sábado, 30 de novembro de 2013

Mário Soares, Narciso e Santo André

Quem não percebe isto, ou seja, quem vive centrado em si próprio, não sabe que se transforma na imagem reflectida de Narciso, como no quadro de Caravaggio.
Teoria da relatividade essencial José Luís Nunes Martins
"É comum considerar-se miserável o que se contenta com o que lhe é dado viver... mas, desgraçado será quem que se cega por tanto desejo e se faz infeliz por opção [...] esta interpretação da realidade cria as condições para que possamos apreciar o pouco (muito) de que dispomos e assim encontrar razões para sermos felizes. Sem nunca ter de viver a tristeza profunda das grandes e justas culpas e arrependimentos dos que só se dão conta do valor de algo depois de o perderem. [...] Há cada vez mais gente apática. Como se sofressem de uma espécie de sonambulismo crónico... julgam-se num nível superior de maturidade mas não chegam sequer a ser infantis. Obrigam-se à insatisfação permanente e passam o tempo atentos ao que não têm..."
Hoje é dia de Santo André – o Protokletos – o primeiro a ser chamado. O exemplo humano oposto ao de Narciso como pregava S. Bernardo:
"…Não julguemos que encontrava tão grande coragem em si próprio; era o dom perfeito que descia do Pai das luzes (Tgo 1,17), daquele que é o único que opera maravilhas"
Velhice e poder tornam-nos egocêntricos e casmurros. Some-se a vaidade e o desastre é total. Mas podemos policiar o nosso cérebro, com a ajuda dos outros
No caso do ex-Presidente da República, o exagero é quotidiano. Vejam só




A esquerda e a direita continuam em 1988

Vasco Pulido Valente
Público, 30/11/2013

Chegou agora a altura de calafetar a Alemanha. Por aqui, nem a esquerda, nem a direita falaram disso. Continuam ainda em 1988.

A UE foi desde o princípio uma ideia utópica, que só podia levar a uma catástrofe. Nascida durante a "guerra fria", tinha por força de ser democrática, na forma e na retórica. Mas nunca deixou de estar sob o domínio do poder dos grandes países que a tutelavam e da burocracia de Bruxelas que os servia.
O cidadão da Europa, que tinha um Parlamento para disfarçar, não pesava na política que a França e a Alemanha decidiam a favor do seu interesse nacional e dos seus protegidos. A famosa "solidariedade" que hoje se mendiga sempre se limitou a uma espécie de esmola para garantir a obediência e o sossego dos bárbaros da periferia. Havia em certos meios a ilusão que eles seriam eventualmente educáveis sob a direcção do Norte civilizado. Hoje já toda a gente decidiu que a tentativa falhou.
Infelizmente, o colapso da União Soviética e a efectiva transferência das forças militares da América para outros teatros ressuscitaram o medo atávico da Alemanha, que a partir de 1870 dominou a França. E, para evitar a repetição da I Guerra e das cenas de 1940, Mitterrand resolveu exigir o euro, que teoricamente evitaria uma nova hegemonia de Berlim. Mal preparado e mal pensado, o euro levou em pouco tempo ao resultado contrário: ao empobrecimento dos países mais fracos, da própria França ao nosso pindérico Portugal, e estabeleceu a Alemanha como a única potência económica e financeira da região – o que não deixa de a consolar e satisfazer e a conduziu a um isolamento pacato e certamente feliz, que não quer ver perturbado pelas raças inferiores do Sul e os seus sarilhos.
O acordo entre os socialistas do SPD e as tropas de Merkel revela bem o estado da Alemanha em 2013. O SPD conseguiu alguns limitados gestos a benefício da populaça mais pobre. Merkel conseguiu que não se mexesse no resto, nomeadamente na política europeia: nada de dívidas soberanas, nada de défices para esconder a miséria de cada um e, principalmente, nada de eurobonds para obrigar o contribuinte alemão a pagar a irresponsabilidade e a incúria de estranhos. O contribuinte alemão usará as suas poupanças para viver bem, embora modestamente, e para se passear no Verão por climas quentes, como de resto inteiramente merece. Do que Merkel mais gosta na Alemanha são janelas bem calafetadas. Chegou agora a altura de calafetar a Alemanha. Por aqui, nem a esquerda, nem a direita falaram disso. Continuam ainda em 1988.

Édito de Milão

O Édito de Milão, promulgado a 13 de junho de 313 pelo imperador Constantino (306-337), assegurou a tolerância e liberdade de culto para com os cristãos, alargada a todo o território do Império Romano. Após um período de grande intolerância e de perseguições oficiais aos cristãos, a medida tomada por Constantino teve enormes consequências na História do Ocidente, marcando o início da aproximação e identificação do Império com o cristianismo, facto que conduzirá, em breve, à proclamação do cristianismo como religião oficial do Estado, por Teodósio, em 380. Dois anos antes em 311, já Galério havia reconhecido oficialmente o cristianismo no Oriente. Os costumes cristãos impõem-se rapidamente na vida social e política. O poder já não persegue os cristãos, favorece-os e ajuda-os. Passa a ser um elemento de coesão do Império, um fator de unidade do Ocidente. Os clérigos beneficiam de imunidade fiscal e é reconhecida a jurisdição episcopal. Constantino estipula ainda o descanso dominical e proíbe os sacrifícios sanguinários pagãos. Em 337, à hora da morte, o imperador Constantino foi batizado pelo bispo Eusébio de Cesareia.

In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-11-30].
Disponível na www:  http://www.infopedia.pt/$edito-de-milao

Édito de Milão, março de 313.1
"Nós, Constantino e Licínio, Imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito do bem e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, os cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim qualquer divindade que no céu mora ser-nos-á propícia a nós e a todos nossos súditos.
Decretamos, portanto, que não, obstante a existência de anteriores instruções relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo sejam autorizados a abraçá-las sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste... . Observai outrossim, que também todos os demais terão garantia a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto segundo sua consciência e eleição; não pretendemos negar a consideração que merecem as religiões e seus adeptos. Outrossim, com referência aos cristãos, ampliando normas estabelecidas já sobre os lugares de seus cultos, é-nos grato ordenar, pela presente, que todos que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem qualquer pretensão a pagamento... [as igrejas recebidas como donativo e os demais que antigamente pertenciam aos cristãos deviam ser devolvidos. Os proprietários, porém, podiam requerer compensação.]
Use-se da máxima diligência no cumprimento das ordenanças a favor dos cristãos e obedeça-se a esta lei com presteza, para se possibilitar a realização de nosso propósito de instaurar a tranquilidade pública. Assim continue o favor divino, já experimentado em empreendimentos momentosíssimos, outorgando-nos o sucesso, garantia do bem comum."

  1. Lactâncio, De mort. persec. XLVIII

O martírio de Santo André, apóstolo

São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense, doutor da Igreja
2º sermão para a festa de Santo André


«Oh cruz há tanto tempo desejada, oferecida agora às aspirações da minha alma, venho a ti com gozo econfiança. Recebeme com alegria, a mim, discípulo daquele que pendeu em teus braços». 
Assim falava Santo André [segundo a tradição] vendo ao longe a cruz que fora erigida para o seu suplício. De onde vinham a este homem alegria e exaltação tão espantosas? De onde provinha tanta constância num ser tão frágil? De onde obtinha este homem uma alma tão espiritual, uma caridade tão fervorosa e uma vontade tão forte? Não julguemos que encontrava tão grande coragem em si próprio; era o dom perfeito que descia do Pai das luzes (Tgo 1,17), daquele que é o único que opera maravilhas. Era o Espírito Santo que vinha em auxílio da sua fraqueza, e que espalhava no seu coração um amor forte como a morte, e mesmo mais forte do que a morte (Ct 8,6).
Queira Deus que também nós participemos hoje nesse Espírito! Porque se agora o esforço da conversão nos é penoso, se velar em oração nos aborrece, é unicamente devido à nossa indigência espiritual. Se o Espírito Santo estivesse connosco, viria seguramente ajudar-nos na nossa fraqueza. O que fez por santo André face à cruz e à morte, fá-lo-ia também por nós: retirando ao labor da conversão o seu carácter penoso, torná-lo-ia desejável e mesmo delicioso. […] Irmãos, procuremos este Espírito, envidemos todos os nossos esforços para O possuir, ou possuí-Lo mais plenamente se O tivermos já. Porque «se alguém não tem o espírito de Cristo, não Lhe pertence» (Rom 8,9). «Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus» (1Cor 2,12). […] Devemos pois tomar a nossa cruz com santo André, ou antes, com Aquele que ele seguiu, o Senhor, nosso Salvador. A causa da sua alegria era que, não só morria com Ele, mas como Ele, e que, unido tão intimamente à Sua morte, reinaria com Ele. […] Porque a nossa salvação está nesta cruz.

