quinta-feira, 31 de julho de 2014

31 de Julho

Por isso, a frase do dia é curta e decisiva:
Em tudo amar e servir
É também o dia em que o Povo vai de férias, interrompendo o envio por e-mail durante todo o mês de Agosto. Porém, o Povo (blog) irá sendo actualizado a ritmo de férias. Sempre que quiser visite-nos.
É também um dia especial para nós. É o dia que marca a passagem do tempo sobre o acontecimento fundador do nosso casamento. Desde então, ao longo de 38 anos voltamos àquele dia com espanto e comoção agradecendo tudo o que Deus fez acontecer.
Gostei de ler este poema que um amigo nosso nos fez chegar e que foi lido numas bodas de prata de amigos seus.

Juramento

Lembras-te, Amor? No alvor do casamento
Baixou sobre nos dois a luz dos céus.
Nossos olhos beijaram-se um momento;
E fizemos, então, o juramento:
- Só um do outro e os dois de Deus!

Lutei para cumprir o prometido.
Meu corpo e a minha alma são só teus.
Quando a voz das paixões me traz vencido,
A voz do amor segreda-me ao ouvido:
-Só um do outro e os dois de Deus!

A minha volta soa, noite e dia
A risada escarninha dos ateus...
Cravam-me os estiletes da ironia;
Eu calo, e rezo a minha litania:
-Só um do outro e os dois de Deus!

Cerca-me a tentação, velha serpente!
Escondem-me o horizonte negros véus.
Que importa, meu Amor? Teimosamente,
Hei-de gritar a Vida, frente a frente:
-Só um do outro e os dois de Deus!

E amanha, quando a Morte, de mansinho,
Vier pedir ao Mundo o nosso adeus,
Hão-de os anjos cantar, devagarinho:
- Terão na eternidade um só caminho,
Pois são só um do outro e os dois de Deus!

(lido nos 25 anos de casados da Mimi e do José Miguel Esperança Martins)

