terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Dizer «obrigado» no último dia do ano

«Se a tua única oração na vida for "obrigado", isso bastará (Mestre Eckhart)». A gratidão não é apenas uma atitude de louvor, é também o elemento básico de uma verdadeira crença em Deus.
Quando inclinamos as nossas cabeças em sinal de gratidão, reconhecemos que as obras de Deus são boas. Reconhecemos que não podemos salvar-nos por nós próprios. Proclamamos que a nossa existência e todas as coisas boas que ela tem, não vêm do nosso expediente, fazem parte da obra de Deus. A gratidão é o aleluia à existência, o louvor que ressoa através do Universo, como um tributo à presença de Deus, constante entre nós, incluindo neste momento.
Obrigado por este novo dia.
Obrigado por este trabalho.
Obrigado por esta família.
Obrigado pelo nosso pão de cada dia.
Obrigado por esta tempestade e pela humidade que ela traz à terra seca.
Obrigado pelas correções que me fazem crescer.
Obrigado pelas flores silvestres que dão cor à ladeira.
Obrigado pelos animais de estimação que nos unem à natureza.
Obrigado pela necessidade que me mantêm vigilante em relação à tua generosidade na minha vida.
Sem dúvida, a gratidão ilimitada salva-nos do sentimento de autossuficiência, que nos leva a esquecermo-nos de Deus.
O louvor não é uma virtude ociosa na vida. Diz-nos: «Lembra-te de Quem és devedor. Se nunca tiveres conhecido a necessidade, nunca virás a conhecer Quem é Deus nem quem és tu.»
A necessidade testa a nossa confiança. Dá-nos a oportunidade de permitir que os outros nos apoiem nas nossas fraquezas, dando-nos conta que, no fim, só Deus é a medida da nossa plenitude.
Quando conhecemos a necessidade, somos melhores seres humanos. Pela primeira vez, conhecemos a solidariedade para com os mais pobres dos pobres. Fazemos nossa a dor do mundo e devotamo-nos a trabalhar em favor daqueles que sofrem.
Finalmente, é a necessidade que nos mostra que é preciso muito pouco para se ser feliz.
Mal percebemos todas estas coisas, encontramo-nos face a face, tanto com a Criação, como com o Criador. É um momento de aleluia em que descobrimos Deus e a sua bondade para connosco.
Aprendamos a vir à oração com um coração de aleluia, para que ela possa ser sincera.
Joan Chittister
In O sopro da vida interior, ed. Paulinas
30.12.13

Bom Ano Novo

Ao contrário do que desejamos uns aos outros, como se tudo dependesse de uma sorte aleatória que nos trouxesse a todos prosperidade, um Bom ano depende sobretudo de cada um de nós como diz o Poeta Aleixo.
Regresso sempre à origem do Povo, a mensagem radiofónica de Natal do Papa Pio XII no 6º Natal de guerra em 1944:
O Povo opõe-se à massa: vive da liberdade e da consciência de cada um.  
São esta consciência e liberdade individuais que movem o mundo.
Desejo a todos os meus amigos do Povo que em 2014 sejam os protagonistas das suas vidas e colectivamente da nossa História como Povo.
O primeiro passo parece-me, é contra-corrente, mas procuremos todos percebê-lo e fazê-lo nosso: Dizer obrigado no último dia do ano
Bom Ano de 2014
Pedro Aguiar Pinto     

Frase do dia

O mundo só pode ser
Melhor do que até aqui,
Quando consigas fazer
Mais pelos outros do que por ti!
António Aleixo (1899-1949)

Receita para um Ano Feliz:

Tome 12 meses completos.
Limpe-os cuidadosamente de toda a amargura, ódio e inveja.
Corte cada mês em 28, 30, ou 31 pedaços diferentes,
mas não cozinhe todos ao mesmo tempo.
Prepare um dia de cada vez com os seguintes ingredientes:

- Uma parte de fé
- Uma parte de paciência
- Uma parte de coragem
- Uma parte de trabalho

Junte a cada dia uma parte de esperança, de felicidade e amabilidade.
Misture bem, com uma parte de oração, uma parte de meditação e
uma parte de entrega.
Tempere com uma dose de bom espírito, uma pitada de alegria, um pouco
de acção, e uma boa medida de humor.
Coloque tudo num recipiente de amor.
Cozinhe bem, ao fogo de uma alegria radiante.
Guarneça com um sorriso e sirva sem reserva.

fonte: Ana Alves (1914 - 2006)

Gastronomias.com ®

A mísera ambição do "eduquês"

Público, 31/12/2013

A melhoria nos testes PIRLS e TIMSS volta a ser falaciosamente usada (PÚBLICO, 24/12) para legitimar as teorias e práticas impostas à escola nos últimos trinta e cinco anos. Escreve Maria Emília Brederode (MEB): "(...) os únicos testes internacionais em que o desempenho dos alunos portugueses ficou acima da média europeia em Língua Materna, compreensão de leitura e em Matemática e Ciências.
Estes resultados correspondem a testes efectuados em 2011 pelo que não há forma de os considerar indicadores de que alguma coisa fosse mal na formação de educadores de infância e de professores dos 1.º e 2.º ciclos".
Ora, nem o resultado desses testes tem, infelizmente, o significado que MEB lhe atribui; nem a média europeia é satisfatória; nem o mérito dessa subida pertence à formação ministrada nas Escolas Superiores de Educação. Esse progresso, tão tardio, revela, pelo contrário, o seu fracasso. O facto de ostentarem tão modesta e insignificativa classificação mostra, afinal, a mísera ambição dos seus objectivos. Vejamos porquê:
1. Os testes referidos foram aplicados a alunos de 10 anos, a terminar o 1.º ciclo. A este nível, nestes tempos "pós-modernos" em que pouco ou nada se ensina a essas crianças, ainda não há grande diferenciação nos conhecimentos dos alunos.
2. E os referentes não são significativos. Se compararmos os resultados dos nossos alunos - tal como os dos alunos da generalidade dos países europeus - com os dos alunos dos países que claramente progrediram, verifica-se um atraso geral dramático (et pour cause...). Ora, devem ser os resultados desses países o exemplo e o desafio para nós. Atente-se no sucesso conseguido por alguns deles, em várias latitudes, em quatro vezes menos tempo.
3. O mérito desse nosso progresso, relativo a países da Europa em que a qualidade do ensino se tem degradado, não pertence às referidas teorias, mas, pelo contrário, como veremos, ao recuo no seu domínio.
De facto, nos testes PISA, mais significativos, porque aplicados a jovens com 15 anos, quando a influência da escola nos conhecimentos dos alunos é já mais acentuada, os resultados foram sempre muito fracos até 2009, só então se verificando o primeiro progresso visível, depois de o modelo há tantos anos imposto começar a ser contrariado, ainda que timidamente. (Acrescente-se ter constado que o ministério de M. L. Rodrigues não incluiu alunos dos cursos profissionais, e por isso os resultados teriam sido melhores)
Na verdade, o progresso verificado no PISA de 2009 e nos PIRLS e TIMSS de 2011 começa por estar ligado a uma mudança de ambiente resultante das vitórias no longo combate travado por alguns cidadãos e jornalistas, nomeadamente: divulgação dos resultados das provas de aferição e dos exames que ainda restavam; participação nas provas comparativas internacionais, que Ana Benavente proibira.
E, depois, a medidas que, embora temerosas e circunscritas, começaram a enfrentar, o que eu, saudando-as, designei por "eduquês" puro e duro.
Medidas do tempo de D.Justino, nomeadamente reintrodução de exames e preocupação com o ensino profissional. Orientação reforçada por Sócrates/M. L. Rodrigues: afirmação veemente do valor dos exames; mudança no modelo de direcção das escolas; assumida reabilitação da ideia do ensino profissional, permissão para as escolas criarem cursos profissionais - ferindo, assim, um dos dogmas mais estúpidos e cruéis do "eduquês" (de que logo resultou uma localizada descida no abandono escolar); reciclagem, embora mal realizada, de professores de Matemática - "anunciando" o que Crato, seguramente, quer fazer. Medidas que valeram a MLR a significativa ruptura com os ultras das "ciências" da educação.
Registe-se, ainda, a determinação de MLR em enfrentar politicamente os que nunca deixaram governar qualquer ministro, que hoje usam como "carne para canhão" muitos professores, presas fáceis depois de "qualificados" pelas ESE (também pedagogicamente, como se vê).
ESE e mesmo formação de docentes nas Universidades de que Crato deveria ter já promovido a reformulação. Tal como a selecção dos candidatos a esses cursos (na Finlândia é muito rigorosa, com resultados à vista), e a inadiável reciclagem de docentes no activo.
4. O progresso nos testes em causa não traduz, pois, infelizmente, a realidade da grande maioria das escolas.
O indicador expressivo, fiável, da qualidade da educação, é, afinal, o estado em que Portugal se encontra, em todos os registos da realidade - participação cívica, política, economia, cultura, desenvolvimento, independência nacional, em suma. Atraso agravado dramaticamente pelos anos devastadores do "eduquês".
5. Dou apenas o exemplo determinante da leitura. Transcrevo de Valter Hugo Mãe o testemunho insuspeito que cita:
"Chocou-me ouvir Alice Vieira dizer que os bestsellers dos anos 80 que a levavam às escolas para falar com miúdos do 6.º ano, agora são os mesmos que a levam para falar com miúdos do 12.º ano. Diz ela que, hoje, os livros que concebeu para miúdos de 13 anos, estão a ser lidos e trabalhados por miúdos de 17, no âmbito das escolas. 'O que vou fazer? Pelo menos que os apanhemos aos 17, se não estes livros para 13 anos vão ser mais tarde ou mais cedo trabalhados na universidade ou em doutoramentos e eu vou ser chamada para falar com adultos marmanjões que deviam ter entendido isto aos 13 anos'."
A observação de Alice Vieira demonstra que temos estado, desde há muito, a recuar, que os nossos jovens aprendem cada vez mais tarde o que deviam aprender muito mais cedo.
6. Do artigo de MEB fica-me uma perplexidade: pensará MEB, realmente, ser possível ensinar-se o valor da leitura, suscitar o seu hábito, a sua paixão, ou mesmo, tão somente, ensinar com eficácia e alegria uma criança a ler, sem se ter consciência desse valor, sem a experiência apaixonante e transformadora do convívio com os grandes textos, Eça, Camilo e Saramago, como, ironizando, refere? Poderá alguém ser Professor sem uma cultura geral básica? O mesmo se verifica com a química ou a matemática - com a referência à trigonometria MEB tenta caricaturar a exigência que o actual ministro quer promover. Mas há mesmo muitos professores de Matemática incapazes de chegar ao resultado de 8X7, para não falar nos mestres e doutores que não sabem alinhavar duas ideias, nem sabem o mais elementar da História de Portugal...
Mas essa ideia errada, geradora de ignorância e desumanização, está, afinal, no âmago da genética do "eduquês": desvalorização do conhecimento, horror ao mérito, ideia, social e humanamente aviltante, de que a ignorância, mesmo do mais básico, ou a idiotice, podem ensinar, valorizar, criar, realizar seja o que for. Não sou capaz de atribuir tal ideia a MEB.
Quanto ao que Nuno Crato, cercado, tem sido capaz de fazer, ver-se-á, se houver tempo, o efeito, e haverei de me pronunciar. Devo isso aos muitos Professores com quem partilhei angústia, indignação e esperança.
Editor da Gradiva

