segunda-feira, 30 de junho de 2014

ONU aprovou histórica resolução a favor da proteção da família

GENEBRA, 30 Jun. 14 / 09:52 am (ACI/EWTN Noticias).- O Conselho de Direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em seu 26° período de sessões, aprovou a resolução de "Proteção à Família", que reconhece a família como o núcleo "natural e fundamental da sociedade, e tem direito a proteção por parte da sociedade e o Estado", o que representou uma verdadeira derrota do lobby gay.
Na resolução, aprovada por 26 votos contra 14 neste 25 de junho, com seis abstenções, o Conselho de Direitos humanos da ONU reconhece também "que a família tem a responsabilidade primária de nutrir e proteger as crianças da mesma forma em que as crianças, para o desenvolvimento completo e harmonioso de sua personalidade, devem crescer em um ambiente familiar e em uma atmosfera de felicidade, amor e entendimento".
Em declarações a ACI Imprensa, o Dr. Carlos Beltramo, do Instituto Cultura e Sociedade (ICS) da Universidade da Navarra, assinalou que a resolução do organismo da ONU "foi um interessante passo adiante no reconhecimento da natureza da família em um foro tão importante das Nações Unidas".
"Esta é uma boa oportunidade para relançar a educação da pessoa dentro da família, que é o melhor caminho para o futuro da humanidade", indicou.
Beltramo assinalou que "dar formação às famílias e animar a que as famílias eduquem suas crianças é um meio fundamental para fortalecer sociedades saudáveis que permitam que todos superem até mesmo situações difíceis como as que tivemos que viver".
O organismo da ONU decidiu ainda criar um painel por motivo do 20º aniversário do Ano Internacional da Família, assim como promover referências à família de uma forma positiva para reverter uma tendência dos últimos tempos de tratar a família como o centro dos conflitos, dos problemas e das violações de direitos humanos.
Em declarações recolhidas pelo site BuzzFeed, Austin Ruse, presidente do Instituto Família Católica e Direitos humanos, com base nos Estados Unidos, assinalou que a resolução do Conselho de Direitos humanos da ONU é uma "derrota" do lobby gay.
"A derrota (do conceito) de vários tipos de família demonstra que a ONU está cansada deste tipo de debates", assinalou.
Austin Ruse assegurou que "a maioria de estados membros queria avançar para temas que preocupem o mundo e não só as elites no (hemisfério) norte".
Os países que apoiaram com seus votos a resolução de proteção da família são foram a Argélia, Benin, Botswana, Burkina Faso, China, Congo, Costa do Marfim, Etiópia, Gabão, Índia, Indonésia, Cazaquistão, Quênia, Kuwait, Maldivas, Marrocos, Namíbia, Paquistão, Filipinas, Federação Russa, Arábia Saudita, Serra Leoa, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Venezuela e Vietnã.
Os estados que se opuseram a esta histórica resolução a favor da família foram Áustria, Chile, República Tcheca, Estônia, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Japão, Montenegro, República da Coréia, Romênia, Reino Unido e Estados Unidos.
Por sua parte Argentina, Brasil, Costa Rica, México, Peru e a República da Macedônia se abstiveram, e Cuba não participou do voto.

