sábado, 31 de agosto de 2013

Rotinas de embalar


José Luís Nunes Martins
ionline em 31 Ago 2013
Tudo se torna monótono quando não sabemos renovar o entusiasmo e permitimos que as nossas preguiçosas habituações nos embalem.
Poucas vezes ousamos trocar o certo pelo incerto. Os outros não esperam nem admiram grandes liberdades... o normal é quase sempre preferível ao sonho.
Há gente que se acomoda a circunstâncias assustadoras, tornando quase naturais condutas e situações estranhas à sua essência original, tudo em nome de uma aceitação social sem valor.
A nossa identidade constrói-se pelo que fazemos. Assim, quando nos deixamos prender e arrastar pelas algemas da monotonia, muitos de nós perdem a oportunidade de uma existência plena por não ousarem remar contra as suas próprias marés de costumes e tradições...
Repetimos até (o que no início eram) emoções... quando, na verdade, nunca se ama por hábito nem se gosta por tradição. Há tantas pessoas enganadas quanto ao que sentem... convencem-se de que amanhã sentirão o mesmo que ontem... sem que, hoje, precisem de fazer coisa alguma.
Iludidos, alimentamos falsas esperanças, sem nos apercebermos que seguimos embalados – a velocidade crescente – rumo a um nada que promete dar-nos a felicidade que não temos...
Embalados, como que nos fechamos numa qualquer embalagem, de onde parece impossível sair, porque nos fizemos escravos das nossas próprias fraquezas...
Embalados, deixamo-nos adormecer, baloiçando na sensação agradável de voltar sempre aos mesmos sítios...
Dizem que nunca se muda para melhor...

Os filhos dos nossos amigos

Inês Teotónio Pereira
Ionline, 20130831
Não conseguimos olhar para uma criança sem a comparar com o nosso menino. Cada criança é como se fosse um quilo
Os filhos dos nossos amigos só passam a existir verdadeiramente no nosso mundo no dia em que temos filhos. Até lá os filhos dos nossos amigos são apenas isso: filhos de alguém, ainda não os consideramos crianças autónomas. Não temos qualquer noção da idade deles (se têm meses ou anos), não temos capacidade para ter uma opinião consistente sobre a educação das crianças e a verdade é que não olhamos para eles duas vezes. Temos alguma condescendência com os gritos e as birras que fazem, mas acima de tudo temos pena dos pais, dos nossos amigos. As crianças são apenas crianças. Contam pouco. Respeitamos, mas achamos um pouco exagerado todo aquele fanatismo dos nossos amigos pelos filhos. Não é racional.
Mas quando temos filhos as coisas mudam radicalmente. Os filhos dos nossos amigos passam a ter um papel fundamental nas nossas vidas. Servem antes de mais para serem uma medida dos nossos. Tipo os quilos daquelas balanças antigas. São o nosso termo de comparação. E é com eles que passamos os dias a comparar com os nossos. Compramos a altura, o tamanho, o despacho, a simpatia, o número de birras, a educação e comparamos cada fase. Não conseguimos olhar para uma criança sem a comparar com o nosso menino. Cada criança é como se fosse um quilo. E medimos os nossos filhos com os filhos dos nossos amigos como dantes medíamos as notas no liceu com as dos nossos amigos. Normalmente são as mães que se perdem neste exercício. Os pais continuam toda uma vida sem ligar patavina aos filhos dos amigos, raramente misturam as coisas. Nós, mães, não. Nós comparamos filhos com muita facilidade. No nosso entender os filhos são tão comparáveis como um vestido, ou um penteado. Faz parte.
Passada essa fase, com derrotas e vitórias, saltamos para a seguinte, que é ainda mais dolorosa que a primeira. Nesta fase queremos que os nossos filhos sejam todos amigos. Achamos que o mais lógico é que os filhos dos nossos amigos herdem a amizade que os pais têm por nós e vice-versa. Na nossa cabecinha isto faz todo o sentido. E é razão mais do que suficiente para fazermos tudo por isso. Convidamos as crianças dos amigos para as festas de anos dos nossos, tentamos organizar programas em conjunto e suspiramos quando eles nem olham uns para os outros, quando se ignoram olimpicamente. Mas nós insistimos na amizade enquanto as crianças resistem. E resistem porque resistem sempre. Porque os interesses dos nossos filhos são quase sempre divergentes dos nossos. Quando são pequeninos, queremos que eles durmam e eles choram, queremos que eles comam e eles cospem, queremos que eles estudem e eles vêem televisão. Na verdade eles passam a vida a contrariar-nos. Por isso é normal que com as amizades façam o mesmo.
Ora se é verdade que nós conseguimos quase sempre fazer valer os nossos interesses, no que diz respeito às amizades é quase impossível. Os nossos filhos só são amigos de quem querem. E não há maneira de alterar este radicalismo. As amizades, ao contrário da sopa, da mochila, do clube de futebol ou do desporto, escolhem eles. E, vá-se lá saber porquê, raramente escolhem os filhos dos nossos amigos.

