sexta-feira, 31 de julho de 2015

Kremlin receia precedentes perigosos

José Milhazes Observador 31/7/2015, 23:52

Putin e a sua corte jamais irão reconhecer a sua culpa nesse acto ignóbil e, no máximo, poderão vir a aceitar a entrega às autoridades internacionais de alguns comandantes dos separatistas russófonos
O veto russo do projecto de resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a criação de um tribunal para investigar e julgar os autores do derrube do avião malaio no céu do Leste da Ucrânia não constitui novidade e veio apenas mostrar que o Kremlin só aceitará conclusões que o ilibem completamente, pois, caso contrário, isso pode levar a que dirigentes russos se sentem no banco dos réus.
É de salientar que a Rússia se viu praticamente isolada. A China, que Moscovo considera ser seu parceiro estratégico, decidiu não se comprometer e optou pela abstenção, posição seguida também pela Venezuela e Angola.
O Kremlin apresentou os mais variados argumentos para justificar a sua decisão. O Presidente Putin considerou a criação desse tribunal “contraprodutiva” e o representante russo no CS da ONU, Vitali Tchurkin, precisou: “Não existem precedentes na criação pelo CS de tribunais internacionais para julgar culpados de actos que provocaram catástrofes em transportes”. Além do mais, ele acusou as autoridades ucranianas de não terem proibido a passagem de aviões civis por lugares onde tinham lugar combates.
A posição russa é realmente estranha se se tiver em conta que o derrube do avião malaio, que provocou a morte de 298 pessoas, não ocorreu no território da Rússia e, segundo o Kremlin, nada tem a ver com o incidente. Isto deveria ser mais um motivo para que Moscovo estivesse interessada numa investigação internacional aberta, onde teria possibilidades de defender as suas posições, apresentar as suas provas e testemunhas.
Não obstante o veto russo no CS da ONU, existem outras possibilidades de criação de um tribunal internacional, fruto de um acordo entre um país ou grupo de países com as Nações Unidas, como aconteceu com o Camboja ou a Serra Leoa. Porém, nesse caso, as decisões não serão de cumprimento obrigatório para Moscovo.
É verdade que a Ucrânia ou a Malásia podem recorrer ao Tribunal Penal de Haia. A Rússia não nega a sua jurisdição e colabora com esse tribunal no caso da queixa da Geórgia a propósito da guerra de 2008, mas o Kremlin pode mudar de posição a qualquer momento.
Durante um ano de investigações, Moscovo já apresentou várias versões sobre as causas da tragédia, não se preocupando muito com a veracidade delas: publicação de fotos retocadas, “provas” de que o avião civil foi abatido por um aparelho militar ucraniano, ou de que foi derrubado por um míssil, mas também ucraniano. Pelos vistos, o objectivo parece ser, à priori, desacreditar as conclusões a que irão chegar os investigadores e os juízes do futuro tribunal.
Mesmo que sejam apresentadas as provas mais convincentes, Putin e a sua corte jamais irão reconhecer a sua culpa nesse acto ignóbil e, no máximo, poderão vir a aceitar a entrega às autoridades internacionais de alguns comandantes dos separatistas russófonos do Leste da Ucrânia, como aquele que, logo após a queda do avião malaio, veio anunciar, através das agências de informação russas, que tinham abatido um avião militar de transporte ucraniano. E isto se a pressão internacional for muito grande.
Ou esperam ter a mesma sorte de Muammar Kadhafi no caso do derrube do avião civil em Lockerbie, em Dezembro de 2008, que conseguiu chegar a acordo com as autoridades inglesas e tirar da prisão o terrorista líbio que matou 270 pessoas.
Tudo dependerá de como as situações internacional e na Rússia se irão desenvolver.
P.S. Entretanto, a queda do preço do petróleo e a crise nas bolsas chinesas estão a provocar prejuízos na economia russa: o rublo volta a perder valor em relação ao dólar e euro, o desemprego e os preços aumentam. No campo político, o Kremlin não para de pôr na prisão políticos da oposição que apenas pretendem participar nas eleições regionais de Setembro. Só uma coisa continua estável na Rússia: a popularidade do seu dirigente máximo.

Não, os Verdes não são o CDS e Portas terá um papel central nesta campanha

João Marques de Almeida
31/7/2015, 7:56

Quase por milagre, Passos e Portas reconstruíram a sua relação política e hoje concorrem juntos às eleições. E o líder do CDS será muito importante para a campanha.

O debate político em Portugal conhece por vezes momentos da mais pura hipocrisia. Recentemente, assistiu-se a um desses momentos quando muitos colocaram o CDS e os Verdes no mesmo patamar, a propósito dos debates televisivos durante a campanha eleitoral. Todos sabem que são completamente diferentes, mas quase ninguém o disse. Mais uma vez, em nome de interesses imediatos – impedir a participação do líder do CDS nos debates televisivos – mostrou-se uma enorme falta de respeito pela história da democracia portuguesa.
O CDS desempenhou um papel central na história política portuguesa desde o 25 de Abril. Começou por impedir que o sistema político estivesse completamente desequilibrado para a esquerda. Participou na Aliança Democrática que deu a primeira maioria absoluta ao centro- direita em Portugal. A sua dimensão democrata-cristã permitiu que se aliasse ao Partido Socialista, ainda antes de ter percebido qual era o lado certo para se aliar (e até agora ainda não mudou; apesar dos apelos do Presidente da Câmara de Sintra). Fez, depois, a travessia do deserto durante os anos das maiorias de Cavaco Silva. Sobreviveu ainda à deriva PP de Manuel Monteiro. Conheceu momentos infelizes, como o da AD dos desencontros e das confusões culinárias entre Rebelo de Sousa e Portas.
Mas resistiu e voltou ao governo por duas vezes, primeiro com Durão Barroso como Primeiro Ministro e depois com a actual coligação; a primeira a concluir uma legislatura desde o 25 de Abril. Mais importante, contribuiu para a estabilidade política e para a recuperação da economia durante a maior crise nacional desde a adesão à Comunidade Europeia. E por isso, os sues dirigentes tomaram a decisão óbvia: manter a coligação. O CDS não faz parte do grupo muito restrito dos dois maiores partidos portugueses, mas tem um percurso digno – tendo desempenhado um papel relevante em momentos centrais da vida da democracia em Portugal – e que deverá orgulhar os seus militantes.
Quanto aos Verdes, não passam de uma farsa política. Não concorrem sozinhos às eleições, mas sim como um satélite do Partido Comunista. No Parlamento, não mostram uma vida própria nem qualquer autonomia em relação aos comunistas. Só a elevada tolerância em relação a alguns abusos da extrema esquerda é que permite chamar-se à CDU uma aliança dentre dois partidos. A diferença entre o CDS e os Verdes é como a distância que separa um partido com uma história própria de um apêndice do Partido Comunista sem história e sem autonomia. A comparação entre os dois constitui uma ofensa à democracia portuguesa.
Além disso, também não se pode comparar Paulo Portas a Heloísa Apolónia. A “líder” dos Verdes não tem existência política autónoma. Portas está entre os cinco políticos no “activo” mais importantes hoje em Portugal. E só três deles concorrem às eleições – Passos Coelho, António Costa e Portas – os outros estão em Belém (Cavaco) e em Évora (Sócrates, embora não seja um preso político, é um político profissional na prisão).
Em 2013, Portas cometeu o maior erro da sua vida política, quando se “demitiu” do governo de um modo completamente absurdo. Na altura, foi o CDS que o salvou, salvando-se também a si. Quase por milagre, Passos e Portas reconstruíram a sua relação política e hoje concorrem juntos às eleições. E o líder do CDS será muito importante para a campanha. Tem um discurso articulado e simples sobre o que se passou nos últimos quatro anos. Tem igualmente ideias claras e organizadas sobre as mensagens para o futuro. Por fim, goza de uma experiência política única entre os líderes partidários. De todos, foi o que mais vezes concorreu como líder partidário a eleições legislativas. Esta será a sua sexta campanha como líder (a quarta para Jerónimo de Sousa, a segunda para Passos Coelho e a primeira para António Costa). Numa eleição em que a campanha será absolutamente decisiva, a experiência e o talento oratórios de Portas serão muito importantes. Este é um daqueles momentos em que será melhor estar ao seu lado, do que contra ele, como muito bem percebeu o Primeiro Ministro.

