segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sobre os excelentes resultados das eleições autárquicas

Público, 30/09/2013
O leitor já conhece os resultados das eleições autárquicas de ontem: eu, quando escrevo este artigo, ainda não. Já houve ontem na televisão dezenas de comentadores, analistas e líderes partidários interpretando os resultados. Uns terão dito que põem em causa o Governo. Outros, que não. Outros descobrirão sinais nas votações em listas independentes. Eu não sei nada disso. Mas acho que os resultados foram seguramente excelentes: porque os eleitores votaram livremente, porque as candidaturas foram livres, porque houve respeito mútuo e não houve violência.
Andamos todos bastante irritados uns com os outros. Uns porque o Governo impõe austeridade. Outros porque a oposição é irresponsável e despesista. Uns ficam escandalizados com as decisões do Tribunal Constitucional. Outros ficam entusiasmados com essas mesmas decisões. Uns e outros acusam-se mutuamente de estarem a conduzir o país para o abismo.
Devemos dar graças a Deus, e à nossa democracia, por todos podermos trocar essas acusações mútuas. Somos um povo livre e pacífico que atravessa dificuldades. Mas convém colocá-las em perspectiva - uma perspectiva que tenha em conta as reais tragédias que vão por esse mundo fora, como na Síria, ou no Egipto, ou em tantas outras paragens onde o primado da lei é ignorado por fanatismos rivais.
Na passada quarta-feira, em plena campanha eleitoral, foi lançado em Lisboa um livro que ajuda a colocar as coisas em perspectiva. Chama-se Holodomor: A Desconhecida Tragédia Ucraniana (1932-33). Coordenado por José Eduardo Franco e Béata Cieszynska, com prefácio de Guilherme d"Oliveira Martins, a obra reúne contributos de vários autores sobre a grande fome que Staline impôs à Ucrânia em 1932-33 - e que provocou cerca de seis milhões de mortos. Foi uma tragédia inimaginável. Carlos Gaspar aponta certeiramente neste livro a origem dessa tragédia no fanatismo ideológico - eu acrescentaria ateu, anti-sentimento nacional e pretensamente científico - do estalinismo.
A partir de 1929, recorda Carlos Gaspar, Staline inicia a chamada "Segunda Revolução Soviética", apostada na "estatização da indústria, a colectivização da agricultura e a sovietização da cultura". Em Janeiro de 1930, (...) as brigadas da "Cheka", do Komsomol e do Partido Comunista - ou os célebres "vinte e cinco mil" - começaram a atacar as aldeias e vilas rurais, nomeadamente da Ucrânia ( considerada particularmente nacionalista), para separar os camponeses ricos dos médios e dos pobres, expropriar as propriedades e os meios de produção privados, fechar as igrejas e forçar as pessoas a integrar as comunas agrícolas" (p. 42).
Perante a resistência dos camponeses ucranianos, "a ofensiva final, em 1932, foi implacável. (...) A expropriação dos cereais e dos meios de produção provocou a terrível fome de 1932-33 - entre seis e onze milhões de mortos, um dos maiores massacres de civis do século XX" (p. 43).
Na verdade, sabemos hoje que o império soviético rivalizou com o império nazi na vergonhosa competição em massacrar grupos nacionais ou religiosos inocentes, em particular os judeus. Perante essas tragédias, nós deveríamos ficar muito orgulhosos por possuirmos simples "democracias burguesas nacionais".
Nestas democracias burguesas nacionais, não reconhecemos autoridade absoluta a ninguém. Todos estamos abaixo, e ninguém acima, da lei. Todo o poder é limitado, mesmo o da maioria, susceptível de crítica, e periodicamente submetido a sufrágio.
Não queremos religiões de Estado, nem sociedades civis dirigidas pelo Estado, nem doutrinas científicas oficiais. Chamamos a isto pluralismo. E, inspirados nas grandes tradições ocidentais de Atenas e do cristianismo, orgulhamos-nos desse pluralismo, sob o qual proclamamos a inviolabilidade da consciência pessoal.
Tudo isto produz, para grande estupefacção de culturas monistas e em regra imperiais, uma boa dose de desarrumação. Uns pregam isto, outros pregam aquilo. Os nossos políticos são alvo de constantes acusações. E eles próprios trocam acusações mútuas, sobretudo entre partidos rivais. Isso mesmo estará hoje a acontecer, no rescaldo das eleições autárquicas de ontem.
Repito que devemos encarar toda esta desarrumação como uma virtude, não como um defeito. Esta desarrumação ordeira decorre do nosso respeito pelo primado da lei e pela democracia. Convém ainda não esquecer que esta desarrumação ordeira é possível porque ocorre no interior de um forte sentimento de identidade nacional. Somos cidadãos do mundo, certamente, e cidadãos europeus, seguramente, mas somos basicamente portugueses, representados num Parlamento nacional. É basicamente isso que nos permite com desportivismo trocar acusações mútuas pacificamente, ganhar eleições hoje e perdê-las amanhã. É por isso que são excelentes os resultados das eleições de ontem - quaisquer que tenham realmente sido.