À procura de um político que não prometa milagres

José Manuel Fernandes | Observador | 30/6/2014, 16:43
Todos os políticos nos prometem crescimento - crescimento para não haver cortes, crescimento para pagar as dívidas. E se o tempo do crescimento económico sustentado tiver acabado?
Os economistas andam um bocado desorientados. Não falo dos economistas portugueses, mas dos que, à escala global, andam há anos a tentar dar resposta a um novo mistério: porque é que as economias desenvolvidas perderam a capacidade de gerar crescimento?
Pois é. O problema da falta de crescimento não é só de quem nos tem governado. Bem sei que Portugal tem um dos piores registos desde a viragem do século – em toda a Europa desde o ano 2000 só a Itália cresceu menos do que nós –, mas a verdade é que a persistência de ausência de crescimento é um problema de quase todas as economias desenvolvidas. Entre 2000 e 2013 – período que inclui a euforia pré-crise, os anos de recessão e a lenta recuperação que hoje vivemos – o crescimento médio nos países mais ricos foi historicamente baixo. Na Europa Ocidental, entre os países de dimensão razoável, só dois – a Suécia e a Irlanda – cresceram a um ritmo superior a 2% ao ano. O que significa que praticamente nenhum cresceu o suficiente para conseguir continuar a pagar o seu estado social e, ao mesmo tempo, controlar o seu endividamento.
Não se cresce porque a procura é fraca? Porque a desigualdade é demasiado grande? Porque a China se tornou na fábrica do mundo? Porque se está a perder a capacidade inovar tecnologicamente? Porque as nossas infraestruturas estão deterioradas? Tem havido explicações para todos os gostos. Recentemente até se sugeriu, num artigo no New York Times, qua a ausência de crescimento também pode dever-se à ausência de guerras importantes, um argumento perturbador mas bem documentado.
Em Portugal, como é sabido, o debate é um bocado mais pobre e tem por vezes componentes quase mágicas: bastaria mudar os protagonistas políticos e, de repente, a riqueza brotaria do nosso esquálido país. Sabemos que não é assim. Sabemos sobretudo que não será com as políticas que nos levaram a esta longa estagnação – muita obra pública, muita regulamentação, muita protecção das grandes empresas do regime, muitos e muitos impostos – que poderemos ter no futuro aquele mínimo de crescimento que não tivemos no passado recente.
Na verdade um dos problemas desta discussão – da discussão política e também da discussão entre economistas – é que ela não assume uma realidade simples: o mundo mudou e será muito difícil repetir no futuro fórmulas que tiveram sucesso no passado.
Há um ponto em que António Costa tem insistido nos seus discursos que é lamentar o facto de Portugal ter sofrido muito com o processo de globalização, sobretudo por estar preso a uma moeda, o euro, que não lhe permitia adaptar as suas taxas de câmbio. Não deixa de ser verdade, mas como não se propõe nem a saída do euro, nem o encerramento das fronteiras – duas medidas que nos deixariam em muito pior estado –, sugere-se que com muito apoio público e com muita aposta na educação daqui por uma década seremos por fim competitivos. Até lá, acrescenta-se, deixem-nos em paz com as nossas dívidas – melhor, deixem-nos continuar a aumentar o nosso grau de endividamento.
O discurso da actual maioria é diferente mas, de alguma forma, também está preso à mesma lógica que exige doses generosas de crescimento. Para cumprir o Pacto Orçamental, por exemplo, os documentos de estratégia orçamental do governo baseiam-se sempre em projecções de crescimento sustentado que não ocorreram em nenhuma das economias desenvolvidas na última década e meia. Não é não terem ocorrido em Portugal – é não terem ocorrido nas economias que mais parecidas com a nossa.
O discurso e as propostas políticas, tanto à esquerda como à direita, têm por isso de mudar. É necessário assumir que estamos a entrar num tempo novo, de ritmos de crescimento mais baixos, logo de expectativas muito menores. E que estamos num mundo onde o que acontece na nossa economia já não depende apenas de nós e das nossas reformas, pois é um mundo globalizado e muito competitivo.
Dois séculos de crescimento económico sem precedentes, e duas gerações de progresso sem paralelo num tempo com muito menos guerras do que no passado (por volta de 1950, todas as guerras do mundo cobravam em média 20 vidas por cada 100 mil habitantes do planeta, hoje cobram apenas 0,3), criaram sociedades e costumes políticos que têm de ser repensados. Em Portugal, na Europa, nos Estados Unidos.
Os momentos de ruptura, de mudança de ciclo, são sempre muito difíceis. Basta pensarmos no seguinte: há apenas 10 anos Tony Blair apresentava como um sonho a cumprir conseguir que a esmagadora maioria dos jovens ingleses completassem uma formação superior. Um sonho bonito, que todas as almas generosas se apressam a subscrever. Mas hoje olhamos à nossa volta e o que vemos a desenvolver-se são sociedades onde, a par com empregos cada vez mais qualificados e mais exigentes, há também um número cada vez maior de pequenos empregos nos serviços, sem especial qualificação, mas também sem expectativa que um dia venham a desaparecer, eventualmente substituídos por robots. Os rapazinhos das pizzas e as rapariguinhas dos shoppings não vão desaparecer das nossas paisagens urbanas.
Este é apenas um micro-exemplo de uma realidade muito mais complexa. Em todo o mundo ocidental há uma tendência, irreversível, para aumentarem os custos do estado social ao mesmo tempo que diminui o número de contribuintes e já não há crescimento económico para ir tapando o buraco. Ao mesmo tempo, no resto do planeta, legiões de pobres estão a desafiar a velha supremacia do Ocidente, dispostos a esforçarem-se o que um trabalhador europeu hoje já não quer esforçar-se. Não havendo forma de reverter estas tendências, é a política que tem de se adaptar a estes tempos novos.
Nas próximas décadas vamos continuar a aceder a cada vez mais bens de consumo porque a inovação e a tecnologia torná-los-ão cada vez mais acessíveis. Porém, ao mesmo tempo, é bem possível que o número de euros nas nossas folhas de vencimento estagne ou mesmo diminue. É isso a austeridade dos mil anos, como um dia já escrevi? Não sei, pois dependerá muito da forma como encararmos mudanças inevitáveis que aí vêm e a correspondente forte diminuição das expectativas.
Portugal tem obrigação de criar condições para ter o crescimento que não conhece, de forma sustentada, desde a viragem do século. Há imenso para discutir sobre a forma de lá chegar – se com mais Estado, se com menos Estado, se com menos impostos, se com mais consumo público. Mas isso é muito diferente de fazer crer aos eleitores que há por aí uma riqueza escondida que, no limite, evitará todos os cortes e contornará todos os sacrifícios. Esse mundo já não existe e quem explora essa ilusão só torna o nosso futuro ainda mais difícil. Pior: alimenta desilusões futuras e possíveis revoltas, perigosas e imprevisíveis.

Amar o próximo ou a humanidade?



«Daí resulta que a doutrina católica pretende amar o próximo, aquela pessoa real, que se encontra ao lado. Os partidos reformistas e revolucionários lidam com soluções genéricas e longínquas, que resolvem os problemas.  A esquerda e a Igreja João César das Neves

