sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A lição de Carmona

Francisco Proença de Carvalho | DE 2014.10.31

Marques Mendes cometeu o erro político de considerar que um arguido não pode ter funções políticas e "tirou o tapete" a Carmona Rodrigues

Quando os políticos seguem o caminho fácil do que "parece bem" e é popular, correm muitas vezes sérios riscos de serem cúmplices de injustiças e, ao contrário do que poderiam querer fazer parecer, perturbadores do regular funcionamento das instituições e da democracia. Demonstram também serem líderes de curta duração, sem grande estofo para aguentarem a pressão própria das responsabilidades que têm. Quiçá já imbuído do espírito de comentador hábil e de mensagem eficaz que hoje lhe reconhecemos, Marques Mendes cometeu o erro político de considerar que um arguido não pode ter funções políticas e "tirou o tapete" a Carmona Rodrigues (então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa apoiado pelo PSD), em virtude do caso que envolveu uma permuta de terrenos com a Bragaparques. Com base no sempre popular princípio de que um político deve estar acima de qualquer suspeita, o então líder do PSD foi aplaudido por marcar um novo estilo de fazer política. 

Marques Mendes durou pouco enquanto líder do PSD, mas o processo arrastou-se pelos tribunais durante cerca de 8 anos. Esta semana, Carmona Rodrigues e mais dois elementos da sua equipa foram absolvidos pelo Tribunal, com argumentos aparentemente bem claros quanto à sua inocência criminal, nomeadamente que a Justiça não se pode fazer com base em boatos ou rumores. 

A Justiça leva o seu tempo e esta decisão vem demasiado tarde. Sem contar com os óbvios prejuízos pessoais e profissionais, Carmona e a sua equipa viram o seu mandato democraticamente concedido, prematuramente interrompido e acabaram para a política. Pelos vistos, não mereciam que tal tivesse acontecido. Deste e de outros casos, deveríamos retirar uma lição: ser arguido (não um condenado) em processos relacionados com a prática de actos de gestão pública, não deve, por regra, ser fundamento para a demissão dos cargos. Essa teoria subverte os princípios do processo penal português (que tem como regra basilar a "presunção de inocência") e que prevê mecanismos próprios para a proibição do exercício de cargos, mas que, como é evidente, só podem ser impostos por juízes. Pior do que isso, esta forma de fazer política subverte, profundamente, a democracia, deixando-a facilmente à mercê de boatos e rumores transformados em crime por um qualquer procurador da república e das suas eventuais motivações políticas. Pelos vistos, à data, Marques Mendes não tinha os poderes de adivinhação que hoje demonstra ter. Se assim fosse, talvez não tivesse cometido esta injustiça para com os titulares de cargos públicos que deveria ter protegido. 

Mais do que isso, aparentou não perceber os perigos que a sua teoria poderia trazer para o exercício da política e para a limpeza democrática que pensava estar a defender. Apesar de estarem na moda, não se espera um pedido de desculpas a estas vítimas do populismo. Os danos que sofreram são inapagáveis, mas pelo menos que a sociedade aprenda alguma coisa com estes exemplos.


Vários


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Já está disponível a tradução oficial para português do discurso do Papa Francisco à Academia Pontifícia das Ciências. É sempre bom ir à origem ver o que foi efectivamente dito.
Discurso do Papa Francisco na Sessão Plenária da P...
Na próxima semana uma conferência sobre o trabalho: Trabalhar para quê? Por Bernhard Sholz o Presidente da Companhia das Obras. No dia 5 de Novembro ás 21:30 no Colégio S. Tomás (Conchas)
Trabalhar para quê? 5 de Novembro
Na semana seguinte a estreia nacional do filme-documentário comemorativo dos 6o anos de Comunhão e Libertação (13 de Novembro, Forum Lisboa – antigo cinema Roma – 21:30)
Estreia do filme "A estrada bela" comemorativo dos... 13 de Novembro
Hoje é véspera de Todos-os-Santos (Halloween). Porém, a Europa trocou crucifixos por abóboras.. É bom lembrar e incentivar os mais novos a seguirem a tradiçõa portuguesa e crista do Pão por Deus.

Aos poucos o dossier Fé e razão | Religião e Ciência. vai ficando mais composto. Chamo hoje a vossa atenção para as Confissões de fé de grandes cientistas
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Tenham pudor quando falam de impostos elevados


José Manuel Fernandes
| OBSERVADOR | 30/10/2014, 16:50

Discutir política orçamental pedindo, ao mesmo tempo, mais despesa pública e menos impostos é algo só possível no mundo irreal do pensamento mágico. Mas é isso que faz o Bloco e o PCP, e também o PS