A misteriosa sinfonia universal

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada
Ionline 2013-08-31

Não há ninguém tão bom que não conheça em si mesmo o mal,nem ninguém tão mau que não seja capaz do bem
É um lugar-comum dizer que este mundo não tem conserto. E muitos são os que, verificando as suas deficiências, inferem a inexistência de Deus ou, pelo menos, sustentam que o Criador é um ser insensível às desgraças que flagelam a humanidade.
O nosso planeta está longe de ser aquele aprazível paraíso onde, segundo a Bíblia, Adão e Eva foram criados. Até do ponto de vista físico, esta terra é palco de violentos contrastes: temperaturas que gelam e que escaldam; terramotos em terra e tempestades no mar; vulcões e ciclones; chuvas intempestivas e prolongadas secas; florestas impenetráveis e áridos desertos. E, pior do que estas inclemências da natureza que, mais do que mãe, parece madrasta, a crueldade dos próprios homens: tantas injustiças, tantas crianças órfãs, abandonadas ou maltratadas; tantas pessoas esfomeadas ou sem abrigo; tantas guerras; tanta miséria moral e material …
Que mundo desconsertado!
É verdade. Como certa é, paradoxalmente, a formosura da natureza, que a ecologia defende e que os poetas não se cansam de exaltar, nem os artistas de representar. Mesmo nos antros mais obscuros, brilham diamantes de escondidas belezas.
Mesmo nos corações mais empedernidos, há reflexos de um amor sublime. Não há ninguém tão bom que não conheça, em si mesmo, o mal; nem ninguém tão mau que não seja capaz do bem. Como é misteriosa e aparentemente contraditória a condição humana!
O mundo poderia ser diferente, se Deus não permitisse o mal físico, nem o pecado. Mas, se não existissem essas adversidades naturais, em que outra forja se moldaria o carácter humano e se desenvolveria o seu engenho e arte?! Por outro lado, a impossibilidade do mal moral só seria possível se fosse eliminada a liberdade. Ora, sem ela, o ser humano mais não seria, como dizia Fernando Pessoa, do que um «cadáver adiado que procria», um animal sofisticado, mas sem mérito nem culpa. É que só um ser livre é capaz de amar.
O maestro, para lograr a combinação perfeita de todos os instrumentos da orquestra, obriga os músicos a cingirem-se a uma única pauta: se cada qual tocasse o que quisesse, quando quisesse e como quisesse, em vez de uma melodia, resultaria um ruído insuportável.
Deus compõe uma música maravilhosa, mas sem retirar a liberdade a ninguém, mesmo quando alguns insistem em desafinar. O mal é, apenas, a ausência do bem e, como o nada não é, tudo o que existe é bom. O mal é, afinal, mais uma nota, em si mesma estridente, mas que faz parte da harmonia universal. Sem a prodigalidade do filho, não se conheceria a grandeza do amor de seu pai; sem o adultério da arrependida, não seria possível o perdão que a redime.
Ainda que o bem e o mal não sejam indiferentes em termos morais e pessoais, Deus escreve direito por linhas tortas. A Escritura diz que, onde abundou o pecado, sobreabundou a graça porque, como ensina Paulo de Tarso, todas as coisas concorrem para o bem.
Para a razão, o universo é um caos, porque só pela fé é possível compreender que este mundo desconsertado é, afinal, um concerto, um hino de louvor, um poema escrito pela omnipotência divina e pela liberdade humana. Deus ama todos os homens, que atrai a si e de quem cuida através do plano misterioso e infalível da sua omnipotente bondade: a providência divina.