O Papa Francisco e a Igreja portuguesa

Público, 30/11/2013

Não deixe que a Igreja portuguesa volte a ser o que foi no tempo do colonialismo e da ditadura...
Desde que foi consagrado Papa que considero Sua Santidade o Papa Francisco (de Assis, não Xavier) como alguém de excepcionalíssimo valor. Que ama o próximo como a si mesmo, como dizia Jesus, sobretudo os mais pobres e os mais desfavorecidos. Sejam ou não católicos ou de outras religiões ou de nenhuma, como eu.
É, com efeito, um Papa singular porque fala com toda a gente, seja de que religião for ou de nenhuma. Porque, segundo diz, todos são filhos de Deus. Além disso, detesta o capitalismo selvagem que hoje governa a Europa, sobretudo a zona euro, que deixou de ser solidária e igualitária – como sempre foi – e se encontra agora à beira do abismo, como escreveram Helmut Schmidt, Jacques Delors, entre outros, mesmo economistas e prémios Nobel, como Joseph Stiglitz e Paul Krugman.
Sua Santidade detesta a austeridade, imposta pela senhora Merkel, que ganhou as eleições e veremos agora o que fará aliada aos sociais-democratas. Porque sabe bem que a austeridade conduz necessariamente à desgraça dos Estados que dela são vítimas. Infelizmente há já muitas vítimas para além da Grécia, da Irlanda, de Portugal, de Espanha, da Itália, da Holanda e de outras que estão para vir, se não houver uma mudança.
A Igreja portuguesa, que foi colonialista, durante os tempos das guerras coloniais e sempre próxima da ditadura, foi salva pelos socialistas, na maior parte deles não religiosos, porque depois do 25 de Abril impediram que os esquerdistas invadissem o Patriarcado como tentaram fazer. Porquê? Porque os socialistas sabiam que a I República (1910-1926) foi muito prejudicada pelo conflito (inútil) entre o Governo e a Igreja...
Graças à intervenção do PS, depois do 25 de Abril, a Igreja portuguesa tornou-se muito aberta, com o patriarca D. António Ribeiro, e progressista, ao contrário do que sucedeu com a Igreja espanhola, que foi sempre de direita, mesmo após a morte de Franco, e quando Suarez introduziu a democracia. Mas parece que, com o novo patriarca português, tudo está a mudar, o que é péssimo e triste para o futuro.
Porquê? Porque a Igreja portuguesa tem mantido um silêncio inaceitável, tal como o actual patriarca, em relação ao Papa. Parece que não gosta dele ou mesmo que o detesta.
Prefere a corrupção e a imoralidade, que reinava no Vaticano, à solidariedade do Papa que respeita os pobres? Que patriarca é este que há meses não fala e, em especial, de Sua Santidade. Aliás, quando era bispo fazia-se passar por um homem desempoeirado e progressista – que afinal não é; tendo em conta o que não diz agora, parece que nunca foi.
É algo que não se entende! O Papa Francisco alertou que a exclusão e a desigualdade social "provocarão a explosão da violência". É importante que o tenha feito, por mero acaso no dia seguinte a eu ter sido atacado por dizer o mesmo. Leia, o actual patriarca, D. Manuel Clemente, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Santo Papa, ao Episcopado, ao Clero, às Pessoas Consagradas e aos Fiéis e Leigos, sobre o anúncio do Evangelho no mundo actual. Talvez lhe seja útil e o leve a falar de Sua Santidade, que, incontestavelmente, representa no mundo de hoje um dos maiores papas de todos os tempos. Não deixe que a Igreja portuguesa volte a ser o que foi no tempo do colonialismo e da ditadura...
Ex-Presidente da República

Teoria da relatividade essencial

Ionline 2013-11-30
José Luís Nunes Martins

A mortalidade dos que amamos devia levar-nos a amá-los com mais verdade. Cada dia é um presente magnífico, mesmo para quem não o reconhece

A vida exige ao homem um compromisso com a verdade. É fundamental para a felicidade que se façam corretos juízos sobre cada um dos fragmentos do nosso quotidiano. O ponto de vista é essencial à qualidade do resultado final.
Ninguém está a salvo de perder os que ama, os bens que possui ou as suas próprias capacidades...  
Devemos refletir de forma séria sobre o que de mau pode ocorrer na nossa vida, contemplar todos os infortúnios possíveis. As mortes e perdas a todos os níveis.
Perspetivar todo o mal possível é uma decisão tão drástica quanto eficaz, porque nos revela de forma evidente o que há de bom na nossa vida e nos impele a tirar o possível e devido proveito de tudo isso!
A nossa habitual insatisfação leva-nos a um estado de necessidade constante que, por mais alta e meritória que seja a conquista alcançada, tudo acaba, logo depois, por nos parecer pouco... e é assim que, pela lógica do desejo insaciável, nos deixamos demolir pelos vazios que criamos em nós. Concentramos a nossa razão, emoção e alma no que desejamos e não no que temos... e no que somos.
Muitos são os que tomam por seguro o que têm, sem consciência da verdade de que nada é certo, de que tudo quanto temos hoje é uma espécie de empréstimo da vida... que pode ter de ser devolvido a qualquer momento, sem qualquer aviso prévio. A família, a saúde, os amigos, a casa, os bens, os empregos, as nossas capacidades (andar, ver, etc.)...  
Quantos pais descobrem tarde demais o valor de um simples minuto de brincadeira com os seu filho?
A solução é criar e alimentar um desejo pelas coisas boas que se possuem e, assim, construir os fundamentos de uma alegria funda e duradoura.
A mortalidade dos que amamos devia levar-nos a amá-los com mais verdade. Cada dia é um presente magnífico, mesmo para quem, de tão enfastiado consigo e com o mundo, não o reconhece.
É comum considerar-se miserável o que se contenta com o que lhe é dado viver... mas, desgraçado será quem que se cega por tanto desejo e se faz infeliz por opção.
Pensar na morte e nas perdas possíveis não é pessimismo nem tristeza. Muito pelo contrário, esta interpretação da realidade cria as condições para que possamos apreciar o pouco (muito) de que dispomos e assim encontrar razões para sermos felizes. Sem nunca ter de viver a tristeza profunda das grandes e justas culpas e arrependimentos dos que só se dão conta do valor de algo depois de o perderem.
A tragédia é uma questão de tempo. Não é um se... mas um quando. A responsabilidade passa por não fingir que é impossível.
Há cada vez mais gente apática. Como se sofressem de uma espécie de sonambulismo crónico... julgam-se num nível superior de maturidade mas não chegam sequer a ser infantis. Obrigam-se à insatisfação permanente e passam o tempo atentos ao que não têm... julgam sempre que nada de mal lhes vai acontecer na vida, mais, chamam mórbidos e deprimentes aos que os alertam sobre a possibilidade e o dever de serem felizes. Admiram o valor do que sonham, desprezam o que têm nos braços...
Há coisas pequenas que, afinal, são dádivas enormes, belezas sublimes escondidas nas coisas mais vulgares... e tantos (tantos!) milagres e paraísos dentro de pessoas que muitos julgam serem comuns...
O valor da vida é absoluto em qualquer espaço ou tempo. A referência não deve ser o que se deseja, mas o bom que se pode perder. A iminência da morte devia despertar-nos para a bondade da vida e levar-nos a celebrar cada fragmento do que temos e... somos.
Apreciar o simples não é um falhanço mas uma graça. Neste mundo, nada é comum, nada se repete, tudo é extraordinário.
Estamos muito perto do segredo de Deus.