A esquerda e a Igreja

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2014.06.30

A Igreja Católica e a esquerda são duas das linhas doutrinais mais importantes da actualidade. Por isso a relação entre elas é um tema muito relevante. Até porque, apesar de origens e percursos muito diferentes, ambas encontram-se muitas vezes do mesmo lado das barricadas sociais. No entanto, no campo concreto, existe uma diferença radical, mas muito esquecida: a Igreja trata dos pobres, enquanto a esquerda fala dos ricos.
O catolicismo existe há dois mil anos, pelo que comparativamente as doutrinas revolucionárias são recém-chegadas. Apesar disso conseguiram uma solidez, profundidade e preponderância que falta à generalidade das outras ideologias e orientações, com excepção da Igreja. As doutrinas de direita, por exemplo, são muito mais indefinidas. Aliás, em boa medida, direita é aquilo que a esquerda diz sê-lo.
Além disso, a relação entre esquerda e Igreja tem a particularidade curiosa de ter passado por uma evolução tão marcada e paradoxal que, só por si, constitui um caso singular na evolução ideológica. Todos sabem que as doutrinas de esquerda começaram no meio de profunda hostilidade contra a religião, em geral, e a Igreja Católica, em particular. Este traço era tão marcante que serviu muitas vezes de símbolo identificativo. Mais do que propostas sociais ou ódios de classe, ser anticlerical era o ponto de honra do revolucionário.
No entanto, nos séculos seguintes foi-se registando uma dinâmica inesperada que a pouco e pouco aproximou atitudes que tinham sido radicalmente opostas. Em muitas lutas sociais, cristãos e socialistas encontram-se do mesmo lado, pretendo reformas semelhantes. Não admira que fossem descobrindo pontos de contacto e linhas paralelas. Pouco faltou para se dizer que Jesus foi o primeiro socialista. Nas últimas décadas, em certa medida, chegou-se ao extremo oposto do ponto de partida. Muitas pessoas tomam hoje como teste supremo do catolicismo a adesão a propostas de esquerda. É comum duvidar-se até da fé cristã de alguém, invocando apenas razões de natureza política.
Existem sem dúvida importantes elementos comuns entre as ideologias de esquerda e a doutrina cristã. Aliás, isso pode dizer-se de quase todas as culturas e tradições, razão pela qual existem cristãos de todos os extractos e orientações. Mas é importante também marcar as diferenças, precisamente porque essas estão hoje ocultas a muita gente.
A distinção mais radical é que a esquerda pretende fazer a revolução ou, ao menos, a reforma social para construir um mundo melhor. Os cristãos, pelo seu lado, têm a sua fé em Jesus e na Sua doutrina, duvidando de soluções e líderes mundanos, que falham sempre. Trata-se de uma diferença decisiva, por separar aquilo em que cada um dos grupos põe a sua confiança: Deus ou o partido.
Daí resulta que a doutrina católica pretende amar o próximo, aquela pessoa real, que se encontra ao lado. Os partidos reformistas e revolucionários lidam com soluções genéricas e longínquas, que resolvem os problemas. Em certos casos, os socialistas desdenham até da esmola, por criar alienação e desviar a atenção das políticas que seriam a solução.
Assim, ambos lutam pela justiça, mas com uma diferença subtil, que passa despercebida: os cristãos ajudam os pobres, a esquerda ralha aos ricos. Nas paróquias, nas ordens religiosas e nos movimentos de Igreja tudo está montado para apoiar os necessitados e a doutrina fala de "opção preferencial pelos pobres". Pelo seu lado, a finalidade da esquerda é censurar os capitalistas pela injustiça e pela miséria. Basta ver os cartazes desses partidos para notar como andam cheios de banqueiros e poderosos, corruptos e milionários. O movimento Occupy Wall Street só fala do "1% mais rico". A pobreza gera-lhes indignação, não compaixão. A esquerda gosta muito do Papa Francisco, mas interpreta como ataques a ricos as palavras dele em defesa dos pobres.
Esta é a diferença fundamental na atitude social: a esquerda quer justiça e progresso; Cristo traz a misericórdia que salva todos. Até pecadores e publicanos.

