sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Não temos mais filhos porque gastamos tudo no primeiro


Henrique Raposo

Expresso, Sexta feira, 28 de fevereiro de 2014

Acho muito bem que o governo tente implementar políticas de natalidade, horários flexíveis para os pais, menos impostos, menos segurança social, menos prestação de creche, etc. Mas nada pode obrigar uma sociedade livre a ter filhos quando essa sociedade escolhe não ter filhos. E a nossa baixa natalidade resulta de uma escolha, de uma cultura, a cultura do filho único que se entranhou em todos nós há muito tempo. A curva descendente da natalidade é muitíssimo anterior ao início da crise. O problema está na nossa cabeça e não no nosso bolso. Não por acaso, já repararam na economia que existe em redor de bebés, crianças e adolescentes? Ele é brinquedos empilhados numa divisão só para brinquedos, ele é roupas de marcas absurdamente caras, ele é roupas de Carnaval, roupas de Natal (para quando roupas da Páscoa?), ele é actividades extracurriculares, ele é festas temáticas, ele é festas com palhaços, ele é playstation, ipad, computador portátil e telemóvel, ele é viagens de finalistas para quem acaba quarta classe, ciclo e secundário, ele é gastar dinheiro nos três milhões de festivais de verão, ele é o carro aos 18, com turbo, papá, por favor, com turbo e bufadeira. Falta dinheiro?  
Falta dinheiro para o segundo filho? Não gozem. Quem gasta isto com o primeiro filho tem mais do que suficiente para o segundo. O problema é que nós queremos programar o miúdo logo à nascença, queremos transformar o primeiro e único filho num robô, num autómato telecomandado pelo business plan, ora essa, ele tem de ter aulas de viola, natação, explicações de matemática e inglês, e quiçá participar num workshop de filosofia kierkegaardiana ou num boot camp de gestão para empreendedores de três anos e meio, ora essa, há que preparar as skills de networking desde tenra idade, que é como quem diz since tender age. Sim, andamos a aprisionar o miúdo, o único miúdo, em planos que matam antes da concepção qualquer irmão ou irmã. Andamos a poupar dinheiro para os sucessivos luxos do primeiro em vez de gastarmos esse dinheiro no segundo e terceiro. Com dois ou três filhos já não dá para comprar roupinhas nas lojinhas catitas de Campo de Ourique? Azar, compra-se na Zippy ou nos ciganos, que também têm produtos de qualidade, não é verdade, ó dona?
A obsessão em cobrir o primeiro filho com mirra e ouro está a matar-nos, literal e metaforicamente falando. Se não anularmos esta cultura de filho único, se não arrebitarmos a curva da natalidade, o nosso futuro será negro e a falta de dinheiro para reformas até nem será o problema principal. Já pensaram no que é a banda sonora de uma cidade sem criançada? Já pensaram na atmosfera de uma sociedade onde só se ouve o arrastar das muletas? Para evitarmos este apocalipse em câmara lenta, devíamos começar por perguntar o seguinte ao petiz mimado lá de casa: olha, queres a nova playstation ou queres um irmão? Queres viajar todos os anos ou queres uma mana? Queres um ipad, um portátil e roupa de marca ou queres irmãos para brincar? Se ele responder com a segunda premissa, está tudo bem. Se ele responder com a primeira, já falhámos como pais. Mas não é nada que um berro não resolva.
PS: para a Maria, mãe de três. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Frase do dia

O sal é coisa boa; mas, se o sal ficar insosso, com que haveis de o temperar? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.
Marcos 9, 50