31 de Julho - Santo Inácio de Loyolla

A partir de hoje o Povo vai de férias, regressando em Setembro, como já é hábito.
Este último dia de Julho é também o nosso dia de anos de casados. Este ano faz 39 anos. É sempre uma ocasião para fazer memória do significado do casamento. Para isso partilho convosco esta magnífica lição sobre o Sacramento do Matrimónio.
É também o dia de Santo Inácio de Loyola por quem fomos ganhando uma especial devoção. Boas Férias

Para os que amam, nada é demasiado difícil, especialmente quando é feito por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo
Santo Inácio de Loyolla


Cavaco Silva explicado aos distraídos

Rui Ramos
Observador 31/7/2015

Cavaco Silva desempenhou um dos mandatos presidenciais mais difíceis da democracia. Frequentemente, pareceu uma das poucas pessoas preocupadas com o essencial. E ainda parece.

Há que voltar ao prato frio presidencial, porque o que está em causa é a compreensão do que se passa em Portugal. No dia 22, ao anunciar a data das eleições legislativas, o Presidente da República explicou as vantagens de um governo sustentado por uma “maioria estável no parlamento”. A oligarquia partidária e comentadora aproveitou logo para repetir a rábula de sempre: não se percebe Cavaco, Cavaco esteve mal, etc. O secretário-geral do PS, entusiasmado, desceu mesmo até à condescendência irónica. A dificuldade, para os mais finos, era esta: como é que Cavaco Silva pede agora um governo maioritário, quando em 2009 aceitou um governo minoritário?
Não é um mistério. Em 2009, o Presidente tinha um problema: Sócrates. Sócrates está hoje detido às ordens da justiça, e mesmo assim teve durante meses o PS em fila à porta da prisão. Imaginem que, há seis anos, Cavaco Silva não lhe tinha dado posse. Teria provavelmente sido o fim do regime.
Antes de nos falarem das supostas limitações pessoais de Cavaco Silva, falem-nos das reais dificuldades políticas que encontrou. Cavaco Silva enfrentou um problema que, antes dele, nenhum outro Presidente teve: foi o primeiro cuja eleição não contou com o apoio do PS. Os líderes socialistas fizeram-lhe sentir isso a todas as horas. Nunca o trataram senão como um intruso. Depois de 2011, o primeiro Presidente que não foi votado pelo PS viu-se perante o primeiro ajustamento em que o PS, agora na oposição, recusou colaborar, ao contrário do que acontecera em 1978 e em 1983-1985. Entre 2011 e 2014, Cavaco Silva falou muito do risco de uma ruptura social. Mas o risco de uma ruptura política foi maior.
O mito de que o Presidente favoreceu este governo e excluiu o PS é ridículo. O Presidente favoreceu o ajustamento, não o governo, e nunca se coibiu de criticar esta ou aquela opção governamental. O governo não pareceu sólido até ao Verão de 2013. Em Julho desse ano, o ministro das Finanças e o ministro dos Negócios Estrangeiros deram a entender, demitindo-se, que não acreditavam na possibilidade do ajustamento. O Presidente propôs então uma fórmula que traria o PS de volta ao governo. Foi a vez de os socialistas demonstrarem a sua impotência: António José Seguro, minado no partido, não pôde assinar nada. A culpa foi de Cavaco Silva?
Neste momento, a oligarquia finge acreditar que um governo minoritário a partir de Outubro nunca deveria ser uma preocupação. É uma farsa bizarra. O país emergiu do resgate, mas não dos seus problemas: dívida, défice, impostos altos, crescimento baixo. Vai ser preciso reformar, se quisermos continuar no euro. Com um governo minoritário, dependente de negociações à direita e à esquerda, teríamos escaladas de juros nas vésperas de cada votação parlamentar. Só o Presidente é que está a ver? Andam todos distraídos?
A oligarquia gosta de discutir Cavaco Silva, mas não sabe como. A falta de imaginação manda que a pergunta seja sempre a mesma: é ele ou não um “político”? A questão sobre Cavaco Silva não é essa, mas outra: saber que tipo de político ele é. O actual presidente é um “institucionalista”. Alguns o têm dito, mas é preciso perceber o que isso significa. Cavaco Silva não acredita na política de confrontos ideológicos, como a que Margaret Thatcher praticou no Reino Unido há trinta anos. Provavelmente, porque receia que a alta tensão acabaria por dividir o país, como aconteceu em 1975. Em vez disso, Cavaco Silva preza uma política de consenso, enquadrada pelo projecto da integração europeia. Para ele, é esse o único meio de garantir a continuidade do regime e a prosperidade do país. Era bom que houvesse uma alternativa. Mas alguém tem?
Cavaco Silva desempenhou um dos mandatos de chefe de Estado mais difíceis da democracia. Frequentemente, pareceu uma das poucas pessoas preocupadas com o essencial. O regime aguentou o ajustamento, as instituições funcionam regularmente, e os grandes partidos começam a congregar as intenções de voto. Para garantir isso, Cavaco Silva resistiu a muita coisa. Não só aos ataques e às intrigas, mas também às tentações de popularidade e de populismo: que fácil teria sido dar o tal “murro na mesa”, e levantar o país contra os “políticos”. Não o fez, e muitos aproveitarão isso para dizer que, afinal, não fez nada. Mas os princípios da medicina aplicam-se igualmente à Presidência da República: acima de tudo, não fazer mal. Um dia, outra geração verá claramente o que o facciosismo e a leviandade não deixam agora compreender.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Heróis e vilões

José António Saraiva | SOL | 30/07/2015
A esquerda, sendo por natureza utópica, tem necessidade de criar os seus heróis - e também de ter os seus vilões. Os maus da fita.
Os sonhos são muito bonitos a nível individual. Os sonhos colectivos, pelo contrário, acabam normalmente em tragédias. Foi o nazismo, foi o comunismo, foi o fascismo, foi o maoismo...
Agora, a principal bête noire da esquerda portuguesa (e europeia) é o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble. Ele é o culpado de tudo o que de mau acontece na Europa. Ele tem todos os defeitos: é azedo, zangado com o mundo, amargo, intratável, sinistro, etc. 
É certo que o atentado que o amarrou para toda a vida a uma cadeira de rodas pode ter feito dele um homem mais duro. Mas, em primeiro lugar, Schäuble não caiu do céu: ele representa hoje boa parte (senão a maior parte) da opinião pública alemã. Em segundo lugar, limitou-se a dizer uma coisa evidente: a Grécia não tem condições para estar no euro. No fundo, toda a gente sabe isso. Mas ninguém pode dizê-lo…
Os que criticam o ministro alemão já não se lembram provavelmente do que disseram de Angela Merkel até há muito pouco tempo. Merkel era a anterior bête noire da esquerda mundial - e até de pessoas moderadas do centro-direita. Ouvi Marcelo Rebelo de Sousa dizer com todas as letras que Merkel era «estúpida» pois estava a dar cabo do euro - quando a Alemanha era a principal beneficiária da moeda única.
Ora, é preciso algum pretensiosismo para dizer que uma mulher que chegou a chanceler alemã, e que já foi reeleita com uma vantagem folgada, é ‘estúpida’ e não sabe o que é melhor para o seu país.
No auge da contestação a Merkel, lembro-me de escrever que ela ainda haveria de ser reconhecida como a grande defensora do euro. Porquê? Porque defender o euro não é defender a ‘balda’, admitir tudo, deixar os países fazerem o que quiserem. Esse é o caminho mais directo para o fim do euro. Defender o euro é defender a disciplina orçamental, é exigir o cumprimento das regras, é dizer que os países têm de respeitar os seus compromissos, têm de cumprir os limites do défice, têm de pagar as suas dívidas, etc.
Os que defendem a ‘balda’, sob o bonito nome de ‘solidariedade’, não percebem que as suas ideias conduziriam a um beco sem saída - porque, mesmo que os vários líderes políticos europeus fossem permissivos em Bruxelas e aceitassem todas as infracções às regras do euro, os cidadãos dos países contribuintes líquidos acabariam por dizer um rotundo ‘não’ e poriam fim à festa. 
Curiosamente, muitos dos que há poucos meses atacavam Merkel defendem-na agora - pelo simples facto de que ela aparece em rota de colisão com Schäuble. A esquerda anda aos ziguezagues porque, no seu afã de endeusar este e diabolizar aquele, acaba muitas vezes por ter de mudar de opinião.
O fenómeno não é novo, mas tem-se repetido até hoje.
Ainda há três semanas, Alexis Tsipras era um herói para a esquerda. Ele ia mudar sozinho as regras da política europeia e instalar uma nova ordem em Bruxelas, fazendo vergar a Alemanha e todos os outros 17. Agora chamam-lhe nomes e acusam-no de traição. 
François Hollande foi outro dos heróis para a esquerda. Depositaram-se nele muitas esperanças. Em contraste com Sarkozy, do qual se dizia estar feito com Merkel, Hollande era o homem que ia obrigar a chanceler alemã a adoptar outra atitude. Mas Hollande foi a Berlim e no regresso mostrou que quem adoptara outra atitude fora ele próprio.
Antes de Hollande - e para o lugar dele - a esquerda francesa (e europeia ) teve outro herói efémero: Dominique Strauss-Khan. Mas este perdeu-se num insólito assédio a uma criada de quarto e, embora os socialistas tenham tentado durante algum tempo segurá-lo, concluíram que não era possível e deixaram-no cair.
Antes disso, outro herói, este de estatura mundial, se prefigurou no horizonte da esquerda: Barack Obama. Era o primeiro Presidente negro da história dos EUA, era democrata, ia apagar do mapa os disparates de Bush. Mas depressa a esquerda se desiludiu, percebendo que não se muda a política externa de um país como os EUA como quem muda de camisa e por um exercício de vontade. E nem o facto de Obama ter introduzido uma reforma histórica no sistema de saúde foi suficiente para evitar a desilusão. A esquerda esperava muitíssimo mais dele. 
Já não falo para trás.
Nos líderes africanos que a esquerda endeusou, de Samora Machel a Kadhafi, autor do Livro Verde, que muitos esquerdistas de várias latitudes promoveram a grande pensador. Como é possível? Como é possível que muita gente pela Europa fora - um continente que teve enormes pensadores - se tenha deixado encantar por um charlatão, um tirano com um pensamento rudimentar?
Depois de tantas experiências falhadas, como é que a esquerda continua a acreditar em Dons Sebastiões? Para mim é um mistério. Depois de ter glorificado Lenine, Trotsky, Estaline, Krutchev, etc., na URSS, depois de ter depositado tantas expectativas em Mao, a Oriente, como se explica que ainda não tenha aprendido? 
Mas não aprendeu. Hoje em dia ainda há quem se curve perante uma figura absolutamente ridícula, anedótica, de chorar a rir, como o líder norte-coreano Kim Jong-il. 
A esquerda sempre foi assim e continuará a ser - porque, no momento em que deixasse de ser, em que assentasse os pés no chão e não fosse atrás de ilusões, deixaria de ser esquerda.
O que ainda alimenta a esquerda são estes heróis de pacotilha que dizem umas coisas bombásticas. ‘Agora é que é’ - pensam os incautos. ‘Este é que vai mudar tudo’. A esquerda, como qualquer adolescente, quer poder sonhar. Quer ouvir a voz daqueles que a fazem sonhar. Quer acreditar em fantasias como a Primavera Árabe ou a revolução grega.
A esquerda não quer ouvir a realidade porque quer poder viver num mundo ilusório. Mas, como já escrevi, os sonhos são muito bonitos a nível individual. Os sonhos colectivos, pelo contrário, acabam normalmente em tragédias. Foi o nazismo, foi o comunismo, foi o fascismo, foi o maoismo... Será que a esquerda nunca pensou nisto? 

