domingo, 30 de novembro de 2014

A tentação hollandista de António Costa

Costa continua sem concretizar políticas e sem dizer como vai pagar o fim da austeridade, mas tal não evitará que lhe cobremos pelas ilusões que vai criando, sobretudo quando opta por virar à esquerda

Seis meses depois de ter desafiado António José Seguro, António Costa foi ontem entronizado líder do PS. Durante estes seis meses conseguiu uma proeza: nunca disse como, com que recursos, com que dinheiro, vai fazer diferente. Esquivo, não fala do dia seguinte, aquele que preocupa quem tem os pés na terra, elabora apenas sobre a década seguinte. Mas isso não o tem impedido de fazer mais do que promessas – na verdade tem vindo sobretudo a alimentar ilusões. Por este caminho está a colocar-se numa posição "à la Hollande", mesmo que muitos o tenham alertado para o risco dessa estratégia.
Num congresso de que não se esperavam novidades, a novidade foi a viragem à esquerda. Viragem à esquerda na selecção de quem discursava e quem não discursava, deixando Francisco Assis de fora. Viragem à esquerda na escolha dos nomes para o núcleo duro da direcção, o secretariado. Viragem à esquerda na recusa de qualquer entendimento com os partidos à direita do PS, o novo tabu de Costa. Viragem à esquerda na preparação, desde já, de um confronto com o Presidente da República, pois é esse o significado da passagem "não podemos estar 80 dias à espera de um acordo de coligação" – se "não podemos", então já se está a ver que, caso o PS não tenha maioria absoluta, vai pedir para governar sozinho, contra a vontade de Belém e as necessidades do país.
Em política os sinais são muito importantes, e o sinal que António Costa quis dar coloca-o bem mais longe da imagem de moderação que alimentou junto de certos sectores da opinião pública. A escolha de Ferro Rodrigues para liderar a bancada parlamentar afinal não aconteceu por acaso nem se destinou apenas a acalmar uma parte das hostes. Ao chamar para a sua direcção política deputados cujo discurso muitas vezes mal se distingue do discurso do Bloco de Esquerda, como é o caso de Sérgio Sousa Pinto ou João Galamba, António Costa não está à procura de equilíbrios, está sim a mostrar que quer um PS mais radical do que o PS histórico. Um PS radicalizado que já está, de resto, a fazer estragos, como sucedeu esta semana no Parlamento, ao romper o acordo que tinha com a actual maioria relativo à descida gradual do IRC.
Se ficarmos apenas pela superfície das coisas, típica de algumas análises políticas, poderíamos interpretar esta guinada como uma manobra destinada a tentar encurralar os partidos mais à esquerda e a impedir o crescimento eleitoral de forças capazes de pescar nas águas turvas dos "indignados". Costa não tem ilusões sobre a possibilidade de governar em coligação com o PCP ou com o Bloco, e por isso deseja reduzir esses dois partidos à expressão mínima, única forma de poder sonhar com uma maioria absoluta (quanto ao Livre, cada dia que passa essa formação se parece mais com uma espécie de novo MDP do PS).
Mas esta interpretação é insuficiente e é perigosa. Insuficiente porque ilude um dos problemas do actual PS, o problema de muitos dos seus quadros e militantes terem hoje uma retórica radical, uma retórica que afasta o partido do centro-esquerda e o aproxima da esquerda radical. E perigosa porque assente em ilusões que tornam o PS de Sócrates imensamente parecido com o PSF de Hollande, um partido cuja retórica recupera muitas das lógicas estatizantes e anti-capitalistas, por vezes com imaginário quase utópico, com referências discursivas que nos habituámos a encontrar apenas na esquerda radical.
Não me surpreende que um PS na oposição radicalize o seu discurso e descreva os últimos anos de forma apocalíptica. Está na natureza das coisas. Já me surpreende que o PS acredite poder alimentar a ilusão de uma viragem radical de políticas, algo que os seus quadros mais lúcidos, os que têm os pés na terra, sabem que não vai acontecer. Aliás basta ver aquilo, muito pouco, que saiu de concreto deste Congresso para perceber que o PS de Costa nem sequer sabe como fazer essa viragem, muito menos como pagá-la.
Na verdade, que tem o PS de Costa para oferecer aos portugueses? Primeiro, uma aposta na qualificação, uma velha mezinha com que todos estarão de acordo mas que, mesmo tendo êxito, nunca terá resultados no curto ou até no médio prazo. E negociações com a União Europeia, na retórica para corrigir as assimetrias da moeda única, na prática para tentar encontrar mecanismos de outros pagarem as nossas contas. É muito, muito pouco, mas revela bem um drama que não é apenas dos socialistas portugueses, é de toda a social-democracia europeia.
A verdade é que a esquerda social-democrata europeia não tem hoje respostas para os problemas europeus, sobretudo para os problemas da zona euro. Quando está na oposição, barafusta contra a austeridade. Quando governa, é obrigada a promover as reformas a que antes se opunha, reformas como as que estão a fazer Renzi em Itália e Valls em França.
Ora Costa levou para a sua direcção quadros que têm sido virulentos nas críticas não só a estes dois primeiros-ministros socialistas, como ao Tratado Orçamental, o que sugere que pretende uma qualquer nova via, capaz de descobrir dinheiro onde ele não existe e restaurar a honra perdida da esquerda socialista. Mais: deixou de fora de todos os órgãos directivos e ostracizou no Congresso um dos poucos socialistas que tem procurado, com realismo, reflectir sobre estes dilemas – Francisco Assis.
Este caminho que Costa está a seguir, mesmo sem promessas de impostos sobre as fortunas ou de descidas da idade da reforma, é o caminho que Hollande percorreu antes de chegar ao poder. E por o ter percorrido, por ter alimentado ilusões irrealistas, a desilusão foi o que foi e o que está a ser.
Para além de que Costa não vai poder aguentar mais dez meses sem concretizar as suas políticas. Houve um tempo em que o eleitorado queria ouvir promessas, mas esse tempo passou. Hoje o eleitorado exige também saber como, com que recursos, se cumprem as promessas. Ou se pagam as ilusões alimentadas nestes dois dias que foram, também, de fingimento – o fingimento de que ali ninguém tinha a nada a dizer sobre o ausente, para depois colocar a voz e o pensamento do ausente, por interpostos figurantes, no próprio secretariado.