João Paulo II e João XXIII vão ser canonizados a 27 de abril de 2014

Papa Francisco presidiu a primeiro consistório ordinário desde a apresentação da renúncia ao pontificado de Bento XVI

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Cidade do Vaticano, 30 set 2013 (Ecclesia) – O Papa Francisco presidiu esta segunda-feira a um consistório ordinário público no Vaticano para aprovar as causas de canonização de João Paulo II e João XXIII, marcando a cerimónia para 27 de abril de 2014.
A data escolhida coincide com o segundo domingo do tempo pascal, da Divina Misericórdia, celebração instituída por João Paulo II e na véspera da qual o Papa polaco faleceu, em 2005.
A celebração teve início às 10h00 (menos uma em Lisboa), com a presença dos cardeais residentes e presentes em Roma.
Durante a viagem de regresso do Brasil o Papa justificou a decisão de juntar no mesmo dia a canonização dos seus dois predecessores: "Fazer a cerimónia de canonização dos dois juntos quer ser uma mensagem para a Igreja: estes dois são bons, eles são bons, são dois bons".
Francisco reconheceu oficialmente um segundo milagre de João Paulo II em julho, depois de ter recebido o parecer favorável da Congregação para as Causas dos Santos, o que vai permitiu avançar com a canonização do beato polaco.
O Vaticano não deu qualquer informação sobre a natureza deste segundo milagre.
No mesmo dia, Francisco aprovou a canonização de João XXIII, falecido há 50 anos, após ter recebido o parecer favorável da Congregação para as Causas dos Santos, dispensando o reconhecimento de um novo milagre.
João Paulo II foi proclamado beato por Bento XVI a 1 de maio de 2011, na Praça de São Pedro.
A penúltima etapa para a declaração da santidade, na Igreja Católica, concluiu uma primeira fase de trabalhos, iniciada em maio de 2005, incluindo o processo relativo à cura da freira francesa Marie Simon-Pierre, que o Vaticano considerou um milagre, depois do repentino desaparecimento da doença de Parkinson na religiosa.
Karol Jozef Wojtyla, eleito Papa a 16 de outubro de 1978, nasceu em Wadowice (Polónia), a 18 de maio de 1920, e morreu no Vaticano, a 2 de abril de 2005.
A Igreja Católica celebra a memória litúrgica de João Paulo II a 22 de outubro, data que assinala o dia de início de pontificado de Karol Wojtyla, em 1978, pouco depois de ter sido eleito Papa.
Angelo Giuseppe Roncalli nasceu em 1881 na localidade de Sotto il Monte, Bérgamo, onde foi pároco, professor no Seminário, secretário do bispo e capelão do exército durante a I Guerra Mundial.
João XXIII iniciou a sua carreira diplomática como visitador apostólico na Bulgária, de 1925 a 1935; foi depois delegado apostólico na Grécia e Turquia, de 1935 a 1944, e Núncio Apostólico na França, de 1944 a 1953.
Em 1953, Angelo Roncalli foi nomeado patriarca de Veneza e no dia 28 de outubro de 1958 foi eleito Papa, sucedendo a Pio XII.
João XXIII foi declarado beato pelo Papa João Paulo II no dia 3 de setembro de 2000.
Bento XVI presidiu no dia 11 de fevereiro ao último consistório ordinário público, durante o qual apresentou a sua renúncia pontificado.
A canonização, ato reservado ao Papa, é a confirmação, por parte da Igreja, de que um fiel católico é digno de culto público universal (no caso dos beatos, o culto é diocesano) e de ser dado aos fiéis como intercessor e modelo de santidade. .

Regressar à realidade da troika

Alexandre Homem Cristo
Ionline, 2013-09-30

Por mais que o PS exiba a sua irresponsabilidade, o que é verdadeiramente relevante para o futuro do país mantém-se inalterado