A caça ao Tordo


JOÃO MIGUEL TAVARES Público, 27/02/2014 - 00:55
O actual Governo tem culpa de imensa coisa. Mas não da partida de Fernando Tordo para o Brasil.        
O problema de Fernando Tordo não foi dizer que se ia embora para ganhar a vida no Brasil, tal como o problema de João Tordo não foi ter escrito uma bonita carta de despedida ao seu pai. O problema – e é este problema que está na base de tudo o que desde então tem caído em cima das suas cabeças – é ambos terem feito uma ligação directa entre a actuação do Governo e a necessidade de Fernando Tordo emigrar, como se até os insucessos de um músico, profissional liberal por definição, fossem responsabilidade de Pedro Passos Coelho. Ora, que eu saiba, o Palácio de São Bento ainda não tem qualquer poder sobre o "top 10" da Associação Fonográfica Portuguesa.
Quando Rick Rubin foi ter com Johnny Cash nos anos 90, para gravarem juntos os extraordinários discos pela American Recordings que revolucionariam o final da sua carreira, Cash era um sexagenário, tal como Fernando Tordo. E, tal como Fernando Tordo, a indústria tinha-o abandonado e os seus concertos estavam vazios. Quem gosta de música sabe o que aconteceu a Cash a partir de 1994, tal como conhece a amargura que ele sentia antes disso. Mas eu não me recordo de algum dia, em alguma entrevista, ter visto ou ouvido Cash culpar Bill Clinton ou a administração americana pela situação em que se encontrava.
Eu simpatizo bastante com Fernando Tordo e com o seu filho João. São pessoas simpáticas, afáveis, abertas, bem-dispostas e que não têm habitualmente o discurso do português desgraçadinho. Mas, neste caso, Fernando perdeu o pé quando, a 14 de Janeiro, no programa da TVI24 onde tudo isto começou, uniu a frase "não aceito esta gente, não aceito o que estão a fazer ao meu país, não votei neles e não estou para ser governado por este bando de incompetentes" à frase "passou a ser insultuoso, ao fim de 50 anos de carreira, ter de procurar trabalho desta maneira, ter de viver quase precariamente".
Ambas as frases são inteiramente legítimas, mas ao juntá-las Fernando Tordo sugeriu uma relação de causa-efeito que me parece, no mínimo, abusiva. Relação essa que acabaria por ser sublinhada pela carta de João Tordo, quando a certa altura cai num retrato neo-realista que mete reformas de "duzentos e poucos euros" e pancada aos "nossos governantes" por acabarem com "a cultura", com "a felicidade", com "a esperança" e com o seu "pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país".
Quando Fernando Tordo veio dizer, num direito de resposta ao jornal i, que não havia sido "intenção de nenhum dos intervenientes pedir a misericórdia dos Portugueses" e que ele "não passa dificuldades económicas nem nunca tencionou que isso ficasse implícito", já era tarde. A notícia dos ajustes directos no valor de mais de 200 mil euros tinha feito o seu caminho. E se essa notícia ainda pode ser considerada popularucha, a de ontem, sobre a ONG liderada pela sua mulher lhe ter pago 10 mil euros por dois espectáculos, levanta questões éticas sérias, que Fernando Tordo certamente preferiria que não tivessem vindo parar à praça pública.
É evidente que a austeridade prejudicou os músicos portugueses, pois o circuito das câmaras municipais sempre foi fundamental para o seu sustento, e a torneira fechou. Só que subsidiar a música popular é um contra-senso: ou bem que é subsidiada, ou bem que é popular. O actual Governo tem culpa de imensa coisa. Mas não da partida de Fernando Tordo para o Brasil.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Se Deus quiser

Agora, vós dizeis: «Hoje ou amanhã iremos a tal cidade, passaremos ali um ano, faremos negócios e ganharemos bom dinheiro.» 
Vós, que nem sequer sabeis o que será a vossa vida no dia de amanhã! O que é, afinal, a vossa vida? Sois fumo que aparece por um instante e logo a seguir se desfaz! 
Em vez disso, deveis dizer: «Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo.»
Carta de S. Tiago 4, 13-15

A dimensão cooperativa


Rui Tavares Público,  26/02/2014 - 00:05
Na semana passada, à hora de embarcar para um colóquio universitário sobre democracia, passo pela livraria do aeroporto e vejo um livro que me chama a atenção.
O autor é um sociólogo aparentemente bastante conhecido e o assunto do livro é a cooperação, ou melhor, a política e a sociologia da entreajuda.
Sento-me na cadeira designada, o avião levanta voo, começo a ler. O primeiro capítulo é sobre questões de cortesia e polidez. O autor descreve como as sociedades contemporâneas se tornaram em muitos casos agressivas e mesmo cruéis, com indivíduos isolados respondendo a estímulos de competição exacerbada. Aquilo que é "bullying", ou humilhação agressiva, entre crianças e adolescentes, torna-se em "bullying" político e cultural entre adultos, tão conhecido das redes sociais. A falta de cortesia de alguns indivíduos origina o fechamento dos outros e a perda é de nós todos, em incapacidade de auto-realização e de trabalho conjunto das sociedades.
Chegado ao colóquio, tenho quase imediatamente uma ilustração prática das teorias daquele autor. Um participante num seminário interrogava agressivamente a oradora, declarando um dos projetos que ela tinha apresentado "um falhanço da imaginação", desprezando com caretas as respostas que ela lá ia tentando dar, e encerrando todo o episódio com um "não vale a pena, não estamos a comunicar". A sala ficou fria e a comunicação, de facto, falhou.
O episódio não me saiu da cabeça. Na manhã seguinte, no quarto de hotel, fui ver o livro do sociólogo que escrevia sobre cortesia e cooperação. Depois fui ver o programa do seminário. Intrigado, fui ver o nome do tipo bruto e mal educado. Fui outra vez ao livro para ver a fotografia do autor.
Eram a mesma pessoa.
Que significa esta história? Que há um autor que escreve sobre cortesia e se comporta de forma bruta e mal-educada? Há muitos autores assim. E o facto de ele ter razão quando escreve o livro não lhe é retirado quando não se comporta à altura das suas teorias.
Pelo contrário, talvez lhe dê mais razão ainda. Vivemos num mundo inflamado em competição. Competição entre indivíduos, entre famílias, entre empresas, entre nações, entre blocos regionais. Justificou-se essa competição com o argumento de que ao competir todos ficaríamos melhores. Esquecemos que para ser melhores precisamos uns dos outros. Sem cooperação, sem entreajuda, a competição é apenas um sistema em que para uns poderem ganhar todos os outros têm de perder. E a sala vetusta de uma universidade não é exceção.
Há cem anos vivia-se também num regime de "sobrevivência do mais forte", uma caricatura do darwinismo proposta por alguns sociólogos como Herbert Spencer, e contrariada por um zoólogo como Piotr Kropotkine, que relembrava que as espécies que mais cooperam, como as abelhas, e os próprios humanos, eram mais resilientes e sustentáveis (que tanto Spencer como Kropotkine fossem anarquistas de ideologia torna as suas contradições ainda mais curiosas).
Uma coisa para mim é certa; para saírmos do buraco em que estamos temos de abandonar os extremos da competição e redescobrir uma cultura da cooperação. Como a história acima prova, porém, é fácil até a quem defende esta teoria esquecer-se dela.