O realismo mágico é uma criação genial da literatura sul-americana. Já pensamento mágico é o estado habitual, e muito pouco genial, da política portuguesa.
Em qualquer país com um mínimo de literacia política sabe-se que, se quisermos ter mais serviços públicos, temos de pagar mais impostos. É algo que decorre da mais elementar aritmética e ninguém verdadeiramente disputa. Não é assim em Portugal. Infelizmente.
Atentemos nestas declarações. Pedro Filipe Soares, do Bloco de Esquerda, depois de uma reunião com a ministra das Finanças, queixou-se do "saque fiscal por via do IRS" e lamentou que "segurança Social, escola pública, SNS, vão continuar a sofrer o garrote". Já Paulo Sá, do PCP, mostrou-se contrário à manutenção do "enorme aumento de impostos" do IRS e considerou que a fiscalidade verde corresponde apenas a "novos impostos sobre o consumo".
Ou seja, ambos os partidos querem mais despesa mas menos impostos. Sobretudo menos IRS, que o PCP e o Bloco também se preocupam com a classe média. Estaríamos perante um mundo ideal se dois mais dois não fossem quatro.
O PS, que apesar de tudo sabe que corre o risco de ter governar daqui por ano, e teme "hollandices", ao menos reconhece que para continuar a gastar o que se gasta em serviços públicos não é provável que se possa reverter o actual "enorme aumento de impostos", admitindo-se que "ou se baixam impostos, ou se defende o Estado Social". O PS prefere, como ele diz, defender o Estado Social, sendo que na verdade o mais provável é que nem os impostos actuais cheguem e acabem a aumentar tudo, pelo que é importante que apresentem as suas contas. Não se lhes pede, no fundo, que façam mais do que os seus camaradas ingleses que, depois de defenderem mais investimento no Serviço Nacional de Saúde, tiveram de dizer que, para o fazerem, criariam um novo imposto sobre o património imobiliário, uma proposta sincera e realista, uma sinceridade a que não podiam escapar num país onde não se podem fazer promessas no ar, uma sinceridade que foi também uma confissão com custos eleitorais.
Na verdade é bom sabermos do que falamos quando falamos de carga fiscal. É isso que nos permite separar a demagogia do realismo, o populismo da sinceridade.
Quando olhamos para as receitas correntes do Estado, o que verificamos é que elas, em 40 anos de democracia, foram crescendo de forma sustentada, em percentagem da riqueza nacional, até sensivelmente à viragem do milénio. Nessa altura atingiram um patamar próximo dos 40% do PIB e por aí se mantiveram até à chegada da troika e, sobretudo, ao famoso "enorme aumento de impostos" de Vítor Gaspar. Em concreto: 38,5% em 2000, 39,2% em 2005, 39,4% em 2010, e depois 44,2% em 2013. Ou seja, enquanto não chegou aquilo a que a esquerda chama "saque fiscal" nunca as receitas do Estado foram capazes de se aproximar do montante das despesas, mesmo nos melhores anos de crescimento económico (e nunca tivemos anos realmente bons desde a adesão ao Euro).
Ao mesmo tempo que as receitas quase não cresciam, a despesa disparava: 42,6% do PIB em 2000, 46,7% em 2005, 51,8% em 2010. Só com a troika, Vítor Gaspar e austeridade essa subida da despesa foi interrompida, tendo ficado em 50,1% em 2013.
A evolução destes números na última década e meia não devia constituir surpresa. Por um lado, Portugal é um país relativamente pobre quando comparado com os seus parceiros europeus. Por isso é difícil – independentemente das opções políticas – chegar aos mesmos níveis de carga fiscal de alguns dos países mais ricos da Europa. Tomemos o caso do IRS. Como em Portugal a maioria dos rendimentos são muito baixos, mais de metade dos contribuintes não pagam imposto ou estão no escalão mínimo. São agregados cujo rendimento anual é inferior a 10 mil euros. Sim: metade dos agregados tem rendimentos inferiores a 10 mil euros por ano (dividindo por 14, equivale a um rendimento bruto, antes de contribuições, por agregado, não por pessoa, inferior a 714 euros). Isto faz com que, para obter receita, se sobrecarregue a classe média. É essa sobrecarga que explica falar-se de "saque fiscal" em Portugal, quando disso não se fala noutros países onde a carga fiscal é, afinal, bem maior.
Por outro lado, é bom não esquecer que, sem reformas ou "cortes", a tendência da despesa é para ir sempre subindo, subindo, subindo. Basta pensar que as prestações sociais pesavam 12,9% do PIB em 2000, 16,2% em 2005, 18,6% em 2010 e já estavam nos 20,3% em 2013.
São estes os nossos dados de base, as tendências que vêm de longe, aquilo que não se muda de um dia para o outro. A tal aritmética que é necessário ter em conta. A aritmética que nos obriga a tomar opções, não a fingir que é possível viver num mundo sem as limitações da realidade – o que seria mais ou menos o mesmo que fingir que podemos planear as nossas viagens imaginando que não existe gravidade.
A forma mais habitual de fugir à realidade é dizer que o crescimento resolve tudo. Resolveria, é verdade, mas só se tivesse uma dimensão que não conhecemos desde os tempos loucos da Expo 98. Sem crescimento dessa ordem de grandeza – crescimentos que, de resto, nunca aconteceriam com políticas radicais como as do Bloco e do PCP, ou mesmo com as políticas socialistas que foram as que tivemos durante a nossa longa estagnação –, não há como não fazer escolhas.
E as nossas escolhas acabarão por ser escolhas clássicas, sem varinhas mágicas. Por exemplo: achamos razoável que a carga fiscal continue a crescer, pois será isso que acontecerá se não reformarmos o Estado Social? Ou preferimos fazer reformas difíceis, que passam por cortar as despesas, regalias, serviços, para não termos de aumentar os impostos? Ou idealmente para os diminuirmos? Preferimos que o Estado continue a crescer, em nome de um Estado Social sempre idealizado e sempre incompleto, ou sentimos que esse crescimento, por benevolente que seja, pode conduzir à asfixia de mesmo Estado Social, por asfixia da economia? Acreditamos que o Estado gasta melhor o dinheiro do que os privados, e por isso aceitamos uma subida da colecta de impostos e taxas, colecta essa que já não está longe de representar 50% da riqueza nacional? Ou estamos convictos que, para a economia privada criar mais riqueza, ter mais inovação, criar mais portos de trabalho, é necessário aliviar a carga fiscal, e que só assim a economia voltará a crescer?
Como sabe qualquer agricultor, não é possível ter ao mesmo tempo sol na eira e chuva no nabal. Não é possível pagar menos impostos e pedir mais serviços públicos. Num país normal, declarações como as dos responsáveis do Bloco e do PCP não passariam sem escrutínio. Tal como o meio caminho, as meias medidas, do PS exigiriam muito mais veemência nos pedidos de explicações.
O paradoxo do tempos que vivemos é ter sido uma maioria da qual se esperava que optasse pela redução da carga fiscal, ou no mínimo pela sua contenção, a fazer precisamente o contrário, procedendo a um "brutal aumento de impostos". Mas isso não autoriza aqueles que acreditam genuinamente na bondade de impostos elevados e de um Estado omnipotente a tratarem agora de vestir a pele de inocentes cordeiros. Até porque com eles, no limite, seríamos todos funcionários do Estado. Nessa altura seríamos também muito mais pobres do que já somos.

