domingo, 31 de maio de 2015

Temos pena!

Helena Matos | Observador | 31/5/2015

Vão chorar a oportunidade perdida, a falta de coragem. E, claro, vão dizer que não houve estadistas à altura do problema. Falo obviamente da Segurança Social.
Sentados nos estúdios de televisão vão dizer que foi falta de visão, que não houve coragem. Pior, que em Portugal as coisas nunca se discutem a tempo. Alguns mais expeditos nestas artes de passar por entre os pingos da chuva vão afivelar um ar compungido para em seguida colocarem a génese do problema num tempo qualquer ideologicamente útil; o Estado Novo, por exemplo. Mas o PREC e “esta austeridade” (como será “aquela austeridade”?) também podem dar jeito.
Nos jornais, rádios, nas justiceiras redes sociais o exercício vai repetir-se. No fim vão chorar a oportunidade perdida, a falta de coragem. E, claro, vão dizer que não houve estadistas à altura do problema. E vão dizê-lo com aquele ar de quem naturalmente se considera à altura de tudo. E claro que têm pena, aliás sentem uma pena imensa dos afectados pela tragédia. Temos pena – é o que terão para dizer e nem por uma vez e nem por um segundo se deterão a apurar as suas responsabilidades na tragédia que que comentam e contemplam. Falo obviamente da Segurança Social ou mais propriamente dessa míriade de rostos que agora se sobressaltam sempre alguém diz o óbvio: a não fazermos nada – e fazer alguma coisa implica necessariamente cortar-se nas pensões mais altas agora a pagamento – os actuais contribuintes da segurança social terão no dia em que se reformarem pensões pouco mais que miseráveis.
Tudo isto é sabido há anos e anos: o primeiro relatório sobre a (in)sustentabilidade da Segurança Social remonta à década de 80 do século passado quando Diogo de Lucena e António Borges fizeram um estudo sobre o assunto para o Governo então liderado por Cavaco Silva. Muito simbolicamente o estudo não teve qualquer tipo de divulgação pois os seus resultados eram assaz preocupantes. Quase trinta anos depois o problema cresceu, tornou-se provavelmente na questão mais grave do nosso tempo, mas nada mudou na forma infantil como os governantes nos tratam e na hipocrisia que estrutura o seu discurso.
As recentes declarações de Maria Luís sobre a necessidade de efectuar cortes nas pensões a pagamento tornaram-se no pretexto para o exercício da mais pura mediocridade e do mais acentuado populismo desse tipo de discurso. Marcelo Rebelo de Sousa declarou como se estivesse a comentar o jogo Carcavelinhos-Berlengas: a ministra “é tão competente a governar como incompetente a falar”. Porque se a ministra fosse competente a falar calava-se obviamente. Então ela não sabe que vai haver eleições e que nas campanhas eleitorais domina o faz de conta? Ela não sabe que o bom político não é aquele que apresenta soluções para problemas reais mas sim o que consegue criar um discurso que os nega? Realmente Maria Luís ignorou o essencial: as tragédias em Portugal não são para evitar. São para lastimar.
Passos rapidamente arrepiou caminho (40 por cento do eleitorado do PSD é composto por reformados!) e veio dizer que no programa da coligação esse tema não será detalhado. Claro que isto não escandaliza ninguém! A sustentabilidade da Segurança Social é provavelmente a questão mais importante a que terá de de se acudir nos próximos anos mas dizer que reformá-la implica ajustamentos é um crime. Já dizer que não se lhe vai mexer, como afirmam a esquerda e o CDS, ou que não vai detalhar o que pretende fazer nesta matéria, como fez Passos, isso não é escândalo. É sim fazer política. E Costa, sem perceber sequer a dimensão do que estava a dizer veio até declarar, como quem faz uma revelação matreira, que Maria Luís falou verdade ao dizer que se têm de cortar as pensões a pagamento. A assistência rejubilou porque desta vez o líder socialista tinha dito algo que pode embaraçar o Governo: a ministra quer cortar as pensões!!! Felizes os jornalistas transmitiram logo o soundbyte antecedido da explicação horrorizada: a ministra das Finanças disse que têm de se cortar pensões.
Este exercício é tão patético que é constrangedor escrever sobre ele. Mas é o que temos. Nada nesta sequência de Ah!! e Oh!! seguidos de vários adjectivos e muitas indignações é novo e sabe-se sempre como começa e como acaba: os mais indignados com as dúvidas suscitadas pelos outros, os que têm mais certezas de que vai correr tudo bem, os que não hesitam nos adjectivos na hora de classificar os que levantam questões sobre a viabilidade de todo aquele universo radioso, esses serão os primeiros a sair de cena quando as coisas começarem a correr mal. Alguns anos depois fazem o tal exercício de falar da culpa. Dos outros naturalmente. E depois tudo se repete porque nada se aprende com os erros cometidos.
O que está agora a acontecer com a discussão sobre a Segurança Social parece decalcado daquilo a que agora chamamos tragédia dos retornados. Em Abril de 1974 a descolonização ia ser algo de verdadeiramente extraordinário. Duvidar da viabilidade do referendo anunciado em que cada território ultramarino ia escolher o seu destino ou da democraticidade dos líderes dos movimentos escolhidos por Portugal como interlocutores únicos era além de sinal de reaccionarismo, sintoma de uma descrença imperdoável nas capacidades das Forças Armadas, do povo e dos seus dirigentes. Quando começaram a surgir os problemas foram-se dando como perdidas as promessas mas ai de quem questionasse a forma como as decisões estavam a ser tomadas e apontasse as responsabilidades de cada um dos auto-proclamados libertadores: só colonialistas e fantoches do imperialismo podiam fazer tal coisa.
Quando o que fora anunciado como um processo histórico único e superior se tornou numa tragédia, eles, os anteriormente cheios de certezas, os proclamadores de um futuro radioso, desapareceram literalmente de cena. Ou mais propriamente desapareceram daquela cena porque outras cenas e outros palcos esperavam o seu brilhantismo, o seu espírito libertador e a sua clarividência.
E é exactamente este processo a que vamos assistir em matéria de sustentabilidade de segurança social: aqueles que agora tanto se insurgem com a necessidade de fazer ajustamentos, aqueles que têm a certeza de que basta o crescimento económico para resolver os problemas, esses terão saído discretamente desta discussão quando dentro de algum tempo a geração que agora sustenta a Segurança Social se confrontar com a degradação do valor das pensões que irá receber.
Mas nada disso interessa. O que interessa é que está estabelecido que dizer a verdade como fez Maria Luís pode levar a perder as eleições porque numa lógica eleitoral completamente dominada pelo populismo estabeleceu-se que há que mentir ao povo prometendo-lhe sobretudo o que já se sabe não ser possível.
Como afirma Ribeiro Mendes, secretário de Estado no governo de Guterres que tentou uma reforma da Segurança Social e que viu como este discurso estraçalhou a tentativa de devolver sustentabilidade ao sistema “Os custos reais ou imaginados das medidas da reforma são agigantados mediaticamente e, por isso, aquelas podem soçobrar ou ser esquecidas antes de executadas. As reputações políticas constroem‑se fabricando imagens lisonjeiras para os imaginários das várias clientelas eleitorais, recalcando tudo o que sugira esforço ou custo social e pessoal, numa voragem ininterrupta de mediatização espectacular. Assim sendo, a miragem de uma modernização totalmente indolor, asséptica e convenientemente anestesiante veio antagonizar o custo incontornável das reformas. A convergência destas clivagens originou uma fractura política irreparável na base de apoio ao Governo, relativamente às principais reformas estruturais completas.”
Trinta anos depois está tudo na mesma. Ou melhor dizendo a Segurança Social está bem pior e o populismo, esse, está triunfante.