Férias

Aproximando-se o tempo de férias, vale a pena penetrar no seu significado e naquilo que o uso deste tempo livre nos diz sobre nós mesmos.
Para isso temos que o avaliar.
Não será por falta de tempo que não conseguiremos usar este breve exame de consciência como instrumento de avaliação do uso da nossa liberdade.
"Percebe-se o que uma pessoa – jovem ou adulta – quer verdadeiramente, não pelo trabalho ou pelo estudo, que é aquilo que tem a obrigação de fazer, pelas conveniências ou pelas necessidades sociais, mas pela forma como usa o seu tempo livre. Se um jovem ou uma pessoa madura desperdiça o tempo livre, não ama a vida: é tolo. As férias são, de facto, o clássico tempo em que quase todos se tornam tolos. Pelo contrário, as férias são o tempo mais nobre do ano, porque é o momento em que uma pessoa se compromete como quer com o valor que reconhece predominante na sua vida, ou então não se compromete de maneira nenhuma com nada e então, realmente, é tola.
O valor maior do homem, a virtude, a coragem, a energia do homem, aquilo por que vale a pena viver, está na gratuidade, na capacidade de gratuidade. E a gratuidade está precisamente no tempo livre que emerge e se afirma de uma forma admirável.
O modo de rezar, a fidelidade à oração, a verdade dos relacionamentos, a entrega de si, o gosto pelas coisas, a modéstia ao usar a realidade, a comoção e a compaixão em relação às coisas, tudo isto vê-se muito melhor estando de férias do que durante o ano de trabalho. Nas férias a pessoa é livre e, sendo livre, faz o que quer.
Isto quer dizer que as férias são uma coisa importante. Em primeiro lugar isso implica atenção na escolha da companhia e do local, mas sobretudo tem a ver com o modo como se vive: se as férias nunca te recordam aquilo que mais gostavas de lembrar, se não te fazem ser melhor em relação aos outros, mas te tornam mais instintivo, se não te fazem aprender a contemplar a natureza com uma intenção profunda, se não te fazem oferecer um sacrifício com alegria, o tempo do descanso não cumpre o seu objectivo. "(ler aqui o texto completo)
Luigi Giussani
(1922-2005)

Breve exame de consciência

senzapagare, 2015.07.22

Deveres para com Deus: Lembrei-me de Deus durante o dia, oferecendo-Lhe o meu trabalho, dando-Lhe graças, recorrendo a Ele com confiança de filho? Fiz bem todas as minhas orações?

Deveres para o próximo: Tratei mal os outros? Tive a preocupação de ajudar e rezar pelos que me rodeiam? Fiz algum apostolado? Caí na murmuração? Disse alguma mentira? Soube perdoar?

Deveres para comigo: Deixei-me levar por sentimentos de orgulho, vaidade, sensualidade? Esforcei-me por arrancar os meus defeitos? Fui preguiçoso ao levantar, ou no trabalho?
Que bem fiz hoje?
Que mal fiz hoje?
Que farei melhor amanhã?

Acto de contrição: Meu Senhor Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Criador, Pai e Redentor meu, Por ser vós quem sois e porque vos amo sobre todas as coisas, pesa-me de todo o meu coração de vos ter ofendido, proponho firmemente a emenda de minha vida para nunca mais pecar, apartar-me de todas ocasiões de ofender-vos, confessar-me e cumprir a penitência que me foi imposta.

Ofereço-vos, Senhor minha vida, obras, e trabalhos em satisfação de todos os meus pecados e assim como vos suplico, assim confio em vossa bondade e misericórdia infinitas que mos perdoareis pelos méritos de vosso preciosíssimo sangue, paixão e morte e me dareis graça para emendar-me e perseverar em vosso santo serviço até o fim de minha vida. Amém.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