A beata e o baeta

JOÃO TABORDA DA GAMA | DN 2014.10.30

Ter filhos tem uma grande vantagem, para além do IRS: ajuda-nos a formar opinião sobre questões complicadas. Um exemplo: não tenho opinião sobre as presidenciais brasileiras, não li a Veja e não acompanho a política brasileira mais do que o brasileirão. Mas, numa altura em que todos temos de botar faladura sobre tudo, há sempre alguém que pergunta se o resultado das eleições foi o melhor. E aqui entra o método: se tivesse um filho no Brasil, quem é que eu gostava que ele tivesse apoiado? Dá sempre Dilma, não sei porquê. Até sei. Porque associo Dilma a mais convicção e a menos pobreza.
No fundo, o que assusta não é ter um filho revolucionário ou ativista, é a apatia, o desinteresse, a amoralidade, as noites coladas na Xbox. Mesmo que as convicções sirvam de saco de boxe à maioria silenciadora do politicamente correto.
E isto leva a outro exemplo. Nas duas últimas semanas discutiu-se no espaço público as opções de vida da Catarina e do Fábio.
A Catarina e o marido, entre outros jovens casais católicos, publicaram um texto no jornal i no qual defendem e testemunham o cumprimento estrito da doutrina da Igreja sobre sexo. Afirmam sobre a sua sexualidade conjugal: "Dispensamos as pílulas, os preservativos e tudo o que poderia distorcer esta união livre. Não queremos ser objetos sexuais, queremos amar e ser amados. E não queremos excluir Deus desta parte da nossa vida."
O Fábio concebeu e abriu uma barbearia de homens onde senhoras não podem entrar, na Rua do Alecrim. Ao DN, afirmou que "os homens, entendemos nós, gostam de estar à vontade e de ter uma privacidade masculina enquanto recebem esses serviços".
A Catarina assume publicamente como vive a sua fé, vivência minoritária na sociedade portuguesa contemporânea que, mesmo nos meios católicos, gosta pouco de compromissos radicais e da sua verbalização. "Faz o que quiseres com o teu marido, tem os filhos que quiseres, mas não venhas falar disso para os jornais" é o subtexto de muitos dos comentários críticos ao seu depoimento.
O Fábio treinou-se para ser barbeiro, estudou a arte da barba e cabelo. Suspendeu um doutoramento e uma vida boa em empresas grandes lá fora. Quando tantos saem, voltou. Investiu horas e dinheiro numa ideia e nessa ideia cabem braços tatuados, barbas e cabelos de homens, mas não cabem olhos femininos. Por causa disto, a sua barbearia tem sido insultada nas redes sociais, acusada de misoginia. Uma reação desproporcional a uma provocação hipster que é, em rigor, inofensiva quanto ao que realmente importa na luta pelos direitos das mulheres.
A Catarina e o Fábio não se conhecem, acreditam em coisas diferentes, vivem cada um num dos vários mundos que por aí há, mas a sua história é, num ponto, a mesma: uma lição de liberdade, um repto à tolerância. A verdadeira liberdade dá espaço ao incómodo, ao que irrita a alma. E quando a liberdade dos outros nos arrelia devemos aproveitar para pensar: de onde me vem este desconforto? Quanto mais não seja por isso, devemos estar agradecidos à Catarina e ao Fábio.
Mas admito que possa estar a ser parcial e a sofrer de isidrose: a Catarina e o Fábio foram meus alunos e deles guardo boas memórias. A isidrose é a doença que leva ao elogio patológico de uma pessoa mais nova com quem nos cruzámos e à visão desproporcionada da nossa influência no seu destino, e que deve o seu nome ao grande Júlio Isidro ("Fulana de tal canta bem, não canta? Começou no meu programa, eu é que a descobri e lancei."). Já agora, a isidrose é um mal menor quando comparada com o seu inverso, a marcelose, patologia que leva à chacota compulsiva dos antigos alunos ("Ó Judite, fulano de tal foi meu aluno, dei-lhe uma belíssima nota, mas é um autêntico de-sas-tre como político, ouviu?").
A Catarina e o Fábio são dois grandes exemplos de quem vive sem temer os apupos da plateia. Vivem de um modo integral, radical, ideias diferentes mas inofensivas para o resto dos mortais, por mais provocadoras ou minoritárias que sejam. Não quero aqui julgar as suas convicções, mas apenas louvar o facto de as terem com tanta determinação. A determinação que queria muito que os meus filhos viessem a ter na defesa das suas próprias convicções.

