terça-feira, 30 de junho de 2015

A campanha de crowdfunding "Greek bailout fund" parou por entupimento

Fui ver que tal estava a correr a campanha de crowdfunding para pagar os 1 600 milhões de euros que a Grécia deveria pagar hoje ao FMI:


E ainda há quem duvide da força dos movimentos inesperados das pessoas comuns

É uma questão de Povo

Uma iniciativa genial que vai ser posta à prova nestes sete dias. Com início em Inglaterra foi lançado há umas horas um "crowdfunding" que se propõe recolher 1 600 000 000 € para pagar esta prestação da dívida grega. Como? Somos 500 000 000 de europeus e se cada um contribui 3 euros e pouco, o povo europeu ajuda o povo grego. É uma questão de Povo.
Os promotores afiançam que o dinheiro doado só será efectivamente cobrado se o objectivo for atingido. Eu contribui. Não quer ajudar também? Aqui
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O grande embuste

Maria de Fátima Bonifácio
Observador | 30/6/2015

É verdade que os gregos votaram pelo fim da austeridade, mas o Syrisa – se ganhar o referendo – irá impor-lhes não só os mesmos ou piores rigores, mas ainda uma revolução que nunca lhe foi encomendada
Em 25 de Janeiro último, o Syrisa ganhou as eleições gregas graças a uma chusma de promessas delirantes, em que qualquer adulto normalmente constituído via de imediato uma lista de impossíveis. Eram promessas maravilhosas: não se pagava a dívida, acabava-se a austeridade, e o povo grego continuava a desfrutar da vida aconchegada a que se habituara desde que os euros tinham começado a regar as terras da antiga Hélade. Mais de 30% dos gregos acreditou neste “conto de crianças”, o suficiente para que a coligação de extrema-esquerda denominada Syrisa, acolitada por um pequeno partido de extrema-direita nacionalista, chegasse ao poder. A factura – pois o bôdo prometido custava muitos milhares de milhões – essa pagava-a Europa, quer dizer, os contribuintes europeus, pois até o dinheiro de Bruxelas terá de vir de algum lado, que só pode ser os nossos bolsos.
Muita gente se interrogou como era possível que um povo com tão ilustre ancestralidade – apesar da miscigenação ocorrida ao longo dos vários séculos de ocupação turca – se deixasse iludir tão entusiástica e facilmente. Proliferaram as teses sobre este mistério. A mais razoável sustentava que a violência da austeridade imposta pela impiedade europeia causara tal miséria e sofrimento, que muitos gregos, esgotada toda a esperança, se convenceram de que já nada, mas nada, tinham a perder. A miséria e o sofrimento são um facto que não oferece dúvida. Mas entre as muitas lições que se podem tirar da experiência grega, uma delas é que os gregos estavam enganados. A Grécia de hoje, mais exaurida e empobrecida, indica que, afinal, ainda havia alguma coisa a perder e portanto a conservar. O Syrisa, como agora ficámos a perceber, optou deliberada e premeditadamente por lançar fogo à casa e mandar tudo borda fora (ver o importante artigo de Teresa de Sousa no Público, 28.6.15). Durante os últimos cinco meses, o Syrisa dedicou-se a um exercício de cinismo que faz de Maquiavel uma alma cândida.
De facto, muita coisa se estranhava nos modos e métodos de negociar da delegação grega que se apresentou em Bruxelas, a começar pelos do seu chefe, o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis. Um tipo giro e bem apessoado, que em Atenas se desloca para o ministério numa moto potente e espalhafatosa, e cuja mulher, uma artista plástica, aproveitou logo a súbita notoriedade do marido para exibir em Madrid os seus maravilhosos artefactos. A dupla era encantadora. As fotografias tiradas pela Paris Match na sua varanda com vista para a Acrópole, comoviam pela alegre simplicidade e notória felicidade de um casal que seguia amando-se à margem do turbilhão político em que a Grécia já então estava mergulhada. É verdade que a exibição pública da intimidade conjugal contrariava o tradicional dever de modéstia e discrição revolucionária. Mas esta era gente moderna, também não falava em capital, nem em exploração capitalista, nem em classes sociais, nem em luta de classes, e menos ainda em vanguarda operária. Falava, muito sucintamente, em nome do “povo”, solidário e uno na rejeição da austeridade feroz imposta pela “Europa”.
Varoufakis aterrou na primeira reunião do Eurogrupo de rompante e com espalhafato. Optou pela arrogância e provocação, fiado, por certo, no infalível trunfo da chantagem: ou as “instituições” cedem, ou a Grécia sai do Euro, primeiro acto de uma tragédia conducente em linha recta à fatal ruína da União. Ninguém se impressionou ou intimidou por aí além. Nos primeiros tempos, Varoufakis e Tsipras puderam contar com a condescendência dos parceiros do Eurogrupo e o entusiasmo das esquerdas europeias. O da nossa não ficou atrás de ninguém: recorde-se a generalizada esperança do PS e a ridícula carta aberta em que Rui Tavares, pelo Livre e adjacências, prometia para muito breve o envio de novos Albuquerques lusitanos para ajudar a luta titânica que os valentes gregos travavam na vanguarda.
À medida que o ritmo dos “trabalhos técnicos” aumentava sem proveito, e que as reuniões do Eurogrupo se multiplicavam sem sucesso, a condescendência e a paciência foram-se esgotando. Renzi deixou de sorrir. O próprio Hollande torceu o nariz. E até Juncker se deixou de palmadinhas na face do amigo Yanis e acabou por amuar. Só Angela Merkel, a figura mais demonizada durante todo este longo processo, só a pérfida chanceler, ávida de engrandecer o nefasto poderio alemão, não baixou os braços no último momento, procurando ainda forçar uma 25ª hora: as partes estavam já muito próximas (El País, 28.6.15, “Abortar la negociácion”) e que se fizesse um derradeiro esforço (Observador, 28.6.15). Mas ao findar a 24ª hora, Tsipras mandou parar tudo: o governo grego decidira submeter a proposta de acordo oferecida pela Europa a um referendo, marcado para 5 de Julho.