29 de Julho - Santa Marta

Cristo com Marta e Maria

É sempre bom recordar como se pode ser baixo na política

José Manuel Fernandes
Observador 29/7/2015

Queria agradecer a Augusto Santos Silva. Bem haja por nos recordar como se pode ser manipulador nos argumentos e rasteiro na linguagem. Por nos lembrar como isso foi regra nos seus anos de socratismo.
Todos os seres humanos gostam de ter boas surpresas. Mas há seres humanos que nunca nos surpreendem. Nunca nos fazem duvidar que fazem parte daquele grupo de gente para quem os fins justificam os meios. Quaisquer meios, mesmo os golpes baixos.
Augusto Santos Silva, figura central dos anos de chumbo do socratismo, fez o favor de nos recordar, em texto no Diário de Notícias, como se pode ser baixo na política. Como se pode tratar de atropelar tudo e todos em função de um poder (que, no caso, se perdeu) e de um ego (que, no caso, não parece ter limites).
O que esteve, o que está em causa é a polémica entre o antigo ministro socialista e o director de informação da TVI, Sérgio Figueiredo. Não me interessa, não creio ser útil, entrar nos detalhes da controvérsia. Basta recordar que a TVI decidiu dispensar os comentários de Augusto Santos Silva, substituindo-o na antena por outro socialista, Fernando Medina, e que aquele andava há semanas a fazer acusações de censura à televisão de Queluz. Sérgio Figueiredo, que se manteve em silêncio durante várias semanas, entendeu esclarecer o que se passou na sua mais recente coluna de opinião no mesmo DN. O jornalista conta uma história longa, mas fácil de resumir: Augusto Santos Silva (ASS) foi dispensado pela TVI não por qualquer vontade de calar as suas opiniões, mas por ser mal-criado. ASS fez-nos agora o favor de confirmar esse julgamento. Quem pudesse duvidar do seu carácter e daquilo a que a minha avozinha chamava “falta de chá em pequenino”, fica sem dúvidas.
E por aqui ficaríamos não fosse todo este episódio muito revelador. E não nos tivesse este texto recordado o tipo de práticas políticas autoritárias que caracterizaram o consulado socrático, de que ASS foi um dos expoentes, porventura um dos arquitectos ao integrar o núcleo político dos seus governos. Como essa tinha não desaparece facilmente, como ainda não nos curámos de todos os males que o estilo de fazer política causou ao país e à sua cultura democrática, vale a pena perder algum tempo com a diatribe de Santos Silva.
E começa por valer a pena pois ela não é apenas arrogante e desproporcionada: é também um exercício de manipulação, um exercício bem típico do que fazia o nosso dia-a-dia no tempo em que ASS foi passando por quatro ministérios diferentes (sim, é verdade: custa a crer, mas ele foi, sucessivamente, ministro da Educação, da Cultura, dos Assuntos Parlamentares e da Defesa, um verdadeiro político todo-o-terreno).
Apenas um exemplo, para mostrar o estilo deste nosso “animal político”. A certa altura, ASS cita Sérgio Figueiredo: “no mesmo dia em que Santos Silva reagia aceitando conversar, decidiu fazer um comentário público na sua página do Facebook”. A partir desta citação, transforma “o mesmo dia” num “depois”, discorrendo a seguir sobre horas de mails e de post no Facebook. Tudo para concluir: Sérgio Figueiredo é “mentiroso”. Porquê? Por algo que Sérgio Figueiredo não escreveu mas ASS sugere que escreveu.
Esta forma de procurar distorcer a verdade manipulando ou descontextualizando frases era uma das especialidades dos “spin doctors” do socratismo. ASS não a esqueceu nem a desmerece. O que Sérgio Figueiredo contestava era a forma de actuação do político, que trouxe para a praça pública do Facebook, com acusações e ataques, uma discussão que esse mesmo político começara em mails privados. A boa educação recomendaria que aí se mantivesse até que as partes esclarecessem o que tivessem a esclarecer. Santos Silva preferiu antes passar ao ataque, cinicamente alegando que o fazia em legítima defesa. Assumidamente considerando que, mesmo antes de qualquer ruptura, nenhuma lealdade era devida para a estação que o convidara para colaborador e lhe dava palco.
A desfaçatez com que o faz é tal que nem lhe ocorre que basta ler o texto atentamente para perceber que Sérgio Figueiredo nunca o acusa daquilo que se diz vítima, isto é, de ter colocado um post no Facebook “depois” da sua resposta ao mail de ASS, apenas de ter feito isso no “mesmo dia”. Mas é uma desfaçatez coerente com a forma como ASS via a sua colaboração na TVI: aquilo era a sua rubrica. Dele. Só dele. Não de Paulo Magalhães, que lhe fazia as perguntas e, assim, é reduzido à condição de palhaço ou de capacho (não sei qual a pior). Muito menos era uma rubrica da TVI. E, sendo dele, nenhum motivo de actualidade poderia alterar o seu horário ou formato, mesmo sendo a TVI24 uma estação cuja razão de ser é… a actualidade.
Não me surpreende esta forma de pensar e actuar. Não devia surpreender ninguém: foi regra durante os seis anos do quero, posso e mando em que ASS colaborou, esses anos que só terminaram em 2011, com o país no estado que se conhece. E ainda me surpreende menos porque conheço a má relação que Augusto Santos Silva tem com a liberdade de informação e a autonomia dos jornalistas. Já tive de lidar com ela, vivia-a na pela, tal como muitos outros jornalistas.
Não esqueço, por exemplo, que enquanto foi ministro da Educação se opôs tão ferozmente ao acesso da imprensa aos rankings das escolas que, mesmo depois de uma deliberação da comissão que regula o acesso ao dados da administração pública, decidiu desobedecer-lhe (esse acesso só foi possível porque António Guterres o substituiu, em boa hora, como ministro da Educação). Também não me esqueço da tenebrosa proposta de alteração do Estatuto do Jornalista, uma proposta que violaria grosseiramente direitos de informação e sigilo profissional, uma proposta que na sua versão mais gravosa só não foi por diante porque o Presidente da República a vetou. Na altura escrevi que esse estatuto “configurava um dos mais violentos ataques à liberdade de informação em Portugal desde o 25 de Abril” e voltaria a escrevê-lo se necessário.
Há quem não tenha memória – mas eu tenho. Por isso também me recordo de um jantar onde Francisco Pinto Balsemão, dirigindo-se directamente ao ministro, que estava presente, considerou toda a legislação que ele estava a preparar configurava uma “flagrante e constante insistência em proibir, travar, limitar, burocratizar, impedir a adaptação e o aproveitamento, pelas empresas e pelos profissionais, da revolução em curso”, isto é, da revolução digital. Como não me esqueço que o seu objectivo, enquanto ministro, era acabar com “o jornalismo de sarjeta”, como se isso fosse missão do poder político, como se disso não pudessem resultar as mais indiscriminadas formas de censura.
Mesmo assim há algo que aprecio em Augusto Santos Silva – a ausência de disfarces. Ao terminar o seu texto, escreve que “não faltam servos e cúmplices ao tiranete, quando está no topo”, o que faz com conhecimento de causa, pois tem disso experiência e honra. Mais: fá-lo com substância ao mostrar como, em Portugal, continua a haver políticos que acham que os jornalistas só podem estar ao seu serviço, que a verdade é apenas aquela que lhes convém e que a melhor atitude é ser como um animal feroz. Bem haja por isso. Bem haja por nos refrescar a memória. Bem haja por nos ajudar a perceber que o passado está sempre desejoso de regressar.

Macroscópio – Querem um tema de grande controvérsia? Pensem em conselhos para educar os filhos…


Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!


Crise grega? Prisão de José Sócrates? Queda de um avião nos Alpes? Luta pela liderança do PS? Ataque ao Charlie Hebdo? O mais recente iPhone? Jorge Jesus no Sporting? Desenganem-se. O texto do Observador mais partilhado e mais discutido nas redes sociais nestes 14 meses de existência foi publicado no domingo passado e é uma entrevista com um professor universitário. O que fez o seu sucesso e suscitou tanta controvérsia? O tema abordado: o grau de liberdade que os pais devem dar aos seus filhos. Os riscos que devem permitir que corram. E até onde deve ir o seu instinto protetor.

"Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável", uma entrevista de Rita Ferreira a Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, alguém que trabalha com crianças há mais de 40 anos, foi uma daquelas conversas que obrigam a pensar e repensar hábitos e comportamentos. Não a vou aqui fazer a sua síntese, pois merece ser lida de fio a pavio, apenas vos deixo dois pequenos aperitivos, duas frases retiradas da entrevista: "Os joelhos já não estão esfolados, mas a cabeça destas crianças já começa a estar esfolada, por não terem tempo nem condições para brincar livremente"; e "Brincar à luta é saudável. É um indicador de vida saudável das crianças. Como correr atrás de alguém, ou ser perseguido. Brincar é civilizar o corpo." Há muito mais assim, desafiador. E, também, suficiente para me lembrar das vezes que "parti a cabeça", como então se dizia, ou caí da bicicleta, ou da idade que tinha quando comecei a ir, em Lisboa, sozinho para a escola.

Talvez a época do ano permita a muitos pais estarem mais perto dos filhos, e ao mesmo tempo mais longe devido à extensão das férias escolares, mas calculo que esta altura seja boa para recordar alguns dos muitos trabalhos que, no Observador, fomos publicando nestes meses, sempre com enorme feedback por parte dos leitores. Assim poderá ler algum que lhe tenha escapado ou recordar argumentos e contra-argumentos. Eis um apanhado (pequeno) do que fomos fazendo com mais profundidade, em entrevistas ou em especiais:
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Frase do dia

Acredito naquilo que digo
Luigi Giussani
(1922-2005)