Discurso do Papa Francisco na Sessão Plenária da Pontifícia Academia das Ciências

SESSÃO PLENÁRIA DA  PONTIFÍCIA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO 
POR OCASIÃO DA INAUGURAÇÃO DE UM BUSTO
 EM HONRA DE BENTO XVI
Casina Pio IV 
Segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

Senhores Cardeais
Caros Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio
Ilustres Senhoras e Senhores

Enquanto se descerrava o busto que os Académicos queriam na sede da Pontifícia Academia das Ciências, em sinal de reconhecimento e gratidão, uma emoção jubilosa fez-se viva na minha alma. Este busto de Bento XVI evoca aos olhos de todos a pessoa e o rosto do amado Papa Ratzinger. Evoca também o seu espírito: o dos seus ensinamentos, dos seus exemplos, das suas obras e da sua devoção à Igreja, da sua presente vida «monástica». Longe de se fragmentar com o passar do tempo, este espírito manifestar-se-á de geração em geração cada vez maior e mais poderoso. Bento XVI: um grande Papa! Grande pela força e perspicácia da sua inteligência, grande pela sua contribuição relevante para a teologia, grande pelo seu amor à Igreja e aos seres humanos, grande pela sua virtude e religiosidade. Como bem sabeis, o seu amor pela verdade não se limita à teologia e à filosofia, mas abre-se às ciências. O seu amor pela ciência leva à solicitude pelos cientistas, sem distinção de raça, nacionalidade, civilização e religião; solicitude pela Academia, desde que são João Paulo II o nomeou membro. Ele soube honrar a Academia com a sua presença e palavra, e nomeou muitos dos seus membros, inclusive o actual Presidente Werner Arber. Bento XVI convidou, pela primeira vez, um Presidente desta Academia para participar no Sínodo sobre a nova evangelização, consciente da importância da ciência na cultura moderna. Sem dúvida, dele nunca se poderá dizer que o estudo e a ciência aridificaram a sua pessoa e o seu amor a Deus e ao próximo mas, ao contrário, que a ciência, a sapiência e a oração dilataram o seu coração e espírito. Demos graças a Deus pelo dom que concedeu à Igreja e ao mundo com a existência e o pontificado do Papa Bento. Estou grato a todos aqueles que, generosamente, tornaram possível esta obra e este gesto, de modo especial o autor do busto, o escultor Fernando Delia, à sua Família e a todos os Académicos. Desejo agradecer a todos vós que estais aqui presentes para honrar este grande Papa.
Caros Académicos, na conclusão da vossa sessão plenária estou feliz por expressar a minha profunda estima e o meu caloroso encorajamento a levar em frente o progresso científico e a melhoria das condições de vida das pessoas, especialmente dos mais pobres.
Enfrentais o tema altamente complexo da evolução do conceito de natureza. Como podeis bem entender, não abordarei a complexidade científica desta questão relevante e decisiva. Só quero frisar que Deus e Cristo caminham ao nosso lado e estão presentes também na natureza, como afirmou o Apóstolo Paulo no discurso no Areópago: «Em Deus temos a vida, o movimento e o nosso ser» (Act17, 28). Quando lemos no Génesis a narração da Criação, corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem segundo as leis internas que Ele mesmo inscreveu em cada um, para que progredissem e chegassem à própria plenitude. E deu a autonomia aos seres do universo, assegurando ao mesmo tempo a sua presença contínua, dando o ser a todas as realidades. E assim a criação foi em frente por séculos e milénios, até se tornar aquela que hoje conhecemos, precisamente porque Deus não é um demiurgo nem um mago, mas o Criador que dá a existência a todos os seres. O início do mundo não é obra do caos, que deve a sua origem a outrem, mas deriva directamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a. A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.