domingo, 29 de junho de 2014

Europa, terra de tribos

Helena Matos | Observador | 29/6/2014, 5:57
Fazer da construção europeia a caminhada para um admirável mundo novo, onde os símbolos e as funções dos pretéritos estados perdem relevância, enfraquecendo-os, fará da Europa um território de tribos
Em Espanha, o novo rei terminou o seu discurso de investidura saudando em castelhano, basco, catalão e galego. O gesto não foi suficiente para que os líderes dos governos basco e catalão, Iñigo Urkullu e Artur Mas, presentes na cerimónia, aplaudissem o novo monarca: os seus braços imóveis impressionavam tanto ou ainda mais que a longa ovação prestada a Felipe VI pelos outros governantes, deputados e dirigentes que assistiam à cerimónia.
Artur Mas prepara um referendo independentista na Catalunha e Urkullu faz contas aos resultados que uma tal iniciativa poderia ter no País Basco e também às reservas de gás de xisto aí existentes e que, a serem exploradas, farão do rico País Basco ainda mais rico, o que quer dizer mais nacionalista pois em Espanha os nacionalismos têm uma forte componente de proteccionismo económico.
Como de costume nos actos solenes, o hino de Espanha foi tocado mas não cantado porque os espanhóis não se põem de acordo no que à respectiva letra respeita – porque não é laica, porque tem referências bélicas, porque pode ser interpretada como franquista ou qualquer outra coisa acabada em "ista"… E portanto alguns mexem os lábios e os outros nem isso.
Depois, naturalmente, os mesmos espanhóis escrevem parágrafos emocionados sobre o fervor patriótico dos brasileiros que apesar de a FIFA ter imposto versões abreviadas dos hinos no Mundial fizeram questão de, mesmo sem música, cantar até ao último todos os versos do seu muito bélico, nacionalista e religioso hino que, em cima de tudo isso, é gigantesco e tem expressões maravilhosas como "raios fúlgidos".
Em França, o sonho da multiculturalidade transformou-se num pesadelo para patrões, trabalhadores, empresas, vizinhos… Casos como os dos candidatos à habitação social que apresentam queixa por serem identificados etnicamente mas que depois também se queixam por os mesmos serviços não promoverem a diversidade étnica ou as mulheres que nunca usaram lenço na vida mas que na hora de se despedirem resolvem passar a usá-lo para depois alegarem despedimento por discriminação, como sucedeu na creche Baby Loup, confrontam quotidianamente a França com a imagem de um país a braços com uma crise muito mais profunda que a económica.
Aliás, não fosse a proverbial desatenção à realidade francesa e já teria sido notícia que naquele país a progressão das equipas neste mundial não é seguida como nos outros locais do mundo pois a possibilidade de a França e a Argélia terem de se confrontar no Brasil leva a que em França se tema que esse jogo, a ter lugar e independentemente do seu resultado, seja o pretexto para uma batalha campal em Paris, Lyon, Grenoble…
Para que se perceba o ponto a que se chegou, após o final o jogo Argélia-Rússia foram queimados só em Lyon 28 automóveis e para o Argélia-Alemanha estão a ser tomadas medidas especiais de segurança tanto mais que alguns agrupamentos nacionalistas que se destacaram nas manifestações de contestação à reforma das pensões surgem agora com apelos a concentrações que apresentam como desfiles anti-distúrbios.
Poderia prosseguir na enumeração desta vaga de tribalização na Europa mas prefiro mudar de cenário. Passemos para os corredores com sinaléctica politicamente correcta das instituições europeias. Ali não há vestígios de tabaco, nem de bactérias no ar condicionado. Não há sexos mas sim género. Ali só há directivas, regulamentos e tratados. O azul predomina. Mas o reverso desse mundo azul-perfeito é essa rua cheia de gente gritando slogans xenófobos e violentos. Porque esse mundo azul-perfeito cujo centro virtuoso está num Parlamento Europeu, qual superestrutura asséptica acima das nacionalidades, tem crescido à custa do apagamento dos estados.
Em muitos dos estados europeus o serviço militar obrigatório desapareceu, alguns não têm hino, outros, como era o nosso caso até Scolari aqui ter aterrado, tinham medo de pegar na sua bandeira. Para quase todos eles a História é uma sucessão de factos inconvenientes que há que modelar. Aos seus povos os governantes europeus só se sentem à vontade para falar de dinheiro, ou melhor dizendo da falta dele. Todo o restante espaço ficou por conta das tribos, sejam elas nacionalistas, fascistas, radicais de esquerda ou simplesmente bárbaras, no sentido romano do termo, como acontece com esses grupos provenientes que puseram Londres a ferro e fogo há algum tempo e que em França fazem lei nos bairros piedosamente designados como sensíveis.
Essa Europa, cujas élites nos últimos anos deixaram de ver na construção europeia uma associação cautelosamente negociada entre estados e nações fortes para transformarem essa construção europeia numa caminhada para um admirável mundo novo europeu, onde os símbolos e as funções dos pretéritos estados perdem relevância, essa Europa, repito, tornou-se como sempre acontece quando os estados enfraquecem, num território de tribos.
E é essa Europa que ganhou no último Conselho Europeu, quando os dirigentes ali presentes indicaram Jean-Claude Juncker para presidente da Comissão. Ou seja, os chefes de Governo ao aceitarem que o próximo líder da Comissão fosse o indicado pelo Parlamento Europeu pactuaram com a revisão não oficial do Tratado de Lisboa, tratado esse que estabelecia que o presidente da Comissão seria escolhido pelos chefes de Governo presentes no Conselho Europeu e posteriormente votado no PE. No território das tribos isto chama-se golpada. No mundo azul-perfeito da eurocracia chama-se evolução.
Pode parecer irrelevante que no meio das complicadas arquitecturas europeias o presidente da Comissão seja escolhido pelos chefes de Governo presentes no Conselho Europeu ou indicado pelo Parlamento Europeu. Nada mais falso. Em primeiro lugar porque o respeito pelo funcionamento das instituições – que tão irritante pode parecer neste momento – é precisamente aquilo que nos distingue das tribos e que amanhã nos salvará doutras golpadas. Aliás os líderes que aceitaram este desrespeito pelo Tratado de Lisboa, a começar pelos populares que agora embandeiraram em arco com esta nomeação de um dos seus para presidente da Comissão, serão os primeiros a sofrer as consequências deste atropelo ao estabelecido.
Em segundo lugar porque é de actos como este, em que, sem que isso seja explicado aos povos, os Estados vão perdendo protagonismo, que se vai construindo a implosão europeia. Ignorando os avisos que chegaram com o desastre dos referendos à Constituição Europeia, a eurocracia aposta agora nos golpes palacianos. Ou, futebolisticamente falando, nas vitórias de secretaria. As tribos agradecem. Os outros, aqueles que viram na construção europeia um espaço de liberdade e de afirmação para países com uma matriz cultural, religiosa e histórica comuns, esses resta-lhes esperar que os prosélitos não destruam por dentro aquela que é a obra mais importante da Europa do pós-guerra.
Uma comunidade sobre a qual e parafraseando o hino brasileiro "o sol da Liberdade, em raios fúlgidos/ Brilhou no céu".