O fenómeno Varoufakis

JOÃO CÉSAR DAS NEVES
DN 2015.07.29

O mundo da política orçamental é vasto e complexo, incluindo muitos casos estranhos e aberrantes. Mas, até nessa companhia bizarra, o grego Yanis Varoufakis, no cargo de 27 de Janeiro a 6 de Julho, destaca-se como o pior e o mais bem-sucedido ministro das Finanças da história mundial recente. Em menos de seis meses conseguiu transformar uma situação desesperada numa catástrofe, enquanto se promovia da obscuridade ao estrelato.
Antes de mais, foi um ministro das Finanças muito popular, o que é inaudito. A função, nas suas características próprias, impõe incómodos e gera ódios. Quem se encarrega de nos tributar pode ser respeitado, temido, admirado, mas raramente é amado e celebrado. Varoufakis, mais conhecido pelo cachecol do que pelo défice, povoou magazines e revistas de moda.
Além disso era um académico numa função política, situação comum mas sempre ambígua. Recorrentemente tentada, costuma ser um fiasco por razões óbvias: os universitários tendem a ser tecnicamente bons mas politicamente inaptos, produzindo soluções elegantes mas impopulares. Neste caso, porém, a situação foi paradoxalmente inversa.
Yanis Varoufakis, doutorado em 1987 em Essex, na Grã-Bretanha, é professor catedrático na Universidade de Atenas desde 2006. Só que, especializado em Teoria dos Jogos, não domina as delicadas questões de finanças públicas e política orçamental. Aliás, não se lhe viu qualquer contributo, original ou outro. Desde o início, porém, revelou uma intensa atitude política, sentindo-se à vontade nas elaborações retóricas e nos debates parlamentares. Parecia um antipolítico-académico. No fim, o que o destruiu não foi qualquer destas duas dimensões, mas uma falha no elementar bom senso.
Tomou posse numa das mais terríveis crises que o mundo desenvolvido assistiu. Se isso impõe brutais sacrifícios, na população tem, ao menos, a vantagem de ser uma doença simples e elementar, com tratamento evidente. Havia alternativas limitadas e o essencial era óbvio para qualquer pessoa medianamente inteligente. Evitar a ruptura financeira, que geraria um colapso bancário e as consequentes derrocada produtiva e calamidade social, ainda piores do que as já verificadas, exigia garantir financiamento exterior. Só assim o país poderia estancar o pânico dos agentes económicos internos e externos, para depois começar o longo caminho de recuperação da confiança.
A tarefa era hercúlea, mas o Syriza tinha também condições únicas para a realizar: forte apoio popular nacional e internacional e os parceiros da União numa posição defensiva, devido à evidente desgraça já infligida à Grécia. Era patente que toda a gente desejava o maior sucesso ao rebelde governo helénico.
Nesta circunstância-limite havia algo a evitar a todo o custo: arrogância, pedantismo e dissipação. Insulto e desafio em condições assim, por muito que apeteça, são atitudes estúpidas. Quando se vai pedir muitos milhares de milhões a outros países, aliás também em crise, convém mostrar solidariedade, empenho, compreensão. Varoufakis fez exactamente o oposto do que devia: desdenhou negociações, iludiu propostas concretas e construtivas, limitando-se a barafustar.
É verdade que ele tinha bastante razão. A Europa cometera erros graves na Grécia, e sabia-o. Ao fim de tantos anos, o horror a que os gregos tinham chegado enfraquecia a posição dos duros, que exigiam a continuação da austeridade. Também para a União a atitude mais inteligente era benevolência, cooperação e apoio. Este ambiente favorável foi totalmente subvertido pela atitude tola, pretensiosa e ridícula do ministro grego, que legitimou os críticos enquanto debilitava os argumentos dos defensores de um alívio. No final, tendo prometido que se demitiria se perdesse o referendo de 5 de Julho, acabou por ser forçado a abdicar apesar de ter ganho.
O balanço do episódio é deplorável. Para o povo grego, o mandato de Varoufakis significou a explosão de uma situação já terrível. Bancos fechados, limites de pagamentos, ausência de crédito e bloqueios nas importações, além de tumulto e vexame logo na abertura da decisiva época turística. O governo do Syriza tem agora a missão impossível de aplicar um acordo pior do que aquele que recebeu mandato para rejeitar. Na Europa, o resultado foi devastador, com ruptura da confiança, acordos ilusórios e falta de perspectivas credíveis de união. Uma só pessoa beneficiou com tudo isto: Yanis Varoufakis, coqueluche mediática global que, agora sem responsabilidades, pontifica como guru da esquerda internacional. Parabéns!

terça-feira, 28 de julho de 2015

Laudato si

António Bagão Félix
Voz da Verdade, 2015.07.27

A primeira encíclica do Papa Francisco “Laudato si” (“Louvado Sejas”) aprofunda a doutrina social da Igreja sobre “o cuidado da casa comum” e sobre o que chama “uma ecologia integral”, ou seja ambiental, económica, social, cultural, da vida quotidiano e de justiça intergeracional.
Logo nas primeiras palavras, o Papa alerta-nos para uma insustentável lógica de crescimento como se fôssemos “proprietários e dominadores, autorizados a saquear” os bens do planeta. E lembra o ecologista São Francisco de Assis: “Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.
Esta encíclica é uma exortação contra a indiferença. Um belo texto de desassossego. Uma reflexão de holística sensibilidade. Um grito contra o egoísmo geracional. O pleno reconhecimento da interdependência económica, social e ambiental do homem e da natureza. Um marco contra a indigência moral, que se alimenta da falta de memória corroída pela primazia do presentismo, da impunidade e da “cultura do descarte”. Francisco assinala, sobretudo, as preocupações nos domínios da biodiversidade, da água, da poluição e das mudanças climáticas, da deterioração da qualidade da vida humana e da degradação social, da desigualdade planetária e do que chama “a fraqueza das reacções perante os gemidos da irmã Terra”.
O Papa baseia toda a sua análise em dois princípios fundamentais da doutrina social da igreja: o princípio do bem comum e o princípio do destino universal dos bens. E refere: “o princípio da subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e, consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social”.
Uma visão prospectiva, desafiante e esperançosa de uma ética não meramente antropocêntrica, desconstruindo a ideia moral de pôr o Homem à parte da natureza.
No texto é explícita a ideia de uma ética intensiva que defenda a natureza. O seu desafio último é a conservação da vida na terra. É uma ética do porvir no espaço e no tempo. Uma ética do futuro que não é uma ética para o futuro, mas para hoje. Em suma, uma visão ousadamente biocêntrica que nos possa conduzir a um ideal ético de harmonia do homem com a natureza. Uma ética que não é uma questão de ideologia, antes de confronto entre o bem e o mal, o certo e o errado.
Neste contexto integrado, Francisco chama, ainda, a atenção para o que designa “a globalização do paradigma tecnocrático homogéneo e unidimensional”.
Como já Paulo VI havia alertado na Populorum Progressio, não podemos ser indiferentes ao perigo de ”confiar todo o processo do desenvolvimento unicamente à técnica, porque assim ficaria sem orientação”. A técnica, em si mesma, é ambivalente. A tecnologia não tem rosto. É impessoal. Pode ser usada para o bem ou para o mal. Os males não estão na tecnologia, antes radicam na acção do homem. Por isso, tem que se basear numa escala de valores. Não podemos ser mais ricos em tecnologia, ao mesmo tempo que nos arriscamos a ser mais pobres em natureza. Como escreveu Bento XVI na Caritas in Veritate: “absolutizar ideologicamente o progresso técnico é um modo de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade”.
Esta primeira Encíclica de Francisco prova à saciedade que o valor da Natureza não pode ser meramente instrumental ou um simples reservatório de recursos, coisificado pela apropriação e transformação do mundo natural. Daí, desde logo, a afirmação do princípio preventivo reaprendendo a naturalidade que somos, polinizando a autoridade do exemplo, investindo na “educação para a aliança entre a humanidade e o ambiente” e aprofundando a ética do cuidar, num tempo em que as leis do mercado têm prevalecido inexoravelmente sobre as leis da natureza.
Sou crente e nesse contexto acredito na Natureza reconhecendo o resultado bom e maravilhoso da intervenção criadora de Deus, como seu desígnio de amor e de verdade.
Mas há quem entenda que o cristianismo assume apenas uma visão antropocêntrica. Certamente numa exegese bíblica das primeiras palavras do livro de Génesis: “Façamos o Homem à nossa imagem para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do Céu, sobre os animais domésticos” (Gn 1, 26) e “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra” (Gn 1,28).
Mas também lá está dito que “O Senhor levou o Homem e colocou-o no jardim de Éden para o cultivar e também para o guardar. O Criador entrega ao homem, coroação de todo o processo criador, o cultivo da terra” (Gn 2,15).  Esta interpelação vem em muitas passagens bíblicas e é sublinhada na Aliança entre Deus e Noé. (Gn 9,17).
Significativamente curioso é o parentesco linguístico do hebraico adam (homem) e adamah (terra), tal como entre humano e o seu étimo (húmus) que é terra.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Só se pode negociar com tiranias de esquerda