Vamos fazer do dia 31 de Maio o dia dos Irmãos

Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão; se queres ver uma criança muito feliz, dá-lhe muitos irmãos
Fernando Ribeiro e Castro (1952-2014)

31 de Maio - dia dos irmãos


Um testemunho: do irmão que não tive ao irmão que tudo me deu

ROBERTO CARNEIRO Público, 31/05/2015

Quando em criança me confrontava com amigos que viviam felizes entre irmãos, lamentava-me interiormente de ser filho único.
Quando em criança me confrontava com amigos que viviam felizes entre irmãos, lamentava-me interiormente de ser filho único, de não ter um par doméstico para brincar e com ele(a) partilhar alegrias e desgostos. Fui crescendo nessa frustração, quando comecei a ganhar contacto com leituras universais como as dos irmãos Grimm ou do afamado trio Huxley, ou ainda ao me familiarizar com as lendas dos míticos Rómulo e Remo, fundadores de Roma, que, nas mais diversas narrativas, me foram acentuando um travo amargo de saudade dos irmãos que não tive.
Por muito que se visse momentaneamente abalada essa convicção com o conhecimento do fratricídio relatado no Génesis — Caim vs. Abel — ou com a complexa tessitura do parricídio levado a cabo pelos filhos e irmãos, magistralmente urdida por Dostoyevsky na sua imortal obra Os Irmãos Karamazov, a realidade é que a sensação de perda de uma enorme oportunidade não me abandonou. O défice afetivo de fraternidade viria até a aprofundar-se com a perda precoce do meu pai, aos 16 anos, e com o imperativo dela decorrente de me fazer homem em plena adolescência para, com uma Mãe cultural e linguisticamente fragilizada, fazer face às pesadas responsabilidades de assumir o leme da governação de uma casa subitamente amputada da sua referência capital. É o que primeiro evoco neste Dia dos Irmãos, hoje, 31 de maio, e rola uma petição para o instituirmos formalmente.
Já adulto, com a cumplicidade ativa da minha Mulher, assumimos responsavelmente o projeto de uma família numerosa. Banhados com a graça de 9 filhos, vivos, saudáveis, responsáveis e solidários, mais tarde acrescentados de três genros e duas noras simplesmente maravilhosos, outros tantos filhos que tomei de empréstimo, aprendi com todos eles o sortilégio de uma vida fecunda, assaz ruidosa mas abertamente partilhada, entre irmãos. Essa intensa experiência comunitária, alargada, prolonga-se hoje nos netos, que somam já o número redondo 8, com tendência para 9, já no próximo período estival. Nesta etapa última, perpassada de sublimidade, de uma vida recheada de episódios e rica em emoções, na qual saboreio a “sobremesa da vida”, ou seja a magia de uma nova dimensão da afetividade que é proporcionada no convívio com os filhos dos meus filhos, redescubro nos netos singulares e nos netos gémeos a dádiva superlativa do dom da alegria e da felicidade, no recomeço cíclico do mistério da história humana.
Mas a narrativa não se esgota aqui. É que, em boa verdade, a Providência foi-me prodigalizando irmãos autênticos, não de sangue mas de laços ainda mais fortes e inquebrantáveis, ao longo da vida.
Quero — devo — nesta ocasião homenagear uma pessoa extraordinária, um verdadeiro irmão, a quem tudo devo. Foi em outubro de 1965, tinha eu escassos 18 anos, quando me foi dado descobrir, boquiaberto e fascinado, a inteligência inimitável, a alegria transbordante, a coerência superior, a entrega generosa no serviço público à Pátria e ao seu próximo, sem limites de horas ou de cansaço, enfim, a personalidade marcante, com a qual tudo pude aprender. Lembro-me, como se fosse hoje, da tertúlia na Residência de Estudantes das Avenidas, em que o Adelino nos guiava na introdução aos meandros da Universidade, desvendando aos nossos olhos de caloiros inexperientes as várias facetas do que nos esperava nessa dobra complicada da sequência de estudos secundários para superiores.
Foi como que o enlace espontâneo de um afeto cúmplice, construído com naturalidade, e fortalecido ao longo de 15 anos de uma extraordinária viagem comum. Para ele, Adelino, não havia montanhas intransponíveis, nem dificuldades insuperáveis; dotado de uma força interior inabalável, para ele tudo era solucionável, toda a esquina da história constituía uma oportunidade soberana; a sua Fé coriácea era um hino permanente à sábia capacidade do ser humano para se ir afirmando sempre melhor, constantemente perfectível.
Dou graças a Deus Pai pelo Dom que para mim foi o Adelino, sempre disponível para me ouvir, como se existisse só para mim e como se os meus problemas fossem para ele os únicos que ele quereria escutar e comprometer-se a ultrapassar. Foi um convívio assíduo, diário quase, que me escorou nas fases mais difíceis do meu percurso profissional, e pessoal, durante os 15 anos que durou até ao seu desaparecimento trágico, naquele fatídico 4 de dezembro de 1980, dia em que o país se viu ceifado da mais brilhante, e promissora, das suas figuras públicas do pós-25 de abril.
Não passará dia em que não evoque o Adelino.
Pois é nos momentos de maior dificuldade que ouço a sua gargalhada, sonora e contagiante, escuto a sua palavra de otimista impenitente, quais sons que me impelem para a frente e me dotam do quantum de ânimo para superar as agruras e os desânimos que vou defrontando, sobretudo no outono da vida.
Muito obrigado, querido irmão Adelino, por tudo quanto me deste e continuas a dar. E bem hajas, sobretudo, pela tolerância que revelas em me continuares a perdoar tantas e constantes fragilidades, inclusive infidelidades, aos projetos de grandeza com que nos atraíste, seduziste mesmo, tal a sua força regeneradora e sonhadora de um país melhor para todos nós e para as vindouras gerações de portugueses.
Descansa, meu irmão Adelino, o teu desígnio realizar-se-á.
Professor universitário, ex-ministro da Educação (1987-1991)