1. A limitação dos mandatos autárquicos foi um fiasco. Perante os objectivos de combater clientelismos e evitar a perpetuação no poder, os números não entusiasmam. Com 138 presidentes de câmara impedidos de se recandidatar à mesma câmara, metade (68) candidatou-se no mesmo concelho a presidente da assembleia municipal. Muitos outros autarcas-dinossauros candidataram-se a câmaras municipais vizinhas. Entre todos eles, foram muitos os que ganharam. Ou seja, apesar da lei, as suas redes de poder permanecem montadas e operacionais. Em 2017 estarão de regresso. Afinal este mandato autárquico será apenas um breve interregno.
2. Durante a campanha eleitoral, foi irresistível a tentação de tornar estas eleições autárquicas uma avaliação do governo. Todos os partidos da esquerda o fizeram, e portanto todos assumiram que, apesar da importância que atribuem a estas eleições, têm a cabeça na Assembleia da República. Nos partidos da extrema-esquerda a situação é clara. Indiferente ao seu desempenho eleitoral e mantendo uma tradição antiga, o PCP proclama-se vencedor do acto eleitoral - porque os comunistas ganham sempre. E, claro, exige a demissão do governo. Naturalmente, o Bloco de Esquerda faz o mesmo. De resto, anunciou-o com mais de 15 dias de antecedência, como quem assume que, corra como correr, a irrelevância autárquica do BE obriga a extrapolar os resultados para a política nacional e contra o governo.
No PS tentou-se o mesmo, só que com muito mais a perder. Ao transformar este acto eleitoral num escrutínio ao governo, António José Seguro sujeitou-se ao escrutínio das suas alternativas. Por isso só uma vitória categórica seria suficiente. Até porque, para os socialistas, no meio de tantas dúvidas, uma certeza prevalece há muito: ganhando ou perdendo, António José Seguro seria alvo de contestação interna. Primeiro, porque não há resultado eleitoral que satisfaça os críticos, que preferem ver António Costa no seu lugar. Segundo, porque fez o PS partir em desvantagem ao rejeitar candidatos com mais de três mandatos consecutivos. Uma aposta de risco, talvez com a esperança de que o Tribunal Constitucional impedisse as candidaturas dos veteranos. Terceiro, porque deu às estruturas locais do PS a possibilidade de escolher os candidatos autárquicos. Facto que, consequentemente, fez com que o partido fosse a eleições com várias figuras de segunda linha.
Estas tentativas da esquerda foram vãs. Nem o eleitorado é estúpido para confundir o que é local com o que é nacional, nem o governo alguma vez estaria com a sua legitimidade dependente do resultado destas eleições autárquicas (ou das europeias do próximo ano). É, aliás, impensável que, nas circunstâncias em que vivemos, o governo alterasse o seu rumo porque o PSD perdeu umas câmaras municipais.
Assim, por mais que o PS exiba a sua irresponsabilidade, afirmando nesta campanha que com o PS no governo não haveria cortes na despesa, o que é verdadeiramente relevante para o futuro do país mantém-se inalterado. Daqui a 15 dias, a proposta de Orçamento do Estado para 2014 será entregue, as avaliações da troika estão por concluir, o programa de ajustamento dura até Junho de 2014 e há ainda reformas por fazer para garantir as melhores condições para um regresso aos mercados e evitar um segundo resgate.
O que está em jogo é tudo. Por isso, regresse-se à realidade antes que seja tarde de mais.

As autárquicas de ontem (a frio)

Henrique Monteiro
Expresso, Segunda feira, 30 de setembro de 2013
À hora em que escrevo estas linhas a soma dos votos do PSD e do CDS corresponde a 35%. O PS, que concorreu sozinho em todo o lado, salvo no Funchal, tem cerca de 36,1 por cento.
À hora que escrevo estavam apuradas 97% das freguesias e o PS tinha ganho a maioria das Câmaras e, por essa via, a direção da Associação Nacional de Municípios.
Daqui eu tiro conclusões que não são totalmente iguais ao que por aí corre. E são estas:
1)      O PSD foi fortemente penalizado (sem coligações não chega aos 18%), mas o PS não esmagou a direita. Os 36% socialistas, tendo em conta o estratosférico score de António Costa em Lisboa, não são extraordinários. Sobretudo se comparados com a soma 35% dos partidos do Governo, depois de este ter subido os impostos, ter cortado os salários e reduzido diversos direitos. Passos Coelho podia dar-se por satisfeito por não ter perdido mais que isto. O PS para ter aquela vitória que o embalasse para a maioria absoluta numas legislativas precisava de andar acima ou à volta do 40%. 
2)      Acresce que o PSD tendo sido corrido de certas câmaras emblemáticas, como o Porto, Sintra ou Gaia, por vezes de forma humilhante, manteve cidades que já dominava  - Viseu, Aveiro, Bragança, Faro, Santarém e ganhou outras como Braga e Guarda. Em contrapartida, o PS conseguiu ganhar algumas câmaras emblemáticas ao PSD, como Gaia, Vila Real, Sintra e Coimbra, mas perdeu outras não menos emblemáticas para os partidos do Governo (Braga e Guarda) e outras para a CDU, como Loures, Évora e Beja.
3)      O grande vencedor da noite acaba por ser a CDU, com mais de 11%. Não só consegue manter Setúbal, a única capital de distrito que detinha, como conquista Évora, Beja e, surpreendentemente, Silves (ao PSD), no Algarve, que perdera há décadas.
4)      O grande perdedor da noite, para além do PSD, é o Bloco de Esquerda. É ridículo que um partido que não chega a representar 2,5% e não ganhou uma única eleição, possa cantar vitória.
5)      As leituras frias deixaram de contar em política. As primeiras impressões é que contam.  E as primeiras impressões são de uma enorme fragilidade do Governo (que tem um Orçamento para apresentar no Parlamento) e uma legitimidade que ontem em quase todos os comentários, como de resto ao longo desta semana vai ser posta em causa. Não sabendo relativizar as derrotas autárquicas, que são fatais como o destino em eleições locais a meio de mandatos complicados, a liderança do PSD deixou instalar a ideia de que só houve desgraças. Talvez esta tenha sido a verdadeira desgraça do PSD. Porque os resultados em si, sendo maus, não são irrecuperáveis. Afinal, em 1989, depois de perder Lisboa e Porto e ter ficado com Leiria e Viseu como as únicas capitais de distrito, o PSD de Cavaco conseguiu uma maioria absoluta dois anos depois, em 1991. Não digo que é o que vai acontecer, apenas que estesresultados têm de ser vistos com uma frieza diferente.