Narciso


Narciso 
Caravaggio (1594-96)
óleo sobre tela, 110x92 cm
Galleria Nazional dell'Arte Antica, Roma.

Narciso era um belo rapaz, filho do deus do rio Céfiso e da ninfa Liríope. Por ocasião de seu nascimento, seus pais consultaram o oráculo Tirésias para saber qual seria o destino do menino. A resposta foi que ele teria uma longa vida, se nunca visse a própria face. Muitas moças e ninfas apaixonaram-se por Narciso, quando ele chegou à idade adulta. Porém, o belo jovem não se interessava por nenhuma delas. A ninfa Eco, uma das mais apaixonadas, não se conformou com a indiferença de Narciso e afastou-se amargurada para um lugar deserto, onde definhou até que somente restaram dela os gemidos. As moças desprezadas pediram aos deuses para vingá-las.
Nêmesis apiedou-se delas e induziu Narciso, depois de uma caçada num dia muito quente, a debruçar-se numa fonte para beber água. Descuidando-se de tudo o mais, ele permaneceu imóvel na contemplação ininterrupta de sua face refletida e assim morreu. No próprio Hades ele tentava ver nas águas do Estige as feições pelas quais se apaixonara.

Papa Francisco, outra vez

Carla Hilário Quevedo
Ionline 2013-11-30

O capitalismo tirou milhões de pessoas da miséria, mas a falta de regulação do sistema, as crises financeiras e o desemprego revelaram que os homens não são santos
Todos os dias temos algo a dizer sobre o Papa Francisco. Isto acontece por uma razão simples: o sumo pontífice não é adepto do recolhimento, do silêncio nem da solidão. O Papa, este em particular, está virado para fora, para os outros, para um mundo que vive um momento talvez não muito diferente de outros igualmente graves, mas que tem a particularidade de ser aquele em que vivemos. O Papa e nós somos contemporâneos num momento que parece ser de viragem no mundo, mas que parece ainda nebuloso e indefinido, como qualquer tempo que nos está demasiado próximo.
O Papa Francisco tem sido de certa maneira "usado" pela esquerda em Portugal como uma voz inesperada que confirma uma ideologia. Assistimos nos últimos dias à loucura generalizada com a sua absolutamente previsível condenação do capitalismo. De repente, foi como se Francisco e Mário fossem a mesma pessoa, quando qualquer católico sabe que a exploração das pessoas, o endeusamento do dinheiro, a ideia de que existem seres humanos descartáveis, como o Papa tão bem caracterizou numa entrevista a um canal de televisão argentino, são questões que estão ou devem estar no centro da sua existência. É certo que o capitalismo tirou milhões de pessoas da miséria, mas a falta de regulação do sistema, as crises financeiras e o desemprego revelaram que os homens não são santos. Há aspectos positivos nesta ausência generalizada de santidade nos seres humanos, mas quando a ambição deixa de ser um motor de criação para passar a ser um fim sempre impossível de satisfazer na vida das pessoas, está tudo mal. Não é portanto por nenhum progressismo que o Papa Francisco, na sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, condena um sistema que não oferece oportunidades a todos e que por isso exclui milhões de pessoas da possibilidade de terem uma vida digna. São questões demasiado sérias para se esgotarem em qualquer ideologia.
Igualmente sério foi o apelo há tempos do Papa a que os fiéis não estivessem obcecados com temas como o aborto ou o casamento gay. A exortação foi recebida pela esquerda como um sinal de "abertura" da Igreja Católica. A questão é, de novo, mais profunda. Coloquemos o problema deste modo: quando já decidimos sobre um assunto, continuamos a falar sobre ele incessantemente? Na maior parte das vezes não continuamos, precisamente porque houve uma decisão. A Igreja Católica tem uma posição claríssima a respeito do aborto e do casamento gay, não por ter havido uma decisão, mas por se tratar do dogma. O Papa chamou a atenção para a obsessão com questões que não estão abertas à discussão, lembrando a tolerância fundamental da Igreja.
De onde vem então o desejo tão forte de alguns católicos de julgar o próximo, de lhe apontar o dedo porque pecou? Como descreve o Papa de um modo eloquente: "Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa." Negam a alegria, exigem condições ideais para terem fé. Desconhecem afinal que são "infinitamente amados". Ao escolherem a tristeza, negando espaço à alegria, à confiança pessoal necessária para continuar, estão a recusar a vida.

Mário Soares não tem amigos

Ionline, 2013-11-30
Isabel Stilwell

Velhice e poder tornam-nos egocêntricos e casmurros. Some-se a vaidade e o desastre é total. Mas podemos policiar o nosso cérebro, com a ajuda dos outros
Capítulo I
Se fosse nos tempos dos telegramas, tenho a certeza que teria sido por telegrama que teria recebido a mensagem urgente: "O que é que se passa? O Mário Soares não tem amigos em Portugal?" Fiquei a olhar para o e-mail de um colega jornalista francês, que não dizia mais do que isto, sem saber se havia de rir ou chorar. Estava tudo dito. Mário Soares não tem, decididamente, amigos em Portugal, que o protejam da vaidade e do egocentrismo, que se acentuaram com a idade, do desespero dos holofotes que contagia quem se habituou a viver sob a sua luz, agravados pelo sentimento de inimputabilidade que a velhice traz tantas vezes consigo. Ninguém que o confronte, ninguém que o proteja de ser usado por jornalistas desejosos de uma manchete de jornal, por colegas políticos a quem dá um jeito incrível deixá-lo imaginar-se mensageiro do apocalipse, indiferente às contradições, a apelar ao mata e esfola, numa demagogia sem fim. De facto, e acreditem que me custa dizê-lo, Mário Soares não tem amigos.
Capítulo II
O grande drama é confundir idade com sabedoria. É verdade que quando envelhecemos nos podemos tornar sábios, mas nem sempre acontece. Muitas vezes acabamos apenas casmurros e teimosos. Antes de começar a gritar comigo, dê-se ao prazer de ler "Uma visita politicamente incorrecta ao cérebro humano", do sábio neurologista e investigador Alexandre Castro Caldas.
"Sabemos, por exemplo, que ao envelhecer o balanço entre o córtex frontal e o córtex sensorial se altera em prejuízo da densidade do córtex sensorial. Será por essa razão que os mais idosos se tornam egocêntricos a rasar o autismo", escreve. O que significa? Que à medida que os nossos sentidos falham, os ouvidos, a visão e a mobilidade nos traem, a bitola dos nossos juízos passa a ser a experiência acumulada, a nossa base de dados. Convencemo-nos de que possuímos a verdade, distanciamo--nos da realidade mas sem aceitar que deixámos de a conhecer.
Mas diz mais: "Sabemos que o envelhecimento e o poder excessivo promovem os mecanismos de top-down (do interior do próprio para o mundo exterior), conduzindo a uma atitude egocêntrica da conduta com crenças rígidas alicerçadas na verdade em que acreditamos." E é por isso que, explica Castro Caldas, "no nosso relacionamento com o mundo é preciso saber exercer algum policiamento sobre a nossa forma de estar". E isso passa pela "capacidade de olhar para cada experiência como uma nova experiência, de forma que abra as portas à reflexão e amplie as nossas dúvidas e a nossa vontade de saber".
Há portanto esperança para quem tenha a humildade de aceitar as suas limitações e se mantenha atento às armadilhas do seu cérebro. E os bons amigos ajudam, quando são capazes de nos dizer o que não gostamos de ouvir.
Capítulo III
Nem de propósito tomei conhecimento de que o Instituto de Ciências da Saúde (ICS) vai lançar no início do ano de 2014 um programa destinado a alunos com idade mais avançada, em que se discutirão os processos relacionados com o envelhecimento de algumas capacidades do cérebro. Discutir-se-á a biologia do cérebro ao longo da vida, com linguagem própria para não especialistas e as modificações que se vão verificando na memória, na atenção, na linguagem, na actividade perceptiva, na marcha, no equilíbrio, no sono e noutras funções. O objectivo fundamental é esclarecer os "alunos" sobre mitos e verdades e acabar com os medos. O programa será feito integralmente pelo professor Castro Caldas, ao longo de três sessões, e em breve estará no site do ICS, para inscrições. Eu vou, e se o Dr. Soares tivesse amigos também ia.