Nostalgia do que nunca existiu

João Miguel Tavares Público 31/12/2013 - 00:11

Eu já tinha decidido encerrar o ano com um texto sobre os enviesamentos da nostalgia e os nossos problemas com a memória, e o Público, para me facilitar a vida, fez o favor de pôr de pé um dossiê especial comparando o ano de 2013 com o de 1993 e o de 1973.
Para uma das imagens de primeira página, a direcção escolheu até uma fotografia de 1988 de Alfredo Cunha, incluída no seu livro A Cortina dos Dias – precisamente uma das obras que mais tive presentes durante 2013, e que ilustra na perfeição aquilo que quero dizer.
O livro de Alfredo Cunha impressionou-me muito pela sua colecção de extraordinárias fotos de uma pobreza avassaladora, começando no Portugal dos anos 70 e indo até finais dos anos 80, e nalguns casos até já bem dentro da década de 90. São imagens de bairros de lata pútridos, hospitais sem condições, pessoas a respigar em lixeiras a céu aberto, crianças nuas a tomarem banho em fontanários. Sempre que alguém vem com a conversa do "no meu tempo é que era bom" ou de como a crise está a fazer Portugal retroceder meio século, dava jeito ter um exemplar à mão para esfregar na cara de quem diz tais barbaridades. Não, não estamos a retroceder meio século. Não, não estávamos melhor há 20, 30, 40 ou 50 anos.
A maldita nostalgia que em Portugal encontrou um microclima para se desenvolver esplendorosamente não é uma nostalgia daquilo que o país já foi mas, quase sempre, uma nostalgia daquilo que nós já fomos. E isso provoca desvios inadmissíveis no discurso público: nós não temos realmente saudades do que Portugal era antigamente – temos é muitas saudades dos tempos da nossa juventude. Nesta quadra natalícia, Vasco Pulido Valente assinou dois textos neste jornal, um intitulado "A morte do peru", onde declarava que "excepto nas lojas, e mesmo nessas melancolicamente, o Natal já não existe", já que as grandes famílias acabaram e "as criadas desapareceram"; e outro intitulado "Vender Portugal", onde afirmava que "a velha Lisboa já não existe e a nova Lisboa não passa de uma mediocridade sem ordem ou alegria", lamentando de caminho "a falência das pequenas tascas da Baixa e do Bairro Alto".
Eis um exemplo perfeito daquilo a que me refiro. Talvez para uma antiga burguesia endinheirada e com uma existência pastoreada por vasta criadagem hoje em dia o Natal seja mais aborrecido do que há meio século. Mas posso garantir que para a vasta maioria dos portugueses ele é muito mais divertido do que em 1955. Talvez para quem se mantém eternamente fiel à mesma mesa do mesmo restaurante, Lisboa hoje não passe de "uma mediocridade sem ordem ou alegria". Mas basta sair à rua para ver que se há coisa em que evoluímos drasticamente – e, neste caso, apesar da crise – é na qualidade da vida urbana e da restauração e na forma como uma classe média aprendeu a viver a cidade: as pessoas correm à beira-rio, andam de bicicleta, reúnem-se para beber um copo no final do trabalho.
Com a nossa típica memória de curto prazo, tendemos a esquecer o quanto evoluímos, o quanto melhorou a nossa qualidade de vida, o quão mais ricos hoje somos. A crise é terrível, está a fazer crescer as desigualdades e a mandar-nos uma década para trás. Eu não quero fechar os olhos a isso. Mas nós precisamos de ter a justa memória do nosso passado e uma avaliação sincera do nosso presente se queremos realmente construir um melhor futuro.

Do jornalismo e da estupidez

Do jornalismo e da estupidez. Título do Público: "Igreja espanhola celebra revisão da lei do aborto, sociedade critica". O que diz a notícia? Que "milhares de católicos espanhóis participaram ontem numa missa em celebração da Sagrada Família ... deram graças pelo anteprojecto de revisão da lei do aborto ...". Que esta lei foi uma promessa eleitoral do partido que ganhou as eleições e que está a cumprir o que prometeu na eleições. E que há médicos e outros sectores que contestam a proposta de lei. Independentemente dos méritos ou defeitos da lei, que raio de concepção de sociedade permite escrever, no título, que a Igreja celebra e a sociedade critica? Depois admiram-se que os jornais tenham cada vez menos leitores.
Com o devido agradecimento a Henrique Pereira dos Santos

Confiança

A confiança que o Evangelho me oferece é saber-me amado por Deus, confiança não como um subterfúgio mas como um antídoto verdadeiro para o medo e o pessimismo. O Evangelho vem garantir-me que Deus me ama, incondicionalmente. Quando eu começo a estabelecer uma relação de confiança, me sinto aceite e amado por Deus, então cresço e sou forte, e consigo descobrir o bem que existe à minha volta.
Vasco P. Magalhães, sj
ONDE HÁ CRISE, HÁ ESPERANÇA
Um pensamento por dia: ver em tudo o que acontece uma oportunidade de crescimento