Leitura nacional

Montanha de Sísifo
Estando quase encerradas as contagens, chegou a hora de fazer algumas contas. José António Seguro já veio proclamar uma vitória retumbante do PS e veio falar na inevitável leitura nacional dos resultados. Façamos então a leitura nacional dos resultados usando a melhor ferramenta para isso: os números.
Comecemos pela distribuição de votos nas Câmaras Municipais:
A CDU foi o grande vencedor da noite, aumentando a % de votos em 17,9%, enquanto que a coligação de governo e Bloco de Esquerda perderam 13,2% e 16,7% respectivamente. Note-se que o PS, após dois anos da oposição mais fácil que um partido pode fazer, apenas ganhou 1,4% (0,5 pontos percentuais). Em relação aos partidos de governo, uma perda de 13,2%, ou 5,7 pontos percentuais, é significante mas mesmo assim menos do que se esperaria para partidos de governo nas actuais condições políticas e económicas. Mas estes números escondem uma outra realidade: para fazermos de facto uma leitura nacional há que eliminar o efeito da má gestão local da escolha dos candidatos autárquicos do PSD. Os votos perdidos no Porto, Gaia e Sintra para grupos de cidadãos estão mais relacionados com a punição dos eleitores às fracas escolhas de candidatos do que propriamente uma reacção às políticas do governo. Rui Moreira, por exemplo, fez uma campanha ideologicamente mais próxima do governo do que o próprio candidato do PSD. É claramente um candidato da área política dos partidos de governo, apesar de não se terem candidatado por nenhum deles. Em Gaia e Sintra, ambos os candidatos de movimentos independentes estão ligados ao PSD local. Somados os votos dos grupos de cidadãos de Porto, Gaia e Sintra ligados a facções do PSD locais, temos a seguinte imagem:
Eliminado este efeito, a % de votos nos partidos da coligação governamental sobe para 39,7%, apenas 3.5 pontos percentuais abaixo dos resultados de 2013. Note-se que chegam até a ultrapassar os votos no PS. A leitura nacional começa a ficar negra para o PS. Mas é ainda mais negra para o PS de Seguro. O maior concelho do país, Lisboa, foi ganho pelo representante dos seus opositores internos, contribuindo em larga margem para o aumento na % de votos a nível nacional. Excluindo Lisboa, o cenário é este:
Dois anos de austeridade depois, tudo o que o PS de Seguro tem para mostrar são uns míseros 0,2 pontos percentuais de aumento no número de votos. Mas há mais más notícias para o PS: a Madeira. Misturado nos resultados do PSD está o caso, bastante excepcional, da Madeira. Aí dificilmente se poderá argumentar que os eleitores estão a castigar o governo nacional. O resultado da votação é um sinal claro do desejo de mudança ao nível regional. Do ponto de vista ideológico, Alberto João Jardim está até bastante mais próximo do PS do que do actual PSD. Se também excluirmos a Madeira da imagem, esta é a distribuição de votos:
Dois anos de austeridade depois, excluindo a má gestão local de candidatos do PSD, o castigo dos eleitores a Alberto João Jardim e o efeito António Costa, Seguro não tem nada para mostrar. A área política dos partidos de governo perde apenas 2,7 pontos percentuais nos votos fora de Lisboa e Madeira. O PS de Seguro até cai ligeiramente.
Mas há uma última escapatória para Seguro que é não existir qualquer leitura nacional para estes resultados. Os eleitores escolhem as melhores pessoas para as câmaras municipais, independentemente do seu partido ou das políticas do governo central. Felizmente para António José Seguro é o cenário mais plausível.
(Nota adicional: percentagens excluem brancos e nulos do total)