Perante esta ruptura unilateral das negociações, Merkel teve de se inclinar. E desde então as suas noites devem ter piorado. Não a pensar no Euro, não a pensar nos bancos e na Finança, nem sequer a pensar no contribuinte alemão. Com uma leviandade que causa espanto, Soromenho Marques estabeleceu entre a chanceler e o Kaiser Guilherme II uma hilariante comparação. Ao contrário do que sugere, o Kaiser pensou e tornou a pensar no Plano Schlieffen. Aliás, de 1890 a 1914, Guilherme II, um verdadeiro nazi avant la lettre, não pensou noutra coisa a não ser em arranjar maneira de provocar uma Guerra Mundial, e por isso mesmo entrou em rota de colisão com Bismarck, que naquele ano tratou de se demitir (C. Clark, em The Sleepwalkers, 2013, omite fontes. Cf. J.C.G. Roehl, Kaiser Wilhelm II, 2014).
Angela Merkel está nas antípodas de Guilherme II. As suas insónias devem-se à ponderação de que a Grécia, independentemente da irresponsabilidade de governantes e governados, constitui a última fronteira não apenas da Europa, como também do Ocidente. Ou seja, perdida a Grécia, não são os problemas económicos e financeiros que metem medo – a Grécia representa uns meros 2% do PIB europeu. Neste domínio, há evidentemente motivo para justificada preocupação; esta manhã, o euro já dera uma queda. Mas a inevitável turbulência económico-financeira não se reveste da gravidade, perigosidade e dificuldade que representa o desmoronamento da última fronteira que protege a Europa das convulsões que já transbordam do seu leito no Próximo e Médio Oriente, bem como das que se encontram em gestação na região balcânica, onde Putin não desistirá de implantar a influência da velha Rússia imperial que aspira a recriar. Em suma, a saída da Grécia do Euro, prelúdio para a saída da “Europa”, coloca a esta (e à NATO, e portanto aos EUA) um tremendo quebra-cabeças geo-estratégico (ver artigo exemplar de J.A.Fernandes, Público, 28.6.15).
Escrevi logo em Fevereiro que as teorias revolucionárias do Syrisa eram pós-marxistas e pós-leninistas (mas algo gramscianas). O seu mestre, ou um dos seus mestres, certamente o principal, chama-se Ernesto Laclau, um filósofo e docente universitário em Londres, falecido há dois anos. Dei-me ao trabalho de ler minuciosamente o seu livro que para o caso grego mais directamente importa: On Populist Reason (2005). Na impossibilidade de o resumir aqui – é complexo e teoricamente sofisticado –, aconselho a leitura a quem já tenha percebido que, no contexto da globalização e perante o desaparecimento do operariado tradicional e o aburguesamento do que dele sobra, uma teoria revolucionária moderna tem que assentar numa capacidade de mobilização interclassista que supere interesses particularistas contraditórios ou concorrentes. O Capital sumiu-se pelos cabos e interstícios de milhões de computadores instalados em arranha-céus, que num abrir e fechar de olhos comunicam entre si através do planeta. A nova mobilização revolucionária consistirá então, segundo Laclau, na possibilidade de aparecer uma palavra – um significante – “vazio”, i.e., desprovido de significado concreto e preciso, e que precisamente pela circunstância desta disjunção se presta a ser apropriado por todos e qualquer um, que nele projectam as suas mais diversas queixas ou reivindicações. Esta amálgama de significações associadas a uma palavra (ou algumas, mas poucas), adquire a hegemonia discursiva que permite mobilizar multidões heterogéneas, mas unificadas por esta espécie de passe de mágica linguístico.
Acontece que na Grécia não há uma oligarquia corrupta que pudesse ser construída como um inimigo comum e absoluto, pelo simples motivo de que a sociedade grega é corrupta de alto a baixo, do porteiro de prédio ao armador de navios. A palavra de eleição foi, então, “austeridade”, e tudo, desde a incompetência mais notória aos azares mais casuais, passando pela inesgotável variedade das frustrações pessoais, passou a ser imputado à austeridade. Por aqui deveria passar a fronteira do antagonismo irredutível entre a parte e o todo. Ora a austeridade – conforme pensa o vulgo – não é mais do que um capricho ideológico imposto pela Europa neoliberal, que logicamente deveria ser envolvida no mesmo manto de rejeição. Mas não foi! E não é ainda agora! Os gregos desejam duas coisas incompatíveis: permanecer no euro e na Europa, mas sem “austeridade”. O Syrisa mentiu-lhes descaradamente ao prometer ambas as coisas em simultâneo. Foi a maneira elegante de chegar ao poder.
Quando, na última reunião do Eurogrupo, os Tsipras e Varoufakis perceberam que talvez estivessem à beira de um acordo irrecusável, cuja rejeição demonstraria pura má-fé, Tsipras manda abortar as negociações, anunciando que vai referendar a última proposta em cima da mesa. Logicamente, acabou logo tudo ali, incluindo a eventual extensão do programa em curso por mais um mês. Com efeito, de que servia negociar se a vontade do povo grego poderia sempre, em referendo, anular o que os parceiros tivessem acordado?
A responsabilidade pelo abismo sobre cujas bordas a Grécia vacila foi miseravelmente trespassada pelo Syrisa para o povo, algo que Varoufakis apenas há um mês qualificou de “crueldade”. Não sei se é cruel ou deixa de ser. Sei que os gregos foram armadilhados. E pouco ou nada importa saber se foi a extrema-esquerda que impôs a Tsipras esta traição. A verdade é que, desde o princípio, os gregos votaram pelo fim da “austeridade”, mas o Syrisa – se ganhar o referendo – irá impor-lhes não só os mesmos ou piores rigores, mas ainda uma revolução – que nunca lhe foi encomendada. Não sei porquê, mas já ontem me vieram à ideia uns coronéis.