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O furacão Bergoglio

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2013-12-30

Todos gostam do Papa Francisco. Os quadrantes mais variados são inspirados pelas palavras, pelos gestos e pelas atitudes do novo Pontífice. Nestes nove meses de pontificado sentiu-se uma lufada de ar fresco, não só na Igreja mas em todo o mundo. A novidade foi inesperada, apesar de acontecer repetidamente nos pontificados anteriores.
Muitos se lembram de 1978 e da lufada de ar fresco na Igreja e no mundo com a eleição de João Paulo II, que inspirou quadrantes muito variados. Mas esquecem que o mesmo acontecera um mês antes com João Paulo I, em 1963 com Paulo VI, em 1958 com João XXIII e com muitos outros. Apesar das comunicações lentas, até há evidentes paralelos de 2013 com a eleição de Leão XIII em 1878, Pio IX em 1846 e antecessores. É normal haver surpresa, entusiasmo, expectativa com um novo papa.
Raro é, após o fumo branco, ver-se na varanda de São Pedro uma cara conhecida. Aconteceu em 2005. O cardeal Ratzinger, além de antigo e famoso colaborador do papa Wojtyla, era autor consagrado, com vários best-sellers em seu nome. Muitos previram a eleição e assim fomos poupados à surpresa e à admiração. O assombro veio depois, quando o intelectual Bento XVI se revelou caloroso, mediático, comovente.
Precisamente por ser normal, a emoção à volta de Francisco tem elementos novos e fascinantes. É um grande homem de Deus, profundo, sensível, libertador. Neste caso, é mesmo justificada a paixão e o encanto (como nos casos anteriores). Em pouco tempo e com pequenos gestos, mas também com dois grandiosos documentos, o Papa Bergoglio soube tocar muita gente de maneiras muito variadas.
Nestes poucos meses, por inúmeras vezes, o Papa disse e fez coisas inesperadas, surpreendentes, incómodas até. Foi, mais do que lufada, furacão. Todos o notaram. A diferença está no que fizeram com isso. Todos gostam dele e o ouvem com interesse e prazer, às vezes com avidez. Mas existem duas maneiras diferentes de confrontar a sua pessoa. O consenso à sua volta sofre de um cisma fundamental, ainda oculto.
Existem aqueles que o seguem como Papa e os que o usam como Papa; os que aprendem com ele e os que concordam com ele; os que aceitam as suas palavras como aviso e os que as vêem como argumento. As ovelhas do Papa tomaram-no como dirigido a si mesmas e fizeram exame de consciência, propósito de emenda, penitência reparadora. Mas muitos consideraram os mesmos elementos apenas como apontados a outros. Esses só o usaram como argumento de discussão, confirmação de juízos, arma de arremesso. Esperam de Francisco não o anúncio do Reino e a divulgação da Palavra, mas a realização de agendas particulares e modelos pessoais. Não o querem como pai e mestre, mas como agente e gestor.
Deste modo, o Papa, como o seu Senhor, mas também como o seu fundador Inácio e o patrono de Assis, é "sinal de contradição", diante de quem "hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações" (cf. Lc 2, 34-35).
Boa parte da discrepância advém de uma má compreensão da função de Sumo Pontífice. Muitos, mesmo inteligentes e democratas, vêem o Papa como dono da Igreja de Cristo. Alguns que defendem a colegialidade eclesial querem agora nele poder central absoluto. Mas o sucessor de Pedro não manda, pastoreia. É o "servo dos servos de Deus". Francisco ama intensamente a sua Igreja e não a quer desmantelar ou desfigurar, como alguns apoiantes momentâneos pretendem. Desta incompreensão sairá, como em praticamente todos os pontificados anteriores, que o fascínio inicial se venha a transformar em críticas, zangas e perseguições dos que apoiaram o novo Papa sem ser realmente suas ovelhas.
O maior equívoco está em achar a Igreja obsoleta, exigindo actualização para sobreviver. Esquecem que já cá andava muito antes de surgirem as instituições antigas e permanecerá depois de desaparecerem as ideias agora inovadoras. A Igreja sempre precisa de reforma, por estar abaixo do ideal transcendente. Mas essa reforma é feita com os olhos no Céu, não nas conveniências do momento. A sua missão é converter o mundo, não ser aceite por ele.

Bom Ano

João Carlos Espada 30/12/2013

Como escreveu Tocqueville, "aqueles que pedem à liberdade algo mais do que a própria liberdade são feitos para servir."

Com esta crónica de fim de ano, terminam as minhas Cartas de Varsóvia (mas não a minha colaboração semanal com o Público). O meu contrato de três anos no Colégio da Europa, em Varsóvia, chega agora ao fim. Por motivos vários, decidi não concorrer à renovação do contrato. Mas aprendi, nestes três anos entre Lisboa e Varsóvia, várias coisas que podem ser úteis para os votos de Bom Ano de 2014.
A primeira delas, paradoxalmente, foi o valor da aliança euro-atlântica. À primeira vista, a Polónia dificilmente poderia estar mais longe do Atlântico. Mas, dificilmente na Europa continental pode ser encontrado um povo mais amigo da América talvez com excepção dos suíços e dos portugueses.
Por sólidas razões, os polacos olham a aliança atlântica como chave da sua independência nacional e da segurança das suas fronteiras. Woodrow Wilson pode ser um nome quase esquecido hoje entre os europeus. Mas não na Polónia, onde o Presidente democrata norte-americano é recordado como o defensor da independência polaca, reconquistada em 1918, após a I Guerra. O mesmo acontece com o Presidente republicano Ronald Reagan, o líder político ocidental que mais veementemente apoiou Lech Walesa e o Solidarnosc, na década de 1980.
No próximo ano, estes temas voltarão a estar em destaque. Passarão cem anos sobre o início da I Guerra Mundial e vinte cinco sobre a queda do Muro de Berlim. Em ambos os casos, a aliança euro-americana foi crucial para a Polónia e para a Europa. Esta aliança já tinha sido decisiva para derrotar o nazismo, em 1945 embora a martirizada Polónia tivesse de esperar até1989 para poder festejar a vitória efectiva da II Guerra Mundial. Por todos estes motivos, e mais poderiam ser citados, o meu primeiro voto para 2014 é que a aliança euro-americana não seja esquecida no ano que vem.
Outra efeméride do próximo ano serão os quarenta anos do 25 de Abril e da democracia portuguesa. Em bom rigor, serão também os quarenta anos do início da chamada Terceira Vaga de Democratização mundial que Portugal honrosamente terá desencadeado em 1974, e cuja segunda fase, a implosão do comunismo soviético, coube à Polónia iniciar na década de 1980.
Muito haverá certamente a dizer sobre estas efemérides. Entre nós, talvez seja particularmente oportuno recordar as vantagens da democracia, de que temos usufruído nestes últimos quarenta anos. Essas vantagens serão disputadas por algumas opiniões peculiares que nos últimos tempos apregoam a alegada destruição da nossa democracia pela actual maioria parlamentar. Esses disparates devem ser firmemente refutados na praça pública  pelos defensores do 25 de Abril.
A democracia é o regime da regra, como costumava insistir Mário Soares, um dos pais fundadores da nossa democracia. Isso significa que, ao contrário do salazarismo ou do cunhalismo, a democracia não se define por um modelo final de sociedade a atingir. Define-se por um conjunto de regras que garantem a liberdade concorrencial entre propostas políticas rivais.
Essas regras têm sido escrupulosamente cumpridas entre nós sobretudo após o 25 de Novembro de 1975 e da revisão constitucional que pôs cobro ao não eleito Conselho da Revolução. Podemos gostar mais ou menos deste Governo, bem como de outro qualquer. Mas o que não podemos é confundir a democracia com as nossas preferências políticas particulares.
Será relevante recordar isto também na União Europeia, por ocasião das próximas eleições parlamentares, em Maio de 2014. Já se ouvem por aí uns auto-nomeados guardiões do europeísmo dizendo que a União estará em risco se os partidos eurocépticos tiverem a expressiva votação que as sondagens anunciam  em França, na Holanda, no Reino Unido e por aí diante.
Não tenho qualquer simpatia por esses partidos, por alguns até forte antipatia, como o da senhora Le Pen, em França. Mas é uma ilusão autoritária identificar o projecto europeu com um propósito único particular, neste caso o da sempre crescente integração supranacional cujos interpretes únicos teriam sido designados, mas não eleitos, vá-se lá saber por quem. Vozes favoráveis à devolução de poderes aos parlamentos nacionais devem poder exprimir livremente os anseios dos seus eleitores. E medidas nesse sentido devem ser implementadas, se for essa a vontade transitória dos eleitorados.
Que a liberdade e a democracia sejam devidamente apreciadas, e não confundidas com propósitos políticos particulares este é o meu segundo voto para 2014. Como escreveu Tocqueville, "aqueles que pedem à liberdade algo mais do que a própria liberdade são feitos para servir. (...) Aquilo que, em todos os tempos, ancorou a liberdade no coração de alguns homens foi o seu encanto próprio, independentemente dos seus benefícios: foi o prazer de poder falar, agir, respirar sem constrangimento, sob o único governo de Deus e das leis".
Bom Ano.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Dia da Sagrada Família

Deus quis honrar os pais nos filhos e estabeleceu sobre eles a autoridade da mãe.
O que honra o pai alcança o perdão dos pecados,
e quem honra a sua mãe é semelhante ao que acumula tesouros.
Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos, e será ouvido no dia da sua oração.
Quem glorifica o pai gozará de longa vida e quem obedece ao Senhor consolará a sua mãe.
Filho, ampara o teu pai na velhice, não o desgostes durante a sua vida;
mesmo se ele vier a perder a razão, sê indulgente, não o desprezes, tu que estás na plenitude das tuas forças.
A caridade que exerceres com o teu pai não será esquecida, e ser-te-á considerada, em reparação de teus pecados.