Muhammad Yunus: “A ideia de procurar emprego está errada. É orientar para outro tipo de escravatura”

 


O pai do microcrédito acredita que não devemos procurar mas sim criar o nosso próprio emprego. Em conversa com o PÚBLICO em Londres defende ainda que a eliminação da pobreza é o passo para acabar com a escravatura


Oito anos depois de ter recebido o Nobel da Paz, Muhammad Yunus continua a ser uma estrela. Yunus é interpelado várias vezes depois do seu discurso na conferência anual Trust Women, organizada em Londres pela Thomson Reuters Foundation, a 18 e 19 de Novembro, e dedicada ao tema das mulheres e da escravatura. As conversas com curiosos são constantemente interrompidas, é-lhe pedido que tire selfies. Bem-disposto, vai aceitando, sorrindo.
Yunus (n.1940) recebeu o Nobel da Paz em 2006 pela fundação do banco Grameen e pela criação do microcrédito (pequenos empréstimos a pessoas pobres). Nascido no Bangladesh, criou o Yunus Centre, que desenvolve a sua filosofia e funciona como apoio aos negócios sociais (negócios sem prejuízos, nem dividendos, mas com mais valias sociais). Yunus não quis falar do Grameen e da polémica que o envolve (o governo do Bangladesh, em 2011, acusou-o de atropelos à lei; Yunus considera-se vítima de perseguição política).
Na conferência de Londres, encontrou-se com o Nobel da Paz deste ano, Kailash Satyarthi, o activista indiano que salvou 80 mil crianças do trabalho forçado. Conversa de 25 minutos num dos intervalos da conferência.
Kailash Satyarthi, na sua intervenção, contou a história de uma criança que tinha perguntado: o que nos impede de acabar com a escravatura? Quer responder? 
Muhammad Yunus: Há muitas coisas erradas no mundo às quais as pessoas não ligam, e esta é uma delas. Diria que a resposta é a indiferença: as pessoas estão tão focadas em fazer dinheiro, na perseguição do lucro, em ambições pessoais em termos de quanto dinheiro se ganha... Temas como a violação dos direitos humanos, a escravatura infantil, a pobreza, a disparidade salarial não interessam. Nesse contexto, as pessoas tornam-se muito egoístas porque isso é encorajado num sistema que é alicerçado no egoísmo.
A escravatura é também um produto disso, entre outras coisas. Está-se tão focado em fazer dinheiro que não há interesse pelos direitos humanos das pessoas, subjugam-se as pessoas para fazer dinheiro com elas.
Disse que os negócios sociais poderiam ser uma maneira de prevenir o tráfico de pessoas. Pode explicar melhor como? 
As vítimas são pessoas que estão à procura de oportunidades porque não as tiveram nem as vêem na sua vida. As mães vendem os filhos e entregam-nos porque têm tão pouco que não conseguem alimentá-los. E pensam que, se os derem,
 recebem dinheiro – é um instinto de sobrevivência que as leva a sacrificar os filhos. Mas se conseguirmos melhorar a qualidade de vida dos pais a incidência desse problema diminui. Como? Criamos negócios sociais para empregar pessoas que não têm salários. É uma acção preventiva, tirar as pessoas da pobreza, de modo a que não estejam sob pressão para as vender, as mandar para a prostituição, etc. Isso é o que pode fazer um negócio social. Num negócio convencional não é isso que acontece: quer-se fazer dinheiro. Precisamos de negócios que não estejam sedimentados nos interesses pessoais, no egoísmo. São os negócios sociais, que não têm dividendos.
Os problemas a resolver são ajudar as famílias a melhorar a sua qualidade de vida, de educação, ou a criar emprego ou negócios, de modo a não se tornarem vulneráveis à pressão de vender os seus filhos.
Criou dois conceitos fortes, microcrédito e negócio social. Tem algum outro conceito que permita acabar com a escravatura ou fazer avanços na prevenção e combate?
O combate é mais um tema de lei e ordem – apanhar quem faz negócio com escravatura, condenar, etc. Estes são os mecanismos que existem, como deixar o sistema alerta de modo a receber os sinais das pessoas que estão em dificuldade, como melhorar a parte do crime, do sistema judicial e de modo a que os perpetradores não saiam ilesos.
A solução é criar consciência sobre o tema. Muita gente, mesmo os indianos, não sabe que metade do trabalho escravo infantil está na Índia. Se soubermos quantas pessoas estão nessa situação então ficamos alertas, fazemos disso um tema político, tornamo-lo um tema global. Então a questão é de como melhorar as leis, tornar o sistema sensível de modo a não se arrastar durante anos até chegar a uma conclusão. Estes são os temas da luta contra o crime. No comércio sexual mundial há mulheres a entrar no esquema e porque entram? Porque não têm alternativa e caem na armadilha. Se tiverem melhores alternativas não caem no tráfico.
O seu objectivo era que o Bangladesh cumprisse a meta dos objectivos do milénio para 2015. Como é que está neste momento nessa matéria?