O erro de Kant

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-09-30
"Isto está tudo errado. É preciso deitar fora e começar de novo." Desde a escola primária, todos conhecemos esta situação drástica e terrível. Mas o que é habitual nos desenhos e nos trabalhos de casa surge também aplicado a questões económico-sociais. Não faltam os que, desesperados com problemas agudos, propõem mudanças radicais no País, classe dirigente ou sistema internacional. É preciso repensar tudo.
Quem o diz com seriedade tem em geral objectivos generosos e voluntaristas, mas não se dá conta da arrogância subtil de que é vítima. O mundo é como é, e se por acaso a existência não lhe agrada, ninguém lhe dará outra. Nem a natureza nem a humanidade lhe têm de prestar contas. Ninguém o nomeou sequer juiz, quanto mais proprietário da realidade. Tudo o que temos é dom, pois nascemos nus das nossas mães. Isso significa que uma gratidão fundamental é condição prévia para abrir os olhos todas as manhãs. Uma vontade empenhada de melhorar o que há, por louvável que seja, pode fazer-nos esquecer esta verdade. Os únicos revolucionários bem-sucedidos foram pessoas humildes e gratas.
O erro de desprezar radicalmente a realidade, arrogando-se o direito de a melhorar, é uma atitude eminentemente moderna. Pode corporizar-se num dos textos constitutivos da cultura contemporânea, o ensaio "O que é o iluminismo?" (Was ist Aufklärung?), publicado no número de Dezembro de 1784 do Berlinische Monatsschrift pelo grande filósofo Immanuel Kant. A primeira frase do texto, que inclui a desejada definição, diz tudo: "Iluminismo é a emergência do homem da sua auto-imposta imaturidade."
O grande movimento histórico que esta frase lançou, e que ainda permanece, merece três comentários. O primeiro é que se baseia numa das atitudes mais grandiosas, inspiradoras e empolgantes que a humanidade alguma vez sentiu. Confiantes na liberdade, na ciência e na técnica, os iluministas e seus sucessores entregam-se para construir uma sociedade perfeita ou, pelo menos, mais justa, nobre e feliz. O segundo ponto é que graças a ele tivemos e continuamos a ter benefícios espantosos. A referida "emergência do homem" traduz-se em inúmeras vantagens, da medicina à democracia, das comunicações à arte, do conforto à criatividade. Vivemos há 250 anos em progresso intenso, pelo que temos dificuldade em imaginar a vida quotidiana do século XVIII ou prever a que nos espera dentro de décadas.
O terceiro aspecto é que, sem esquecer estes elementos maravilhosos, a atitude sobranceira do Iluminismo deixou muito estrago. A vontade de fazer de novo, rejeitando o que havia, demoliu inúmeras coisas boas, dos guilhotinados da Revolução Francesa ao aquecimento global. No limite, holocausto nazi e gulag soviético foram as manifestações supremas da ingenuidade iluminista.
Quando alguém tem a petulância de menosprezar como "auto-imposta imaturidade" tudo que o antecedeu e rodeia, desdenha coisas magníficas que não entende. Se o ser humano sobe para o montículo que construiu e se proclama senhor da natureza e da história, todo o universo desata a rir. Quando uma criatura se assume dona da sua consciência e do seu corpo, das suas relações e posses materiais, fará muita asneira. Por muito culto e inteligente que seja - e muitos, como Kant, eram -, por muitos avanços técnicos e científicos que consiga - e muitos conseguiram -, elabora a partir de uma mentira radical: o mundo e a sociedade não nos pertencem. Nem sequer eu me pertenço a mim.
Podemos situar aqui quase todos os terríveis dramas que nos afligem. Da poluição à crise financeira, da corrupção às guerras e revoluções, do aborto e do divórcio à droga e ao terrorismo, nestes e tantos outros temas, há sempre alguém que se sente capaz de comandar a si e ao universo.
Assim, o erro de Kant, corolário do erro racionalista de Descartes, está na origem desta sociedade rica e próspera, mas injusta, desorientada, deprimida. Os últimos dois séculos foram espantosos, mas, como o filho pródigo da parábola, o Ocidente esbanjou a vasta herança que exigiu e vê-se a guardar porcos.

domingo, 29 de setembro de 2013

Escutar o Absoluto no ano da Fé - Nossa Senhora na música

Escutar o Absoluto no Ano da Fé by papinto

Quem Quer ser Ignorante? Basta ligar a RTP

Correio da manhã, 2013-09-29
Eduardo Cintra Torres

Em resumo: a "estratégia" é fazer TV comercial, em vez de alternativa.