Livro de Eclesiástico 3,2-6.12-14.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O Natal português

Inês Teotónio Pereira
ionline 28 Dez 2013

"A consoada não é nada! As pessoas inventaram a consoada e já não vão à missa do galo porque têm de jantar, porque vão comer! Isto não faz sentido, é muito triste?"

No domingo passado fui a uma missa celebrada pelo mítico padre Dâmaso. Era o domingo antes do Natal e o padre holandês estava visivelmente desanimado com a época natalícia e com a forma como as suas ovelhas a viviam. E como já não tem idade, nem feitio, nem paciência para dizer as coisas que pensa com suavidade, foi, digamos, acutilante. Começou o padre Dâmaso por dizer que o Natal não é uma festa de família: "Se quiserem fazer festas de família têm o ano inteiro para as fazer, o Natal é a celebração do nascimento de Jesus. Não é uma festa de família." As famílias presentes agitaram-se. Dizia o padre Dâmaso que durante a Primeira República - marcada pelo anticlericalismo, a perseguição religiosa e o domínio da maçonaria - tudo se fez para transformar o significado do Natal esvaziando-o da sua dimensão espiritual e religiosa e substituindo-a pela celebração da família. Jesus passou então a ter um papel secundário e a família ocupou o lugar do presépio. Passaram-se décadas e a família mantém o lugar cimeiro nesta época e Jesus passou a figurante, na melhor das hipóteses.
Bastante irritado com o estado de alma dos católicos representados naquela pequena assembleia, o padre Dâmaso continuou: "E a consoada? A consoada não é nada! As pessoas inventaram a consoada, o jantar na véspera de Natal, e já não vão à missa do galo porque têm de jantar, porque vão comer! Isto não faz sentido, é muito triste...", queixava-se o sacerdote holandês. "Onde está Jesus no Natal português?"
Nem de propósito, no dia seguinte, ouvi a seguinte expressão numa televisão: "O Natal também é celebrado segundo a tradição cristã." Ou seja, para quem não sabe, os cristãos também celebram o Natal. Imaginem só que existe uma coisa chamada missa do galo e, segundo eles, Jesus nasceu no Natal. O Natal afinal não é só família, presentes, peru, bacalhau, farófias e a "Música no Coração", vejam só. Parem as rotativas: há uma dimensão religiosa da coisa! Parece que há um grupo de pessoas dentro do grupo das pessoas católicas que acham que o Natal é a data de nascimento de Jesus, que nasceu e se fez Homem para nos dar a certeza de que Deus vive no meio de nós. E essa malta, que acredita nestas coisas, até vai à missa a meio da noite. Enfim, foleirices.
Mas o Natal português é moderno, não é foleiro. O nosso Natal é bastante terreno, palpável: é o dia em que nos empanturramos de doces, recebemos presentes, estamos com a família e fazemos a digestão esparralhados num sofá a ver a "Música no Coração" pela centésima vez. Jesus não tem nada a ver com isto. Mesmo para os católicos, cada ano que passa Jesus tem menos a ver com este ritual. O Pai Natal, as crianças e os centros comerciais tomaram conta da festa. No nosso Natal a religião é uma coisa estranha.
Diz o Papa Francisco que a Igreja precisa de ser um hospital de campanha. Ou seja, que é preciso tratar das feridas urgentes, que é preciso ir ao encontro das pessoas, principalmente dos próprios católicos, e que não basta ter as portas abertas. O nosso Natal é a prova viva dessa urgência. Ou o que sobrará para a história do Natal do Padre Dâmaso será apenas o anúncio do azeite Galo.

Famílias portuguesas são a personalidade do ano

Pedro Bidarra
Publicitário, psicossociólogo
In Dinheiro Vivo 28.12.13


Não sei a quem dar os créditos deste título. Disse-me um amigo que o ouviu num daqueles fóruns radiofónicos onde é costume ouvir zangados lugares comuns sobre política e os políticos. Dizia o participante que a mulher tinha conseguido fazer milagres com o pouco que tinha e, por isso, a vida da sua família tinha sido melhor do que seria de esperar.
O ouvinte em questão talvez não se tenha dado conta, mas está casado com uma sinédoque: a personalidade do ano é a mulher dele e todas as outras. Bem como todos os maridos e os avôs e as avós e os netos, empregados e desempregados, enfim, toda a família. É a Família, em todas as suas formas, que é a personalidade do ano.
Talvez a escolha esteja influenciada pelo sentimentalismo normal nesta época do ano em que o Sol se põe cedo e a noite é embalada pelos acordes do White Christmas do Irving Berlin e do Adeste Fideles – que diz-se ter sido composto por D. João IV e cantado em Londres, na embaixada portuguesa, até ter passado para o repertório anglo-saxónico com o título "Come all you faithfull". Pode mesmo ser pieguice. Mas eu vejo a família como a personalidade do ano neste triste lugar condenado a empobrecer como expiação do pecado de querer viver melhor, de ter uma vida mais feliz, próspera e sincronizada com a modernidade do mundo. Mas não é só pieguice e sentimento: são números também e, por isso, a razão.
Muitas vezes nesta coluna, tenho citado as conclusões dos estudos do "Consumer Lab", um grupo de gente sábia que olha e estuda os cidadãos consumidores de modo a entender os processos de ajustamento a que deitam mão para fazer face à barbaridade socioeconómica que sobre todos nós se abateu. Os resultados são um espanto e contradizem, muitas vezes, o discurso jornalístico / político / sindical predominante nos media. O contexto bárbaro e injusto é o noticiado, mas o esforço e o engenho das famílias para fazer uma ginástica racional e criativa de modo a manter um nível de vida digno, sem desistir da ideia de prosseguir a felicidade, é notável. (...)
O mais importante [de todos os resultados do estudo] é que o processo de ajustamento – um eufemismo para processo de empobrecimento – se fez voltando a reunir a família. A crise uniu pais, filhos, avós e netos. Saberes antigos, arrumados na gaveta da irrelevância, voltaram a ser trazidos para o quotidiano pelos mais velhos para ajudar os mais novos. Assim como a vida em rede que a tecnologia possibilita, uma especialidade dos mais novos, foi posta ao serviço de toda a família.
Nas últimas décadas, cada geração tentou encontrar um caminho novo e diferente, muitas vezes por oposição aos caminhos percorridos pelas gerações mais velhas. Hoje, e aqui, assiste-se a uma cooperação intergeracional que todos convoca para resolver os problemas. As famílias têm sido o grande exemplo do que deve ser feito: cooperar, ajudar, colaborar e, sobretudo, inventar novos (não velhos) caminhos. Se não fosse o saber das famílias, a sua coesão e o seu engenho para sobreviver sem nunca desistir de tentar a felicidade, o país há muito que estava a ferro e fogo.

Foi a Família que aguentou esta barbaridade. E é ela que a vai resolver.

Da banalização do mal ou um estranho síndrome de estocolmo

João Távora,

Estou cansado que me chamem, mesmo em entrelinhas, bárbaro e retrógrado, numa indisfarçada campanha maniqueísta da nomenklatura dominante. É nesse sentido, com alguma impaciência que encontro no Expresso de hoje a notícia assinada por um tal Angel Luís de La Calle sobre o projecto da nova lei do aborto colocado em discussão pelo governo espanhol, que pleno de preconceitos, pré-juízos e moralismo se revela um autêntico artigo de opinião, onde numa selecção de recortes da imprensa internacional favorável à livre interrupção da gravidez, assevera por exemplo esta pérola de propaganda sectária "vai ser a única promessa cumprida do programa de governo com que Mariano Rajoy arrebatou o poder aos socialistas nas eleições de 2011". Um bitaite que sem qualquer sustentação ou contraditório vale o que vale, isto é, nada. 
Tenho a confessar que admiro a coragem da direita espanhola na assunção dos princípios que defende  e com os quais se apresenta a eleições. Estou convencido que com alguns ajustamentos a nova lei poderá ser equilibrada e justa. É que eu, como milhões de portugueses e espanhóis tenho muitas dúvidas que os direitos de uma mulher se sobreponham à de um outro Ser, em formação é certo, mas já em si único e irrepetível. Como milhões de europeus, tenho profundas dúvidas de que o aborto como recurso anticoncepcional sancionado pela Lei constitua qualquer coisa minimamente parecida com "progresso civilizacional".
Mas em tudo se vai lendo na imprensa nacional a respeito desta inédita iniciativa legislativa do PP espanhol, o que mais me espanta é a total ausência das vozes contra a corrente, que parecem ter adormecido algures em conformadas vigílias de terços e rosários. Isso é definitivamente pouco: temos muito que aprender com nuestros hermanos.