À revelia

VASCO PULIDO VALENTE Público, 29/06/2014 - 00:54
Depois da derrota de Sócrates, nunca mais no PS se falou do que o partido e o seu primeiro-ministro tinham feito com a sua maioria absoluta. Não se falou da "obra", nem do "programa" (admitindo que existia um), nem dos métodos do "animal selvagem", que várias vezes roçaram o intolerável. O governo de Sócrates desapareceu do universo mental dos socialistas. Ninguém o criticou, quando ele era todo-poderoso, ninguém abriu a boca a seguir para lhe encontrar o menor defeito. Parece que Sócrates mostrara uma grande vontade "reformadora" e que a crise financeira fora exclusivamente provocada pela crise internacional. No homem, ele próprio, não se podia tocar, tanto mais que ele com a sua conhecida modéstia se recolhera a Paris para escrever uma tese sobre, calculem, filosofia política.
O pretexto para esta extraordinária abstenção estava como sempre na necessidade de garantir a unidade do partido e de lhe conservar um resto de prestígio. Não se conhece um exame tranquilo e sério dos quatro anos de Sócrates. Tirando um ou outro comentário vaguíssimo na televisão, António Costa não disse nada, António José Seguro também não e as personagens menores ficaram caladas como lhes competia. Ou seja, os socialistas não "arrumaram" o passado, como pretenderam, mas mais trivialmente "esconderam" um passado, que os comprometia, do eleitorado e do país. Agora, com as querelas domésticas do PS prometem participar ao público o que na realidade pensam, confessando de caminho que durante anos não hesitaram em enganar toda a gente por interesses de facção.
Isto merece um comentário. Se os políticos – do PS, do CDS ou do PSD – não vêem qualquer objecção moral em governar à revelia dos portugueses, para que serve o regime democrático por aí tão gabado? O cidadão comum soube da corrida para a bancarrota, que começou com Guterres (ou até com Cavaco)? Soube do extravagante crescimento da dívida (interna e externa, soberana e particular)? Soube da carga que inevitavelmente cairia sobre ele, quando chegasse a altura de "ajustar" as coisas? E percebe a irresponsabilidade com que o conduziam para um poço sem fundo? De maneira nenhuma: sem informação, distraído pelas zaragatas da "classe dirigente", viveu tranquilamente a sua vida, como se a "festa" fosse durar sempre. E é esta mesma gente, que no PS e fora dele nos pede agora confiança?

Factos e Números sobre o Aborto FPV 2014


E vós, quem dizeis que Eu sou?



«E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.».
Mt 16, 15-16

Francisco Fernando e Sofia

Estado Sentido  | Nuno Castelo-Branco, em 28.06.14

O arquiduque Francisco Fernando era uma personalidade pouco estimada numa Viena muito ciosa do status quo instaurado pelo Compromisso austro-húngaro de 1867. Detestado pelos mais acérrimos nacionalistas austro-alemães e húngaros, o indigitado sucessor do Kaiser Francisco José I representava a inevitabilidade de profundas modificações na estrutura do grande império da Europa central. Julgava imperioso conceder um estatuto paritário aos eslavos da dupla Monarquia e mesmo na sua vida pessoal, desafiara abertamente as regras dinásticas, casando-se com Sofia Chotek, uma aristocrata checa.

A visita a Sarajevo consistia num daqueles rotineiros acontecimentos que marcavam o exercício da soberania. Bem ao contrário daquilo que os mais eslavófilos querem fazer crer, aquele mortal inimigo  que não desejavam ver no trono da Áustria-Húngria, consistia num não menos mortal perigo para as ambições expansionistas dos radicais nacionalistas sérvios que viriam a tornar-se tristemente célebres ao longo de todo o século XX. 

Esta manhã, os nostálgicos da terrorista Narodna Obrana - a correspondente à Carbonária que por cá tivemos - inauguraram uma estátua a Gavrilo Princip, num daqueles actos de evidente homenagem ao aborto estatal que durante algumas décadas se chamou Jugoslávia. Cada um tem o Buíça que merece e se o do extremo ocidental europeu abriria o caminho a uma república sangrenta e inepta, a uma longa ditadura e às consequências que conhecemos e ainda sofremos, o jovem Gavrilo bem pode ser considerado como a espoleta da granada que transformou a Europa num destruidor inferno. Aqueles tiros desferidos na manhã de 28 de Junho de 1914, soaram a dobre de finados do Velho Continente. 

Como dizia hoje um indignado habitante de Serajevo a repórteres da televisão, os Balcãs continuarão a ser aquilo que sempre foram, um violento tugúrio de loucos. 

Livro da Semana: Padre Américo, Páginas Escolhidas e Documentário Fotográfico


É impossível ter crescido no Porto (como foi o meu caso) e nunca ter ouvido falar da personalidade de Américo Monteiro de Aguiar, mais conhecido como Padre Américo. Nascido em 1887 em Penafiel, natural de uma família na altura com algumas possibilidades económicas, frequentou o liceu e trabalhou entre 1906 e 1923 em Moçambique. Regressando a Portugal, ingressou no seminário de Coimbra, após uma passagem pelos Franciscanos, e após ter visto o seu pedido de admissão recusado pelo bispo do Porto. Após a ordenação, foi professor no seminário de Coimbra, até lhe ter sido confiada, em 1932, a direcção da obra Sopa dos Pobres.
A partir daí, iniciou uma vida intensa de acção social, essencialmente junto das crianças de rua, que lhe chamavam "Pai Américo". Fundou a Casa do Gaiato, as Casas do Património dos Pobres, entre outras obras. Pelo meio, foi publicando algumas obras, dedicadas essencialmente a expor o projecto educativo da Casa do Gaiato, considerado na altura como revolucionário em muitos aspectos, e que suscitou numerosas críticas e oposições. Morreu em 1956 em Valongo, vítima de um acidente de viação. Pelo meio deixou milhares de páginas escritas, entre os periódicos e os livros: textos de uma retórica belíssima e de uma experiência vivida, a explicar que "as crianças, para quem peço, não são minhas: são vossas, são o resultado da vossa sociedade." Os seguintes excertos são retirados do livro «Padre Américo, páginas escolhidas e documentário fotográfico», Porto 2008.
(…)
«Ontem apresentaram-se quatro. Já tinham chegado há dias, mas, como eu estivesse ausente, eles comiam na cozinha do forno e dormiam no palheiro, à espera. Quatro. Três de Santo Tirso e um fugido a um circo, que não se sabe de onde é! O orador era um dos de Santo Tirso. Não tinha papas na língua. A causa dele e dos outros era muito bem defendida. Depois falei eu. Quatro – nem pensar. Se fosse um, talvez se desse um jeito; assim, não.