O dia em que a boçalidade saiu à rua

Público, 31/08/2013

O pecado de António Borges foi ser frontal e corajoso. Portugal prefere as meias-tintas e a dissimulação
1. Vou escrever uma frase horrível: às vezes é muito deprimente ver o povo a exprimir-se em todo o seu esplendor. E não escrevo por snobeira enjoada com algum concerto de música pimba ou mais um piquenicão. Escrevo-o depois de ter passado os olhos por algumas das caixas de comentários das notícias relativas à morte de António Borges. E de ter andado um pouco pelas redes sociais nesse dia. O que vi foi ódio e boçalidades genuínos, por vezes exprimindo-se sob o manto cobarde do anonimato, outras vezes expondo-se ao mundo com alarvidade e assinatura.
Porque é que isto se passou? Por que tanta gente sentiu necessidade de vir insultar - sim, de insultar, não apenas de recordar divergências de pontos de vista - alguém que tinha acabado de morrer? Afinal António Borges nunca foi ministro, nunca exerceu como deputado - o cargo político de maior responsabilidade que exerceu foi o de presidente da Assembleia Municipal de Alter do Chão -, pelo que não foi ele que andou a desbaratar dinheiro ou a aumentar impostos. Em Portugal foi professor em várias universidades, vice-governador do Banco de Portugal, administrador de empresas, consultor do Governo, mas foi no estrangeiro que ocupou cargos de maior relevo e foi lá que ganhou mais dinheiro. Não beneficiava de qualquer reforma indecorosa, como tantas outras figuras públicas no activo. Porquê então, repito, tanta acrimónia, tanto azedume, tanta raiva?
Entre várias respostas possíveis, a que prefiro vem destacada em quase todos os perfis que sobre ele se escreveram: era um homem frontal que dizia o que pensava, sem meias palavras, e que tinha convicções fortes. Em Portugal isso vai contra os costumes estabelecidos. Acresce ainda que a sua falta foi maior, pois nunca teve o beneplácito dos nossos polícias da opinião, até porque cometia o pecado de não ser de esquerda. Pior: era um liberal.
O facto de tantos terem entendido sublinhar a sua frontalidade é, em si mesmo, significativo. Só se explica por essa qualidade ser rara em Portugal. Preferimos, por regra, a dissimulação. Os paninhos quentes. A bissectriz. Nuns casos, isso leva ao "respeitinho". Noutros à anomia. Há carreiras inteiras feitas por figuras públicas a quem nunca ouvimos nada de substancial, de quem verdadeiramente nem sequer conhecemos o que pensam sobre os temas mais controversos. Basta pensar nalguns dos nossos comentadores-estrela para vermos como eles nunca se comprometem, ou então só se comprometem com causas populares. Vão sempre com a maré, nunca remam contra a maré.
António Borges também se distinguiu por ser alguém que desafiava o pensamento dominante sem recorrer ao acinte pessoal. Aquilo que indignava os nossos profissionais de indignação - uma espécie de gente cada vez mais presente nos espaços públicos de debate - era ele dizer alto o que muitos nem se atreviam a sussurrar. Tomemos um exemplo: a sua defesa de que os salários teriam de descer para a economia reganhar competitividade. Não era uma ideia original, pois até um dos papas inspiradores da esquerda mundial, o prémio Nobel da Economia Paul Krugman, a defendeu, mas na boca de Borges tornou-se um crime de lesa-majestade. Pela razão simples de que ele defendeu essa ideia sem rodriguinhos nem meias-palavras. Pior: Borges foi uma das vítimas de uma táctica demasiado presente no espaço mediático e que denunciei nesta coluna há exactamente um ano, a táctica de desqualificar o adversário, rebaixando-o a um nível sub-humano, para que nem se escute o seu argumento.
Mas Borges foi ainda vítima de outros vícios bem portugueses, em especial os do medo e da dissimulação. Eu sei que pessoas frontais como ele são, por regra, aconselhadas a terem cuidado. Ou então elogiadas pela sua coragem, como se em liberdade fosse necessário ser corajoso para expressar sem medo aquilo em que se acredita. E isso só sucede porque a triste verdade é que é muito mais fácil ter sucesso quando se opta pela prudência do silêncio ou da frase sem arestas (ou por dizer o que todos querem ouvir) e muito mais provável acabar ostracizado quando não se olha a tais conveniências.
O triste espectáculo destes dias fez-me também regressar a uma das minhas grandes inquietações, a ideia de que em Portugal não se preza, e se calhar nunca se prezou verdadeiramente, a liberdade. A liberdade que implica saber escutar um argumento diferente, conviver com quem pensa de outra maneira, correr o risco de estar em divergência com a maioria, apreciar a existência de pontos de vista diferentes. Olhamos muito para a liberdade como essa coisa que nos permite fazer o que entendemos, olhamos muito pouco para ela como dando aos outros o direito de divergirem radicalmente de nós.
Corrijo por isso a frase inicial. Não culpo o povo. Afinal ele não faz mais do que macaquear as elites.