Está muito bem. O objectivo número um, de erradicar a fome e a pobreza extrema em metade, conseguiu fazê-lo dois anos e meio antes – um dos países mais pobres do mundo atingiu isso antecipadamente. Em relação aos outros objectivos tem um bom desempenho, excepto na saúde maternal, mas estamos a tentar corrigir isso de modo a que, quando chegar Dezembro de 2015, atinjamos o objectivo ou cheguemos lá muito perto. Estamos a aplicar tecnologia para identificar a gravidez, desenvolvemos aplicações de telemóvel para mulheres grávidas em que respondem a 20 perguntas e, de acordo com as respostas, uma mulher pode identificar se está numa gravidez de risco – no Bangladesh 16% das gravidezes são de risco.
Com Índia, China, e outros países, o Bangladesh perfaz 71% dos 35,8 milhões de escravos estimados no mundo pelo Índice Global da Escravatura. Como explicar a concentração de escravos nesta região? 
Não digo que 0,434% [a percentagem estimada pelo Índice em relação ao Bangladesh] é bom, porque é sempre um problema. Mas o Bangladesh tem quase 160 milhões de pessoas. Isto comparado com o que existe noutros países é pouco. E a maioria dos escravos do Bangladesh é levada para a Índia, Médio Oriente.
A concentração na Índia explica-se por ser um país enorme. Há a tradição – as pessoas nem se apercebem do que estão a fazer. A servidão por dívida, por exemplo, é culturalmente aceite e as pessoas não percebem o quão violento é. É uma coisa que tem uma longa tradição. A lei está lá mas não é aplicada. A aplicação da lei é uma dificuldade neste momento. 
Disse na conferência que em vez de procurarmos emprego devíamos criar as nossas próprias oportunidades, até porque naturalmente os seres humanos vão atrás das coisas. Como é que alguém que sai da escravatura pode criar essa relação com o emprego?
A ideia de procurar emprego está errada, isso é orientar os seres humanos para outro tipo de escravatura. O emprego é um tipo de escravatura porque se está às ordens de outra pessoa. Aceita-se um emprego, há horários e condições que se têm de aceitar: por isso não se é livre. Porquê escolher isso? Por que não ser livre, tomar as decisões sobre o que se quer fazer? Isso é o estado natural do ser humano. Quando se aceita um emprego começa-se por baixo. Vai-se subindo de nível, até que, no fim da vida, eventualmente se chega ao topo. Isso é uma utilização muito limitada do talento humano. Os seres humanos têm um poder criativo tão grande. Porquê perder a energia e o poder, fazendo algo que outros mandaram, e que nós podemos não gostar, só para ter um cheque ao fim do mês? Assim estamos a vender-nos. E para quê? Temos é que fazer as coisas de que gostamos. Por isso, o nosso estado natural é sermos criadores do nosso próprio emprego, sermos, nós próprios, empreendedores.
Como é que seria o mundo só com empreendedores? Não precisamos de pessoas que sigam outras?
Seria divertido, toda a gente ia adorar. Imagine que eu seria empreendedor e você também. Você precisava de mim e eu de si, teríamos uma parceria, trabalharíamos juntos. Seríamos livres. E esse seria o nosso trabalho. Faria as coisas porque queria, e não porque precisava.
Um exemplo mais prático, pensemos num restaurante, como é que funcionaria?
Eu não digo que toda a gente se vai tornar empreendedor. O que digo é que os seres humanos são todos naturalmente empreendedores. As circunstâncias levaram-nos, porém, a procurar emprego. Mas o sistema hoje está a dizer às pessoas: "Têm que procurar emprego". Eu digo que isto é errado. Deve dizer-se aos jovens: "Têm duas opções: podem ser vocês próprios e empreendedores, ou procurar emprego."
Devemos dizer a nós próprios: "Somos criadores de emprego não 'procuradores' de emprego." Não é isso que acontece. Chegamos à reforma e continuamos a trabalhar para outros: que tipo de vida é essa? É outro tipo de escravatura. O que digo é que a nossa vida deve ser aquilo com que sonhámos, e fazer com que isso aconteça. Hoje é possível. A tecnologia ajuda. Podemos produzir muita coisa sozinhos e depois em parceria. Imagine-se que não se consegue fazer isso, que temos medo. Digo: "Aceite então um trabalho, mas nunca desista do sonho de ser empreendedor". Estar num emprego pode ser temporário, o objectivo é chegar a ser empreendedor. Não estou a dizer isto para insultar mas para lembrar: "És muito maior do que aquilo que estás a fazer." 
É optimista. Acha possível erradicar a escravatura? 
Claro. Se se erradicar a pobreza acaba-se necessariamente com a escravatura. Para quê ser escravo se não se é pobre? A escravatura é um sintoma da pobreza, de privação, de não ter as oportunidades que quero para a minha vida. Se conseguir melhorar a qualidade das pessoas na base, porque é que serão escravos?  