Um mês sem eutanásia, meu menino!


José Diogo Quintela, Expresso, 2014-02-23

A Bélgica legalizou a eutanásia infantil. Vai ser possível a uma criança doente decidir que quer falecer. Julgo que a palavra de que o leitor está à procura é "inveja". Aposto que nenhum pai belga foi obrigado a ter este diálogo com a filha:
— Vai para o banho.
— Não quero! Odeio banho! Odeio-te!
Passada meia hora:
— Sai do banho.
— Não quero! Adoro banho! Odeio-te!
Na Bélgica isto não sucede. E não é só porque os belgas têm uma relação bissexta com a higiene. É também porque, aparentemente, a volubilidade infantil não é uma característica das crianças belgas. Pelos vistos, os belgas conseguem fazer com que uma criança tome decisões finais sobre assuntos de relativa importância. Tenho inveja dos pais belgas. Principalmente no Natal. Crianças que têm a capacidade de se decidirem pela eutanásia, de certeza que não fazem uma birra no chão do Toys'R'us por não conseguirem escolher um presente.
Deve ter que ver com a maturidade específica do povo belga. É espantoso que seja mais fácil explicar a uma criança de Bruxelas que talvez seja boa ideia falecer do que a uma criança de Lisboa que é essencial não mastigar de boca aberta.
 (A maturidade das crianças belgas é um facto historicamente comprovado. Tanto que, quando apareceu na Bélgica uma criança que se comportava infantilmente e se punha toda nua a fazer xixi para o ar, acharam tão divertido que lhe construíram uma estátua.)
Também não se pode excluir a hipótese de os belgas terem feito uma descoberta que os coloca na vanguarda da pedagogia. Hoje em dia é difícil punir uma criança. Se queremos proibir-lhes qualquer coisa, é complicado encontrar algo que efectivamente as chateie. Elas têm tudo: se tirarmos a Playstation, têm a Wii; se tirarmos os desenhos animados, têm o tablet; se tirarmos o telemóvel, têm iPod. Talvez a eutanásia seja a resposta, a chantagem que funciona mesmo. É que a eutanásia tem tudo para ser cobiçada: as crianças gostam de ser únicas a ter um brinquedo e é improvável haver outro menino na escola deles com eutanásia.
— Pai, quero uma eutanásia!
— Mas tu sabes o que é eutanásia?
— Não. Mas sei que mais ninguém tem. O António disse que ia ter, mas entretanto deixou de ir à escola.
Bem-aventurada a mãe belga que agora pode dizer: "Menina, ou comes a sopa toda ou não há eutanásia para ninguém!" Ou: "Eutanásia? Com essas notas?"
Agora, tirando a Bélgica e as suas bizarras crianças crescidas, isto da eutanásia não vai funcionar lá muito bem noutros países. Ou os petizes são muito jovens, susceptíveis de serem manipulados pelos elaborados truques retóricos dos adultos (i.e., a oferta de uma bolacha de chocolate); ou são mais velhos, naquela fase da adolescência em que qualquer pergunta tem como resposta um enfadado "tanto faz".
Pessoalmente, não me vejo a usar a eutanásia como ferramenta. Em termos de educação, sou um liberal-zombeteiro didáctico, o que significa que deixo a criança tomar as suas próprias decisões para, quando elas se revelam em toda a sua estupidez, escarnecer: "Vês? Eu não disse? Quem é que tinha razão?" Lamentavelmente, a eutanásia não permite essa vanglória sobre a parva opção juvenil. De que me serve deixá-la escolher mal, se depois não posso fazer pirraça?