Liberdade

A liberdade é a capacidade de se decidir pelo bem maior. Não é um horizonte sem restrições, é a capacidade de fazer escolhas, sabendo que as escolhas impõem limites e exigem compromissos. É livre aquela pessoa que é capaz de se comprometer. Aquela que nunca se compromete não é livre, embora pense que sim. "Eu não tenho compromissos nenhuns, sou um homem livre." Mentira! Sou escravo dos meus apetites e dos ventos, vou para onde agora está a puxar, e isso é a maior tentação, andar ao sabor das ondas, das modas e das pressões.

ONDE HÁ CRISE, HÁ ESPERANÇA
Um pensamento por dia: ver em tudo o que acontece uma oportunidade de crescimento
Vasco P. Magalhães, sj

Edições Tenacitas
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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A hipocrisia do contrato de trabalho

Público, 30/08/2013

No meu assaz impressionante palmarés - valha a imodéstia - há um recorde de que me orgulho muito especialmente: sou, pela certa, o telespectador nacional que menos viu telenovelas. Com efeito, uma única sequência, de escassos minutos, foi suficiente para que me considerasse esclarecido sobre os seus conteúdos e, em consequência, nunca mais reincidi naquele género de séries.
A cena em questão era breve, mas esclarecedora. Um jovem pedia em casamento a sua amada, que recusava a proposta matrimonial, com o pretexto de que o importante é o amor. Surpreso, o pretendente ainda esboçou uma tímida defesa da instituição conjugal, que a sua Julieta destroçou, em nome da suposta hipocrisia dos formalismos jurídicos e rituais e, sobretudo, do supremo valor e espontaneidade do mútuo afecto, a que, por fim, também o dito Romeu se rendeu.
Não falta quem pense que a liberdade do amor não tolera os grilhões das imposições normativas e, daí, a profusão das uniões de facto, em detrimento do matrimónio, religioso ou civil. A moderna mentalidade antijurídica reage com violência contra o que entende ser a tirania dos direitos e obrigações decorrentes de um contrato, sobretudo quando se pretende aprisionar algo tão volátil e lírico como o amor. Que código pode definir, com justeza, a paixão? Que lei mede o impulso amoroso? Que negócio jurídico pode impedir um ser humano de seguir, livremente, o seu próprio coração? Liberte-se, pois, o sentimento das amarras do legalismo e devolvam-se ao amor as asas da mais plena liberdade e criatividade!
Esta atitude, muito comum entre a malta jovem, cada vez menos numerosa e mais imatura, pode ser uma solução para o grave problema laboral que a tantos, infelizmente, afecta. De facto, são legião os que não conseguem um primeiro emprego e, por isso, se vêem obrigados a emigrar, ou a uma frustrante inactividade. Ora a questão resolver-se-ia facilmente, se se arremetesse contra o farisaísmo do contrato de trabalho, tal como se derrotou, ao que parece com êxito, o pacto nupcial.
Por que razão muitas empresas resistem a admitir novos trabalhadores? Porque os encargos decorrentes da admissão de mais um assalariado são, por exigência do contrato de trabalho, excessivos. Com efeito, a entidade empregadora fica de tal modo onerada, ante o Estado, a Segurança Social e o próprio trabalhador que, muitas vezes, não é comportável um tal encargo financeiro.
Mas há uma fácil solução: basta desregular o compromisso laboral, em benefício dos agentes sociais, ou seja, substituir o contrato de trabalho tradicional pela união livre de patrão e operário. Se há liberdade, sem compromisso, para o amor, porque não para o trabalho?! Se o proletário é, etimologicamente, o que gera filhos e quem os faz faz por amor, reconheça-se-lhe a mesma liberdade, sem obrigações, na actividade laboral.
Que hipocrisia ir trabalhar quando não apetece nada! Que absurdo pagar um salário, quando não é isso que verdadeiramente se deseja e sente! Implemente-se, pois, a gestão por amor: o empresário deve ser livre, como libérrimo o assalariado. Este que apareça quando quiser, sem qualquer dever, e aquele remunere-o também quando e como entenda, sem imposição alguma, sem a tirania de umas cláusulas contratuais, que a volatilidade dos sentimentos pode ter tornado horrivelmente obsoletas. Que belo seria o trabalhador poder exclamar: "Trabalho onde e como o meu coração quiser!" Que romântico seria o patrão poder dizer, com aquela poética descontracção com que se troca uma esposa cinquentona por uma secretária de vinte e cinco anos: "Eu dou o ordenado a quem eu amar!"
Depois da revolução matrimonial, venha agora a revolução laboral. E quando, por fim, a humanidade se tiver libertado de todos os códigos morais e legais, não serão necessários mais contratos de casamento ou de trabalho porque, finalmente, na família e na sociedade, se observará, escrupulosamente, a lei da selva.
NOTA: No diário em tempos dirigido por José Saramago, um exaltado jornalista decidiu acusar-me de desonestidade intelectual, esquecendo que tudo o que aqui escrevi em "Obrigado, Dr. Cunhal!" foi o que o próprio líder comunista afirmou, ipsis verbis, na sua tese de licenciatura. Reverte assim a falsa acusação sobre quem a fez, a quem recordo, sem nenhuma animosidade pessoal, o que já disse: contra factos, não há argumentos.