Comeram o caldo. Dei a cada um sua moeda de prata e com isso os despedi. À noitinha, sinto bater à porta do meu escritório. Era um dos desgrenhados. Cá estou! É o do circo. É o que não tem ninguém. Traz a moeda de prata que antes lhe dera e entregou-ma! "Os de Santo Tirso", disse ele, "sempre têm por lá alguma família; eu é que não." Esta foi a doutrina do pequenino concílio que eles houveram, entre si, a uns tanto quilómetros da nossa Aldeia. Os "Pàrias" a fazerem doutrina. O "esterco" a ensinar: "Sim. Vai tu que não tens ninguém". Oh, Homens das Esquerdas e das Direitas, encontrai-vos aqui e chorai!»
Padre Américo: Páginas Escolhidas e Documentário Fotográfico
Coordenação de José da Cruz Santos, Apresentação de Maria Helena da Rocha Pereira
Ed. Modo de Ler/Casa do Gaiato, Porto 2008, 340 págs. 

Depois de chorar


José Luís Nunes Martins | ionline 2014.06.28
Não é a tristeza que nos faz chorar, mas o amor que enfrenta os vazios. As angústias e desesperos são expressões de falta.   
As lágrimas que de nós brotam e caem longe do olhar dos outros são as que mais força trazem em si, as que fazem concreto e objetivo o sentir mais íntimo.
Por vezes, o coração cai nas armadilhas das tristezas antigas... outras, sentimos os espinhos das novas adversidades cravarem-se-nos na carne. Há sempre tristezas, há sempre sofrimento, haverá sempre dor enquanto houver amor.
As lágrimas não choradas não deixam de ser amargas, mas essas, ao contrário das que nascem, corroem o interior de quem com elas não chega a regar a terra que lhe segura os pés.
A vida faz-se também com as nossas lágrimas e vence-se, muitas vezes, de olhos carregados de mar. O esforço que nos é exigido chega quase a ser impossível sem lágrimas. Chorar não é sinal de derrota, antes sim de um amor que busca a paz merecida.
O sentido da vida cabe dentro de uma gota de água salgada… a verdadeira paixão é a dor máxima do amor mais profundo. Aquele que faz germinar em nós o melhor… diante do pior.
Depois das lágrimas é tempo de agir.
As lágrimas, tal como tudo nesta vida, têm um princípio e um fim. O amor não. Vive inteiro, em cada momento, do qual é o princípio e o fim.

sábado, 28 de junho de 2014

A educação de café

Inês Teotónio Pereira
ionline 2014.06.28
Das cinco experiências educativas que tenho em casa não consigo tirar um método único ideal para todos
Um dos maiores erros que se comete quando se fala de educação é opinar também sobre pedagogia. A pedagogia, a par do futebol, é um dos temas mais apetecíveis nas conversas de café. Todos têm uma palavra a dizer sobre metas curriculares, dificuldade dos exames, métodos de aprendizagem de leitura, desenvolvimento do pensamento abstracto, exercício de memória, etc. Não interessa a formação que se tem, interessa a sensação que se tem sobre cada um destes temas. A educação, assim como o futebol, está repleta de treinadores de bancada especialistas em pedagogia. Ao contrário do que acontece, por exemplo, no sector da saúde, em que os treinadores de bancada apenas discutem a organização, o tempo de espera nas urgências e as taxas moderadoras, e não as diferentes técnicas de execução de uma cirurgia de peito aberto, na educação as opiniões sobre as técnicas dominam o debate.
Ora este fenómeno intoxica a discussão sobre o sistema educativo por duas razões. Primeiro porque nos desvia do essencial - e o essencial são os resultados, por serem o único dado objectivo. Resultados, não só da classificação final, mas também de taxas de insucesso, de progressão, de abandono, etc. E, segundo, porque empurra a solução de todos os problemas da escola e da aprendizagem para a adopção de apenas um dos diversos métodos de aprendizagem que cada português defende. Como se a solução fosse o Estado adoptar aquilo que o ministro da Educação que há em cada português defende pedagogicamente.
E a verdade é que pedagogicamente falando estou bastante confusa. Das cinco experiências educativas que tenho em casa não consigo tirar um método único que sirva para todos. Tenho de tudo para todos os gostos: tenho crianças com dificuldade de aprendizagem, necessidades educativas, pensamento abstracto apurado, memória prodigiosa e pensamento abstracto nulo, raciocínio rápido, alunos motivados e desmotivados, seguros e inseguros, preguiçosos e trabalhadores, com aptidão natural para línguas e sem aptidão natural ou adquirida para línguas, que memorizam mais do que raciocinam e que raciocinam mais do que memorizam. Os cinco ministros da Educação que existem em mim conseguem apresentar facilmente cinco métodos de aprendizagem diferentes, que vão do ensino da leitura ao raciocínio abstracto. Todos eles eficazes para cada um dos fenómenos que tenho em casa. Por isso há muito tempo concluí que pedagogicamente falando não há métodos únicos nem é aconselhável a adopção de apenas um centralmente.
As palavras-chave são três: professores, autonomia e avaliação. Professores, porque só eles sabem quais os melhores métodos a adoptar para os seus alunos, quais as estratégias mais eficazes e quais as respostas adequadas às dificuldades que eles vão apresentando. São eles os especialistas e não os políticos ou sequer os pais. Autonomia, porque só concedendo verdadeira autonomia pedagógica às escolas se consegue que o desempenho dos professores seja eficaz, libertando-os das amarras do método único que todos devem cumprir em cada ano de escolaridade independentemente do perfil dos alunos. Avaliação, porque só avaliando uniformemente as escolas e os alunos no final de cada ciclo se consegue aferir o sistema e conhecer as suas fragilidades. Os objectivos devem ser iguais para todos, ao contrário das formas para os cumprir, que podem e devem ser distintas.
O acesso de todos à educação é hoje um direito adquirido. O nosso problema é o sucesso educativo de todos. Mas para responder a esse desafio não é na opinião dos diversos ministros da Educação que encontramos a resposta: eles são apenas ministros com a missão de criarem mecanismos eficazes para que o sistema seja mais flexível, autónomo e, no final, possível de avaliar. É sim na opinião de cada professor que está a resposta ao sucesso de cada um dos nossos filhos. Do ministro esperamos que confie em quem sabe dando-lhes autonomia para cumprirem a sua missão de ensinar e facilitando o seu trabalho eliminando a burocracia da sua agenda. É disto que se deve falar quando se fala de educação. Quanto aos métodos de leitura ou à dificuldade do exame de matemática, são temas tão polémicos e pacíficos quanto os cortes de cabelo de Ronaldo - em que só o barbeiro do próprio está habilitado a responder. 