Anos atrás, fui contratado para verificar perguntas portuguesas e estrangeiras para concursos. Encontrei muitos erros, incluindo em perguntas da BBC. Os autores criavam perguntas a partir da Internet, meio em que há muita falta de rigor.
O erro crasso e grave no Quem Quer Ser Milionário de quinta-feira foi decerto colhido na Internet: encontrei-o em dois sites. O ditado diz: "Dezembro frio, calor no Estio". Na RTP, Estio passou a "estilo". O concurso e a RTP inventaram um provérbio idiota e absurdo por ignorarem a palavra Estio, ou Verão.
A falha é inaceitável. Revelou a ignorância de toda a equipa, incluindo da apresentadora, e a incompetência na criação e verificação das questões na produtora e na RTP, num programa pré-gravado. "Calor no estilo?" A concorrente bem disse que não lhe soava; o público no estúdio rechaçou essa opção (se eu fosse a concorrente prejudicada, punha a empresa em tribunal e ficava milionária); as notas entregues a Moura Guedes indicavam que com calor se usa roupa "no estilo", um absurdo impensável num provérbio, cápsula de conhecimento em forma breve, ritmada e amiúde em rima (frio/Estio), para fácil memorização.
O regresso do concurso — com ar antiquado, pausas prolongadas até ao zapping, com iluminação de talho e perguntas ignaras — é parte da nova "estratégia" da RTP. A empresa inquiriu espectadores que não vêem RTP para saber porquê. Obviamente, estes disseram que gostariam que a RTP fosse como o que vêem, a SIC e a TVI. Os (ir)responsáveis da RTP, que punham a mão no peito pela "estratégia" anterior, começaram a defender, sem vergonha, também de mão ao peito, a nova "estratégia": fazer a RTP como a SIC ou a TVI. O presidente da RTP disse em entrevista que é só fazer como ele fez para lançar a Mini da Sagres e, já está!, conquista-se os jovens. Na nova "estratégia", a RTP 1 aposta em: concursos, como 'Sabe ou Não Sabe', onde se ganha dinheiro por não se saber as respostas; três telenovelas por dia, piores que as dos privados; aumentar o 'Telejornal' (já está mais longo do que os dois concorrentes); acabar com programas de reportagem e entrevista; substituir notícias de política e economia por notícias "leves"; fazer da RTP 1 o CCC, Canal (Tony) Carreira & Continente. Em resumo: a "estratégia" é fazer TV comercial, em vez de alternativa. Não faz qualquer sentido num operador do Estado pago pelos contribuintes. Mas o governo insiste em mudar leis e papéis, enquanto deixa a empresa entregue a incompetentes sem o mínimo sentido de serviço e de respeito pelo povo e seus impostos.
MOURA GUEDES: RESUMO DE UMA HISTÓRIA QUE ENVERGONHA A TVI
Em Herman 2013, M. Moura Guedes pôs o dedo na ferida sobre a sua saída da TVI por pressão de Sócrates: "é normal" os políticos pressionarem, "o que não é normal é que essas pressões passem, que haja uma empresa que deixe que os seus funcionários, os seus jornalistas sejam vencidos face às pressões dos políticos. Não é normal que haja em Portugal empresas de comunicação que se deixem vencer pelos políticos e que sejam pressionáveis ao ponto de os jornalistas terem de ser calados." Para eterna vergonha da TVI, Moura Guedes foi calada. Quatro anos sem trabalho, num tipo de desemprego ignorado nos noticiários. Agora apresenta um concurso, pois não conseguiu trabalho como jornalista. Antes isso que o desemprego.
COMO DAR A VOLTA A CHEFES A MAIS
O presidente da BBC, Chris Patten, recomendou que se reduzam a metade as chefias da BBC. A RTP faz ao contrário: deixa sair técnicos e jornalistas competentes, mas nas chefias não toca. A elite parasitária defende-se. E finge: para enganar o governo, há chefias que desapareceram no papel, mas as mesmas pessoas exercem as mesmas funções com os mesmos salários.

One of us - Totais por país (à data de hoje)

Country Total signatures collected per country Minimum necessary Percentage achieved
(at) Austria 31.079 14.250 218,10%
(be) Belgium 3.845 16.500 23,30%
(bg) Bulgaria 696 13.500 5,16%
(cy) Cyprus 1.903 4.500 42,29%
(cz) Czech Republic 7.544 16.500 45,72%
(de) Germany 103.606 74.250 139,54%
(dk) Denmark 6.030 9.750 61,85%
(ee) Estonia 3.612 4.500 80,27%
(el) Greece 2.494 16.500 15,12%
(es) Spain 67.511 40.500 166,69%
(fi) Finland 925 9.750 9,49%
(fr) France 90.793 55.500 163,59%
(hr) Croatia 6.926 9.000 76,96%
(hu) Hungary 49.490 16.500 299,94%
(ie) Ireland 4.482 9.000 49,80%
(it) Italy 409.938 54.750 748,75%
(lt) Lithuania 10.142 9.000 112,69%
(lu) Luxembourg 3.858 4.500 85,73%
(lv) Latvia 4.243 6.750 62,86%
(mt) Malta 5.994 4.500 133,20%
(nl) Netherlands 24.438 19.500 125,32%
(pl) Poland 178.760 38.250 467,35%
(pt) Portugal 17.245 16.500 104,52%
(ro) Romania 80.717 24.750 326,13%
(se) Sweden 2.230 15.000 14,87%
(si) Slovenia 3.638 6.000 60,63%
(sk) Slovakia 22.234 9.750 228,04%
(uk) United Kingdom 13.462 54.750 24,59%
1.157.835 574.500

Carta a quem não crê - carta do Papa Francisco ao jornalista italiano do La Reppublica Eugenio Scalfari

CartaDopapaFrancisco a Scalfari by papinto

Solidariedade e sobriedade

Há um valor que pode salvar a vida dos pobres e, contemporaneamente, a dos ricos: a solidariedade, que nasce de uma vida sóbria e gera uma vida sóbria. (Cardeal Tarcisio Bertone) ler aqui

29 de Setembro - Os três arcanjos: S. Miguel, S. Gabriel, S. Rafael

O Anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que, feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse.
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Caminhada pela vida - Um de nós