«Café suspenso»

Ionline 2013-11-30
Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

Quando fui dar sangue, a enfermeira encarregue da colheita surpreendeu-me com uma estranha pergunta: Qual é a bebida dos padres? Ainda alvitrei o vinho, dados os seus antecedentes bíblicos e as suas conotações eucarísticas, mas sem êxito. Com efeito, segundo a minha interlocutora, a bebida dos padres é o café. Ante a minha surpresa pela sua resposta, justificou-a dizendo que os sacerdotes passam a vida a dizer qu'a fé é dom de Deus, qu'a fé vence todas as dificuldades, qu'a fé é que salva, etc.
A história vem a propósito não só do Ano da Fé, findo no passado dia 24 de Novembro, mas também de uma feliz iniciativa, que dá pelo nome de «café suspenso». Originário de Nápoles, mas já presente na Bélgica e em outros países, o «café suspenso» é uma doação dessa bebida a uma pessoa necessitada. Assim, por exemplo, um cliente encomenda e paga dois cafés, um para o seu próprio consumo imediato e o outro «suspenso», ou seja, destinado a ser servido a quem dele possa, mais tarde, precisar. Através desta acção, qualquer pessoa carente poderá depois beneficiar dessa bebida, sem necessidade de satisfazer o preço respectivo, já adiantado pelo anónimo benfeitor. Para além do café, há quem também recorra ao mesmo sistema para proporcionar pães, bolos ou até refeições completas.
Ninguém pode, por si só, acabar com o flagelo da fome no mundo, mas todos podemos proporcionar, pelo menos, uma comida ou bebida quente a quem a não pode pagar.
Não sei se o café é, efectivamente, a bebida dos padres, mas tenho a certeza de que o «café suspenso» é, sem dúvida, a bebida da caridade cristã e da solidariedade de todos os homens e mulheres de boa vontade.

As raparigas

Inês Teotónio Pereira
Ionline 2013-11-30

Nesta idade os rapazes acham que as raparigas são chatas e as raparigas acham que os rapazes são estúpidos
No outro dia a minha filha chegou a casa e declarou o seguinte: "Já não sou amiga da Teresa!" Perguntei-lhe porquê: "Porque a Teresa é amiga da Leonor..." Fiquei na mesma: "Qual é o mal disso?" E é então que ela responde o óbvio mostrando-se um bocadinho impaciente com a minha ignorância: "Então, é que a Leonor não é amiga da Beni!"
Foi então, depois deste diálogo elucidativo, que percebi que a minha filha já não era nenhum bebé, era uma rapariga. As amigas, as zangas com as amigas, as sucessivas reconciliações com as amigas, os inúmeros desenhos de coisas "fofinhas", as queixinhas de tudo e de todos e os guinchinhos tomaram conta dela. O desprezo que ela tem pelos rapazes e o tempo que ela demora a pentear-se só para irritar os irmãos e para fazer inveja às amigas, são a confirmação da maturidade feminina da minha menina.
A minha filha é o verdadeiro exemplo da natureza feminina. Ela vive no meio de cinco irmãos e todos os dias luta pela igualdade de género. Ela vive num mundo de homens e nunca reclamou quotas - nunca precisou. Durante os últimos sete anos de vida ela aprendeu a arte do futebol, a jogar ao berlinde, a dominar o Fifa e a lutar. Ela sabe dar murros e pontapés muito melhor do que brincar às bonecas. E ao mesmo tempo que tenta superar os irmãos em todas as competências, ela vai desenvolvendo competências que só ela é que as tem: ela sabe dar beliscões com uma enorme descrição, sabe dramatizar como ninguém, sabe guinchar e chorar com ou sem vontade, sabe gerir os silêncios, conquistar quem ela quer conforme o interesse do momento e sabe ceder só para eles se sentirem vitoriosos e a deixarem em paz. Ela consegue ser subtil ou um terramoto com uma diferença de 10 segundos.
Ela não se importa de ceder aos rapazes. Os rapazes para ela são apenas umas crianças que não evoluem ao seu ritmo. Ela também já brincou à bola mas já passou essa fase... E tem alguma condescendência por quem não consegue fazer mais nada nos intervalos da escola que não seja jogar futebol. Ela no fundo acha-se superior aos rapazes. Os rapazes não falam uns com os outros, apenas brincam. Ela não, ela faz tudo: ela fala, zanga-se, conta histórias, tem acessos de risinhos parvos, inventa outras histórias, fala das outras amigas e ainda tem tempo para brincar, para chorar, para ter boas notas, para se preocupar com o cabelo e com a altura da saia, para ver televisão e para moer o juízo dos irmãos. Já os rapazes não: a vida deles gira à volta de uma bola, o que a torna aterradoramente simples. Muito poucachinho, diria ela. Nem o facto de os rapazes terem mais força do que ela a faz duvidar por um minuto da sua extrema importância, até neste capítulo ela encontrou uma forma de dar a volta à situação: ela aprendeu a dar beliscões porque descobriu que não é preciso ter força para os dar de forma a neutralizar o inimigo e fazê-lo chorar. Tem resultado.
Nesta idade os rapazes acham que as raparigas são chatas e as raparigas acham que os rapazes são estúpidos. E é assim até à adolescência. A partir daí as hormonas começam a disputar o lugar do futebol no cérebro dos rapazes e fenómenos como o Justin Bieber e os One Direction fazem uma espécie de OPA ao cérebro das raparigas. Mas até lá a minha menina é um ser claramente superior. E muito complexo.

30 de Novembro - Santo André


O chamamento de Pedro e André
Caravaggio (1602-1604)

óleo sobre tela. 140 x 176 cm. Adquirid0 po Charles I. RCIN 402824.
The Royal Collection © 2008, Her Majesty Queen Elizabeth II

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Oração é disponibilidade humilde

A oração tem como primeiro efeito criar em mim as condições de abertura a Deus, de comunhão com Ele, de Lhe abrir a porta. Pedir é dispor-me a receber, não é estar a avisar Deus do que me falta, é abrir o coração para o que Ele sabe que eu necessito e tem para me dar. É um acto de humildade de quem se reconhece carente de amor e graça.
Vasco P. Magalhães, sj
ONDE HÁ CRISE, HÁ ESPERANÇA
Um pensamento por dia: ver em tudo o que acontece uma oportunidade de crescimento