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Da Lua à Terra

Paulo Tunhas, Observador 30/7/2014, 22:11
Tenho um grande cepticismo em relação ao que se vê nas televisões no que respeita ao número de crianças e mulheres mortas A 20 de Julho de 1969, os astronautas americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin, membros da Apolo 11, caminharam pela primeira vez na Lua (o terceiro astronauta, Michael Collins, permaneceu no módulo de comando, na órbita lunar). Houve depois doze outros homens a caminharem na Lua, os astronautas de outras missões Apolo, a última em 1972. Mas, como é óbvio, nenhuma delas teve a capacidade de maravilhamento da Apolo 11. Creio que qualquer pessoa que tenha idade para se lembrar da coisa concordará comigo.
Durante muito tempo perguntei-me porque é que nenhuma grande obra de arte fora alguma vez feita inspirada pelo acontecimento. Até que percebi que a pergunta era estúpida. A alunagem da Apolo 11 era, à sua maneira, ela própria uma obra de arte, dotada de uma beleza e (vá lá, arrisque-se uma palavra que deve ser utilizada com cuidado) uma sublimidade impossíveis de traduzir por meio da pintura, da música, da literatura ou do cinema. Claro que tudo se integrava no contexto da competição entre os Estados Unidos e a União Soviética, mas isso não afecta minimamente o lado absolutamente gratuito, e não espúrio, da primeira alunagem, nem o carácter único daquelas imagens dos astronautas e da paisagem lunar. Elas são, por assim dizer, um mundo em si, um mundo que permanecerá sempre, existindo por si próprio, à margem de tudo o resto, um mundo do qual nada se pode deduzir, porque em si tem tudo.
É, é claro, uma maneira de falar. Na nossa querida região sublunar, deduziram-se imensas coisas. Limito-me a uma, que à data constituiu para um miúdo de nove anos uma revelação, e com a qual, durante a vida, me confrontei vezes sem conta: as teorias da conspiração. Logo um dia ou dois depois do passeio lunar dos astronautas, um jardineiro que ia a casa dos meus pais, certamente procurando esclarecer-me da complexidade das coisas da vida, informou-me que tudo aquilo tinha sido filmado num deserto qualquer e que era uma intrujice dos americanos. Os americanos, como se sabe, não são gente de confiança. Pela mesma altura, era muito audível a opinião segundo a qual se as estações do ano não apresentavam a regularidade climatérica do passado – como se vê, tudo vem de trás – isso devia-se, em primeiro lugar, aos satélites com que o danado do Tio Sam atafulhava o céu. De qualquer modo, a teoria do jardineiro acompanhou-me, em versões sortidas, durante a vida. Um aluno maluco, há uns dez anos, informou-me, com detalhes exasperantemente técnicos, que a coisa tinha sido feita numa região qualquer da Islândia. E, há bem menos tempo, a actriz francesa Marion Cotillard decretou que, na sua modesta opinião, tudo tinha sido encenado em Hollywood.
As teorias da conspiração são fascinantes, e, ao contrário da ida à Lua, são um mundo aberto, florescente, e susceptível de se investir em qualquer classe de objectos. Os mecanismos mentais que estão em jogo aqui são relativamente fáceis de determinar.
Tudo começa com a desconfiança. Desconfia-se dos relatos correntes de determinados acontecimentos, que se supõem concebidos por entidades mais ou menos invisíveis e invariavelmente maléficas, com o fito de ocultar a verdade e com uma intenção bem determinada: a aquisição de um poder absoluto. Note-se que não se deve conceber tal atitude de suspeita com qualquer forma de cepticismo. É bem o contrário.