Novo ano ou ano novo?

Gonçalo Portocarrero de Almada
ionline 28 Dez 2013 - 05:00

É da praxe que, ao finalizar Dezembro, se façam contas ao ano transacto. Jornais, rádios e televisões fazem as suas selecções dos eventos e das personagens que, no seu entender, mais marcaram os últimos doze meses. Essas sínteses, sobretudo quando incidem sobre os factos mais dramáticos, ressumam um travo amargo sobre o desarranjo do mundo e a nossa impotência para o consertar.
Também no âmbito das nações e das famílias se procura fazer um apanhado das mais marcantes datas do nosso passado colectivo recente, nacional e familiar. Estes factos, embora mais prosaicos, como nos são mais próximos, são também os que mais nos tocam, porque acontecidos na nossa terra ou família.
É verdade que a doença da vizinha nos afecta mais do que uma tragédia asiática, mas é natural que, não podendo prestar a todos a mesma atenção, nos centremos naqueles que, por estarem mais perto, são o nosso próximo mais próximo. Só por seu intermédio se pode chegar, afinal, ao todo universal. Um amor a todos, que o não seja a alguém, não é caridade, mas uma vã utopia filantrópica.
A nível individual, este tempo de final de ano também convida a uma mais profunda reflexão. Nada se altera, contudo, porque a terminação do ano se modifica: só há verdadeira mudança se houver uma autêntica conversão pessoal. Acreditar que o novo ano é mesmo um ano novo é mera superstição: só a realidade de um novo coração pode renovar a vida e o mundo.
Ninguém pode, sozinho, mudar todo o mundo, mas há algo que todos podemos e devemos mudar: a nossa vida. Se cada um der, agora, esse salto de qualidade, teremos em 2014 famílias mais felizes, um país renovado e um mundo melhor!

Todos erramos

José Luís Nunes Martins
ionline 28 Dez 2013

Apontamos quase sempre o dedo a quem erra... Condenamos os outros com enorme facilidade. Compreendemo-los pouco, perdoamo-los ainda menos

Apontamos quase sempre o dedo a quem erra... Condenamos os outros com enorme facilidade. Compreendemo-los pouco, perdoamo-los ainda menos. Mas, será que atirar pedras é o mais justo, eficaz e melhor?
Temos uma necessidade quase primária de julgar o comportamento alheio, de o analisar e avaliar ao mais ínfimo detalhe, sempre de um ponto de vista superior, como se o sentido da nossa existência, a nossa missão, passasse por sentenciar todos quantos cruzam a sua vida com a nossa... condenando-os... na firme convicção de que assim estamos a ajudar... a melhorar.
Comete erro em cima de erro quem se dedica a julgar os erros dos outros....
Julgamos de forma absoluta, na maior parte das vezes, generalizando um gesto ou dois, achando que cada pequena ação revela tudo quanto há a saber sobre determinada pessoa... mais, achamos que cada homem ou é bom ou é mau... como se não fossemos todos... de carne e osso... de luz e sombras.
Já a nós não nos julgamos nem nos deixamos julgar. Consideramos que, no caso específico da nossa vida, são tantos os factores que têm de se levar em conta (quase todos atenuantes) que se torna impossível qualquer tipo de veredicto... optando, assim, por uma espécie de arquivamento dos processos dada a complexidade das questões. Reconhecemo-nos incapazes de ponderar tudo... mas se em nós não conseguimos avaliar o erro, por que razão estamos tão à vontade quando se trata do dos outros?
É curioso, e uma prova da inteligência comum, que partindo da verdade universal de que todos erramos, nos sirva mais isso para nos desculparmos a nós mesmos do que aos outros...  afinal, nós não somos superiores àqueles que passamos a vida a condenar. Por isso, devíamos ser capazes de os desculpar tanto quanto o fazemos a nós próprios. Mais, pode acontecer que alguém tropece, depois de nós, numa pedra que nós não atirámos para fora do caminho...
Quem erra, faz-se vagabundo. Vai contra a sua vontade mais profunda, afasta-se da verdade. Erramos de cada vez que nos deixamos levar pela tentação das paixões momentâneas, pelos juízos precipitados e levianos... sempre que nos deixamos seduzir pelas falsas e brilhantes luzes das aparências... ao errar afastamo-nos de nós mesmos, perdemo-nos... em vazios.
Acreditamos que as nossas sentenças revelam, através do nosso sempre muito afiado sentido de justiça, a superioridade moral de uma vida acima do comum... quando afinal tal consideração apenas nos afasta, ainda mais, da verdade de nós mesmos.
Numa vida acabada é sempre mais fácil dar sentido ao erro... Mas, no dia-a-dia desta nossa existência a fazer-se, quem comete o maior erro: o que não tenta para não errar ou o que erra tentando acertar?
Precisaremos sempre de quem nos anima a corrigirmo-nos, não de quem nos reprova e só sabe magoar...
Não somos seres perfeitos a quem o erro degrada, mas antes seres imperfeitos a quem o erro pode ensinar.
Errando, posso ter noção do que sou, de onde estou e do caminho que devo fazer.
Na desorientação geral do nosso tempo, há algo que se pode (e deve) fazer: ir ao encontro de quem falha e aceitá-lo como igual. Construindo um caminho conjunto, longe dos julgamentos... para mais perto da perfeição.
O mais justo, eficaz e melhor será mesmo compreender e perdoar, pois quem erra, engana-se. A si mesmo. E isso, na maior parte dos casos, já é pena suficiente.
Nunca faltará quem nos julgue... mas muito mais valioso será quem, com humildade, nos aceite... quem nos ame, apesar de tudo.

28 de Dezembro - Santos Inocentes

UMA HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A felicidade eterna de uma manhã de Natal

Saragoça da Matta, ionline 2013-12-27
Todos os meninos deviam poder ter, sempre, Natais felizes: nunca se sabe qual deles viverá para sempre no seu coração
O menino de três ou quatro anos despertou cedo. Pouco devia passar das sete da manhã. Era uma manhã clara, com ar cálido e cheiro a rabanadas... ou seria bolo de chocolate? O cheiro é difícil de definir, quando os doces de confecção se misturam com o cheiro da terra de áfrica, dos temperos e especiarias que inundam o ar, das gentes de outro hemisfério virado a Oriente.
Ansioso atirou-se da cama bamboleante. Sentia o pijama desajeitado de uma noite de lençóis. As calças meio descaídas, o casaquinho desajeitado. Não via grande coisa. A névoa fazia-o franzir a testa e esfregava os olhos. Sem passar água pela face, pouco conseguia ver.
Não foi grande obstáculo. Saiu do quarto, virou à esquerda e foi tropegando até à sala. A meio do pequeno corredor já estava encandeado pela luz que entrava pelas janelas da sala, que davam para uma larga varanda. Ainda a toldar-lhe mais a visão da sala estava uma estante. Apesar de toda aberta de um lado ao outro, estava carregada de decorações. Seria negra essa estante? Nem lhe importou, estava lá desde que se lembrava.
A meio dos passos entre o quarto e a sala lá estava, à direita, a porta da cozinha. Pressentiu haver alguém por lá em azáfama, entre tachos e panelas. Pouco ligou. O objectivo era a sala.
Aqueles poucos metros, entre o andar inseguro e a remela que tinha sobrado da noite de sono, não terminavam. Finalmente chegou. Ultrapassado o obstáculo visual da estante lá estava ela. A árvore de Natal profusamente enfeitada como na véspera. Mas algo havia de novo. Debaixo da árvore, a toda a volta, havia presentes. Imensos presentes.
Alguém, já não recorda se Pai ou Mãe, içaram-no de repente, inesperadamente, a um colo. Havia risos. Só aí se apercebeu do ruído envolvente. Pousado no chão põem-lhe uma prenda nas mãos. Embrulhada. Tinha um laço de cor hoje indizível. Seria de vermelho banal? Não. Era, talvez, arroxeado. Mas havia tanta cor. As fitas na árvore de Natal, os laços dos outros presentes. Como atentar?
As pequenas mãos do miúdo tentavam despedaçar o papel. Os olhos teimavam em continuar enevoados. Finalmente, com ajuda crescida, o presente revelou-se. E depois outro. E mais outro. Eram vários. Quatro ou cinco? Um seria o carro de bombeiros vermelho e azul? Eram, sim, os suficientes para não lhe ficarem na memória futura de adulto.
Mas tudo o mais lhe ficou gravado para não esquecer. A luz difusa. O olhar arremelgado. Os passos instáveis. O cheiro a doces natalícios misturado com o cheiro da terra e com o cheiro da casa paterna - há lá outro sítio com odor tão marcante!
Tantos anos volvidos, é ainda a mais vívida imagem de um Natal infantil que aquele menino tem: rodeado pelos Pais, primos, tios, amigos. Muitos outros foram vividos até à idade da consciência. Mas nenhuma manhã de Natal ficou como aquela tão impressa na memória.
Não sabe porque foi assim. Não sabe porque é assim. Mas foi um momento de felicidade infantil única e intensa, pura e límpida. Por isso todos os meninos deviam poder ter, sempre, Natais felizes: nunca se sabe qual deles viverá para sempre no seu coração.