Já irrita a conversa do protetorado

Henrique Monteiro
Sexta feira, 29 de novembro de 2013

Não sei se foi Paulo Portas quem começou a conversa, mas hoje em dia tornou-se viral. Cada português que fala sobre Portugal coloca um ar sério e diz que estamos num regime de protetorado.
Sobre isto convém dizer algumas coisas que ficam escondidas.
1)      O 'protetorado' foi chamado por nós - o Governo anterior pediu ajuda à troika porque não tinha dinheiro;
2)      A troika empresta-nos dinheiro a juros muito mais baixos do que qualquer outra entidade do planeta (depende dos mercados, mas chega a ser menos de metade);
3)      A troika tem-nos sugerido reformas que há muito andavam a ser discutidas entre nós, mas ninguém tinha a coragem de as fazer. Mais: a troika serve de desculpa para políticos cobardes proporem medidas que, caso não fossem cobardes, proporiam de qualquer modo.
4)      Portugal é livre de romper com a troika a qualquer momento, pelo que o 'protetorado' não nos é imposto, ao contrário do que se diz.
Por isto e por muitos outros argumentos, é errado dizer que Portugal vive sob um 'protetorado'. Portugal é um país soberano (e convém que o número dois do Governo o saiba) com instituições soberanas que decidiu soberanamente aderir a certos organismos supranacionais e pedir ajuda a determinadas organizações internacionais. Em qualquer momento pode mandá-los passear.
O que nos falta não é soberania, é coragem para enfrentar como nosso o falhanço de anos e anos de medidas erradas. E esse falhanço não é do reformado comum, do funcionário público, do trabalhador ou do desempregado. Mas curiosamente são pessoas assim que hoje (tanto à esquerda como à direita), enganadas por quem sempre as ludibriou, vêm em defesa daqueles que falharam, culpando Frankfurt, Bruxelas, Washington e várias figuras e países espalhados pelo mundo, pelos sacrifícios que fazemos.
A consequência mais óbvia deste tipo de pensamento é concluir-se que, saindo a troika, terminado o 'protetorado' poderemos voltar à vida que tínhamos, com as garantias e as regalias que tínhamos. Ora não há maior nem mais perniciosa mentira do que esta.
PS - A propósito de confusões deliberadas ou não. Soares (e outras pessoas) vêm dizer que o Papa Francisco também "apelou" à violência por ter dito que o que disse sobre o capital financeiro, a desigualdade, a exclusão e a violência social que tudo isto gera. Peço desculpa por discordar de tão ilustres iluminados, mas o Papa não pediu a demissão de ninguém e menos ainda recomendou a qualquer político ou dirigente que saísse pelo seu próprio pé, sugerindo que podiam ser corridos à' paulada' dos cargos em que estão. O Papa apelou à consciência de cada um - dos dirigentes e dos que não o são; dos que estão no mundo financeiro e dos que estão no mundo do trabalho. Enfim, de todos, como lhe compete... E alertou para os perigos das crises que geram conflitos e guerras. Acreditar ou confundir isto com a mensagem que passou na Aula Magna é como dar por certo que Soares se converteu aos milagres de Nossa Senhora de Fátima... mas enfim!

Ricos cada vez mais ricos

Pedro Romano, 2013-11-29
Tem sido amplamente noticiado o crescimento das grandes fortunas em Portugal. A fonte é a lista anual feita pela revista Exame, que até já está a circular lá fora.
Portugal may be mired in a debt crisis, but its 25 richest people got 16 percent wealthier in 2013, with fortunes equivalent to nearly 10 percent of the country's GDP, rankings published Thursday showed.
The 25 now have a combined wealth of 16.7 billion euros, according to the data published by Exame magazine.
Como é que os multimilionários se tornam ainda mais ricos num cenário de recessão acentuada? A explicação, como se lê na notícia, está na componente financeira da riqueza: acções, obrigações e outros títulos. A bolsa engordou significativamente em 2013, o que faz com que a riqueza líquida dos multimilionários aumente na mesma proporção.
Mas a bolsa tende a seguir, ainda que de forma imperfeita, o comportamento da economia. Estando a economia em recessão, é difícil perceber como podem as empresas que integram essa mesma economia valorizar-se. A não ser, é claro, que a recuperação de 2013 represente uma melhoria face a um histórico já bastante negativo. Se é isto que está a acontecer, então o crescimento das grandes fortunas deve seguir o mesmo perfil, e os resultados impressionantes de 2013 têm como contraponto uma descida igualmente impressionante nalgum ponto do passado recente.
De facto, é precisamente isto que acontece. Em baixo aparece um gráfico com a riqueza das grandes fortunas desde 2007 até 2013, construída com os dados da mesma Exame (2007 é o ano mais recuado para o qual encontrei dados). Como termo de comparação, coloquei também os rendimentos do trabalho.

Portugal tem um problema grave de desigualdade. E este gráfico não serve, de forma alguma, para o minimizar ou relativizar. Apenas para mostrar como é fácil induzir alguém em erro pela simples ocultação da série histórica de uma variável.
P.S.- Note-se que há uma diferença entre riqueza, uma variável stock que compreende todos os activos acumulados até um determinado ponto no tempo, e remunerações como os salários, que são o rendimento gerado durante um certo período de tempo.

A culpa não é de António José Seguro

José Manuel Fernandes, Público, 29/11/2013

O PS sofre do mesmo mal dos seus parceiros europeus: não tem programa alternativo para estes tempos complexos e de escassez relativa.


