domingo, 30 de junho de 2013

Povo

Povo
Um conjunto de seres racionais associados na comunhão concorde das coisas que ama
(Santo Agostinho)

Para além do “obrigado”

|D. Nuno Brás
Voz da Verdade, 2013-06-30
O Patriarcado de Lisboa vive este fim-de-semana um dos momentos que marcará para sempre a sua história: no dia 29, o Senhor D. José Policarpo preside, pela última vez, à celebração das ordenações sacerdotais e despede-se dos seus diocesanos como Patriarca de Lisboa. Significativamente, fá-lo no dia em que completa 35 anos de ordenação episcopal.
Ao longo de cinco décadas, o Senhor D. José foi uma das personalidades que nos habituámos a perceber como decisivas nos grandes momentos da vida da nossa diocese, da Igreja e de Portugal: Professor de Teologia, intelectual escutado nos ambientes culturais, Reitor do Seminário dos Olivais e da Universidade Católica, Bispo Auxiliar e, finalmente, desde 1998, Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal.
Se estes cargos lhe deram visibilidade e o tornaram numa figura pública, não menos importante foi a sua ação de pastor, capaz de discernir o caminho a seguir nas situações mais complexas, de pronunciar em público ou numa conversa privada a palavra certa e segura que convidava a dirigir o olhar para horizontes maiores, os de Deus.
Grandes são, pois, as razões que nos levam a agradecer a Deus e ao homem: a Deus, o ter-nos dado um pastor que, generosamente, se esqueceu de si para se gastar no bem do rebanho; ao homem, por ter sido capaz de acolher a vontade de Deus, e não apenas de a viver na sua vida como de a tornar presente para todos.
Muitos são, de facto, os bons frutos que por meio do Senhor D. José recebemos do Pai. Mas, tenho a certeza, muitos serão os frutos que o próprio Deus, através da sua ação e da sua oração, nos vai ainda oferecer. Por isso, o "obrigado" sentido que é dever pronunciar neste momento, não pode deixar de se transformar na expectativa de quem espera do seu antigo pastor muitos mais sinais da presença do Deus connosco.

Adquirir bons hábitos

Pe. Rodrigo Lynce de Faria
As virtudes humanas ― diz-nos o Catecismo no número 1804 ― são atitudes firmes, disposições estáveis que regulam os nossos actos segundo a razão e a fé. Conferem facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. A pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem.
Educar possui uma estreita relação com ajudar a usar bem a liberdade ― ensinar a alcançar virtudes. Por isso, na educação das crianças e dos jovens a adquisição de bons hábitos possui uma enorme importância. Antes de nascermos, recebemos uma natureza biológica. No entanto, no caso do ser humano, além dessa natureza necessitamos da educação para desenvolver todas as nossas capacidades.
A educação dos nossos pais e professores ― desde a mais tenra idade ― levou-nos à repetição dos mesmos actos que foram construindo o nosso modo de ser. Fomos moldando o nosso carácter e afinando o nosso temperamento ― na medida das nossas possibilidades e com as nossas limitações.
A liberdade, dom que possuímos de um modo real mas limitado, oferece-nos tanto a possibilidade de desenvolvermos uma conduta digna e lógica, como de seguirmos um comportamento indigno e patológico.
Assim, diz-nos Aristóteles, com o passar do tempo uns homens tornam-se justos e os outros injustos. Uns trabalhadores e os outros preguiçosos. Uns seguem o caminho da responsabilidade e os outros o da irresponsabilidade. Uns são amáveis e os outros violentos. Uns amam a verdade e os outros preferem as facilidades da mentira. Uns são constantes no seu trabalho e os outros optam por viver ao sabor do vento.
Toda a repetição de actos bons pressupõe uma certa força de vontade. No entanto, hoje em dia, a educação da vontade é vista com uma certa desconfiança. Insistir na necessidade de fortalecer a vontade parece um ataque à liberdade.
É manifesto que a liberdade é um grande dom. Porém, perguntemo-nos: que acontece se a liberdade vai unida a uma fraca força de vontade?
Se uma criança não adquire hábitos positivos ― virtudes que facilitam a prática do bem ― a sua personalidade fica ao sabor da lei do gosto. Lei que, diga-se de passagem, é bastante caprichosa.
Adquirir hábitos virtuosos, como diz J. Ayllón, esbarra com um obstáculo permanente: por uma misteriosa incoerência, nenhum ser humano é como gostaria de ser. Por exemplo: quem fuma quando sabe que não o deveria fazer, quem não respeita uma dieta que entende que é para o seu bem. Essas pessoas contradizem-se livremente. Não é que lhes falte liberdade. Faltam-lhes forças!
Esse querer e não querer ao mesmo tempo não tem outro remédio que o esforço por vencer-se em cada caso. Essa debilidade constitutiva do ser humano torna necessário o treino da própria vontade. E esse treino inclui necessariamente o esforço, a capacidade de sacrifício e a sabedoria de, de vez em quando, saber dizer que não a si mesmo.

sábado, 29 de junho de 2013

Estoril

Gonçalo Portocarrero de Almada
ionline 29 Jun 2013 - 05:00
De 24 a 26 de Junho passado teve lugar, no emblemático Hotel Palácio do Estoril, a 21.a edição do Encontro Anual Internacional de Estudos Políticos, promovido pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, que contou com a participação do International Forum for Democratic Studies, de Washington, D.C.; do King's College de Londres; do Royal Institute of Phylosophy, também de Londres, etc.
Por um muito amável convite do professor João Carlos Espada, director do Instituto de Estudos Políticos, e da Dr.a Rita Seabra Brito, directora do programa, tive o privilégio de participar em algumas das sessões, bem como no Winston Churchill Memorial Dinner, que foi presidido pela embaixadora do Reino Unido em Lisboa. Seguiu-se uma excelente palestra de Allen Packwood, director do Churchill College, de Cambridge, que deliciou a assistência com uma muito interessante e interpelativa exposição, subordinada ao tema "Era Winston Churchill um democrata?"
Num mundo que substituiu a metafísica pela tecnologia e em que se dá mais importância à informação do que à formação, fóruns desta natureza são de uma fundamental importância para a preservação da cultura e o aprofundamento da cidadania.
Já em tempos de Aristóteles se falava da inutilidade da filosofia, a que o Estagirita respondia dizendo que essa era, precisamente, a razão da sua excelência: compete à sabedoria não estar submetida a nada nem a ninguém. A sua condição soberana não permite que sirva nenhum outro fim que não seja a própria verdade, e daí a sua inutilidade, mas é também por isso mesmo que lhe compete ser servida por todos os outros saberes.

Pode a beleza tornar-se mais bela?

José Luís Nunes Martins
Ionline 2013-06-30
A consciência do dom obriga-me. Por isso em português dizemos tão sabiamente: obrigado. O que me foi dado compromete-me
O mundo é uma pergunta. É a resposta.
Muitos são os que exploram o que há nas montanhas, nos mares e nos desertos... mas são poucos os que chegam a descobrir a divindade que há à volta do seu coração.
Cada vida é um dom. Há que aceitar esta verdade que se escuta até nas coisas mais simples. Cada homem tem algo de extraordinário, assim como cada coisa tem o seu lugar. Desprezar uma pessoa, ou um qualquer pedaço de mundo, é ignorar que até o mais pequeno dos fragmentos de um espelho partido consegue reflectir a luz do sol e iluminar uma escuridão.
Aquele que se preocupa tanto com o seu vizinho como consigo mesmo, perdoando-lhe como se perdoa a si mesmo, conhece o valor da vida e o caminho para a felicidade. Nunca é complicado. Trata-se de, na maior parte dos casos, conseguir respeitar o outro, aceitando-o como igual e não como alguém de uma humanidade diferente. Há corações cegos, mesmo quando os olhos vêem.
Neste lugar sagrado de nós mesmos, onde os instantes não se medem, reside uma ideia simples: Cada homem é do tamanho da fé de que for capaz. Das desesperanças que consegue vencer. Não do tamanho dos seus aniversários, posses ou ambições... Só quem reconhece que a vida lhe chegou às mãos como um puro presente pode esperar compreender a essência do amor. A sua absoluta gratuitidade.
A consciência do dom, obriga-me. Por isso em português dizemos tão sabiamente: obrigado. O que me foi dado, compromete-me.
Não viver bem. Eis a raiz de um dos maiores medos perante a morte. Teme-se não tanto o depois, mas o que pode não acontecer antes. A verdade é dura. A vida não vivida dói-lhes.
Ter a própria morte por perto obriga-nos a viver melhor a nossa vida, com a absoluta urgência de apenas valorizar o importante. Só quem julga que vai viver aqui para sempre (como se a vida eterna fosse esta) se dá ao luxo imbecil de desperdiçar uma hora das suas; os demais, aqueles que estão conscientes do tempo limitado, podem, face a face com a sua morte, abraçar o melhor desta vida, e, quando lhes chegar o fim, não o temerão da mesma forma... por que terão dado a si mesmos uma vida boa, bela e verdadeira... que não acaba com a morte. Uma vida bem vivida, é eterna, apesar da morte.
Aceitar o dom da vida implica honrar com a felicidade esse que é o supremo talento.
Há que aprender a moderar os juízos, sem condenar nem recompensar nada com precipitação. A realidade é efémera e a maior parte das nossas certezas são apenas transitórias, mundanas. Muitas tristezas nascem das pressas. Mas não haverá pior desgraça do que a de quem, no amor, não se entrega todo... de quem não está disposto a dar a sua vida por aquilo em que acredita...
Uma vida sem nada pelo qual valha a pena morrer, também não é digna de ser vivida.
Há que respirar paciência. Respirar a verdade de que a vida nos chega a cada segundo... respirar, percebendo que cada respiração é uma simples onda de vida que nos ilumina o interior.
Pode a beleza tornar-se mais bela? Sim, pelo amor. O dom de quem dá, o mesmo de quem recebe.
No amor, o mais sábio e ousado não é o que bem defende e ataca mas o que se rende e entrega...