O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha

José Diogo Quintela
Público, 2014.11.30 

O leitor tem opinião sobre o caso José Sócrates? Não tenha. Isso configura um delito de julgamento na praça pública. A não ser que ache que José Sócrates está a ser vítima de justicialismo. Nesse caso, tem licença de porte de opinião. Para não haver dúvidas, aqui vai uma cartilha com o que é admissível pensar:
a) Avaliar a hipótese de José Sócrates ser culpado? Não se pode.
b) Levantar dúvidas sobre a idoneidade do juiz Carlos Alexandre? Pode-se.
c) Questionar as reais motivações do procurador Rosário Teixeira? Pode-se.
d) Sugerir que Joana Marques Vidal orquestrou este charivari? Pode-se.
e) Desconfiar de um propósito tenebroso do sistema judicial? Pode-se.
f) Suspeitar de manipulação obscura pela comunicação social? Pode-se.
g) Insinuar que o Passos Coelho lucra com isto? Pode-se.
h) Alvitrar que Portas é que devia ir preso por causa dos submarinos? Pode-se.
i) Considerar que Cavaco Silva tem negócios ilícitos com os seus amigos do BPN? Pode-se.
j) Conjecturar que isto é tudo uma cabala montada pelo PSD para distrair dos vistos gold? Pode-se.
Em termos de limitação à liberdade de opinião, só é proibido achar que José Sócrates pode ser culpado. Quem violar esta disposição tem de se haver com a brigada de trânsito em julgado. De resto, é tudo debatível.
Mas mesmo a defender José Sócrates há que ter cautela. Por exemplo, João Soares disse que "excepto por crime de sangue, em flagrante delito, não aceito a prisão (…) de um ex-primeiro-ministro como José Sócrates". Precipitou-se. Mesmo segurando arma pingona de sangue cravada em cadáver, nunca se aceitaria a detenção de Sócrates. A presunção de inocência manter-se-ia. Possivelmente seria legítima defesa. Ou um acidente. Ou, o mais provável, uma armadilha da suposta vítima que se lançara contra Sócrates enquanto este cortava o pão, para se empalar 17 vezes na faca e incriminar quem só desejava fazer uma sandes mista.
Entretanto, debrucemo-nos à enorme parcialidade demonstrada pela Justiça. De todos os ex-primeiros-ministros vivos, por acaso detiveram Pinto Balsemão no aeroporto por suspeitas de corrupção no caso Cova da Beira? E à chegada de que voo é que incomodaram Mário Soares a propósito da falsificação de documentos da Licenciatura em Engenharia? Ou Cavaco Silva, por alegada troca de favores no caso do TagusPark? E Guterres por beneficiar de um RERT por ele aprovado? Já para não falar de Durão Barroso, pelo Face Oculta, e Santana Lopes, pelo Freeport. Porque é que tinham de embirrar logo com este?
Num ranking de sanha persecutória, José Sócrates entra directo para o top 5 dos mais injustiçados da História. Neste momento, a tabela organiza-se assim: 5) Bruxas de Salém; 4) Capitão Dreyfus; 3) Galileu; 2) José Sócrates [nova entrada]; 1) Jesus Cristo. Apesar de uma detenção no Jardim de Getsémani ser menos maçadora do que na manga de desembarque de um voo TAP, e mesmo tendo em conta que, na verdade, Jesus estava mesmo a pedi-las, o Nazareno continua à frente porque a sua condenação injusta originou a maior religião do mundo. Mas José Sócrates ainda tem tempo.

Uma agitação mental


No fundo, a guerra que se prepara será a guerra entre estes dois Diabos: o Diabo da Esquerda, talvez Ricardo Salgado, e o Diabo da Direita, inevitavelmente Sócrates.