Ao contrário, no que se refere ao homem, nele há uma mudança e uma novidade. Quando, no sexto dia da narração do Génesis, chega a criação do homem, Deus confere ao ser humano outra autonomia, uma autonomia diferente daquela da natureza, que é a liberdade. E diz ao homem que dê um nome a todas as criaturas e progrida ao longo da história. Torna-o responsável da criação, também para que domine a Criação e a desenvolva, e assim até ao fim dos tempos. Portanto ao cientista, e sobretudo ao cientista cristão, compete a atitude de se interrogar sobre o porvir da humanidade e da terra e, como ser livre e responsável, de concorrer para o preparar e preservar, eliminando os riscos do ambiente, tanto natural como humano. Mas, ao mesmo tempo, o cientista deve ser impelido pela confiança de que, nos seus mecanismos evolutivos, a natureza esconde potencialidades que compete à inteligência e à liberdade descobrir e pôr em prática para alcançar o desenvolvimento que se encontra no desígnio do Criador. Então, por mais limitada que seja, a obra do homem participa no poder de Deus e é capaz de construir um mundo adequado à sua dúplice vida corpórea e espiritual; edificar um mundo humano para todos os seres humanos, e não para um grupo ou classe de privilegiados. Esta esperança e confiança em Deus, Autor da natureza, e na capacidade do espírito humano são capazes de conferir ao investigador uma nova energia e uma profunda tranquilidade. Mas é também verdade que a obra do homem, quando a sua liberdade se torna autonomia — que não é liberdade, mas autonomia — aniquila a criação e o homem toma o lugar do Criador. Eis o grave pecado contra Deus Criador!
Encorajo-vos a dar continuidade aos vossos trabalhos e a realizar as felizes iniciativas teóricas e práticas em benefício dos seres humanos, as quais constituem um motivo de honra para vós. Agora, é com alegria que entrego os colares, que D. Sánchez Sorondo conferirá aos novos membros. Obrigado!

A Evolução e a Fé são Irreconciliáveis?

Actualidade religiosa, 2014.10.29
Por David G. Bonagura Jr.
"A verdade não pode contradizer a verdade". Assim ensinou o Papa Leão XIII e é por essa perspectiva que a Igreja Católica aborda a ciência e a revelação de Deus. Não existe uma única verdade científica que contradiga a palavra de Deus. Se as coisas do mundo natural foram criadas por um Deus omnipotente e reflectem a sua presença, então devem estar de acordo com aquilo que Deus revelou de si mesmo e do Universo, através da sagrada tradição e das sagradas Escrituras.

Às vezes as novas descobertas científicas parecem desafiar a nossa compreensão religiosa do mundo, como quando aprendemos que é o Sol e não a Terra que se encontra no centro do sistema solar. Mas este facto não só não afecta a centralidade do ser humano na criação de Deus (o dogma que supostamente era posto em causa na altura), como acrescenta uma nova perspectiva sobre outra verdade da revelação: que Cristo, representado na iconografia primitiva como o sol, é o verdadeiro centro e fonte de vida da criação e das nossas vidas.

Não há, por isso, qualquer razão para afirmar – como fez um biólogo recentemente no New York Times – que a ciência e a religião são irreconciliáveis. Nem nos devemos contentar em dizer que a ciência e a religião se resumem a "magistérios não coincidentes" que dizem respeito, respectivamente, a factos e a valores. Pelo contrário, os "factos" da ciência são a fundação racional sobre a qual assentam a revelação sobrenatural e os seus "valores". Claro que a ciência e a fé têm objectos diferentes, que têm em consideração as suas diferenças inerentes mas, com o São João Paulo II, sabemos que não existe "razão para qualquer concorrência entre razão e fé: cada um contém o outro e cada um tem o seu campo de acção". 

Mais do que qualquer outra teoria científica contemporânea, a evolução constitui um feroz ataque à compreensão judaico-cristã da origem da humanidade. Desde os autocolantes nos carros que mostram um peixe, símbolo do Cristianismo, com pernas (às vezes com a legenda "Darwin") ao recente artigo no Times que tenta explicar porque é que a fé e a teoria da evolução são incompatíveis, certo defensores da evolução têm afirmado publicamente que a sua versão da génese da humanidade é correcta e que o Genesis não passa de uma história parva.  