Os novos Cristãos novos


  • Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, ionline, 2014.06.28

  • Em França, está a surgir uma nova geração europeia de novos cristãos, mais coerentes e mais interventivos
Não, não se trata de judeus convertidos à fé cristã, mas de um velho catolicismo novo, que está a surgir em França. Quem o afirma no Figaro Magazine é Jean-Marie Guénois, um prestigiado vaticanista.
Há uma nova juventude católica que se afirma pela sua fé e pela sua actuação social e politicamente comprometida. Não têm complexos de inferioridade e, por isso, não se disfarçam de revolucionários, nem vestem t-shirts com a cara estampada do Che Guevara. Não advogam uma mudança da Igreja, mas da sociedade.
Não criticam o Papa, nem o magistério da Igreja, mas saem à rua para fazerem frente aos que querem equiparar ao casamento natural as uniões de pessoas do mesmo sexo. Sem necessidade de nenhuma filiação partidária, estão dispostos a lutar pela vida e pela família. Basta-lhes a consciência cristã dos seus direitos e deveres políticos, como cidadãos que são de pleno direito. São tradicionais, sem serem tradicionalistas. E são devotos, sem serem beatos.
Estes novos católicos são indiferentes às típicas polémicas pseudo-católicas: a ordenação sacerdotal de mulheres, a eterna questão dos padres casados, etc. Não se interessam pelas problemáticas pós-conciliares, para usar o estafado termo, em que, com o propósito de dialogar com o mundo, se enredam muitas estruturas eclesiais.
Estes cristãos novos não procuram a Igreja para questionar, reivindicar ou exigir, mas para receberem o Pão da vida e a Palavra de Deus, de que necessitam para a sua vida cristã e para a sua missão evangelizadora. A 'igreja-café-concerto', que piscava um olho matreiro à juventude rebelde, aos sons da guitarra de um qualquer padre Sérgiozinho, ou de uma irmã mais ou menos desafinada e inquieta com os jovens, já deu o que tinha a dar. Os novos cristãos querem catequese e não batuque, querem o padre no confessionário, no púlpito e no altar e não à viola, ou no palco. E têm sacerdotes jovens, convictos na fé, piedosos e alegres, que não problematizam a moral nem discutem o dogma, mas ensinam a fé; que não são 'animadores', nem assistentes sociais, mas formadores das consciências e servidores da comunhão eclesial.
Alguns números estatísticos podem ajudar a perceber a dimensão deste fenómeno religioso, que está a perturbar não só os que já tinham anunciado a morte da Igreja entre os jovens franceses, como também os soixant-huitards que ainda sonham com um marxismo cristão, ou uma cada vez mais démodée teologia da libertação.
Segundo duas sondagens publicadas no Figaro Magazine, estes novos cristãos são mesmo cristãos novos, pois têm entre 16 e 30 anos. São quase todos católicos praticantes: 90% confessam-se como tais. Mais curioso ainda é que, segundo a mesma fonte, 77% destes novos cristãos considera que a devoção eucarística é "essencial", ou "muito importante", nas suas vidas, e 6% vai à Missa todos os dias. Apesar da recorrente oferta das 'missas-espectáculo' ou meras 'ceias', ao jeito evangélico ou modernista, estes novos crentes procuram celebrações genuinamente católicas, porque prezam uma autêntica liturgia. Sem cedências, contudo, aos saudosismos tradicionalistas, e sem simpatias integristas. Significativamente, 58% dos inquiridos concorda com a doutrina católica em matéria sexual.    
Depois dos catho-comunistes, temos agora os catho-catho: 72% destes novos fiéis preferem identificar-se como "católicos", em vez de "cristãos", ao invés do que acontecia nos anos 70.
Serão estes novos cristãos novos os profetas que prenunciam – finalmente! – o renascimento espiritual da filha mais velha da Igreja?! Talvez ainda não, mas não restam dúvidas de que são uma lufada de ar fresco e de esperança para a Igreja francesa e para o Cristianismo de toda a velha Europa.