O melhor do mundo

Inês Teotónio Pereira
ionline 29 Jun 2013
Dizia Fernando Pessoa que o melhor do mundo são as crianças. Concordo: a concorrência é fraquíssima
As crianças gostam de toda a gente. Ao contrário de nós, que quanto mais crescemos mais selectivos nos tornamos, as crianças são do tipo brasileiro: abrem os braços a toda a gente, fazem um grande espalhafato, e no entanto estão-se literalmente nas tintas para toda a gente, tal como os brasileiros. Elas gostam das pessoas, de nós, mas não gostam ao ponto de sentirem falta, de nos trocarem pela televisão ou pelo computador, de se lembrarem de nós. Não há pessoa no mundo de uma criança - tirando os pais - que consiga conquistar o lugar do computador ou da consola no coração dessa criança.
As crianças, apesar de gostarem de toda a gente - ou seja, de não embirrarem especialmente com ninguém -, de quem elas gostam mesmo é dos pais, delas próprias e de quem lhes oferece coisas ou lhes faz cócegas. Tudo o resto é mais ou menos mato cerrado. As crianças gostam de forma pragmática. Não vêem os corações para além das caras - só vêem caras e estão-se borrifando para os corações. Não desconfiam de alguém que lhes dê um saco de gomas, só desconfiam de quem vai a seguir tratar das cáries. É assim, é injusto, mas é assim. As crianças, e esta é que é a verdade dolorosa, passam bem sem nós e passam lindamente sem as outras crianças. Os pais e elas próprias chegam e sobram para fazer a sua felicidade.
Dizia Fernando Pessoa que o melhor do mundo são as crianças. Concordo: a concorrência é fraquíssima. Mas elas são o melhor do mundo porque não trazem mal ao mundo, não é por fazerem bem ao mundo - porque a verdade é que elas não fazem bem nem mal. Comem, brincam, aprendem, choram e pouco mais. É por aquilo que não fazem, como guerras, cobrar impostos, poluir rios, fabricar bombas nucleares ou cometer crimes, que as crianças devem ser consideradas o melhor que o mundo tem.
Mas nós gostamos das crianças, especialmente das nossas - gostar das crianças dos outros depende de algumas variáveis como sejam os gritos, os choros, as birras, a quantidade de ranho que sai do nariz, etc. -, não porque elas sejam o melhor do mundo, mas porque são queridas. É assim como os animais pequeninos: são todos queridos. E a verdade é que toda a gente gosta de coisas queridas. O critério, ser querido, chega e sobra para se gostar de alguém. Aliás, é o mais justo e isento de todos.
O que faz com que seja proibido não gostar das crianças - pois a verdade é que este tema é muito pouco democrático, gostar das crianças é uma obrigação moral, não temos escolha - é a sua inocência e o nosso sentimento de culpa. Nós, adultos, estamos absolutamente convictos de que se não fossemos nós as crianças podiam ser mais felizes quando crescessem. Mas temos remorsos. Temos remorsos do mundo que lhes deixamos e por isso bajulamos as crianças como forma de lhes pedir desculpa. "Desculpem lá a fome em África, o terrorismo, a poluição, as PPP e desculpem não vos podermos garantir que o mundo não acaba nos próximos anos. Mas fiquem bem." E a verdade é que apesar de tudo isso elas gostam de nós. Mais: confiam em nós.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Frase do dia

Não se preocupe se é uma pessoa apenas mediana. Está tão perto do fundo como do topo!
Alfred North Withehead (1861-1947)
(filósofo e matemático britãnico)

A Europa precisa de mais variedade, não de mais uniformização

José Manuel Fernandes Público. 28/06/2013

O problema do sonho federalista é simples: não tem apoio democrático. É apenas um pesadelo tecnocrático
Mais um mês de Junho, mais uma cimeira europeia. E mais uma mão-cheia de quase nada. O programa de combate ao desemprego juvenil não será apenas ridiculamente limitado nos fundos que disponibilizará, será sobretudo mais do mesmo, isto é, mais da mesma receita testada com muito poucos resultados no quadro da falhada "Estratégia de Lisboa". Mas parece ser o máximo de que a Europa é hoje capaz. Mesmo o que ainda há pouco era apresentado como a prioridade das prioridades, a união bancária, avança penosamente, a passo de caracol, por entre infinitas divergências e hesitações.
Entre 2010 e 2012 sucederam-se as cimeiras europeias que eram anunciadas como decisivas para salvar o euro e evitar o apocalipse. Dramatizou-se sempre a necessidade de grandes decisões, da mesma forma que se desdramatizou logo a seguir a ausência dessas grandes decisões, substituídas por pequenos passos que, apesar de tudo, foram afastando as nuvens mais negras. Tudo por entre muito lamento sobre a falta de grandes líderes e de grandes visões. É altura de tirar algumas lições deste processo, de tentar perceber o que ele nos ensina para o futuro.
Talvez a primeira lição a tirar é a de que a Europa deve desistir dos sonhos de grandeza que alimenta desde a queda do Muro de Berlim. Aquilo que alguns dos fundadores da União intuíram - que a aproximação dos Estados europeus era fundamental para estes gerirem o fim da hegemonia mundial das nações da península ocidental do continente euro-asiático - devia ser hoje assumido em todas as suas dimensões. O suicídio da Europa nas duas grandes guerras no século XX não lhe permite sonhar com um qualquer regresso ao tempo das suas grandes potências. Por outro lado, a forma como a actual crise afectou sobretudo a Europa, e não o resto do Mundo, reforça a ideia de que temos de saber gerir a nossa decadência relativa. O que significa encontrarmos a melhor forma de preservarmos o essencial - e o essencial é o nosso modo de vida, em democracia, com liberdade, com um Estado social relativamente generoso. Regressar a este realismo, abandonar as utopias perigosas, será sempre um antídoto contra as "grandes visões" que mais depressa nos arranjam sarilhos do que nos resolvem problemas.
A segunda lição decorre da primeira: a Europa não tem muito a ganhar, e pode ter muito a perder, com soluções unificadoras e uniformizadoras. Esta crise e a forma como foi gerida tornaram muito evidentes os limites da integração europeia. Na sua origem esteve um fracasso: apesar das regras de Maastricht, a moeda única não conseguiu uniformizar as culturas económicas e sociais dos países do euro, funcionando para alguns como um veneno alucinogénio que os afogou em défices e dívidas. Essas diferenças alimentam hoje as incompreensões e os ressentimentos que afastam as nações umas das outras e os povos do projecto europeu. A ideia de que os problemas da integração e uniformização se resolvem com mais integração e mais uniformização - a ideia que alimenta os sonhos federais - contraria a evidência dos fracassos presentes.
A terceira lição é que necessitamos de regressar ao essencial do que fez a grandeza da Europa e, depois, o sucesso da construção europeia. A grandeza da Europa, e da civilização ocidental, radica-se na capacidade para inovar, algo que floresce melhor num terreno onde existe diversidade, não em terras artificialmente uniformizadas, e num espaço onde se valorize a concorrência, incluindo a concorrência entre nações. O sucesso inicial da construção europeia baseou-se no alargamento do espaço comum onde todos, cidadãos e empresas, sem barreiras e sem fronteiras, podiam dar largas à sua iniciativa, inventividade e ambição. Foi a livre circulação de pessoas e mercadorias que tornou possível o sucesso económico da construção europeia, tal como são as tentativas de uniformização e regulamentação que estão a contribuir para tornar mais difícil a recuperação económica.
Boa parte destes temas estiveram em discussão esta semana no Estoril Political Forum, o grande seminário que o IEP da Universidade Católica promove desde há 21 anos. Eu próprio participei nalgumas das discussões, que foram, como é habitual, muito plurais e abertas. E que me ajudaram a reforçar a convicção de que o problema europeu não é apenas o sonambulismo das suas lideranças, como recentemente sugeria a revista The Economist: é sobretudo a falta de claridade sobre o caminho a seguir.
Quando estudamos o que tornou singulares alguns dos grandes líderes históricos percebemos que, por regra, estes se distinguiram por, nos momentos críticos, saberem com muita clareza o que era essencial e o que era secundário. Churchill, por exemplo, percebeu desde o início da II Guerra que só poderia derrotar Hitler se conseguisse envolver os Estados Unidos, e tomou por isso decisões que na altura pareciam incompreensíveis. Acabou por ser com os americanos que derrotou Hitler, uns americanos de que desconfiava profundamente mas que sabia serem essenciais para alcançar o objectivo maior. Isso fez a diferença.
O que se passa hoje na Europa é que é muito difícil discernir, ou entender, o que os seus líderes consideram ser essencial. Ou mesmo o que julgam essencial muitos dos que escrevem e pensam sobre a Europa.
Julgo que o sonho federal é um dos principais responsáveis por esta confusão estratégica. Por um lado, todos os que defendem uma maior integração europeia não concebem qualquer alternativa à velha ideia da bicicleta, isto é, não imaginam que seja possível fazer outra coisa que não profundar a integração europeia, dar mais poderes à Comissão ou ao Parlamento Europeu, criar novas regras iguais para todos, tudo fazer para continuar a política de pequenos passos (ou de grandes passos, sempre que possível) em direcção a uma qualquer forma de Estados Unidos da Europa. Mas, ao mesmo tempo que estão presos a este sonho, reconhecem a impossibilidade prática de continuar a transferir soberania dos Estados para o novo super-Estado, uma vez que isso não tem o apoio dos povos e nenhuma revisão dos tratados tem a mais remota hipótese de ser aprovada em consulta popular. Viriato Soromenho Marques, como federalista, foi um dos que assumiu o seu pessimismo nos encontros do Estoril.
Há porém alternativas ao sonho federal. E a mais consistente delas é a proposta de permitir uma construção europeia onde o objectivo não seja a uniformização final, antes passe pela possibilidade de conjugar a existência de um conjunto de princípios e instituições comuns com políticas que os diferentes Estados poderiam adoptar ou abandonar de acordo com as preferências e as culturas nacionais. A Europa, em vez de ser pensada como uma bicicleta, onde é preciso estar sempre a pedalar para que ela não se desequilibre, podia ser imaginada como um veículo com caixa de velocidades, com ponto-morto e até com marcha-atrás, criando instituições e políticas que permitissem a experiência e o erro, que pudessem ser revertidas sem demasiada dor ou pânico. Uma Europa assim talvez nunca viesse a ser a superpotência com que sonham alguns dos federalistas, mas seria por certo um espaço onde podia haver unidade na diversidade e com o qual os povos se identificariam mais facilmente.
Está neste momento em curso uma negociação que pode ajudar a Europa a integrar-se num espaço mais vasto, mais forte e também mais diverso: a destinada à criação de uma União Económica do Atlântico Norte, incluindo os Estados Unidos mas podendo estender-se à Turquia, por exemplo. Nela se regressariam aos bons princípios que fizeram a prosperidade do mundo ocidental. Nela se podia e devia concentrar a esperança de um novo rumo que, em vez de nos prometer apenas sacrifícios, nos criasse novas oportunidades e esperanças. É por isso que Durão Barroso teve razão quando classificou como reaccionários aqueles que se opõem ao avanço por este caminho.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Famílias de plástico? Não