É fundamental para a Igreja enfrentar os desafios da teoria da evolução e das origens da humanidade, uma vez que ela ensina de forma infalível que os seres humanos são feitos à imagem e semelhança de Deus, que dotou cada um de uma alma imortal. (A Igreja nunca ensinou como é que isto se passou, uma vez que isso nunca nos foi revelado). Algumas teorias da evolução (existem muitas variações) contradizem esta verdade, afirmando que a existência da humanidade é um acidente material resultante de mutações genéticas e não de intervenção divina. Tais teorias devem ser consideradas incompletas, uma vez que excluem Deus do processo de criação. 

Num famoso discurso, São João Paulo descreveu a teoria da evolução como "mais do que uma hipótese", embora tenha usado o mesmo discurso para apontar os problemas com certas abordagens filosóficas da teoria. Mas deixemos de lado os méritos da teoria da evolução em si. O biólogo do Times dá aos seus leitores três razões pelas quais a teoria da evolução exige que se abandone a fé judaico-cristã na criação. Estas razões, que dizem mais respeito a conclusões humanas do que à ciência, podem ser desmontadas dentro do âmbito científico. 

Pe. George Lemaitre, autor da
teoria do Big Bang
Em primeiro lugar, o autor argumenta que "um processo inteiramente natural e espontâneo, nomeadamente a variação aleatória e a selecção natural" explica a complexidade de organismos que aparentemente requerem um autor inteligente e sobrenatural. Mesmo que tomemos como boa essa afirmação, este "fenómeno inteiramente mecânico e estatisticamente poderoso", apenas exclui a criação Deus ex machina defendida por certas leituras fundamentalistas e equivocadas da Bíblia. Este método não exclui a criação física por Deus através da causalidade secundária, o modus operandi normal de Deus no mundo. Quanto à suposta aleatoriedade, São João Paulo ensina-nos que aos olhos de Deus não há coincidências.

Em segundo lugar, o autor aponta para as ligações filogenéticas entre diferentes espécies. Mas este facto também não faz nada para excluir Deus do processo da criação. Na melhor das hipóteses a diferença extraordinária que existe entre os seres humanos e outros primatas com uma estrutura de ADN semelhante (alguma vez se viu um chimpanzé a debater as suas origens?) aponta para a existência de uma alma humana infundida nos humanos por Deus. Esta é a grande diferença entre homens e bestas. O autor tem razão num ponto, porém: "Nenhum traço literalmente sobrenatural foi alguma vez encontrado no Homo sapiens". A biologia evolutiva, por si, não é capaz de medir a alma imaterial, que é produto de Deus e não da criação material.

Por fim, o problema do mal é colocado de uma perspectiva evolutiva: a predação, a doença e a morte mostram que os humanos "são produzidos por um processo natural e totalmente amoral, sem qualquer indicação da existência de um criador controlador e benevolente". Mas o esforço levado a cabo pelos homens – em todos os tempos e em todas as culturas e religiões – para encontrar sentido no sofrimento e atribuir códigos morais à procriação, mostram que há muito a dizer sobre estes animais racionais do que meramente a sua natureza animal. Os biólogos têm tentado encontrar um "gene moral", mas o sentido e a moralidade transcendem os limites daquilo que qualquer outro animal pode fazer. É estranho que uma espécie supostamente gerada pelo acaso, sem qualquer sentido, tenha esta vontade inata tão intensa de encontrar sentido em todas as coisas. 

Pedimos desculpa ao nosso professor de biologia, mas os seus alunos e leitores não precisam de abandonar a sua fé judaico-cristã à luz da teoria da evolução. Pelo menos em termos das três críticas que ele propõe, não há nada na dimensão científica da evolução que exclua o papel de Deus na criação dos humanos e na infusão das suas almas. Pelo contrário, talvez o professor é que precisa de reavaliar a sua fé na evolução, interpretada a uma luz intencionalmente ateia. 


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014 no The Catholic Thing)

Confissões de fé de grandes cientistas


Estreia do filme "A estrada bela" comemorativo dos 60 anos de Comunhão e Libertação


Verdade e experiência



Os axiomas éticos descobrem-se e testam-se de modo não diferente dos axiomas científicos. A verdade é o que resiste ao teste da experiência
Albert Einstein

Trabalhar para quê?

Scholz by papinto

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Georges Lemaître, Monsenhor Big Bang

A Agência Espacial Europeia presta homenagem a George Lemaire, sacerdote católico e professor belga que foi o primeiro a conceber a ideia do big bang.

Este vido explica quem foi George Lemaitre e como contribuiu para a Cosmologia moderna. Inclui uma entrevista em inglês e francês com o Professor Dominique Lambert, Física Teórica - Universidade de Namur

Esquerda e censura: a vítima sem-vergonha

Gabriel Mithá Ribeiro | OBSERVADOR | 29/10/2014, 11:07

Infelizmente o ambiente em Portugal em matéria de liberdade de pensar, sobretudo para quem não tem pedigree, é tudo menos saudável. Só sobram nichos de exceção, mais ou menos como no tempo de Salazar.