Será que Portugal pode sair da crise? Em teoria, pode. Se as regras do euro forem outras, nomeadamente se a zona euro ficar com parte da nossa dívida e se o Banco Central Europeu começar a imprimir euros sem limites. Se, ao mesmo tempo, a Europa nos oferecer um Plano Marshall. Se nos deixarem flexibilizar as metas do défice. E, claro, se os alemães desatarem a consumir mais.
Esta listagem não foi imaginada por mim. Resulta da conclusão do longuíssimo artigo que, ao longo de uma semana, dois economistas muito influentes na área socialista – o antigo ministro Manuel Pinho e o possível futuro ministro Manuel Caldeira Cabral – publicaram no Diário de Notícias. Como eles dizem, "se tudo isto acontecer, então, em teoria, é possível". 
Tenho dificuldade em imaginar uma tão clara declaração de impotência. Quase todas as condições que colocam para a salvação de Portugal estão fora do nosso alcance. São apenas desejos, porventura desejos piedosos, mas seguramente irrealistas – sobretudo agora, que conhecemos o acordo de coligação CDU/SPD. Mais ao menos como eu dizer que também sou capaz, "em teoria", de saltar por cima do Pulo do Lobo, mas desde que a gravidade na zona do Guadiana fosse a mesma da Lua. E o problema não é dizer que se vai lutar por aquele conjunto de objectivos na União Europeia – o problema é fazer depender a solução dos nossos problemas de perdões, subsídios e inflação. É uma posição que sintetiza bem a dificuldade da esquerda em apresentar alternativas viáveis, e mobilizadoras, para os tempos que correm. Não é apenas um problema português.
Com a sinceridade própria de um jornalista, Vicente Jorge Silva ia directo ao problema na entrevista que deu ao jornal i: "a situação é terrível a nível da esquerda", a tradição onde ele se inscreve, a da social-democracia "acabou por ser asfixiada pelo neoliberalismo". Ilustrava com exemplos de França, do Reino Unido, de Espanha, de Itália, também da Alemanha. Francisco Assis, com sinceridade, mas com o pudor próprio de quem é também um dirigente político, descreveu essa situação neste jornal como sendo "a tentativa de resistência de um voluntarismo social-democrata escassamente afirmativo".
O que estas posições permitem perceber é que os problemas do nosso PS não são muito distintos dos problemas dos outros partidos socialistas e sociais-democratas e que António José Seguro é muito menos culpado de cinzentismo do que é costume acusá-lo. Também Hollande é, de certa forma, menos culpado do que se imagina pela desilusão que gerou – boa parte da culpa está nas ilusões que se alimentaram acerca do que poderia representar uma maioria socialista em França. A principal dessas ilusões é a de que a austeridade corresponde apenas a uma escolha política, que deriva de uma valorização moral e que apenas existe para ser "punitiva". Essa ilusão permite encher todas as "aulas magnas" que se quiser, mas será fatal para as expectativas do país no momento em que houver uma mudança de ciclo político, algo que ocorrerá mais cedo ou mais tarde. Mais: como escrevia Francisco Assis, de nada serve à esquerda "uma esquerda puramente proclamatória, dada a uma certa altivez e escassamente preocupada com o esforço de compreensão da realidade".
O que Assis não consegue esclarecer é como é que o seu PS passa, e cito-o, da "evanescência de um discurso frágil" para "a consistência de uma alternativa sólida". É que esse é que é o verdadeiro problema de Seguro, sendo que não é muito diferente dos dilemas dos seus parceiros além-fronteiras: a esquerda social-democrata e socialista vive um problema de programa (como governar em tempos de escassez relativa?) e com um problema de base eleitoral (como voltar a ser um partido de base popular?).
Uma parte deste duplo problema foi muito bem descrita por Jorge Almeida Fernandes no PÚBLICO do passado domingo, quando lembrou que "a social-democracia entrou em declínio no fim dos anos 1970, quando se começou a romper a aliança entre as novas classes médias urbanas e a classe operária". Essas novas classes médias tomaram conta dos velhos partidos de inspiração trabalhista, e estes foram gradualmente mudando a sua própria natureza, passando a preocupar-se mais com os problemas das minorias e com os direitos de "nova geração" do que com os dramas das suas antigas bases operárias. Já essas classes populares foram resvalando progressivamente para os braços de populistas de direita e de esquerda.
A razão por que isso aconteceu é fácil de entender: a promoção de vigorosas políticas redistributivas era a marca de água da social-democracia, mas essas políticas necessitavam de um forte crescimento económico e de uma demografia favorável; quando o crescimento económico do pós-guerra se começou a esgotar na década de 1970, esse modelo entrou em crise por todo o lado, da rica Escandinávia à aspirante Grécia. Thatcher e Reagan não nasceram do nada e não são apenas frutos de leituras apressadas de Hayek ou Friedman, antes vieram responder a problemas existentes, protagonizando uma mudança de rota tão inevitável como fora, quatro décadas antes, a mudança de rota em direcção ao keynesianismo.
De resto, e ao contrário do que reza a propaganda, Thatcher não desmantelou o Estado social inglês, antes o reformou, para impedir que continuasse a crescer de forma insustentável. Como se mostra num livro recente – O Futuro do Estado Social, de Filipe Carreira da Silva, da colecção de ensaios da FFMS –, o peso do Estado social no PIB do Reino Unido era, no final do mandato da "Dama de Ferro", idêntico ao que se registava no início do seu consulado. Mesmo no Portugal em crise e com a austeridade que conhecemos, o peso das prestações sociais no PIB não está a diminuir: era de 22% em 2009, deverá ficar nos 23,2% em 2013.
Em países como o nosso, onde a riqueza nunca foi muita, onde o Estado social chegou tarde e o crescimento acabou cedo, a manutenção do modelo redistributivo coloca problemas ainda mais complexos à esquerda socialista (o resto da esquerda verdadeiramente só protesta, não corre o risco de governar). Por um lado, identifica-se com a política redistributiva e tem como base eleitoral uma classe média que passou a depender dessa mesma política; por outro lado, deixou de conseguir aumentar as receitas dos impostos e, assim, deixou de conseguir pagar essas políticas. Basta pensar que em Portugal as prestações sociais representavam apenas 13% do PIB em 2000, o que significa que o seu peso na riqueza nacional quase duplicou em pouco mais de uma década. Foi neste quadro que as políticas redistributivas deixaram de se basear no aumento da carga fiscal (a economia estava exaurida), para passarem a depender de uma dívida crescente (tornada mais acessível com a adesão ao euro).
O sonho de todos os socialistas é que o crescimento regresse e se libertem deste pesadelo. O seu dilema é que não conseguem imaginar uma forma diferente de crescer senão pela via de estímulos públicos, sendo que, enquanto houve dinheiro para esses estímulos – e houve em abundância até 2008/2009 –, isso não se traduziu em mais crescimento, apenas em mais dívida. É por isso que suspiram por um Plano Marshall sem entenderem que ficaríamos para sempre dependentes de subsídios externos. É também por isso que têm dificuldade em entender os sinais que começam a aparecer de alguma reversão do ciclo económico, pois este acontece sem reversão da austeridade, o que não encaixa na sua forma de pensar estadocêntrica.
Não surpreende, pois, que olhemos para o PS e, independentemente do que disser Seguro, ou outro no lugar dele, saibamos por intuição segura que as suas promessas mais simpáticas teriam o mesmo destino das de Hollande, ou das do SPD alemão, ou das do PSOE espanhol: o choque com a realidade torná-las-ia obsoletas no dia da tomada de posse de um novo Governo. O que surpreende é que ainda exista quem pense que, "se o PS fosse um bocadinho mais activo", mais à moda da Aula Magna, "tinha 90% com certeza". Não tinha, de certeza.
Jornalista, jmf1957@gmail.com

Do Édito de Milão à actualidade: a religião no espaço público

Édito de Milão by papinto

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Campanha de recolha de alimentos do Banco Alimentar - Este fim de semana

Os Bancos Alimentares Contra a Fome vão realizar uma campanha de recolha de alimentos nos supermercados das zonas onde desenvolvem atividade no próximo fim-de-semana, 30 de Novembro e 1 de Dezembro, com a qual querem mobilizar toda a sociedade para ajudar quem mais precisa.


Será também possível contribuir até 8 de Dezembro na campanha “Ajuda Vale”, bastando pedir um vale nas caixas dos supermercados com um código de barras específico para os produtos destinados aos Bancos Alimentares.

Segundo Isabel Jonet, Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, ‘todos sabemos as circunstâncias críticas em que muitos portugueses vivem hoje no que toca a carências alimentares; mas também sabemos que é nestes momentos que a solidariedade cumpre ainda mais decisivamente o seu papel, contribuindo para ajudar as famílias com mais necessidades.’O Banco Alimentar disponibiliza ainda uma plataforma eletrónica em www.alimentestaideia.net para doação de alimentos pela internet, que permite a participação na campanha de pessoas que habitualmente não se deslocam ao supermercado ou que residam fora de Portugal, nomeadamente os emigrantes.

40 mil voluntários em 20 regiões do país

Presente em 20 regiões do país (Lisboa, Porto, Évora, Coimbra, Aveiro, Abrantes, Setúbal, S. Miguel, Cova da Beira, Leiria-Fátima, Oeste, Algarve, Portalegre, Braga, Santarém, Viseu, Viana do Castelo, Terceira, Beja e Madeira), a campanha conta com a colaboração de mais de 40 mil voluntários. Devidamente identificados, estarão à porta de 1.895 estabelecimentos comerciais a convidar os portugueses a associarem-se, mais uma vez, a uma causa que já conhecem, doando alimentos para quem mais precisa.

Mais solidariedade num contexto de dificuldade

Famílias, desempregados, crianças e idosos são os grupos mais afectados pela crise económica, aumentando significativamente os pedidos de apoio que chegam aos Bancos Alimentares Contra a Fome e a necessidade de alargar a sua capacidade de resposta às instituições sociais que apoiam.

A campanha realiza-se numa altura em que os Bancos Alimentares têm mais pedidos de ajuda e menos produtos para entregar. De acordo com Isabel Jonet, ‘temos um crescimento do número de pedidos directos, mas temos também um grande crescimento dos pedidos por parte das instituições, que nos pedem o reforço do cabaz mensal que lhes é entregue, porque têm mais dificuldades; por outro lado, os Bancos Alimentares tiveram menos doações da indústria agro-alimentar, que redimensionou a sua produção devido à quebra do consumo em Portugal.’

De acordo com os dados da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, em 2012 foram apoiadas 2.221 instituições de solidariedade que entregaram os produtos alimentares a mais de 389.200 pessoas, sob a forma de cabazes de alimentos ou refeições confeccionadas, num total de 28.323 toneladas de alimentos (com o valor estimado de 39.651 milhões de euros), uma média diária de 113 toneladas por dia útil. Na última campanha realizada, os Bancos Alimentares contra a Fome conseguiram recolher um total de 2.445 toneladas de géneros alimentares.