sábado, 30 de maio de 2015

A minha filha e a discriminação

Inês Teotónio Pereira
ionline, 2015.05.30

A nossa luta, a minha e a dela, tem várias frentes. Uma delas tem a ver com a força. Como eles a reconhecem como igual, lutam com a coitadinha como se fosse um rapaz.
Em minha casa tenho um problema de igualdade de género. Os meus cinco filhos acham que a minha única filha é igual a eles. Enquanto no mundo real existe uma diferença de tratamento em relação às mulheres e aos homens, sempre numa tentativa de combater a discriminação, promovendo-se a igualdade na diferença, em minha casa faz-se de tudo isto tábua rasa. A falta de discriminação da minha criançada é absolutamente chocante. E, assim, a minha filha sobrevive no meio de cinco rapazes num constante desassossego e sem direito a um tratamento especial por estar em clara minoria e por ser de um género diferente. 
A nossa luta, a minha e a dela, tem várias frentes. A primeira tem a ver com a força. Como eles a reconhecem como igual, lutam com a coitadinha como se fosse um rapaz, apesar de ela revelar claramente menos aptidão para a luta e de ter os cabelos mais compridos, o que faz com que tenha menos defesas e mais pontos fracos. Vai daí, a luta é sempre desigual. Quando eu intervenho, eles reclamam por não acharem justo que ela tenha direito a um tratamento especial só por ser rapariga e por estar em minoria. Explico teimosamente que não é assim, que as meninas devem ser tratadas com delicadeza, e ela especialmente, por ser a única entre cinco monstrinhos. Quando eu digo isto, é ela que reclama não ser mais frágil e que consegue muito bem ir à luta. Está claro que a coisa acaba invariavelmente mal: ela a chorar e eles de castigo.
A outra frente da luta tem a ver com o entretenimento. A televisão, por exemplo, está quase sempre tomada pelos rapazes, que se apropriam do comando e vão alternando entre programas sobre futebol e jogos de futebol. A minha filha só consegue ver a “Violetta” clandestinamente ou então comigo a defender este direito básico da minoria e a guardar o comando. Ou seja, o acesso à televisão por parte do género feminino em minha casa é uma conquista diária e não um direito adquirido. Também em relação aos brinquedos padecemos do mesmo mal. Em minha casa tropeça-se em todo o lado em bolas, carros, skates, soldadinhos, etc. Já bonecas, bebés chorões e coisinhas fofinhas cor-de-rosa são uma raridade e estão confinadas ao quarto dela. Perante isto, ela depara-se constantemente com duas possibilidades: ou brinca sozinha com as coisas fofinhas cor-de-rosa ou joga futebol, anda de skate e dedica-se a criar carreiras no Futebol Manager. O problema dela é que não gosta das brincadeiras deles e não gosta de brincar sozinha. Por isso, chateia toda a gente, para chamar a atenção para a sua luta através de gritos, birras e embirrações por tudo e por nada. 
A outra questão é a diferença propriamente dita. Ou seja, enquanto eles se entendem naturalmente com mais ou menos lutas ou com mais ou menos barulho, ela vive solitária na diferença, tendo como única aliada uma mãe, eu, que não sabe fazer trancinhas, não percebe nada de cozinha e não sabe uma única música da “Violetta”. 
A minha filha, tal como as mulheres do mundo, tem um difícil desafio pela frente: viver num mundo dominado pelos homens sem direito a um tratamento especial. O problema dela é que não quer ser igual a eles, quer apenas poder ser rapariga, reclamando para isso um tratamento especial. Não, em minha casa não há diferenciação ou sequer discriminação, é muito pior: existe uma espécie de laicidade de género. 

O TEMPO COMO O VENTO

José Luís Nunes Martins
Facebook, 2015.05.30

As horas e os anos sopram apagando as paixões superficiais, ao mesmo tempo que avivam e incendeiam o fogo das mais profundas. Aquilo que é leve levanta voo como se fosse importante e, pouco depois, com o passar do tempo desaparece… Ao que é sólido, o tempo revela-o à medida que se vão perdendo as superficialidades que lhe escondem os contornos. A verdade está, quase sempre, sob um manto sujo... 
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Somos como pedras. Mais pequenas ou maiores, grãos de areia ou rochedos. A proximidade é mais importante do que o tamanho. O mais pequeno grão de areia, se estiver próximo, é maior do que uma montanha ao longe. Até porque uma montanha ao longe é um mero grão de areia… e um grão de areia é sempre um quase nada.
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Importa estar atento ao outro, cuidar do que nele se mantém tanto quanto do que se modifica, celebrando o que de bom não se altera, tanto quanto aquilo que nele muda para melhor… tolerando o mal que teima em ficar, tanto quanto aquilo que se deteriora…
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É preciso ter um enorme cuidado com as pequenas oscilações e rotinas, uma vez que conseguem, quase sempre, o que parece impossível ao início: de forma calma e subtil destroem o que é sólido. Muitas vezes, quando damos conta do estrago, já é estrago de mais.
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A verdade é que com o passar do tempo, se nada for feito, qualquer situação tende para a desordem. Há que estar atento e a cada dia corrigir este desleixo do tempo.
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Por mais que o tempo passe, há coisas em que parece não tocar… As aparências mudam, mas até no rosto humano há traços e proporções que se mantém sempre… é nesses, e só nesses, que reside a verdadeira beleza, a essência que transparece de forma simples e subtil por entre as ilusões do instante.
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O tempo, como um vento, sopra e insufla o interior dos que sabem onde devem ir.
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Há pessoas que têm o céu todo no coração. É verdade que a sua grandeza e força não são evidentes… Mas também nunca ninguém viu o vento, o tempo ou o amor… apenas se pode ver o que eles fazem. 
José Luís Nunes Martins
30 de maio de 2015
Ilustração de Carlos Ribeiro