O pobre Lázaro, o rico e a (in)justa distribuição da riqueza

Não se trata apenas de vencer a fome, nem tampouco de afastar a pobreza. O combate contra a miséria, embora urgente e necessário, não é suficiente. Trata-se de construir um mundo em que todos os homens, sem exceção de raça, religião ou nacionalidade, possam viver uma vida plenamente humana, livre de servidões que lhe vêm dos homens e de uma natureza mal domada; um mundo em que a liberdade não seja uma palavra vã e em que o pobre Lázaro possa sentar-se à mesa do rico. Isto exige, da parte deste último, grande generosidade, muitos sacrifícios e esforço contínuo.
Compete a cada um examinar a própria consciência, que agora fala com voz nova para a nossa época. Estará o rico pronto a dar do seu dinheiro, para sustentar as obras e missões organizadas em favor dos mais pobres? Estará disposto a pagar mais impostos, para que os poderes públicos intensifiquem os esforços pelo desenvolvimento? A comprar mais caro os produtos importados, para remunerar com maior justiça o produtor? E, se é jovem, a deixar a pátria, sendo necessário, para ir levar ajuda ao crescimento das nações novas?
Paulo VI, encíclica "Populorum progressio".
Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se do que caía da mesa do rico (Lucas (Lc 16, 19 ss.). Tanto o rico, como o mendigo, morreram e foram ambos levados diante de Abraão; a sentença foi dada conforme se comportara cada um. A Sagrada Escritura diz-nos que Lázaro encontrou consolação, ao passo que o rico encontrou tormento.
Foi condenado o rico acaso porque foi rico, porque teve na terra abundantes propriedades, porque "se vestia de púrpura e linho fino e vivia os dias regalada e esplendidamente"? Não, diria que não o foi por este motivo. O rico foi condenado porque não prestou atenção ao outro homem. Porque se descuidou em informar-se sobre Lázaro, a pessoa que jazia sua porta, desejosa de saciar-se do que caía da mesa.
Cristo não condena nunca a posse pura e simples dos bens materiais. Mas pronuncia palavras muito severas contra os que usam dos seus bens materiais de modo egoísta, sem atenderem às necessidades dos outros. O Sermão da Montanha começa com as palavras: "Bem-aventurados os pobres de espírito". E, no termo do balanço do juízo final, como se lê no Evangelho de São Mateus, Jesus diz as palavras que bem conhecemos: Tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava nu e não Me vestistes; enfermo e na prisão, e não fostes visitar-Me(Mateus 25, 42-43).
A parábola do rico e de Lázaro deve estar continuamente presente na nossa memória; deve formar a nossa consciência. Cristo pede que sejamos abertos aos nossos irmãos e às nossas irmãs que estão em necessidade: pede aos ricos, aos de boa posição, aos que se encontram economicamente beneficiados, que sejam abertos aos pobres, aos subdesenvolvidos e aos prejudicados. Cristo reclama uma abertura que é mais que atenção benévola, mais que atos simbólicos ou de ativismo desprendido, mas que deixam o pobre, indigente como antes, se não mais ainda.
Toda a humanidade deve pensar na parábola do rico e do mendigo. A humanidade deve traduzi-la em termos contemporâneos, em termos de economia e de política, em termos de todos os direitos humanos, em termos de relações entre o "Primeiro", o "Segundo" e o "Terceiro Mundo". Não podemos estar ociosos, enquanto milhares de seres humanos morrem de fome. Nem podemos ficar indiferentes, enquanto os direitos do espírito humano são espezinhadas, enquanto se faz violência à consciência humana em matéria de verdade, de religião e de criatividade cultural.
Não podemos estar ociosos alegrando-nos com as nossas riquezas e a nossa liberdade, se, em qualquer lado, o Lázaro do século XX jaz à nossa porta. A luz da parábola de Cristo, a riqueza e a liberdade trazem especial responsabilidade. A riqueza e a liberdade criam especial obrigação. E assim, em nome da solidariedade que nos une, todos simultaneamente, numa comum humanidade, proclamo de novo a dignidade de cada pessoa humana: o rico e Lázaro são ambos seres humanos, ambos criados à imagem e semelhança de Deus, ambos igualmente remidos por Cristo a alto preço, ao preço do sangue precioso de Cristo (1 Pedro 1, 19).
João Paulo II

Todos os homens são chamados a participar no banquete dos bens da vida, e todavia tantos encontram-se ainda fora da porta, como Lázaro, enquanto "os cães iam lamber-lhe as feridas" (Lc16, 11).
Se ignorássemos a multidão imensa de pessoas humanas que não só estão privadas do estrito necessário para viver (alimento, casa, assistência médica) mas que não têm sequer a esperança num futuro melhor, tornar-nos-íamos como o rico opulento que finge não ver o pobre Lázaro (cf. Lc 16, 19-31).
João Paulo II