Público, 27/06/2013

No centro da questão sobre a adopção está a noção de família. Alguns entendem-na como uma realidade natural, irreformável na sua essência, mas outros acham que a família é um produto essencialmente cultural e, portanto, susceptível de adaptação às novas realidades sociais e políticas.
De facto, a família romana não coincide com a medieval, nem esta com a actual. A família pagã, por exemplo, admite o divórcio e o aborto, mas a cristã exige a indissolubilidade do vínculo e o respeito pela vida humana desde a concepção. Contudo, quer na Roma pagã, quer na Idade Média cristã, quer mais modernamente, a família é sempre entendida em função do matrimónio, ou seja, da união estável de um homem e uma mulher. Na antiguidade clássica, embora a homossexualidade fosse aceite e até socialmente prestigiada, nunca se admitiu que a união de duas pessoas do mesmo sexo fosse casamento. Não por um preconceito cultural, ou religioso, que o não havia, mas por uma razão de ordem natural. Também no resto do mundo e desde sempre, não obstante a diversidade das culturas e religiões, a família surge da união de pessoas de diferente sexo. Por isso, 97% das uniões estáveis são entre homem e mulher, enquanto só 3% se estabelecem entre parceiros do mesmo sexo.
Porquê? Porque só a união do homem com a mulher é conjugal e princípio de vida. Não se trata, portanto, de uma característica de uma época ou de um lugar, nem de uma imposição ideológica ou transcendente, mas de um imperativo da natureza humana, que é perene e universal. Com efeito, é a natureza que exige a complementaridade do feminino e do masculino, para o bem dos cônjuges e para a procriação. É isto o matrimónio natural, que é o fundamento ecológico da família.
Outra coisa são as uniões não naturais, que são, de per si, infecundas. Mas, como pretendem ser como as famílias, querem ter filhos e, por isso, recorrem à adopção. É humano dar um pai e/ou uma mãe a quem os não tem, porque é natural ter um pai e uma mãe. Mas não é natural ter duas mães ou dois pais, como também não é natural dar uma criança a quem opta por uma união que, como é óbvio, necessariamente exclui a geração. Aliás, a procriação medicamente assistida mais não é, precisamente, do que um método de inseminação artificial.
Como se hão-de chamar, então, estas famílias? Se naturais não são, só podem ser artificiais. Mas uma "família artificial" é como uma "flor de plástico": se é de plástico, não é uma flor. Uma família artificial não só não é natural, como também não é uma verdadeira família, mas um seu sucedâneo ou imitação. Pelo contrário, o que é genuíno, como o casamento e a família natural, é verdadeiro e, portanto, necessariamente bom.

Reportagem/entrevista com o Papa Francisco na SIC, hoje às 20:00

Peço desculpa por voltar a interromper.
A notícia deve valer a pena. Hoje às 8:00 da noite, a SIC transmite a entrevista que o Papa Francisco concedeu ao jornalista Henrique Zimmerman.
Há também a novidade duma leitura crítica da obra "São Francisco de Assis" de Chesterton por Pedro Mexia
É mesmo caso para dizer que o Povo não faz greve… e não dá sossego aos seus leitores…

Homenagem ao forcado José Maria Cortes assassinado em Alcácer no Domingo passado



Pequeno vídeo de homenagem ao valoroso forcado José Maria Cortes (Amadores de Montemor) que faleceu hoje, e a quem toda a Afición presta assim uma merecida homenagem!
Descansa em paz...

O Povo não faz greve

Em dia de greve geral, melhor, no dia em que alguns portugueses se associam à declaração de greve feita por duas centrais sindicais, osoutros portugueses exercem o seu direito de ir trabalhar como nos outros dias. Para uns e para outros trata-se do exercício de um direito que, tem sempre uma contrapartida: quem faz greve prescinde do seu salário desse dia; quem não faz, tem ou pode ter maior dificuldade a chegar ao seu local de trabalho.
Aos meus alunos que têm hoje exame (melhor, já tiveram – comecei a escrever isto mais cedo, mas o dia de greve foi de muito trabalho) informei da minha presença no exame. Informei-os também que, de acordo com uma deliberação da direcção do Instituto poderia fazer um exame extra. A maioria preferiu fazer o exame hoje; o meu custo é ter que fazer o exame para os sobrantes.
Mesmo que não tivesse feito greve poder-me-ia ter aproveitado, cancelado o exame e só teria um exame para fazer lá para o meio de Julho; entretanto, haveria 15 alunos que teriam que esperar mais quinze dias para ir para férias. Não se pode dizer que o prejuízo é grande, mas também não se pode adivinhar qual a consequência para o destino daquelas pessoas.
Apercebi-me que uma das razões que potencia o sucesso de uma greve geral é o seu próprio anúncio e uma fraca divulgação dos serviços mínimos e ainda convencer as pessoas que, se os serviços mínimos funcionassem muita gente poderia fazer o seu dia com normalidade.  Muitos alunos não vieram tratar de assuntos do seu interesse revisão de provas, por exemplo, porque não se quiseram dar ao trabalho de procurar alternativas de deslocação.
O Povo não faz greve, porque sendo a greve uma manifestação de incomodidade perante alguém e como o Povo acontece sem qualquer objectivo retributivo, não tem matéria de greve.
Tem, pelo contrário, motivo de regozijo: há dias o povo na forma de blog ultrapassou  o milhão de visualizações de páginas
Tudo isto, faz com que, seja novamente ocasião de  para recordar o artigo fundador da linha editorial do Povo (agora com o link correcto e funcional):
O mundo é um sítio extraordinário; e o mais extraordinário é o ser humano. E o mais extraordinário no ser humano é a capacidade de virar o mundo para o bem.
É bom voltar, de vez em quando, a este princípio fundador, à natureza positiva da realidade e recordar que "Deus viu tudo quanto tinha feito e achou que era muito bom" (Gen 1, 31)