De Évora, Sócrates disse ao jornal "Expresso" que "se sentia mais livre do que nunca". Isto à primeira vista parece incompreensível, quando ele está detido numa cadeia de alta segurança. Mas Sócrates vai explicando que "só deixa de ser livre quem perde a dignidade" e que, aparentemente, ele não perdeu a dele.
Alguém lhe terá de explicar que não foi preso pela PIDE, a KGB ou a STASI por razões políticas. E que, pelo contrário, a Judiciária e um tribunal civil independente o puseram em Évora por suspeitas de que ele é um criminoso. Cá fora não o espera a apoteose de um herói por uma causa qualquer. Se nada se provar contra ele, encontrará um grupo de amigos, com certeza um pouco embaraçados, que lamentarão o equívoco como lamentam hoje um erro da justiça.
Infelizmente, no meio da excitação que o episódio provocou (e também a condenação de Duarte Lima, a falência do BES e os vistos "Gold"), algumas pessoas acabaram por se convencer da morte iminente do regime. Rui Rio, por exemplo, um homem com reputação de inteligência e bom senso, anunciou agora que "em 1974 caiu um regime"; que "o actual regime já fez 40 anos" e "não é eterno"; e, sobretudo, que "se todos os regimes tiveram um fim, este também terá". Não sei se Rui Rio se tornou um presidencialista e suspira pelo dia em que voltará de Colombey, perante o regozijo do povo. Mas sei que existe um presidente da República, um exército que lhe obedece, um governo e as suas polícias, juízes nos tribunais e meia dúzia de partidos com dezenas de milhares de militantes. Não reconheço neste arranjo das coisas uma situação "pré-revolucionária".
O que reconheço é a deturpação das legislativas de Outubro (ou de Setembro). Sócrates foi promovido a Diabo pela direita, como fautor da crise e da "austeridade" e, desde a semana passada, como detido 44 da cadeia de Évora. E, por outro lado, a esquerda anda a promover desde 2011 o grande Diabo colectivo da finança internacional e nacional, os patrões, os fanáticos do "neo-liberalismo" e até, indiscriminadamente, "os ricos". No fundo, a guerra que se prepara será a guerra entre estes dois Diabos: o Diabo da Esquerda, talvez Ricardo Salgado, e o Diabo da Direita, inevitavelmente Sócrates. Lamento o esforço de Passos Coelho e de António Costa. Mas gostava de lhes lembrar que, mal ou bem, a mesma gente, nomeada por eles, se irá sentar na Assembleia da República. 

Começou o Advento



Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha; não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir.
Mc 13: 35-37

Começa hoje o Advento. Esta vigília atenta pode ser feita em família usando, como útil instrumento, este Advento rezado em família (2014) que a Associação de Pais de Alunos do Colégio São de Brito todos os anos edita para o Advento

Advento rezado em família (2014)

Livro Do Advento 2014

sábado, 29 de novembro de 2014

Rankings: quem é responsável pelos maus resultados?

Como em tudo na vida, há boas e más escolas, e estudar numas ou noutras faz muita diferença para o percurso escolar de um jovem. Aceitar isto tem consequências em termos de prestação de contas.