E é bem o contrário porque a crença não perde nada da sua energia quando se transfere para uma verdade supostamente ocultada. Ao invés, o sentimento de estar na posse de algo que a maioria das pessoas ignora comporta, além de um indiscutível benefício narcísico (é bom ser o mais esperto da rua), o sentimento de pertencer a uma comunidade, a comunidade daqueles que também estão por dentro do segredo. Pertencer a uma comunidade é importante: é preciso que haja gente noutras ruas que nos acompanhe (impede que passemos por maluquinhos). E fortifica a crença na verdade daquilo que a maioria ignora.
Tanto mais que tudo isto vem acompanhado de um intenso investimento afectivo. Os que supostamente nos procuram ocultar a verdade (americanos e judeus, por exemplo) são objecto de ódio incontido e persistente. O afecto, no limite o afecto patológico, fortifica também ele a crença.
Qual a vantagem desta atitude, e eventualmente a sua mais profunda razão de ser? É ela tornar o mundo – uma coisa fragmentada, onde reina a contingência e o caos conflitual das vontades individuais – algo de perfeitamente inteligível e ordenado. Tudo adquire uma natureza integralmente coerente. A mínima acção passa a poder ser explicada, sem resto de dúvida, a partir de um esquema assim.
Partindo de uma desconfiança de base chega-se deste modo a uma certeza absoluta. Daí vêm os fanatismos sortidos que nos acompanham no nosso mundo sublunar e que bem nos estragam a vida. O resultado da crença em teorias conspiratórias é portanto o avesso do cepticismo que nos é muito aconselhável no dia a dia.
Esta distinção entre o cepticismo e a desconfiança conspiratória (chamemos-lhe assim) é fundamental. Um exemplo. Não tenho a mínima dúvida, é claro, que muitos civis – entre os quais mulheres e crianças – tenham morrido, do lado palestiniano, na actual guerra entre Israel e o Hamas. Mais: não tenho a menor dúvida que muitos tenham morrido sem ser por causa da bem conhecida artimanha do Hamas de colocar propositadamente armas e combatentes em lugares onde abundam civis, que são impedidos de abandonar tais lugares. Mas isso não impede um grande cepticismo em relação ao que se vê nos canais de televisão, nacionais e internacionais, no que diz respeito ao número de crianças e mulheres mortas e à mais do que miraculosa ausência de mortos entre combatentes do Hamas.
Porquê? Em primeiro lugar, porque as forças de Israel fazem todo o possível para reduzir ao mínimo a morte de civis (um acto de crença que se encontra bem justificado pela história passada). Depois, porque há um longo historial de atestada manipulação dos dados pelos palestinianos nestas matérias (Jenin, em 2002, é porventura o caso mais célebre). Finalmente, porque as próprias imagens televisivas (e os propósitos que as acompanham) são esclarecedoras no capítulo. Muito é, obviamente, encenação. Isso é particularmente nítido se formos directamente à Al Jazeera, que apresenta as coisas mais militantemente do ponto de vista do Hamas do que as outras estações televisivas (embora estas também, quase sem excepção, em grau menor o façam). Apesar de a Al Jazeera – financiada pelo Qatar, tal como o Hamas e os seus túneis – ser muito bem feita, a própria militância induz à exposição dos fios grossos com que a propaganda é feita.
A dúvida céptica nada tem a ver com a crença conspirativa segundo a qual obscuros poderes congeminam o nosso logro e a nossa perda, à maneira dos Protocolos dos Sábios do Sião (não por acidente, um texto muito querido ao Hamas). É, como disse, o seu exacto avesso. E o mundo à nossa volta seria bem melhor com menos patologia conspiratória e com mais cepticismo. Infelizmente a vontade de acreditar, mesmo nas ideias mais absurdas, leva normalmente a melhor. E quando nos faz sentir inteligentes e dá lugar a manifestações de sensibilidade demonstrativa, é imbatível.
Que saudade da Lua!
PS. O Qatar, lembrou-me um amigo, vai organizar o Mundial de futebol de 2022. Não me parece muito perigoso: não devem permitir que por lá se abram túneis atrás das balizas para raptar ou matar jogadores de equipas mal-amadas no lugar.