Francisco

Pedro Mexia
In Expresso, 22.6.2013
25.06.13
Quando um homem chamado Jorge se apresentou ao mundo como "Francisco", muitíssima gente pareceu esperançada com aquela escolha onomástica. Um milénio antes, um homem chamado Giovanni tinha-se chamado "Francesco", talvez por amor às coisas francesas. E a sua mensagem ainda ecoa entre crentes e não-crentes, de tal modo que há três meses parecia que éramos todos franciscanos.
É conhecida a tese segunda a qual a substituição das crenças "mágicas" pela ciência constituiu um "desencantamento do mundo". Podemos, então, considerar a inesgotável popularidade do franciscanismo como um "encantamento do mundo", espanto infantil perante coisas recém-criadas ou recém-descobertas. É esse um dos segredos de Francisco de Assis, e poucos o entenderam tão bem como outro católico jubiloso, Gilbert Keith Chesterton, que em 1923 publicou uma pequena biografia, "St Francis of Assisi", recentemente traduzida em português [edição Alêtheia]. Chesterton explica que Francisco «antecipou as características mais liberais e compreensivas do mundo moderno: o amor à natureza, o amor aos animais, a compaixão social, a noção dos perigos sociais que resultam da prosperidade e mesmo da propriedade». Uma forma de cristianismo que convoca muitos não-cristãos, agora como outrora.
Comecemos pela natureza, questão essencial e mal compreendida. Francisco viveu toda a vida segundo uma "teoria da gratidão". Tanto que se celebrizou como poeta de cânticos de louvor e agradecimento, cânticos das crtiaturas, aspecto que muitos confundem com "panteísmo". Chesterton desmistifica essa ideia: Francisco achava que o paganismo tratava a natureza de forma antinatural, e que era preciso "sobrenaturalizar" a natureza, resgatando-a. Por isso, quando elogia "a criação", isso significa tanto "as coisas criadas" como "o acto criador", e o próprio "ente criador". É provável que algumas pessoas tropecem neste equívoco, mas quem pode dizer que se trata efectivamente de um equívoco? «Deus viu que tudo era bom», é o que vem no Génesis.
Quanto à compaixão, tratava-se de uma virtude mas também de um traço de personalidade. Francisco era decerto voluntarista, impetuoso, abrupto, seguia os impulsos de cada instante, com fé e sem grandes angústias. Era um homem prático, mas não era um "pragmático": Chesterton diz mesmo que ele não seguia o "praticável", ou seja, o que é fácil, mas o exigente: «Era tão prático que não conseguia ser prudente.» O homem de Assis acreditava que somos todos iguais, fraternidade que é teológica e antropológica, antes de ser política. O ideal de "irmandade" que Francisco praticou nasceu de encontros com pedintes, com leprosos, com outros-eus, irmãos que ele abordava com uma igualdade não-sentimental, feita de cortesia, de simplicidade, num gesto que, tantos séculos depois, ainda nos toca.
Por último, mas não em último, Francisco amava o mundo através do desapego às coisas do mundo, como se isso fosse a própria definição de liberdade. Filho frívolo de um abastado comerciante de tecidos, entrou em choque com o pai e despojou-se de todos os bens. Andava vestido como uma túnica castanha atada com uma corda, jejuava ou passava fome, dependia da mendicância, quer dizer, da generosidade dos estranhos. Não fez apenas voto de pobreza, contestou igualmente a noção de propriedade, ou antes, de posse. Escreve Chesterton: «Há nele uma suave mofa da própria ideia de posse; uma espécie de esperança de desarmar o inimigo por via da generosidade; uma espécie de necessidade bem-humorada de espantar o mundo com atitudes inesperadas; uma espécie de alegria de levar uma convicção entusiasta aos seus lógicos.»
Francisco tem também outras dimensões. Existem muitas histórias e fantasias, muitas colecções de episódios, de tal modo a figura incendiou a imaginação medieval. Mas bastavam o amor à natureza, a compaixão e o desapego para que ele tivesse sido visto como uma espécie de lunático encantador. Um asceta rigoroso mas eufórico que levou os votos monásticos a um extremo comovente. Francisco era como os estilistas, cristãos bizantinos que viviam em sacrifício no cimo de pilares; a diferença é que ele ficava cá em baixo, com os outros, como um poverello, um jogral de Deus. Esse ascetismo alegre tornou-o popular como poucos santos fora,. Um santo estranho mas acessível.
E não esqueçamos que Francisco era também um místico, a quem são atribuídos estigmas, visões, milagres. Contudo, não era um daqueles homens que Chesterton diz que se fazem místicos porque são «excessivamente cépticos para serem materialistas». Ele vivia na fé total e completa, numa mística amorosa, trovadoresca, idêntica à do amor cortês do seu tempo, um amor quase abstracto, mas concreto à força da desmesura. Dante descreveu-o assim: «Mas por que eu não pareça assaz escuso, / Francesco e a Pobreza por amantes / entendas ora em meu falar difuso. / Sua concórdia e seus ledos semblantes, / amor e maravilha e doce esguardo / de santos pensamentos são constantes» [versão de Vasco Graça Moura].
Confesso que sou bastante mais agostiniano do que franciscano; mas estive uma vez em Assis, nos lugares onde Francisco viveu, e lembro-me de que aquelas colinas da Úmbria eram habitadas por uma paz como nunca ouvi antes ou depois. Percebi agora que muito mais gente também a escutou.
O autor escreve segundo com o anterior Acordo Ortográfico.

Hoje 27 Papa Francisco na SIC

Fonte: Visão - versão impressa


quarta-feira, 26 de junho de 2013

A propósito da coadoção

Zita Seabra. Expresso, 2013.06.22

Ex-deputada lembra o calvário dos casais heterossexuais para adotar uma criança

Uma criança não é um objeto para uso de um adulto, nem um direito de alguém. A adoção existe para dar uma família a uma criança e não para o inverso.
No entanto, assim aconteceu na argumentação usada no debate que levou à aprovação, na generalidade, do projeto de lei do PS de coadoção por um casal de homossexuais em que a criança se transformou num direito que alguns adultos pretendem ter.
É sabido que a adoção nos casais heterossexuais é acompanhada por múltiplos cuidados para que a criança não venha a sofrer mais ao ser acolhida numa nova família, onde não nasceu. A legislação foi sucessivamente melhorada para salvaguardar os direitos da criança que se encontra geralmente institucionalizada, e consta da lista nacional de adoções, numa situação de orfandade, marcada pela ausência do que há de mais fundamental na vida: uma mãe e um pai — uma família.
Assim, um casal heterossexual que deseje adotar e se inscreva nos serviços do Estado, vai passar um verdadeiro calvário de exames, testes, inquéritos, averiguações de técnicos da Segurança Social. Recentemente, uma minha amiga, juíza, dizia-me que nunca ela e o marido se sentiram tão humilhados na vida, como no tempo — dois anos! —, que andaram a fazer este caminho, até serem considerados aptos para adotar um filho. Foram inquiridos por psicólogos e outros técnicos que lhes escrutinaram a vida toda (souberam quanto ganham, onde gastam, quanto pagam de IRS, como vivem, quantos quartos têm em casa, se bebem ou fumam), e fizeram testes de psicólogos e psicólogas que devassaram a sua privacidade.
Dir-se-á, porém, que a legislação aprovada se refere apenas à coadoção de uma criança por um casal homossexual em que um dos dois já tem, ou irá ter, esse filho.
Não nos estamos a referir a alguém que tem filhos de uma anterior relação heterossexual (com os progenitores vivos). A coadoção está evidentemente excluída nesses casos, porque essa criança tem pai e mãe e, mesmo se ficar ao cuidado do casal homossexual, não perde os progenitores. Trata-se de legislar exclusivamente para casais homossexuais em que um deles tenha um filho adotado ou de procriação medicamente assistida. Legislar-se-á fundamentalmente para duas situações: para os casais homossexuais, em que um deles recorra à adoção de uma criança institucionalizada, ou um casal de mulheres que engravide por inseminação artificial no estrangeiro, uma vez que a legislação portuguesa o impede.
Tal como a igualdade homem/mulher se faz pela garantia dos direitos, contra toda a discriminação, mas em simultâneo com a salvaguarda das diferenças, também em relação aos homossexuais o impedimento de qualquer discriminação só é garantido plenamente no respeito pelas diferenças e não pela criação de pretensos artificialismos igualitários aparentemente de substituição, e que até são, ao fim e ao cabo, em relação aos heterossexuais, privilégio absurdo.
Mal vai uma sociedade em que se consagra que uma criança adotada seja um objeto de substituição de um direito que um adulto considera ser seu.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Boas Notícias

Por mim, pelo que conheço destes 17 anos de jornalismo e do Parlamento, garanto-vos isto: há bons deputados, há bons políticos (e até políticos bons) em Portugal, como aqueles que estavam na sala da comissão na quarta-feira. Oxalá não desistam de lutar pelo bem público, cada qual pelas suas ideias.