Coisas do diabo

P. Gonçalo Portocarrero de Almada | Observador 30/5/2015

Os demónios existem e actuam, mesmo que neles não se acredite. Seja ele um Charlie mexicano, ou francês, o melhor é não lhe dar troco. É “assassino desde o princípio”, alguém em quem “não há verdade".
O princípio do mal é um absurdo, porque o mal absoluto é o nada e o nada não é. O príncipe do mal, pelo contrário, existe e – espantem-se! – é bom. De todos os modos, o melhor é mesmo não acreditar nele …
O diabo está na moda: não só uma reportagem do Observador deu conta de um jogo que está a fazer furor no Twitter e que alegadamente permite contactar Charlie, um espírito mexicano do mal, mas também o i fez recentemente uma grande entrevista a um exorcista português.
Que o demónio existe, não é pacífico. Muitas pessoas o negam, remetendo a sua existência para o imaginário de antigas fábulas ou de inverosímeis mitos religiosos. Aliás, ele próprio, o maligno, também afirma o mesmo, ou seja, que não existe, por uma razão que, segundo Jesus Cristo, lhe é muito própria: ele é, por definição, “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).
Uma coisa é o princípio do mal e outra, muito distinta em termos filosóficos, o príncipe do mal. O mal, como entidade, é uma contradição, porque a realidade do mal é a do não-ser, pelo que o mal absoluto seria o nada e o nada, como diria La Palice, não é. O maniqueísmo afirmava a existência de um princípio do mal, oposto dialecticamente ao princípio do bem, uma tese filosófica a que Agostinho de Hipona aderiu e que depois abandonou, como contrária à razão e, portanto, à religião verdadeira, o Cristianismo.
Outra coisa é o príncipe do mal, ou demónio. Esse sim, existe e – espantem-se! – é bom. Tudo o que existe é bom, ou seja, tem a bondade inerente à sua realidade. Deus não cria coisas más, logo todas a criaturas são ontologicamente boas (Catecismo da Igreja Católica, nº 391). A bondade do diabo, que foi criado anjo bom, é uma evidência metafísica, que só poderia ser negada pela hipótese de um Deus mau, o que seria, mais uma vez, uma evidente contradição.
Que o demónio tenha essa bondade original não impede, contudo, que faça o mal. De modo análogo, todos os seres humanos são bons, mas não assim todas as suas acções. A maldade do diabo, como a dos homens, reside portanto no mal que fazem e não decorre de um erro na sua criação, nem de uma sua perversão essencial.
Negar a bondade do demónio só poderia fazer sentido para quem não reconhecesse a bondade de Deus e a de todas as suas obras, porque também os espíritos malignos são criaturas. Negar a maldade das acções diabólicas não faz sentido, porque implicaria negar também a realidade do mal no mundo.
Os Evangelhos referem, com frequência, o demónio e a sua acção. Cristo foi tentado e libertou muitos possessos, mas evitando sempre o sensacionalismo, que contradiz a deontologia do ministério pastoral. Por isso, também a Igreja católica fez, desde a sua fundação, e continua a fazer, com a necessária descrição, exorcismos, sempre de modo absolutamente gratuito e recorrendo apenas a meios sobrenaturais.
Tanto a ciência médica como a teologia moral distinguem, claramente, o que é do âmbito psiquiátrico e o que é do foro espiritual. “Por isso, antes de se proceder ao exorcismo, é importante ter a certeza de que se trata de uma presença diabólica e não duma doença” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1673). Nenhuma causa psíquica pode explicar que uma pessoa, que não sabe latim, se expresse nessa língua, ou que revele dados da consciência de alguém que só o próprio, Deus e, pelos vistos, o demónio conhecem.
Se é verdade a existência do maligno e a sua acção, mais importante é, contudo, afirmar a bondade de Deus e o seu amor por todas as criaturas. O Evangelho é a boa nova e a vida cristã uma experiência felicíssima de amor a Deus e ao próximo. Um cristão coerente não pode negar a existência do diabo, mas também não pode ceder à tentação do temor, porque até essa tenebrosa realidade é razão de alegria e de esperança.
Com efeito, a existência do príncipe do mal é também uma boa notícia: Chesterton ficou muito aliviado quando soube que as ‘suas’ tentações, afinal, não eram dele, mas do diabo. São Paulo, que se sentia por vezes esbofeteado por um anjo de Satanás (cf. 2Cor 12, 7), alegrava-se nas suas fraquezas, porque sabia que nada, nem ninguém, nos pode separar do amor que Deus nos revelou em Cristo (cf. Rom 8, 28-39).
Alguém dizia que não acreditava em bruxas mas … que as há, há! O mesmo se diga dos demónios, que existem e actuam, mesmo que neles não se acredite. Seja ele um Charlie mexicano, ou francês, o melhor é não lhe dar troco, porque é “assassino desde o princípio”, alguém em quem “não há verdade” (Jo 8, 44).

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dever

O dever é o que se espera dos outros, não o que se espera de si mesmo
Oscar Wilde


A economia dos policiais – em memória de John Nash

Inês Domingos Observador 25/5/2015 8, 17:30

Um dos principais contributos de Nash para a Economia vem da sua tese de doutoramento em Princeton em 1950, em que Nash complementa a obra de von Neumann e Morgenstern.
A cena é uma sala mal iluminada por uma lâmpada branca crua. Paredes encardidas e chão riscado. Uma mesa com pernas desequilibradas e uma cadeira dura. Um homem mal dormido e desesperado por um cigarro espera que chegue um detetive da PJ para lhe fazer a pergunta a que ele não quer responder: quem é que assaltou a velhinha? Ele resiste. Quando tinha falado com o companheiro na véspera, antes do assalto, tinham combinado que não diziam nada se fossem apanhados. Mas o PJ é simpático, atencioso, propõe um negócio irrecusável, se confessar antes do outro leva só um ano de cadeia mas se o outro confessar antes leva dez anos
Todas as semanas esta cena é recriada em livros, na televisão, no cinema. E em todas as vezes os aficionados de policiais ficam em “suspense”. Mas John Nash não teria ficado.
John Nash, que morreu no sábado passado, era um matemático americano que contribuiu para o desenvolvimento da disciplina de Teoria dos Jogos, formalizada no final dos anos quarenta por John von Neumann e Oskar Morgenstern na publicação Theory of Games and Economic Behaviour.
A Teoria dos Jogos apareceu como uma resposta sistemática e coerente a problemas de interação estratégica que tinham sido estudados desde sempre pela humanidade, em estratégias militares, na vida empresarial ou nas relações pessoais. O desenvolvimento destes modelos respondia aos problemas levantados pelo facto de as ações dos diferentes agentes serem afetadas pelas decisões de outros agentes, muitas vezes não tratadas nos modelos económicos clássicos.
No campo da economia, o estudo das interações estratégicas começou com Augustin Cournot, em 1838, e o seu trabalho sobre qual a produção de equilíbrio numa situação de duopólio, isto é situações em que existem dois produtores que satisfazem toda a procura. Hoje em dia reconhece-se que o equilíbrio de Cournot é uma forma de equilíbrio de Nash.
Um dos principais contributos de Nash para a Economia vem da sua tese de doutoramento em Princeton em 1950, em que Nash complementa a obra de von Neumann e Morgenstern, por sinal a única referência bibliográfica da tese para além de uma publicação do próprio Nash. Na sua tese, ele distingue entre equilíbrios cooperativos e não cooperativos, isto é, os que dependem da possibilidade ou impossibilidade de fazer coligações, de comunicar ou de fazer pagamentos fora do jogo, e define um equilíbrio como uma situação em que nenhum dos jogadores, sabendo a estratégia do outro, que está fixada, tem incentivos para mudar a sua decisão. Noutros termos, se os jogadores se encontrarem num equilíbrio de Nash, não têm motivos para alterar a sua estratégia.
Por exemplo, retomando o exemplo acima (do assalto da velhinha), que ilustra o jogo chamado Dilema do Prisioneiro, o equilíbrio de Nash é a situação em que os dois confessam o crime. Se definirmos a punição em termos de anos de cadeia como sendo a matriz à direita, e partirmos do primeiro quadrante, onde os dois confessam, cada prisioneiro apanha cinco anos de cadeia. Nesse quadrante, não existe incentivo para desviar. Por exemplo, se A confessar e B não confessar, então B leva 10 anos em vez de 5.
Este jogo tem também a particularidade de o equilíbrio de Nash não ser o melhor para os jogadores. A melhor decisão para ambos seria nenhum confessar, cada um levaria apenas 2 anos de cadeia, mas nesse ponto ambos têm incentivo a quebrar o acordo pelo que voltamos ao primeiro quadrante.
O equilíbrio de Nash para este jogo será sempre confessar, o que retiraria bastante emoção aos policiais, se não houvesse criatividade e licença artística.
Após uma década de enormes avanços na matemática e na economia Nash foi diagnosticado com esquizofrenia e passou várias temporadas em hospitais psiquiátricos, internado contra a sua vontade. No entanto, durante esse período, as 27 páginas da sua tese tiveram aplicações em variadíssimos ramos das ciências. Na economia, por exemplo, o seu equilíbrio foi aplicado nas interações empresariais, nomeadamente para estudar o comportamento dos oligopólios ou na utilização de redes de tráfego. Vários discípulos seus continuaram a melhorar a sua teoria original.
Inesperadamente e gradualmente, Nash conseguiu recuperar suficientemente para retomar, nos anos 80, contactos profissionais e receber, em 1994, o prémio Nobel. Em entrevistas ao longo dos anos adivinha-se que estava feliz por ter recebido este prémio mas também um pouco surpreendido, uma vez que considerava que o seu contributo para a Economia não tinha sido tão importante como para a Matemática.
Para além deste contributo, Nash também desenvolveu diversos trabalhos para a Teoria dos Jogos em estratégias de negociação. Mas o seu trabalho mais importante – e no qual trabalhou até ao fim dos seus dias, foi realizado nas equações diferenciais parciais. Felizmente teve a oportunidade de ver também o seu trabalho em Matemática reconhecido quando recebeu, há cinco dias atrás, o prémio Abel, equivalente do Nobel para a Matemática. John Nash morreu quando voltava de carro para casa depois de receber este prémio, aos 87 anos.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Diagnosticaram-me ideologia

Maria João Marques| Observador 27/5/2015

Para Costa, o seu novo pregão arrepiante – o de ‘estado empreendedor’ – não é ideológico; a ideologia, aparentemente, só contagia pessoas de direita. A esquerda é imune a preconceitos e ideologias.