Já o fazia pontualmente antes, mas desde 2003, após a publicação do meu primeiro livro sobre o tema, tento escrever livremente sobre educação. O obstáculo tem sido o de encontrar quem aceite publicar o que escrevo. Foi o desconforto com a liberdade limitada em que vivemos que fez de mim militante partidário. Numa altura em que se adivinhava o desastre eleitoral do governo de Santana Lopes, em fevereiro de 2005, fui pelo meu pé fazer a inscrição na concelhia do PSD da minha área de residência. Acreditava que os tempos de oposição seriam tranquilos para que se debatesse de modo consequente e estruturado o ensino básico e secundário e daí resultasse um projeto político convincente.
Era votante habitual do PSD, mas o lamentável estado do ensino foi a razão da minha militância. Se os partidos políticos se contam entre os maiores responsáveis pelas graças e desgraças da educação, haveria que tentar essa via. Quase uma década passada continuo à espera, pagando as quotas e pouco mais. Talvez um novo ciclo de oposição abra as mentes para que se perceba a razão de falhanços sucessivos de diferentes ministros. Eles acabam também por ser bodes expiatórios de máquinas partidárias disfuncionais nesta área.
Se o sistema é ideologicamente dominado pela esquerda, das universidades aos autores de manuais escolares, passando pela máquina autónoma do ministério da Educação ou pelos sindicatos, o PSD, na qualidade de um dos maiores partidos políticos portugueses, é o que menos tem sido capaz de apresentar propostas sólidas que apontem diferenças substantivas e socialmente credíveis. Elas nem sequer são difíceis de estruturar e conseguir o apoio de parte da opinião pública. O problema é que isso exige capacidade de interpretar um conjunto de sintomas sociais que se manifestam todos os dias nas escolas mas que não captam a atenção séria dos partidos políticos, constituindo a indisciplina nas salas de aula um exemplo maior.
Um par de semanas antes da minha entrada pífia na militância partidária, em 2005, um episódio foi decisivo. Tinha um acordo para escrever na desaparecida «A Capital». Ao fim da segunda crónica intitulada «Mostrengo» fui sumariamente afastado pelo diretor do jornal, Luís Osório. Partilhava a página das minhas ousadias analíticas sobre o ensino com outros paladinos da liberdade de esquerda, no caso Daniel Sampaio e um grupo autointitulado Inquietações Pedagógicas. Estes e outros, como o delicodoce Eduardo Sá, são responsáveis por aquilo que então já era o rumo problemático das políticas educativas que eles sempre têm condicionado com fortes componentes de irresponsabilidade. E assim nos temos arrastado, entre a imposição da censura a uns (nem a "africanidade" e o percurso vivencial de pobreza salva quem não é de esquerda) e o direito à irresponsabilidade de outros, muitas vezes bem-nascidos.
Isto também vem a propósito de um episódio que li esta manhã no Observador. A equipa cessante de responsáveis da revista Análise Social, supostamente das publicações mais prestigiadas na área das ciências sociais – João de Pina-Cabral, Catarina Fróis, Helena Jerónimo, José Neves, Pedro Ramos Pinto e Renato do Carmo – queixa-se da censura do diretor do ICS, José Luís Cardoso. Este retirou de circulação o último número da revista por causa de um artigo ideologicamente explícito da autoria do sociólogo Ricardo Campos. São esses mesmos queixosos de agora que recusaram sucessivos pedidos meus de artigos para publicação. Tentei contestar essas decisões que afetam gravemente a liberdade de produzir conhecimento em meios académicos, situação bem mais grave do que o que acontece na imprensa, avançando com uma publicação "comercial" com o título "O colonialismo nunca existiu!" (passo a publicidade).
Comparando o conteúdo deste livro com o que tudo indica ser o "alegadamente" censurado artigo científico de Ricardo Campos será facílimo identificar quem são os donos ideológicos das universidades públicas e quem tem sentido pressões para se afastar dos meios académicos, para desistir, ou a procurar acolhimento em instituições privadas. E sem artigos publicados nas revistas ideológico-científicas do regime não há candidaturas a contratos para investigador na FCT que tenham hipóteses, até porque a regra é a de os membros dos júris beberem da mesma fonte.
Outra característica que espelha o controlo ideológico do pensamento, com reflexo nas revistas científicas, para além de quem pode ou não publicar e como, é a das bibliografias dos artigos, teses e por aí adiante. Existem autores que aparecem vezes sem conta, ou têm de aparecer, e outros que não convém colocar em determinados ambientes. No meio africanista que conheço, Boaventura de Sousa Santos fica sempre bem. Jaime Nogueira Pinto não ajuda. Mesmo que a qualidade do trabalho do último seja muitíssimo superior à qualidade do trabalho do primeiro e não subsidiado nos avultados montantes do primeiro. Numa pesquisa que fiz sobre relações raciais, um dos autores mais importantes de que tomei conhecimento, Dinesh de Souza, nunca me foi referido pelas pessoas do meio com quem falei sobre o tema e só por acidente soube do livro "The end of racism". Não sendo o autor de esquerda e ousando tocar num dos feudos dos ditos, o racismo, o livro datado de 1995 até hoje não teve direito a tradução por cá, em tantas que se fazem.
Infelizmente o ambiente em Portugal em matéria de liberdade de pensar, sobretudo para quem não tem pedigree, é tudo menos saudável. A graça é que sobram sempre alguns nichos de exceção, mais ou menos como no tempo de Salazar.
Historiador, especialista em estudos africanos