Lugar de destaque a esta notícia que aparece discreta (ou não aparece).
É o destino das boas notícias.
O destino do bem é ser parte do que existe. Por isso, é que tão depressa nos damos conta do mal, porque desalinha a harmonia do bem; mas, estatisticamente o bem é maior!
Serve isto, juntamente com o artigo de ontem para recordar o artigo fundador da linha editorial do Povo:
O mundo é um sítio extraordinário; e o mais extraordinário é o ser humano. E o mais extraordinário no ser humano é a capacidade de virar o mundo para o bem.
É bom voltar, de vez em quando, a este princípio fundador, à natureza positiva da realidade e recordar que "Deus viu tudo quanto tinha feito e achou que era muito bom" (Gen 1, 31)

Um milhão de pageviews no Povo

1 000 000 um milhão de visualizações de páginas nos últimos 3 anos (desde Junho de 2010)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Defesa da honra (deles)

David Dinis
Sol, 24 de Junho, 2013

Na última quarta-feira fui, em trabalho, a uma reunião da Comissão Parlamentar de Acompanhamento da Troika. Uma reunião normal, de organização de trabalhos – apenas com dois jornalistas a assistir. E ali vi uma das maiores provas de decência humana de que me lembro, em 17 anos de jornalismo político.
O presidente da comissão é um socialista: Vieira da Silva. O vice-presidente é um social-democrata, Miguel Frasquilho. Sem qualquer pré-aviso mediático, Vieira da Silva puxou um tema à discussão: um curto texto que tinha preparado para defender o seu adversário político de uma série repetida de acusações de quem tem sido alvo. «Sucessivas, repetidas e prolongadas», acrescentou. E pôs esse texto à votação, de todos os partidos, para que toda a comissão assumisse a defesa pública do deputado do PSD.
O caso deve-se a Paulo Morais, um ex-político que anda há um ano a dizer, em crescendo, que há corrupção a rodos na política portuguesa. Entre exemplos vários atirou contra Frasquilho. Porquê? Porque ele trabalha também para o Banco Espírito Santo, que por sua vez assessorou os chineses no processo de privatização da EDP. Sendo que também pertence à comissão que, diz ele, devia fiscalizar essa mesma privatização – que ele assume como «opaca». Está-se mesmo a ver, não está? – lançou Paulo Morais, por exemplo numa entrevista ao jornal i. A verdade é que não, não se está a ver, está-se a insinuar.
E não porque aquela comissão não tem nem a missão, nem as competências para investigar as privatizações em curso. Não porque a questão da EDP nunca foi tratada em nenhuma daquelas reuniões – nem sequer pelo PCP e pelo BE. E, já agora, não porque Miguel Frasquilho sempre se recusou a tratar, na Assembleia, matérias que se cruzem com o banco para o qual trabalha.
Prova dessa lisura foi o que se passou a seguir. Fernando Medina, do PS, fez-lhe um elogio rasgado («comportamento exemplar»). Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda, prontificou-se a subscrever o comunicado.
Quanto a mim, resolvi escrever este texto não só porque o gesto de dignidade é raro e meritório, mas sobretudo porque vivemos dias perigosos.
Em tempo de austeridade é fácil semear a desconfiança e atacar os políticos por igual, pegar em meias verdades e deitar lama sobre os que estão na vida pública. É popular pegar em frases sonoras e dizer que os políticos ganham demais, que estão rodeados de serventias e que, para mais, só andam a tratar da sua vida e dos seus negócios.
Quem o diz não percebe – ou não quer perceber – que esse discurso nos empurra para o abismo. Um dia acordaremos e só nos sobram os políticos mal pagos, que vivem só e apenas da política e que não têm ideia do que é a vida, o país ou sequer do que é gerir o Estado – e já estivemos mais longe. Digo-vos mais: daí a que apareça alguém a propor que se acabem com os partidos é um passo pequeno.
Por mim, pelo que conheço destes 17 anos de jornalismo e do Parlamento, garanto-vos isto: há bons deputados, há bons políticos (e até políticos bons) em Portugal, como aqueles que estavam na sala da comissão na quarta-feira. Oxalá não desistam de lutar pelo bem público, cada qual pelas suas ideias.

Os yes men os may be men e as velas

Quando li o May be man de Mia Couto " no Facebook vi este comentário de um amigo leitor do Povo:

"Estamos rodeados de "may be man" e "jotas". Tanto uns como outros não têm profissão. A sua "profissão" é o poder. Mas, porque existirão tantos "may be man" e "jotinhas"? Porque o "povo" (peço desculpa por usar o termo, na verdade deveria apenas dizer a massa ou a turbe) acha que os políticos devem ganhar pouco (mas é capaz de ir para os estádios idolatrar ídolos da bola que ganham mais numa semana do que a maior parte de nós ganha num ano). E não percebe que assim só atraem "may be man" e "jotas".
Existem, todavia, uns quantos "heróis" que se dispõem a prejudicar a sua vida na procura de servir o bem-comum. Que os há, não tenham dúvid
as".
É destes heróis que vos quero falar: Estes dias estão cheios deles, nós é que damos pouco conta disso. No sáabado passado foi a memória de dois grandes homens, o contrário dos yes man: S. Tomás Moro e S. John Fisher ambos mártires ingleses, decapitados por não cederem à vontade de Henrique VIII. Bastava-lhes terem disto que sim e não teriam perdido a vida… Hoje, festa que celebra o nascimento de S. João Baptista, não podemos não nos lembrar da forma como também ele perdeu a vida. A pedagogia dos santos é o exemplo da história da sua vida (e da sua morte).
Como nos disse ontem o papa Francisco há muitas outras formas de perder a vida, ganhando-a. É disto que fala o Padre António Vieira na frase do dia de ontem: Há homens que são como velas.
Foi ontem o funeral de um bom amigo, particularmente da minha mulher que, com ele trabalhou na direcção de duas instituições de solidariedade social. Recordo isto porque, depois da sua aposentação, dedicou os 15 anos de vida seguintes à direcção de três instituições de apoio a crianças e idosos na paróquia onde vivia. Fazia-o com o profissionalismo com que trabalhou toda a sua vida de trabalho remunerado.
Que é que isto tem a ver com os yes men ou com os may be men? Nada. Tem que ver com os homens que são como velas, que se vão queimando para nos iluminarem a nós.
Obrigado Dr. Mário

Não tenham medo de caminhar contracorrente! Sejam corajosos!

O que significa perder a vida por causa de Jesus?
Antes de recitar o Angelus Papa Francisco recorda o exemplo do martírio de São João Batista
ROMA, 23 de Junho de 2013 (Zenit.org) - Apresentamos as palavras do Papa Francisco dirigidas aos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro para recitar o Angelus
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
No Evangelho deste domingo ressoa uma das palavras mais incisivas de Jesus: "Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salva-la-á" (Lc 9, 24).
Aqui há uma síntese da mensagem de Cristo, e é expressa com um paradoxo muito eficaz, que nos faz conhecer o seu modo de falar, quase nos faz ouvir a sua voz…
Mas o que significa "perder a vida por causa de Jesus"? Isso pode acontecer de dois modos: explicitamente confessando a fé ou implicitamente defendendo a verdade. Os mártires são exemplos máximos do perder a vida por Cristo. Em dois mil anos há uma série imensa de homens e mulheres que sacrificaram a vida para permanecerem fiéis a Jesus Cristo e ao seu Evangelho. E hoje, em tantas partes do mundo, há tantos, tantos, – mais que nos primeiros séculos – tantos mártires que dão a própria vida por Cristo, que são levados à morte para não renegar Jesus Cristo. Esta é a nossa Igreja. Hoje temos mais mártires que nos primeiros séculos! Mas há também o martírio cotidiano, que não comporta a morte, mas também esse é um "perder a vida" por Cristo, cumprindo o próprio dever com amor, segundo a lógica de Jesus, a lógica da doação, do sacrifício. Pensemos: quantos pais e mães todos os dias colocam em prática a sua fé oferecendo concretamente a própria vida pelo bem da família! Pensemos nisto! Quantos sacerdotes, frades, irmãs desenvolvem com generosidade o seu serviço pelo reino de Deus! Quantos jovens renunciam aos próprios interesses para dedicar-se às crianças, aos deficientes, aos idosos… Também esses são mártires! Mártires cotidianos, mártires do dia-a-dia!
E depois há tantas pessoas, cristãos e não cristãos, que "perdem a própria vida" pela verdade. E Cristo disse "eu sou a verdade", então quem serve à verdade serve a Jesus.
Uma dessas pessoas, que deu a vida pela verdade, é João Batista: propriamente amanhã, 24 de junho, é a sua grande festa, a solenidade do seu nascimento. João foi escolhido por Deus para preparar o caminho diante de Jesus, e o indicou ao povo de Israel como o Messias, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cfr Jo 1, 29). João consagrou-se todo a Deus e ao seu enviado, Jesus. Mas, no final, o que aconteceu? Foi morto por causa da verdade, quando denunciou o adultério do rei Herodes e de Herodíades. Quantas pessoas pagam por preço caro o compromisso pela verdade! Quantos homens justos preferem ir contracorrente, de modo a não renegar a voz da consciência, a voz da verdade! Pessoas justas, que não têm medo de ir contracorrente! E nós, não devemos ter medo! Entre vocês há tantos jovens. A vocês jovens digo: não tenham medo de ir contracorrente, quando nos querem roubar a esperança, quando nos propõem estes valores que estão danificados, valores como a comida estragada e quando uma comida está estragada, nos faz mal; estes valores nos fazem mal. Devemos ir contracorrente! E vocês, jovens, sejam os primeiros: vão contracorrente e tenham este orgulho de ir contracorrente. Avante, sejam corajosos e vão contracorrente! E sejam orgulhosos de fazê-lo!
Queridos amigos, acolhamos com alegria esta palavra de Jesus. É uma regra de vida oferecida a todos. E São João Batista nos ajuda a colocá-la em prática.
Neste caminho nos precede, como sempre, a nossa Mãe, Maria Santíssima: ela perdeu a sua vida por Jesus, até a Cruz, e a recebeu em plenitude, com toda a luz e a beleza da Ressurreição. Maria nos ajude a fazer sempre mais nossa a lógica do Evangelho.
(Depois do Angelus)
Lembrem-se bem: "Não tenham medo de caminhar contracorrente! Sejam corajosos! E assim, como não queremos comer uma comida estragada, não carreguemos conosco estes valores deteriorados e que prejudicam a vida e tiram a esperança. Adiante!"
Saúdo-vos com afeto: as famílias, os grupos paroquiais, as associações, as escolas. Saúdo os alunos do Liceo diocesano Vipava na Eslovénia, a comunidade polonesa de Ascoli Piceno, UNITALSI de Ischia di Castro, os jovens do Oratório de Urgnano - vejo a bandeira de vocês, muito bem, ! -, Os fiéis de Pordenone, as irmãs e os operadores do hospital "Miulli" de Acquaviva delle Fonti, um grupo de delegados sindicais do Veneto.
Desejo a todos um bom domingo!
Rezem por mim e bom almoço!