Um texto execrável

Henrique Pereira dos Santos
Ambio, 2013-08-30

Há bastante tempo que deixei de me interessar pelo que escreve habitualmente Viriato Soromenho Marques no Diário de Notícias.
Mas desta vez resolvi interessar-me porque várias pessoas, cuja opinião prezo e considero, me remeteram um texto sobre fogos, acompanhado de grandes elogios.
Ora eu acho esse texto verdadeiramente execrável.
Como esta é uma crítica bastante violenta, passo a tentar fundamentá-la.
Passo por cima dos primeiros parágrafos, que não acrescentam nem atrasam (são uma visão ligeirinha e pouco fundamentada da história do movimento ambientalista, passando por cima de todo o trabalho da escola de arquitectura paisagista e dos florestais, por exemplo, em matéria de políticas públicas de ordenamento do território) e centro-me no que realmente conta.
"As reportagens televisivas mostram-nos, sistematicamente, bombeiros e populações cercados por eucaliptos em chamas."
Confesso, já o disse noutro contexto, que discutir fogos a partir do que aparece na televisão é como discutir física quântica a partir dos livros do Tio Patinhas. Mas independentemente disso, não é simplesmente verdade que as imagens dos fogos sejam bombeiros e populações cercadas por eucaliptos em chamas. A grande maioria dos fogos nem sequer é em povoamentos florestais. E quando são, não são sistematicamente eucaliptos, variam de região para região.
"Chegado a Portugal em 1829, esta espécie exótica ocupa agora 26% do espaço florestal, e é o grande combustível dos incêndios florestais."
VSM diz-nos aqui que 74% do espaço florestal não é eucalipto, mas que o eucalipto é o grande combustível dos incêndios florestais.
Se isso for verdade, os dados indicarão uma profunda relação positiva na sobreposição das áreas ardidas e nas áreas de eucalipto e, para além disso, as áreas de eucalipto seriam a maioria das áreas ardidas.
Ora, nada disso é verdade. Não só as áreas ardidas tem uma distribuição muito diferente da área de eucalipto, como a maioria do que arde são matos, e ainda é preciso juntar as outras espécies florestais, nomeadamente o pinheiro.
Factualmente VSM está errado neste ponto central da sua argumentação.
Mas isto não me faria escrever este texto: VSM não estuda fogos, não se informa, enquanto responsável pelo Programa Gulbenkian de Ambiente nunca ninguém lhe conheceu um especial interesse na matéria, nem contributo para resolver o problema, é pois natural que diga coisas erradas sobre um assunto que desconhece.
Um direito que nos assiste a todos é o direito à asneira e apesar do tamanho da asneira não me parece que se justificasse perder tempo a corrigi-la, tanto mais que são frequentes as pessoas que fazem questão em impedir que os factos influenciem as suas ideias.
"Quando vejo ministros, com ar pesaroso, lamentarem a morte dos bombeiros, apetece-me perguntar-lhes: "Onde estavam os senhores no dia 19 de Julho de 2013?". Nesse dia foi aprovado, em Conselho de Ministros, o ignóbil Decreto-Lei n.º96/2013, que, debaixo da habitual linguagem tabeliónica usada para disfarce, estimula ainda mais a expansão caótica da plantação de eucaliptos, aumentando o risco de incêndio, e fazendo dos bombeiros vítimas duma política de terra queimada ao serviço dos poderosos."
É aqui que o caldo se entorna, quando Viriato Soromenho Marques, com sólida formação em filosofia, resolver usar o argumento que já Daniel Deusdado tinha usado nesta matéria: existe uma relação entre os fogos de Agosto e uma lei florestal de Julho. Curiosamente nem se dão conta de que ao defender o status quo anterior, estão a defender a circunstância legal em que se desenvolveram os actuais fogos.
Uma tal barbaridade já não pode ser simplesmente atribuída à falta de conhecimento do assunto, é mesmo pretender torturar os factos até que digam o que se pretende.
E é essa voluntária vontade (passe o pleonasmo) de contrabandear factos para os pôr ao serviço de uma tese pré-definida que torna toda este texto particularmente podre, em especial tendo em atenção na forma como é concluído.
Eu teria vergonha de usar a morte de terceiros, em especial nestas circunstâncias, para procurar ter ganho de causa numa discussão política, mesmo que com base em factos solidamente irrefutáveis.
Pelos vistos Viriato Soromenho Marques não tem essa vergonha, nem mesmo quando usa argumentos factualmente falsos.
Viriato Soromenho Marques tem todo o direito de ser contra a exploração de eucalipto em Portugal.
Já é mais duvidoso que tenha o direito de associar a exploração de eucalipto apenas ao interesse dos poderosos, esquecendo que dos 750 mil hectares de eucalipto, apenas 150 mil são geridos pelas celuloses, sendo a grande maioria dos outros 600 mil de pequenos proprietários.
E esquecendo toda a riqueza criada, incluindo o emprego associado, como se fosse irrelevante para o país prescindir de uma das suas fileiras florestais mais competitivas internacionalmente.
E mais do que isso, VSM esquece que em muitas áreas de produção de eucalipto a alternativa à sua exploração é o abandono, potenciador de fogos mais severos e extensos.
Mas tudo isso cabe na discussão política, por pobres que sejam os argumentos de Viriato Soromenho Marques, neste caso.
O que eu não aceito, o que acho mesmo execrável, é que Viriato Soromenho Marques conte uma história da carochinha sobre a relação entre a produção de eucalipto e os fogos, usando a morte de bombeiros a favor do seu argumento político.
Este aspecto em concreto torna o texto verdadeiramente execrável.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O planeta estético