‘Ideologia’ foi uma doença muito avistada depois de PSD e CDS ganharem as eleições de 2011. Todas as pessoas decentes do país se queixaram, nos primeiros seis meses do governo, que a malvada coligação queria implementar um ‘programa ideológico’. Acabar com as golden shares foi ‘ideológico’, as alterações da legislação laboral tresandaram a’ ideologia’, o corte dos subsídios aos funcionários públicos esteve carregadinho do pecado ‘ideológico’, os cortes na despesa nos vários setores (de resto menores do que os negociados pelo PS no memorando de entendimento) foram o cúmulo da ‘ideologia’.
Com a proximidade das eleições, os diagnósticos de ‘ideologia’ têm explodido outra vez nos lados dos técnicos de saúde política afetos ao PS. Eu nos últimos tempos já fui objeto de vários diagnósticos de ‘ideologia aguda’ no twitter, na sua forma declarada e incurável. Às vezes pondero se não seria melhor (para bem da saúde pública) acoplar uma campainha à minha carteira para avisar quem se cruza comigo desta debilitante condição liberal em que me encontro.
Claro que quem se queixa de ‘ideologia’ tem muita razão. Os partidos – todos – apresentam uma ideologia aos eleitores através das suas propostas políticas nos programas eleitorais; e os eleitores decidem para que combinação ideológica estão mais virados em cada momento eleitoral. Na verdade, os partidos menos ideológicos que por cá temos são PSD (cuja grande ambição da maioria dos seus militantes é ser de esquerda) e CDS (que ainda não se arrumou o socialismo beato).
Nem só os jovens costistas das redes sociais e do comentário político se preocupam com este surto infeccioso. António Costa também parece estar baralhado com o vírus ideológico. Por exemplo, em março, Costa ‘criticou o Governo por ter abdicado de uma abordagem pragmática na resolução dos problemas do país “por puro preconceito ideológico”’ (Expresso, 17/3/2015). Em abril, Cassete Costa afirmou: ‘Este Governo nunca olhou para os problemas de uma forma pragmática, olha sempre para os problemas com preconceito ideológico’ (RR, 12/4/2015).
Lá está, o governo sofre de ‘preconceito ideológico’ e não toma a dose diária recomendada de pragmatismo.
Bom, eu, que sou picuinhas na hora de os governantes e autarcas usarem o meu dinheiro pago em impostos, começaria por aplaudir que nem toda a gente sofra desta estirpe de pragmatismo. Aquela que ditou, por exemplo, que Costa permanecesse largos meses recebendo o ordenado de presidente da câmara municipal de Lisboa enquanto passava os dias em campanha para as primárias do PS (no dia de setembro do ano passado em que Lisboa inundou, Costa filmou-se a festejar em Coimbra) ou, a seguir, a desgovernar o seu partido.
Em todo o caso agradece-se que Costa nos informe que, para si, antes da ideologia está o pragmatismo. Deve ser por isso que fez parte dos governos que mais privatizaram (os de Guterres) e que agora tenha discurso semelhante ao do PCP nesta matéria e provavelmente vá apoiar o candidato presidencial Sampaio da Nóvoa, que vê carinhosamente uma banca nacionalizada. Ou que tenha apoiado João Cravinho quando ofereceu uma porção da TAP aos pilotos, apoiado Sócrates quando defendeu a privatização e agora fale da TAP como se houvesse solução além de a vender ou de a deixar morrer de morte lenta. (Aí, sim, a TAP morreria de ideologia – a socialista.)
Mas regresso à ideologia. Para Costa, o pregão arrepiante que tentou colar nas últimas semanas – o de ‘estado empreendedor’ – não é ideológico; a ideologia, aparentemente, só contagia pessoas de direita. À esquerda a política é imune a preconceitos; a direita endiabrada já devia saber que o padrão é o socialismo. Curioso. Defender um estado concorrente desleal das empresas (pelos meios mais abundantes que tem, por ser o legislador e o regulador), sufocando a iniciativa privada e criando empresas cujo objetivo é agradar à tutela em vez de aos clientes, para mim é o paradigma de ‘preconceito ideológico’. Preconceito, de resto, mais de colheita PCP do que do PS de Guterres e até de Sócrates.
Propor – como parece ser o caso, que Costa não vê necessidade de nos elucidar – aumento de IRS (seja via aumento da taxa ou via diminuição das deduções, vai dar ao mesmo) para os escalões mais elevados, quando Portugal já tem uma progressividade fiscal muito acentuada, e a nossa carga fiscal já está além de qualquer razoabilidade e justiça e moralidade, para mim ultrapassa ‘preconceito ideológico’: já cai na categoria de ‘saque assumido à classe média’. Porque – como de costume – quem vai pagar mais impostos não são só os ricos (são muito poucos), mas sim os que ganham uns exorbitantes 1200€ mensais.
Vendo António Costa e as suas propostas, reparo que os meus médicos têm razão. Afinal a ‘ideologia’ e os ‘preconceitos ideológicos’ podem ser mortais (para a economia e para a decência política, pelo menos). Em todo o caso, antes sofrer de ‘ideologia’ que padecer de ‘pragmatismo’.