O “May be man”

O "May be man" – Por Mia Couto

Existe o "Yes man". Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
O May be man vive do "talvez". Em português, dever-se-ia chamar de "talvezeiro". Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um "talvez" não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.
A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no "yes". É que o "may be" é, ao mesmo tempo, um "may be not". Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.
Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se "comissão". Há quem lhe chame de "luvas". Os mais pequenos chamam-lhe de "gasosa". Vivemos uma na­ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De "business", como convém hoje, dizer. Curiosamente, o "talvezeiro" é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza.
Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.
O May be man entendeu mal a máxima cristã de "amar o próximo". Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o "próximo". É por isso que, para a lógica do "talvezeiro" é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.
O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão.
Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe.
O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.
Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.
O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.

Semear no cimento

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-06-24


Porque é que Portugal não cresce e cria emprego? Muitos sabem a resposta, falando de austeridade, troika, euro, Governo, Alemanha, etc. Essas causas são verdadeiras, mas passam ao lado do essencial. Os nossos problemas são anteriores a 2011 e razões monetárias têm fracos efeitos produtivos. Tais argumentos são como um agricultor que, queixando-se de más colheitas, invocasse os coelhos, os corvos e outras pragas e se esquecesse de mencionar ter cimentado grande parte do terreno.
Existe em Portugal uma máquina poderosíssima para destruir iniciativa, investimento, produção e emprego. Pervertendo as suas finalidades originais, muitos serviços públicos, mecanismos sociais e até algumas empresas perseguem, ferem e muitas vezes matam os projectos produtivos. Boa parte da nossa actividade e emprego dirige-se explicitamente a estragar, prejudicar e estiolar os negócios.
Crescimento e trabalho nunca podem vir senão através do investimento. A economia funciona apenas por iniciativas empresariais. Ora basta alguém contemplar a possibilidade de lançar um projecto para imediatamente se dar conta da dimensão esmagadora das forças opostas. Temos um terreno muito fértil mas coberto com uma camada de cimento.
Começa logo pela atitude social. Um empresário, pelo simples facto de o ser, fica no fundo da escala. Admiramos artistas, profissionais, trabalhadores e desconfiamos instintivamente dos negócios. Ter fins lucrativos é um argumento negativo, senão mesmo insulto. Por isso, numa discussão entre uma empresa e qualquer outra entidade - do Estado às ONG, passando por sindicatos e consumidores - antes mesmo de sabermos o assunto, já assumimos a empresa culpada.
Se alguém persistir em afrontar esse desprezo público e criar o tal negócio, tem logo à sua espera uma multidão com a função de garantir que a coisa falha. Nominalmente as suas tarefas dirigem-se a propósitos louváveis, do notariado ao ambiente, higiene, cultura, infância, cidadania, etc. Só que todas essas finalidades tão prestimosas têm como único resultado comum os enormes custos, bloqueios e dificuldades que criam à vida empresarial. Cada fiscal e inspector aparece como anjo vingador, colocando um princípio abstrato acima da vida concreta. Como as leis foram escritas por deputados com ideias vagas da realidade do sector, as oportunidades de abuso são incontáveis. Para caçar o joio arrancam muito trigo. Tudo considerado, até devemos louvar os funcionários por se aproveitarem muito menos do que podiam.
Em cima disso, os impostos esmifram estupidamente os poucos que apanham, matando neles a galinha dos ovos de ouro. As pressões políticas sobre as grandes empresas e as autárquicas sobre as médias são constantes. Dá a sensação de que produção e comercialização são actividades nocivas que devem ser reprimidas a todo o custo. De facto, no deserto e cemitério não há problemas sociais ou ecológicos.
Produzir dá muito trabalho e enfrentar os consumidores e concorrentes no mercado é extremamente exigente. Mas em Portugal essas acções económicas passam sempre para segundo plano perante as questões que vêm da lei e infra-estruturas que, alegadamente, existem para servir a todos. A lista das regulamentações diferentes, cada uma delas com inúmeros diplomas, é infindável. Das leis laborais à ASAE, das burocracias às regras ambientais, das instalações à electricidade, tudo cai sempre sobre os mesmos. Que só nas horas vagas se podem dedicar a gerir o seu negócio, inovar, investir.
Se há problemas vai-se a tribunal, e aí entra-se no mundo da ficção. As empresas são em geral suspeitas e os queixosos gozam automaticamente de preferência judicial. Quando a sentença sai, vários anos depois - o que só por si é prejuízo irreparável - raramente se corrige o dano, se não gerar novos estragos. De novo surpreende ainda haver quem pague o que deve, podendo sair incólume da transgressão. Imagine-se que há quem, de cara séria, chame "justiça" ao que aí se passa.
Portugal tem um terreno muito fértil. Não produz por causa do cimento.

domingo, 23 de junho de 2013

Emoção sem razão

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Voz da Verdade, 2013-06-23

As razões sem razão da co-adopção

- Acha bem condenar a uma pena efectiva de prisão uma adolescente que aborta, depois de ser violada por um toxicodependente e de ser posta na rua pela família? Não acha, pois não?! Então é a favor da interrupção voluntária da gravidez!

Foi um pouco assim que muita gente foi induzida a votar a favor da despenalização do aborto. E é com análoga chantagem emocional que alguns pretendem fazer passar, agora, a lei que permite a co-adopção pelo parceiro do progenitor, em uniões de pessoas do mesmo sexo. Dizem:
- Parece-lhe bem que a criança institucionalizada, ou concebida por inseminação artificial, não possa ser adoptada pela pessoa que vive com a sua mãe ou pai originário ou adoptivo? Não acha, pois não?! Então é a favor da co-adopção!

Aos que usam e abusam deste tipo de abordagem, convém recordar que a lei é, por definição, uma ordenação da razão e não apenas, nem principalmente, uma expressão da vontade. Não pretende ser a solução de um caso extremo, mas estabelecer uma norma geral de conduta social.
Não está em causa retirar um menor ao progenitor com quem vive, mas dar a todas as «mulheres» das mães e a todos os «maridos» dos pais a faculdade legal de serem, falsamente, «mãe» e «pai» do filho da pessoa com quem convivem. É isto, e só isto, o que está em causa.

Mas, não é verdade que a lei, embora universal, será depois aplicada aos casos particulares? A criminalização do aborto não implica a detenção da adolescente que procede à interrupção voluntária da gravidez?
Ainda que a lei proíba, em geral, uma determinada acção, o caso particular deverá ser sujeito à apreciação do juiz que, atendendo às circunstâncias, julgará de acordo com o que seja mais conveniente. Se um condutor, acometido de um súbito ataque de coração, estacionar numa auto-estrada, ou pisar um risco contínuo, é óbvio que, em termos materiais, comete uma infracção mas, como é lógico, nenhum juiz seria capaz de o condenar por esse efeito. E, para evitar tal absurdo, a ninguém ocorre a despenalização das infracções rodoviárias perpetradas por condutores em acidente cardíaco…

A interdição da co-adopção não proíbe ao parceiro do progenitor o estatuto parental deste? Claro que sim porque a lei, tendo em conta o superior interesse da criança, nunca poderá permitir o que é um contra-senso, ou seja, que duas pessoas do mesmo sexo substituam os pais – pai e/ou mãe – que o menor não tem. Pela mesma razão, também não se deve consentir que o parceiro ocasional da mãe, ou do pai, da criança seja uma sua outra «mãe», ou um seu outro «pai». Até porque, se o pai ou mãe verdadeiro concluir a relação com o parceiro co-adoptante, o que nestes casos acontece amiúde, este não perderia a sua condição legal de «pai» ou «mãe» do filho da pessoa com quem já não convive, a não ser que se introduza o conceito de pai ou mãe precário, ou seja, apenas enquanto durar a relação com o verdadeiro progenitor da criança em causa … Contudo, a actual lei já permite que o parceiro do cônjuge falecido adopte individualmente o filho deste, com o qual aquele já convivia, o que é lógico quando se trata de uma união conjugal natural, ou seja, entre uma mulher e um homem.