Público, 29/08/2013

Maravilhar é pasmar; é sentirmo-nos pequenos mas privilegiados por estarmos vivos e podermos ver o mundo.
É maravilhoso ver o filme Planet Ocean, filmado-realizado por Yann Arthus-Bertrand, o descobridor das belezas das alturas do planeta (e agora) das profundidades dos oceanos e realizado-escrito por Michael Pitiot, com a colaboração de muitos biólogos dos mares.
O texto - sobretudo no francês original - parece uma lição. Tudo ensina e explica. Apesar de ter razão em muito do que diz. Mas o que prevalece é a beleza: a beleza da imagem, escolhida por ser impressionante.
Os documentários britânicos e americanos são esclarecedores mas pecam por procurar os factos científicos acima de tudo. Os franceses, valha-os Deus, tendem a ser estetas.
Têm razão. A beleza é mais convincente. A falsa (ou certa) certeza do que se diz, quando acompanha imagens espectaculares, torna-se numa convicção nossa. A propaganda perfeita, tanto estética como biologicamente comprovada, é capaz de ser a melhor protecção que temos para o nosso planeta e para os seres vivos de que fazemos parte.
Maravilhar é rendermo-nos ao que nos rodeia. São raros os filmes, como este, que nos convencem que temos sorte de estar aqui, onde e quando acontecem estas maravilhas que nos são dadas. Por sabermos recebê-las. E nada mais. O filme Planet Ocean é, mais do que uma chamada de atenção, um exemplo magistral da nossa distracção. A verdade é muita mas a beleza é de mais.

Confiança dos portugueses subiu de forma "expressiva" em Agosto

29 Agosto 2013, 11:27 por Eva Gaspar | egaspar@negocios.pt
Famílias e empresários de todos os sectores de actividade estão cada vez menos pessimistas. No caso dos consumidores, o INE destaca o aumento expressivo observado em Agosto no respectivo indicador de confiança.
Os dados sobre a recuperação do PIB e do emprego, ainda que ténues e frágeis, poderão ter contribuído para uma acentuada melhoria dos índices de confiança em Agosto.

Segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), famílias mas também empresários de todos os sectores de actividade estão cada vez menos pessimistas.

No caso da confiança dos consumidores, o indicador "aumentou expressivamente em Agosto, reforçando o movimento ascendente observado desde Janeiro, após registar o mínimo da série em Dezembro", refere o INE. Este indicador passou de -52,7 em Julho para -49 em Agosto, depois de ter atingido o mínimo de -59,8 em Dezembro de 2012 (o máximo da série data de Novembro de 1997, em -5,5), tendo sido precisamente as expectativas sobre a evolução da situação económica do país e do desemprego nos próximos 12 meses as que mais melhoraram. Os outros dois sub-indicadores que integram o cálculo do indicador de confiança dos consumidores – perspectivas de evolução da situação financeira do agregado familiar e capacidade de poupar – também registaram melhorias, mas menos acentuadas.