A grande regressão

Paulo Tunhas | Observador 28/5/2015

A linguagem é sem dúvida um dos meios mais eficazes para nos fazer sair para fora da realidade e de fingir que ela não existe. A forma como o Syriza o está a fazer é deprimente.
Uma palavra que vem à cabeça quando se olha um pouco à nossa volta é: regressão. Na televisão, na ideologia, em muito discurso político, um pouco por todo o lado, volta-se atrás nas formas e nos conteúdos. Quase até à infância.
Comecemos pela ideologia. Sob a capa da novidade e da juventude, movimentos como o Syriza representam um retorno a formas arcaicas de pensar a sociedade e de lidar com a realidade. Há sem dúvida razões apontáveis para que tais movimentos tenham sucesso. Entre outras, a corrupção das elites políticas e, de uma forma muito significativa, o abalo provocado pelo sentimento de perda de soberania a que a chamada “construção europeia” conduziu muitos cidadãos dos Estados-Membros. Resta que a regressão ideológica que se observa – simétrica, de resto, do utopismo de muitos aspectos da dita “construção” – é deprimente e tendencialmente catastrófica, já que corresponde a uma negação daquilo que Freud chamava “princípio da realidade”.
O princípio de realidade manifesta-se, entre outras coisas, no reconhecimento de uma realidade exterior que não depende de nós; na aceitação de uma mediação entre o desejo e a sua satisfação; na dúvida quanto à justeza da nossa representação das coisas; na ideia de um compromisso entre os nossos desejos e as formas presentes da sociedade; e, finalmente, na ideia de uma imparcialidade que nos permita avaliar o acordo ou o desacordo das nossas representações com a realidade exterior.
Ora, se há coisa que o Syriza nos tem deprimentemente habituado desde a sua eleição, maximamente na figura do inenarrável ministro Varoufakis, é a uma minuciosa e repetida violação do respeito por cada uma destas condições. De nada são responsáveis; de mediações (se se quiser, cedências) para a satisfação do desejo, nem ouvir falar; nenhumas dúvidas quanto à justeza da sua representação do estado das coisas; recusa sistemática de qualquer compromisso com a União Europeia; e, consequentemente, absoluta incapacidade de toda e qualquer forma de imparcialidade na apreciação da relação das suas propostas com a realidade.
Acrescenta-se a isto aquela relação infantil com a linguagem, como se esta possuísse mágicos poderes. Já não há troika, há “instituições” (já agora: porque não substituir “austeridade” por outro nome?). A questão da linguagem é, de facto, tudo menos despicienda. A linguagem é sem dúvida um dos meios mais eficazes para nos fazer sair para fora da realidade e de fingir que ela não existe. Nessa função, em alguns casos ela pode ser, é verdade, sublime. Noutros, infelizmente a maioria, pura e simplesmente deprimente. Com o Syriza é deprimente.
Aquilo que vale para o Syriza vale, sob forma mais suave, para vários outros discursos políticos. Sempre que o apelo ao sonho e à utopia se tornam recorrentes, é sinal que os mecanismos regressivos estão a funcionar. A realidade tende a eclipsar-se ou a dissolver-se no próprio discurso, deixando, em termos práticos, de existir. O discurso basta-se a si mesmo e, por um passe de mágica, pretende ser a prova da sua própria justeza. É regressão mesmo. E é também deprimente.
Descansemos da política e vejamos televisão. Mas o espírito da “Casa dos Segredos” parece ter tomado quase conta de tudo, em particular dos telejornais. E a “Casa dos Segredos” propriamente dita, como certamente concordará quem alguma vez a tiver visto, é um exercício de regressão em estado puro. A vida do espírito reduz-se à sua dimensão mínima. Uma pessoa apanha-se a ver ali corpos que falam, ou não falam, sem que haja qualquer propósito de felicidade na coisa. Um pouco como na pornografia.
Dizer isto não é, note-se, uma condenação moral. Longe de mim “condenar” a “Casa dos Segredos” – ou a pornografia. Ficando por esta última, há muitas coisas “pró” e “contra” que se podem avançar sobre ela, e um dos mais ilustres filósofos morais do nosso tempo, Bernard Williams, dedicou-se com atenção a discutir a questão. O tópico é, de resto, um daqueles que continua a suscitar, nos filósofos que se ocupam de questões éticas, debates vários. O problema da pornografia é que, no culminar da regressão, infantiliza em absoluto. Para falar de novo como Freud, reconduz-nos ao estado da “investigação sexual infantil”. É esse, e não os problemas morais propriamente ditos, o seu problema central. De uma certa forma, a pornografia é o modelo de toda a regressão. Mas, apesar de tudo, a regressão pornográfica é matéria privada e dela não vem mal ao mundo. Cada um faz como quer e está muito bem. Ninguém tem nada a ver com isso. Como ninguém tem nada a ver com que se veja, ou não, a “Casa dos Segredos”.
O mesmo certamente não pode ser dito das formas regressivas que agitam a sociedade. São regressões sublimadas, mas são regressões à mesma. Tendem, por regra, à indistinção entre o desejo e a realidade, ao onirismo, à imediatidade da satisfação, à ilusão da omnipotência do pensamento, à convicção no poder mágico das palavras e outras coisas assim. E muito mal costuma vir ao mundo de tudo isso junto. Quando os discursos políticos e as acções políticas vão por esse caminho, uma coisa é certa: a trapalhada vem aí.
E a trapalhada anda por aqui.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O sector GES

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2015.05.27

O colapso do Grupo Espírito Santo é, simultaneamente, único e típico. Este paradoxo constitui mais um elemento insólito do extraordinário fenómeno que começamos a compreender graças a investigações como a do Parlamento.
Não é difícil constatar a espantosa singularidade da situação. Em qualquer país do mundo seria raríssimo que uma família conseguisse tal longevidade, sucesso e controlo nos negócios, consistentemente ao longo de múltiplos e contraditórios regimes e conjunturas. A partir de um núcleo original financeiro, mas estendendo a presença a variados sectores, aquilo que se veio a chamar o GES esteve quase 150 anos no centro das decisões nacionais. E, mesmo quando tudo pareceu terminar, com a nacionalização de 1975, conseguiu um renascimento espectacular que lhe trouxe ainda mais poder e influência. Ricardo Salgado foi, se possível, mais respeitado e determinante na política e economia que os seus ilustres antepassados.
Se era imponente em vida, o GES foi-o ainda mais na morte. A estranheza do longo êxito conseguiu ser ultrapassada pela queda de 2014, tão completa, súbita e imprevista que apanhou todos de surpresa. Nas vésperas do colapso, o grupo gozava ainda de enorme prestígio, credibilidade e firmeza. Ninguém, nem mesmo os denunciantes, antecipava a dimensão do desastre. O espanto desarmante das autoridades, que tinham por obrigação acompanhar estes casos, testemunha-o claramente.
Apesar de única, a situação é também muito mais comum do que parece. Podemos mesmo tomar o caso GES como representativo de um vasto sector da nossa economia. Precisamente aquele que há anos tem travado a nossa dinâmica, adiando o próximo surto de desenvolvimento.
A família Espírito Santo conseguiu fingir que possuía um conglomerado económico próspero, disfarçando os prejuízos com empréstimos indulgentes do banco do clã. Esta consanguinidade é rara, mas existem muitos outros negócios, esperemos de menor dimensão, também quase falidos mas mantidos à tona graças a condições de favor, conseguidos através de influências pessoais e políticas. Os mecanismos são variados e os expedientes múltiplos, mas pululam na nossa economia os mortos-vivos, alimentados artificialmente por rolamentos de dinheiros que encobrem inanidade produtiva. Muitos até parasitam empresas saudáveis, como o GES fez à PT. A partir de certa dimensão, o próprio banco que concedeu os auxílios incobráveis tem interesse em manter a ilusão, para não assumir perdas no balanço.
Sendo, por definição, ocultas, não é fácil identificar as circunstâncias e empresas concretas. Mas os sintomas generalizados de apatia empresarial, aperto financeiro e autismo bancário dos últimos anos são por demais evidentes. A recessão acabou no início de 2013, o BCE tem jorrado imenso dinheiro e agora até os preços de petróleo dão uma ajudinha. Apesar disso o crescimento é anémico, o volume de crédito continua a cair e os novos empréstimos produtivos mantêm-se em níveis ínfimos. Tudo revela o cancro que se insiste em negar, se tenta esconder e se recusa a operar.
Nesta crise, que é mundial, este aspecto é o que distingue os casos português, europeu e japonês da experiência americana. No outro lado do Atlântico a loucura especulativa foi igualmente dominante e até mais enfurecida; mas quando a bolha estoirou, caiu tudo o que tinha de cair, sem contemplações ou favores. Liquidaram-se os negócios insustentáveis, transferindo recursos para iniciativas de futuro. Houve ajudas de Estado, mas tinham de ser, e foram devolvidas rapidamente. Ao fim de meses a economia estava a crescer. Por muito que se deplore os enormes defeitos desse sistema, há que admirar a transparência, eficácia e flexibilidade. Lá começou a crise que contagiou todo o mundo, mas foi lá também que a doença foi imediatamente reconhecida, diagnosticada e intervencionada com clareza e coragem.
Por cá o tratamento de choque do programa de ajustamento corrigiu os desequilíbrios e reestruturou a economia. Muitas empresas e sectores insustentáveis desapareceram, dando lugar a novos. O desenvolvimento não dispara devido a largos extractos económicos que, apesar do aperto, conseguiram e conseguem manter ilusões produtivas atrás de manipulações financeiras, graças a apoios públicos e favores privados. Esse peso morto chega para justificar a indolência do crescimento e a rigidez do desemprego. Pode dizer-se que a nossa economia está saudável e até tem recuperado bem do terrível choque da crise. O que estraga tudo é o parasitismo do vasto sector GES.