Discuta-se a questão jurídica, mas com argumentos racionais e não sentimentais, porque é intelectualmente desonesto pretender alcançar, por via emocional, o que é contrário à justiça e à razão.
Qualquer menor tem direito à verdade sobre a sua identidade e filiação. A lei não existe para satisfazer os caprichos egoístas de alguns, mas para
defender os inalienáveis direitos dos mais indefesos cidadãos, ou seja, as crianças que, por desgraça, já não têm pai, ou mãe, que lhes valha. Portanto, menos pieguice, mais bom-senso, mais razão.

Frase do dia

Há homens que são como as velas; sacrificam-se queimando-se para dar luz aos outros
Padre António Vieira
(1608-1697)

sábado, 22 de junho de 2013

Uma aberração

Vasco Pulido Valente
Público, 22/06/2013

Um grupo de oito deputados, todos presumivelmente produto da JSD, resolveram perguntar ao ministro da Educação quanto custavam os sindicatos de professores, suponho que para demonstrar que o Estado não conseguia suportar essa tremenda despesa. O que tem feito este Governo e esta maioria quase não merece comentário. Mas não deve haver um único Parlamento no mundo civilizado em que esta cena espontaneamente se passasse. Gente como os meninos da JSD não está na Assembleia da República, está num jardim- -infantil muito bem guardado à espera de chegar à idade adulta. Era possível escrever tratados sobre a ignorância, a inanidade e o ridículo dessas criancinhas, se o esforço aproveitasse alguma coisa aos pobres portugueses que as vão aturando e, já agora, a elas próprias.
De qualquer maneira, vale a pena investigar quem as preparou para as responsabilidades que hoje são as delas. A JSD (de resto, como a JS e a JP) admite militantes desde os 14 aos 30 anos. Por outras palavras, pega num adolescente, ou num pré-adolescente, e daí em diante não o larga até ele se tornar num homem ou numa mulher. Isto lembra regimes de má memória que faziam o mesmo: a ditadura de Salazar, a de Mussolini e a de Hitler para já não falar dos "Pioneiros" da URSS e da Europa de Leste. "Juventudes" deste género sobrepõem à educação da família uma educação política forçosamente facciosa e com certeza não lhes custa formar segundo as suas conveniências criaturas que não chegaram ainda à maturidade fisiológica, intelectual, moral ou profissional. É um exercício de abuso de menores, que a lei não condena.
Aparentemente, só lhes metem uma única ideia na cabeça: a fidelidade ao partido. E uma única convicção: a convicção de que o partido levará fatalmente esse rebanho ao sucesso político, a uma sinecura oficial ou a um negócio confortante, como manifestamente levou vários representantes da estirpe, entre os quais Pedro Passos Coelho e António José Seguro, à posição exaltada que actualmente ocupam. A JSD acaba por se tornar a casa, a escola, a universidade dos desgraçados que pouco a pouco se convencem disto. Imersos na intriga perpétua da instituição pelo favor do "chefe" ou de alguma facção transitoriamente dissidente, adquirem depressa uma cultura muito próxima da cultura dos bas-fonds e um saudável desprezo pela realidade. Seria sem dúvida um serviço ao país proibir as "juventudes" dos partidos de receber membros de menos de 18 anos e de os conservar para além dos 25: como quem reprime uma tendência antidemocrática e deletéria numa sociedade equilibrada ou, pelo menos, que se esforça e gostava de ser melhor do que parece.

Médicos e professores

Inês Teotónio Pereira
ionline  22 Jun 2013
Posso discordar deles, posso nem gostar deles, mas respeito-os mesmo quando não quero

Há dois tipos de pessoas que por piores pessoas que sejam terão sempre o meu respeito incondicional, infantil e submisso: professores e médicos. É assim. Não sei porquê, mas é assim. Posso discordar deles, posso nem gostar deles, mas respeito-os mesmo quando não quero: falo mais baixo, não interrompo, dou o benefício da dúvida, oiço com atenção, peço desculpa por discordar e até coro quando discordo.
Quando os professores se queixam que um dos meus filhos não estudou, não fez os trabalhos, se portou mal nas aulas e fez todas essas coisas que os filhos fazem, a primeira reacção que me ocorre é desculpar-me. Eu, que não tenho nada a ver com isso, que nem sequer vou às aulas, acho que tenho de pedir desculpa ao professor pelos disparates do meu filho e pela sua negligência: assumo a culpa e peço desculpa pelos trabalhos de casa que ele não fez.
A minha relação com os professores só é descontraída na exacta medida do desempenho deles: se as criaturas tiram boas notas, o professor é um amigo, se as notas são más, o professor é como se fosse meu professor, é um censor.
Há pais, e eu admiro profundamente esses pais, que não se ficam. Pais que estão incondicionalmente do lado dos filhos: se as notas são más é porque o professor é mau, se os trabalhos de casa não são feitos é porque o professor manda muitos trabalhos de casa, se a criancinha se porta mal nas aulas é porque o professor não sabe impor a disciplina e devia dedicar-se à pesca. A culpa é sempre do professor. A criança, a mãe, o pai e o periquito são exemplos de virtude.
Pois eu não sou nada assim. Tenho pena de não ser assim, adorava ser assim, mas de facto raramente acho que os meus filhos têm razão. E os desgraçados são duplamente censurados: por mim e pelo professor.
Um professor, na minha imatura e infantil concepção, é quem sabe. Eu sei, eu sei que não é assim: que há muitos professores que nem aos peixes deviam poder ensinar e que os meus meninos se esforçam e muitas vezes são eles as vítimas. Mas a verdade é que a autoridade do professor está completamente enraizada na minha moral. A verdade é que eu coro...
O mesmo se passa com os médicos. Quando levo os meus meninos ao médico faço uma revisão meticulosa antes de os pôr a nu em frente ao médico: vejo tudo, certifico-me se cumpri as recomendações dadas na última consulta, ensaio as perguntas mais pertinentes e lá vou eu. Com algum nervosismo: o que é que eu fiz de mal? Não sofro pela criança, que continua a produzir energia ao ritmo de uma central nuclear, sofro por mim, com medo da censura.
"Ó mãe, o menino está mais magrinho..."; "A mãe já o levou aos especialistas em pele, ouvidos, nariz e olhos? Temos de ver tudo, temos de ver tudo...." É aqui que eu coro. Que raio de mãe sou eu, que não me certifico se eles lavam os dentes como deve ser? Claro que o facto de estas pessoas, médicos e professores, nos tratarem por mãe, não ajuda. É tipo tortura psicológica: "És mãe e não tratas do teu filho como deve ser... mãe, pois..."
A parte pior das consultas é quando eles desatam a fazer perguntas às criancinhas que respondem sempre com toda a sinceridade, os ingratos. Uma vez levei um dos meus filhos ao médico e ele descobriu uma nódoa negra no braço na criança. "Então como é fizeste isso?", ao que a criança responde: "Foi a mãe que me apertou o braço." Ia desmaiando. A frieza da confissão gelou-me o sangue. Estive dez minutos a explicar que a pele da criancinha é muita branca, que apertei o braço com pouca força e que ela nem se tinha queixado, blá, blá, blá. E o pior é que nem me lembrava de lhe ter apertado o braço. Uma vergonha. Agora só lhes aperto as orelhas. E devagarinho, claro.

"Ich bin ein berliner"