Foi isto que Atenas sempre quis? A pergunta passou a ser legítima

TERESA DE SOUSA Público 27/06/2015 - 23:09

O Governo grego sabe o que vai acontecer. Ajudou a que acontecesse. Mas nada disto iliba a Europa de culpas pesadas.
  1. Chegou finalmente a hora da verdade. O problema é que essa verdade é difícil de aceitar, porque toda a gente acreditava, pelo menos no seu íntimo, que haveria um acordo de última hora. A hipótese contrária era demasiado má para os gregos, mas também para a Europa, para ser considerada friamente. Neste sábado, esta questão de “fé” ficou resolvida. As negociações foram interrompidas por decisão grega. Quando anunciou à uma da manhã (hora de Atenas) que iria sujeitar a proposta europeia a um referendo, Alexis Tsipras tomou uma decisão sem recuo. Já nem sequer foi uma “bomba atómica” destinada a forçar definitivamente a mão dos seus parceiros europeus, explicável à luz da célebre teoria dos jogos, da qual o ministro Varoufakis é alegadamente um perito. Essa lógica de apostar até ao fim que a Europa acabaria por ceder deixou de existir. Também não terá sido por desespero que o primeiro-ministro grego anunciou o referendo. A ideia de que estava entre a espada de Bruxelas e a parede da ala mais radical do Syriza (uma ideia generosa para explicar o seu comportamento) também não parece caber nesta análise. Tsipras disse que respeitaria o “sim” à proposta dos negociadores, se fosse essa a vontade da maioria dos gregos. Como não parece ter vocação para mártir, o seu governo ainda acredita que pode conseguir um “não”. Vai ter de dramatizar terrivelmente. Vai ter de convencer os gregos de que os credores os quiseram humilhar. Vai ter de apresentar a sua decisão como um combate de David contra Golias, da pequena Grécia mãe da democracia contra a falta de respeito dos líderes europeus pela escolha do povo grego. Se perder o referendo, Tsipras não tem outra alternativa senão demitir-se. Seja como for, os jogos já estão feitos. A última jogada de Atenas conseguiu mesmo o feito extraordinário de retirar a Angela Merkel a margem de manobra que foi acumulando para poder decidir em favor da manutenção da Grécia na zona euro. No imediato, facilitou-lhe a vida, afastando aquela que era a sua maior preocupação: que a Alemanha fosse responsabilizada pela saída da Grécia. Tsipras não comunicou à chanceler e ao Presidente francês, com quem esteve reunido na madrugada de quinta-feira à margem do Conselho Europeu, a sua intenção de virar o jogo. Nesse encontro, Merkel deixou-lhe claro que aquela era a melhor oferta possível. Neste sábado, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, não podia ter sido mais claro quanto à manobra grega que, inicialmente, ninguém percebeu. O ministro das Finanças de Atenas estava a negociar com os credores a última oferta de acordo, quando recebeu um telefonema para abandonar os trabalhos. Algumas horas depois, Tsipras anunciava na televisão a convocação do referendo.
  2. O que é paradoxal (ou talvez não), é Atenas continuar, entretanto, a falar como se tudo fosse ainda possível. Permanecer no euro, evitar uma corrida aos bancos ou outra coisa qualquer. Porquê? Porventura, para poder atribuir às instituições europeias, na segunda-feira, a responsabilidade por aquilo que acontecer nos bancos, incluindo a decisão de os manter fechados. A peça que falta neste puzzle apenas estará disponível neste domingo, com a reunião do BCE em Frankfurt. O sistema bancário grego tem estado a viver da injecção diária de liquidez do BCE no Banco da Grécia (o chamado programa ELA, Emergency Liquidity Assistence), que no final da semana atingiu os 88,6 mil milhões de euros. Esta assistência pode continuar numa situação em que o programa de ajustamento acaba no dia 30 e nem sequer há negociações entre as duas partes? Aparentemente não. Foi o próprio Mario Draghi a avisar que o ELA seria mantido desde que houvesse a perspectiva de um acordo. Já não há. Muito provavelmente, o BCE vai decidir suspender essa ajuda, o que deve ser suficiente para que os bancos possam encerrar já na segunda-feira ou que seja imposto o controlo de capitais. Sem o apoio do BCE, a Grécia pode ver-se mergulhada numa semana caótica e o Governo terá mais alguns argumentos para demonizar as instituições europeias. Parece demasiado cínico para ser verdade, mas é difícil de encontrar outra explicação. Entretanto, com o fim do programa, acabam as verbas ainda disponíveis para ajudar a Grécia: os 7200 milhões da última tranche do segundo programa e os 10 mil milhões reservados ao apoio aos bancos. É praticamente inevitável que a Grécia falhe o pagamento ao FMI. O Governo grego sabe o que vai acontecer. Ajudou a que acontecesse. Conhece as consequências da sua decisão. Os gregos podem vir a sofrer ainda mais. É isto que é perturbador. A partir daqui todas as interpretações se tornam possíveis. Nada disto iliba a Europa de culpas pesadas. Berlim teve uma enorme responsabilidade na criação das condições que levam os gregos à revolta, votando maioritariamente no Syriza. Os programas de ajustamento estavam mal feitos. A “austeridade redentora” não funcionou. Hoje toda a gente o admite, embora não peça desculpa. A economia grega sofreu uma hecatombe apenas própria de tempos de guerra, ao contrair mais de 25% em quatro anos.
  3. Falta apenas uma coisa. Neste sábado, Yanis Varoufakis disse que, finalmente, a democracia, tão esquecida nestes últimos tempos, voltava a funcionar. A tentação de muita gente é dar-lhe razão: foram os gregos que democraticamente escolheram o seu Governo e a sua escolha tem de ser respeitada. Esse é também um argumento que a direita mais conservadora e soberanista gosta de utilizar. As coisas não são assim. Qualquer país da União Europeia sabe que o projecto europeu implicou e continua a implicar a partilha de alguns poderes nacionais ao nível europeu. É essa a sua essência e é isso que o distingue de qualquer outra organização internacional. E é assim desde o início: o Tratado de Roma diz que a lei europeia se sobrepõe à lei nacional. Os países que quiseram aderir ao euro, fizeram-no de sua livre vontade. Para os bons e para os maus dias. A Grécia, como qualquer outro país europeu, exerce a sua democracia neste quadro de partilha de soberania que aceitou quando aderiu à Comunidade Europeia, assinou o Tratado de Maastricht e entrou na zona euro. Podemos dizer que a Europa vive uma tremenda crise existencial que alterou as regras do jogo, mas que não alterou os tratados. Encher a boca de democracia fica sempre bem, engana os incautos, serve os soberanistas mas não resolve qualquer problema nem dá a ninguém qualquer “superioridade moral”. Se a Grécia quiser mesmo sair, ninguém a impedirá de conseguir esse objectivo. O que é triste para o projecto europeu é termos chegado a este ponto, que não diz apenas respeito à Grécia ou ao euro. Todos os dias, pelas mais diversas razões, temos a prova de que a fragmentação e, com ela, o fim do projecto europeu, não é ainda um cenário que possamos descartar facilmente. A questão grega e o seu provável desfecho abrem um precedente perigoso. Mas há muitas mais razões de preocupação. É esta a triste verdade.

Britânico quis ajudar os “primos gregos” e lançou campanha de crowdfunding

ANA RUTE SILVA Público | 30/06/2015 - 14:51

Objectivo de Thom Feeny, 29 anos, é angariar os 1600 milhões de euros que a Grécia precisa para pagar aos credores
Thom Feeny, 29 anos, trabalha numa sapataria em Londres mas está cansado de ouvir falar na crise grega, sem aparente resolução à vista. Farto de ver os políticos discutirem sem qualquer resultado prático, enquanto as “pessoas reais” continuam a sofrer na pele, decidiu criar, segunda-feira, uma campanha de crowdfunding na plataforma IndieGoGo que, às 17h00, contava já com 13.600 aderentes e um total de 212.362 euros. Quando este texto começou a ser escrito, o montante arrecadado estava nos 76.886 euros.
A intenção deste britânico é ambiciosa: juntar os 1600 milhões de euros que a Grécia precisa para pagar aos credores. Nada mais simples se cada europeu desembolsar pouco mais de três euros, argumenta. É o que custa uma cerveja em Londres ou o equivalente a uma salada de queijo feta e azeite consumida por cada um dos cidadãos europeus. “Entendo que as pessoas possam achar que isto é uma piada, mas o crowdfunding pode mesmo ajudar porque esta é só uma questão de decidir e dar o passo em frente”, explica na plataforma, que foi actualizada com uma série de perguntas e respostas na sequência da avalancha de pedidos de jornalistas que, entretanto, recebeu.
A campanha tem a duração de sete dias e só terá sucesso se Thom Feeny conseguir angariar toda a quantia. Ou seja, os milhares de aderentes só terão de pagar o valor que doaram se o objectivo final for alcançado. Caso contrário, fica sem efeito. Como é habitual no crowdfunding, a cada contributo corresponde um prémio diferente. O valor mínimo é três euros, em troca dos quais é possível ter um postal de Alex Tsipras, o primeiro-ministro grego. “Vamos fazê-los e enviá-los da Grécia e ajudamos as gráficas locais e as estações de correios”, detalha.
Seis euros valem uma salada de queijo feta e azeite, dez euros uma pequena garrafa de Ouzo e 25 euros uma garrafa de vinho. Há ainda a opção de doar 160 euros e receber um cesto com produtos gregos ou, para os mais empenhados, cinco mil euros por umas férias a dois na Grécia. Para os “super-ricos com um bom coração” que desembolsem um milhão de euros há “muita gratidão dos cidadãos europeus e gregos”.
Na lista de presentes estava inicialmente uma ilha grega, mas a opção foi retirada depois de Thom Feeny ter recebido um e-mail de uma mulher grega a considerar a recompensa ofensiva. “Pensei que o Sr.Tsipras concordaria de bom grado mas a IndieGoGo enviou-me uma mensagem a dizer que o governo grego não tinha concordado oficialmente com esta proposta”, escreve.
O jovem britânico, que nunca pensou estar a receber tanta atenção mediática, está convencido que esta é uma tentativa de fazer algo pela Grécia. “Podemos ajudar os nossos primos gregos comprando os maravilhosos produtos da Grécia, como o queijo feta, as azeitonas ou o vinho. E considerar o país como um destino de férias. É esta a ideia por trás de cada recompensa. O comércio irá ajudar a Grécia e o povo grego a sair da actual situação”, disse.
O crowdfunding é uma acção de cooperação colectiva online em que pessoas financiam iniciativas e projectos que podem ser lucrativos ou não.

Vamos ajudar a Grécia? Do povo europeu para o povo grego. É uma questão de Povo

Let's just get Greece sorted
The European Union is home to 503 million people, if we all just chip in a few Euro then we can get Greece sorted and hopefully get them back on track soon. Easy.