Todos os anos, os rankings fazem-nos discutir as mesmas questões e tirar as mesmas conclusões. E, todos os anos, quem não gosta do que os rankings mostram aplica-se em explicações sobre os porquês destes constituírem um ataque à escola pública. Sim, os rankings têm limitações e nem tudo na educação é mensurável. Mas admitirmos esses limites não nos deve impedir de usar os rankings com prudência e, claro, de ter em conta aquilo que eles nos revelam sobre o funcionamento das escolas.
O problema é que isso nem sempre tem acontecido. Com 14 anos de publicações sucessivas dos rankings, muito melhorou, é certo, mas o debate público ainda alimenta mitos, os directores continuam a não dar real importância aos resultados e o Ministério continua a fingir que não vê os problemas que aparecem retratados nos dados. Há, obviamente, muitas razões para isso acontecer e muita coisa a dizer sobre os rankings. Hoje, limito-me a abordar três aspectos relacionados com uma questão habitualmente mal compreendida – a relação entre o perfil socioeconómico dos alunos e a responsabilização.
1. O primeiro aspecto é o óbvio: não se pode comparar desempenhos escolares sem ter em conta os perfis socioeconómicos dos alunos. Infelizmente, há ainda muita gente que acha que isso é uma teoria facilitista, quando está provado em milhares de artigos e estudos que esse perfil socioeconómico é o melhor indicador para prever o desempenho escolar. Algo que, na prática, significa que um jovem nascido numa família privilegiada tem melhores condições para atingir o sucesso escolar do que um jovem de uma família desfavorecida. Enfim, não é um fatalismo, mas é uma constatação estatística: um filho de licenciado tem maior probabilidade de obter uma licenciatura do que um filho de analfabeto.
Este é um ponto sensível do debate público, porque é habitualmente usado de forma hipócrita – usa-se quando dá jeito, esquece-se quando não dá. Por exemplo, quem afirma que as escolas privadas são "melhores" tende a não valorizar o socioeconómico. Ou, por exemplo, veja-se que são normalmente os professores das públicas a recordar a importância desse factor socioeconómico, no sentido de enquadrar os resultados dos seus alunos (para não serem indevidamente responsabilizados pelas notas). Mas, o que os professores consideram verdade quando aplicado aos seus alunos passam a considerar mentira quando aplicado a alunos que querem ser professores (e que frequentam os cursos de ensino). As reacções de dezenas de professores a este meu texto no Observador falam por si. Ora, o perfil socioeconómico não é para ser usado só quando interessa.
Vale a pena salientar a importância da questão social porque ela tem implicações importantes na leitura dos rankings. Saber que uma escola está no top10 porque a média dos exames do secundário dos seus alunos é de 13 não quer dizer nada se não soubermos o perfil desses alunos e tivermos, portanto, uma expectativa quanto ao seu desempenho. Se, nessa escola, a média esperada fosse 14 valores, então 13 não é um bom resultado. Mas se o esperado fosse 12 valores, então 13 já revela um bom desempenho. Isto faz toda a diferença.
Um caso concreto: a Escola Secundária António Nobre, no Porto, obteve uma média de 7,58 valores no secundário (212 provas realizadas) quando o valor esperado em função do contexto social era de 10,16 valores. Há aqui alguma coisa que correu mal, visível não tanto pela média alcançada em si, mas pela distância face ao que se esperava.
(Infelizmente, as escolas privadas, incluindo as escolas com contrato de associação, continuam a não divulgar os dados socioeconómicos dos seus alunos, limitando a comparação face às escolas públicas. Não se percebe porquê, e é cada vez menos aceitável que assim aconteça.)
2. O segundo aspecto é a continuação lógica do primeiro e tem a ver com responsabilização. Enquanto não foi possível comparar adequadamente escolas públicas entre si (porque faltavam dados socioeconómicos), vigorou uma espécie de lei não-escrita que dizia que as escolas públicas eram todas iguais e que, por isso, não era necessário avaliá-las – só mudava o tipo de alunos que tinham (bons ou maus, ricos ou pobres). Falar do perfil socioeconómico era, no fundo, dizer que não era possível retirar conclusões sobre o desempenho médio das escolas: durante demasiado tempo, acreditou-se que o sucesso ou insucesso de um aluno era alheio ao desempenho da escola. Aliás, é uma das coisas mais surpreendentes no sector da educação em Portugal: formalmente, ninguém é responsabilizável pelos resultados dos alunos. Excepto o ministro.
Ora hoje, com rankings melhores, podemos comparar escolas e verificar que não é assim: há escolas que superam os resultados esperados (medidos de acordo com esses perfis socioeconómicos) e há escolas que ficam aquém do esperado. Em 2014, 56% das escolas ficou aquém do esperado – o que mostra que há muita margem para melhorias. Ou seja, como em tudo na vida, há boas e más escolas, e estudar numas ou noutras faz muita diferença para o percurso escolar de um jovem.
Aceitar isto tem consequências, nomeadamente em termos de prestação de contas. Se as escolas têm níveis de desempenho e qualidade distintos, é fundamental que isso seja avaliado: as que prestam um mau serviço educativo têm de ser identificadas e ajudadas a melhorar, pois estão a prejudicar alunos que não terão uma segunda oportunidade.
Se as escolas têm níveis de desempenho e qualidade distintos, é necessário informar os pais e dar-lhes liberdade para escolher a escola dos seus filhos dentro da rede pública.
Se as escolas têm níveis de desempenho e qualidade distintos, é indispensável perceber porquê e apurar responsabilidades – recompensando o mérito de quem trabalhou bem e penalizando o demérito de quem serve mal os alunos (por exemplo, por que não incluir o desempenho dos alunos como um entre vários critérios de avaliação dos professores?).
Há, de facto, escolas que precisam de ajuda, e compete ao Ministério ajudá-las, sabendo que a melhoria se constrói à base de trabalho e de medidas estruturais. Por exemplo, a ideia dos créditos que o Ministério implementou não é má e poderá ter ajudado algumas escolas, mas é insuficiente e não serve as escolas com maiores dificuldades. Outras medidas se exigem. De resto, é cada vez menos compreensível que seja indiferente para a carreira de um professor o que acontece aos seus alunos. Tal como é cada vez menos compreensível que as escolas não tenham de se comprometer com objectivos de melhoria dos desempenhos escolares.
3. O último aspecto tem a ver com o que não aparece nos rankings e que também é uma questão socioeconómica. Quantos alunos desfavorecidos são rejeitados por escolas que não querem baixar a sua classificação nos rankings? Quantos são alvo de retenção porque a escola não os quer levar a exame, temendo más notas? Quantos desaparecem das estatísticas por via do absentismo?
Como sempre acontece, há muitas formas de viciar as regras do jogo. E todos os anos são publicados relatos de directores de escolas que assumem o dilema: seleccionar alunos (i.e. excluir os da acção social) para obter melhores resultados nos rankings ou aceitar os mais desfavorecidos e a consequente queda na classificação dos rankings. Que a questão se coloque é um problema que vai muito para além dos rankings. Porque a selecção de alunos por parte da escola é ilegal mas praticada impunemente. E porque é o retrato de uma escola pública que não cumpre a sua missão e está disposta a deixar para trás os que mais dependem dela.
Eu sei que há quem encontre neste fenómeno um bom alibi para desvalorizar os resultados, mas não tenhamos ilusões: há escolas públicas que seleccionam os alunos, mas a maioria não o faz, pelo que o fenómeno não terá grande impacto nos rankings. E também sei que há quem veja nisto tudo uma boa razão para acabar com os rankings – eles têm uma má influência no comportamento das escolas, mais vale acabar com eles. Mas, pergunto: não será ao contrário? Esconder um problema não é resolvê-lo. E os rankings são úteis precisamente porque nos revelam que o problema existe. A nós compete-nos exigir que seja resolvido. E formas de o fazer não faltam. Por exemplo, com mais e melhor informação nos rankings, que nos permita acompanhar o que acontece nas escolas ao longo de todo o ciclo do secundário, e não apenas no dia do exame nacional. Haja vontade.