Público 22/06/2013

Foi há precisamente cinquenta anos que John Fitzgerald Kennedy, então Presidente dos EUA, pronunciou, em Schönberg, estas históricas palavras: "Eu sou berlinense!". Berlim tinha sido dividida em vários sectores, aliás como todo o país, na sequência da derrota nazi. A parte oriental da capital ficou sob a administração da URSS, que ameaçava asfixiar as restantes zonas da cidade, caso as potências ocidentais não reagissem contra a prepotência soviética. Na altura, falou-se da necessidade de não aceitar um "estado de chantagem assumida" e temeu-se que a Rússia se aproveitasse da inércia dos EUA e, por arrastamento, dos seus aliados. Foi neste contexto que Kennedy, a 26 de Junho de 1963, disse em alemão que também ele era um cidadão de Berlim. Porque, quando a liberdade é ameaçada nalgum lugar do globo, é-o também em todo o mundo e, por isso, ninguém está salvo.
No passado dia 17 de Abril, o Parlamento português deu mais um passo no sentido da destruição do Estado social. Aprovando, na generalidade, a lei que permite a co-adopção pelo parceiro do progenitor, nas uniões de pessoas do mesmo sexo, os deputados, à revelia da sociedade civil, inverteram a lógica do conceito legal de parentalidade. Esta reforma, que não tem fundamento científico, nem apoio popular, baseia-se numa mentira e numa fraude. Com efeito, ter por pai, ou mãe, quem, na realidade, mais não é do que parceiro do verdadeiro progenitor é dar à mentira o estatuto de verdade legal. Portanto, não era o anterior sistema jurídico que era hipócrita, mas o que agora se quer impor...
Que dois ou mais adultos organizem a sua vida como quiserem, é algo que se deve tolerar, ao abrigo da liberdade individual e do respeito pela vida privada pessoal e colectiva. Mas não é admissível que arrastem filhos menores para um tipo de vivência que compromete seriamente o equilíbrio emocional e a realização pessoal destes. Se ser mulher é importante e ser homem o não é menos, porquê privar o menor da referência feminina, ou masculina, se ambas são igualmente necessárias para o seu são desenvolvimento?
Se a adopção está pensada, na lei, em função do bem do menor, e não para satisfazer o capricho do parceiro de um seu progenitor, é evidente que deve ser dada ao filho órfão, ou com pais ausentes ou incapazes, a possibilidade de ser acolhido por uma família natural, ou seja, um pai e uma mãe, como Deus e a natureza mandam. Se o menor for só órfão de pai, ou de mãe, deve-se dar à mulher do pai, ou ao marido da mãe, a possibilidade de acolher o filho do cônjuge, como madrasta e padrasto, respectivamente. Mas, para isso, não é necessário criar nenhum novo conceito, nem duplicar as noções de pai e mãe, até porque, como se costuma dizer, pai e mãe há só um, os que se têm e mais nenhum.
É falso e absurdo que o "marido", ou amigo, do pai, também seja pai, ou que, a "mulher", ou companheira, da mãe, seja mãe também! Se a paternidade e a maternidade se desvinculam legalmente dos correspondentes conceitos genéticos, por que razão não dar a liberdade de ter por "irmãos" filhos de outros pais, que não os próprios, ou de ter como "avós" quem não sejam os pais dos pais biológicos ou adoptivos?! Confesso que me dava um jeitão ser único "neto" de um "avô" milionário sem geração...
Há cinquenta anos, ante a ameaça soviética, o autarca de Berlim, Willy Brandt, quando escreveu a Kennedy, ousou questionar "a capacidade de reacção e de determinação das três potências" ocidentais que partilhavam, com a URSS, a tutela de Berlim. O nosso Parlamento, cuja legitimidade moral é escassa e cuja representatividade política é duvidosa, ousou explorar a inércia da sociedade civil, que foi surpreendida com o facto consumado.
É pena que aqueles a quem cumpre especialmente a salvaguarda dos valores éticos - os cidadãos, as famílias, as religiões, as instituições de solidariedade social, etc. - não tenham tido capacidade de resposta. É pena que, em Portugal, ao que parece, ninguém dê a cara pelas crianças desprotegidas e pelo seu direito fundamental de viver no seio de uma família constituída por um pai e uma mãe, originais ou adoptivos. É por isto também que esta vitória pírrica, que aos órfãos tanto ofende e prejudica, é uma derrota para todos nós.

Ter ou não ter

José Luís Nunes Martins
i-online, 2013-06-22

Nunca somos o que temos.


Neste mundo há a essência e a aparência.
A primeira é profunda, sólida e é onde reside o ser; a outra, será superficial, efémera, funcionando como uma capa que se encontra no meio do caminho entre essências.
O ter é do domínio da aparência.
Atingido um limiar de sobrevivência, que pode mais um homem esperar que os seus bens lhe tragam?
Poderá acreditar que a felicidade lhe chega através da sua acumulação, mas, claro, nunca nada lhe chegará, porque sempre haverá algo mais que ainda não tem... razão pela qual essa diferença marca mais um sofrimento (desnecessário): o do desejo de obter o que se não tem... poucos percebem que os bens atrapalham mais que ajudam.
Poucos homens visam ser mais e melhores. A superficialidade de tanta gente é marca da sua maior miséria: a inautenticidade.
Há quem venda a identidade ao ter, quem abdique do que é (ou podia ser) para o trocar por umas quantas moedas de prata que, cedo e mal, gasta, perdendo assim o ter e, mais importante, o ser - a sua essência.
A vida não é, afinal, uma fome de coisas, mas um tempo para ser feliz.
O dinheiro nunca é nosso, somos apenas gestores das sempre pequenas partes que, em determinadas alturas da história, nos vão chegando às mãos. Só isso. Nada mais.
A forma como administramos o dinheiro que chamamos nosso marca-nos o ser. Faz-nos. A uns servos, a outros... senhores... de si mesmos e dos seus bens.
Temos esta vida, e podemos ter muitas coisas, mas somos mais do tudo isto.
A nossa verdadeira riqueza não é deste mundo.
As máscaras nunca são belas. A beleza autêntica vem de dentro, do ser, a nossa face ao mundo é um espelho do nosso coração. As nossas lágrimas vêm dos sonhos e das esperanças que somos, a luz e o sorriso dos nossos olhos, também.

22 de Junho - S. John Fisher

Nasceu em Beverley, Yorkshire, Inglaterra, em 1469. S. John Fisher era um bispo católico romano (de Rochester) que foi confessor de Lady Margaret Beaufort e a convenceu a fundar o St. John's College na Universidade de Cambridge. A resistência de Fisher à supremacia real sobre a Igreja de Inglaterra e recusou-se a ceder na questão pretendida da anulação do matrimónio de Henrique VIII fê-lo cair em desgraça  e, subsequentemente, foi julgado, condenado e executado na torre de Londres em 22 de Junho de 1535. Enquanto estava no cárcere, foi designado cardeal pelo papa Paulo III.

Romeu, Julieta e a adopção

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
ionline, 2013-06-22

Um excelente homem nunca poderá ser mãe, nem nenhuma óptima mulher poderá ser pai

O país está em polvorosa por causa da co-adopção pelo parceiro do progenitor em uniões ditas homossexuais. Questiona-se também a legitimidade da adopção por duas pessoas do mesmo sexo. Afinal que pais dar às crianças do nosso país?
Uma mulher e um homem sem abrigo, ou octogenários, podem ser bons pais? Talvez. Um casal de detidos, analfabetos ou alcoólicos é capaz de proporcionar um bom acompanhamento a um menor? Possivelmente. Mas, em qualquer destes casos, ou análogos, é evidente que essa circunstância dificulta o exercício das funções parentais, muito embora as não exclua absolutamente.
Duas pessoas do mesmo sexo também podem, eventualmente, desempenhar algumas competências paternas ou maternas, mas não ambas, como é óbvio, porque um excelente homem nunca poderá ser mãe, nem nenhuma óptima mulher logrará ser pai. Como a união de duas pessoas do mesmo sexo não é natural, ao contrário da existente entre um homem e uma mulher, não é apta para uma saudável educação de um menor. Por isso, havendo casais dispostos a adoptar, garantindo ao menor um pai e uma mãe adoptivos, a lei não deve optar por uniões de pessoas do mesmo sexo, que apenas podem proporcionar à criança um pai, ou uma mãe, em duplicado.
Há quem afirme que duas pessoas do mesmo sexo podem ser bons pais. Mas a questão é saber se podem ser tão eficazes como um casal natural, em que as funções paternas e maternas são, efectivamente, asseguradas por um homem e uma mulher. Num estudo de 2012, do New Family Structures Study, coordenado pelo Prof. Regnerus, da Universidade do Texas, concluiu-se, a partir de uma significativa amostra de 2988 casos, que os menores criados por famílias naturais são mais saudáveis do que os que o foram por duas pessoas do mesmo sexo.
De facto, um fulano de bigodes, se não houver nenhuma dama, pode fazer de Julieta; como uma escultural senhora, não havendo um macho, poderá representar Romeu; mas o que é natural, lógico e razoável é que os papéis dessas personagens sejam desempenhados, respectivamente, por uma actriz e por um actor. Pois bem, na família há também um papel feminino, o de mãe, que só uma mulher pode desempenhar, como há um masculino, o de pai, que só um homem consegue exercer.
A missão da lei não é dar crianças a quem as queira, por mais louváveis que sejam os candidatos a pais adoptivos, mas proporcionar a melhor solução possível às crianças órfãs de pai, de mãe ou de ambos. Por isso, em princípio, não se concedem menores, em adopção, aos sem-abrigo, nem aos octogenários, nem aos reclusos, nem aos analfabetos, nem aos alcoólicos, mesmo que entre estes haja também excelentes mães e pais, mais por via de excepção do que por regra.
A regra - e é a lei que está agora em causa no nosso país - deve ser sempre a do superior interesse da criança, o qual requer, por uma razão ética mas também científica, não quaisquer adoptantes, mas os melhores entre os possíveis. Não há famílias perfeitas, mas há umas que são objectivamente mais idóneas do que outras e por isso a lei não deve privilegiar uma hipótese menos boa, quando pode e deve proporcionar uma melhor solução para o menor desvalido.
É de exigir, portanto, que a família que acolhe a criança esteja constituída pela união estável de uma mulher e de um homem, ou seja, uma mãe e um pai, respectivamente. A inexistência ou a incapacidade dos progenitores requer a sua substituição, não por uma qualquer união, mas por um outro pai e uma outra mãe. É com efeito o que o órfão mais deseja e necessita, para o seu são desenvolvimento. E a que tem, quer se queira quer não, um inegável direito.