Crowdfunding to help pay the Greek debt here.


segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Grécia e Nós

Luís Campos e Cunha
Observador 29/6/2015

A vida será dura para os gregos, o que não é indiferente às pessoas de boa vontade. Mas temos de pensar na nossa casa e os políticos — da atual ou duma futura maioria — devem ter cuidado com a palavra
A discussão sobre se somos iguais aos gregos é pouco interessante; a querela de quem tem razão, se o resto da Europa se a Grécia, já passou. Agora é apenas saber os que nos poderá acontecer. A nós portugueses, hoje, e ao projeto europeu a médio prazo. O que poderá acontecer ao projeto europeu, pode ficar para outro dia. Agora a casa do vizinho está a arder.
Antes de prosseguir devo salientar que sou, desde a primeira hora, um crítico do MoU que assinámos com a troika. Não tínhamos alternativa mas havia aspectos técnicos graves nas políticas negociadas. E havia que reconhecer que, dois anos passados, a taxa de desemprego estar em mais do triplo da chamada taxa natural de desemprego era a prova provada de que alguma coisa de muito errado havia com as políticas e com a política. O caso grego, que eu conheço menos bem, não fugiu à regra.
O que nos pode acontecer hoje, segunda-feira? Diretamente, nada acontece; indiretamente veremos…
Se os gregos entrarem em incumprimento, vulgo bancarrota, e está quase lá, nada acontece de materialmente significativo no resto da Europa. A dívida grega está nas mãos das “instituições” ou de bancos gregos, pelo que não há outros bancos em perigo. Poderá haver ainda algum CDS (seguro de crédito) por aí perdido mas não deve ser significativo, caso contrário saberíamos há muito dessa possibilidade. Não será assim para os que vivem na Grécia e essa história será bem triste como já se está a perceber. Não sei se o Syriza tinha mandato eleitoral para fechar os bancos e introduzir controlos de capitais mas aí estão e para ficar. Para o resto da zona euro e para o resto do mundo diretamente nada acontece.
Indiretamente, muita coisa pode ainda vir aí, e tudo pode ser bem diferente. O tal plano B — no caso de não acordo com as autoridades gregas — não o conheço mas deveria ser acompanhado de fortes intervenções verbais das autoridades europeias, de Merkel e Hollande (e por que não de Cameron, ficava-lhe bem) e, acima de tudo do BCE. No curtíssimo prazo —hoje, amanhã, depois…— tudo pode depender de Draghi e do BCE. E quanto mais forte e atempada for a intervenção verbal daquele, menos terá o BCE de gastar no dia seguinte nalguma intervenção de mercado.
O chamado efeito de contágio vai certamente afectar o nossos credores e as taxas no mercado secundário vão subir. O mesmo se passará em relação a Espanha ou a Itália. Tal já se viu, há umas semanas atrás, e foi parcialmente desaparecendo, mas agora podemos ter uma escalada nas taxas se não surgir algum apoio europeu. O facto de o Tesouro português não necessitar de se financiar até, pelo menos, ao final do ano são excelentes notícias. Dá-nos tempo e ter tempo é agora precioso.
Há um outro tipo de contágio que dificilmente poderá ser completamente contrariado. Também não é certo que possa existir de forma significativa mas a ver vamos. A economia portuguesa estava a ter um bom desempenho (não excelente mas melhor do que antecipado por muitos, incluindo o Governo). O crescimento para este ano estaria mais próximo dos 2% que da previsão do Governo de 1,5%, o investimento estrangeiro tem estado em alta e o investimento nacional sem dúvida a retomar. Podemos somar a tudo isto os bons sinais de subida — não esperada — da inflação a fazer-nos crer que a deflação nacional era história. E, depois de uma pausa, o desemprego estava necessariamente a baixar. Nada de brilhante mas os bons sinais eram consistentes por toda a economia portuguesa.
Qual o impacto da crise grega nos investidores internacionais e nacionais em Portugal? Ninguém sabe se esse efeito de contágio vai ser significativo e só o saberemos com o tempo. A privatização no Novo Banco pode dar um sinal claro desse contágio ou não.
Agora a vida vai ser dura para os gregos e qualquer pessoa de boa vontade deve pensar nisso. Mas também temos de pensar na nossa casa. É bom que os políticos — da atual maioria ou de uma futura maioria — tenham cuidado com a palavra. Ela não pode faltar, mas tem de ser clara e não deixar dúvidas quanto à posição do nosso País face às suas dificuldades do passado recente, do presente e do futuro próximo. Uma palavra errada pode custar caro a todos nós, a cada português: mais impostos, juros mais altos e desemprego mais agravado.

Aborto em Portugal : factos e números 2015

FPVAborto2015-06-16 by papinto

O referendo e a fraude democrática

Alexandre Homem Cristo
Observador 29/6/2015

O propósito do referendo é legitimar o Syriza. Seja pela ruptura com o Euro, seja pela cedência a um acordo, do qual Tsipras lavaria as mãos. Chamem-lhe estratégia, mas não é mais do que uma fraude
Deixo para outros o comentário às muitas implicações económicas, bancárias e negociais do anúncio do referendo na Grécia. Foco-me antes na dimensão política da opção de Tsipras, que é o aspecto essencial e que está na raiz de tudo o resto. E, falando com clareza, o que está na raiz do anunciado referendo (sim ou não ao acordo com os credores) é uma fraude democrática.
É fácil vender a ideia romântica de referendo como iniciativa exemplarmente democrática, em que ao povo é dada liberdade de opções e capacidade para decidir. Foi essa ilusão que Tsipras apresentou quando anunciou o referendo, elevando-se a si e ao seu partido como paladinos da democracia. Nada de novo. Por um lado, Tsipras sempre nos quis convencer do contra-senso de que liderava uma batalha pela democracia contra todos os 18 outros membros do Eurogrupo. Por outro, a esquerda é, por tradição, perita em vender ilusões perigosas em nome de valores que pretendemos universais, como a igualdade, a liberdade ou a justiça.
Só que a realidade é sempre bem diferente, muito mais cinzenta e muito menos democrática. Com Tsipras, não foi excepção: o único propósito do referendo é legitimar o projecto político do Syriza. Seja pela desejada ruptura com a zona Euro, ameaçando a legitimidade das instituições europeias. Seja pela cedência a um acordo com os credores, do qual Tsipras e Varoufakis lavariam as mãos de responsabilidades. Chamem-lhe estratégia política, se quiserem. Mas, no fundo, não é mais do que a instrumentalização do povo grego. E é, por uma série de razões, uma fraude de todo o tamanho.
O programa de assistência termina amanhã, terça-feira. Nesse dia, acaba-se tudo, a começar pela paciência e o dinheiro. Convocar um referendo para dia 5 de Julho, domingo, é portanto uma intrujice, visto tudo já estar (na prática) decidido. A ruptura com as instituições internacionais está em marcha, os bancos estão encerrados e a Grécia vive à beira da bancarrota. Durante o fim-de-semana, as filas nos multibancos, supermercados e estações de abastecimento de combustível dominaram as paisagens gregas. Até domingo, após seis meses de destruição da situação financeira da Grécia, o que fica realmente para referendar?
Obviamente, muito pouco. É por isso que o referendo representa uma tentativa inaceitável de desresponsabilização de Tsipras e Syriza perante as decisões negociais que tomaram e que pioraram dramaticamente a situação da Grécia nos últimos meses. E que, agora, muito provavelmente conduzirão o país a uma catástrofe. Encurralado entre promessas eleitorais que nunca poderia cumprir (o referendo é um reconhecimento indirecto dessa incapacidade) e a iminente saída da zona Euro caso não alcançasse acordo com os credores, o Syriza (e Tsipras em particular) decidiu ilibar-se de responsabilidades. É de uma cobardia inqualificável. Mas é também a única forma de o Syriza assistir ao descalabro da Grécia sem contrariar o seu próprio discurso e uma última tentativa de legitimar o seu plano de ruptura com o Euro. Tsipras já só tem a ganhar, os gregos ainda têm muito a perder.
A fraude não é só táctica, é também institucional. Um referendo visa sondar a vontade popular sobre uma determinada matéria, o que requer tempo, clareza entre as opções, debate público participado e um esclarecimento da população sobre o que está em causa em ambos os lados. Ora, quem convoca um referendo assim, de uma semana para a outra, não está interessado no esclarecimento da população – apenas na sua manipulação. É inimaginável que os gregos pudessem, daqui a uma semana, decidir conscientemente sobre uma matéria de tal modo complexa que tem justificado o arrastar de negociações durante meses. Tal como é inimaginável que conheçam bem as consequências das suas escolhas, em particular sobre a sua permanência no Euro (se soubessem não tinham votado no Syriza). Aliás, há consequências do referendo que nem sequer são perceptíveis: se o “sim” ao acordo com os credores ganhar, que proposta é realmente aplicada, e até que ponto um governo Syriza a quererá e irá aplicar? Desculpem, mas um referendo não é isto.
Enfim, parece que estamos perto do fim deste episódio que tem tudo para ser trágico. Podemos lamentar o desfecho. Podemos ainda ter esperança que, realizando-se o referendo, este sirva para passar uma mensagem de rejeição às opções do Syriza e que, eventualmente, isso force eleições antecipadas, das quais Tsipras não saia vencedor. Ou, dito de outro modo, podemos ter esperança de que ainda há esperança.
O que não podemos é fingirmo-nos surpreendidos, até porque a fraude democrática do Syriza não data deste anúncio de referendo. Começou muito antes, ainda na campanha eleitoral, quando Tsipras se propôs romper com as chamadas políticas de austeridade e, apesar disso, manter a Grécia no Euro financiada pelos credores. E continuou durante meses, entre visitas à Rússia e ameaças às instituições internacionais. O Syriza foi, desde o início, um projecto político cuja ambição revolucionária consistiu na ruptura, leia-se estatelar-se a toda a velocidade contra a parede. Está a conseguir, e só não anteviu quem não quis. Infelizmente, nos jornais e na nossa esquerda política, foram muitos os que fecharam os olhos. Pior ainda, foram muitos os que aplaudiram.

