último de que a fé que professamos, longe de ser simplesmente nossa, é a fé dos Apóstolos. O Papa está no coração dos crentes porque em comunhão com ele se reúne a Igreja de todos os países, continentes e línguas, na celebração e na vida da fé.
É verdade que a situação que agora vivemos dum Papa que renuncia por motivos de saúde ao exercício do seu ministério de Bispo de Roma é relativamente inédita, pelo menos nos últimos séculos. Mas é igualmente verdade que, como possibilidade, ela estava prevista nas normas eclesiais.
Mais do que nos deixarmos dominar neste reboliço mediático, creio que é mais necessário juntar a fé à esperança, e orar pelo Papa Bento XVI e pelo seu sucessor, dispondo-nos a acolhê-lo e ao seu ensino e governo, não porque realiza ou diz aquilo de que gostamos, mas porque é Pedro, a rocha sobre a qual Jesus constrói a Sua Igreja.

10 razões para ter filhos

Correio da manhã, 24 Fevereiro 2013
:João Miguel Tavares, jmtavares@cmjornal.pt
"Há um lado olímpico em ter muitos filhos. Eles testam os nossos limites e são um desafio permanente"
Há dias, uma leitora, farta de me ouvir resmungar, fez-me esta pergunta: se eu me queixo tanto dos miúdos, se eles me dão cabo da cabeça e me tiram tanto tempo, por que raio decidi eu tê-los, e ainda por cima logo quatro? E de repente, percebi que nunca respondi cabalmente a esta importantíssima questão. Porquê?, de facto. Vai daí, decidi alinhavar 10 razões para ter filhos, como penitência por estar sempre a dar razões para não os ter.
1. A razão ontológica. Ser ou não ser não é para mim uma questão. Sófocles escreveu que o mais feliz dos seres era aquele que nunca tinha nascido. Faulkner escreveu que entre a dor e o nada, escolhia a dor. Eu voto em Faulkner. Mil vezes ser do que não ser. E nascer é fazer ser.
2. A razão estoica Há um lado olímpico em ter muitos filhos. Eles testam os nossos limites e são um desafio permanente às nossas capacidades físicas e mentais. Não sou capaz de saltar à vara nem de correr a maratona. Mas criar quatro putos dá uma abada a tudo isso.
3. A razão ulrichiana. Numa civilização acolchoada, sem guerras nem catástrofes, o pessoal tende a amolecer e a confundir chatices com tragédias. Ter muitos filhos sintoniza-nos com a máxima do banqueiro Fernando Ulrich: "Ai aguenta, aguenta." Que remédio.
4. A razão romântica. Quando se ama alguém, os desejos do outro contam. Se a felicidade da minha mulher passa por ter uma família grande e se a minha felicidade passa pela felicidade da minha mulher, então a minha felicidade passa por ter uma família grande. Chama-se a isto "propriedade transitiva". É muito importante na matemática. E no amor.
5. A razão revolucionária. Citando o sábio Tiago Cavaco na luminosa canção "Faz Filhos": nos nossos dias "constituir família é a suprema rebeldia". Ambos partilhamos a fé neste verso: "Conquistas fabulosas através das famílias numerosas."
6. A razão coppoliana. Está escrito em 'Lost in Translation', de Sofia Coppola: "O dia mais assustador da nossa vida é o dia em que o primeiro nasce. A tua vida, tal como a conheces, acabou. Para nunca mais voltar. Mas eles aprendem a falar e aprendem a andar, e tu queres estar com eles. E eles acabam por se tornar as pessoas mais adoráveis que irás conhecer em toda a tua vida."
7, 8, 9 e 10. As mais importantes razões de todas. Carolina, Tomás, Gui e Rita. Se calhar, eu até passava bem sem filhos. Mas não sem eles. 

Obrigado Santo Padre Bento XVI

22 de Fevereiro, Festa da Cadeira de S. Pedro apóstolo.
O Santuário de Fátima homenageia o Santo Padre Bento XVI, a poucos dias da resignação do seu ministério pontifício.
De forma singela, através de um pequeno filme de dois minutos, o Santuário de Fátima agradece ao Papa o seu pontificado e a sua peregrinação à Cova da Iria, de 11 a 14 de maio de 2010.
As palavras reproduzidas no filme são as que Papa Bento XVI proferiu, a 12 de maio, na Capelinha das Aparições, no momento da Consagração a Nossa Senhora e da oferta da Rosa de Ouro.

Bento XVI no último Angelus: "Nao abandono a Igreja"

ouvir aqui



Rádio Vaticano 2013.02.24 Cidade do Vaticano (RV) – “Não abandono a Igreja, pelo contrário. Continuarei a servi-la com a mesma dedicação e o mesmo amor”: palavras de Bento XVI pronunciadas em seu último Angelus como Pontífice.

Mais de 100 mil pessoas lotaram a Praça S. Pedro para este evento histórico. Faixas e cartazes em várias línguas demonstravam o carinho dos fiéis. Desde as primeiras horas da manhã, a Praça aos poucos foi sendo tomada por religiosas, sacerdotes, turistas, mas principalmente por famílias com crianças e muitos jovens.

Ao meio-dia, assim que a cortina da janela de seus aposentos se abriu, Bento XVI foi aclamado pela multidão.

Comentando o Evangelho da Transfiguração do Senhor, o Papa citou o evangelista Lucas, que ressalta o fato de que Jesus se transfigurou enquanto rezava: a sua é uma experiência profunda de relacionamento com o Pai durante uma espécie de retiro espiritual que Jesus vive sobre um alto monte na companhia de Pedro, Tiago e João.

Meditando sobre esta passagem do Evangelho, explicou o Pontífice, podemos tirar um ensinamento muito importante. "Antes de tudo, a primazia da oração, sem a qual todo o trabalho de apostolado e de caridade se reduz ao ativismo. Na Quaresma, aprendemos a dar o justo tempo à oração, pessoal e comunitária, que dá fôlego à nossa vida espiritual. Além disso, a oração não é um isolar-se do mundo e de suas contradições."

A existência cristã – disse o Papa, citando sua Mensagem para a Quaresma –, consiste num contínuo subir o monte do encontro com Deus, para depois descer trazendo o amor e a força que dele derivam, a fim de servir nossos irmãos e irmãs com o mesmo amor de Deus.

“Queridos irmãos e irmãs, esta Palavra de Deus eu a sinto de modo particular dirigida a mim, neste momento da minha vida. O Senhor me chama a 'subir o monte', para me dedicar ainda mais à oração e à meditação. Mas isto não significa abandonar a Igreja, pelo contrário. Se Deus me pede isso, é precisamente para que eu possa continuar a servi-la com a mesma dedicação e o mesmo amor com o qual eu fiz até agora, mas de um modo mais adequado à minha idade e às minhas forças.”
Na saudação em várias línguas, Bento XVI falou também em português: “Queridos peregrinos de língua portuguesa que viestes rezar comigo o Angelus: obrigado pela vossa presença e todas as manifestações de afeto e solidariedade, em particular pelas orações com que me estais acompanhando nestes dias. Que o bom Deus vos cumule de todas as bênçãos”.