O meu venerável predecessor, o Beato João XXIII, gostava de dizer que a Igreja é de todos, mas de maneira especial dos pobres, fazendo como que um eco da bem-aventurança evangélica: "Bem-aventurados os pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence" (Lc 6, 20).
O Reino de Deus pertence aos pobres que, segundo alguns Padres, podem ser nossos advogados junto de Deus. Por exemplo, comentando a parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, São Gregório Magno escreve: 
"Todos os dias podemos encontrar Lázaro, se o procurarmos, e todos os dias nos deparamos com ele, mesmo sem o procurar. Os pobres apresentam-se-nos inclusivamente de maneira inoportuna e fazem-nos pedidos, eles que poderão interceder por nós no último dia... Estai conscientes, se é o caso de opor uma rejeição, visto que quem nos interpela são os nossos possíveis protetores. Portanto, não desperdiceis as ocasiões de agir com misericórdia".
João Paulo II

No Evangelho deste domingo (Lc 16, 19-31), Jesus narra a parábola do homem rico e do pobre Lázaro. O primeiro vive no luxo e no egoísmo, e quando morre, vai para o inferno. Ao contrário, o pobre, que se alimenta com as migalhas que caem da mesa do rico, quando morre é levado pelos anjos para a casa eterna de Deus e dos santos. «Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6, 20).
Mas a mensagem da parábola vai além: recorda que, enquanto estivermos neste mundo, devemos ouvir o Senhor que nos fala mediante as sagradas Escrituras e viver segundo a sua vontade, caso contrário, depois da morte, será demasiado tarde para se corrigir.
Portanto, esta parábola diz-nos duas coisas: a primeira é que Deus ama os pobres e eleva-os da sua humilhação; a segunda é que o nosso destino eterno está condicionado pela nossa atitude, compete a nós seguir o caminho que Deus nos mostrou para alcançar a vida, e este caminho é o amor, entendido não como sentimento, mas como serviço aos outros, na caridade de Cristo.
Bento XVI

No mundo, muitas vezes deposita-se a confiança no dinheiro e é precisamente a este propósito que a liturgia propõe refletir sobre a parábola de Lázaro e do rico epulão.
A palavra que vence a classificação das conversações quotidianas das pessoas é a do dinheiro: porque têm demasiado, porque têm pouco ou porque não têm. Nem sequer Jesus evita este tema; hoje alerta contra os riscos que corre quem cede às lisonjas do deus-dinheiro. E fá-lo através de uma parábola diferente das outras, que poderia ser definida a "desforra dos pobres". É a narração do homem alegre, sem nome, e do mendigo, chamado Lázaro.
Costuma-se dividir a parábola em dois momentos: a cena do rico epulão e do mendigo Lázaro, "antes" e "depois" da morte. Com a inversão total das posições. Mas na realidade, a narração tem três núcleos, destinados a ressaltar os gravíssimos riscos da escravidão do deus-dinheiro.
O primeiro: a riqueza faz definhar a vida dos pobres.
O Evangelista Lucas descreve a figura do rico: cores vistosas, como a púrpura e o bisso de um monarca oriental, fechado no seu mundo dourado; ostentação de festas e mesas postas, apesar da miséria do mundo. Um homem sem nome. No entanto, o pobre Lázaro "jazia à sua porta, coberto de chagas" (Lucas (Lc) 16, 20); um verbo para dizer a sorte dramática de todos os infelizes do mundo. "À porta", para não incomodar a visão dos ricos. O pobre pedinte de migalhas só tem uma dignidade: o nome. Mas o contraste é árduo; os dois mundos são distintos; não olham um para o outro. A riqueza escava o primeiro abismo da vida: entre abastados e pobres.
Mas existe um segundo risco: a riqueza faz definhar a vida dos ricos.
A hora de prestar contas é a morte, como limiar de um mundo que se encontra "além". Lázaro é "levado" para o alto pelos anjos, ao seio de Abraão. Finalmente, o pobre entra na jubilosa comunhão do banquete messiânico; o rico, ao contrário, "foi sepultado... na morada dos mortos, achando-se em tormentos..." (Lc 16, 22-23).
À aspiração frustrada dos pobres durante a vida corresponde o desejo dramaticamente negado aos ricos, de acederem ao banquete messiânico: "Ai de vós, ricos, porque já dispondes da vossa consolação" (cf. Lc 6, 25).
Enfim, há um terceiro risco sério: a riqueza faz definhar a fé dos ricos.
Do abismo da sua infelicidade, o pobre epulão lança um brado desesperado: que pelo menos os seus irmãos sejam admoestados, a fim de que não lhes caiba a mesma sorte. Mas a lição de Jesus é clara e terrível. Não lhes é útil a palavra de um morto para mudar a vida. Para acreditar e para se converter, é suficiente a palavra dos profetas, a palavra de Deus. De resto, Jesus experimentou isto várias vezes: quanta dureza de coração e quanta insensibilidade, mesmo diante dos milagres.
Como se sabe, o apego tentacular à riqueza torna a consciência obtusa. Sob o poder do deus-dinheiro verificam-se dramáticas divisões familiares, desprezam-se os afetos mais queridos e os valores mais autênticos. O primeiro a pagar as consequências é Deus.
Contudo, há um valor que pode salvar a vida dos pobres e, contemporaneamente, a dos ricos: a solidariedade, que nasce de uma vida sóbria e gera uma vida sóbria.
Card. Tarcisio Bertone

© SNPC | 28.09.13