29 de Junho - Solenidade de S. Pedro e S. Paulo

Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela
Mt 16, 18


domingo, 28 de junho de 2015

It’s Not Gay, and It’s Not Marriage

Dale Ahlquist | GKChesterton | 2015.06.26


ONE of the pressing issues of Chesterton’s time was “birth control.” He not only objected to the idea, he objected to the very term because it meant the opposite of what it said. It meant no birth and no control. I can only imagine he would have the same objections about “gay marriage.” The idea is wrong, but so is the name. It is not gay and it is not marriage.
Chesterton was so consistently right in his pronouncements and prophe- cies because he understood that anything that attacked the family was bad for society. That is why he spoke out against eugenics and contraception, against divorce and “free love” (another term he disliked because of its dis- honesty), but also against wage slavery and compulsory state-sponsored edu- cation and mothers hiring other people to do what mothers were designed to do themselves. It is safe to say that Chesterton stood up against every trend and fad that plagues us today because every one of those trends and fads un- dermines the family. Big Government tries to replace the family’s authority, and Big Business tries to replace the family’s autonomy. There is a constant commercial and cultural pressure on father, mother, and child. They are mini- mized and marginalized and, yes, mocked. But as Chesterton says, “This trian- gle of truisms, of father, mother and child, cannot be destroyed; it can only destroy those civilizations which disregard it.”
This latest attack on the family is neither the latest nor the worst. But it has a shock value to it, in spite of the process of de-sensitization that the informa- tion and entertainment industries have been putting us through the past sev- eral years. Those who have tried to speak out against the normalization of the abnormal have been met with “either slanging or silence,” as Chesterton was
when he attempted to argue against the faddish philosophies that were pro- moted by the major newspapers in his day. In 1926, he warned, “The next great heresy will be an attack on morality, especially sexual morality.” His warning has gone unheeded, and sexual morality has decayed progressively. But let us remember that it began with birth control, which is an attempt to create sex for sex’s sake, changing the act of love into an act of selfishness. The promotion and acceptance of lifeless, barren, selfish sex has logically progressed to homosexuality.
Chesterton shows that the problem of homosexuality as an enemy of civi- lization is quite old. In The Everlasting Man, he describes the nature-worship and “mere mythology” that produced a perversion among the Greeks. “Just as they became unnatural by worshipping nature, so they actually became unmanly by worshipping man.” Any young man, he says, “who has the luck to grow up sane and simple” is naturally repulsed by homosexuality because “it is not true to human nature or to common sense.” He argues that if we at- tempt to act indifferent about it, we are fooling ourselves. It is “the illusion of familiarity,” when “a perversion becomes a convention.”
In Heretics, Chesterton almost makes a prophecy of the misuse of the word “gay.” He writes of “the very powerful and very desolate philosophy of Oscar Wilde. It is the carpe diem religion.” Carpe diem means “seize the day,” do whatever you want and don’t think about the consequences, live only for the moment. “But the carpe diem religion is not the religion of happy people, but of very unhappy people.” There is a hopelessness as well as a haplessness to it. When sex is only a momentary pleasure, when it offers nothing beyond itself, it brings no fulfillment. It is literally lifeless. And as Chesterton writes in his book St. Francis of Assisi, the minute sex ceases to be a servant, it becomes a tyrant. This is perhaps the most profound analysis of the problem of homosexuals: they are slaves to sex. They are trying to “pervert the future and unmake the past.” They need to be set free.
Sin has consequences. Yet Chesterton always maintains that we must con- demn the sin and not the sinner. And no one shows more compassion for the fallen than G.K. Chesterton. Of Oscar Wilde, whom he calls “the Chief of the Decadents,” he says that Wilde committed “a monstrous wrong” but also suf- fered monstrously for it, going to an awful prison, where he was forgotten by all the people who had earlier toasted his cavalier rebelliousness. “His was a complete life, in that awful sense in which your life and mine are incomplete; since we have not yet paid for our sins. In that sense one might call it a perfect life, as one speaks of a perfect equation; it cancels out. On the one hand we have the healthy horror of the evil; on the other the healthy horror of the pun- ishment.”
Chesterton referred to Wilde’s homosexual behavior as a “highly civilized” sin, something that was a worse affliction among the wealthy and cultured classes. It was a sin that was never a temptation for Chesterton, and he says that it is no great virtue for us never to commit a sin for which we are not tempted. That is another reason we must treat our homosexual brothers and sisters with compassion. We know our own sins and weaknesses well enough. Philo of Alexandria said, “Be kind. Everyone you meet is fighting a terrible battle.” But compassion must never compromise with evil. Chesterton points out that balance that our truth must not be pitiless, but neither can our pity be untruthful. Homosexuality is a disorder. It is contrary to order. Homosexual acts are sinful, that is, they are contrary to God’s order. They can never be nor- mal. And worse yet, they can never even be even. As Chesterton’s great detective Father Brown says: “Men may keep a sort of level of good, but no man has ever been able to keep on one level of evil. That road goes down and down.”
Marriage is between a man and a woman. That is the order. And the Catholic Church teaches that it is a sacramental order, with divine implica- tions. The world has made a mockery of marriage that has now culminated with homosexual unions. But it was heterosexual men and women who paved the way to this decay. Divorce, which is an abnormal thing, is now treated as normal. Contraception, another abnormal thing, is now treated as normal. Abortion is still not normal, but it is legal. Making homosexual “marriage” le- gal will not make it normal, but it will add to the confusion of the times. And it will add to the downward spiral of our civilization. But Chesterton’s prophecy remains: We will not be able to destroy the family. We will merely destroy our- selves by disregarding the family.
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Dale Ahlquist is the president and co-founder of the American Chesterton So- ciety. He is the creator and host of the Eternal Word Television Network series, "G.K. Chesterton: The Apostle of Common Sense." Dale is the author of G.K. Chesterton: Apostle of Common Sense and the recently published The Com- plete Thinker. He is also the publisher of Gilbert Magazine, and associate edi- tor of the Collected Works of G.K. Chesterton (Ignatius). He lives near Min- neapolis with his wife and six children.