Recolha local para uma campanha nacional

Durante os dias 30 de Novembro e 1 de Dezembro, os voluntários dos Bancos Alimentares, devidamente identificados, convidam à participação todas as pessoas que vão às compras à entrada dos estabelecimentos comerciais, ajudam no transporte e na arrumação dos alimentos nos armazéns dos 20 Bancos Alimentares em actividade.

Participar na campanha é simples, bastando para isso aceitar um saco do Banco Alimentar e à saída devolvê-lo ao voluntário com bens alimentares destinados aos mais carenciados – de preferência produtos não perecíveis (leite, atum e salsichas, azeite e óleo, açúcar, farinha, massas, arroz, etc.)

No final, o resultado é distribuído localmente – ainda com recurso ao voluntariado – a pessoas com carências alimentares, por intermédio de instituições de Solidariedade Social, previamente seleccionadas e acompanhadas ao longo do ano. Este é um modelo de intervenção que permite uma maior proximidade entre quem dá e quem recebe e um trabalho em rede de inclusão social.

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Para mais informações sobre a campanha, contactar:
Banco Alimentar Contra a Fome: 91 900 02 63 - 21 364 96 55 - www.bancoalimentar.pt


O desespero de Arménio Carlos

Jornal de Negócios, 27 Novembro 2013, 23:05 Camilo Lourenço | camilolourenco@gmail.com

Arménio Carlos está entalado. Ele sabe que já perdeu a guerra da contestação à austeridade. É por isso que ensaia todas as semanas uma manifestação contra as medidas que a Troika impôs a Portugal.

O líder da CGTP precisa de acções que levem as televisões a fazer aberturas de noticiário com os protestos que organiza. Mesmo que algumas dessas acções não mobilizem mais do que algumas dezenas de pessoas. O que interessa é o barulho que os manifestantes fazem, exactamente quando começam os directos. Para passar a (falsa) ideia de que o país está à beira da ingovernabilidade.
Foi isso que o levou a inventar a ocupação de quatro ministérios. Perdida a batalha da votação do Orçamento, era preciso um golpe de asa para manter viva a ideia de contestação.
O problema é que Arménio já perdeu a guerra. A maioria dos cidadãos que diz representar está-se a marimbar para a CGTP. E a prova disso é que, embora com dificuldade, as famílias lá vão apertando o cinto, ao mesmo tempo que se "matam" por manter o emprego. Ou seja, vão-se ajustando a um mundo que mudou sem aviso prévio. Contrariados? Claro. Ninguém gosta de dar dois passos atrás. Mas realistas.
É esta imensa mole de cidadãos que está a mudar o país. Passando por cima de Arménio Carlos e da sua CGTP. Embora descontentes, eles sabem que a contestação "à la PREC" não serve para nada... a não ser para destruir emprego e para criar mais pobreza. São esses estóicos cidadãos que merecem uma homenagem. Vamos ver se o governo não vacila nas reformas que o país tem de fazer, para que eles possam dizer, daqui por três anos, que os sacrifícios valeram a pena.

Carta a Pacheco Pereira – parte I e II

João Miguel Tavares Público, 26/11/2013

Caro amigo, companheiro e camarada Pacheco Pereira: eu escutei com a maior atenção a sua intervenção no encontro intitulado Em Defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social, e há um aspecto ao qual sou – sem ironias – muito sensível: a sua profunda indignação em relação ao que se está a passar no país.
O Pacheco Pereira não tinha a ganhar absolutamente nada em estar ali – a esquerda nunca o irá apreciar, e a direita ficou a apreciá-lo um pouco menos –, e por isso a sua presença na Aula Magna foi certamente resposta a um impulso profundo de consciência. Como disse no seu discurso, "os tempos não estão para inércias nem para confortos". Tenho o maior respeito por isso.
Mais do que respeitar, ao descrever a "estranha assembleia" que ali se reuniu, percebi de repente que também eu poderia ter lá estado, já que pertenço ao grupo dos que pensam – são palavras suas – que "o memorando, filho da necessidade extrema, poderia ser aplicado de modo muito diferente, sem o rasto de incompetências e mistelas ideológicas deixadas por este Governo". E se lá estivesse, com certeza tê-lo-ia aplaudido quando denunciou a promiscuidade entre o Estado e o sector financeiro, a tolerância a swaps e PPP enquanto "se viola todos os contratos com os homens e as mulheres do país", ou a tentativa dos governantes se desresponsabilizarem "por políticas que abraçaram com todos os braços, e que agora, quando correm mal, fazem de conta que não é com eles". Tudo isto é verdade, e eu assino por baixo.
O problema, caro Pacheco Pereira – e é aqui que nós nos separamos irremediavelmente – é que da mesma forma que para si é insuportável a hipocrisia e incompetência do actual Governo, e por isso luta contra ele com todas as suas forças, para mim é insuportável a hipocrisia de quem finge que o mero protesto é uma resposta moralmente aceitável para os problemas que nos afundam. Para si, chega-lhe "não lutar pelas mesmas coisas mas contra as mesmas coisas". Chega-lhe que Mário Soares esteja do lado certo, porque não se ri "cinicamente de receitas abstractas", enquanto o primeiro-ministro não tem um pingo de "empatia e sentimento de comunidade com os portugueses". Isto chega-lhe e chegou-lhe para ir à Aula Magna. Não para "defender", mas sim para "atacar".
Só que, diante disto, confesso que os meus sentimentos se misturam. Por um lado, acho comovente que o Pacheco Pereira que leio há mais de 20 anos, o homem cerebral, racional, antidemagógico, opositor do engraçadismo, combatente de todas as simplificações, se transforme subitamente num vulcão de emoções, de indignação e de acusações simplistas. Por outro, faz-me confusão a falta de critério desta sua análise e a forma como ela legitima o silêncio sobre a mais urgente pergunta dos nossos dias: o que fazer a seguir?
Toda a crítica política séria que em 2013 não venha acompanhada de uma alternativa concreta e praticável é, citando São Paulo, "como bronze que ressoa ou como címbalo que tine". É um convite ao vazio. Na Aula Magna gritou-se muito por demissão. Mas demissionários são todos os que querem ajudar a geração nem-nem com políticas nim-nim – nem assim, nem assado, nem de forma alguma que o povo português consiga compreender. Que o Pacheco Pereira se tenha transformado, aos meus olhos, numa pessoa surpreendentemente emotiva, acho até bonito. Mas depois de todo este empolgamento, faz-se o quê, afinal?
(Continua…)