O último dia da humanidade

  • Rui Ramos | Observador | 28/6/2014, 13:16
A democracia e a ciência conjugaram-se para tornar a I Guerra Mundial no que ela foi: um horror incontrolável, que durou até ao colapso total de um dos combatentes e teve os efeitos que todos temiam
Há cem anos, um jovem deu dois tiros num casal de visita a Sarajevo. E um mês depois começava a I Guerra Mundial, no fim da qual, segundo nos têm ensinado, tinha acabado um mundo e começado outro. A relação entre os dois tiros e uma ruptura histórica tão grande atormenta-nos desde então. Dizer que as vítimas eram o herdeiro do império austro-húngaro e a sua mulher, e que o assassino era um dos militantes dos nacionalismos balcânicos, não chega. Estão as civilizações penduradas de tais acasos? Não será preferível encarar o atentado de 28 de Junho de 1914 como o simples pretexto para conflitos inevitáveis e agressões planeadas?
Os contemporâneos da I Guerra Mundial preferiram discutir culpas – da conspiração alemã à negligência inglesa. Nós optamos por evocar a primeira grande matança da época contemporânea – quase 9 milhões de soldados mortos — ou, mais sugestivamente, como fez o Wall Street Journal (http://online.wsj.com/ww1/),  desfiamos tudo o que devemos à I Guerra Mundial – e que parece ser de facto quase tudo, desde o fascismo à cirurgia plástica, passando pela projecção mundial dos EUA e pelas fronteiras (agora em colapso) do Médio Oriente.
Com a "Grande Guerra", acabou o mundo a que hoje só chegamos lendo Proust ou vendo Downton Abbey. Ninguém deu forma tão fantástica à sensação de fim como Karl Kraus, com o seu drama Os Últimos Dias da Humanidade (de que há uma tradução parcial em português, da Antígona), onde encenou as conversas inspiradas pela guerra nas ruas, nas redacções dos jornais, nos quartéis, nos salões. A Kraus, tudo parece estúpido e fútil, a começar pela ideia de que a guerra podia ser uma forma de transcendência. A sensibilidade de Kraus é a nossa. E está aí, mais do que nos bigodes e espartilhos, a grande diferença que nos separa dessa época.
Em 1914, as grandes potências do mundo eram europeias e ainda tratavam a guerra como um meio normal de decidirem questões. Desde meados do século XIX, tinha sido assim que a expansão russa no Mar Negro fora contida e que a Itália e a Alemanha haviam sido unificadas. Por isso, há cem anos, os governos europeus dispuseram-se a definir mais uma vez os seus equilíbrios de poder através das armas. A Alemanha convenceu-se de que nada tinha a perder em tentar a sua sorte contra a Rússia. A Áustria julgou que tudo tinha a perder se não confrontasse a Sérvia. Uns anos antes, o autor inglês Norman Angell tentara demonstrar que as economias europeias estavam demasiado interligadas para permitir uma guerra. Mas todos os planos militares supunham uma guerra rápida. O estado-maior alemão esperava aniquilar a França e a Rússia em poucos meses.
Acontece que os planos falharam. Em 1914, os alemães não conseguiram derrotar os franceses. Em 1915, franceses e ingleses não conseguiram derrotar os alemães. Os chefes militares confiavam nas ofensivas, mas as defesas provaram sempre ser mais fortes. O impasse, porém, não pôs termo à guerra. E é essa a grande questão.
O mistério da I Guerra Mundial não é o seu começo. Isso é relativamente fácil de explicar. O grande mistério da I Guerra Mundial é o facto de não ter acabado quando, em menos de um ano, ficou demonstrado que nenhum dos combatentes estava em condições de ganhar. As guerras anteriores tinham sido rápidas e contidas: a guerra entre a França e a Áustria em 1859, entre a Prússia e a Áustria em 1866, ou entre a Prússia e a França em 1870, não passaram de uma ou duas grandes batalhas e duraram uns meses. Tinham sido "guerras de gabinete", controladas, com objectivos restritos, e negociações à vista. Porque é que a guerra de 1914 adquiriu a intensidade e a intransigência de uma espécie de guerra civil europeia, como a guerra civil americana de 1861-1865, excluindo os compromissos que, em geral, haviam limitado as guerras europeias do passado?
É o grande paradoxo desta história: uma guerra iniciada como outro meio de fazer política, segundo a concepção de Clausewitz, tornou-se um confronto apocalíptico, aprisionando todos os combatentes numa imensa máquina de triturar. E é aqui que a ideia da guerra como origem da nossa modernidade, como se antes dela estivesse um mundo parado e tranquilo, subitamente destruído por uma imprevidência, não ajuda a perceber o que se passou. A Europa, em 1914, passava por transformações económicas, sociais e políticas sem paralelo. Nunca o comércio internacional tinha sido tão intenso (e nunca mais o seria, até ao fim do século XX). Cada vez mais países desenvolviam bases industriais. Os Estados democratizavam-se, através do alargamento dos eleitorados e da parlamentarização dos regimes.
Ao mesmo tempo que arriscaram a guerra, as elites políticas das potências europeias convenceram-se de que, no novo contexto histórico, uma derrota não significaria apenas uma perda territorial ou uma indemnização de guerra, como no passado, mas a queda do regime ou o desaparecimento do próprio Estado. Para ganhar, as elites europeias apostaram nas próprias forças que pareciam explicar a transformação do mundo no princípio do século XX: por um lado, a ciência e a tecnologia; por outro, a democratização, no sentido da mobilização e enquadramento político do que então se começava a chamar as "massas".
A fim de movimentar as vontades e os recursos das nações, todos os governos propagandearam a guerra como um combate final contra bárbaros a quem não era possível fazer quaisquer concessões (na imprensa inglesa, os alemães passaram a ser os "hunos"). A vitória seria a salvação definitiva da humanidade, a derrota seria o fim de toda a civilização. E quando esbarraram num impasse, acreditaram que as maravilhas técnicas da revolução industrial acabariam por ser decisivas: com a artilharia, o gaz, os tanques, os aviões, os submarinos, era uma questão de perseverar, de tentar novamente, de nunca desistir.
A democracia e a ciência conjugaram-se assim para tornar a I Guerra Mundial no que ela foi: um horror incontrolável, que durou até ao colapso total de um dos combatentes e teve os efeitos que todos temiam – o desaparecimento de Estados, como o império austro-húngaro ou o império otomano, e a polarização e brutalização da cultura europeia. Mas não foi a guerra que mudou o mundo: foi a própria guerra que mudou, porque o mundo estava a mudar.