Laudato Si'

FERNANDO TEIXEIRA DOS SANTOS
JN 27.06.2015

De todas as formas de organização económica e social que a Humanidade adotou ao longo da sua história, o capitalismo terá sido aquela que lhe proporcionou um ritmo de progresso mais acentuado ao mesmo tempo que promoveu o reconhecimento e a afirmação do indivíduo e da sua liberdade como valores fundamentais. Não é, porém, isento de falhas nem limitações. Com efeito, a pobreza, a concentração da riqueza e a desigualdade, a exploração e o desrespeito pelos direitos humanos não foram arredados da realidade do dia a dia de muitos milhões de seres humanos em todos os países. Por outro lado, o aumento considerável da produção de bens e serviços nas nossas sociedades, assente na inovação e no progresso tecnológico, intensificou a utilização dos recursos naturais disponíveis, gerando sérios problemas ambientais e sociais.
Na sua recente encíclica - Laudato Si' - o Papa Francisco reflete sobre estes problemas e seus desafios: a poluição e as alterações climáticas, a quantidade e a qualidade da água e o direito básico dos cidadãos a este bem essencial à vida, o desaparecimento de espécies e a perda de biodiversidade, o declínio da qualidade de vida e a rutura social, a desigualdade à escala global e a fraqueza das respostas a estes desafios. Nesta encíclica, o Papa propõe-nos uma visão - ecologia integral - em que as dimensões ambiental, humana e social devem ser contempladas e respeitadas: "Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente." "Não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica torna-se sempre uma abordagem social, que deve integrar questões de justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvirmos tanto o grito da Terra como o grito dos pobres".
Estamos perante uma reflexão consistente e uma crítica sólida e fundamentada ao nosso modelo de desenvolvimento, à cultura consumista e desmesurada do usa e deita fora, à "rapidificação" da vida urbana. É um alerta e uma convocatória a todos, sem exceção. Uma convocatória para partilharmos esta reflexão, mas, acima de tudo, uma convocatória à ação. O grito da Terra e o grito dos pobres não é para ser ouvido somente pelos responsáveis políticos e económicos locais, nacionais e internacionais. É para ser ouvido por cada um de nós. É um apelo a que mudemos os nossos comportamentos de forma a sermos simultaneamente solidários com os outros e com o planeta que nos alberga e nos dá vida.

Depois não se queixem!

JN 28.06.2015
AFONSO CAMÕES

Estão a desaparecer portugueses, à razão de 150 por dia! Vamos aos últimos números do INE e, como diz o outro, é fazer as contas: ao saldo negativo entre os que morrem e os que nascem, acrescentamos a emigração, que bate todos os recordes, e temos o retrato enrugado de um povo que definha, entretido com a mais longa campanha eleitoral de sempre, em suicídio assistido.
Para repormos a brava espécie, assegurando a substituição de gerações, as nossas mulheres deveriam estar a conceber, em média, 2,1 filhos, pese a desumanidade das médias.
Em 1970, a taxa por cada portuguesa estava nos 3 filhos. Já em 1990 essa taxa caiu para 1,57, chegando aos dias de hoje a uns dramáticos 1,2. Na Europa vamos em últimos, e estamos entre os piores do Mundo na reprodução - desgraçado espelho, que tal imagem nos devolves!
A espiral inquieta: menos crianças a nascer significa menos jovens ativos e contribuintes, e cada vez mais pensionistas. Em palavrões, é a sustentabilidade do sistema de Segurança Social que está em causa. Em melhor português, o problema está em saber como e quem vai pagar a conta. E se alguma fatura, a prazo, ainda se exprime em português.
É costume indígena criar uma comissão quando não se quer resolver um problema. Aliás, Churchill já tinha prevenido que um camelo é um cavalo desenhado por uma comissão.
Mas há um "grupo de trabalho", como lhe passou a chamar o Governo cessante, cujo relatório e propostas acenam a um pacto de gerações e não fazem jus à ironia do bife inglês.
A "Comissão para uma Política da Natalidade em Portugal", coordenada pelo professor Joaquim Azevedo, produziu um estudo e propostas que estão aí. E não podem, sob crime de lesa-património e inteligência, ser ignorados nesta campanha eleitoral.
O estudo foi encomendado pelo PSD, e as propostas da comissão independente foram publicadas há mais de um ano. E, para que conste, foram dirigidas a todos os partidos. Mas patinam no tinteiro das decisões, tal como a reforma do Estado. Se ainda há Governo, essas não constam das suas prioridades.
Sabiam que os pensionistas já são um terço do eleitorado? Depois não se queixem!
Neste Ano Internacional da Luz, antevejo uma réstia. Porque é da natureza que a hora mais escura é a que precede o amanhecer. Eis a novidade: pela primeira vez, os principais partidos incluem nos seus programas capítulos inteiros sobre a crise demográfica e propostas para a combater.
Por mim, partilho da inquietação de Joaquim Azevedo, quando prevenia que, não fazendo mais filhos, nos arriscamos à extinção. É que não há nada de mais criador do que acrescentar vida à vida que nos deram.

Amor: um direito ou uma graça?

O Supremo Tribunal de Justiça Americano decidiu (5-4) que o casamento é um direito fundamental… que não pode ser negado a pares do mesmo sexo. Será que que o amor é um direito? 

O amor, na minha experiência, não é orgulho mas discrição, dá-se sem se querer fazer notar todos os dias, a cada dia, em cada gesto, em todos os gestos.
Amor e Orgulho Inês Dias da Silva

Amor e Orgulho

Fala-se nestes dias muito de amor de tal forma ensurdecedora que não o reconheço.
O amor, na minha experiência, não é orgulho mas discrição, dá-se sem se querer fazer notar todos os dias, a cada dia, em cada gesto, em todos os gestos.
O amor é mais trabalho que festa. É trabalho que é festa.
O amor é mais pequeno que grande. Quando mais pequeno, mais grande fica. 
O amor é humilde. Não exige direitos, não dá opinião, não argumenta, não quer ter razão. 
O amor silencia e não exalta. É mais silêncio que palavra.
O amor é ordeiro. É acção ponderada e livre, é escolha e compromisso, é obediência. 
O amor é sacrifício, tantas vezes pouco colorido e difícil de viver. 
O amor é paciente. Encontra, conhece, espera e aprende. 
O que for que se anda a festejar, se é amor, não o reconheço. 