O regresso do socialismo dos idiotas

Rui Ramos | Observador | 30/7/2014, 18:36

No momento em que os populismos sobem na Europa, será boa ideia isentar o anti-semitismo do estigma que, até agora, o refreou? No fundo, talvez ele não seja o único socialismo próprio de idiotas.
Na Europa das décadas de 1920 e de 1930, entre a grande inflação e a grande depressão, vários demagogos sem escrúpulos e com algum carisma pessoal descobriram um ovo de colombo político. Omitamos, por enquanto, o nome da fórmula. Uns eram socialistas e outros nacionalistas. O seu golpe de asa esteve em misturar uma coisa e outra, como na expressão "socialismo nacional". Combinaram assim a ideia de uma revolução social com a ideia da defesa da ordem, e o desprezo pela democracia parlamentar com o entusiasmo pela mobilização das "massas". Esta fórmula, que venceu em dois dos quatro maiores estados da Europa ocidental, teve muitas variantes. Mas acabou por ser caracterizada por um elemento que nuns casos esteve na sua origem, e noutros apareceu depois, mas apareceu quase sempre: o ódio aos judeus, apoiado em teorias raciais ou em teorias da conspiração. A partir da década de 1930, o anti-semitismo levou à exclusão legal da cidadania e à emigração de milhares de pessoas. Na década de 1940, justificou um programa de genocídio.
Podem pôr agora os nomes. Em 1946, no Tribunal Internacional de Nuremberga, o programa de extermínio sistemático da população judaica europeia foi um dos quesitos da acusação contra os líderes da Alemanha nazi. Mas embora ligado ao horror, o anti-semitismo não desapareceu. Os populismos de tipo nacionalista, mesmo quando precisam de respeitabilidade, quase nunca conseguiram livrar-se dessa marca de água, geralmente revelada através do "negacionismo" do holocausto. Provavelmente, porque o anti-semitismo corporiza muito bem o sincretismo ideológico que está na base dos velhos fascismos e dos novos populismos nacionalistas.
O líder social democrata alemão August Bebel chamou ao "anti-semitismo" o "socialismo dos idiotas". De facto, o anti-semitismo recolhe toda a mitologia anti-capitalista, como a que informa as teorias da conspiração dos bancos, mas identificando o capitalismo com aquele que, até ao século XX, foi o maior grupo étnico-religioso europeu sem Estado, e que o folclore de quase todos os países associava ao negócio e ao dinheiro. Não por acaso, a esquerda republicana e socialista europeia foi frequentemente anti-semita (pensemos em Wagner), pelo menos até ao caso Dreyfus em França, no fim do século XIX. Na propaganda nazi, os judeus são às vezes comissários bolcheviques, mas mais habitualmente banqueiros de cartola. O anti-semitismo funciona, desse ponto de vista, como um anti-capitalismo focado numa minoria específica, excluída da "comunidade nacional", e portanto aceitável para os demais proprietários e capitalistas.c
A rejeição do anti-semitismo constituiu, na Europa do pós-guerra, um dos mais eficazes antídotos contra este género de movimentos. A história dos populismos ditos de "extrema-direita" está pontuada de momentos em que uma gafe anti-semita compromete o demagogo em ascensão, obrigando-o a desdizer-se e tirando-lhe o élan. Ora, esse tempo de higiene pode estar no fim. Porque ao mesmo tempo que ressurgem os populismos, com a sua síntese da ordem e da revolução, eis que a contestação furiosa a Israel rompe os diques político-culturais que têm contido o anti-semitismo.
Na corrente raiva contra Israel, a esquerda anti-capitalista, que desde a década de 1970 viu no ataque ao Estado judaico um meio de atingir os EUA, não se inibe de marchar com o jihadismo, que herdou do nacionalismo árabe de meados do século XX a fixação na destruição de Israel. Um dos seus truques mais perversos é confundir Israel com a Alemanha nazi, ou a operação contra o Hamas com o holocausto. Como é óbvio, todas as mortes são para lamentar. Mas deveria talvez ser óbvio que a organização do extermínio sistemático de um povo, por razões ideológicas, não é a mesma coisa que uma operação militar que causa vítimas civis por se desenrolar numa área densamente habitada. Até há pouco, as esquerdas académicas zelavam pelo carácter único do holocausto, de forma a evitar comparações com o Gulag comunista. Agora, que o fim é difamar Israel, pode-se banalizar o nazismo.
O primeiro efeito destas marchas comuns de velhos esquerdistas e radicais islâmicos tem sido a "legitimação" do anti-semitismo, sob o manto hipócrita do "anti-sionismo", mas com o mesmo resultado: a perseguição das comunidades judaicas. Em França, a 20 de Julho, os protestos por Gaza inspiraram uma espécie de pogrom, Na Bélgica, um letreiro proibia a entrada num café aos "sionistas". Na Alemanha, o governo achou por bem tranquilizar os judeus perante os slogans anti-semitas das manifestações ditas pró-palestinianas. Em suma, da próxima vez que Jean-Marie Le Pen cometer uma gafe anti-semita, sentir-se-á menos exposto e isolado. No momento em que os populismos sobem na Europa, será boa ideia isentar o anti-semitismo do estigma que, até agora, o refreou? No fundo, talvez o anti-semitismo não seja o único socialismo próprio de idiotas.