Alexandre Homem Cristo
Observador 27/7/2015

É mau quando os princípios ficam na dependência de interesses económicos. Mas é tão mau como quando ficam sujeitos a lirismo revolucionário. Ver o primeiro é importante. Não ver o segundo é hipocrisia
Não é segredo para ninguém que o regime angolano vive emprenhado em corrupção, que persegue e reprime os seus opositores, e que asfixia a economia com um apertado controlo estatal. Nem que, nos últimos meses, essa repressão se intensificou, com uma série de prisões políticas. Por isso, um grupo de intelectuais e académicos redigiu uma carta aberta (publicada em vários jornais europeus) pedindo a investidores e governantes que, nas suas relações com Angola, vejam para além dos interesses económicos e coloquem os princípios à frente. Percebo e simpatizo com a iniciativa, embora discorde da ideia de que os estados democráticos não devem negociar com estados autocráticos ou tiranias – mas isso é tema para um outro artigo. O que não percebo e não me causa simpatia é que estas cartas abertas e indignações bem-intencionadas só surjam em relação a certas tiranias, havendo outras que, sendo igualmente inimigas das liberdades mais básicas, recolhem compreensão e aplauso entre as elites.
Veja-se o caso da Rússia. O regime de Putin está inundado em corrupção, oprime todo o tipo de manifestação de oposição política, prende críticos do regime (quando não têm o azar de, por coincidência, encontrarem a morte numa viela), e persegue os homossexuais. No entanto, quando Tsipras foi a Moscovo reforçar laços políticos com Putin (uma espécie de vassalagem) e chantagear a União Europeia (que, apesar dos seus defeitos, é um dos maiores garantes de paz e liberdade no mundo), não houve cartas abertas de intelectuais indignados. Mas houve aplausos.
Ou, então, veja-se o caso da Venezuela. Tal como Chávez, Maduro alimenta-se da corrupção, intimida populações nos momentos de escrutínio eleitoral (Chávez chegou a ameaçar com tanques nas ruas), impõe controlo social por via da violência, viola direitos humanos e condena a sua população à escassez de bens de primeira necessidade. E enquanto tudo isso acontece, o regime venezuelano é ainda um financiador, em Espanha, do Podemos de Pablo Iglesias e, na Grécia, do Syriza de Tsipras, recebendo louvas pela sua luta contra o capitalismo. Também aqui, não há cartas abertas de intelectuais indignados. Só aplausos.
Poderia prosseguir na enumeração de exemplos, que infelizmente não faltam, mas julgo que o ponto ficou perceptível. Note-se que não quero diminuir a iniciativa dos académicos que pretendem a libertação dos presos políticos em Angola, nem a crítica do meu artigo lhes é dirigida. Aliás, junto-me a eles no apelo a que a comunidade internacional condene todo o tipo de repressão política. Mas isso não é sinónimo de dar força a ilusões. “Eticamente condenável” e “politicamente perigoso” não é somente fechar os olhos à tirania de um país, mas sobretudo a opção habitual de só ver tiranias onde convém, como fazem muitos dos jornais e intelectuais que, pela Europa, publicaram ou partilharam esta carta aberta contra Angola. De facto, se as relações internacionais fossem geridas em função deste tipo de indignações colectivas, teríamos de incluir uma nova regra nos manuais da disciplina: as relações externas com tiranias só são legítimas se estas forem de esquerda.
É caricato e tem o seu quê de trágico. A partir do momento em que a nossa indignação para com inimigos da liberdade é selectiva e está sujeita a critérios de conveniência política e ideológica, já não são os direitos humanos que nos movem. É mau quando os princípios ficam na dependência de interesses económicos? Sem dúvida. Mas é tão mau como quando esses mesmos princípios ficam sujeitos ao lirismo revolucionário. Ver o primeiro é importante. Não ver o segundo será sempre uma hipocrisia.

Frase do dia

...os homens casados, os pais de família, esses grandes aventureiros do mundo moderno.
Charles Péguy


A ilusão do radicalismo

JOÃO CARLOS ESPADA Público 27/07/2015

A radicalização da esquerda não será apenas prejudicial para si própria. Será prejudicial para todos.

Agora que a crise grega obteve um interregno e agora que o interregno de Agosto se aproxima, os analistas especulam sobre as marés políticas que nos esperam no Outono. O tom geral não é propriamente optimista.
No sábado, um longo artigo no Telegraph de Londres previa uma “vasta reacção esquerdista na Europa contra a humilhação de Atenas.” As eleições em Portugal, Espanha e Irlanda são citadas como próximos testes às tendências europeias. Mas o artigo deixa correctamente em aberto o efectivo alcance dessa previsível “vasta reacção esquerdista na Europa”.
Esse é o ponto que merece ser enfatizado. Parece estar a ocorrer uma radicalização do discurso da esquerda em vários países europeus. Mas resta saber qual é o alcance dessa radicalização: irão os eleitores acompanhá-la? Ou vão os radicais obter uma supresa semelhante à que o Partido Trabalhista britânico enfrentou nas eleições de Maio passado — quando os Conservadores obtiveram uma confortável vitória, que lhes era peremptoriamente  negada pelas sondagens?
O caso britânico continua aliás a ser sugestivo. Após a derrota de Maio, era de esperar uma recentragem dos trabalhistas. Mas a tendência parece ser a oposta. A corrida para a liderança do Partido Trabalhista está agora a ser liderada por um tal Jeremy Corbyn. Trata-se de um socialista da velha guarda colectivista que ataca o mercado e as multinacionais, promete re-nacionalizar sectores estratégicos, exige desnuclearizar o Reino Unido e faz de Israel o seu principal inimigo externo.
Uma declaração oficial do Syriza grego já anunciou ao mundo que Corbyn era a melhor esperança do Reino Unido e da Europa. Em contrapartida, Tony Blair já veio a público denunciar o esquerdismo do sr. Corbyn. E não esteve com meias-palavras. Aos que dizem ter o coração com Corbyn, Blair simplesmente aconselhou… “um transplante”. 
Mas Tony Blair — que simplesmente conseguiu três vitórias consecutivas para o Partido Trabalhista, depois das três vitórias consecutivas da Sra. Thatcher —  parece ser agora o principal inimigo do seu próprio partido. Este parece agora preferir o sr. Corbyn.
O fenómeno está a gerar grande felicidade entre os conservadores. George Osborne, o Ministro das Finanças, já escreve artigos no Guardian, argumentando que os verdadeiros progressistas devem apoiar as reformas propostas pelo Governo conservador. Ao mesmo tempo, líderes trabalhistas moderados multiplicam alertas públicos contra o erro fatal (para os trabalhistas) da opção Corbyn.
O que estes desenvolvimentos revelam é relativamente simples, embora seja muitas vezes ignorado e frequentemente negado: os partidos políticos não são donos do eleitorado, nem mesmo do seu próprio eleitorado tradicional. E isso significa, entre outras coisas, que uma tendência de evolução na opinião interna de um partido pode não ter correspondência com a evolução da opinião maioritária entre o eleitorado. Esse foi certamente o caso das eleições de Maio no Reino Unido — quando o eleitor comum surpreendeu o vanguardismo dominante nos partidos da esquerda e na própria opinião publicada (que deve ser distinguida da opinião pública).
Tudo isto pode ajudar a reflectir sobre a previsão do Telegraph de Londres sobre uma “vasta reacção esquerdista na Europa contra a humilhação de Atenas.” Que essa reacção está a ocorrer em vários partidos de esquerda na Europa é indesmentível. Que ela também se manifesta em muitos analistas nos jornais e televisões parece igualmente ser um facto. Mas será essa reacção acompanhada pelo eleitorado?
Pessoalmente, tenho sérias dúvidas. Nada no comportamento do Syriza inspira confiança. Há uma sucessão de ziguezagues que deixa perplexo o senso comum. A própria expressão “humilhação de Atenas” é ambígua. Refere-se ela às condições impostas pelos credores a Atenas, ou à negação do resultado do referendo pelo próprio Syriza?
Julgo, por isso, que Tony Blair tem razão — e não só no caso britânico. A radicalização do discurso dos partidos à esquerda opera em circuito fechado. O eleitorado central não tem qualquer motivo sensato para acompanhar esse radicalismo.
Mas essa radicalização da esquerda não será apenas prejudicial para si própria. Será prejudicial para todos. Vai empobrecer o debate político global. A direita deixará de ter um estímulo para ultrapassar o mero discurso da estabilidade e da continuidade. E, embora estas sejam certamente preferíveis ao radicalismo aventureiro, dificilmente constituem uma política inspiradora.