Como o clima tem a ver com a nossa vida

Como o clima tem a ver com a nossa vida, explicado pelo climatologista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Palavra de cidadão de Carlos da Camara
Visão, Quinta, 12 de Dezembro de 2013

 "O clima é o que fica da meteorologia depois de esquecermos tudo o que experimentámos do tempo que fez nos dias que passaram. Por isso, o clima apresenta semelhanças com a cultura, na medida em que esta também é feita do que sobra de aprendizagens esquecidas.
Tal como a cultura, o clima que nos rodeia não se vê, mas sentimos os seus efeitos.
Na vegetação natural que aprendeu a conviver com o fogo, elemento de uma paisagem condicionada pelas sequências de invernos pautados por episódios de chuva diluviana ou por secas intermináveis, a que se seguem estios pontuados por ondas de calor.
Na disposição das povoações antigas, deixando desimpedidas as linhas de água e dispondo os arruamentos consoante os ventos dominantes. Nos conventos erigidos em zonas beneficiadas pelos microclimas e nos moinhos alcandorados nos cumes mais ventosos.
Na arquitetura rural, reflexo da sabedoria acumulada que soube colocar telhados inclinados e paredes grossas de granito nos casarios do norte agreste e chuvoso, preferindo os terraços, as cisternas e as paredes brancas nas habitações do Algarve ensolarado.
Sendo clima e cultura o que são, uma sua convivência sã com o homem pressupõe uma memória coletiva e um entendimento do futuro em que o dia de amanhã ultrapasse o prazo de vinte e quatro horas, o próximo ano económico ou o fim da legislatura. Conceitos estranhos para a sociedade de hoje, autista, amnésica e egocêntrica, onde sucesso é sinónimo de lucro imediato.
O fogo que devora as nossas florestas, as inundações que assolam as nossas cidades e a ligeireza com que se tomam decisões determinantes para a vida das gerações futuras são apenas três sinais do presente divórcio entre homem, natureza e história.
Cada vez mais se impõe um novo tempo das catedrais. Onde o homem possa viver em comunhão com o espaço e o tempo. Na alegria, como Deus manda.
Por isso, hoje mais do que nunca, o clima e a cultura são uma questão fulcral de cidadania. Porque, no fundo, temos e teremos sempre o clima, a cultura e, sobretudo, a qualidade de Vida que soubermos merecer."

27 de Dezembro - S. João Evangelista

Caríssimos: O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida, – de facto, a Vida manifestou-se; nós vimo-la, dela damos testemunho e anunciamo-vos a Vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós – o que nós vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós estejais em comunhão connosco. E nós estamos em comunhão com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo.
Escrevemo-vos isto para que a nossa alegria seja completa.

1ª carta de S. João 1, 1-4

O Papa Francisco almoça com Bento XVI

2013-12-27 L'Osservatore Romano
O Papa Francisco e Bento XVI almoçaram juntos hoje, sexta-feira 27 de Dezembro, em Santa Marta. O convite tinha sido feito pelo Papa Francisco ao seu Predecessor quando o visitou para o cumprimentar por ocasião das festas do Natal na tarde de segunda-feira 23 de Dezembro. 
No almoço de hoje participaram também os respectivos secretários, o secretário para as Relações com os Estados, arcebispo Dominique Mamberti, e mons. Bryan Wells, assessor para os Assuntos gerais da Secretaria de Estado.
O encontro de segunda-feira passada (na foto) durou cerca de quarenta e cinco minutos. Bento XVI recebeu o Papa Francisco à entrada da sua residência. Depois de uma breve oração juntos na Capela, teve lugar o encontro privado. Depois o Papa Francisco, que estava acompanhado pelos seus secretários, saudou também os outros membros da família de Bento XVI.

Natal no hospital

No Hospital, o Menino de caco subsiste, subsiste sempre, como se indiferente à entrada gloriosa da História pelos umbrais do "admirável mundo novo", que no Hospital, precisamente no Hospital, paradoxalmente no Hospital, encontra uma das mais poderosas expressões do seu poder. Mas aqui, aqui o Menino de caco permanece e permanecerá sempre em vigor porque a imagem do Menino-Deus, é a imagem de um menino-Homem e o menino-Homem é de quebrar. E o Hospital é onde os meninos-Homem quebradiços vêm encontrar-se com a translúcida consciência da fragilidade, a consciência de si frágeis, passageiros (adjectivo) passageiros (substantivo) de um cosmos argiloso amassado de pó e lágrimas e luar. (Menino de Caco Pe. José Nuno Silva)

Coração por comprar

PÚBLICO 27/12/2013 - 00:48
A confiança é um tesouro. E os tesouros roubados deixam de sê-los.
Eis uma história que aconteceu. Aconteceu numa pequena loja japonesa em Paris. A dona – uma senhora gentil a quem aconteceu a história que nos contou – deu pela falta de dois pacotes de chá Gyokuro, caríssimo, logo no dia em que chegaram.
Um mês depois apareceu na loja um cliente antigo, dono de um restaurante, a quem tinha sido dado o privilégio de levar o que precisava e pagar só três meses depois, depois de ter recebido as contas das pessoas que lá iam almoçar e jantar.
Tratava-se de um empréstimo generoso: só pagava o que vendia depois de ter vendido, por quatro vezes o custo, aquilo que tinha comprado.
O dono do restaurante lucrou tanto com o roubo como com o crédito. Sendo um indivíduo ladrão mas honrado, voltou à loja para confessar que tinha roubado o chá e com o dinheiro, o valor exacto do que tinha roubado.
A dona da loja começou a chorar. Nunca tinha pensado que aquela pessoa, tão amiga (conhecia e simpatizava com todas as dificuldades da família dela), era capaz de roubá-la.
Recusou o pagamento. E disse-lhe: "O senhor roubou a minha alma e a minha confiança em si. E isso não pode ser pago em dinheiro. Eu perdi um cliente de quem gostava. Não há dinheiro que pague o que eu perdi".
O marido e sócio da senhora, quando soube da recusa dela, compreendeu-a mas disse: "Tu és muito dura".
Mas não foi dura: foi justa. E foi leal à amizade que o cliente quebrou. A confiança é um tesouro. E os tesouros roubados deixam de sê-los.

A morte do peru

PÚBLICO 27/12/2013 - 00:10
No Natal o meu estado de espírito costumava ser como o do peru. Ia passar tormentos por causa de um ritual que não percebia e que, aliás, duvido que a maioria dos católicos perceba. Nem sempre foi assim. Quando era criança, e até adolescente, gostava do Natal. Por causa dos presentes, com certeza. Mas também – não é preciso muita subtileza sociológica – por causa da família. Nessa altura, ainda havia a família "extensa" do século XIX. Do lado da minha mãe (Pulido Valente), havia cinco irmãos (contando com ela) e 13 primos. Do lado do meu pai (Correia Guedes) sete irmãos (contando com ele) e 17 primos. Por tradição, o almoço de 25 era em casa dos Pulidos, porque o meu avô fazia anos (chegou aos 78); e o jantar dos Correia Guedes, menos formal, em casa da minha avó Elvira. O Natal servia para juntar esta gente toda, que durante o ano pouco se via.
Depois da morte do meu avô Pulido e da minha avó Elvira, este costume acabou pouco a pouco por se desfazer. Substituída por um ou outro telefonema ou uma outra visita, a grande ocasião de Natal, invariavelmente precedida por um enorme frenesim e obscuros mistérios, ficou reduzida a um encontro familiar, trivial e triste, em que a minha irmã (que vivia em S. Paulo) nunca estava. A maior parte dos meus tios morreu, uns tantos primos resolveram emigrar ou sair de Lisboa e, principalmente, as criadas desapareceram. Agora, quem se atreveria a aguentar sozinho 40 ou 50 pessoas, nem sempre sóbrias, que falavam alto, discutiam e se queriam exibir ou divertir? Excepto nas lojas, e mesmo nessas melancolicamente, o Natal já não existe.
Agora, as câmaras fornecem "iluminações", sem espécie de sentido, e a televisão um "evento" qualquer. A excitação de maneira geral é pública. Onde param as 321 tias, que nos davam 378 presentes, com uma etiqueta, depois de angustiosas ruminações sobre o valor real e sentimental, que cada um merecia? Onde param essas cintilantes mesas com o peru, o champanhe e a lampreia de ovos? Onde param os conselhos sobre "o sexo" e "a mulher", que os nossos tios insistiam em nos propinar, para aprimoramento da nossa educação? Em 2013, o dr. Costa em Lisboa e o dr. Moreira no Porto iluminam, mas não esclarecem. Neste Natal, jantei com a minha mulher e comecei a ler um livro num silêncio caloroso e apaziguante. Telefonaram amigos; telefonei a amigos. Foi um Natal muito feliz.