Porque é que a imprensa não foi “preguiçosa” a favor do governo?

Rui Ramos | OBSERVADOR | 2014.10.29

O jornalismo e a opinião, no seu todo, exaltam o que tem sucesso, aderem ao que veio para ficar, deixam-se convencer por quem parece convencido. Seguem o poder, mais do que simpatias ou ideologias.

O primeiro-ministro queixou-se dos jornalistas e dos comentadores, o que, como seria de esperar, teve o efeito de assanhar uns e outros. Mas Passos Coelho tem razão: poucos governos, em tempos recentes, enfrentaram um coro mediático tão hostil. E também tem razão quando fala de "preguiça" e dessa forma refinada de preguiça que é o instinto de rebanho. A questão é perceber porque é que essa preguiça tomou, nos últimos três anos, a forma de hostilidade ao governo.
Apareceram duas explicações. A primeira é esta: a imprensa ter-se-ia "limitado" a reflectir o ressentimento contra um governo que teve de executar o memorando da troika. Pode ser que sim. Mas porque é que jornalistas e comentadores se "limitaram" a isso? A segunda explicação é que o conformismo em Portugal, em termos jornalísticos e de opinião publicada, é de esquerda. Talvez seja. Mas António José Seguro saiu em cruzada contra a direita, e nem por isso deixou de ter uma imprensa tão má como a de Passos.
Assim, valerá a pena considerar outra razão, que tem a ver simplesmente com o poder. O facto é que ninguém acreditou na possibilidade do ajustamento, e portanto na permanência do governo. Logo que foi conhecido o memorando, em 2011, a sabedoria nacional declarou-o impraticável. Nos dois anos seguintes, no meio da "crise do Euro", toda a gente esteve preparada para uma sucessão grega de resgates e de governos.  A cada acórdão do Tribunal Constitucional, falou-se de "eleições antecipadas". Mais: em Julho de 2013, viu-se que o governo também não acreditava no sucesso do ajustamento: de outra maneira, não fazem sentido as demissões dos dois ministros de Estado. Quanto à fé nas "reformas", basta pensar nas peripécias do seu "guião".
É isto que verdadeiramente explica a atitude de jornalistas e comentadores. O jornalismo e a opinião, no seu todo, exaltam o que tem sucesso, aderem ao que veio para ficar, deixam-se convencer por quem parece convencido. Seguem o poder, mais do que simpatias ou ideologias. É uma questão de sobrevivência: causas perdidas nunca venderam um jornal, previsões erradas nunca fizeram avançar uma carreira. Ora, desde 2011 que a actual "situação" jamais deu provas de que ia durar. Nestas circunstâncias, quem quis ser o único jornalista a não antecipar o fim, ou o último comentador em sintonia com um projecto condenado? (O mesmo vale para o caso de Seguro: durante três anos, toda a imprensa esperou a sua substituição por Costa, o qual, por isso mesmo, teve "boa imprensa".)
Ainda mais: se o governo nunca acreditou muito no caminho da troika, também nunca lhe viu alternativa. Este foi um governo fatalista, mais do que "ideológico". Por isso, a sua tendência não foi para se aproximar, seduzir, ou persuadir, mas para se isolar, dobrado sobre as suas próprias dúvidas e hesitações. Nunca tentou controlar a "agenda", como fez Sócrates. Aos primeiros contratempos, desistiu de falar em público, para além das intervenções requeridas pelo protocolo democrático. Só agora, ocorreu à maioria parlamentar a conveniência de ministros "explicarem" o que fazem.
Mas se o governo esteve sozinho, a oposição não esteve mais acompanhada. Pouca gente confiou nas suas fabulosas "alternativas", a começar pelo mitológico "berro à Merkel". As "pequeninas vitórias" do PS e do PCP, o colapso do BE ou o fiasco final das manifestações, reduzidas aos autocarros da CGTP, provam que as frustrações do governo não fizeram as alegrias da oposição. É pouco provável que eventuais sucessores de Passos venham a ter menos razões de queixa de jornalistas e comentadores.