domingo, 26 de julho de 2015

Costa e castigo

Alberto Gonçalves, DN 2015.07.26

Não era difícil prever o desastre que é António Costa. Os primeiros indícios chegaram com o culto da "inteligência" caseira, que se destaca pela portentosa falta da dita e atabalhoadamente tentou converter um amorfo funcionário do PS no D. Sebastião de 2014. Os sinais acentuaram-se durante o combate contra Seguro, raro momento em que, por comparação, este se assemelhou a um estadista promissor ou, vá lá, a um ser vivo. Chegado à liderança do partido, o dr. Costa continuou a provar com espantosa frequência que a inabilidade na gestão de uma autarquia não basta para governar um país. Não era difícil prever o desastre: difícil era adivinhar a respectiva dimensão.
Comentadores magnânimos atribuem o fiasco a factores externos, da prisão de Sócrates ao advento do Syriza. Na sua generosidade, esquecem-se de acrescentar que, sozinha, a brutal inépcia do dr. Costa, que possui a firmeza da esparguete cozida, transformou cada eventual obstáculo numa cordilheira inultrapassável.
Sobre Sócrates, o dr. Costa começou tipicamente por avaliar mal o "sentimento" popular e defender com tremeliques de orgulho as proezas do preso 44 enquanto primeiro-ministro. Uma bela manhã até desceu a Évora. Meses depois, numa exibição de objectividade sem precedentes, o dr. Costa criticou um governo de que ele próprio fez parte e jurou, sem jurar, não repetir a excursão alentejana.
Sobre o Syriza, o dr. Costa já disse tudo e o seu oposto, de acordo com o que tomou pelo clima do momento. Qualquer hipotético avanço dos maluquinhos que fingem mandar na Grécia tinha o dr. Costa, dez minutos decorridos, a erguê-los ao estatuto de farol da Europa. Em vinte minutos, os avanços recuavam estrategicamente e a apreciação do dr. Costa também: uma ocasião, apelidou o Syriza de "tonto". Mas isso foi antes do referendo, em que o Syriza voltou a ser sublime. E o referendo foi antes do acordo, em que o glamour do Syriza regressou a níveis da peste bubónica.
Nos intervalos dos Grandes Temas, o dr. Costa desdobrou-se a opinar acerca de temas minúsculos, naquele português de causar inveja a Jorge Jesus e sempre no lado errado do discernimento: o "investimento" público (promete muito), a austeridade (é uma péssima opção), a autonomia dos autarcas (quer reforçá-la), a "lusofonia" (acha-a linda). Nos intervalos dos intervalos, passeou o currículo democrático e arranjou uma guerra interna com as "bases" do PS, que consultaram as sondagens e desataram a questionar a infalibilidade do chefe. As cambalhotas em volta dos (inacreditáveis) candidatos presidenciais não ajudaram. Nem os abraços aos socialistas franceses que, afinal, conspiram para varrer Portugal do euro. Nem nada.
Resta apurar se a tendência para a calamidade é involuntária ou propositada. A verdade é que o dr. Costa conseguiu, em pouco tempo, renovar as esperanças eleitorais da coligação no poder. Um tiro no pé do Governo é invariavelmente seguido por uma explosão auto-infligida no porta-aviões do PS. Se o PS perder as eleições, o mérito será inteirinho do dr. Costa. Se ganhar, é Portugal que não merece melhor. E pior parece impossível.

Deus não vai de férias

D. Nuno Brás
Voz da Verdade, 2015.07.26

A tecnologia, fruto do progresso científico que o mundo ocidental colocou ao nosso dispor, dá-nos, não raras vezes, a sensação de que somos omnipotentes, invencíveis e dominadores de tudo. Projetamos a nossa vida e queremos a todo o custo que tudo se cumpra de acordo com as nossas previsões. E que os outros sigam a nossa norma – que tenham os mesmos gostos, que sejam do mesmo clube desportivo, que estejam ao nosso dispor quando deles precisamos.
Mas essa ilusão de omnipotência de que tanto gostamos tem diariamente vários sinais de que não passa de uma simples ilusão por cada um construída.
Um desses sinais é a necessidade de repouso diário. Não existe ninguém que não tenha que descansar, que dormir. Podemos, na força da vida, “fazer uma direta”, como gostam de dizer os estudantes em tempos de exames, passando uma noite sem dormir e continuar, dia adiante, no trabalho que temos pela frente. Mas logo depois o sono tem que ser minimamente compensado. Nessas horas em que dormimos ficamos vulneráveis, sem consciência, à mercê do mundo exterior.
A necessidade de repousar recorda-nos em cada dia que passa que não passamos de seres humanos, que não somos pequenos deuses.
E isso mesmo nos deveriam recordar também as férias – ou, pelo menos, aquele período do ano em que aligeiramos as nossas tarefas do quotidiano e procuramos fazer aquilo de que mais gostamos, sem horários rígidos para cumprir.
Muitas vezes, com as férias vem, ao contrário, o esquecimento de Deus. Com a desculpa de que não conhecemos os horários das Missas, salta a Eucaristia dominical; e esquecemos o tempo de oração; e esquecemos que somos cristãos, “discípulos missionários”.
Graças a Deus, Ele não vai de férias. Continua a querer-nos, a amar-nos, a procurar um momento de encontro connosco.

Almoço com Isabel de Herédia

Nuno Saraiva
DN 2015.0725
"O espírito monárquico e a religião têm de ser dados aos filhos a conta gotas, porque se não ficam ateus e republicanos"