Esmiuçando as razões do Tribunal Constitucional

PÚBLICO 27/12/2013 - 00:19
Os juízes não pediram uma reforma melhor em vez de uma reforma imperfeita – pediram o impossível para recusarem o necessário.
Quando li o comunicado do Tribunal Constitucional e ouvi o seu presidente, fiquei sem vontade de ler as 80 páginas do acórdão. Tudo me pareceu demasiado semelhante a um filme que já vira – a única diferença é que agora, em vez de invocarem o princípio da igualdade, os juízes invocavam o da confiança, parecendo que, mais do que preocupados com princípios, estão empenhados em manter certos privilégios relativos da administração pública.
Havia, contudo, uma novidade: a deliberação de inconstitucionalidade fora tomada por unanimidade. Explicaram-me então que isso talvez tivesse sucedido por o acórdão ser mais equilibrado do que algumas das anteriores deliberações do Palácio Ratton. Para evitarem divisões, os juízes teriam encontrado uma espécie de terreno comum que teria a virtude de abrir portas a formas alternativas de correcção das injustiças do sistema de pensões. Foi por isso com alguma esperança e uma pitada de cepticismo que fui ler a longa deliberação. A minha desilusão foi total. Custa-me dizê-lo, mas não creio que os juízes tenham pedido uma reforma melhor em vez de uma reforma imperfeita – os juízes pediram o impossível para recusarem o necessário.
 Recordemos o que estava em causa: saber se é ou não possível reduzir pensões em pagamento por razões de sustentabilidade do sistema de Segurança Social e de justiça intergeracional e intrageracional. Os argumentos são conhecidos. Antes do mais, a manutenção dos actuais níveis de pensão na CGA exige uma transferência anual de 4,5 mil milhões de euros do Orçamento do Estado, pois é esse o défice do sistema. Depois, o esforço em contribuições, em impostos e em dívida que está a ser pedido aos mais novos é desproporcional face ao que estes poderão vir a receber do sistema. Por fim, um pensionista da CGA recebe, para uma carreira contributiva comparável, 10% a 30% mais de pensão do que um pensionista do regime geral.
O que nos veio então dizer o Constitucional? Primeiro, que é possível reduzir o montante de pensões já em pagamento. Não é uma novidade, já estava em anteriores acórdãos. Depois, que para reduzir essas pensões é necessário cumprir um conjunto alargado de condições. Por fim, que preencher essas condições é impossível.
Ao contrário do que sucedeu em anteriores ocasiões, desta vez o Governo enviou para o tribunal todas as justificações possíveis. São quase 20 documentos diferentes que incluem estudos económicos, pareceres jurídicos e exemplos de jurisprudência internacional. Não era agora possível aos juízes invocarem, como invocaram em anteriores acórdãos, que a emergência económica não estava devidamente explicada. Mesmo assim isso não foi suficiente para suscitar alguma razoabilidade à maioria dos juízes (e digo maioria porque, apesar de tudo, houve dois que também votaram pela inconstitucionalidade, mas com um argumento razoável e facilmente corrigível, o da fasquia a partir da qual ocorriam os cortes, 600 euros).
O que é que os juízes se empenharam em demonstrar? Antes do mais, que a medida não visava a sustentabilidade da Caixa Geral de Aposentações, pois esta será sempre insustentável, uma vez que desde 2005 deixou de admitir novos beneficiários. Acontece, porém, que a medida tomada em 2005 visava a convergência dos dois sistemas de Segurança Social, isto é, inseriu-se no mesmo esforço de criação de um sistema de pensões único em que também se inseria o diploma chumbado. Se não tivesse sido tomada, o sistema continuaria a ser insustentável, talvez ainda mais insustentável. Por isso, o que estava em causa nunca foi a sustentabilidade pura e simples da CGA, que é inalcançável, mas a sustentabilidade das contas públicas, ou seja, saber se o esforço de solidariedade pedido ao conjunto dos contribuintes é em si mesmo sustentável face aos níveis de despesa e de défice que o Estado português tem. Este tema é totalmente ignorado no acórdão.
Há mesmo momentos de cinismo no acórdão, quando, por exemplo, este refere a hipotética transitoriedade da medida para defender que isso contrariaria a intenção de dar sustentabilidade ao sistema. É sabido porque é que o Governo incluiu essa norma de transitoriedade: para ir ao encontro do sentido de anteriores acórdãos. É também sabido que, havendo os níveis de crescimento e de défice previstos nessa cláusula, o sistema asseguraria a sua sustentabilidade sem necessidade do sacrifício das pensões em pagamento. Mesmo assim os juízes não resistiram à maldade de incluir uma referência a este ponto, numa demonstração de que, como diz o provérbio, chumbariam por ter cão e chumbariam por não ter. Isto é, chumbariam sempre.
Mas o argumento central dos juízes foi o de que esta reforma não era "sistémica", uma vez que afectava apenas uma das parcelas do sistema, a da CGA. E isso, acrescentam, geraria novas injustiças, uma vez que, mesmo reconhecendo a existência de situações mais favoráveis entre os pensionistas da função pública, há também situações injustas no regime geral da Segurança Social. Em apoio destas teses os juízes citam repetidamente um artigo académico de um professor de Coimbra, João Carlos Loureiro, que também fui ler. Acontece, porém, que os exemplos que citam são escassos e muito localizados, podendo abranger, segundo os especialistas, apenas um a dois em cada cem reformados do regime geral. Não estou a dizer que essas iniquidades não existem – estou a dizer que têm uma dimensão infinitamente mais pequena que a grande iniquidade gerada por a maioria dos reformados da função pública ter beneficiado de uma fórmula de cálculo da sua reforma muito mais favorável do que a fórmula aplicada à esmagadora maioria dos pensionistas do regime geral.
A opção dos juízes foi pois a de invocarem pequenas injustiças para contrariarem a correcção de uma injustiça maior e, ao mesmo tempo, pedirem a lei perfeita e imaculada que é materialmente impossível de concretizar. Basta pensar que algumas das pequenas injustiças que evocam só poderiam ser corrigidas caso a caso, pensionista a pensionista, num processo que não deixaria de inundar os tribunais e duraria para lá do tempo de vida de muitos dos beneficiários.
Mais: a solução "sistémica, estrutural", que o tribunal pede, ou sugere, é virtualmente impossível de alcançar numa democracia moderna, onde as decisões são sempre parcelares, pois implicam compromissos e gradualismos. Para além disso, um sistema de pensões tão complexo como nosso, onde coabitaram tantos sistemas e regras diferentes, não é unificável sem criar algum tipo de injustiça para este ou aquele grupo de beneficiários – o que significa que, no limite, nunca o tribunal aceitará qualquer mudança, se não for capaz de fazer aquilo que agora se recusou a fazer: balancear os ganhos e perdas de justiça relativa e optar não pela perfeição, mas pela moderação.
Sei que, no Governo, se estudam formas de reapresentar uma lei mais "sistémica", mas olho para esses esforços com um duplo pessimismo. Primeiro, porque não creio que seja possível encontrar soluções milagrosas em poucos dias ou semanas. Depois, e, sobretudo, porque da minha leitura do acórdão não consigo retirar – mesmo de algumas passagens mais crípticas – qualquer sinal de abertura a uma mudança, antes retiro a convicção de que a maioria dos juízes encontrará sempre argumentos para barrar qualquer iniciativa neste domínio.
O ponto central, como Vital Moreira notou num conjunto de notas que publicou no blogue Causa Nossa, não é saber se existe ou não tutela da confiança, é antes dar-lhe um valor absoluto "sem paralelo na jurisprudência constitucional comparada". E a questão nuclear, aquela que o TC se recusou a considerar de forma ponderada, é que, como também escreveu o constitucionalista e eurodeputado pelo PS, "o excesso de segurança para alguns traduz-se num défice de equidade para os demais". Ora a equidade até é mais um valor de esquerda do que a segurança, mas nem parece…