Não quer apoiar o dia dos irmãos?

Não quer apoiar a iniciativa que cria o dia dos irmãos?
Ao princípio também eu era renitente. Há tantos dias, disto e daquilo.
Mas como diz a Margarida, não há nenhum dia dos irmãos e faz falta

O "Dia dos Irmãos" Margarida Gonçalves Neto

O “Dia dos Irmãos”

MARGARIDA GONÇALVES NETO 26/05/2015 - 01:50
A existência do Dia dos Irmãos pretende assinalar o mais feliz que podemos ser: irmãos.
É verdade que existem dias para quase tudo.
Mas também é verdade que não existe o Dia dos Irmãos. Ainda não existe. E faz falta. Faz-nos falta.
O calendário assinala datas, efemérides, memórias. Por isso se destacam dias especiais, para celebrar o que de mais importante somos ou temos. Eis o que propomos: a criação do Dia dos Irmãos, em 31 de Maio. Um dia dedicado ao significado, à celebração e à memória dos irmãos.
A vida vai-se construindo em torno de afectos, acontecimentos, aprendizagens, compromissos, e tantas outras coisas.
Os irmãos são os nossos mais próximos, são parte de nós. Crescemos com eles e eles crescem connosco, numa teia de cumplicidades e vivências comuns. O que acontece entre irmãos é único, irrepetível, molda a nossa vida para sempre.
Por isso se torna tão importante assinalar um dia dedicado aos irmãos, à relação entre irmãos. A este amor incondicional a que nos agarramos quando os nossos pais partem. Com os irmãos sabemos que nunca estaremos sós. Nós dentro deles, eles dentro de nós.
A ideia da criação do Dia dos Irmãos cresceu rapidamente. É uma ideia feliz, que não separa e que convoca todos. Só por isso já valeu a pena. Queremos apresentá-la oportunamente na Assembleia da República, para que seja votada e formalizada. Há uma petição a rodar em www.diadosirmaos.org/peticao.php. Aliás, são três petições juntas, porque é já um movimento europeu e internacional.
Essa será a maneira de tornar presente o que de tão importante acontece entre irmãos. O crescer juntos. As aventuras. A solidariedade. A diversidade. A alegria e a tristeza. As emoções boas e más. A partilha. A tolerância. A reconciliação. O futuro.
Quem tem a felicidade de ter irmãos, conhece o significado desta pertença. Eterna, porque para sempre.
Propomos o dia 31 de Maio. São várias as razões desta escolha. Trata-se de um mês cheio de celebrações familiares. Entre elas, o dia da Mãe e o Dia Internacional da Família (15 de Maio), assim declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1995. Mas queremos seguir, especialmente, uma frase feliz de Fernando Ribeiro e Castro, que empenhou a sua vida na defesa da família e das famílias numerosas. Essa frase contém a ideia essencial: “Se queres ver uma criança feliz, dá-lhe um irmão. Se a queres ver muito feliz, dá-lhe muitos irmãos.”
A 31 de Maio, véspera do Dia Mundial da Criança (1 de Junho), queremos dar a todas as crianças a boa nova dos irmãos. O mundo em que vivemos parece esquecer esta verdade. Vivemos tempos sem filhos e não pensamos que estamos a arriscar o futuro. Precisamos de testemunhar a esperança e a energia que as crianças trazem. Precisamos de festejar a presença de filhos na família. A relação entre eles. A esperança neles. Precisamos de recordar as alegrias e as tristezas vividas juntos. O que nos marcou para sempre.
Oportunidade de agradecer a quem tão bem nos conhece e conhecemos tão bem. A companhia. A pertença. Os códigos. Os silêncios. O que sabemos e o que nunca saberemos porque não precisamos. Com palavras. Sem palavras. Nós e eles.
A existência do Dia dos Irmãos pretende assinalar o mais feliz que podemos ser: irmãos.
Vamos a isto!
Médica psiquiatra, ex-comissária para os Assuntos da Família

terça-feira, 26 de maio de 2015

Obviamente!

Vital Moreira, Causa Nostra, 2015.05.26


Alguém podia explicar a esta senhora duas coisas elementares, a saber: (i) que o BES foi efetivamente "nacionalizado" sob a forma do Novo Banco, cujo capital pertence a um fundo público; (ii) que, se em vez da "resolução" do BES e criação do NB,  tivesse havido nacionalização propriamente dita daquele, o Estado tinha assumido não somente o capital do BES mas também as suas responsabilidades com investidores e credores, gerando mais um gigantesco "buraco" para as contas públicas.
Por isso, a nacionalização do BES teria sido uma estupidez política e financeira, "obviamente".

Prosperidade sem crescimento

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 26/05/2015

Não quero que metade das promessas eleitorais tenha de ir borda fora assim que a realidade começar a desmentir o optimismo destes números. Porque vai desmentir.