O Estado não é pessoa de bem

José Manuel Fernandes | Observador | 29/7/2014

Um cidadão honesto é, em Portugal, um eterno suspeito. Ou mesmo culpado. Os serviços do Estado nunca presumem a inocência, tratam sempre de cobrar antes (o imposto, a taxa, a multa) e depois perguntar
O Estado português especializou-se, nos últimos anos, em sugar os portugueses contribuintes até ao tutano. Não falo apenas dos sucessivos aumentos de impostos, única forma aparentemente constitucional de equilibrar as contas públicas. Falo desta vez da forma desleal como o Estado se relaciona com os cidadãos, das armadilhas legais que se destinam unicamente a onerá-lo e da forma como os serviços públicos tratam sempre de cobrar primeiro e perguntar depois.
O pretexto próximo para este meu desabafo é uma pequena reportagem da Renascença. Nela se relata como alguns cidadãos foram "apanhados no labirinto da Segurança Social" e as histórias contadas soaram-me familiares. Também já passei por aflições semelhantes, sempre com os mesmos componentes. Tal como a Luísa da história da Renascença, também já vi uma conta bancária penhorada por uma dívida que não existia. A Luísa conta a história das filas à porta da Loja do Cidadão, eu conto a história de uma reunião marcada para um mês depois, "com urgência" pois a conta estava penhorada. Também eu vi funcionários darem razão à reclamação, reconhecerem a inexistência da dívida, e acabarem a dizer que não conseguiam corrigir os dados no computador e, por isso, nada podiam fazer. Tudo isto depois de semanas a percorrer um labirinto kafkiano em que se era atirado de serviço para serviço, e de funcionário em funcionário.
Essa minha experiência com a Segurança Social foi imensamente pior do que aquela que tenho tido, nos anos mais recentes, com o fisco. Não sei se fruto da reorganização dos serviços que vem dos tempos de Paulo Macedo, se por sorte minha com a repartição de Finanças onde trato dos meus assuntos, a verdade é que aí, ao menos, tenho encontrado colaboração bem-educada.
Mas não me deixo enganar: a civilidade que encontro na minha repartição de Finanças é o verso da medalha da incivilidade do fisco. Uma incivilidade que não tem deixado de crescer ao ritmo com que crescem as despesas infindáveis de Estado insaciável. Passo a passo a máquina fiscal tem apurado os seus mecanismos destinados a cobrar o máximo possível, mesmo quando cobrar alguma coisa já não faria qualquer sentido.
Por isso estou com o Henrique Monteiro e com a indignação que ele sente. Eu, tal como ele, também possuí em tempos um automóvel que, depois de ficar muito velhinho, cedi a um amigo que depois cedeu a outro amigo para tudo acabar, ao que sei, no fundo de uma também velha garagem algures numa herdade alentejana. Eu, tal como ele, também acabei por ter de pagar imposto de circulação por uma viatura que não circulava, imposto baixo porque o carrinho era uma Renault 4, mas acompanhado por multas altas, porque o Estado é sempre glutão. Tudo porque não perdi um dia de trabalho para ir a um serviço público qualquer dar baixa da viatura, burocracia que certamente deixará feliz o legislador, mas nada acrescenta, suponho eu, à felicidade do país ou da humanidade.
Mais recentemente o meu amigo Henrique voltou de novo à carga, desta vez para contar como o fisco trata quem tem a ousadia de vender uma casa que comprou antiga, na qual fez fazer obras, com todo o IVA pago, na qual depois viveu e que um dia quis trocar por outra residência. Tem, de novo, toda a razão. A lei, dizem, teria sido feita para limitar o escândalo da fuga ao fisco por via da compra, venda e recompra de imóveis, mas na prática é uma forma de taxar de forma indecorosa quem investiu na reabilitação do património.
Há muito mais exemplos que se podiam continuar a dar, mas a lei e o comportamento da máquina do Estado parece ter sempre apenas um objectivo: maximizar receitas e tratar todos os cidadãos como contribuintes relapsos. Pior: a boa lei parece ser a lei que cria alçapões que nos atiram para o fundo de covas de onde, tal como nas armadilhas para leões, saímos içados por uma rede, indefesos perante as garras das autoridades. Isso voltou a acontecer-me nos últimos dias.
Envolvido num acidente provocado por um condutor que fugiu, quando preenchia os papéis da polícia que foi chamada ao local fui informado que seria multado por "não ter a inspecção em dia". Como não tenho? Ainda estamos em Julho, repliquei eu apontando para o mês da matrícula. Não, enganado: o que conta não é o mês, é o dia, disse-me "a autoridade". De nada me valeu protestar. Nem apelar à piedade depois de ter sido eu a vítima de um louco da estrada.
Apesar de me considerar um cidadão informado, não tenho por hábito ler as várias séries do Diário da República, apesar de saber que o desconhecimento da lei não é desculpa em tribunal. Tratei por isso de googlar à procura da alteração legislativa que tinha mudado as regras das inspecções periódicas, e comecei logo por tropeçar no preâmbulo da mais recente (a décima terceira…) alteração ao Código da Estrada. Só o artigo 1º é um mimo:
"A presente lei procede à alteração: a) Do Código da Estrada, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 114/94, de 3 de maio, alterado pelos Decretos -Leis n.os 214/96, de 20 de novembro, 2/98, de 3 de janeiro, que o republicou, 162/2001, de 22 de maio, 265 -A/2001, de 28 de setembro, que o republicou, pela Lei n.º 20/2002, de 21 de agosto, pelos Decretos -Leis n.os 44/2005, de 23 de fevereiro, que o republicou, 113/2008, de 1 de julho, e 113/2009, de 18 de maio, pelas Leis n.os 78/2009, de 13 de agosto, e 46/2010, de 7 de setembro, e pelos Decretos -Leis n.os 82/2011, de 20 de junho, e 138/2012, de 5 de julho; b) Do Decreto -Lei n.º 44/2005, de 23 de fevereiro".
Como se vê, só um cidadão absolutamente descuidado como eu pode invocar desconhecimento.
Mas adiante, que a legislação era outra, e lá a encontrei, assinada por José Sócrates e Mário Lino. Sob o argumento de que muita gente se concentrava nos centros de inspeção no final do mês, mudava-se a regra do jogo e a inspecção passava a ser válida ao dia. De caminho centenas de portugueses, ignorantes e analfabetos no que toca à leitura do diário da Casa da Moeda, iriam ser, como eu fui, apanhados nas malhas da lei. Indefesos mas prontos a esportular 250 euros. À glória do erário público.
E assim estamos. Não porque, como sugerem os sindicatos na reportagem da Renascença, faltem funcionários nos serviços, mas precisamente porque estas montanhas de regulamentos e leis só vivem de montanhas ainda maiores de funcionários. Mas sobretudo porque, no desespero de extrair sempre mais e mais receita de contribuintes exauridos, os nossos legisladores vão multiplicando requintes de malvadez e a máquina do Estado vai perdendo escrúpulos.
E o pior é que num país onde os cortes na despesa têm sido sistematicamente considerados inconstitucionais e as subidas de impostos constitucionalíssimas, quando somos apanhados num destes alçapões só nos apetece… fazer coisas inconstitucionais, vá lá.
Porque é mesmo verdade, e volto ao Henrique: em Portugal, "uma pessoa honesta é vítima de extorsão legal e de abuso de autoridade". Pois é.