Também o indicador de clima económico recuperou de "forma significativa" em Agosto, ao passar de -2,6 para -2,1, depois de apresentar o valor mais baixo da série em Dezembro de 2012 (-4,4). Uma evolução justificada por um aumento dos indicadores de confiança em todos os sectores: Indústria Transformadora, Construção e Obras Públicas, Comércio e Serviços.

Refere o INE que o indicador de confiança da Indústria Transformadora, que passou de -16,1 em Julho para -15,3 em Agosto, "prolongou o perfil ascendente iniciado em Dezembro, traduzindo nos últimos dois meses o contributo positivo de todas as componentes, opiniões sobre a procura global, apreciações sobre os stocks de produtos acabados e perspectivas de produção, mais expressivo no primeiro caso". O mínimo desta série data de Fevereiro de 2009, em -32,2.

Na Construção e Obras Públicas, o indicador de confiança da aumentou "significativamente em Agosto", ao passar de -62,1 para -58,6, "devido à recuperação de ambas as componentes, opiniões sobre a carteira de encomendas e perspectivas de emprego, mais expressiva no primeiro caso".  O mínimo desta série havia sido registado há pouco mais de um ano, em Julho de 2012, com uma leitura de -72.

O indicador de confiança do Comércio – que atingira o mínimo em Janeiro de 2012, em -22–passou, por seu turno, de -13 em Julho para -12,2 em Agosto, "reflectindo nos últimos dois meses o contributo positivo das opiniões sobre o volume de vendas e das perspectivas de actividade, enquanto as apreciações relativas ao nível de existências apresentaram um ligeiro contributo negativo".

Por último, também o indicador de confiança dos Serviços aumentou de "forma expressiva" em Agosto, ao passar de -25,1 para -22,1, "verificando-se nos últimos três meses uma recuperação de todas as componentes, apreciações sobre a actividade da empresa e sobre a evolução da carteira de encomendas e perspectivas relativas à evolução da procura". O mínimo desta série, -34,9, foi atingido em Novembro de 2012.

40 dias pela vida - Campanha 2012 (1 de Outubro 2012 a 9 de Novembro 2012)

Livro40 DiasPelaVida by papinto

O monopólio da bondade

Público, 29/08/2013

Que a Internet, as caixas dos comentários e as redes sociais são terreno fértil para que a estupidez humana cresça firme e viçosa, já todos nós sabemos há muito tempo. E por isso, o que há de novo nas reacções à morte de António Borges não são, de todo, os textos anónimos e mal-educados que celebram a morte de um ser humano. A isso já estamos habituados. O que há de novo são os textos assinados e bem-educados de pessoas como Pedro Tadeu e Baptista-Bastos (ambos no DN), que sentiram necessidade de assinalar a morte de António Borges com uma denúncia das suas posições ideológicas, em vez da costumeira suspensão das hostilidades por altura da morte de uma figura pública.
Algum estudante de Sociologia ou de Ciência Política deveria comparar as reacções à morte de Miguel Portas com as reacções à morte de António Borges. Suponho que teria ali material para uma tese de doutoramento. É que essa diferença de reacções e de olhares diz muito sobre a cultura política portuguesa e o seu eterno défice democrático, apesar de o 25 de Abril já ter ocorrido há quase 40 anos. Enquanto um homem de direita olha para um homem de esquerda como um adversário político, demasiados homens de esquerda olham para demasiados homens de direita como inimigos a abater. A direita relaciona-se com a esquerda num plano político. A esquerda relaciona-se com a direita num plano moral.
E por isso, suponho que não passaria pela cabeça de muita gente de direita considerar Miguel Portas, por altura da sua morte, um homem com uma "visão do mundo detestável" (palavras de Pedro Tadeu sobre António Borges) ou que "compaixão" e "bondade" estavam ausentes do seu vocabulário (palavras de Baptista-Bastos). Qualquer pessoa de direita, como eu, estaria tão distante das opiniões políticas de Miguel Portas quanto Pedro Tadeu ou Baptista-Bastos se sentiam distantes de António Borges - mas em momento algum eu me lembraria de classificar Miguel Portas, e muito menos na hora da sua morte, como um homem insensível e indiferente ao sofrimento dos portugueses.
E a questão, senhores, é que enquanto isto não for resolvido na cabeça de certa esquerda, o nosso debate político nunca sairá da sofisticação de um jardim-de-infância, permanecendo a identificação medieval do errado (no plano político) com o mau (no plano moral). Se tu és bom e eu sou mau, nós somos inimigos, e não adversários. Enquanto a esquerda Tadeu e Baptista-Bastos não compreender que quando uma pessoa como António Borges - ou como eu, já agora - defende ideias liberais é porque genuinamente acredita que isso é o melhor para o país e para o povo português, nós nunca conseguiremos ter um debate adulto sobre como chegámos aqui e como sair deste buraco.
Enquanto não for possível discordar sem demonizar, enquanto não for possível à esquerda admitir que ela não detém o monopólio da bondade, enquanto não for possível à esquerda dizer a um adversário político "eu discordo profundamente de ti" sem acrescentar logo de seguida "és um pau-mandado ao serviço do grande capital e queres é proteger os ricos à custa dos pobres"; enquanto nada disto for possível, nós seremos sempre um país politicamente diminuído e sem uma verdadeira cultura democrática. Que a morte de António Borges sirva, ao menos, para nos ajudar a todos a compreender que só é possível discutir política num plano de igualdade moral. A grande dúvida é: será que a esquerda deixa?