Inês Dias da Silva

Flash Mob - Movimento do Bem

Flash Mob executado como parte da programação do evento "Jesus de Jeans" realizado pela equipe do Boka Jovem da IASD Boqueirão em Curitiba, Paraná, Brasil

sábado, 27 de junho de 2015

O POBRE E O PRÓXIMO

Facebook 27 de junho de 2015 

Ilustração de Carlos Ribeiro
Onde e quando um homem sofre, aí mesmo surge a necessidade de um próximo. O sofrimento maior é o da dor que se sente não havendo com quem a partilhar. A solidão é uma deficiência no ser, não há eu sem nós. Não há individualidade sem comunidade. O fim de cada ser humano é o amor, um compromisso em que se realiza o eu em nós.
O outro não deve nunca ser um instrumento que eu utilizo com vista a alcançar um qualquer outro fim. Ninguém é uma coisa. O outro nunca é meu. É um eu. Um outro eu. Faz parte do mundo em que eu só sou se ele for.
Só a partilha combate a pobreza.
São os gestos que nos definem… mas também o silêncio entre eles. 
A nossa sociedade tem-se construído em torno do egoísmo. Consome-se no sentido de comprar, usar e deitar fora. Para longe. A maior miséria do nosso mundo é que algumas pessoas são, para nós, insignificantes. Estão fora do nosso mundo. Descartados. Excluídos. Estranho mundo este, onde ser explorado é, ainda assim, algo de bom, pois significa que ainda se faz parte dos visíveis. 
Se, em alguns casos, a riqueza é justa e a pobreza é fruto de desleixo, é também verdade que onde abundam a riqueza e a pobreza, aí falhou a comunidade. Há uma razão simples para que os pobres sejam pobres. E não é sobre-humana. A miséria de uns é um sinal concreto de que a riqueza de outros pode ser uma violência. Porque têm o que não usam. Porque possuem como supérfluo o que para outros seria essencial. 
Isolam-se, excluem o outro. Atiram-no para longe, onde não o possam ver nem ouvir. Chegam a temer um contágio qualquer. Desconhecem que onde os ricos têm a ansiedade, têm os pobres a esperança. Não sabem que há na pobreza uma alegria autêntica, que deriva de uma liberdade imensa. Mas este é um mistério absoluto para quem nunca esteve privado de quase tudo. Hoje, onde escasseiam o dinheiro, a tecnologia e as armas, abundam a humanidade, a entreajuda e a espiritualidade. Muitas vezes o ter encobre o ser.
A grandeza de cada um de nós só se descobre quando somos capazes de dar o que temos ao que somos. 
Ser pobre é, ainda assim, ter alguma coisa, mas ter falta do que é essencial. A pobreza só atinge o espírito no caso daqueles que julgam que os bens materiais são o que mais importa. 
É da maior importância que consigamos trazer os que estão à margem para perto do centro. Para junto de todos. Onde sejamos capazes de ser quem somos, todos. O meu próximo é o meu vizinho, que pode ter sido forasteiro, mas que agora já não o pode ser mais. No espaço e no tempo. Está ali, comigo e connosco… meu irmão. Sou eu, ali. Nós.
Quantas vezes foi o outro que se aproximou de mim quando eu estava abandonado ao sofrimento? Quantas vezes, depois, partiu quando fiquei bem sem nunca cobrar nada? Quantas vezes fui eu capaz de fazer o mesmo? 
Quantas vezes esqueço o bem que me fizeram porque prefiro guardar o mal que me causaram?
Amar o outro como a mim mesmo é colocar no centro o amor que me atrai a mim e ao outro. Amar é criar algo maior do que eu. Um nós. Amar não é andar atrás de Deus. É tê-lO atrás de nós, contente comigo, contente com outro, feliz connosco.

O jardim-escola da política

Inês Teotónio Pereira | ionline | 2015.06.27

As crianças também acham que os pais são parvos, que acreditam em tudo o que elas dizem e não sabem quem esvaziou metade do frasco de Nutella.
A melhor forma de entender a política é observar as crianças. A coincidência entre os dois mundos é, no mínimo, interessante. As crianças gritam e choram quando não conseguem uma coisa, quando se ofendem ou quando se magoam. Querem sempre assistência e exigem que lhes demos razão mesmo quando não a têm. Só quando crescem é que aprendem a pedir desculpa ou a dar o braço a torcer. Confundem humilhação com franqueza. Também não gostam muito de explicações, de raciocínios complicados ou de grandes divagações. São práticas e, acima de tudo, são sensoriais.
Uma criança só pára quando lhe explicamos que não é mesmo não, sem mais delongas. Elas fazem muito barulho, mudam de tema com uma rapidez estonteante e prometem mundos e fundos a troco de um gelado. Também gostam de chutar os problemas mais complicados para a frente e só falam de coisas que entretêm. Quanto mais se exige a uma criança, mais ela foge, e quando lhes dizemos que a vida não é um mar de rosas, não se resume à televisão, a videojogos e a idas à praia, elas disfarçam e vão jogar à bola. 
Hoje em dia, a política também é assim. Ao contrário das telenovelas, que são para adultos, os telejornais são para crianças. É por isso que um dos meus filhos diz com todo o orgulho desde os seus cinco anos que só gosta de ver notícias e futebol: “Tem mais coisas e é mais giro.” Percebo-o. Desde as negociações com a Grécia aos vários debates políticos e à venda da TAP, a política é dominada pelo entretenimento, num estilo de concurso de talentos. O que está em causa no debate político é quem falou melhor, com mais estilo e convicção, e quem disse mais vezes “acabar com a austeridade”, “colocar as pessoas em primeiro lugar”, “apostar no crescimento” ou “reverter as políticas neoliberais”. 
As frases e as mensagens são simples e curtas. Têm de ser simples e curtas para não se perder muito tempo com elas. Se soa bem, está ganho; se soa mal e requer uma explicação mais detalhada, está tudo perdido. Sim, o Estado só lucrou 10 milhões com a venda da TAP. Além de ter despachado 1,1 mil milhões de dívida, mais outros 300 e tal milhões de passivo, mais o sufoco devido à falta de financiamento que a curto prazo levaria ao encerramento da empresa, etc. Baahh, já ninguém está a ouvir. Os 10 milhões colaram. Dez milhões é menos do que o contrato de Jorge Jesus. Logo, para o governo neoliberal e demoníaco, a TAP vale menos que Jorge Jesus. Os meus filhos discutem assim. 
Na política vive-se o dia de hoje, tal como vivem as crianças. Ontem foi há mil anos e amanhã logo se vê. Foi assim com a Grécia (já ninguém quer saber das promessas do Syriza) e é assim quando se discutem pensões, educação, segurança, etc. Em todos estes assuntos não há tema, há adversários. O objectivo é não dar o braço a torcer e muito menos fazer má figura. Temas incómodos e questões de princípio são coisas de crescidos, mas na política é tudo uma questão prática. A concorrência no horário nobre é feroz e o tempo dos eleitores é curto. 
As crianças também têm a particularidade de acharem que os pais são parvos, que acreditam em tudo o que elas dizem e que não sabem quem esvaziou metade do frasco de Nutella. Gostam de pensar que temos memória de peixe. Os políticos também desconfiam que os eleitores não estão muito atentos, que não percebem a origem dos 10 milhões de euros ou que o futuro da Grécia não tem nada a ver com a popularidade dos governantes gregos ou com a falta de popularidade dos governantes alemães. Os partidos de esquerda, que se multiplicaram nestes últimos meses, e o Partido Socialista, que esvaziou o frasco de Nutella, vivem alegremente neste jardim-escola político na esperança de que ninguém se aperceba da vertiginosa vacuidade do seu pensamento.
A única maneira de resolver este assunto, e de passarmos por estes meses sem traumas de maior gravidade, é enviarmos as nossas crianças a debater com os dirigentes de esquerda: perde quem amuar primeiro e quem não conseguir inventar chavões novos que incluam os termos austeridade, crescimento e neoliberal. O meu filho de sete anos pode ir debater com António Costa – e é muito mais giro que o líder socialista.