A batalha em favor da vida em Portugal

Entrevista com o Vice-presidente da Federação Portuguesa pela Vida, Antonio Maria Pinheiro Torres

Brasília, 03 de Junho de 2013 (Zenit.org) Thácio Siqueira
"A Federação Portuguesa pela Vida (FPV) agrupando cerca de duas dezenas de organizações de carácter diferente e espalhadas pelo país inteiro constituiu-se como um ponto de referência institucional", disse em entrevista a ZENIT o vice-presidente da FPV, Antonio Maria Pinheiro Torres. 
Nessa entrevista Antonio Torres explica como está a luta a favor da vida em Portugal, como se articula o movimento Pró-Vida, quais são os desafios e metas a serem conquistadas, como é que Portugal acompanha as propostas de lei contrárias à vida no Brasil, entre outros assuntos.
A Federação Portuguesa pela vida, (fundada em 2002) é uma Instituição que reúne em vínculo federativo Associações e Fundações que tenham por objecto e finalidade a defesa da Vida Humana, desde o momento da concepção até à morte natural, a promoção da dignidade da Pessoa Humana e o apoio à Família e à Maternidade.
***
ZENIT: Como está o movimento Pró-Vida de Portugal? É unificado? No contexto do Movimento Pró-Vida, onde entra a Federação Portuguesa pela Vida?
Antonio Torres: O movimento pró-vida em Portugal é hoje em dia uma realidade social e política presente em todo o território nacional cujo crescimento vai resultando de cada campanha em que se envolve. Isto é, cada campanha referendária (aborto, procriação artificial, casamento entre pessoas do mesmo sexo) ou outras, independentemente do resultado da mesma, dá origem a novas realidades associativas (basicamente de apoio social ás mulheres e crianças em risco, de formação no planeamento familiar e/ou de intervenção essencialmente cívica e política) e ao aparecimento de novas companhias de caminho que alargam a sua base social de apoio, de que são exemplos a unidade no terreno de intervenção entre católicos e cristãos evangélicos ou a entrada e presença no campo da política oficial e partidária.
Não sendo institucionalmente unificado existe no entanto uma amizade e contacto permanente entre as diversas realidades que mesmo por vezes não partilhando as mesmas escolhas estratégicas dão origem a uma base social de apoio comum com as mesmas opções doutrinais de fundo.
Neste conjunto de realidades e protagonistas a Federação Portuguesa pela Vida agrupando cerca de duas dezenas de organizações de carácter diferente e espalhadas pelo país inteiro constituiu-se como um ponto de referência institucional, interlocutora do poder político e protagonizando a maior parte das intervenções mediáticas. Mas de alguma forma é apenas a face visível em termos públicos dessa área pró-vida que é vasta, diversificada e plural.
ZENIT: Quais são as principais propostas de leis contrárias à vida e à família que Portugal está tendo que enfrentar?
Antonio Torres: Os principais desafios que Portugal enfrenta neste momento são nos campos do aborto e a curto prazo uma modificação da respectiva regulamentação (abolindo a sua gratuidade, conformando a sua prática com a lei e abrindo o espaço legal á oferta de alternativas concretas), a realização a médio prazo de um terceiro referendo sobre o aborto livre a pedido da mãe até as 10 semanas, e a longo prazo, um trabalho social, cultural e político que torne evidente que a barbaridade que o aborto é.
No que respeita á procriação artificial (permitida em termos amplíssimos desde 2006) o objectivo é a curto prazo obstaculizar a introdução das barrigas de aluguer (ainda proibidas) e o acesso á mesma por pares homossexuais, também a curto e médio prazo reduzir o âmbito da lei em vigor (no sentido de assegurar o devido respeito da dignidade humana) e, sobretudo, assegurar a protecção do embrião humano, impedindo a sua utilização em investigação científica.
No campo do divórcio é urgente abolir o divórcio-expresso introduzido na legislação portuguesa em 2008 e que está na origem de um aumento exponencial da conflitualidade nos tribunais de família, da precipitação de um número significativo de mulheres em situação de pobreza e da descredibilização do contrato de casamento, hoje em dia, menos seguro do ponto de vista jurídico do que um contrato de serviços de telecomunicações.
No que respeita á demolição da instituição familiar pelas reivindicações do lóbi homossexual há que retomar a campanha pela realização de um referendo ao casamento gay (permitido desde 2010) e obstaculizar todas as tentativas de permissão da adopção desde a mais imediata em discussão neste momento (a chamada co adopção) até às formas mais alargadas da mesma (por ora ainda proibidas). Também neste campo a lei de mudança de sexo de 2011 criadora de grave incerteza e insegurança jurídicas e aprovada por motivos ideológicos que não levam sequer em consideração as respectivas práticas médicas e científicas, é um diploma que a curto prazo terá de ser revisto e conformado á realidade pré-existente.
Por fim no campo da lei de educação sexual (2009) o ponto decisivo é a clara consagração da liberdade de escolha por parte dos pais que não se encontra expressamente consagrada.
Enfim, todo um programa, mas também um desafio apaixonante. 