O egoísmo é um medo de amar


José Luís Nunes Martins, ionline, 2014.11.30

Há quem chame amor ao impulso básico da paixão fulminante, que na atração física possessiva, quase incontrolável, procura satisfazer-se, consumir-se e saciar-se...
O amor pode chegar ao nosso coração vindo do céu... mas nunca serve para nós mesmos. Devemos fazê-lo chegar a quem dele precisa, amando com um único fim: a felicidade daquela pessoa concreta. 
Há quem chame amor ao impulso básico da paixão fulminante, que na atração física possessiva, quase incontrolável, procura satisfazer-se, consumir-se e saciar-se...
Há também quem pense que o amor é uma alegria, que resulta da união de duas vontades que procuraram estar juntas e que partilham momentos, esperanças, dores e sonhos. Sendo que, aqui, segundo dizem, só há amor se os dois desejos se encontrarem em sintonia. O amor será então, para estas pessoas, algo que não existe completo em ninguém, que só existe quando dois anseios concorrem para o mesmo fim. Será pois algo que resulta de uma troca, de uma dupla entrega de um ao outro, sendo que quando uma das partes falha tudo perde o sentido e valor.
Mas talvez o verdadeiro amor seja algo diferente. Não visa satisfazer-se, nem procura qualquer retorno. É desinteressado, gratuito e dá-se sem condições. Só esta pureza é capaz de criar verdadeira felicidade a quem o recebe... e uma outra, talvez ainda mais profunda, a quem tem coragem de o escolher, viver e dar.
É preciso muita coragem para amar. Mas, depois, o amor vence sobre todos os medos!
Os egoístas têm medo de amar. Julgam que se bastam a si mesmos e que os outros são apenas seus instrumentos de prazer. Exigem tudo dos demais, abrem as suas portas apenas para receber. Mas nunca são felizes, porque ainda que lhes entreguem tudo, isso será sempre pouco... um breve sorriso de pequena satisfação e logo fazem uma exigência maior. Mas quem não é capaz de dar, também não consegue receber, desconhecem pois a felicidade de ser amados. Julgam que ser forte não é levantar o outro, mas derrubá-lo... nem sonham o que é o amor.
Os egoístas são cobardes. Usam as pessoas, fogem dos compromissos. Assusta-os o perigo de amar. O ridículo e o fracasso, suspeitam de mil males, sem nunca se darem conta que alguém assim é sempre vítima de si mesmo. Incapazes de compreender que só a vida que é vivida para os outros faz sentido. Que só pelo amor se chega à felicidade profunda e verdadeira, àquela que longe dos prazeres do momento, se ergue mais alta que o céu.
O egoísmo é uma espécie de paixão que se vai apoderando da pessoa. Desconfia-se de tudo. Teme-se o futuro. Chora-se até, pela frustração do mundo e dos outros não compreenderem a necessidade enorme que se sente de ser levado até à felicidade. Mas o egoísta não faz mais nada senão esperar que alguém generoso o venha servir.
Julgam que guardando o amor que há no seu coração para si mesmos, nada sofrem e tudo gozam. Quando, na verdade, assim vivem o maior dos sofrimentos: uma vida sem amor.
Nada vem ao acaso, nada existe sem causa. Se existe amor em nós, é para que amemos de verdade... para que a felicidade que despertarmos nos que amarmos, transborde e que, com ela, consigamos amar ainda mais.
Claro que ninguém é obrigado a fazer coisas impossíveis. Mas, na verdade, será que há coisas impossíveis? Quem ama, acredita!
Todos os dias morremos, nascemos e devemos amar.
O tempo da nossa vida é precioso, porque nada é mais veloz que os nossos anos. Depois da noite que a todos espera, nem as montanhas nem mar ficam... apenas o amor de que tivermos sido capazes

O primeiro primeiro-ministro dos meus filhos

Inês Teotónio Pereira
ionline 2014.11.29

Eles sabem apenas que o senhor mais poderoso da sua infância foi preso. E isso, compreensivelmente, "faz impressão"