POLÍTICOS DE CENTRO-DIREITA PROCURAM-SE

António Pinheiro Torres, Carta ao Director, Público, 2015.06.27

Com convicções. Que não tremam de medo da comunicação social ou do Bloco de Esquerda e parentes próximos ou afastados. Que prefiram causas a estratégias e estas a tácticas.
Que percebam que tomar decisões à esquerda não traz um voto mas faz perder outros na própria área política e que o eleitor de esquerda não passa a votar no centro-direita por isso.
Que se interessem realmente pelos problemas concretos que os temas fracturantes trazem à sociedade portuguesa e não se detenham no preconceito nem se deixem colonizar pela ditadura intelectual da esquerda.
Que amem as pessoas concretas que lhes estão confiadas e as comunidades que estes constituem e as realidades sociais que estes originam.
Que não temam o povo que neles vota mas se considerem obrigados a seguir esse povo e a representá-lo nas instâncias próprias devolvendo-lhe, ao povo, o poder que só a este pertence. Que não tomem os seus eleitores por reféns ou por parvos.
Que tenham gosto na refrega, prazer na batalha, atracção pelo risco. Livres perante o poder, sem depender deste, sem receio de o perder e certos que é assim que o poder se merece e conquista.
Inteligentes para construir pontes, encetar diálogos e procurar acordos, para o que é indispensável estar certo do que se crê e quer. Humildes, para perceber que o poder não é deles, que se falha e se cai, mas o mérito não está no sucesso nem na coerência ética, mas em procurar o bem-comum.
Com moral, mas não moralistas. Com ideal, mas não idealistas. Realistas. Respeitadores das instituições e da democracia. E dos movimentos de cidadãos também. Numa palavra: políticos. Procuram-se.

O Preconceito Ideológico de uma Deputada e o País Real

José Maria Duque, Nós os poucos, 2015.06.27

Encontra-se neste momento no Parlamento uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) que cria um quadro legal de apoio à Maternidade, à Paternidade e ao Direito a Nascer, subscrita por quase 50 mil cidadãos em pouco menos de três meses.
A propósito da discussão pública desta ILC na Assembleia da República a Deputada Isabel Moreira escreveu dois artigos sobre esta e fez uma intervenção (em nome do grupo parlamentar do Partido Socialista) na audição pública da Comissão de Subscritores na 1ª Comissão Parlamentar (Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias).
Na referida intervenção a senhora deputada chama a cinquenta mil cidadãos, entre os quais se contam mais de 40 professores de Direito, que tem ideias diferentes das suas, “selvagens”, “bárbaros” ou “pré-históricos”, quando estes pedem apoio social à maternidade e paternidade, respeito pelos profissionais de saúde objectores de consciência, ou que o tempo de maternidade seja contado como tempo efectivo de estágio, etc..
Não deixa aliás de ser sintomático da falta de respeito da senhora deputada para com os representantes e subscritores desta iniciativa o facto de, na audiência pública concedida pela Iª Comissão, a senhora deputada ter condições para fazer um intervenção virulenta e insultuosa contra a Iniciativa, mas não ter condições para ouvir a resposta, tendo abandonado a sala assim que acabou de falar!
Contudo, não serve este artigo para apontar a incorrecção daquela deputada, mas os seus argumentos contra a Iniciativa “Pelo Direito a Nascer” que têm que ser respondidos, porque são falsos.
No artigo “Selvajaria Moral” publicado no Expresso, começa por dizer que esta Iniciativa é sobre a IVG, quando na verdade é sobre a Maternidade, a Paternidade e o Direito a Nascer. 
É evidente que existem pontos onde se trata do aborto legal e da portaria que o regula, mas vai para além disso.
Prossegue a senhora deputada afirmando que “A intenção dos cidadãos pró-vida é contrariar a lógica do sistema, intenção essa que trairia, se levada à prática, o espírito do nosso ordenamento jurídico (…)” mas, não fundamenta esta conclusão.
Diz ainda: “Numa palavra, a vida intrauterina tem proteção objetiva; a vida já nascida tem proteção subjetiva. Pretender equivaler estas dimensões é pré-histórico.” Em parte alguma da ILC tal é dito. Talvez a leitura tenha sido apressada…
Nem mesmo na pertença ao agregado familiar justifica a leitura injuriosa feita. Pois, a proposta de lei não concede nenhum direito pessoal, mas apenas repõe a verdade no agregado familiar.
Ou seja, tornar o nascituro parte do agregado familiar tem como resultado jurídico uma maior protecção do agregado familiar e por conseguinte do nascituro. Achar que isso é o mesmo que equiparar o nascituro e o já nascido é intelectualmente desonesto.
Diz ainda no seu artigo: “Nos termos do artigo 4º, é revogada, para todos os efeitos, a equiparação entre IVG e gravidez. Esta inconstitucionalidade significa que os signatários ignoram que o aborto espontâneo, tal como a IVG, são problemas de saúde.” Ora, IVG e aborto espontâneo são actos distintos. A ILC não trata do aborto espontâneo. Apenas faz cessar a equiparação entre a IVG e a gravidez. Ou seja, trata a IVG como todos os outros problemas de saúde, com o mesmo regime de taxas moderadoras e de baixas médicas. Não aceita é que a IVG beneficie dos incentivos à maternidade!
Mas talvez a maior desonestidade intelectual seja esta: “A desconsideração pelas mulheres continua no artigo 9º, o qual obriga a mulher a revelar as pessoas com quem teve sexo.”. 
Vejamos então qual o motivo da indignação. O artigo 9º do projecto de lei apresentado, depois de dizer que devem ser apresentadas à mulher todos os apoios disponíveis à maternidade, diz na alínea b): “No sentido do apoio à maternidade, deve também ser auscultado o outro progenitor quanto à sua capacidade no cumprimento dos seus deveres de paternidade“. Ora, esta norma visa tão só que o pai da criança se responsabilize, e que tenha o direito de ser ouvido. Sempre com o consentimento da mulher. Um preceito que visa apoiar a mulher e combater a solidão.
Também não deixa de ser preocupante que a citada deputada desconheça os números do aborto. Na Iª Comissão afirmou que só se tinham feito em Portugal 100 mil abortos a pedido da mulher. O problema é que citou os números de 2011, quando já existem números conhecidos até 2013 que nos permitem saber que já foram praticados mais de 119 mil abortos a pedido da mulher desde que a lei actual entrou em vigor.
Falta à verdade quando diz que a taxa de reincidência é de 1%. Uma coisa é a reincidência no mesmo ano (superior a 1%). Outra as reincidências desde que a lei entrou em vigor que são pelo menos 27% (pelo menos, porque o número só é conhecido se a mulher que vai abortar declarar que já o fez anteriormente).
Por fim, diz a mencionada Sra. Deputada que pôr a mulher a assinar a ecografia antes de abortar é uma “violência de estado”, porque a psiquiatra sua amiga, Dra. Ana Matos Pires, o afirma.
Poderá considerar que mostrar a ecografia a uma grávida que quer abortar é violento. E é verdade que o é. O aborto é violento, é duro e faz sofrer. Contudo, nenhum acto médico pode ser executado sem consentimento informado. De facto, em qualquer acto médico somos confrontados com radiografias, ecografias, TAC’s. Esta ILC só pretende que o mesmo critério que preside ao consentimento informado para os outros actos médicos seja aplicado ao aborto.
Concluindo, os argumentos da deputada Isabel Moreira contra a ILC “Pelo Direito a Nascer” não se baseiam na dita Iniciativa, mas sim no seu preconceito ideológico. Infelizmente, este preconceito impede um debate sério dos temas da saúde materna e dos apoios à maternidade e paternidade que o País real tanto deseja.
Por toda a Europa, e nos EUA está a ser feito um trabalho de natureza social que combata o drama do aborto em que milhares de mulheres se vêem envolvidas. Tal só se faz com verdade e abertura. Com argumentos sem rigor científico e jurídico esse trabalho é estéril.