À chegada ao segundo andar do prédio onde vivem os duques de Bragança, a porta abre-se. Eu, republicano empedernido e preconceituoso, convenci-me de que ia ser recebido por um mordomo daqueles à antiga com suíças até ao queixo ou por uma empregada impecavelmente vestida e engomada. Estupefacto, dou de caras com Duarte Pio e Isabel de Herédia a fazerem o acolhimento. "Entre, entre", dizem-me com uma naturalidade e uma descontração familiares.
Cheguei preparado para um chá com a mulher casada há 20 anos com o pretendente ao trono português. Mas está calor, muito calor. Quase que convocamos a ironia do Eça para dizer que "está de ananases". As janelas da sala cheia de fotografias dos infantes estão abertas para que o ar circule. Dispo o casaco e alivio o nó da gravata. O duque de Bragança, que está de saída, pendura-mo no bengaleiro de chão arrumado a um canto do hall de entrada. "O que é que quer beber? Uma cerveja, um sumo..." Ainda estou pasmo. São eles que fazem tudo. Fico-me pela água fresca que há de ajudar-me, ao longo da conversa, a engolir as fantasias, porventura injustas, que fui construindo ao longo da vida sobre estas pessoas. É a duquesa, dona de uma discrição impressionante, quem vai à cozinha buscar o jarro e serve os copos.
Sentamo-nos, frente a frente, vigiados pelo olhar de Jesus Cristo pregado na cruz gigante que domina a sala de estar. Licenciada em Gestão e especializada em Finanças na Universidade Getúlio Vargas, em São Paulo, trabalhou na empresa do amigo António Bustorff como gestora de fortunas e património até 1995. Depois do casamento com Duarte Pio, desistiu da carreira. "Abdiquei a nível financeiro. Ainda acompanhei os mercados durante um tempo, e de vez em quando ainda acompanho, mas mudei de ramo. Ainda tentei continuar a trabalhar, mas como tinha de passar muito tempo fora a acompanhar o meu marido - na altura ainda não tinha as crianças - comecei a achar que não era justo estar lá e acabei por sair." Dedica-se, até hoje, à gestão dos imóveis da família, herança deixada ao marido pela última rainha de Portugal. "Faço a gestão deste património, que a rainha D. Amélia deixou diretamente ao meu marido. Foram os únicos prédios com que Salazar, quando fez a Fundação Casa de Bragança, não pôde ficar. Esses prédios têm vindo a ser restaurados. Tínhamos uma inquilina, até há pouco tempo, que tinha feito o contrato de arrendamento com a rainha D. Amélia. Por isso imagine a renda que ela pagava. Gostávamos imenso dela, era uma querida, mas a renda era realmente muito baixa. E, ao longo deste anos, o esforço foi tentar recuperar os apartamentos, os prédios, aumentar as rendas e fazer que as casas fossem autossuficientes."
O duque de Bragança diz, por graça, que Isabel é "a ministra das Finanças" da família. A duquesa sorri e confirma que tem queda para a tirania financeira. "Normalmente, quando vamos às compras, o meu marido gosta de ser mais gastador e eu sou mais mão de vaca, sou mais forreta. Temos de ter atenção. Quando estamos em funções de representação temos de representar bem quem somos e o país a que pertencemos. Mas depois, no dia-a-dia, somos pessoas normais e discretas. Não esbanjamos, não precisamos de estar a gastar de mais. Neste momento, não há nenhuma família que não tenha de ter atenção ao orçamento e que não faça contas. Não se pode dar passos maiores do que a perna. E faço questão de não ultrapassar os limites."
Monárquica desde que se conhece, "não me lembro de não ser", Isabel de Herédia não tem dúvidas de que as monarquias são melhores do que as repúblicas. "Por exemplo, se perguntarmos a qualquer pessoa quem é o presidente da Alemanha, ninguém sabe. Se perguntarmos quem é o rei de Espanha, de Inglaterra, da Holanda ou do Luxemburgo, quase toda a gente sabe. Depois começamos a aprofundar mais, e indagamos quais são as economias mais desenvolvidas, onde é que as liberdades são mais respeitadas, etc. É nas monarquias." A pergunta é óbvia mas inevitável. Acredita mesmo que um dia vai ser rainha de Portugal? "Há uma certa barreira, sobretudo da parte política. Às vezes pergunto-me: vivemos numa democracia, defendemos a democracia, toda a gente acha e sabemos que os países mais desenvolvidos da Europa são os que têm monarquia. Mas depois, na nossa democracia que é tão boa, há um artigo na Constituição que proíbe o referendo e que as pessoas se pronunciem sobre o modelo de governo. Acho que é um bocadinho hipócrita. Às vezes irrita-me um bocadinho esta coisa: se vivemos num país democrático, porque é que não deixam o povo escolher? Agora, não penso se vou ser rainha ou não vou. De certa maneira já me sinto, mas digo sempre que Nossa Senhora é que é a rainha de Portugal e por isso sinto--me muito mais à vontade. Mas, de certa maneira, quando estou lá fora a representar Portugal, ou cá dentro, quando estamos a educar os nossos filhos, o espírito de serviço, nós temos uma posição oficiosa. As pessoas, quando vou na rua, perguntam como é que estão os nossos meninos. Isto é, não são meus são de todos. Tenho essa noção de que a minha família é de todos. Há uns que gostam mais, outros que gostam menos, e há uns que não ligam nenhuma. Mas também sei que há muitos que nos consideram família deles."
O filho mais velho, Afonso de Santa Maria, tem 19 anos. Porque o pai, Duarte Pio, já fez 70, há de assumir um dia a função de pretendente ao trono. "Isso, às vezes, pesa-lhe um bocadinho", reconhece. E a dúvida que me assalta é a de saber como é que se educa alguém para uma coisa que, constitucionalmente, não existe. "É uma responsabilidade. Para qualquer pai é difícil. No fundo, o que queremos sempre é que os nossos filhos sejam felizes, sejam confiantes, desenvolvam as suas capacidades e que sigam a sua vocação. O espírito monárquico e de serviço monárquico e a religião têm de ser dados a conta gotas, porque se não ficam ateus e republicanos risos). Se os começarmos a obrigar a ir a tudo eles reagem e dizem "eu não quero isto para nada". Mas eles, desde pequenos, têm vindo a acompanhar-nos, quer cá dentro quer lá fora. E, de facto, a nossa maior preocupação é que eles tenham confiança e se sintam felizes, que tenham este amor a Portugal que nós os dois temos, e que tenham esta noção histórica daquilo que representam. E eles sabem, porque nós dizemos sempre, mesmo que vocês não venham a ser chamados, vocês são quem são. E isso tem uma responsabilidade."
Habituada ao convívio com cabeças coroadas e outras sem trono, não esconde admiração pela rainha de Inglaterra, Isabel II, pelos monarcas espanhóis Juan Carlos e Sofia, pela rainha Beatriz da Holanda ou pelo rei Balduíno da Bélgica, que morreu em 1993. Mas é com Semeão da Bulgária, o rei deposto pelos comunistas e forçado a 50 anos de exílio, que tem mais empatia.
Apesar dos títulos nobiliárquicos, Isabel de Herédia é mulher informal. Gosta de coisas simples e mundanas. De caminhadas manhã cedo, de ir à praia e nadar no mar ou de montar a cavalo, o que não faz há muito tempo, porque "me dá paz de espírito". É apaixonada por livros. O que mais a marcou foi O Perfume, de Patrick Suskind, porque "os cheiros estavam lá todos". Devora romances históricos, aprecia António Lobo Antunes ou Agustina. "Quando era mais nova, tive uma fase em que adorava o Camilo Castelo Branco. E até é engraçado que ainda agora o meu filho fez um trabalho que era uma comparação entre o Shakespeare e o Camilo Castelo Branco." Sempre que pode vai ao cinema, mas também fica em frente à televisão agarrada a uma boa série. "A Maria José Nogueira Pinto aconselhou-me uma vez a ver o Prision Break. Era fantástico." De ter amigos em casa e fazer jantares. "Não sou uma supercozinheira, mas as poucas coisas que faço, acho que faço bem." E até de contar anedotas. Sim, porque é pessoa como as outras, garante. "Quando fiz o curso de Defesa Nacional, algumas das pessoas que lá estavam olhavam para mim e tive aquela sensação de que "o que é que esta está aqui a fazer?". Para muitos, se calhar, estou sentada à espera de ir para um jantar, ou para uma festa, ou outra coisa qualquer, e não faço mais nada. Tomara muitas vezes poder dormir. Mas não me custa, que sou uma pessoa que acordo muito cedo. Mas somos normalíssimos, depois temos é mais este trabalho."
Os dias começam cedo, às vezes antes do nascer do Sol, pelas seis da manhã. "Os meus e-mails seguem, normalmente, a essa hora. Está tudo a dormir e é quando consigo ter tempo para ler o correio ou para ver as notícias. Depois, sempre que posso, gosto de ir andar. Leio e ponho uma série de coisas que estão atrasadas em dia. Até há pouco tempo, fazia questão de ir levar os meus filhos ao colégio, que é quando conversamos um bocado e rezamos o terço. Depois vou para o escritório, que é por baixo de casa. Na hora do almoço, se não tenho nada marcado, vou para a ginástica, que é outra coisa de que eu preciso. E depois, se possível, gosto de poder estar em casa a partir das quatro ou cinco horas da tarde, que é quando eles chegam e às vezes é preciso alguma coisa."
Ser rainha sem coroa tem, apesar de tudo, algumas vantagens. "Por um lado dá mais trabalho no sentido em que temos as responsabilidades e os deveres todos, mas não temos staff nenhum que nos ajude em coisas que nos facilitavam a vida. Por outro, tenho muito mais liberdade para dizer e fazer o que quero, enquanto as rainhas não podem tomar certas atitudes que eu posso. Se fosse rainha de facto, se calhar não podia guiar sozinha quando quero e para onde quero. Provavelmente tinha de ter guarda--costas. E teria, seguramente, menos liberdade. É claro que há coisas em que tomo cuidado porque o que dizemos tem consequências. Quer dizer, nem sei se tomo muito cuidado. Não sou uma pessoa que dê escândalos, para infelicidade de muita gente" risos.
Isabel de Herédia é conservadora e mulher de fé. "Acredito que Nosso Senhor vai-me guiando." Patrocina várias associações de solidariedade social de apoio a crianças e doentes. E preside à Real Ordem de Santa Isabel, de que fazia parte Maria de Jesus Barroso e conta também com Manuela Eanes. "Somos cem senhoras portuguesas. E depois há também extranumerárias, como era a rainha Fabíola. A vocação é rezar pela união das famílias. A família é a coisa mais importante que temos e que hoje é muito atacada por diversas frentes. E um país para ir bem tem de ter famílias de bem. Mas, além disso, todos os anos damos dinheiro. Procuramos pelo país onde é que é mais preciso e cada ano damos a uma instituição diferente. Não temos assim tanto como isso, mas este ano vamos dar à Casa do Gaiato."
Atenta à realidade política, não perdoa a ruína a que foram votados os setores produtivos nacionais após a adesão à CEE. "Agora vêm-nos dizer que a agricultura e as pescas são muito importantes, mas naquela altura não queriam saber disso para nada. Uma das coisas que me fazem imensa impressão, e aí também é a diferença que eu aponto entre um rei e um presidente, é que um rei pensa a 100 anos para a frente. E um presidente, pensa em quantos anos? Não quer dizer que não haja bons presidentes, mas quer dizer, pensa muito mais no curto prazo. Agora, independentemente de monarquia ou república, nesta altura temos é de nos unir todos para que o país sobreviva, vá para a frente e tenha pelo menos mais mil anos. Mas devia haver um grupo estratégico que pensasse em 50 ou 100 anos para a frente."
É tempo de despedidas. São quase horas de jantar. Já de pé, pergunto se a família é rica. "Para mim ser rico é uma pessoa ter interesses e não se acomodar. No plano económico, temos a sorte de fazer bem as contas. Se nós queremos e temos de representar Portugal, claro que às vezes dava jeito ter um bocadinho mais de dinheiro. Mas não estamos mal. Não somos ricos, mas também não estamos desesperados."
Ao longo da conversa repetiu, várias vezes, que "o Duarte era o meu melhor amigo" e que "nem eu sabia que ia casar-me com ele". Não resisti, por isso, a perguntar se tem memória do momento em que se apaixonou: "Foi quando uma prima do meu marido, de quem eu gostava muito e que é muito nossa amiga, se começou a interessar por ele e eu fiquei furiosa. Foi aí que percebi que ali havia mais qualquer coisa e que não era só uma grande amizade." E também nesta história, de rainhas sem coroa que são pessoas como as outras, apesar "dos altos e baixos como em todos os casamentos", são felizes para sempre.