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

I have a dream


28 de Agosto de 1963 - 28 de Agosto de 2013 - 50º aniversário da Marcha sobre Washington e do discurso de Martin Luther King  Jr. "I have a dream"

Martin Luther King, Jr. - I Have a Dream (texto e audio)

Martin Luther King, Jr.
I Have a Dream
delivered 28 August 1963, at the Lincoln Memorial, Washington D.C.
[AUTHENTICITY CERTIFIED: Text version below transcribed directly from audio. (2)]
I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.
Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity.
But one hundred years later, the Negro still is not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languished in the corners of American society and finds himself an exile in his own land. And so we've come here today to dramatize a shameful condition.
In a sense we've come to our nation's capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir. This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed the "unalienable Rights" of "Life, Liberty and the pursuit of Happiness." It is obvious today that America has defaulted on this promissory note, insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check which has come back marked "insufficient funds."
But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation. And so, we've come to cash this check, a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice.
We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of Now. This is no time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism. Now is the time to make real the promises of democracy. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to lift our nation from the quicksands of racial injustice to the solid rock of brotherhood. Now is the time to make justice a reality for all of God's children.
It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment. This sweltering summer of the Negro's legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end, but a beginning. And those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual. And there will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights. The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges.
But there is something that I must say to my people, who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice: In the process of gaining our rightful place, we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred. We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again, we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force.
The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. And they have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom.
We cannot walk alone.
And as we walk, we must make the pledge that we shall always march ahead.
We cannot turn back.
There are those who are asking the devotees of civil rights, "When will you be satisfied?" We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality. We can never be satisfied as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities. We cannot be satisfied as long as the negro's basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one. We can never be satisfied as long as our children are stripped of their self-hood and robbed of their dignity by signs stating: "For Whites Only." We cannot be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote. No, no, we are not satisfied, and we will not be satisfied until "justice rolls down like waters, and righteousness like a mighty stream."¹
I am not unmindful that some of you have come here out of great trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow jail cells. And some of you have come from areas where your quest -- quest for freedom left you battered by the storms of persecution and staggered by the winds of police brutality. You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive. Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to South Carolina, go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our northern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed.
Let us not wallow in the valley of despair, I say to you today, my friends.
And so even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.
I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal."
I have a dream that one day on the red hills of Georgia, the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.
I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.
I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
I have a dream today!
I have a dream that one day, down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of "interposition" and "nullification" -- one day right there in Alabama little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.
I have a dream today!
I have a dream that one day every valley shall be exalted, and every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight; "and the glory of the Lord shall be revealed and all flesh shall see it together."2
This is our hope, and this is the faith that I go back to the South with.
With this faith, we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith, we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith, we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.
And this will be the day -- this will be the day when all of God's children will be able to sing with new meaning:
My country 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing.
Land where my fathers died, land of the Pilgrim's pride,
From every mountainside, let freedom ring!
And if America is to be a great nation, this must become true.
And so let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire.
Let freedom ring from the mighty mountains of New York.
Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania.
Let freedom ring from the snow-capped Rockies of Colorado.
Let freedom ring from the curvaceous slopes of California.
But not only that:
Let freedom ring from Stone Mountain of Georgia.
Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee.
Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi.
From every mountainside, let freedom ring.
And when this happens, and when we allow freedom ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual:
                Free at last! Free at last!
                Thank God Almighty, we are free at last!3

¹ Amos 5:24 (rendered precisely in The American Standard Version of the Holy Bible)
2 Isaiah 40:4-5 (King James Version of the Holy Bible). Quotation marks are excluded from part of this moment in the text because King's rendering of Isaiah 40:4 does not precisely follow the KJV version from which he quotes (e.g., "hill" and "mountain" are reversed in the KJV). King's rendering of Isaiah 40:5, however, is precisely quoted from the KJV.

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