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O meu Natal

DESTAK | 17 | 12 | 2013   18.37H
José Luís Seixas

O meu Natal era o Presépio. Naquelas figuras de barro que simbolizavam os pastores e os Reis Magos identificava a Humanidade inteira, pobres e ricos, poderosos e plebeus, vivendo, irmanados, a mesma alegria, numa comunhão única de Paz e de concórdia. O meu Natal era tempo de encantamento e de deslumbre.
Hoje, o imaginário infantil reconduz o Natal ao estereótipo de um velho divertido, com uma enorme barriga e bochechas rosadas que, transportando-se num trenó puxado por renas, desenha traços de luz no escuro da noite e penetra nas casas pelas chaminés, gritando com voz gutural "ho, ho, ho". As suas réplicas, com barbas de algodão em rama e renas de esferovite, crescem aos magotes nas ruas e nos Centros Comerciais, promovendo produtos, anunciando brinquedos, aliciando ao consumo e à insatisfação permanente. Perdeu-se aquela aura de magia e mistério que seduzia e encantava.
É tão grande a diferença entre o Natal do Menino Jesus e o Natal dos Pais Natal. É a diferença entre o sentimento e o objecto, entre a afectividade e a aquisição, entre a generosidade e o interesse. É, sobretudo, a diferença entre o despojamento da verdade anunciada e a maior operação de marketing de cada ano que passa.
Eu continuo a acreditar no meu Menino Jesus. Lá porei o sapatinho (hoje já sapato) à espera do presente, confiando na generosidade daquela Criança envolta em pano-cru que me olha, sorrindo, deitado numa pobre manjedoura. Nesta última crónica em tempo de Advento, retomo o que há dez anos escrevi. Com a mesma actualidade e o mesmo sentimento. A todos, os meus votos de um Santo Natal.

Menino de Caco

Menino de Caco by papinto

26 de Dezembro - Santo Estevão

Papa Bento XVI
Angelus de 26/12/2006 (trad. © Libreria Editrice Vaticana, rev)

Do presépio à cruz
 
No dia após a solenidade do Natal, celebramos a festa de Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir. À primeira vista a proximidade […] com o nascimento do Redentor pode-nos surpreender, porque é tocante o contraste entre a paz e a alegria de Belém e o drama de Estêvão. […] Na realidade, o aparente desacordo é superado se considerarmos mais profundamente o mistério do Natal. O Menino Jesus, deitado na gruta, é o Filho único de Deus que Se fez homem. Ele salvará a humanidade morrendo na cruz. Agora vemo-Lo envolvido em panos no presépio; depois da sua crucifixão será novamente envolvido por faixas e colocado no sepulcro. Não é por acaso que a iconografia natalícia representava, por vezes, o Menino divino colocado num pequeno sarcófago, para indicar que o Redentor nasce para morrer, nasce para dar a vida em resgate por todos (Mc 10,45).
Santo Estêvão foi o primeiro que seguiu os passos de Cristo com o martírio; morreu, como o divino Mestre, perdoando e rezando pelos seus algozes (Act 7, 60). Nos primeiros quatro séculos do cristianismo, todos os santos venerados pela Igreja eram mártires. Trata-se de uma multidão inumerável, a que a liturgia chama «o cândido exército dos mártires». […] A sua morte não incutia receio nem tristeza, mas entusiasmo espiritual, que suscitava sempre novos cristãos. Para os crentes, o dia da morte, e ainda mais o dia do martírio, não é o fim de tudo, mas a «passagem» para a vida imortal, o dia do nascimento definitivo, em latim «dies natalis». Compreende-se então o vínculo que existe entre o «dies natalis» de Cristo e o «dies natalis» de Santo Estêvão. Se Jesus não tivesse nascido na terra, os homens não teriam podido nascer no Céu. Precisamente porque Cristo nasceu, nós podemos «renascer»!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O princípio

No princípio era o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus.
No princípio Ele estava em Deus.
Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência.
Nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens.
A Luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam.
Apareceu um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
Este vinha como testemunha, para dar testemunho da Luz e todos crerem por meio dele.
Ele não era a Luz, mas vinha para dar testemunho da Luz.
O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.
Ele estava no mundo e por Ele o mundo veio à existência, mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram de laços de sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus.
E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.
João deu testemunho dele ao clamar: «Este era aquele de quem eu disse: 'O que vem depois de mim passou-me à frente, porque existia antes de mim.'»
Sim, todos nós participamos da sua plenitude, recebendo graças sobre graças.
É que a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram-nos por Jesus Cristo.
A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer.

Jo 1, 1-18

E assim, mais uma vez, Jesus nascia


Litânia de Natal (de José Régio)

"A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus…»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia."

José Régio

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Por um Natal sem crises

João Miguel Tavares, Público, 24/12/2013

As coisas mais importantes que temos nas nossas vidas são imunes a ratings e a aberturas de Telejornal. Por uma noite, são tudo aquilo que conta.

Calhando-me, pela primeira vez, escrever no PÚBLICO na véspera de Natal, pensei em deixar para quinta-feira a análise a mais um chumbo do Tribunal Constitucional e compor hoje um texto optimista e esperançoso, que falasse dos aspectos positivos desta crise. Mas estou um pouco hesitante: será que se pode?
Uma das consequências lamentáveis da crise é todo o discurso que a procura superar ser torpedeado pelos vigilantes da sensibilidade alheia, que com toda a facilidade classificam como "insensível" e de "mau gosto" qualquer desvio à narrativa oficial. A saber: nada de bom sai de uma crise, que apenas extrema as desigualdades sociais, empobrece o país e lança pessoas na miséria.
Tudo isto é verdade, mas não é toda a verdade. Só que o resto da verdade, aquele resto que não cabe no habitual muro das lamentações, fica em geral condenado a um território de não-dito. Porquê? Porque é um género de argumentação demasiado exposto à caricatura: se alguém disser que a crise ajuda a desinstalar-nos, a quebrar rotinas, a alterar as nossas prioridades, a dar respostas mais criativas aos problemas, a inovar, a um sentido de urgência, a exigir mais daqueles que nos governam, rapidamente será acusado de desejar a crise, de gostar dela, de nada fazer para a combater. Afinal, se é boa, por que não promovê-la? E mesmo que se diga que não, que não é isso, que a crise não é boa, que não é bom desejá-la nem promovê-la, que simplesmente ela tem aspectos positivos, que há oportunidades que vale a pena aproveitar, que a transformação do mero choradinho em programa político não nos leva a lugar algum; mesmo que se diga tudo isto, tal argumentação será sempre um alvo fácil de anátemas, do género: "Só um perigoso neoliberal sem quaisquer sentimentos poderá vislumbrar algo de bom no sofrimento das pessoas".
Como sair deste círculo vicioso, em que o queixume é uma inutilidade e a ausência do queixume uma insensibilidade? Como conseguir a suspensão dos tiques argumentativos, dos automatismos na forma de olhar para o mundo, do prazer das trincheiras, do nosso eterno desejo de caricaturar aqueles que pensam de modo diferente de nós? A resposta para estas perguntas não é fácil, sobretudo quando aquilo que está em causa é uma situação de crise aguda. A mera tentativa de promover essa superação através do diálogo e dos consensos é, aliás, frequentemente classificada como ingenuidade – porque a política é como é, e não vale a pena tentar alterá-la. Resultado: estamos emparedados entre a impossibilidade prática de as coisas continuarem assim e a impossibilidade cínica de elas serem de outra maneira.

Mas eu prometi um texto de Natal, e o bom do Natal é ser um tempo de paragem, uma suspensão das rotinas para nos centrarmos nas nossas famílias e nas pessoas que amamos. É como se todos os focos que incidem incansavelmente sobre o intenso burburinho político e mediático de repente se apagassem por uns dias, para dar lugar às pequenas luzes da árvore de Natal. E esse movimento em direcção à intimidade é também um movimento de regresso àquilo que de mais sólido possuímos, e que sentimos como mais necessário e valioso precisamente em alturas de maior sofrimento. Eis algo que só nos pode consolar: as coisas mais importantes que temos nas nossas vidas são imunes a ratings e a aberturas de Telejornal. E, por uma noite, são tudo aquilo que conta. Um feliz Natal para todos.