***
ZENIT: O Aborto, a eutanásia, as experiências com embriões... são realidades já aprovadas em Portugal? Há movimentação dos portugueses para tirar essas leis?
Antonio Torres: A eutanásia não se encontra ainda em discussão em Portugal embora se perceba movimentações nesse sentido pelo mesmo sector de sempre nosso adversário em todas as restantes matérias e obedecendo á lógica inevitável da sucessão de leis já descritas.
Quanto aos restantes temas existem de facto movimentações em dois planos distintos: do suporte á existência da Vida (através de uma miríade de associações desde as que se ocupam da dissuasão de última hora ou oração junto aos locais de prática do aborto ás que apoiam mulheres e crianças em risco ou então ao planeamento familiar) ou de defesa desta nos campos social e político: petições ao parlamento (quatro desde 2009 e das quais duas de iniciativa da Federação), uma Caminhada pela Vida (em Maio de 2012), a participação na vida partidária ou nas eleições (em dois partidos de centro-direita, que integram o actual Governo, ou num pequeno partido pró-vida), algumas acções de rua em datas aniversárias significativas, intervenção junto da Comunicação Social, participação na iniciativa da Petição europeia Um de Nós, e um largo etc.
ZENIT: Na realidade política de Portugal, de onde é que mais tem vindo essas propostas contrárias à vida e à família?
Antonio Torres: Vem sobretudo de três sectores: da extrema-esquerda (que em Portugal tem expressão eleitoral significativa: 8 deputados em 230) ou esquerda caviar, dos partidos socialista e comunista, e dos sectores "modernaços" dos partidos de centro-direita (que, em Portugal, embora tendo uma tradição de defesa da dignidade humana, está a perder a sua identidade, parte em consequência da abstenção de participação dos sectores sociais e políticos que são a base das nossas movimentações cívicas). Vem também da maior parte dos pertencentes á Maçonaria hoje preponderante em todo o sistema partidário, com excepção do partido comunista e da extrema-esquerda.
ZENIT: Como é possível que uma proposta de adopção de crianças por casais homossexuais esteja em pauta em Portugal, país tradicionalmente católico?
Antonio Torres: Por dois factores: a deseducação do povo católico e a influência esmagadora da mentalidade comum veiculada por uma comunicação social na qual os sectores moderado ou conservador são minoritários ao nível dos respectivos profissionais e chefias. E também deve-se reconhecê-lo pela abstenção da maioria silenciosa e a eficácia de uma pequena mas determinada minoria que do ponto de vista político-técnico "está de parabéns".
ZENIT: Como os portugueses vêem a realidade de que países, como o Brasil, também estejam sofrendo os mesmos tipos de propostas?
Antonio Torres: Com natural tristeza mas também uma serena convicção de que ao lado destas ofensivas legislativas podemos ver comunidades humanas florescentes, vidas individuais extraordinárias e que ainda que com muitas perdas e sofrimentos (infligidos por estas leis) a realidade é sempre mais forte do que a ideologia e que aquela inevitável volta final que tudo isto levará (porque este quadro legal não contribui para sociedades saudáveis nem homens felizes) não será nesse momento uma ocasião isolada e própria, mas constituída de todos os nossos esforços presentes.
ZENIT: Por quê lutar para que não se aprove a adopção de crianças por casais homossexuais, não é homofobia e nem discriminação dos homossexuais?
Antonio Torres: Por três razões: porque o ponto de partida na questão é o direito da criança a ser criada no ambiente mais propício a um desenvolvimento harmonioso (onde exista uma dualidade sexual), porque uma sociedade que trata bem as suas crianças é uma sociedade que tendencialmente tratará bem todos os seus membros e porque de facto no ânimo de quem se lhes opõem não existe nem objectiva nem subjectivamente nenhuma adversidade por muito que lhes custe a acreditar. Já infelizmente o contrário é de recear. Isto é, a classificação como homofobia de qualquer juízo moral e/ou de simples humano demérito sobre a homossexualidade (o que não equivale a estendê-lo á pessoa concreta e muito menos a qualquer inadmissível atitude persecutória) e a oposição aos "direitos" que invocam, arrisca trazer uma perseguição a todos os que assim pensam como infelizmente vamos vendo cada vez mais acontecer por esse mundo fora.
ZENIT: O que os Portugueses de boa vontade ainda podem fazer para dificultar a aprovação dessa lei?
Antonio Torres: Pelos meios que entenderem manifestarem-se nos âmbitos próprios (pessoal, profissional, familiar, social) contra esta lei procurando-se informar adequadamente e sobretudo fazendo sentir aos titulares da responsabilidade política a sua oposição a este projecto. Fazerem-no também no interior dos próprios partidos e quando não pertencendo a nenhum escolhendo o que mais lhes agrade e aí referir-se a quem nesse campo já está na frente deste embate. As pessoas têm mais poder do que supõem. Estas leis não vencem pela força dos seus proponentes mas pela abstenção de quem se lhes opõem. Como dizia alguém: "Nem tudo pode ser mudado. Mas nada é mudado se não for tentado".