Os meus filhos não fogem à regra de todo o país e estão também seriamente consternados com a prisão de José Sócrates. Eles não o dizem, até porque não sabem o que quer dizer "consternação", mas o silêncio que reina em minha casa sobre o caso judicial mais relevante "da história da democracia" diz tudo sobre a consternação dos meus filhos. José Sócrates foi o primeiro primeiro-ministro da vida deles e isso torna ainda mais grave o caso do último fim-de-semana. Tal como o primeiro dia de escola, as primeiras chuteiras, o primeiro amor ou a primeira viagem, também ninguém se esquece do seu primeiro primeiro-ministro. Da mesma forma que a minha geração cresceu com Sousa Veloso e o seu "TV Rural", os meus meninos cresceram com Sócrates e com o seu Magalhães. O destino assim determinou. É por isso inegável a ligação que eles têm a uma pessoa que os viu crescer (através da televisão, é certo) e que eles viram a governar o país durante a sua infância.
Um chefe é sempre chefe e, como institucionais que são todas as crianças, os chefes respeitam-se. Por mais que se diga cobras e lagartos de quem detém o poder, as crianças não fazem juízos complexos e simplesmente inclinam-se perante os chefes porque se inclinam sempre perante o poder. Seja de um político, seja de um professor ou de um padre. Foi por isso que este fim-de-semana os meus filhos ficaram consternados. "Faz-me impressão", dizem eles, remetendo-se de seguida a um silêncio respeitoso, como se estivessem a guardar o segredo de justiça.
Eles não entendem um décimo do que ouvem na televisão, não fazem ideia do que são as instituições, não sabem o que quer dizer separação de poderes e muito menos que existe uma coisa chamada processo penal. Sabem apenas que o senhor mais poderoso da sua infância foi preso. E isso, compreensivelmente, "faz impressão". Como, porquê, que tipo de prisão ou quem o prendeu, não interessa nada, e eles não querem saber. No mundo da criança existem os bons e os maus, os que mandam e os que obedecem, os ricos e os pobres; são os ricos que compram, os que mandam quem detém o poder e os bons que prendem os maus. É simples.
Ora no passado fim-de-semana este mundo maniqueísta dos meus filhos desabou e agora nada será como dantes. Afinal quem manda aqui? Quem são os bons e quem são os maus? Ninguém lhes diz e eles agora sabem que nada é tão simples ou linear como pensavam. Perguntava um deles, consternado, e revelando a confusão que se instalou na sua cabeça: "Ele está em prisão pensativa para poder pensar no que fez?" Mas mal foi desfeito o engano voltámos ao silêncio.
Passou uma semana do terramoto e os meus filhos ainda não se recompuseram. Não é que eles tivessem empatia com o ex-primeiro-ministro, que passava ao lado do seu dia-a-dia. O problema é que no entender deles um primeiro-ministro, ex ou não, é uma instituição, e as instituições não vão parar ao mesmo sítio das pessoas que roubam carros ou assaltam velhinhas. É como se de repente o Sporting ou o Mosteiro dos Jerónimos fossem presos. Impossível. Para os meus filhos, as pessoas não interessam, o que interessa é o que fazem e se alguém o que faz na vida é mandar num país inteiro está obviamente acima de qualquer suspeita. Pois aquilo que parece é. Dizia um dos meus irmãos em pequeno sempre que via um carro com estilo a passar: "Eh pai, aquele tipo deve ser bestial!" Não lhe passava pela cabeça que não fosse

Apresentação do livro "Nascemos e jamais morreremos"

Vida de Chiara Corbella Petrillo

Inês Dias da Silva, 2014.11.29

Na passada 6ª feira, dia 28 de Novembro, conheci o Simone, a Cristiana e o Enrico e através deles a Chiara Corbella Petrillo. Estavam lá outras 500 pessoas no auditório do Colégio de S. João de Brito, mas pouco se deu por elas, porque, como eles próprios disseram, estavam ali na condição de discípulos de Jesus e aquilo que tinham para contar era algo que não podendo guardar só para si, tornou-se um dom pessoal para cada um.

Falaram com um espanto que permanece mesmo depois da morte de Chiara a 13 de Junho de 2012. O espanto pela serenidade com que viveram os últimos 4 anos da sua vida e amizade, não obstante a intensidade que os fazem parecer 40.

No espaço destes 4 anos, Chiara e Enrico tiveram dois filhos que viram nascer e morrer nas primeiras horas de vida e pouco tempo depois descobriram em Chiara, já grávida do seu terceiro filho, um tumor maligno cujos tratamentos decidiram atrasar para permitir que nascesse Francesco, o seu primeiro filho são.

Desta experiência vivida à luz da fé, nasceu de forma supreendente a certeza de que 'Nascemos e jamais morreremos', hoje publicado em português numa edição do Apostolado de Oração, à venda durante a próxima semana numa banca no Colégio de S. João de Brito e nalgumas livrarias.

Os factos contados bastavam para impressionar, mas era o olhar ainda deslumbrado pelo que tinham vivido juntos, pelo Encontro que fizeram, pela experiência de amor verdadeiro, 'um amor que nunca pode ser medíocre', que mais impressionou. 'Eu vi que se pode morrer feliz' diz Enrico, que trabalhando como fisioterapeuta numa unidade de cuidados paliativos onde se morre diariamente, diz nunca ter visto ninguém morrer como morreu a sua mulher Chiara, aos 28 anos.  

'Com Chiara era fácil estar certo da eternidade'. Talvez por isso, no video que mostraram, as imagens do seu casamento e do funeral da sua mulher, confundem-se. É uma mesma festa de amor. As indicações de Chiara para o seu funeral foram claras: ninguém deverá levar flores; mas Enrico deve comprar imensas para que cada pessoa possa levar uma para casa, pois basta olhar para uma flor para nos recordarmos de que não somos nós os criadores de nada.

Sobre a sua situação presente, viúvo cuidando do seu filho, Enrico diz que o Passado e o Futuro são lugares onde o diabo ataca, só no Presente se joga tudo e podemos receber a Graça de Deus. É na sua experiência de paternidade que vê espelhada uma paternidade maior.

"Deixar-se amar por Deus é a única coisa que importa, pois quem se sente amado, pode tudo". 

 Enrico diz-se de novo em discernimento. Com a morte de Chiara, o sacramento do matrimónio atingiu o seu objectivo - ser companhia no caminho para o Céu.

Para viver agora, faz como fazia para viver com Chiara, dando os Pequenos Passos Possíveis. Não como em Canaá, que acabando o vinho os noivos não tinham sequer as vasilhas cheias de água, mas antes 'a nossa tarefa é fazer o que podemos, encher as vasilhas de água e Ele fará então o milagre de a transformar em vinho."

Para saber mais e acompanhar a história de Chiara: www.chiaracorbellapetrillo.it