O título desta crónica não é meu, mas de um livro de Tim Jackson, lançado pela editora Tinta da China há dois anos. Jackson é professor de Desenvolvimento Sustentável e o seu livro parte de uma tese que convém começarmos a levar a sério — a de que o crescimento não pode continuar a ser uma obsessão das sociedades ricas: “Num mundo de recursos finitos, constrangido por limites ambientais rígidos, ainda caracterizado por ilhas de prosperidade no meio de oceanos de pobreza, será legítimo que o crescimento perpétuo dos rendimentos daqueles que já são ricos sirva de apoio às nossas esperanças e expectativas?”
Aquele “será legítimo” coloca a questão no domínio moral — é como se “crescer” ou “não crescer” fossem duas opções possíveis, e estivesse nas nossas mãos escolher uma delas. Contudo, essa dimensão moral interessa já muito pouco em 2015, por uma razão simples: a gigantesca crise em que estamos mergulhados está a tratar de impor uma travagem no crescimento nos países do Primeiro Mundo, quer os seus povos e os seus governos a queiram, quer não. Os furiosos opositores do TINA (“There Is No Alternative”) têm aqui mais um motivo para rasgar as vestes: “prosperidade sem crescimento” pode estar a deixar de ser uma de entre várias opções, para passar a ser a única opção possível.
Há no livro de Jackson uma frase do economista Kenneth Boulding que resume muito bem aquilo que está em causa: “Alguém que acredite que o crescimento exponencial pode continuar infinitamente num mundo finito ou é louco ou é economista.” Na verdade, há uma terceira hipótese: pode ser louco, pode ser economista ou pode ser um autor de cenários macroeconómicos do Partido Socialista. Recordem-se os números pressupostos pelo grupo de Mário Centeno no seu documento Uma década para Portugal: crescimento de 2,4% em 2016 e de 3,1% em 2017 (ano em que Bruxelas prevê um crescimento de 1,7% do PIB); desemprego a baixar em 2016 para 12,2%, até chegar aos 7,4% em 2019. Os números do Governo são muito mais modestos e — temo bem — mais realistas: 11,1% de desemprego em 2019 e crescimentos nunca acima de 2,4% (ainda assim, bem mais generosos do que as projecções da Comissão Europeia). Ou seja, é graças a estes números espantosamente optimistas que o PS arranja folga para voltar a aumentar a despesa do Estado nas áreas que considera estratégicas.
Copo meio cheio: que bom que é estarmos a discutir estratégias e programas a quatro meses das eleições. Copo meio vazio: que mau que é continuarmos a discutir estratégias e programas a partir de cenários irrealistas, só para fingir que o país pode voltar ao que já foi. Não pode. Como escrevia recentemente José Carlos Fernandes num ensaio para o Observador sobre o capitalismo, “entre a Antiguidade e a Idade Média, estima-se que as taxas de crescimento tivessem rondado 0,05 a 0,1% ao ano. Durante milénios, o destino mais provável de cada novo ser humano vindo ao mundo seria viver exactamente como viveram os seus pais.” O desenvolvimento do comércio e a revolução industrial vieram mudar tudo isto, e o progresso tecnológico, felizmente, continua. Mas os crescimentos hercúleos no Primeiro Mundo já eram. Dêem-me programas de governo com crescimentos anémicos e as contas a baterem certo, se faz favor: não quero que metade das promessas eleitorais tenha de ir borda fora assim que a realidade começar a desmentir o optimismo destes números. Porque vai desmentir. E toda a gente o sabe.

Espanha: a política dos pequenos e médios

Rui Ramos
Observador 25/5/2015

Em Espanha, os cidadãos votam, mas deixaram de saber no que votam, porque não é fácil adivinhar qual a composição e a orientação dos governos que vão sair das negociações e acordos pós-eleitorais.
Em Espanha, nas eleições municipais e autonómicas, o PP, com 27% dos votos, conseguiu derrotar o PSOE, com 25%. Essa, porém, já não é a história. No radar da imprensa bem-pensante, o que conta é outra coisa: o chamado “fim do bipartidarismo”, com a ascensão eleitoral de novos partidos. De facto, os gráficos de barras com as percentagens de votação de cada partido lembram agora pedaços de um arco-íris – além do PP e do PSOE, aparecem o Ciudadanos (terceiro partido municipal), as candidaturas do Podemos (que venceu em Barcelona), mais a Esquerda Unida (que encolheu) e os nacionalistas (abalados na Catalunha).
Deixou de haver, na estatísticas eleitorais, grandes partidos. São todos pequenos e médios. Há sem dúvida mais escolha, mas há também menos clareza: o PP perdeu votos e lugares, mas o PSOE não os ganhou. Aos socialistas, resta-lhes dizer que ainda são a “alternativa”, por terem conseguido manter-se à frente dos novos partidos. Mas a verdade é que foram despromovidos a terceiro ou mesmo a quarto lugar nas grandes cidades. Ou seja, o primeiro resultado do fim do bipartidarismo é que o voto deixou de provocar alternâncias imediatas e claras no governo, como quando o poder oscilava entre dois pólos.
Agora, as eleições limitam-se a criar um mapa caótico, a partir do qual quase tudo é possível. Na manhã de hoje, o PP já sugeria “pactos de estado contra o radicalismo”, enquanto os candidatos do Podemos propunham a formação de “uma maioria pela mudança”. Ambos procuravam assim vincular ou condicionar os outros partidos. Este é o segundo efeito do fim do bipartidarismo: os cidadãos votam, mas deixaram de saber no que votam, porque não é fácil adivinhar qual a composição e a orientação dos governos que vão sair do ciclo pós-eleitoral de negociações e acordos. Ou seja, aumentou a opacidade do sistema político.
PP e PSOE concentraram 52% dos votos. Perderam 13 pontos percentuais em relação às últimas eleições autonómicas e municipais. “O desgaste dos partidos velhos”, como diz Pablo Iglesias, não é apenas espanhol. Acontece apenas que em Espanha não existem os sistemas eleitorais maioritários da França ou do Reino Unido, que mantêm de fora os “partidos emergentes”, como o UKIP ou a Frente Nacional.
Para explicar esta evolução, é preciso começar pelo fracasso dos partidos estabelecidos. Os tribunais e a imprensam desnudaram a sua corrupção e a sua promiscuidade. Mas acima de tudo, os velhos partidos foram vítimas da sua instalação no Estado, que usaram para desenvolver relações de tipo clientelar com as populações. Quando a crise orçamental diminuiu os meios com que seduziam os eleitores, começaram a perdê-los. Há mais, no entanto: o bipartidarismo é a última baixa de uma transformação política iniciada há muito tempo. Primeiro, desapareceu a militância partidária (por exemplo, o Partido Trabalhista no Reino Unido passou de um milhão de filiados na década de 1950 para 190 mil hoje). Depois, diluiu-se a identificação ideológica como razão das opções de voto. As preferências políticas tornaram-se superficiais, instáveis, sobretudo negativas. Em crise, não sabemos o que queremos, só sabemos que não queremos isto. Não acreditamos, não confiamos, e não temos tempo para pensar em alternativas. Vivemos de acessos de mau humor, de bruscas indignações virtuais. É a política das redes sociais.
Foi neste ambiente que surgiram marcas partidárias que, até ver, não parecem corresponder a mais do que ocasionais mobilizações de votos de aversão e de rejeição, protagonizados por um novo tipo de empresário político: o demagogo que vive de acometer moinhos de vento (“eles”, os “políticos”, os “partidos do poder”, os “ricos”, as “instituições financeiras”…), de meia dúzia de frases feitas (“fazer história”, “viragem”, “primavera democrática”…), e das vociferações apropriadas para arrancar aplausos e citações. A falta de experiência é agora a máxima virtude: o melhor político é aquele que, sejam quais forem as suas ideias e intenções, nunca governou e portanto nunca se comprometeu.
O tempo das maiorias absolutas acabou. A Espanha devia entrar agora na era dos pactos e das coligações. Mas vão o Podemos ou o Ciudadanos arriscar as suas virgindades políticas em alianças estáveis? Ou, pelo contrário, mostrar-se incapazes de entendimentos ou de ir além de conjugações meramente negativas (contra o PP ou contra o radicalismo) e necessariamente voláteis? Há quem espere que, pelo menos, a desmultiplicação partidária pressione a classe política a portar-se melhor do que no passado. Nem sobre isso pode haver certeza. No Brasil, a profusão de pequenos e médios partidos sem bases ideológicas claras fez da corrupção a maneira mais expedita de congregar apoios para viabilizar governos. Na história, é frequente obtermos o contrário do que queríamos quando destruímos o que existe.