Carta a Pacheco Pereira – parte II

João Miguel Tavares Público, 28/11/2013
A hipocrisia tem limites. E o caro Pacheco Pereira, com a idoneidade que o caracteriza, deveria ter olhos para ver isso.
Permita-me então continuar esta carta de choque e algum pavor, caro amigo, companheiro e camarada Pacheco Pereira, após escutar a sua intervenção no encontro da Aula Magna. Nós tínhamos ficado no ponto em que eu defendi que não se pode sair em auxílio da geração nem-nem (nem estuda, nem trabalha) com políticas nim-nim – nem assim, nem assado, nem de qualquer forma compreensível para quem não se deixe seduzir por vendedores da banha da cobra, tipo António José Seguro.
O problema, portanto, não está no "atacar", mas em saber como nos devemos então "defender", para nos opormos à troika e ao Governo de uma forma que: a) esteja efectivamente nas nossas mãos; b) não exija a saída do euro; c) não perore sobre haircuts e reestruturações sem ter em conta que 35% da nossa dívida está na mão de investidores domésticos e apenas 22% em mãos estrangeiras (o resto, segundo estimativa do Deutsche Bank, é da troika); d) perceba que, por muito escandalosos que sejam swaps, PPP e trafulhices financeiras, Portugal continuaria escandalosamente falido mesmo que eles não existissem.
O Pacheco Pereira tem sido muito claro na defesa de que, em alturas de urgência e de crise como esta, é necessário escolher o lado da barricada em que se quer estar. Certo. Só que hoje em dia, mais importantes do que as clássicas trincheiras pró-governamental e antigovernamental são as trincheiras dos programas políticos aplicáveis e a dos programas políticos lunáticos – e essas trincheiras, como na guerra, cruzam-se com frequência. Ora, de que me serve saltar todo ufano para a trincheira antigovernamental se depois ao meu lado tenho um combatente por um programa político lunático? Isso só faz sentido numa ocasião: quando se considera que abater o inimigo é mais importante do que escolher o amigo. E sobre isso tenho a dizer o seguinte: olhando para os amigos que Pacheco Pereira tinha sentados ao seu lado na Aula Magna, não admira que pense assim.
Eu não tenho espaço para estar aqui a analisar o currículo de vários companheiros de mesa de Pacheco Pereira, esses profundos indignados pela situação em que o país se encontra, mas passemos ao lado de Mário Soares para nos focarmos apenas num dos principais organizadores do evento e num dos seus últimos cargos públicos: Vítor Ramalho e a presidência do Inatel. E aqui, aconselho a todos os leitores as cinco páginas (pp. 98-102) que o livro Má Despesa Pública, de Bárbara Rocha e Rui Oliveira Marques, lhes dedica: de viagens a Bali a tradutores oriundos da Juventude Socialista de Setúbal, de cuja distrital o senhor Ramalho era presidente, passando pela famosa entrevista pela qual pagou cinco mil euros por ser sua obrigação "promover o Inatel", o que dali emerge é o retrato do típico político profundamente dedicado à causa pública, no sentido em que ela sempre fez maravilhas por si.
E é por isso, caro Pacheco Pereira, que embora eu simpatize com o seu discurso e comungue de muitas das suas preocupações, não sou capaz de fingir um torcicolo para não ver quem está sentado ao meu lado. Sim, nós precisamos de uma outra política e de outros políticos. Mas não precisamos só disso. Precisamos de uma alternativa consistente. E precisamos – sempre, por razões de memória – de apontar o dedo a quem andou a enterrar o país para agora vir, de pança cheia, armar-se em porta-voz dos pobres e oprimidos. A hipocrisia tem limites. E o caro Pacheco Pereira, com a idoneidade que o caracteriza, deveria ter olhos para ver isso.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A última moda na Disney: tornar os malvados simpáticos

Reflexões sobre o filme "Maléfica", a superprodução e grande aposta da Disney para 2014

Aleteia, 21.11.2013
Kim Scharfenberger

A Disney divulgou recentemente o trailer do filme "Maléfica", com Angelina Jolie no papel de vilã e Elle Fanning na pele da pobre princesa Aurora. A estreia está prevista para maio de 2014. Mas há uma mudança interessante que "Maléfica" está fazendo com relação ao conto da "Bela Adormecida", e que é evidente já no título: desta vez, a história tem como centro a vilã, enquanto a heroína se torna um personagem em segundo plano.

A sinopse promete a história jamais contada da vilã mais representativa da Disney. Maléfica é descrita como "uma esplêndida jovem mulher de coração puro que leva uma vida idílica, até que um exército invasor ameaça a harmonia da região. Maléfica se distingue por ser a mais orgulhosa protetora da região, mas no final sofre uma cruel traição, que começa a transformar seu coração puro em pedra".

Esta traição é supostamente o que a leva a lançar uma maldição sobre Aurora, a filha recém-nascida do sucessor do rei invasor. Desde a sinopse, Maléfica é pintada como uma heroína trágica, que estava apenas defendendo seu reino antes da chegada de uma série de desgraças. Inclusive sua maldição sobre a pequena princesa Aurora é somente uma forma de proteger sua terra. Se ela estava agindo para defender os seus, como poderia ser má?

Várias entrevistas a Angelina Jolie parecem prometer que o público terá uma perspectiva totalmente diferente de Maléfica: "Espero que, no final vocês possam ver uma mulher capaz de ser muitas coisas; o simples fato de defender-se e ser agressiva não significa que ela não possua outras qualidades".

Interpelada sobre a hipótese de que Maléfica tenha capacidade de redenção, Jolie respondeu que "parece verdadeiramente absurdo dizer que as meninas podem encontrar algo bom nela. Mas Maléfica é realmente uma grande pessoa". Este é um retrato interessante de uma das bruxas mais malvadas e famosas da história cinematográfica. E não é o primeiro filme da Disney que adota este ponto de vista com relação aos "maus".

Em suas últimas produções, a Disney tem seguido esta tendência de "modernizar" a história do vilão, muitas vezes com uma luz agradável projetada sobre o passado do personagem em questão. Por meio de novos relatos, o público acaba inevitavelmente se solidarizando com os vilões e sentindo simpatia por eles, chegando talvez a pensar que suas decisões maldosas são inevitáveis nas infelizes circunstâncias em que se encontram.

Uma destas revisões foi apresentada em "Oz: mágico e poderoso", em que a Bruxa Má do Oeste é apresentada como vítima de uma cruel manipulação – o que justificaria seus atos. Também em "Detona Ralph", toda a base é a luta do malvado de um videogame para chegar ao heroísmo. Poderíamos pensar que esta é uma grande oportunidade de mostrar um personagem que vence suas próprias inclinações e cresce até se tornar um verdadeiro herói.

Ralph consegue demonstrar seu valor de herói mediante seus atos altruístas com relação aos outros personagens, mas esta não é a mensagem final. O mantra de Ralph, inclusive no final do filme, é "Eu sou mau, e isso é bom; eu nunca serei bom, e isso não é mau". No final, Ralph continua detonando as coisas, mas agora Félix e os demais personagens do jogo o aceitam pelo que ele é. No verdade, Ralph não é realmente mau, pois tem um bom coração, mas é interessante que a mensagem repetida por ele seja a de que nunca será bom "e isso não é mau".

Não há nada de errado em tentar compreender o funcionamento interno da mente de alguém ruim. Sobretudo nas histórias populares amplamente conhecidas, uma revisão com diferente e inesperada perspectiva pode ser agradável, porque oferece informação nova. Mas, no final, produções como "Maléfica" e "Oz: mágico e poderoso" glorificam os vilões tradicionalmente aceitos e tentam justificar seus atos reprováveis escavando um passado incompreendido. No caso de "Detona Ralph", chegam inclusive a dizer que "não é mau ser mau".

Os filmes e contos do passado, como "A bela adormecida" e "O mágico de Oz" expressavam interpretações concretas das categorias certo/errado, refletidas em personagens absolutamente bons ou absolutamente maus.

Não haveria um meio termo para a Bruxa Má do Oeste que cuspia fogo, ou para Maléfica, que mudava de forma em suas histórias originais; mas a sociedade moderna criou muitas variações de cinza para interpretar as ações das pessoas, e estas histórias apresentadas do ponto de vista do vilão, parecem ser o resultado deste mentalidade.

Poderia parecer inócuo, mas, se gastamos tanto tempo obcecados com a origem ou as motivações dos maus, poderíamos começar a nos perguntar onde foram parar os verdadeiros heróis.

Estandarte de Natal

Queridos amigos
Temos uma proposta para a vossa família: pendurar nas varandas e janelas o estandarte do Menino Jesus.
A ideia principal é alegrar o próprio Menino Jesus.
Além disso, o Natal lembra que Deus não amuou e não se fartou deste mundo.
Pelo contrário: fontes fidedignas dizem que ele resolveu fazer-se homem e meter-se no barulho. Para ajudar a compor a coisa.
Isso é uma boa notícia – vá lá, uma excelente notícia - para nós e para as pessoas que vão olhar para as vossas janelas. Crentes e não crentes. (O sol quando nasce é para todos)
O menino diz que todos valem.
Imenso! Por igual.
Muito mais do que julgamos.
- "QUANDO é que é melhor pôr o estandarte?"
Sugerimos: 8 de Dezembro (um dia muito especial para a Mãe do menino)
"ONDE se vendem estandartes?"
Nas lojas comuns (sim, também no chinês).
Costumam ser baratíssimos.
Com amizade
Plataforma Estandartes de Natal