Férias


As férias são o tempo mais nobre do ano, porque é o momento em que uma pessoa se compromete como quer com o valor que reconhece como predominante na sua vida
    O tempo da Liberdade don Luigi Giussani                

O tempo da Liberdade

Revista Passos 11-07-2014
don Luigi Giussani
Notas de um diálogo durante um aperitivo com don Luigi Giussani, antes de partir para férias. Milão, 5 de Junho de 1964

Desde os primeiríssimos dias da Gioventù Studentesca que tivemos um conceito claro e simples: o tempo livre é o tempo em que a pessoa não é obrigada a fazer nada, não há nada que sejamos obrigados a fazer; tempo livre é tempo livre.
Como discutíamos frequentemente com os pais e com os professores sobre o facto de que a GS ocupava de mais o tempo livre dos jovens, enquanto deveriam estudar ou ajudar na cozinha, em casa, eu dizia: «Vão ter muito tempo livre os jovens!». «Mas um jovem, uma pessoa adulta», retorquiam, «é julgado pelo trabalho, pela seriedade do trabalho, pela tenacidade e pela fidelidade ao trabalho». «Não», respondia eu, «qual quê! Um jovem é julgado pela forma como usa o tempo livre». Oh, escandalizavam-se todos. Contudo... se é tempo livre, significa que a pessoa é livre de fazer o que quiser. Portanto, percebe-se aquilo que se quer pela forma como se emprega o tempo livre.
Eu percebo o que uma pessoa – jovem ou adulta – quer verdadeiramente não pelo trabalho, pelo estudo, que é aquilo que tem a obrigação de fazer, pelas conveniências ou pelas necessidades sociais, mas pela forma como usa o seu tempo livre. Se um jovem ou uma pessoa madura desperdiça o tempo livre, não ama a vida: é tolo. As férias são, de facto, o clássico tempo em que quase todos se tornam tolos. Pelo contrário, as férias são o tempo mais nobre do ano, porque é o momento em que uma pessoa se compromete como quer com o valor que reconhece como predominante na sua vida, ou então não se compromete de maneira nenhuma com nada e então, realmente, é tola.
A resposta que dávamos aos pais e professores há mais de quarenta anos tem uma profundidade a que eles nunca tinham chegado: o valor maior do homem, a virtude, a coragem, a energia do homem, aquilo por que vale a pena viver, está na gratuidade, na capacidade de gratuidade. E a gratuidade está precisamente no tempo livre que emerge e se afirma de uma forma admirável.
O modo de rezar, a fidelidade à oração, a verdade dos relacionamentos, a entrega de si, o gosto pelas coisas, a modéstia ao usar a realidade, a comoção e a compaixão em relação às coisas, tudo isto vê-se muito melhor estando de férias do que durante o ano. Nas férias a pessoa é livre e, sendo livre, faz o que quer.
Isto quer dizer que as férias são uma coisa importante. Em primeiro lugar isso implica atenção na escolha da companhia e do local, mas sobretudo tem a ver com o modo como se vive: se as férias nunca te recordam aquilo que mais gostavas de lembrar, se não te fazem ser melhor em relação aos outros, mas te tornam mais instintivo, se não te fazem aprender a contemplar a natureza com uma intenção profunda, se não te fazem oferecer um sacrifício com alegria, o tempo do descanso não cumpre o seu objectivo.
As férias devem ser o mais livres possível. O critério das férias é respirar, de preferência a plenos pulmões.
Deste ponto de vista, estabelecer como princípio a priori que um grupo tenha de fazer férias juntos é, antes de mais, contrário ao que foi dito, porque os mais frágeis da companhia, por exemplo, podem não atrever-se a dizer não. Em segundo lugar é contrário ao princípio missionário: ir de férias juntos deve responder a este critério. Seja como for, em primeiro lugar liberdade acima de tudo. Liberdade de fazer o que se quer... segundo o ideal!
O que é que se ganha vivendo assim? A gratuidade, a pureza da relação humana.
Em tudo isto a última coisa de que podemos ser acusados é de estarmos a convidar para uma vida triste ou de obrigar a uma vida de pesar: seria sinal de que é precisamente quem faz objecções que está triste, pesaroso e macilento. Sendo que macilento designa quem não come nem bebe e, por isso, quem não aprecia a vida. E dizer que Jesus identificou o instrumento, o nexo entre o homem que caminha sobre a terra e o Deus vivo, o Infinito, o Mistério infinito, com o comer e o beber: a Eucaristia é comer e beber – ainda que agora esteja muitas vezes reduzida a um esquematismo do qual já não se compreende o significado. É um comer e um beber: ágape é comer e beber. A expressão maior da relação entre mim e esta presença que é Deus feito homem em ti, oh Cristo, é comer e beber contigo. Onde tu te identificas com aquilo que comes e bebes, de tal maneira que, «vivendo na carne, vivo na fé do Filho de Deus» ("fé" quer dizer reconhecer uma Presença).

terça-feira, 29 de julho de 2014

Milagre



Num realista, não é a fé que nasce em resultado de um milagre, mas um milagre por causa da fé
Fiodor Dostoievsky
(Os irmãos Karamazov)